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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


LXXXVIII - SÍNTESE AO REDOR DA LÍNGUA E DA LUSOFONIA
3. ALGUMAS BREVES PERSPETIVAS LINGUÍSTICAS E LUSÓFONAS


Rumo a uma visão mais abrangente, escreve Adelino Maltez: “Consideramos, com efeito, que a Comunidade Lusíada é um passo para a recriação do espaço maior, exigindo uma nova leitura da respublica christiana com a Ibéria, a América de Língua Portuguesa, a América de Língua Castelhana e a África dos PALOP e, portanto, a criação de uma comunidade onde a união ibérica se extinguiria como fantasma, porque é mais aquilo que, pelo futuro nos une, do que aquilo que, no passado, nos dividia”.[1]


Temos responsabilidades históricas para com outros povos com que partilhamos um idioma comum, estando em causa o futuro da lusofonia, agudizado por Castela, com a sua mentalidade altiva e imperial, que dificilmente a abandonará. O que não exclui a recriação de um espaço maior predominantemente lusófono, liderado por um lusófono, potencialmente o Brasil, por se nos afigurar ser portador, em termos de ser e dever ser, de maior tolerância e humanismo, por confronto com uma hipotética liderança de raiz castelhana.


Refira-se o texto de uma autora polaca onde sobressai a ideia de que na Europa de leste se formou a crença de que “(…) o imperialismo e a Lenda Negra de Portugal não constituíam uma realidade tão grave como a de Espanha. A convicção apoiava-se em elementos da automitificação portuguesa incluindo a famosa “Carta de Pero Vaz de Caminha” que apresentava o primeiro contacto com os recém-chegados portugueses e os índios do Brasil como verdadeiramente excecional, produtivo e pacífico”[2] (em confronto com o relato desumano de Bartolomeu de Las Casas). E acrescenta: “Na Polónia, a Lenda Negra ligada a Espanha direcionou a nobreza para o exemplo da expansão portuguesa a Oriente, considerada menos culposa e mais atraente, especialmente devido às viagens de Vasco da Gama ou ao povoamento de ilhas desabitadas, mais do que a sua colonização na América do Sul”[3], além do contraste intra-ibérico das corridas de touros.


O que não significa que Portugal e demais mundo lusófono se devam sentir orgulhosamente sós. Justifica-se, sim, que possam dialogar com outros espaços, em igualdade, numa perspetiva de humanismo universal.


O conceito de lusofonia, além de ter em si o significado de um espaço geolinguístico, baseia-se no reconhecimento de um universo comunicacional real da língua portuguesa e no assumir dos benefícios dos dinamismos que um bloco linguístico-económico-cultural comporta, de uma realidade complexa plasmada na aceitação de um idioma comum como oficial, que outros blocos comprovam como útil, sob pena de se beneficiarem interesses de terceiros, também eles fundados no mesmo conceito linguístico-estratégico. 


Não se esgota no uso de uma língua comum, mas de tudo o que o diálogo por ela facilitado proporciona: na aproximação dos povos e países, na ciência, na economia, na política, no desporto, em todos os alinhamentos. 


Todavia, é óbvio que, por serem tais aproximações e parcerias facilitadas pela língua, ela assume uma importância básica e prévia a quaisquer entendimentos. Natural e lógico que as primeiras preocupações lusófonas se voltem para as questões linguísticas, da sua defesa, difusão, enriquecimento e ensino.


Se a adoção do português foi um ato de soberania, a do termo lusofonia não resultou de iniciativa própria ou comum de todos os seus destinatários. Se é verdade que o conceito de língua portuguesa é tido como objetivamente linguístico e politicamente neutro,  é verdade que não existe essa consensualidade no que toca ao de lusofonia.


25.02.2022
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

[1] Curso de Relações Internacionais, Principia, p. 341.
[2] Cieszynska, Beata Elzbieta, O(s) mito(s) da Península Ibérica na Polónia e em outros países do antigo “Bloco de Leste”, p. 56, no livro Europa de Leste e Portugal, Esfera do Caos, 1.ª edição, 2010, tendo como coordenadores José Eduardo Franco, Teresa Pinheiro e a autora ora citada.
[3] Ibidem, p. 60.