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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA


GASTÃO CRUZ: O REVITALIZAR DA PALAVRA QUANDO SER POETA É UM OFÍCIO


Jovem, Gastão Cruz tinha já profundo apego pelo texto poético: densidade e enorme contenção fariam cada vez mais o seu caminho. Mais tarde não viria a recusar a influência de Camões na sua escrita, no seu conjunto de fios segregados num “sistema com as suas leis próprias”.


Poeta, ensaísta, professor do secundário, leitor de Português no King’s College, distinguido por inúmeros prémios, o gosto pelo teatro, leva-o ainda a traduções de autores como Shakespeare ou Cocteau".


A sua direção na Fundação Luís Miguel Nava recordará sempre o modo como considera LMN “a única presença verdadeiramente forte e diversa afirmada no panorama poético português dos anos 80…”


Em rigor também em Luís Miguel Nava existe uma precisão da palavra essencial, usada, qual ferramenta, firme carpinteira de realidades.


Eis poesia de ambos


Gastão Cruz


1
Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio

(“Fogo”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013)


luís miguel nava / a fome


Aqui, onde a mão não

alcança o interruptor da vida, aqui

só brilha a solidão.

Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

 

Aqui, onde a brancura

dum lenço é a brancura do infortúnio,

 

aqui a solidão

não brilha, apenas

se estorce.

A fome fala através das feridas.

poesia completa (1979-1994)
(Dom Quixote)


 

Como nos recordou Eduardo Prado Coelho: Sabemos que Gastão Cruz é um nome ligado à dinâmica criada em torno da revista "Poesia 61", de que foi ao mesmo tempo animador e teorizador. Poesia 61" (…)  surge numa exaltada consciência da densidade textual do poema, apoiada numa leitura muito atenta dos clássicos (de Camões a Sá de Miranda, da lírica medieval a Blake, de Dante a Camilo Pessanha). (…) nela o poema rebentava para dentro e disseminava os estilhaços da sua catástrofe num reduto extremamente concentrado de palavras. 

 

Citando de novo Bréchon, a poesia é ao mesmo tempo o fogo que destrói e a água que extingue o fogo (…) e, se neste livro nos sentimos tão intimamente afetados, é porque nunca a obscuridade foi tão obscura, como bem regista Prado Coelho.
Gastão Cruz sempre soube as palavras possíveis, aquelas que passam entre voz e silêncio, aquelas da analogia e do mundo.
Perguntai-lhas nos seus livros.

 

 Teresa Bracinha Vieira