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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

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XVII. ALECRIM E MANJERONA

 

Um dos fantasmas mais perturbadores da nossa história cultural é António José da Silva, o Judeu (1705-1739), nascido no engenho do avô materno, Baltazar Rodrigues Coutinho, no bairro da Covanca, em São João de Meriti, no Rio de Janeiro. Seu pai era João Mendes da Silva, advogado e poeta. Ainda muito jovem foi viver para a freguesia da Candelária. Cristão-novo, sendo vítima da perseguição que dizimou a comunidade do Rio em 1712. Contudo, conseguiu manter a fé judaica secretamente. Sua mãe, Lourença Coutinho, foi deportada para Portugal, acusada de judaísmo pela Inquisição. Seu Pai veio para Portugal para acompanhar o processo da mulher, exercendo a atividade de advogado. António José estuda, provavelmente, no Colégio de Santo Antão e, em 1722, inscreve-se para estudar Leis e Cânones na Universidade de Coimbra. Em 1726, interrompe os estudos, regressando a Lisboa onde é acusado num primeiro processo inquisitorial. Também sua mãe, Lourença Coutinho, e os seus dois irmãos, André e Baltasar, são acusados de práticas judaizantes e condenados à abjuração. Em 13 de outubro, António é preso nos Estaus. Apesar de amigo do influente diplomata Alexandre de Gusmão, Conselheiro de D. João V, foi barbaramente torturado, tendo ficado inválido durante algumas semanas, sendo obrigado a abjurar no Auto-de-fé de outubro desse ano. Foi posto em liberdade, o que não aconteceu com sua mãe, libertada em 1729, depois de ter sido torturada e de ser considerada penitente num auto-de-fé. António José tem os seus bens confiscados e é condenado a pena de cárcere, hábito penitencial perpétuo e exigência de ser instruído nos mistérios da fé. Então voltou à dramaturgia depois de um curto período como causídico no escritório de seu pai com o irmão Baltasar. As suas sátiras têm grande sucesso, pela eficácia da crítica ao ridículo da sociedade, com referências frequentes à mitologia greco-latina. A única música operática que sobreviveu foi composta por António Teixeira. O sucesso artístico agravou, porém, a perseguição de que foi alvo. Nem a proteção do Conde da Ericeira impediu a perseguição.

 

Luís de Freitas Branco considerou António José da Silva o verdadeiro fundador da ópera nacional. Sem ele teriam decorrido trezentos anos da nossa história do Teatro, depois de Gil Vicente até Garrett, sem uma dramaturgia digna de registo. Pode dizer-se que António José da Silva simboliza no teatro português o período que corresponde ao reinado de D. João V, em pleno ideal barroco, envolvendo a luxúria e a ostentação de uma faustosa corte, beneficiária dos lucros do ouro do Brasil. Havia um chocante contraste entre a opulência e as misérias de uma sociedade frágil, pobre e atrasada e a Inquisição atuava impiedosamente, perseguindo judeus e cristãos-novos. Em 1733 representa no Teatro do Bairro Alto a sua primeira ópera, “A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança”. Morava então no Socorro, próximo do Teatro do Pátio das Arcas, que funcionava onde hoje é a rua Augusta, fundado por Fernão Dias de La Torre cerca de 1590. O teatro ardera em 1697, mas fora reconstruído como importante pátio de comédias, cujas receitas revertiam a favor do Hospital de Todos os Santos. Sente-se a influência da comédia espanhola, nomeadamente de Lope de Vega e Calderon de la Barca, designadamente pelo espírito inconformista segundo os ideais barrocos e os cânones usados em Itália e nos palcos europeus. O artista vive o espírito do tempo segundo uma arte menos retórica e mais ocupada com o deleite dos sentidos. António José da Silva escreve sobretudo em prosa, sendo que “a prosa deixara de se usar no teatro desde Sá de Miranda, Camões e António Ferreira”; inserindo a música na intriga dramática, de acordo com o modelo de transição entre a comédia espanhola e o melodrama italiano. No Teatro do Bairro Alto, numa sala do Conde de Soure, na rua da Rosa, adaptada às lides teatrais, chamada Casa dos Bonecos, António José faz representar entre 1733 e 1739 as oito óperas que lhe são atribuídas: D. Quixote (1733), Vida de Esopo (1734), Os Encantos de Medeia (1735), Anfitrião ou Júpiter e Alcmena e O Labirinto de Creta (1736), Guerras do Alecrim e Manjerona e As Variedades de Proteu (1737), Precipício de Faetonte (1738), esta última quando o autor se encontrava encerrado nos cárceres da Inquisição. Em 1735, António José da Silva casa-se com Leonor Maria de Carvalho, antiga penitenciada em Valhadolid, de quem tem uma filha Lourença. As suas peças e representações obtêm grande sucesso de público e reconhecimento nos meios cultos. Após a morte do Conde da Ericeira foi denunciado à Inquisição. Em 1737 é preso com a mulher, a mãe, o irmão e a cunhada durante as cerimónias judaicas de Yom Kipur. Após um longo processo é condenado em 1739 de convicto, negativo e relapso, sendo relaxado em carne, garrotado e queimado. Em 1744, Francisco Luís Ameno publica “Teatro Cómico Português” (2 volumes) onde se incluem as oito obras de António José da Silva, sem menção de autoria. Trata-se do exemplo de quem representa a vitalidade da cultura portuguesa, impondo-se contra a cegueira da intolerância. Falando das extraordinárias guerras, com música de António Teixeira (1707-1774), estamos perante uma ópera joco-séria, na qual dois galantes, pinga-amores e caça-dotes, D. Fuas e D. Gilvaz procuram cair nas boas graças de duas irmãs ricas, D. Clóris e D. Nise, utilizando o criado de Gil, Semicúpio, cheio de graça, entusiasmo e genica. As meninas andam disfarçadas, mas revelam a sua identidade por levarem uma um ramo de alecrim, outra um ramo de manjerona. Semicúpio arma estratagemas para introduzir o patrão na casa da pretendida, mas acaba por se enamorar de Sevadilha, criada de Clóris. Se o avarento D. Lançarote, tio das meninas, deseja casá-las com seu sobrinho D. Tibúrcio não consegue graças às artimanhas de Semicúpio – e no final, desfeitos os equívocos da comédia de enganos, casam-se os namorados e Semicúpio com Sevadilha.

 

Agostinho de Morais

 

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PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

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XVI. SEMPRE FERNÃO MENDES PINTO

 

É inesgotável a leitura da «Peregrinação». E ainda há muito caminho a fazer para compreendermos a importância desta obra única. Este é o fantasma com quem mais gosto de lidar. É um espírito autêntico, daqueles que a história nos reserva e podemos encontrar onde menos se espera. Ele, de facto, deixou toda a sua vida bem marcada no tempo e se houve quem duvidasse da sua existência e da sua verdade, fica-nos a certeza de que a personagem de António Faria é mesmo meio pessoa meio fantasma, por ser uma espécie de alter ego de Fernão Mendes. No seu caso nunca saberemos a verdade absoluta, mas sabemos, de ciência certa, que tudo o que ele passou foi algo que não deixou de acontecer, qualquer que seja o protagonista… Fernão Mendes Pinto construiu, no dizer de António José Saraiva, «um Oriente espantosamente humano, com estilo próprio. Um Oriente que não é feito só de cidades, templos e esculturas, mas também do estilo falado, de etiquetas humanas, de sentimentos típicos». Eis uma vantagem fantástica. Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto nos relatou. Pode até ter acontecido que não sendo ele, Fernão Mendes, o real protagonista de tudo, facilmente entendemos que tudo ocorreu de facto. E os estudiosos desse período são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos disseram sem ler Fernão Mendes Pinto. Enquanto as personagens dos cronistas talvez tenham feito o que dizem, as da “Peregrinação” marcaram mesmo a sociedade em que viveram e ainda hoje são relevantes…

 

O Padre Adelino Ascenso, missionário experimentado e culto com larga experiência no Japão, tem tido oportunidade de explicar urbi et orbi o difícil romance de um profundo entendido nas relações com os portugueses Shusaku Endo “Silêncio” (que Martin Scorsese levou à teka), sobre a apostasia de um jesuíta português no século XVII: “O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que Ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará d’Ele para todo o sempre”. Estava em causa a barreira de cultura entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. No entanto, o cristianismo no Japão é heterogéneo e surpreendente – há os mártires e os cristãos escondidos, os que deram testemunho e os outros, que preferiram mergulhar na vida japonesa, dilacerados entre a fidelidade do gesto e a fidelidade do princípio, tendo como fundo o silêncio dramático da dúvida e do remorso. “Podes pisar-me!” – parecia dizer Cristo representado no “fumie” usado para consumar a negação. Afinal, há o mistério do silêncio – ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. A distância cultural é mais forte do que os julgamentos precipitados. Fernão Mendes deve ser lembrado (como António Alçada gostava de fazer), sobre uma célebre conversa do Mestre Belchior com o rei japonês do Bungo: «o padre lhe tornou que muito satisfeito estava de seu bom propósito, mas que se lembrasse que a vida não estava nas mãos dos homens, pois todos eram mortais, e se ele acertasse de morrer antes (de se batizar), onde iria a sua alma? Ao que ele, sorrindo-se, disse: - Deus o sabe…».

Agostinho de Morais

 

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FRANCISCO OLHANDO PARA O FUTURO

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Com as tremendas responsabilidades que pesam sobre ele, o Papa Francisco olha para o futuro: o seu futuro, o futuro da Igreja, o futuro do mundo…

 

1. Qual o futuro de Francisco? Ele sabe que tem 85 anos e que anda em cadeira de rodas e que há rumores de renúncia no ar, tão desejada por alguns sectores ultraconservadores que anseiam por ver-se livres dele. De qualquer forma, mesmo sentindo-se um pouco diminuído, não está nos seus planos a renúncia para breve. Disse-o recentemente a duas jornalistas mexicanas, María Antonieta Collins e Valentina Alazraki: “Não tenho nenhuma intenção de renunciar. Para já, não.”

Repetiu a mesma coisa na conferência de imprensa no regresso da recente “peregrinação penitencial” ao Canadá. Confessou que uma eventual renúncia “não é uma catástrofe: pode-se  mudar de Papa, isso não é um problema”. De qualquer forma, acrescentou, “não pensei nessa possibilidade. Isso não quer dizer, porém, que não venha a pensar nisso num futuro próximo.” Evidentemente, não poderá “continuar com o mesmo ritmo de viagens de antes. Com a minha idade e com esta limitação, devo poupar-me um pouco para servir a Igreja ou até pensar na possibilidade de me afastar”. De qualquer forma, declarou: “continuarei a fazer viagens e a estar perto das pessoas, pois julgo que a proximidade é um modo de servir.” Deu como quase certa a sua viagem ao Kazaquistão em Setembro — “é uma viagem tranquila, é um congresso” — e reiterou a sua intenção de ir à Ucrânia e realizar a visita à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, prevista para os princípios de Julho e adiada por causa da recuperação do joelho.

 

2. Entretanto, a ida ao Kazaquistão, de 13 a 15 de Setembro próximo, foi confirmada pelo Vaticano. Para participar no VII Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais.

Precisamente aí poderia dar-se o tão desejado encontro com o Patriarca de Moscovo, Cirilo, que, desgraçadamente, continua a abençoar a invasão e a guerra da Ucrânia. Francisco, pelo contrário, com mais de 70 intervenções a favor da paz, tem manifestado disponibilidade para visitar tanto Kiev como Moscovo, colocando a diplomacia da Santa Sé ao serviço de uma mediação em ordem a uma paz justa e duradoura. Como acaba de declarar o Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, à revista italiana de geopolítica “Limes”, “o Papa gostaria de ir a Kiev para levar consolação e esperança às pessoas afectadas pela guerra”, anunciando igualmente a sua disposição  para ir a Moscovo, “desde que haja condições que sejam realmente úteis para a paz.” Afirmou: “A diplomacia da Santa Sé não está vinculada a um Estado mas a uma realidade de direito internacional que não tem interesses políticos, económicos, militares. Põe-se ao serviço do bispo de Roma, que é o pastor da Igreja universal. A Igreja é pacifista porque crê e luta pela paz”. Parolin reconheceu que o diálogo entre Roma e Moscovo é “um diálogo difícil, que avança com pequenos passos e também experimenta altos e baixos”, mas “não está interrompido”.  

Francisco vive sobremaneira preocupado com o perigo nuclear. Por isso, não se cansa de declarar como doutrina oficial da Igreja que “o uso e a posse de armas atómicas são imorais”.

 

3. Francisco deixa uma marca indelével na Igreja. Ele não quer uma Igreja “autorreferencial”, ela tem de estar aberta ao mundo, “em saída”. A liturgia tem de ser viva, não um ritual seco. Contra uma Igreja piramidal, centrada na hierarquia, afirma uma Igreja sinodal, na qual todos têm voz, sem tabus. Certamente a Igreja tem de ser fiel à tradição, mas uma tradição viva, contra o imobilismo... E, aqui, voltando à citada conferência de imprensa, fica um exemplo de abertura. Uma das perguntas incidiu sobre os contraceptivos. E Francisco aproveitou para reflectir sobre o dogma e a moral em vias de desenvolvimento, citando S. Vicente de Lérins, no século X: “a verdadeira doutrina para avançar e desenvolver-se não pode ficar parada, isto é, consolida-se com o tempo, mas sempre em contínuo progresso”. “Uma Igreja que não desenvolve o seu pensamento em sentido eclesial é uma Igreja que recua, e este é o problema hoje de tantos que se dizem tradicionais”, impedindo que a Igreja avance, apenas “porque sempre se fez assim.” São “tradicionalistas”, “retrógrados”. Deste modo, Francisco mostrou a abertura actual à contracepção.

Ainda sobre a renúncia. Francisco é jesuíta, e há um ponto essencial para um jesuíta: o discernimento. Ele irá, portanto, segundo as circunstâncias, discernindo, para tomar a decisão certa. Como ficou dito, irá ao Cazaquistão em Setembro. Em 28 de Agosto, visitará Aquila, cidade italiana onde se encontra o túmulo de Celestino V, o último Papa, antes de Bento XVI, a renunciar. Mas, logo no dia seguinte, os cardeais todos do mundo estão convocados para uma reunião. Francisco quer aconselhar-se sobre a reforma da Cúria e, sobretudo, o processo sinodal.

É minha convicção que ele, excepto no caso de total incapacidade, não renunciará enquanto Bento XVI viver. E tudo fará para poder estar presente, em Outubro de 2023, no Sínodo sobre a sinodalidade. 

 

4. Como ele próprio disse, quando vir que “não posso continuar ou prejudico ou sou um estorvo”, espera “ajuda” para tomar a decisão de retirar-se. E, retirado, não será “Papa emérito”, mas “bispo emérito de Roma”. E que fará? “Gostaria de atender confissões e ir visitar os doentes”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 13 de agosto de 2022

PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

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XV. RELENDO A “PEREGRINAÇÃO”

 

O caderno de capa vermelha de que já vos falei não só tinha notas sobre o itinerário de Maltese, mas também sobre a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, a obra fundamental sobre a presença dos portugueses no mundo. E João Bénard da Costa ajuda-me, ao citar Jean-Louis Shefer, quando nos fala da “doce loucura de falar com fantasmas na metade da vida”. Assim me sinto neste folhetim, onde a memória significa lidarmos constantemente com aqueles que já cá não estão, estando. E isso é um fantástico motivo para vivermos a eternidade. Atenhamo-nos à "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus". Houve quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos de viagens, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou logo em 1557, com a memória bem fresca. A publicação ocorreu trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram, o autor respondeu: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. É memorável o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário, para saber novidades de Liampó, "porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito", mas afinal era engano, pois a armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto. É inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia "derramador e bebedor do sangue português" e a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. "E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão...”. E lembre-se o episódio da vinda do Embaixador do Rei dos Batas. Foi agasalhado «o mais honradamente que então foi possível». E assim «o despediu bem despachado, e satisfeito do que viera buscar, porque lhe deu ainda algumas cousas além das que lhas pedira, como foram cem panelas de pólvora, e rocas, e bombas de fogo, com que se partiu tão contente desta fortaleza, que chorando de prazer, um dia perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja, virando-se para a porta principal dela, com as mãos levantadas, como quem falava com Deus, disse publicamente. Prometo em nome de meu Rei a ti Senhor poderoso, que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro das tuas riquezas que são os espíritos formados da tua vontade, que se te praz dar-nos vitória contra este tirano de Achem (…). E assim te prometo e juro com toda a firmeza de bom e leal, que meu Rei não tenha nunca outro Rei se não este grande Português, que agora é senhor de Malaca»…

Agostinho de Morais

 

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 15 a 21 de agosto de 2022

 

A Ideia de Decadência na Geração de 70, de António Manuel Machado Pires (Ponta Delgada, 1980) constitui uma obra fundamental para a compreensão da cultura portuguesa, numa perspetiva panorâmica.

 

António Manuel Machado Pires

 

FRADIQUE MENDES E ANTERO DE QUENTAL

A última vez que estivemos juntos, foi em S. Miguel, nos Açores. António Machado Pires ainda teve ânimo para nos lembrar as diabruras do nosso amigo Fradique Mendes. Companheiro de muitas peregrinações, ora intelectuais, ora sociais e políticas, ora profissionais, cheguei mesmo a desafiá-lo para uma difícil missão educativa, era um amigo dileto. Fradique foi nosso companheiro de reflexões e lembranças. Sobre ele falámos nesse último encontro: “Fradique Mendes viaja por todo o mundo civilizado (entenda-se Europa) e vai mesmo até ao oriente, onde constata que este está já tão decadente como o Ocidente… Aliás, a ideia de decadência havia de perseguir esta geração, que nos anos oitenta já estava a dar lugar a outra, fim de século. Num verdadeiro discurso de tentação, o diabo fala a Teodoro (n’ “O Mandarim”, de Eça de Queiroz) em carruagens de luxo com molas fofas como nuvens e Carlos da Maia também usufrui do conforto da mobilidade parisiense. De Paris vem a imagem do 202 de Jacinto, a quem Eça empresta traços que o fazem pertencer à geração de 70, contemporâneo de Antero” (Antero Hoje, 2017). Na lembrança do amigo que nos deixou, recordo ainda Almada Negreiros a afirmar, de modo insidiosamente chocante: «Ainda nenhum português realizou o verdadeiro valor da língua portuguesa (…) porque Portugal, a dormir desde Camões, ainda não sabe o verdadeiro significado das palavras». E António Machado Pires, com Vitorino Nemésio, compreendeu-o muito bem, afirmando as duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, uma idealista e outra racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio, devendo ambas ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na compreensão e na construção do “ser de Portugal” (para usar uma expressão de Pedro Lain Entralgo). A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par, na análise de António José Saraiva, a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no Portugal Contemporâneo), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Daí termos de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa.

 

UMA VISÃO PANORÂMICA

Ao contrário de considerações superficiais, designadamente sobre a Geração de 70, sem esquecer as raízes vindas de Garrett e Herculano, verdadeiros fundadores da nossa modernidade, António Machado Pires ocupou-se, com grande rigor, na demonstração do carácter complexo da cultura portuguesa como “melting pot” de múltiplas influências e de uma capacidade especial de assumir uma atitude crítica positiva, orientada num sentido emancipador, centrada não só nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, mas também na criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização. Por isso, Machado Pires, ao analisar o final do século XIX português como período de paradoxal decadência considera essa ideia «como “complexo de inferioridade” de povo que olha outros povos com consciência da sua inferioridade e com nostalgia da grandeza passada, mas, apesar de tudo, ainda com um sentimento de missão, que, mesmo em períodos de crise, parece poder manter-se. Não julgamos ter sido outro o mérito maior da geração de 70: inebriada de leituras novas, ter-se ocupado muito da decadência e da Revolução, acabando “vencida” ou conformada, mas como diz Eça de Fradique, nobilitando a nação e a cultura nacional pelo próprio ato de refletir e pensar. Isto é, provando que uma nação existe porque pensa». E assim se confirma que essa complexa geração de 1870 não tenha sido verdadeiramente vencida, até porque «Vencidos da Vida» é uma expressão irónica, como bem sabemos, saída de um diálogo irónico entre Ramalho e Oliveira Martins. “Battus” é o que verdadeiramente somos, diziam os dois companheiros, no sentido de zurzidos pelos acontecimentos, mas não como desistentes ou conformistas. Foi essa, aliás, a mesma ideia defendida por Eduardo Lourenço, em nome de uma imperfeição que originava uma exigência de atenção aos movimentos globais e de capacidade crítica capazes de entender o “país relativo” de Alexandre O’Neill como “meu remorso de todos nós”. E a circunstância de ter havido a atitude depressiva do pessimismo, a verdade é que nos libertamos dessa tentação, ficando-nos na real convergência entre o picaresco do maldizer e o amor-próprio que nos leva ao orgulho essencial quando falamos da grei. Daí a ideia cultivada por Machado Pires, na linha dos mestres das Conferências do Casino Lisbonense da crença numa capacidade regeneradora, já que a nação existe porque pensa.

 

AUTONOMIA AÇORIANA

Defensor da autonomia açoriana, o estudioso da cultura portuguesa compreendeu como poucos a pluralidade de fatores que permitem considerar uma identidade aberta. O Atlântico constitui uma convergência de influências, um verdadeiro laboratório cultural, que invoca a mítica Atlântida e articula a Macaronésia. Estamos na base do paradigma de um idioma que se projeta em várias culturas e diversas línguas. O Roteiro Cultural dos Açores que, Machado Pires coordenou, constitui um trabalho muito sério e aprofundado que não pode confundir-se com uma obra de divulgação, como alguns pretenderam. Trata-se de um repositório fundamental que terá de se constituir em ponto de partida para uma ação necessária de apresentação de um percurso esclarecedor para o visitante, que permita descobrir a magia de uma natureza inesgotável e de uma história complexa, a ligar naturalmente património material e imaterial, flora e fauna, paisagem única, além de lugar de criação artística e literária, social e cultural. Quem quisesse um simples roteiro turístico e se contentasse com superficialidades, precisaria de outro instrumento. No caso do mestre humanista, encontram-se as grandes referências culturais dos Açores, muito para além de postais à la minuta. E assim poderemos encontrar Gaspar Frutuoso, Antero de Quental, Vitorino Nemésio, Manuel de Arriaga ou Natália Correia e a esplendorosa identidade açoriana – onde tudo floresce entre o diálogo universalista, o sentido de pertença e a criatividade humana. Não por acaso, a iniciar A Ideia de Decadência na Geração de 70, Garrett é citado nas inesquecíveis Viagens: “Vi o Tejo, vi a bandeira portuguesa flutuando com a brisa da manhã, a Torre de Belém ao longe… E sonhei, sonhei que era português, que Portugal era outra vez Portugal».

 

Guilherme d’Oliveira Martins

 

PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO


XIV. OS TIGRES DE MOMPRACEM


A figura de Sandokan chega-me à lembrança e às mãos, na saudosa coleção da Romano Torres. Se acabo de falar de Corto Maltese, devo recordar que recentemente foram descobertas no espólio de Hugo Pratt diversas pranchas onde se documenta o encontro com Sandokan. E invoco Fernão Mendes Pinto, de Malaca até ao Japão, ligando a ele a alusão mítica e imaginosa de Sandokan, o Tigre da Malásia, não por ele só, mas também por Gastão de Sequeira, o português que o acompanha e representa os nossos mercadores e mercenários, que povoaram a Malásia, o Bornéu e as Molucas desde o século XVI. É muito curioso encontrar em cada canto do mundo um português. Corto é neto de um português célebre e Emílio Salgari colocou como braço direito de Sandokan um outro herói portuguesíssimo. É verdade que Emílio Salgari deu-lhe originalmente um nome pouco credível de Yañes de Gomera, mas a linhagem portuguesa não oferecia dúvidas. Entre nós foi conhecido como Gastão de Sequeira (que não deve perder-se). E Mompracem, a ilha celebrizada por Sandokan, que este desejava libertar do jugo de Sir James Brooke, pode ser Mengalum, nome relacionado com o grande Fernão de Magalhães, protagonista do maior feito na história da navegação, na grande travessia do Oceano Pacífico. Magalhães teria estado em Mengalum aquando da visita ao Sultão do Brunei… A alternativa seria a ilha próxima de Kuraman, mas a minha preferência é a outra. Devo aqui recordar aqui a prolífera tradutora portuguesa Leyguarda Ferreira (1897-1966), da série Sandokan em Portugal, bem como de Max du Veuzit e Magali, além de Dickens, Walter Scott, Jane Austen e Dumas. Foi ainda colaboradora de “O Senhor Doutor – Um Amigo que Diverte, Educa e Instrui” (1933-1944), ao lado de José Gomes Ferreira (o avô Cachimbo), Odette de Saint-Maurice e Ana de Castro Osório. Do mesmo modo que Júlio Verne, Emílio Salgari (1862-1911) era um falso viajante, que nunca deambulou além do Adriático, e que colhia informações em enciclopédias, revistas, relatos de viagens e mapas de longes terras. O jovem Emílio tinha vocação marítima, mas reprovou na escola naval, fazendo-se então repórter. Nos folhetins criou um universo de intensa ação, surpresas narrativas, cenários exóticos e personagens fortes. Umberto Eco em “A misteriosa chama da Rainha Loana” (2007) invoca o seguinte “estava de novo a remexer no armário, estavam lá todos os romances de Salgari, com capas coloridas, onde por entre volutas elegantes surgiam sombrio e impiedoso o Corsário Negro, e de cabeleira preta e bonita touca delicadamente desenhada no rosto melancólico, o Sandokan dos Dois Tigres, com a sua cabeça feroz de príncipe malaio num corpo felino, a voluptuosa Surama e os prahos [pirogas] dos Piratas da Malásia. (…) Era difícil dizer se estava a redescobrir alguma coisa ou se estava simplesmente a ativar a minha memória de papel, pois fala-se muito ainda de Salgari, e críticos sofisticados dedicam-lhe artigos cheios de nostalgia. A descoberta continua.
 

Agostinho de Morais

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE DIOGO VAZ PINTO


Lisboa –


Janeiro de dois mil e onze –, este
teu céu e dos meses frios parece
embriagar as aves derramando-se
lentamente. A vagarosa luz de tanque
morto devolve-nos o rosto
em cada um dos teus recantos de cansaço
e ângulos feridos onde ainda me acho
acumulando resíduos de uma idade
fabulosa. Os teus náufragos
à superfície destes jardins ácidos
de sombras, sombras que afiam o bico
nas lápides e os espiam, distraídos:
o olhar nesse gozo de ir pelo abandono
sob a asa do fim da tarde.


Cidade entre todas irreal, teu colo
firme resiste, sismo a sismo,
enquanto o sono nos inclina, e vagueio
como por um triste sonho de que
me cansei de acordar. Caminhos
onde teimam flores obscenas, pequenas
flores nauseabundas entre as raízes da chuva
e surdos sons, sorvendo essa luz esquecida
de que sobra um resto e vem separar-me
duas pulsações.


Nos teus cafés ardem, calmos, bebedores
de silêncio / emigrados doutros mundos,
sentados a estas mesas endoidecidas
onde entalharam pássaros, breves
compêndios e rotas que nos levaram
tão longe só para te sentirmos a falta.


Velhos rádios louvam sem descanso
a tua memória, ruínas de melodias,
notas que nos enchem o sangue, a voz,
só sublinhando este terrível encanto,
ecos e presenças deste teu belíssimo
mosaico d’escombros.
Tão perto das palavras, esse frágil
pulso: versos brancos à espera
de tudo. Ânsias, um bater d’asas,
algo que acenda o rastilho destas febres
etílicas, azias geniais.


Um puto desses de que mais gostas
tem uma navalha nas mãos e risca
casulos, retira-lhes a larva que aguardava
a beatitude do voo, e atravessa-as num fio,
ensinando-nos mais qualquer coisa
sobre isso da desilusão.


Vejo coisas, vejo-as mexer pelas tuas ruas
nestes ritmos de súplica, a doce humilhação
de figuras devorando-se umas nas outras
como em espelhos. A menina e moça,
está um pouco velha, mas o seu corpo
ainda é doce, uma leitura demorada
que chega e só fala a estranhos,
ou cala-se, cerra os olhos e, quieta,
parece dançar sozinha. Rara,
cada pequeno gesto quase histórico,
estende o seu fio de Ariadne entre
os teus bairros depredados. Este gosto
a declínio, a fim de império.
Esta hora em que todo o ocidente
receberá de um dos teus loucos
a extrema-unção.


Unpublished, 2011
© Diogo Vaz Pinto


Lisbon –


January twenty eleven – this
sky of yours and of the cold months seems
to inebriate the birds and spread out
at length. The slow light of the dead
pool hands its face back to us
at each of your tired corners and
wounded angles, in which I still find
myself gathering the residues of
a fabulous age. Your castaways
float on the surface of these acid
gardens of shadows, shadows sharpening
their beaks on tombstones, distractedly preying:
gaze that enjoys the abandonment
under the wing of late afternoon.


Unreal city among all, your firm
berth subsists from seism to seism,
while sleep leans on us, and I wander
through a sad dream
from which I’m tired of waking. Paths
where obscene flowers insistently grow, small
stinking flowers among roots of rain and
deaf sounds, sucking in the forlorn light
whose remains live between
two heartbeats.


In your cafés, drinkers of silence / 
emigrants from other worlds
serenely burn, sitting
at crazy tables engraved with birds, brief
compendia and routes that took
us so far only to make us miss you.


Old radios incessantly praise
your memory, melodies in ruins,
notes that fill up our blood, our voice,
just to impress on us your terrifying charm,
echoes and presences of your most beautiful
mosaic of debris.
So close to words, that fragile
pulse: blank verses waiting for
everything.  Yearnings, a flap of wings,
something to set fire to the fuse of these
ethylic fevers, genial indigestions.


One of those kids you most favour
holds a knife and slices
cocoons, pierces the larvae that hoped
for the beatitude of flight, and hangs them
on a string, teaching us something else
about that desillusion stuff.


I see things, I see them move about your streets
in rhythms of supplication, sweet humiliation
of self devouring figures
like in mirrors.  The maiden
has aged but her body
is still sweet, a reading that takes time
and when it arrives speaks only to strangers
or stays silent, closes her eyes and, standing still,
seems to dance alone. She’s rare,
each of her gestures is almost historic
and she pulls her Ariadne’s thread through
your plundered quarters. This taste of
decline, of end of empire.
This hour when all the west
will be given its last rites
by one of your fools.

 

© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO


XIII. VIAGENS NUM VELHO MAPA…


Cheguei à secção dos mapas. Procurei um próximo do nosso tempo, mas tive dificuldade, uma vez que as edições eram inglesas e francesas, mas não a que eu desejava. Fiquei, por isso a deleitar-me com uma versão de 1502… Falo do planisfério, dito de Cantino. É a cópia de um mapa de grandes dimensões que estava na sala das cartas da Casa da Guiné e da Mina, onde se administrava a exploração e a colonização dos territórios descobertos à ordem do Rei de Portugal. Provavelmente, Alberto Cantino, espião ao serviço do Duque de Ferrara, subornou um cartógrafo português, ou conseguiu que um ilustrador italiano reproduzisse clandestinamente esta preciosidade da altura. Conta-se a pequena história de que Cantino pagou doze ducados pela carta e recebeu do Duque de Ferrara vinte ducados por tê-la conseguido. Junto da gravura que tenho, feita no século XIX, a cores, encontrei um pequeno caderno de capa vermelha, onde anotei os roteiros de Corto Maltese, que a seguir reproduzo… «Nasceu o maltês, descendente de um português, grão mestre da Soberana Ordem de Malta, em La Valetta, em 1887, e foi com sua mãe para Gibraltar, tendo ainda vivido no Bairro judeu de Córdova e frequentado, por influência do Rabbi Ezra Toledano, em Malta, a escola judaica… A vida aventurosa começou cedo. Em 1900, com treze anos, encontrámo-lo na China, aquando da revolução Boxer. Em 1904, com dezassete, embarca em Malta, como marinheiro do “Golden Vanity” e faz um percurso longo: Ismailia (Egipto), Aden, Mascate (onde encontra a memória da presença portuguesa no Gofo Pérsico em Oman), segue para Karachi, Bombaim ou Boa Baía, cidade que foi dada pelo rei de Portugal como dote de D. Catarina de Bragança aquando do casamento desta com Carlos II, (referências dos portugueses no bairro de Mazagão), Colombo (em plena Taprobana, Ceilão), Chenai, (Madras), Rangun (Mianmar), Singapura, Kowloon (Hong Kong), Xangai e Tien-Tsin. Rumo à Manchúria – Corto encontra-se com Jack London (1876-1916) e com o homónimo do monge louco russo, Rasputine, em plena guerra Russo-japonesa. Em 1905 está nas Celebes, a oeste de Bornéu, no mar partilhado pela Indonésia, Filipinas e Malásia. E segue para a América do Sul: Chile, Argentina, e entusiasmando-se com a Patagónia. Regressado à Europa, em Ancona, encontra-se de novo com Jack London e descobre Eugene O’Neill (1888-1953). Entre 1908 e 1913 faz um périplo fantástico – Marselha, Trieste (onde encontra James Joyce) e Tunísia. Parte para América do Sul, envolvendo-se na magia de Salvador da Bahia, e depois nas Antilhas e Nova Orleães – e volta para a Ásia – Índia e China, com especial atenção à Indonésia, Java, Samoa e Tonga. É o tempo da “Balada do Mar Salgado”. É a convulsão do primeiro conflito mundial. Corto embrenha-se no Pacífico, na Nova Guiné, e segue para o Chile (Iquique), Peru (Callao) e Equador. No Panamá Corto e Rasputine separam-se, porque este tem cabeça prémio nos EEUU. E em 1916 Maltese viaja pela América Latina, Guiana francesa e Suriname. Em 1917 o cenário é o das Antilhas, Belize, Maracaibo, Venezuela, Honduras e Amazonas ocidental, perto dos Andes. 1917 é o tempo dos celtas em Veneza e Dublin e no ano seguinte: França, Iémen, Somália e Etiópia. Passada a página da guerra sangrenta, o percurso é Xangai, Manchúria, Mongólia e Sibéria. É a estranha missão da sociedade secreta chinesa das Lanternas Vermelhas, de recuperar o tesouro da família imperial russa que se encontra na posse do almirante Kolchak. Com Rasputine segue entre a Sibéria e Hong-Kong. Regressa à cidade dos Doges e o mundo onírico invade a narrativa, 1921. Em Rodes vai estudar, de outro modo, a viagem de Marco Polo, desta vez para tentar descobrir o fabuloso tesouro de Alexandre, o Grande. A Turquia, o Irão e a URSS estão a criar-se. É “A Casa Dourada de Samarcanda”, a defesa da vida de Rasputine e uma perigosa viagem: Azerbaijão, mar Cáspio, Tadjiquistão, Paquistão, Afeganistão. Corto testemunha a morte do líder dos jovens turcos Enver Pasha. Entre 1923 e 1936, as viagens sucedem-se; Argentina, Suíça (encontro com Hermann Hesse e Tamara Lempicka), Caribe (ainda com Rasputine) em busca de Atlantis; Etiópia com lembrança de Rimbaud em Harar (Etiópia) e ainda encontro com Teilhard de Chardin»… Mas o sistemático pequeno caderno tem mais…


Agostinho de Morais

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ANTOLOGIA


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA


"... la douce folie de parler avec des fantômes durant la moitié de sa vie" 

Jean Louis Schefer


1
 - Desde 1997, Jean Louis Schefer manda-me, com regularidade, os livros que publica e que, nestes quase sete anos, são já 19. Tudo começou, andava eu de cadeira de rodas, quando ele veio a Lisboa, num Julho suave, para apresentar 20 filmes a que chamou "imagens efémeras e inquietas". De imagem em imagem, fomos conversando efémera e inquietantemente. Havia de quê, já que juntar a história do homem que minguou tanto que se transformou num verme ("The Incredible Shrinking Man", Jack Arnold 1957) à Paixão de Cristo ("Ato da Primavera", Manoel de Oliveira, 1963) ou à Ressurreição da Carne ("Ordet", Carl The Dreyer, 1955) não parecia coisa muito ortodoxa, nem muito sossegada. 


E, numa certa tarde de Sintra, à ida ou à vinda de Seteais, pensei estar diante do homem certo para me acompanhar num desafio que há muito eu tinha comigo mesmo. Organizar um ciclo sobre "Cinema e Pintura", que fosse tudo menos o costumeiro desfile de filmes de quadro na boca (género dessa "Rapariga com Brinco de Pérola" que anda por aí a extasiar tanta gente) ou de filmes de pintores, com pintores ou sobre pintores. Julgo que ele percebeu mais ou menos o que eu queria dizer na minha (não era fácil) e aceitou o convite à viagem. Até a ideia se concretizar, num nevoento seminário no Convento da Arrábida, em Novembro de 2001, e numa missanga de mini-ciclos de nove em renge durante o ano de 2002, foi a minha vez de ter muitas surpresas. Às duas por três, achei-me metido numa "academia de segredos", em que o segredo para se ser académico era estar nas boas graças do Sumo Sacerdote, obviamente o próprio Schefer. Para meu grande espanto, vi-me mesmo transformado em personagem de ficção nos capciosíssimos diários dele, chamados "Main Courante". Um dia contarei a pele que ele me fez vestir, associando o fantasma da infanta de Oscar Wilde ao de "une toute jeune fille", que entrou na sala enquanto eu contava a história do tal anão. Adiante, que eu próprio vivo mais no imaginário dos outros do que nas memórias minhas, com culpas repartidas. Mas, agora, que há um certo tempo não o vejo e há um certo tempo lhe devo notícias (tarda a sair o livro das minhas pinturas e dos cinemas dele), Jean Louis Schefer voltou a bater-me à porta. Com força.


2
 - Publicado pelas Editions Enigmatic (estão a ver?) chegou um livro que, se se não chama "A Casa Encantada", chama-se "Uma Casa de Pintura" ("Une Maison de Peinture"). 


Schefer socorreu-se do camaleão de Tertuliano, esse bicho "que tem a virtude de mudar completamente sem deixar de ser o que é", para fazer desfilar em reproduções de qualidade desigual, mas todas oriundas de fabulosos originais, uma espécie de "museu bem pouco imaginário", onde, em grandes páginas, lado a lado, se "reorganizam por simpatia, malícia ou ingenuidade", museus bem reais, propondo associações que mais têm que ver com afinidades emocionais do que com escolas, épocas ou autores. A pintura tem um lugar predominante, mas as associações não são apenas entre quadros. Cristalografias e celestografias de Strindberg, baixos-relevos dos Templos de Luksor, pavimentos das Catedrais de Chartres, de Amiens ou de Otranto, o fresco do Mergulhador de Paestrum, fotografias de Deakin (o retrato de Bacon com as postas de carne) o pré-histórico "Painel dos Leões" da Gruta de Chauvet, desenhos de escritores, juntam-se à "perpétua instabilidade da pintura" na edificação desta singular casa-livro com paredes de papel. 


Livro que cristaliza um velho sonho meu, livro que as "Metamorfoses" de Jorge de Sena anunciaram (agora percebo porque é que Schefer tanto me pediu esses poemas, de que lhe falei), livro que me confirmou na certeza de que nós próprios somos a mutação ou metamorfose maior de todos estes fantasmas. Fantasmas das salas escuras e dos museus velhos, fantasmas que não são nosso duplo, mas nosso uno.


3
 - Os 164 fantasmas invocados por Schefer - ou convocados para a casa de Schefer - vêm de todas as épocas. Já me referi à pré-história e ao Egipto. Podia ter citado os frescos bizantinos da Moldávia ou um mural românico de Saint-Savin sur Gartempe ("A Arca de Noé"). Depois, de Giotto a Bacon, muitíssimos foram os escolhidos. O mais representado é Goya, porventura por ter sido quem mais buscou monstros no sono da razão geradora. Há associações estupendamente evidentes como a que aproxima o "Study after the Human Body" de Bacon ao inadjectivável retrato do Arcebispo Filippo Archinto, do Museu de Arte de Filadélfia, que havia jamais visto, por e para vergonha minha. Em Bacon, um homem nu, de costas, acaba de atravessar um cortinado violáceo e transparente, mas tudo é tão seco e áspero que se dissolve qualquer diafaneidade; em Tiziano, o véu do cortinado, cobrindo apenas a metade esquerda do corpo sentado do arcebispo (pomposamente vestido e enquadrado acima dos joelhos) deixa ver muito mais dele do que a metade desvelada. Não o obscurece, ilumina-o, ao mesmo tempo que lhe transforma a carne (a mão esquerda pousada no colo), numa espécie de caveira ou de máscara mortuária, em que mais avultam os espaços negros entre os dedos do que estes, como se fosse disforme mão, mão que podia ter sido pintada por Bacon. A fantasmagoria repassa do nu de Bacon para o excesso de indumentária do príncipe da Igreja e a alquimia da aproximação opera o mesmo milagre que tanto conhece quem conhece museus: do "São Jorge e o Dragão" de Uccello para a "Anunciação" de Filippo Lippi, no National Gallery de Londres, da "Salomé" de Cranach (aliás, uma das reproduções do livro) para o "São Jerónimo" de Dürer no Museu das Janelas Verdes. 


Mas há associações (e são as mais numerosas) que só se descobrem após muito ver ou que passam de página para página: do sexo que o "Grand Nu Rose" de Picasso (do MOMA) esconde pudicamente com as mãos, passa-se para o que a "Maja Desnuda" de Goya nos oferece. Entre eles, vê-se o Bellini de Besançon ("A Embriaguez de Noé") em que sempre tive as maiores dúvidas sobre qual ou quais dos três filhos do Patriarca cobrem com o manto de seda rosa as vergonhas do pai (esse velho estranhíssimo, de longas barbas brancas e corpo de adolescente efeminado) ou se todos o estão a desnudar, na expectativa perversa de ver finalmente aquilo que todos fixamente olham.


4
 - De qualquer modo, para quê tantas palavras quando visões não tenho nenhuma para vos dar, à exceção da que aleatoriamente escolhi e que não é nenhuma destas: o desenho de Miguel Ângelo, a lápis preto sob papel, chamado "O Sonho da Vida Humana", que se conserva nas Courtauld Institut Galleries. 


É estulto o meu propósito, como são estultas tantas palavras? Demasiado sei que sim e demasiado sei que não. Sim, porque o leitor não tem acesso aos fantasmas de Schefer nem aos meus e não tem diante dos olhos, como eu tenho, essas aparições e essas metamorfoses. Não, porque à leitura outros fantasmas - pelo menos assim o acredito - virão avejar em vosso redor, por muito diversos que sejam das figuras fantásticas que ora evoco. Como escreve Schefer: "Deve ser do museu, como da coleção que formamos na ideia, como de biblioteca. Nada se segue por necessidade. Mas tudo se adiciona segundo uma ordem imprevisível. Em labirintos estamos." E em labirintos, por hoje, não mais me aventuro, que para a próxima cá estarei de novo, com outros desses fantasmas com quem falei mais de metade da minha vida. 


Mas não vos deixo sem vos contar o sonho do Dilúvio, sonho de liquefacão (sonho do "Mergulhador" de Paestum), sonho final ou sonho inicial, quando viemos dos fantasmas ou para os fantasmas voltarmos. Albrecht Dürer o sonhou e assim contou: 


"Em 1525, na noite de quarta para quinta-feira depois do Pentecostes, tive, durante o meu sono, a seguinte visão: numerosas e fortes trombas de água caíam do céu. 


A primeira chegou à terra, a quatro milhas de mim. Com terrífica potência e imenso estrondo, esmagou-se no solo e inundou as planuras. E foi em mim um tal terror que despertei antes que outras trombas tombassem. Mas as trombas que tombavam tão fortíssimas eram como as da visão que tivera. Umas longe tombavam, outras tombavam perto, de tão alto vindo que se me afigurava que lento era o seu tombar. Mas, quando a primeira tromba que atingiu a terra chegou mui cerca de mim, tombou com tal rapidez, acompanhada de tanto vento e de tanto estrépito, que me atemorizei a tal ponto que, despertado, todo o meu corpo tremia e passou longo tempo antes que recuperasse o ânimo. De manhã, ao alevantar-me, pintei tudo isso tal como o havia visto." 


No que Dürer pintou não ficou representado qualquer corpo. Apenas céus, nuvens, água e terra empapada. Schefer ensinou-me que alguns sustentaram provir a palavra "forma" do grego "orama", que é "orai", ou seja "eu vejo". 


Enquanto outros disseram que a palavra derivava de "morpha" por "morphé". Morfeu é, como se sabe, o filho do Sono e da Noite, o irmão de Fantásios e de Fobétor, aquele que dá os sonhos aos homens. Representavam-no com asas de borboleta e tendo na mão um ramo de papoilas, dessa espécie a que também se chama malícia-de-mulher. Voltei ao princípio: doces folias.


João Bénard da Costa

7 de fevereiro de 2004, Público

PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO


XII. DE SÚBITO, A ILHA DE MALTA…


Continuo às voltas com as pilhas de livros da minha biblioteca. Desta vez, despedi-me por um pouco do fantasma de Camilo Castelo Branco, a quem voltarei em breve. Ontem à noite, depois do meu passeio higiénico, vislumbrei numa das esquinas do meu bairro um amigo do velho Calisto Elói. Confesso-vos que quase me esquecera dele. Tem a mesma pose fora de moda e a distração própria de quem há muito não vive neste mundo, mas é um apaixonado da banda desenhada e tornou-se um colecionador frenético de aventuras de Banda Desenhada. Desta vez, fiz por nos desencontramos, mas uma das nossas últimas charlas foi sobre a genealogia de Corto Maltese. Em lugar da recordação medíocre de Calisto, embrenhou-se agora na descoberta das raízes familiares portuguesas do herói de Hugo Pratt. E depois de ler as «Memórias Secretas» de Mário Cláudio (D. Quixote, 2018) entrou na busca sistemática dessa ligação lusitana. Tudo começou quando percebeu que o mundo dos fantasmas de Mário Claúdio constitui um manancial inesgotável. A vida reserva-nos muitas surpresas!... O entusiasmo do meu conhecido é tão sistemático e até doentio que ele vive presentemente num novo mundo de fantasmas – uma plataforma de ironia e pesadelo, como se se tivesse mudado em sonhos para Veneza, com “Casanova, saltando da masmorra para uma coluna, e depois para um telhado, Scarlatti vogando de rosto velado por tules vermelhos, cautério para a sua incurável antropofobia, quem poderá garantir que não resultante da obsessão cultivada pelas ninfetas órfãs, e cantoras de um coro de querubins”. A Sereníssima República dos Doges é um mundo à parte de tudo o que possamos conhecer. Entre Lorde Byron e George Sand, Ruskin e Hemingway, aparece o imprevisível Corto Maltese. Também eu, como Mário Cláudio, conheci tardiamente a personagem, já que só em 1967, na revista “Sgt. Kirk”, Hugo Pratt lhe deu corpo. E tornou-se um notável mito romanesco – nascido a 10 de julho de 1887, filho de Vânia “la Niña de Gibraltar” (de quem Ingres se enamorou) e de um marinheiro da Cornualha. Corto foi dado à luz na ilha de Malta, sede da Soberana Ordem, na descendência de um português célebre, Grão-Mestre da dita Ordem, Frei Manuel Pinto da Fonseca (1681-1773). E deve lembrar-se que foi em sua em honra que a cidade de Qormi, onde se produz o melhor pão da ilha (e quiçá da Europa), se designou como Cittá Pinto, adotando o seu brasão de armas, com cinco crescentes vermelhos, simbolizando os otomanos que o mestre venceu com a própria espada de uma só vez. Os outros três Grão-Mestres da Soberana Ordem de Malta foram: Frei Afonso de Portugal (falecido em 1207), Frei Luís Mendes de Vasconcelos (falecido em 1623) e Frei António Manoel de Vilhena (1663-1736). Pinto da Fonseca fora milagrosamente salvo, depois de uma grave doença, pela sedutora Severiana, mãe da avó Corto, Maria de los Milagros, filha de Pinto da Fonseca. Milagros não teve as glórias que seu pai gostaria que tivesse tido, pois quem sucedeu a Pinto da Fonseca pôs fim a todas as honras. E assim temos a estirpe portuguesa de Corto, que ganhou tal nome pela exiguidade do seu corpo à nascença. Com estes novos elementos, talvez compreendamos melhor o fundo aventureiro, de quem se apaixonara pela obra-prima de Thomas Morus, ou não fosse português Rafael Hitlodeu… E como chegou Corto a Portugal? Pela mão de Dinis Machado e Vasco Granja, em 8 de março de 1975, na revista Tintin. Dir-se-ia que Mário Cláudio legitimou essa opção e completou-a. Hugo Pratt faz desaparecer Corto Maltese durante a guerra de Espanha, mas não foi o fim… Não desapareceu então, como assevera uma carta de Pandora. A 3 de novembro de 1941, dizem as “Memórias Secretas”, apesar da guerra sangrenta, Corto arrendou uma pequena casa na Ilha de Burano, na lagoa de Veneza, no Adriático, onde também moraram Tarao, Pandora, Abel e Sephora. Mas aí temos matéria para mais enigma....


Agostinho de Morais


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