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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANA LUÍSA AMARAL

  


Uma botânica da paz: visitação


Tenho uma flor
de que não sei o nome


Na varanda,

em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima


Mas estes são prodígios

para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves


Não a ameaçam bombas

nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz


E o céu azul de Outono

a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água que lhe dou


Deve ser isto

uma espécie de paz:


um segredo botânico

da luz


in Entre Dois Rios e Outras Noites, 2007


Botanics of peace: visitation


I have a flower

whose name I don’t know


On the balcony,

its scent blends
with other smells:
hibiscus, rose,
a sprig of verbena


But they will be prodigies

of another morning:
for this flower
has bred leaves of astonishing
green,
minute and subtle


Bombs do not threaten it

nor do romantic winds,
missiles or tornados,
neither does it know, although so near,
of the jeopardy the salt
sea air will bring


And the blue autumn sky

disguised as summer
gives it such blessing,
as does the little water that I pour


And this must be

a sort of peace:


a botanical secret

of light


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

 

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
ANTIGAMENTE, A ESCOLA (I)


1 - Não, antigamente a escola não era risonha e franca, como no pré-histórico poema ("O Estudante Alsaciano") que, em versão portuguesa, aprendi com a minha Avó e galhardamente recitava - ao que me contaram - empoleirado num banco do Jardim da Estrela, para pasmo dos basbaques e vergonha da minha Mãe, que me surpreendeu, aos cinco anos, em tais preparos. Nessa altura, ainda nem sequer sabia o que escola fosse. Quando soube, talvez usasse muitos adjetivos, mas não seguramente os que a associam ao riso e à franqueza. Mas descansem que não venho para ajustar contas nem para louvar o ensino de outras eras. Também não venho para execuções sumárias. Apenas me lembrei, por razões que mais adiante explicarei, que nunca disse de minha justiça sobre um personagem muito maltratado. Refiro-me ao dr. Sérvulo Correia, reitor do Liceu Camões entre o ano letivo de 1950-51 e o de 74-75, a que não resistiu.


2 -
 1950-51. Eu tinha de 15 para 16 anos e repetia a secção de ciências do 5º ano do liceu (atual 9º). Nesses tempos, até ao dito 5º ano (do 3º ao 5º, leiam do 7º ao 9º, e não vou prosseguir com atualizações), segundo a reforma de 1947 do ministro Pires de Lima (uma entre tantas), havia nove disciplinas, arrumadas entre letras e ciências. Letras: Português, Francês, Inglês e História. Ciências: Geografia, Ciências Naturais, Físico-Químicas, Matemática e Desenho. Se eu era bom aluno em letras, e por isso passei o exame do 5º ano com uma perna às costas e um 19 a História, péssimo era em ciências, sobretudo em Matemática e Desenho. Por isso chumbei e por isso fui condenado a repetir as cinco disciplinas das tais ciências. Foi um ano negro, sem sombra de dúvida o ano mais negro da minha existência. Tinha grandes "buracos" nos horários (as horas em que os não-repetentes aprendiam letras) e vagueava entre casa e o liceu para repisar "matérias" que odiava. Lágrimas e suspiros? Pouco mais ou menos e não exagero muito. Se a palavra auto-estima já tivesse sido inventada, a minha andava muito por baixo, o que aos 16 anos não se recomenda. O pior de tudo era o Desenho. Por dislexia congénita ou adquirida (havia a tese da fatalidade e a tese da preguiça ronhosa), eu nunca fui capaz de fazer um traço direito ou uma curva torta. Felizmente, os professores que tive do 1º ao 5º ano (o santo Mendes Costa e a beatíssima Maria Marinho, que, segundo as minhas contas, ainda é capaz de estar viva) sustentavam mais a tese do "coitadinho" do que a do "fiteiro" (tese paterna) e foram-me "passando", como nessa altura se dizia, mesmo se os meus "desenhos geométricos" se pareciam com bilhas "desenhadas à vista" e as bilhas com "geometria no espaço", não desfazendo na geometria e muito menos no espaço. 

Tive a sorte (graças à citada reforma) de escapar ao exame do 3º ano, que, quando lá cheguei, retroativou para o 2º. Mas do exame do 5º não escapei. Como já disse, não escapei mesmo. Foi nesse ano, escolarmente bissexto, que Sérvulo Correia foi nomeado reitor do Camões. Vinha precedido pela fama de "animal feroz" (como diria o eng.º Sócrates) e não a deixou por mãos alheias. O liceu, habituado às cãs brancas e à bonomia de um simpático velhinho coxo, mudou do dia para a noite. Professores e alunos tremiam à passagem daquela cabeça, que, devido a uma acentuada dolicocefalia, logo lhe valeu o cognome de "cabeça de martelo". Eu tinha outras razões para tremer e, como ia pouco ao liceu, não me achei envolvido nas histórias dickensianas que se contavam. Lá chegou a altura (ah, quando eu contar esse Verão de 51!) de fazer o segundo exame do 5º ano. Prova escrita, que dava direito a dispensar da oral, em caso de média de 16, e dava direito ao chumbo, se a média fosse inferior a 8,5. No ano anterior, ainda tinha chegado à oral. À segunda vez, nem isso. Uns dezitos e uns novezitos em quatro disciplinas não "taparam" o 2,8 (dois vírgula oito) em Desenho. Poupo-vos à descrição do meu estado de alma diante daquela pauta, em que a seguir ao meu nome estava encarnadamente escrito: "Reprovado". A simples ideia de imaginar (isso mesmo: "ideia de imaginar") que, no ano seguinte, tudo se passaria pela terceira vez punha-me a alma e o corpo em rebuçados desfeitos. À minha volta, colegas manifestavam-me a tradicional comiseração lusa: "Coitado do Bénard"; "Chumbou outra vez por causa do Desenho"; "Ele não tem culpa". Por aquelas horas, passou por ali o tal São Mendes Costa. Ao ver-me em tal estado, quis saber a razão. Logo lha disseram. Passaram mais horas (eu não me atrevia a voltar para casa e a enfrentar a família). Apareceu um contínuo, que, a mando do Senhor Reitor, me disse para ir ao gabinete dele. Lá fui, tão fora de esperar bem. Recebeu-me secamente e ordenou: "Vai para casa e diz ao teu pai que venha cá falar comigo." O meu Pai, engripado e de cama, não foi. Pediu à minha Mãe para o fazer. Quando voltámos, o Senhor Reitor recebeu-nos logo. Não mandou sentar a Mãe. De pé, disse-lhe: "O professor de Desenho do seu filho informou-me da nota dele e da reprovação. Se ele é inapto, o encarregado de educação devia ter pedido dispensa dessa disciplina, como está previsto na lei. Agora, tudo é mais difícil. Mas ainda se pode tentar. O marido de V. Exa. deverá fazer um requerimento ao Senhor Ministro da Educação, solicitando a anulação da prova, o que lhe permitirá ter acesso ao exame oral. Não prometo nada - a decisão não me compete -, mas a informação que darei, com base no que o professor de Desenho me transmitiu, será favorável." 
Transmitida a mensagem, o meu Pai mostrou-se muito cético. Mas o prazo para recurso era curto e tentou. Fui levado a várias consultas médicas, onde ouvi o meu Pai fazer dele a tese do "coitadinho" (muito me espantou essa conversão, mas o amor de pai obriga a muito) enquanto eu me sumia pelo chão abaixo a cada novo exame, teórico e prático. Fez-se o requerimento. Na dúvida do despacho, uma prima minha, bastante mais velha e que cursava Económico-Financeiras, deu-me explicações intensivas de Físico-Químicas e Matemática, num Julho ardente e inquietíssimo. Um belo dia, chegou a notícia. O ministro deferira o requerimento. Já em Agosto, "fui à oral". O mês de férias, que a minha prima sacrificou a cultivar-me minimamente em matérias em que eu era ignaro, fez o resto do milagre, bendita seja ela! Fui aprovado com 10 valores e deficiência a Matemática, o que era irrelevante para quem, obviamente, se destinava às letras. Dois anos depois, concluí o Liceu (no Pedro Nunes) com média final de 18.


3 -
 Na altura, abençoei o Prof. Mendes Costa, o Ministro e a Prima. Tinha toda a razão. Mas esqueci-me de abençoar o Reitor. Só alguns anos depois (quando eu próprio vivi, do outro lado, a época dos exames e o trabalho imenso que ela implicava para os examinadores) me dei conta do que o gesto dele teve de extraordinário. Em vez de juntar mais uma reprovação às estatísticas, com um aluno que nem sequer era aluno dele e que ele nem sequer conhecia, arrancou-me à autocomiseração e às lágrimas quentes, acionou os mecanismos legais que tanto os meus Pais como eu desconhecíamos, venceu o ceticismo paterno e anulou os efeitos devastadores de uma segunda reprovação consecutiva num adolescente em crise. Tivesse ele sido indiferente (como era legítimo e normal que fosse) e talvez o meu futuro fosse bem diferente. Tive ocasião de lho dizer. Dez anos depois desse trágico 51, voltei ao Camões, como professor de História, Filosofia e Organização Política e Administrativa da Nação. Professor eventual, ou seja, fora do quadro. Ensinei nessa qualidade três anos letivos. Poucos meses depois de começar, dava uma aula de História e estava virado de costas para a porta aberta, ouvi um silêncio pesadíssimo e vi os alunos todos a levantar-se como se um alfinete lhes picasse o rabo. Entrara o Senhor Reitor. Não disse nem bons dias nem boas tardes. Avançou para a "minha" secretária, sentou-se, mandou sentar os alunos e disse-me: "Sr. Dr., faça favor de continuar a dar a aula." Eu continuei. Lembro-me que era sobre as origens do cristianismo (3º ano, pois). Quando tocou a sineta, mandou sair os alunos e disse-me para ficar. Não falarei de piropos, que é uma palavra que vai mal com ele. Mas raras vezes ouvi elogios tão expressivos. Daí para diante, tomou-me sob a sua proteção. Um dia, levou mesmo a afetividade mais longe e justificou a sua imagem. Não tinha - disse-me - qualquer prazer em fazer de "papão do liceu", mas entendia que aquele era o único modo de lidar com rapazes que os pais, na sua maioria, não seguiam e com professores genericamente incompetentes. Discuti com ele abertamente e ele ouviu-me com atenção. Lembro-me que acentuou duas vezes a expressão "formar os melhores". Num desses anos, propus-lhe dar, em regime aberto, depois do horário normal, um curso de iniciação ao cinema, já nessa altura paixão minha. Não suponho que fosse cinéfilo ou sequer que fosse ao cinema. Mas sem hesitação me autorizou e seguiu, interessadíssimo, os resultados. Doutra vez, pôs-me uma reserva: nas minhas aulas, tinha notado pouca participação dos alunos. Vinda de quem vinha, a observação espantou-me. Disse-lhe que era o meu estilo e que, além disso, na presença dele, o acentuava, pois que os ditos ficavam manifestamente muito pouco à vontade. Pareceu-me perceber, embora me notasse que, com a minha idade (eu tinha vinte e tal anos), devia estar mais aberto à "pedagogia moderna". 

Em 1964, resolvi trocar o liceu por outra oferta de emprego, aparentemente mais tentadora. Falei com ele e só me encorajou. "Com as condições do ensino de hoje, uma pessoa como o Sr. Dr. deve seguir outros caminhos." Já fora do liceu, tive ocasião de lhe escrever uma carta a contar a história do exame do 5º ano, que ele evidentemente esquecera. Respondeu-me emocionado: "A sua carta chegou num momento muito difícil da minha vida e foi um bálsamo." Um ano depois, estava de novo a bater-lhe à porta. Muito mais aberto à "pedagogia moderna" (hoje, acho que escancaradamente aberto), propunha-lhe voltar para fazer experiências de pedagogia não-diretiva, à Rogers. Acreditem ou não, disse-me logo que sim. Só que nesse ano a PIDE mudou as regras para a admissão de eventuais. Até aí - o que me valera -, os contratos destes, contratos a prazo e sem garantia de quaisquer direitos, não iam ao visto prévio da polícia política. Nesse ano, passaram a ir. A informação era fortemente negativa. Chamou-me, comunicou-mo e disse-me que iria ele próprio à PIDE, para os tentar demover. Aí falhou. A experiência não-diretiva vim a fazê-la no Colégio Moderno do Dr. Mário Soares. Deus escreve direito por linhas tortas.


4 -
 Nunca mais o vi. Mas, de cada vez que leio, em memórias de ex-alunos dos anos 50, 60 e 70, o retrato de Sérvulo Correia como arquétipo do reitor policial ou do reitor fascista, que transformou o Camões numa prisão, penso no dever de contar esta história. Chegou a altura. Por "razões que mais adiante explicarei"? Sem mais espaço, ficam para a próxima crónica. Se nunca aprendi a ser "não-diretivo", também nunca aprendi a ser sintético.

 

João Bénard da Costa
20 de agosto 2004 in Público

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


108. CIVILIZAÇÃO E CIVILIZAÇÕES


Não há acordo quanto ao sentido a atribuir à palavra civilização.


São sinónimos de civilização o desenvolvimento, o progresso, o florescimento, o adiantamento, a cultura, por oposição ao atraso, à barbárie, ao retrocesso, podendo expressar boas maneiras, boa educação, superioridade cultural e intelectual, evolução científica e tecnológica, avanço político, social e cultural, ser singular ou plural, querer dizer Ocidente ou a Humanidade.


Começa por significar um elevado nível de desenvolvimento espiritual e social surgindo, pela primeira vez, em França, no século XVIII, segundo Braudel, em Gramática das Civilizações, tendo o eurocentrismo como o centro e farol do mundo, representado pelas conquistas científicas, tecnológicas, intelectuais e culturais da Europa Iluminista, onde a Razão iluminada é tida como a principal causa de progresso da humanidade. 


Porém, o termo civilização ganhou uma forma plural, deixando de resumir-se ao ideário eurocêntrico e realidades europeias emergentes do eurocentrismo, reconhecendo a existência de outras civilizações também suas contemporâneas, uma vez os seres humanos não prescindirem daquilo que lhes é específico, dado acreditarem que reside aí o sustento da sua dignidade e integridade perante os outros.     


Pode, por exemplo, falar-se em civilização ocidental, islâmica, hindu, chinesa e africana.   


Se o termo plural civilizações traduz o abandono de uma determinada superioridade civilizacional, a verdade é que civilização continua a ter em si mesma um juízo de valor que a faz coincidir com uma realidade humana privilegiada, mais evoluída, por confronto com as demais, mesmo tendo como assente que a barbárie pode ser um programa inscrito no seu próprio programa.


No seu ímpeto progressista e dominante, a civilização ocidental tomou os direitos humanos como uma verdade necessária e universal, na sequência do segundo conflito mundial, pelo que atualmente civilização integra também a paz, humanismo e ausência de crimes bélicos, contra a humanidade e de genocídio em tempo de guerra, mesmo que lícita, a par de uma difícil e paulatina aceitação de uma justiça penal internacional. 


E se bem que os direitos humanos não possam ser ignorados, por serem parte essencial do diálogo inter-civilizacional, resta saber até que ponto a sua origem ocidental inviabiliza a sua universalização e a noção de civilização que defende.   


Há quem fale no choque de civilizações, em que sobressai a tese de Samuel Huntington.       

 

03.06.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Quem testemunhara as primícias da doença?

  

 

Só se sabia que alguém ao aproximar-se sentira a iminência do vigor da morte.

Sabe-se também que uniu as letras e dali fugiu num passo aflitivo.

Ante o que vira, estranhava agora, o fato de estar vivo, e ainda que de rosto no chão, a desfalecer, sabia que não tinha sido infetado, assim lhe diziam as seguras palavras antigas do conhecimento: era imune.

Os novos vírus enfurecidos, abraçavam primeiro as cidades, antes de correrem aldeias e mundo em abraços de nó cego.

A área da epidemiologia esclareceu, que eles, os novos vírus, não se deixavam aprisionar, e que as criaturas nunca se moveriam mais rápidas do que eles, ou elas mesmas, não fossem as portadoras-ninho, onde eles, de vontade, se aninhavam.

Intrigante achado este, o de saber que as criaturas eram em si os vírus, apesar de amáveis e muitas vezes afáveis até em extremos.

Deste modo, todos eram testemunhas em causa própria das primícias da doença. Todos temiam o inevitável contato consigo mesmos.

Machos ou fêmeas, malditos cães e cadelas, uivavam, quem cuidará de mim? Escravos, eunucos, quem cumprirá as nossas ordens?, perguntavam os cientistas. E assim bradavam contra vivos e mortos que se negavam a servi-los, enquanto nos vírus deles próprios, um furor letal.

Às vezes, soube-se, as criaturas paravam e olhavam-se de olhos revirados, soltos, sem noção verdadeira da extensão da catástrofe, e iniciavam uma marcha em todas as direções, ignorantes de que tinham a doença no abraço a si, e que deles próprios, não saberiam o como iniciar uma debandada das ruas, das casas e dos próprios hospitais onde trabalhavam.

Amontoavam-se os cadáveres insepultos. O pânico impunha as condições.

Algumas criaturas voaram nos seus próprios aviões, numa fuga que incandescia de imediato e desaparecia sugada pelos buracos negros, enquanto outros ponderavam rezar, fazer quarentenas, peregrinar, e a coberto do caos, negociar a vida.

Esta era a doença na sua primeira erupção.

Foi quando se começaram a declarar casos isolados de criaturas de grau de infecciosidade mais baixo, que, enfim, se descobriu o imune, de rosto no chão, quase arrebatado de entre os mortos, e era o tal que unira as letras.

Inexplicável facto, este, de entre todos, imune.

De entre todos, a esperança. E nunca a sua responsabilidade fora maior: assim pensou, ainda de rastos a ler no chão.

Mas qual o matiz da diferença? Qual o motor que nele não ignorou o dever de resistência e de interpretação? Seria esta uma desigualdade natural? Sem pertencer a grupo, e era imune?

E fora, afinal, o estado de conhecimento que o fizera unir as letras em completude.

A vacina, um dia, nas cores de Sandro Botticelli.

Era noite. Só era de noite, e a minha falta de ar empurrava a cadeira de rodas na teima que me obedecesse.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


Éric Rohmer é incapaz de trabalhar sobre o eterno.


No texto Architecture d’Apocalypse, que Éric Rohmer escreveu para a revista Cahiers du cinéma, em 1955, lê-se que a arquitetura (ao contrário da pintura, da música e da literatura) não pode nunca deixar de responder ao seu destino principal e às necessidades que lhe dão origem - servir e proteger - em todos os lugares e para sempre: “Elle est bien un art, toutefois, puis qu’elle n’a pas oublié non plus sa prétention à satisfaire notre amour du beau.” (Rohmer 2010, 70)


As obras que a arquitetura produz são, na sua génese, muito diferentes daquelas produzidas pelo pintor, pelo poeta ou pelo músico. O pintor, o poeta e o músico produzem como que um espelho do mundo, tão distorcido quanto se quer. As produções concebidas pelo arquiteto fazem parte integrante do próprio mundo e estão entre todas as outras coisas. O arquiteto, aos olhos de Rohmer, não refaz a natureza, mas enriquece-a com uma nova ordem equilibrada e simples, com novos elementos belos e úteis e também com um renovado olhar: “Par œuvre architecturale, j’entends, non pas le monument «en soi», offert dans un écrin à l’appétit du touriste, mais tout l’ensemble des «arts décoratifs», toute la masse des objets usuels, dans la mesure où ils se flattent de ressortir à l’esthétique. Ainsi la carrosserie d’une automobile, le tracé d’une rue entrent bien plus sous ma rubrique que telle colonne commémorative.” (Rohmer 2010, 71)


O cinema, para Rohmer, também constrói a sua ficção com a própria realidade. É uma nova organização do que já existe e promove um tipo de contemplação sem nostalgia, nem qualquer tipo de posse - apesar de alterar a nossa relação com a natureza, porque o ato de fotografar ou de filmar altera certamente proporções e distorce a escala.


Para Rohmer, as grandes e intermináveis planícies, as cadeias montanhosas e o infinito do mar só produzem em nós todo o seu efeito se houver alguma adição humana. Por isso, para Rohmer, a perfeita harmonia está na simultaneidade e na coincidência da natureza com o trabalho humano. Essa harmonia imperfeita é a verdadeira porta de entrada para a compreensão da autêntica ordem divina. A genuína arquitetura também manifesta em si o desejo de encontrar o eterno, o divino e o intemporal através da sua incompletude e da sua falha. A visão arquitetónica da vida é uma visão para sempre imperfeita, provisória e temporal.


Rohmer pensa que a vida perfeita e completa não é tema para nenhuma narrativa. O infortúnio e o tédio, esse sim deve ser a matéria primeira da arte, deve ser a sua principal substância.


Rohmer escreve que uma grande esperança nasceu com o advento da arquitetura moderna - a esperança por um mundo novo feito na extensão do nosso prazer e da nossa sede pela liberdade. Mas Rohmer considera que o arquiteto que começa do ‘zero’ e que que rompe com todas as tradições, se esquece que todas as formas e motivos que nos rodeiam foram moldados por um longo trabalho de várias gerações e por muitos anos de uso, inspirados também pelos lugares que nos circundam. Os novos materiais permitem sim mais e novas possibilidades mas as novas criações da ciência e da tecnologia pertencem a uma espécie diferente daquela a que pertencem os produtos que vêm da terra. As novas criações podem tornar-se em criações monstruosas e por isso cabe-nos a nós amaciar, aclimatar e moldar as formas à imagem daquilo que nos rodeia. Para Rohmer, a verdadeira forma é sempre orgânica e é sempre conformada pela natureza.


“Être modernes: oui. Encore faut-il que nos constructions actuelles fassent bon ménage avec les anciennes. Être modernes: bien sûr. Mais ce goût que nos contemporains éprouvent pour le passé, n’est-il pas un fait spécifiquement moderne?” (Rohmer 2010, 77)


Ser moderno, para Rohmer, passa por abraçar a tecnologia, mas passa também, certamente por olhar para o passado e aprender com aquilo que está para trás de nós. Rohmer chega mesmo a dizer que se o nosso amor pelo passado terminasse, quantas fábricas fechariam as portas e quantos hotéis estariam à espera em vão por turistas! Naturalmente, em todos nós existe uma curiosidade pela coisa antiga e pela história - talvez por uma qualquer aversão à esterilidade ou talvez como prova da nossa incapacidade em estar completamente satisfeito com o nosso próprio tempo.


Rohmer acredita que o mal dos arquitetos modernos talvez assente num grande equívoco que alguns filósofos defendem, ao afirmarem que a ordem é o princípio básico para que o belo se estabeleça - e essa ordem a que se referem está sempre relacionada com uniformidade e não com diversidade. A natureza, sem dúvida, ensina-nos que, pelo contrário, a ordem está na variedade e não na monotonia. Rohmer não defende como antídoto o culto desesperado pela diferença. Rohmer defende como solução a norma clássica. Na sua opinião a regra clássica é a única capaz de suportar a particularidade, a exceção e o individual.


Foi através do amor pelo cinema que Rohmer chegou ao seu interesse pela arquitetura e pelo mundo que o rodeia. É da própria vida e da natureza crua que o cinema deve ser composto e por isso só o ato de filmar, entre todas as artes, deve ser capaz de ser o verdadeiro reflexo do seu próprio tempo.


Rohmer escreve que infelizmente a nossa admiração pela arte depende de uma visão e de uma crença desmedida de que o espírito humano terá um progresso ilimitado rumo à perfeição infinita. Rohmer é incapaz de trabalhar sobre o eterno. Rohmer prefere perder-se na visão de um mundo finito e incompleto no tempo e no espaço, um mundo onde cada particularidade conta e contribui para o funcionamento de um conjunto, de um ciclo.


Nada é mais pobre do que a ideia de repetição perpétua ou a ideia de uma pretensa perfeição encontrada ou ainda a ideia do constante e do propositadamente diferente. Rohmer acredita ser muito mais emocionante a finitude das nossas criações ao serem constantemente incompletas e superadas pelas próximas. Rohmer finalmente acredita que não é impossível ser clássico e moderno em simultâneo - ao amar-se o seu próprio tempo abre-se sempre a possibilidade de unir o passado e o presente através do espaço.

 

Ana Ruepp

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