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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NOVA EVOCAÇÃO HISTÓRICA DE SÁ DE MIRANDA

 

Vale a pena fazer nova referência a Sá de Miranda, que, como já vimos, neste ano de 2021 consagra diversas ocorrências relacionadas com a própria cronologia histórica do teatro português. E isto sobretudo porque, como já referido, estava algo esquecido no contexto da história do espetáculo.


O certo é que como já vimos, a Sá de Miranda se devem iniciativas que sucessivamente justificarão estas breves análises evocativas: pois, nascido em 28 de agosto de 1481, há portanto exato 540 anos, o certo é que a sua criação e contribuição para a história e estética do teatro português, expressa, como já vimos, em pouca criação, marcou uma perspetiva renovadora que ainda hoje se mantém.


São poucas as peças escritas por Sá de Miranda: e no entanto, a criatividade e qualidade dos textos, então extremamente modernos e hoje e sempre atuais na qualidade e representatividade, marcaram a própria evolução estética do teatro português.


De qualquer maneira, e como já vimos, o que até nós chegou foram apenas duas peças, “Estrangeiros” (1528) e “Vilhalpandos” (1538), além de um esboço em verso, denominado “Cleópatra”, que não chegou até nós de forma potencialmente cenográfica ou mesmo literária.


Em 1521, portanto há exatos 500 anos, Sá de Miranda parte para Itália onde permanece até 1526. Em Itália convive com autores então e ainda hoje muito marcantes na renovação do teatro:


Ariosto, Bembo, Andalette ou Sammazzaro, na época e alguns ainda hoje relevantes na cultura e na técnica teatral. 


As peças são sobretudo evocadas na relevância puramente literária: mas as que chegam ainda hoje aos palcos mostram um sentido de espetáculo que em si mesmo é e será sempre relevante. E a esse respeito vale a pena citar algumas passagens do prólogo dos “Estrangeiros”, hoje de certo modo uma peça esquecida mas sempre, insistimos, relevante. 


Diz então aí Sá de Miranda, remetendo para uma personagem simbólica:


“Sou então uma pobre velha estrangeira, o meu nome é comédia (…) eu não nasci em Grécia e lá me foi posto o nome por outras razões que não pertencem a esta vossa língua. Aí vivi muitos anos (…) Passaram-me depois a Roma, pera onde então, por mandado da fortuna, corria tudo. (…)  cheguei a tanto que não me faleceu um nada de deusa; depois a grandeza daquele Império, que parecia para nunca mais acabar, todavia acabou. E assim como a sua queda foi grande, assim levou tudo consigo, ali me perdi eu com muitas das boas artes, e aí houvemos longo tempo como enterradas, que já quase não havia memória de nós, até que alguns vizinhos, que duns nos outros ficara alguma lembrança cavaram tanto que nos tornaram à vida, maltratadas porem e pouco para ver”…


Faremos ainda uma nova referência histórica a partir da minha “História do Teatro Português”.


Aí se diz que os dramaturgos designadamente António Prestes ou Luís de Camões, este, note-se bem, apenas como dramaturgo, se surgem numa perspetiva renovada, já marcada pelo Renascimento, isso em parte se deve ao mérito esforçado de Sá de Miranda, sobretudo de Vilhalpandos. A maior dinâmica cénica desta comédia torna-a eventualmente mais acessível ao espetador de hoje…


E acrescento ainda outra citação:


“A Comédia, tão estimada nos tempos antigos que aí disseram aqueles grandes engenhos que era, senão uma pintura da vida comum? À dos Príncipes se repartiu a tragédia”! (cit. Na “História do Teatro Português” de José Oliveira Barata).


Neste contexto, novamente evocamos este autor!

 

DUARTE IVO CRUZ

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

28. OPÇÃO ATLÂNTICA E EUROPEIA (III)


Quanto à adesão à Comunidade Europeia, Portugal teve de optar pela democracia, anuência que lhe foi retardada para que pudesse entrar juntamente com Espanha, o que prova que do lado marítimo Portugal tem prioridade, havendo países que têm como do seu interesse a preservação da individualidade portuguesa, sendo Espanha vista como um país essencialmente continental, mais próximo da Europa.     


É nesta perspetiva que melhor se compreende a oposição de muitos a que Madrid se torne o centro radial da Península Ibérica.   


Eis algumas palavras de Henrique Neto, em artigo de opinião: 


“Quanto ao TGV, basta olhar para o traçado imposto por Espanha (…), para compreender a estratégia espanhola: criar uma radial napoleónica, que faça de Madrid o centro da Península Ibérica, ligando esta capital às cidades provinciais de Barcelona, Sevilha, Bilbau, Lisboa, Porto e, como vamos ver no futuro, à Corunha.  Que estratégia mais clara poderá ser desenhada do que ligar Lisboa a Madrid, antes de ligar Lisboa ao Porto, ou fazer com que o caminho-de-ferro de Lisboa para a Europa nos leve a Badajoz, a Cáceres, a Madrid, a Tarragona e a Barcelona - um autêntico passeio ibérico - antes de entrar em França pelo Sul? Os nossos antepassados, que nos ligaram por comboio diretamente a Paris, sem passar por Madrid, devem dar voltas no túmulo, ao mesmo tempo que os turistas do Norte da Europa não deixarão de considerar castiça a ideia de os fazer passar pela Costa Azul e pela Costa Brava, na sua problemática viagem para Lisboa.     


A estratégia correta passaria por dar prioridade absoluta ao TGV em território nacional, ligando a Corunha a Sevilha, ao longo da costa portuguesa e ao aeroporto da Ota. Esta estratégia corresponde ao objetivo de valorizar (…) a maior concentração humana da Península Ibérica e tornar Lisboa o centro natural desse espaço, que tem o mar e a dimensão atlântica com a sua vantagem competitiva”.   


Acrescenta-se que a saída por San Sebastian ainda vai demorar duas décadas, se realizável, acentuando Madrid a sua força centrípta na Península, obrigando todas as regiões de Espanha e Portugal a prestar-lhe vassalagem.   


Daí que, como alternativa à cada vez maior dependência dos corredores rodoviários e ferroviários de ligação a Espanha e à Europa, se fale no transporte marítimo e aéreo com a mais ampla diversificação de itinerários e dependências, via reconversão e adaptação (marítima) e como rótula de articulação intercontinental aérea com a Europa, nomeadamente via países da América Latina e África, caso dos mercados brasileiro, venezuelano e PALOP.


Todavia, a propósito de Portugal e Espanha, Boaventura Sousa Santos, depois de ter Portugal como uma sociedade periférica e não ser previsível que num futuro próximo seja promovido ao centro do sistema ou despromovido para a sua periferia, tendo como mais provável que a sua posição intermédia se consolide em novas bases, fala em que o “federalismo ibérico” está em curso, não por via de renascidas crenças em hispanidades míticas, decorrendo, sobretudo, da atuação das grandes multinacionais, ao estabelecerem as suas sedes em Madrid ou Barcelona tomando como um todo e unidade de ação a Península Ibérica, pelo que, na sua ótica, os sinais de despromoção são mais fortes que os de promoção.   


Para outros, como Loureiro dos Santos, numa Europa das regiões extensiva à Península Ibérica, as condições são-nos mais favoráveis que a Madrid, pois enquanto este tenderá a perder poder político por força da artificialidade de tal centro, surgido apenas por motivos político-estratégicos, pois os grandes centros periféricos, onde a Península produz riqueza, tendem a ser polos de competição; nós poderemos aumentá-lo em face dessa fragmentação, com a vantagem de sermos um país coeso, de forte unidade e identidade nacional, atraído pelo mar e a mais populosa região ibérica.


Resta sempre uma vontade elucidada e firme que nos tem defendido, mesmo que se tenha como adversa e perigosa, em termos ibéricos, uma só fronteira e a nossa posição geográfica.  
     

22.10.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Sois vós entre as mulheres.jpg

 

  Sois vós entre as mulheres

 

Olhe, minha senhora, e depois ele costuma bater-me, aquela coisa de casamentos, não é? Mas só quando está com a pinguita, eu até lhe desculpo, porque é o vinho que fala por ele, no bater.

O meu homem até é homem respeitador, às vezes, vai buscar-me à missa de domingo e tudo, mas, já lá vão três dias e ele parecia-me sem pinga e disse-lhe para vir jantar. Nós comemos sempre junto ao lume no chão da cozinha, casa de pobres, sabe como é? Ele até olhou de lado para a minha barriga, claro, orgulhoso, pois a cria está quase a nascer e de repente agarrou no tacho de ferro da sopa e atirou-ma à barriga. Eu gritei, gritei muito e a minha vizinha ajudou-me com um táxi para o hospital e olhe como tenho a pele toda amarfanhada e solta porque a roupa se lhe pegou. Mas sabe, minha senhora, ele julgava que por cima da roupa não queimava, era mais ou menos uma brincadeira tola e mais nada, que eu até carrego o filho dele. Eu até já pedi a Deus que o não castigue. Isto foi dele ser burro e magoar sem querer. Ele nem me deixa nem nada, pois o coitado não sabe o que seria de mim sem ele, e teme-se. É assim, minha senhora, rezo sempre: Pai Nosso seja feita a vossa vontade aqui na terra e um dia no céu. E cá ando, ponho esta pomadita e uso a fralda do meu mais velho em jeito de penso. Isto vai-me passar, sou mulher de força e, às vezes, muito poucos me entendem, percebe a senhora? E até me olham com estranheza. Mas que isto é amor é, e também resignação como me cabe, é sim senhora. E tenho cortinas na minha casa, tenho sim senhora, lavadinhas e penduradas, é chita, mas da linda, da linda mesmo.

E começou a chorar com a cabeça entre as mãos enquanto dizia:

- ó, minha senhora, às vacas nada lhes falta, nem às galinhas, nem às ovelhas, nem aos coelhos, nem aos campos que neles dou de manhã à noite, e faço o pão e faço tudo porque o pobre é na pinga que se mata, e o que é dele sem mim?

Coitado, está tão arrependido do que me fez agora que dorme na furgoneta que nem portas tem e lá está arrependido e ora veja a senhora, como é que sem a pinga ele se aquecia de noite, naquele arrependimento todo na furgoneta, o pobre?

Sabe, minha senhora, eu tenho um medo de que esta doença que anda aí se lhe pegue que nem sei. Dizem que se fica sem forças. Ora se é assim como pode um dia ajudar-me? Até pode querer, mas…até dizem que pode fazer mal à cabeça. Então o que será de mim se se esquece que só de mim gosta e claro dos filhos que para ele me faz em mim?

E ele anda preocupado, tolhido mesmo, e daí a pinga, pois eu perdi gémeos no ano que passou e é como ele diz, assim só com dois, se este que aqui trago correr bem…, a ajuda do Estado é pouquinha e ainda a pinga que não o deixa trabalhar, o pobre…

É assim, pronto! isto parece coiso, mas é a vida. A Senhora é uma santa, escuta e entende, pois, nada diz. Agora vou-me embora. Tenho de ir buscar a foice para cortar o milho e como se me cansa muito este trabalho meio agachada com este peso todo na barriga, se calhar tenho o filho hoje e o homem fica-me mais calmo vendo que o quente da sopa não fez mal à criança. Ele é muito preocupado, é como eu.

Penso tanto o que é uma mulher sozinha com dois filhos faria se ao meu homem lhe chegarem doenças para o torto.

Ah, e até me esquecia do porque é que aqui vim hoje, mas gostava muito que um filho da senhora fosse padrinho do meu que está aqui aos pontapés, morto por nascer.

Então depois diga-me. Eu já disse ao meu homem que sim, para ele não se tolher mais que ele respeita muito a senhora e seu marido e toda a família pois! E já bem basta não haver dinheiro em casa, hoje, e nem para a pinguita.

Obrigada e até depois. Ficam aqui umas perinhas que trouxe das minhas árvores, docinhas como rebuçados para os seus meninos. Desculpe ser pouco, mas é do coração.

Ai, e a senhora viu na televisão aquelas mulheres com o pano pela cabeça? Ai ! ,que horror. Deus nos proteja!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRENTES E ATEUS: A FÉ E A RAZÃO


1. “Ele (Deus) permitiu que trevas densíssimas se abatessem sobre a minha alma e que o pensamento do Céu, que desde o tempo da minha meninice era para mim tão felicitante, se tornasse um objecto de luta e de tormentos. A duração desta provação não se limitou a alguns dias ou semanas. Há já meses que sofro e ainda aguardo pela hora da minha libertação. Quereria poder exprimir o que sinto, mas é impossível. É necessário ter passado pelo túnel escuro, para captar a sua escuridão...


Para tranquilizar o meu coração, pois está cansado por causa das trevas que o envolvem, tento fortalecê-lo com o pensamento de uma vida futura e eterna. Mas então a minha tortura duplica-se. É como se as trevas assumissem a voz dos incrédulos, escarnecessem de mim e me dissessem: ‘Tu sonhas com a luz..., tu crês poder fugir à treva em que desfaleces! Avança! Avança! Alegra-te com a morte, que não te dará o que esperas, mas uma noite ainda mais profunda: a noite do nada!’"


Quem iria supor que estas palavras são da carmelita Therèse Martin (conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus) em 1897, quando tinha apenas vinte e quatro anos, vindo a morrer em Setembro desse ano?


Foi uma irmã de sangue, também ela carmelita, que manteve em segredo o original manuscrito da História de uma Alma, vendendo ao mundo a imagem de uma Santa Teresinha açucarada. Mas, como escreveu o teólogo Hubertus Halbfas, a verdadeira história da alma de Teresa é o destino de uma jovem que dentro dos muros frios do convento não perdeu apenas a saúde, mas também "toda a certeza da fé": "Se ao menos sentíssemos Jesus! Mas não, ele parece estar a milhares de léguas de distância. Estamos sós connosco mesmos.", são palavras de Santa Teresinha. E o teólogo acrescenta que se deve à mesma irmã a impressão de que a santa não viveu "a noite da incredulidade", mas "a noite mística", como a de São João da Cruz, no século XVI. Ora, se este místico passou pelos sofrimentos indescritíveis da "noche oscura", "o seu deserto não foi a perda da fé". Teresa, pelo contrário, apesar do gueto católico em que viveu, "assumiu em si", através dos muros do claustro, "como que por osmose", "o niilismo do século XIX". Quando, em face da morte, a irmã Marie lhe disse que em breve estaria com Jesus e os anjos, respondeu: "Todas essas imagens não me dizem nada. Apenas posso alimentar-me da verdade. Por isso, também nunca pedi visões. Prefiro aguardar pelo depois da morte". Esta resposta não é ateia, mas há aqui algo de novo, conclui o teólogo: "a confissão corajosa da incerteza sobre as coisas últimas", que constitui "a situação religiosa genuina da maior parte das pessoas no século XX" e, digo eu, também do século XXI.


A fé não é, ao contrário do que frequentemente se pensa, ópio e consolação, mas luta e combate no meio das trevas e da dor. No domínio da fé, o perigo não vem do ateísmo que sabe o que isso quer dizer, mas da indiferença.


2. Também o ateísmo é uma crença. Tem-se frequentemente a ideia de que, à partida, o ateu, quando nega a existência de Deus ou quando afirma que, com a morte, acaba tudo, tem do seu lado a razão, ficando o crente sob a suspeita de não-racional, de tal modo que é a ele apenas que compete ter de apresentar razões da sua fé.


As coisas não são assim, de modo nenhum. Por paradoxal que pareça, também o ateu assenta a sua negação da existência de Deus ou da vida depois da morte num acto de fé, melhor, numa crença. "Em qualquer das suas formas, o ateísmo é uma crença e não uma evidência, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo, um 'creio que Deus não existe' e não um 'sei que Deus não existe'".


O crente e o ateu encontram-se exactamente no mesmo plano: o crente não pode demonstrar a existência de Deus nem a vida eternal — aliás um Deus demonstrável não seria Deus, mas um ídolo, que a razão constrói e destrói —, exactamente como o ateu não pode demonstrar que Deus não existe ou que a morte é o termo definitivo da existência da pessoa. No que se refere a Deus ou à vida depois da morte, as posições do crente, do agnóstico ou do ateu assentam na crença.


Evidentemente, sendo humanos e, portanto, seres racionais, todos - o crente, o agnóstico, o ateu - têm de apresentar razões para a sua crença, pois esta, se quiser ser verdadeiramente humana, não pode ser cega. Sublinhe-se, porém, que se trata, para todos, de um acto de fé, certamente com razões, mas sempre de um acto de fé, e não da conclusão de uma demonstração.


Assim, o crente, o agnóstico, o ateu, em vez de se excluírem, devem encontrar-se e enriquecer-se mutuamente num conflito dialógico de razões, e, por paradoxal que pareça, num diálogo sincero e aberto, concluirão que há entre eles muito mais sintonias do que poderiam supor à primeira vista. Quantos crentes, por exemplo, não ficarão surpreendidos ao ler em São Tomás de Aquino que o saber da fé, não podendo ser evidente, convive com a dúvida, a opinião, a suspeita...


Fé religiosa e dúvida não se excluem. Pelo contrário, a fé está sempre acompanhada de perguntas. Estas perguntas humanizam a religião, pois impedem todo o tipo de fundamentalismo, abrem ao diálogo não só com os crentes de outras religiões mas também com os ateus e agnósticos, obrigando a uma reformulação constante das fórmulas doutrinais, que ao mesmo tempo que tentam dizer o Mistério também o ocultam.


Por outro lado, é bem possível que também ateus e agnósticos aceitem que há um Mistério inominável que a todos envolve...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 de outubro de 2021

ANTÓNIO RAMOS ROSA: ESCREVER O SOL

 

No ano em que se celebram sessenta anos da “Poesia – 61”, cadernos publicados em Faro, por Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta, com ilustração de Manuel Baptista, tive o gosto de invocar o facto nos “Anais do Município de Faro”, que acabam de sair, através da publicação de uma carta inédita de Gastão Cruz a Fiama sobre a feitura dessa preciosidade bibliográfica que reúne as cinco plaquetes da “Poesia – 61”, oferecidas há dias generosamente por João Nuno Cruz, filho dos dois protagonistas da carta agora vinda a lume, à Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, no dia de um sol tímido em que lançámos os “Anais”. Foi um momento memorável, com a apresentação de António Branco, antigo Reitor da Universidade do Algarve, no qual sentimos connosco o espírito da poesia e de uma iniciativa cultural pioneira, pela qual os jovens de há sessenta anos, sem criar um movimento, puseram em comum, e por caminhos diferentes, um modo de agitar ideias à semelhança de “Orpheu”, porque a cultura nunca se repete, sempre se renova. O número dos “Anais” insere ainda uma sentida invocação de Lídia Jorge em memória de Maria Aliete Galhoz, com episódios pitorescos, uma deliciosa lembrança da cidade de Faro de antigamente, de Teresa Rita Lopes, ou um testemunho de Carminda Cavaco, ilustre geógrafa, sobre o turismo mediterrânico.


Não é, porém, essencialmente sobre esse número dos “Anais” que trago o tema, mas para lembrar o poeta António Ramos Rosa (1924-2013), há dias recordado no belo documentário “Estou Vivo e Escrevo o Sol” de Diana Andringa, na RTP-2. Graças a sua filha Maria Filipe, foi possível inserir no pórtico dos “Anais” um inédito, que é especialmente tocante, pelo que significa de testemunho de um escritor incansável a falar do ato criador – poeta que tanto inspirou os jovens de “Poesia – 61”. Pode dizer-se que Ramos Rosa exerceu uma forte e serena influência, que vem dos tempos em que foi um dos fundadores da revista “Árvore” (1951-1953), com Luís Amaro e José Terra, ou em que animou os “Cadernos do Meio-Dia” (1958-60), proibidos pela censura. Lia Viegas lembrou, aliás, a serena mas inquebrantável defesa da liberdade e o mal-estar causado por um poeta insubmisso. E Casimiro de Brito, que publicou em 1958 “O Grito Claro”, primeira reunião de poemas em livro, José Manuel Tengarrinha, João Rui de Sousa, José Bento, Egito Gonçalves e Gastão Cruz recordaram o inconformismo do poeta, que deixou as obrigações de manga de alpaca, preferindo gozar o sol, ler, traduzir e dar explicações de francês. Ouvimos, com Luís Lucas, “O funcionário cansado” e lembramos o “Boi da paciência”. Albano Martins recorda “Não posso adiar o amor para outro século”. O inédito agora revelado é datável da primeira metade dos anos noventa, época em que o poeta passava os textos á máquina na sua casa do Campo Pequeno. Ramos Rosa mudou-se depois para a residência Faria Mantero no Restelo, onde continuou sempre a escrever, mas à mão.


O poeta fala-nos da sua oficina e de como funcionavam para ele as mãos ou o martelo e o escopro. O artista distingue-se assim por preferir “a perfeição do imperfeito”, em lugar da “saturação redonda da beleza”. Aproxima-se da vida, como consciência dos limites, como força de compreender aquilo a que não chegamos, não desistindo de nos aproximar. O melhor é ler: “O poema é uma estátua / inacabável / O seu volume aumenta / sob um véu de penumbra / e ao mesmo tempo diminui / porque o poeta trunca / aqui um braço ali um seio / que ele próprio modelou / É que ele prefere / a perfeição do imperfeito / à saturação da redonda beleza / e assim o poema anima-se / com o dinamismo do inacabado / na plenitude do inacessível”.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

de 18 a 24  de outubro de 2021

 

“Que Fizeste do Teu Irmão? – Um Olhar de Fé sobre a pobreza do mundo” de Alfredo Bruto da Costa (Cáritas, Forum Abel Varzim, 2020) constitui um testemunho fundamental do autor sobre o momentoso problema da pobreza.

 

DOCUMENTO PRECIOSO E ORIGINAL
Quando a engª Vera Bruto da Costa me mostrou o texto que o marido deixara incompleto, ao partir, não tive dúvidas em dizer que se tratava de um documento precioso e original, sobre um tema que ocupou intensamente Alfredo Bruto da Costa. É um conjunto indispensável de temas, no qual se unem o rigor da análise e o alerta atualíssimo relativamente a uma situação dramática da pobreza na atualidade. Seguindo passo a passo o livro, começamos pela referência ao “maior equívoco da história da Humanidade”, a contradição entre a espera de um libertador e a sua recusa, como vemos na atitude do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievsky, a dizer a Jesus Cristo, regressado inesperadamente, que deveria desaparecer rapidamente por ser indesejado. É verdade que não era a pobreza o tema do grande equívoco, mas a partilha e a exigência do cuidado dos outros e da não indiferença, marcantes na essência da novidade cristã. E, refletindo sobre o Amor de Deus, o autor pergunta: “quem pode ousar falar do Amor de Deus”, realidade tão complexa e indefinível, não suscetível de simplificações humanas. E então a pobreza surge como exigência de disponibilidade, como obrigação de compreender o outro e de ter respostas. Assim, os pobres de que fala a Bíblia são aqueles que o são no seu íntimo, como afirma a primeira Bem-Aventurança. É de disponibilidade que se fala, como scolè é a origem etimológica grega da palavra escola como lugar do ócio, enquanto disponibilidade plena para saber e compreender. Não há, contudo, não pode haver, elogio da pobreza sociológica. E lembre-se o que dizem os Atos dos Apóstolos relativamente à vida na comunidade cristã. “Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum”. Estamos perante a relação do ser humano com os bens materiais. Não está em causa o reconhecimento do direito de propriedade, mas a compreensão do princípio do destino universal dos bens da terra. E assim temos de compreender o sentido e o alcance do direito de uso e do direito de posse. Como afirma a encíclica Laborem Exercens de João Paulo II, “a propriedade adquire-se primeiro que tudo pelo trabalho e para servir ao trabalho”. Eis a importância do desapego ao material, para que dele não nos tornemos servos. A necessidade do outro, como outra metade de nós, para usar a expressão do Padre Mateo Ricci, significa a possibilidade de ter resposta ao outro, não nos fechando sobre nós mesmos.


OS BENS DA TERRA NO MUNDO
A distribuição de bens da terra no mundo é hoje, contudo, cada vez mais desigual. As disparidades agravam-se. Em 1960 o rendimento dos 20 % mais ricos da população mundial era 30 vezes o rendimento dos 20 % mais pobres. Mas no ano 2000 essa relação passara a 75 vezes. Por outro lado, “as desigualdades no domínio das capacidades avançadas estão a agravar-se. Por exemplo, apesar dos desafios no tocante aos dados, as estimativas apontam para ganhos ao nível da esperança média de vida aos 70 anos, entre 1995 e 2015, duas vezes superiores nos países com um nível muito elevado de desenvolvimento humano, em relação aos países com um baixo nível de desenvolvimento humano. Existem elementos que demonstram a presença do mesmo padrão de divergência num vasto leque de capacidades avançadas. De facto, as divergências no acesso a um conhecimento mais avançado e à tecnologia são ainda mais vincadas” (p. 107). Daí a exigência, para Alfredo Bruto da Costa, de uma leitura evangélica da pobreza no mundo. A noção de cidadania mundial, de que falou o Papa João Paulo II e de que fala o Papa Francisco vem reforçar a urgência de alargarmos o horizonte do nosso pensamento para além das fronteiras nacionais. Trata-se de assumir o princípio da subsidiariedade, que significa, a um tempo, tratar e solucionar os problemas o mais próximo possível das pessoas, mas sempre a um nível adequado. O pensamento “glocal” é a um tempo global e local, centrífugo e centrípeto. Se as questões do ambiente ou das pandemias, do aquecimento global ou da cultura da paz têm de ser tratadas acima das fronteiras nacionais, as opções ligadas à organização local ou aos cuidados das pessoas concretas têm de ter dimensão local e comunitária.


GLOBALIZAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO
Como lembra Bruto da Costa: “a globalização é demasiado importante para ser deixada ingovernada, como acontece presentemente, porque tem capacidade de fazer extraordinário mal, como bem”. Exige-se, assim, coesão social, sustentabilidade cultural, económica, social e ambiental, conhecimento e aprendizagem. O que é libertar os pobres de hoje? É combater e resolver a privação (fome, sede, nudez, falta de abrigo) e a falta de recursos, de modo a garantir autosuficiência, autonomia e defesa do bem comum. “A definição de pobreza que adotámos (diz ABC) conduz-nos a duas conclusões da maior relevância teórica e prática. A primeira reside no facto de ser possível resolver a privação, sem resolver a pobreza. Para tanto, basta que o pobre tenha acesso aos bens e serviços básicos por via de apoios extraordinários (por exemplo, o acesso aos alimentos do Banco Alimentar, a algum ‘roupeiro’ gratuito, a uma residência social para indivíduos e famílias sem habitação, etc.). Apoios deste tipo têm duas características importantes: resolvem a privação, mas mantêm o pobre numa situação de dependência. Isto acontece porque, apesar de sair da privação, o pobre continua sem os recursos necessários para satisfazer as necessidades básicas como o comum dos cidadãos. Matar a fome, sendo indispensável, não conduz, só por si, à autonomia. Daí a segunda conclusão, a de que a pobreza só é vencida quando o pobre sai da situação de privação por seus próprios meios… Por outras palavras o pobre só vence a pobreza quando já não precisa de recorrer a medidas e políticas de luta contra a pobreza” (p. 131).


O QUE FAZER? 
O que fazer? Agir em vários tabuleiros: na igualdade de oportunidades, na correção das desigualdades, na justiça distributiva, na equidade integeracional, no desenvolvimento sustentável. Não é por acaso que o primeiro dos objetivos das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável é a erradicação da pobreza. Partindo do destino universal dos bens da terra e da exigência de sobriedade, o combate à pobreza obriga a haver metas claras e uma definição de meios que nos permitam superar as condicionantes que nos afetam, sobretudo depois da pandemia, que agravou as disparidades e tornou mais difíceis os objetivos anteriormente definidos. E Alfredo Bruto da Costa deixou-nos o desafio de não baixarmos os braços nesse caminho no sentido da cidadania e da dignidade da pessoa humana. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

RUSALKA…

 

Minha Princesa de mim:

 

Escuto a "Rusalka" do Dvorak, e penso em ti, ó Princesa das cartas que te escrevo! Serás essa mulher, serás visão, anseio, aparição, sonho místico mais do que amor real? Ao longo deste convívio epistolar, nasceu naturalissimamente, entre nós, uma intimidade antiga, por paradoxal que seja uma antiguidade nascer agora... Sei hoje que este convívio contigo é essencial ao meu equilíbrio interior, à minha alegria. Porque é renúncia a outros momentos e carinhos, tem-me feito perceber que, afinal, posso bem com saudades de coisas boas: a grande saudade de ti é ontológica, não se cura nem engana, faz parte de mim. Vivo continuamente com este sentimento de um encontro único, tão profundo e intenso, de ternura. Ternura inesperada, imerecida e simples, graça que dói por ser impossível alegria. Assim trago, dentro de mim, o inalcançável. Rusalka é o nome eslavo da ondina, ninfa da água ou sereia... Filha de Vodnik, o senhor das águas, a infeliz quer libertar-se das ondas suas irmãs que, todos os dias e noites, a enredam em nenúfares. Quer a liberdade do dia, a glória aparente da luz que, pálida, a desperta nas profundezas do lago. Daí também surge o espírito dos afogados, que procura agarrar e levar ao fundo as ninfas do bosque, que lhe fogem e se riem dele. Rusalka conseguiu trepar por um salgueiro chorão e assiste à frustração de quem, como ela, habita as águas e não é ser humano com pernas para correr à superfície da terra... A seu pai confessa a tristeza de não ser e o anseio de ser humana. Vodnik pergunta-lhe se quer ser infeliz e mortal, e prenuncia-lhe um destino desgraçado se fugir à sua condição de ser aquático. Como era o mundo, penso eu, antes de existir, quando o espírito de Deus pairava sobre as águas. Ou como cada um de nós, de olhos fechados, nas águas do ventre materno. Mas a paixão da ondina é mais forte, é já humana: não resistiu ao encanto de um príncipe que se vem banhar nas águas misteriosas do lago dela, onde ela é só a vaga que o abraça e ele não vê, onde só ela ama e não se sente amada. Por amares humanamente infeliz serás, prediz o pai. Mas infeliz, tão infeliz sou eu agora, pensa ela, pois que o meu amado não conhece o meu amor! E à lua que de tão cheia inunda o ar todo, a floresta inteira, o próprio lago, Rusalka (na mais linda ária da ópera) reza e suplica: Ó lua, que do alto desse céu de veludo rompes a noite e te passeias pela extensão da terra, e vês longe, e com teu olhar afagas os lares dos homens...pára, espera por mim! Diz-me onde está o meu amor! E diz-lhe, a ele, ó lua de prata, que é o meu abraço de água que o encerra, para que de mim se lembre nos seus sonhos! Não me abandones, ó lua, não te vás embora, sem o ires buscar e lhe alumiares o caminho até mim... Diz-lhe que aqui estou, aqui o espero. E se for eu o sonho dessa alma humana, desperta-a para mim! A feiticeira que a libertará e lhe dará pernas, adverte-a: "se não encontrares o amor na terra, viverás repudiada, de novo condenada às profundezas. Se perderes esse amor, que tanto desejas, a maldição dos senhores das águas, no fundo delas outa vez te afogará. E mesmo que encontres esse amor, terás de sofrer, pois nenhum ouvido humano poderá escutar-te... Queres tu ser muda para quem amas? A resposta da ondina é trágica:   - "Se for para conhecer o seu amor, podes crer, que com prazer aceitarei ser muda!" Mas poderá, mesmo tão generoso e puro, se for já humano, um amor vencer tantos sortilégios? A ópera de Antonin Dvorak, seguindo o libreto de Joraslav Kvapil, diz que não. Nenhum amor humano vence a sua condição. Pela alvorada, o príncipe vai correndo o seu ginete em perseguição de uma gazela branca e maravilha-se com a descoberta de Rusalka, muda e branca, branca, fria e bela... Arrebata-a para o seu palácio. Anunciam-se as bodas do príncipe com a senhora do seu encantamento. Mas a ondina permanece muda e fria... Em desespero do seu anseio, o noivo cai na trama de uma princesa estrangeira que o cobiça. O ciúme de Rusalka frustra-a ainda mais de uma redenção possível do anseio amoroso. Só se liberta da mudez que a torna incomunicável chamando pelo pai, Vodnik,o senhor das águas, que finalmente a arrasta para as profundas do lago. De onde a ondina, lembra-lhe a feiticeira só poderá libertar-se apunhalando o príncipe, fazendo correr o sangue humano, vermelho e quente que ela em si não tem. Rusalka nega-se, mas, fogo fátuo, aparecerá ao amado que a procura no bosque, e pela derradeira vez o abraçará, pela primeira o beijará. Sabendo ambos que esse beijo o matará. Mas nós não sabemos se esse príncipe que por amor morre irá, nos braços feiticeiros, poderosos e impotentes, da onda Rusalka, perder-se com ela na eternidade das águas iniciais. O dueto final é, mais ou menos, assim: Príncipe - "Quero tudo, e tudo dar-te! Beija-me, beija-me mil vezes! Não quero regressar, prefiro morrer! Beija-me, dá-me a paz!" Rusalka - "O meu amor arrefece qualquer sentimento: devo destruir-te, devo acolher-te no meu abraço de gelo... Pelo teu amor, pela tua beleza, pela tua paixão tão humana e tão inconstante, por tudo o que causou a maldição do meu fado, por todo esse tanto, alma humana, Deus te guarde!" A sereia inefável, silenciosa, e tão pálida que é invisível transparência, é a forma enigmática desse anseio que connosco nasce, que nenhum desejo realizado satisfaz, nem ilusória posse iludirá. Ser humano é querer sempre mais, é o desejo de chegar ao impossível. Mas só a verdade nos libertará. E a verdade em que acredito é uma promessa: a de que, no fim deste percurso, veremos o invisível, poderemos o impossível, e encontraremos, lá no fundo das águas que nos engolem, a luz que ainda não temos bem a certeza de ver acesa dentro de nós. Talvez por ela, todavia, haja sorrisos e olhares que trocamos, uma mão estendida e dada, uma palavra, um apoio, uma entrega, que dão à generosidade dos homens a dimensão da misericórdia de Deus". Não sei em que registo o marquês de Sarolea escutou a "Rusalka". Ao ler e traduzir esta carta, pus a tocar, para mim, a versão de Sir Charles Mackerras, com a Orquestra Filarmónica Checa e a comovente Renée Fleming. Camilo Maria preferiu a canção à lua. Eu quase chorei ao ouvir o lamento da ondina, a abrir o acto III: "Força insensível da água, outra vez me arrastaste para o fundo... Porque não poderei, então, desaparecer, desaparecer finalmente?... ...Onde estás tu, ó magia das noites de Verão, sob os cálices dos nenúfares? Porque não poderei eu, no desamparo deste frio, perecer, perecer finalmente? "Mas a fluidez musical do drama tem uma beleza contínua e secreta, como se a sensualidade da própria vida antes perguntasse: Porque não poderei eu viver, viver finalmente? Como no fim da "Traviata" - que é também um rio de música - a morte surge como passo para o realizável. Para o encontro.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 01.10.2013 neste blogue. 

BREVE EVOCAÇÃO DO CENTENÁRIO DA ESTREIA DE ALFREDO CORTEZ

 

Novamente assinalamos aqui o centenário da estreia de Alfredo Cortez como dramaturgo, com a peça "Zilda". Já temos amplamente analisado esta dramaturgia, mas o centenário justifica a nova referenciação.


Sendo certo que em 1918 já teria escrito um conjunto de quadras para uma revista representada no Teatro Foz, denominada ao que parece "Terra e Mar", de qualquer forma a peça de estreia rigorosa e como tal consagrada é a "Zilda", levada à cena em 1921, há exatos 100 anos.


A análise que lhe faço na "História do Teatro Português" aponta para um sentido ironicamente crítico sobre personagens ligados à guerra e referidos num sentido estilisticamente assinalável.


Pois, e cito, o simbolismo, aqui aplicado, reflete-se no arsenal de alusões cromáticas que pontuam toda a peça: "luz rosa violeta (...) clarão vermelho" iluminação "a verde e bebidas verdes" e por aí fora!


O centenário da "Zilda" merece pois uma evocação mais desenvolvida. Já tive ocasião de frisar a esse propósito a simbiose entre o realismo teatral e um certo simbolismo que também caracteriza, de forma substancial, este teatro realista, permita-se o paradoxo da comparação.


E faremos agora uma transcrição de parte da longa e justa análise crítica que lhe dedica Luís Francisco Rebello na "História do Teatro Português".


Aí escreve designadamente:


"Lúcida e amarga, rigorosa e linear na sua quase ascética expressão, a obra de Cortês sobressai de entre a produção representada nesses palcos no período demarcado pelas duas guerras. "Zilda" e dois anos depois "O Lodo" (que todas as empresas recusaram e foi posta em cena pelo próprio autor) a primeira situada no meio da alta burguesia, a segunda num prostíbulo, são como que as duas faces, igualmente sórdidas, da mesma medalha, completando-se uma à outra na denúncia implacável do escândalo de uma sociedade que fomenta e permite os próprios vícios que farisaicamente condena. A seguir ao drama histórico em verso "Á lá Fé" e a três peças de intuitos moralísticos ("Lourdes", 1927; "O Ouro", 1928; "Domus, 1931) que constituem a parte menor do seu teatro, Cortês estreou a caricatura "Gladiadores" (1934) sátira de símbolos sociais e políticos vazada nos moldes da dramaturgia expressionista, a mais controvertida (exatamente por ser a mais revolucionária) das suas obras, em que Eduardo Scarlatti viu "talvez o primeiro ensaio de um género superior de teatro cómico, o qual transporta o grotesco da vida em sociedade sobre manequins humanos. "Tá-Mar" é o drama das gentes do mar, entendido com um lírico realismo que o projeta na sua dimensão mítica e que uma excessiva preocupação de fidelidade faz recuar, na peça imediata ("Saias" 1938) para um naturalismo serôdio. A sua última peça, "Baton" (escrita em 1939 mas que só em 1946, postumamente, foi autorizada a subir à cena) marca um retorno aos temas e à técnica das suas primeiras obras ao escalpelizar, com dolorosa acuidade, a falência moral da sociedade burguesa e capitalista." Isto escreveu portanto Luís Francisco Rebello no livro publicado em 1981.


E acrescentamos uma referência de António Braz-Teixeira no livro intitulado "A Vida Imaginada", onde analisa a obra de Alfredo Cortez, especificando designadamente que "o teatro de Alfredo Cortez não deixa nunca de revelar uma comum preocupação ética a de se apresentar como retrato moral, a um tempo severo, comovido e compreensivo, de uma sociedade em profunda crise de valores espirituais, atitude a que certamente não eram alheias, por um lado a sua longa experiência forense e judicial e o conhecimento vivido da natureza humana qie dela soube extrair e, por outro, as duras provocações que conduziram, ou reconduziram, ao seio da Igreja a sua alma inquieta."

 
DUARTE IVO CRUZ

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

27. OPÇÃO ATLÂNTICA E EUROPEIA (II)


Autores há que apesar de aceitarem a opção europeia, a olham com reticências, reforçando a vertente atlântica.  

Falam em estar de novo à vista uma civilização predominantemente marítima, face a crescentes dificuldades de acesso a regiões terrestres detentoras de produtos estratégicos, como o petróleo, que obrigam a pensar em recorrer também ao mar. 

A propósito de tais dificuldades tem-se falado numa revolução estratégica dos Estados Unidos, na qual se englobaria, há anos, um pedido de um porto de abrigo em São Tomé e Príncipe para meios navais e aéreos. O que teria a ver com o valioso veio de petróleo da Nigéria até Angola, via São Tomé, Guiné Equatorial e Cabinda.

Falou-se ainda de uma nova era da NATO, tendo como objetivos, entre outros, constituir no Atlântico Sul uma alternativa petrolífera ao Médio Oriente para pôr, em especial a Europa, menos dependente dele. 

Propôs-se, também, uma eventual aceitação pelos EUA de uma parceria estratégica luso-brasileira no Atlântico Sul para preservar a CPLP da cobiça de potências europeias, como a França, com a sua política francófona de envolvimento no espaço da lusofonia, caso da Guiné-Bissau. Tais factos são tidos como razões que apontam para um reforço da vertente atlântica de Portugal.   

Outra diferença de peso político que é apontada a Portugal, para optar preferencialmente pelo Atlântico sem excluir a Europa, reside no facto de ter sido convidado como membro fundador da NATO, apesar de o seu regime, à data, não ser democrático, sendo então recusada qualquer hipótese de adesão da Espanha, não obstante o seu regime ser idêntico ao português.   

Ressalta, em qualquer situação, que sendo Portugal um país predominantemente atlântico, tem como desígnio estratégico prioritário trazer a lusofonia e a CPLP à Europa e trazer a Europa à lusofonia e à CPLP, rumo a um compromisso europeísta e atlântico global, dado que não se esgota nem completa apenas na continentalidade europeia nem na sua vertente atlântica e marítima. 

 

15.10.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

ABDULRAZAK GURNAH, PRÉMIO NOBEL DE LITERATURA 2021

A temática dos refugiados é a base do seu trabalho

 

Segundo a Academia, o prémio foi concedido "por sua penetração intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino do refugiado no abismo entre culturas e continentes."

  

Deste escritor tanzaniano ainda só li este livro By the sea.

Ficou-me sonoro na alma o que se possa entender por um requerente de asilo. Por um requerente de paraíso que há-de encher até fazer transbordar o saco que desde Zanzibar leva às costas e no qual também transporta um pouco de incenso: sua posse mais preciosa.

Depois uma história de amor e traição, de sedução e de desvendamento, de luz e névoa, angústia e medo e nunca, nunca a rota da trégua no caminho do refugiar.

Bem-haja quem denuncia estrada tão amarga, tão poço junto à boca: tão no ventre dos nossos dias.

 

Teresa Bracinha Vieira 

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