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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NOVA EVOCAÇÃO DO CENTENÁRIO DE PRISTA MONTEIRO


Evoca-se hoje novamente o dramaturgo Hélder Prista Monteiro, nascido em 1922 e falecido em 1994, devendo pois assinalar-se o seu centenário. E será oportuno então referir que a transição estilística envolve os cerca de 18 textos que marcam a sua dramaturgia e refletem as transposições então claramente emergentes no teatro português.


Na “História do Teatro Português” tivemos ensejo de analisar com algum destaque o conjunto desta dramaturgia que, na sua composição epocal e estilística marca os sinais de renovação do teatro português.


É de assinalar, designadamente, a renovação que este conjunto implicou, numa fase de evolução dramatúrgica que Prista Monteiro de certo modo motivou, na medida em que a sua vasta obra percorre, ainda hoje com indiscutível qualidade, a “mudança” dramatúrgica, então devidamente assinalável, não obstante o ambiente.


O certo é que se justifica, pela qualidade do conjunto, esta referência, tendo em vista inclusive as dificuldades que na época marcavam a produção dramática em si mesma considerada. E isto, não obstante as óbvias oscilações desta vasta dramaturgia.


Pois, como já tive ocasião de escrever, a toada realista decerto modo dominante no seu conjunto dramatúrgico, é contrariada, digamos assim, pela própria construção dramática desde importante conjunto, que na época enfrentou dificuldades mas que hoje merecerá análises em si mesmas bem positivas. E nesse aspeto, importa então que a expressão realista, dominante em peças como por exemplo “A Caixa” que Manoel de Oliveira transpôs para o cinema em 1995, decorridos entretanto 15 anos, o que não é menos relevante: a modernidade teatral está presente no conjunto da obra em si.


É de assinalar entretanto a heterogeneidade de estilos que se encontram ao longo desta vasta produção dramatúrgica.


O realismo é por exemplo dominante em peças como por exemplo “O Candidato” (1972) ou “A Caixa” (1980), esta como já referimos transposta para a expressão cinematográfica.  


Refiram-se então com mais destaque algumas das peças de Prista Monteiro.


Assim por exemplo, “A Vila” (1985) é, como já escrevemos, uma espécie de “ilha” no espaço e no tempo, com base na simulação existencial de sobrevivência a excessos de trabalho, onde a influência do espírito de Orwell se faz notar. Aliás é assinalável que essa peça documenta amplamente o sentido cénico e de espetáculo.


Independentemente de influências diversas e dispersas, é de referir então uma clara influência do teatro chamado “do absurdo”. Citam-se então peças como designadamente “A Rabeca” (1959), “A Bengala, Folguedo do Rei Coxo” (1961), “O Meio da Ponte” (1966), “O Anfiteatro”…


E para terminar, transcrevo um comentário que escrevi na “História do Teatro Português”:


«”O Fio” ou “As Dozes Chávenas de Porcelana Chinesa da Dinasta dos Ming” (1978) segue uma linha semelhante, onde nos parece encontrar mais claros, os ecos de Ionesco: mas precisamente, Bernardo Santareno, num interessante prefácio à edição, alerta para a originalidade deste teatro e para o sentido social, numa raiz portuguesa.  A partir de “O Mito” (1980) e “Naturalmente Sempre” (1982) acentua-se novamente a expressão mais realista e mais social deste teatro, mas nunca se perde a marca do absurdo tal como “Não é Preciso ir a Houston” e “de Graus (editados em 1992) e “Auto dos Funâmbulos” (1993) confirmarão.»

 

DUARTE IVO CRUZ