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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ANTOLOGIA

  


UM DIÁLOGO ECUMÉNICO SÉRIO
por Camilo Martins de Oliveira 


Minha Princesa de mim:


Chegou-me hoje uma carta breve do M... Começava assim: "Teço / solidão e silêncio /e não esqueço / as ditosas horas /em que fui feliz..."  Pouco mais dizia, sabes bem como ele sempre foi solitário e silencioso sobre si. Inesperado, por isso, foi ouvi-lo dizer aquilo. Estava escrito, mas era como um desabafo saído do coração na boca. Deixou-me perplexo. Soube, antes, que ele anunciara aos seus alunos que se retirava. E que alguns deles lhe tinham escrito, sem nada mais pedirem, que não esqueceriam o muito que ele lhes ensinara... Ao que apenas respondera que nunca ensinara nada, que apenas partilhara coisas queridas do seu coração, tão queridas que até lhe tinham passado pela cabeça! Conheci-o de pequeno, menino como eu. Ambos órfãos de pai, irmãos de alma nos tornámos e ficámos. Eu, talvez, mais aparentemente condescendente, mais convencional. Quiçá rebelde e refilão, mas sempre atento à circunstância. Ele, ele sempre gostou do desacordo como modo de interrogação. E nunca o escondeu. Questionar, contestar, sempre foi, para o M..., não um capricho, nem uma leviandade, mas antes o seu modo pessoal de estar com os outros, de lhes dizer que os amava porque respeitava a inteligência deles e os considerava capazes de reverem ideias adquiridas. Por isso mesmo, detestava o "fala barato", o presunçoso. Odiava a mediocridade. Dizia que as constipações se curam de janela aberta, que um cérebro emperrado só o é por não querer mexer-se! Claro que se dizia que tinha "mau feitio". Mas, com raras exceções, os que com ele privaram, alunos e colaboradores, reconheceram-lhe e retribuíram-lhe a amizade com que ele, mesmo aparentemente zangado, generosamente lhes fazia justiça. Muitas vezes me lembrou o Padre Chenu, frei Marie-Dominique. Curiosamente, é com homens assim que aqueles a quem, por preconceito obedecido, chamamos infiéis ou incréus, finalmente se abrem mais. Pois não há maior elogio da diferença - como parceira de diálogo - do que interrogá-la connosco. O documento "De Oecumenismo", do Concílio Vaticano II, trata também das relações da Igreja, e da fé católica, com o Islão. Essa parte, como referiu o Cardeal Béa ao apresentar o documento aos dois mil bispos reunidos na Basílica de S. Pedro, teve a aprovação prévia do Institut Dominicain d’Études Orientales du Caire, considerado - tal como o Instituto Pontifício de Estudos Orientais da Tunísia, dos Padres Brancos - uma autoridade na matéria. Esse Instituto e a sua qualidade são fruto da visão e da persistência de Marie-Dominique Chenu. Conheci-o no Saulchoir, na festa de S. Domingos, a 4 de agosto de 1941. Fui lá para visitar um estudante dominicano, então discípulo do Padre Chenu, depois um dos primeiros membros do Instituto do Cairo e, hoje ainda, residente em Kabul, no Afeganistão. Deves saber quem, é de uma família com que temos alguns laços de parentesco: falo do frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil. Na altura, em plena guerra, o Padre Chenu ia formando o primeiro grupo de religiosos dominicanos que integraria o Instituto, dotado de autonomia e oficialmente reconhecido em 1953, a 7 de março, na festa de S.Tomás de Aquino: Jorge Anawati, egípcio, cuja língua materna era o árabe, e que foi o primeiro presidente, Tiago Jomier que, para o efeito foi estudar árabe e islamologia para a Sorbonne, e o nosso parente que, antes de entrar para a Ordem dos Pregadores, escolhera como 2ª língua, no liceu, o árabe falado no Egipto! Para se instalarem no Cairo, tiveram ao dispor o convento edificado pelo Pe.Jaussen, professor na Escola Bíblica de Jerusalém, em 1928, para receber os estudantes daquela escola dominicana no tempo que passavam no Egipto, para se familiarizarem com a arqueologia local e seus achados e visitarem o Sinai. Aliás, já o Rei Fouad convidara o Pe.Jaussen a fundar uma academia de sábios dominicanos no Cairo, ideia que ficou na memória da Ordem, por ser tentadora a fundação de um centro de estudos sobre o Islão na cidade onde se encontra a maior universidade muçulmana do mundo... Ideia que, nos anos 30, depois de uma ida a Jerusalém e ao Cairo, o Padre Chenu expôs, em Roma, ao Cardeal Tisserant, ex-aluno da Escola Bíblica e Prefeito da Congregação Oriental no Vaticano. Vale a pena citar-te um texto do Pe. Anawati: "Ninguém melhor do que o Pe.Chenu poderia sentir a importância e urgência de tal Centro... O seu íntimo conhecimento da Idade Média há muito o tinha sensibilizado para o problema que o "arabismo" levanta. Sabia o que tinham sido, para Santo Alberto e S. Tomás, Avicena e Averroes, conhecia melhor do que ninguém a importância das fontes árabes para o estudo técnico das ideias filosóficas na Idade Média. Muito atento ao movimento das ideias, à animação das culturas, às possibilidades enriquecedoras dos intercâmbios culturais, tendo medido a importância atual de uma religião como o Islão, à qual pertencem mais de 400 milhões de homens (o texto é de 1964), e que tem um passado tão ligado aos destinos do Ocidente, logo percebeu o papel que a Ordem de S. Domingos devia desempenhar nesse domínio". Sobretudo, minha Princesa, porque a guerra, a ascensão do comunismo, a confusão das mentes europeias perante o absurdo aparente de tudo, o movimento ecuménico cristão, o previsível advento de novos Estados-Nação com novos centros de expressão religiosa que escapariam ao controlo político, nos protetorados e colónias que se emancipavam das potências europeias, tudo isso aconselhava a humildade, o respeito do outro e o diálogo. É espantoso para muitos, admirável para todos, que o Vaticano do Papa Pio XII tenha expressamente instruído os fundadores do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo para que se concentrassem mais na tarefa de mostrar ao mundo - designadamente à cristantade e ao mundo muçulmano - a mensagem religiosa e espiritual do Islão, do que em fazer proselitismo religioso. Assim, este Centro de Estudos é, ainda hoje, como pude observar numa recente viagem ao Egito, um ponto de encontro, no mundo árabe e universitário, do diálogo inter-religioso. Nessa ocasião, voltei às "Cartas do Egipto" do jesuíta Teilhard de Chardin que, em 1907, do Cairo escreve a seus pais, sobre o regresso a casa de peregrinos a Meca: "Todo o cortejo penetrava lentamente na rua que ladeia os grandes hotéis, estorvando a circulação mas provavelmente para grande alegria dos turistas. O lado impressionante da cerimónia é ver os indígenas acorrerem em grande número ao santo que regressa de Meca, a fim de lhe beijarem as mãos: aí também há uma ideia muito religiosa e muito elevada"... Mais uma curiosidade: na edição das "Lettres d´Égypte" pela Montaigne, em 1963, a apresentação prefacial é feita por Henri de Lubac, jesuíta também e que, com os dominicanos Congar e Chenu, de quem é amigo, foi teólogo do Concílio Vaticano II e... medievalista! A introdução de uma perspetiva histórica fundamentada na investigação teológica trouxe alma nova à reflexão de uma religião incarnada." Com esta carta de Camilo Maria, ocorreu-me algo que eu mesmo disse a um jovem padre, meu amigo, e que não repetirei aqui. Apenas recordo que, além da tradução do "Shifá" de Avicena, a obra mais celebrada de frei Jorge Anawati tem por título "Introduction à la Théologie Musulmane".


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 05.07.13 neste blogue.

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


142. PROMETEU E A REJEIÇÃO DA ORDEM ESTABELECIDA


Prometeu era um titã, um gigante, um profeta, um inventor, de quem Zeus temia o poder, cujo nome significa “aquele que vê antes”, com clarividência, perspicácia, que subiu ao Olimpo para roubar o fogo dos deuses (imortais) e fazer dos homens e mulheres (mortais) quase seus iguais.     


Ao subtrair o fogo dos deuses, fonte do conhecimento, entregando-o à humanidade, despertou a fúria das divindades, sendo punido pelo desafio sacrílego ao transgredir a ordem estabelecida pelos poderosos, advertindo-o do dever de ser obediente.


A interpretação do mito sob o signo de Prometeu, assenta na convicção de que todo o progresso resulta de uma rejeição do “status quo”, das ideias feitas, de que a evolução, transgressão e revolução intelectual promove o progresso humano, que o avanço científico e do saber é essencialmente profanador e ímpio, sendo de início recusado e repudiado, depois contestado, tolerado e, por fim, aceite, custando ao seu autor marginalizações, perseguições, por vezes a morte.


Ensinando ao homem a transformação e utilização das forças da natureza, de que pode ser senhor do seu destino, que graças à razão pode igualar-se aos deuses, dá-lhe a oportunidade de poder usar o conhecimento, tanto para o bem como para o mal, justificando-se a transgressão quando premiada pelo sucesso, passando de transgressor a herói, sancionado por todos, até que uma nova descoberta ou ideia de progresso se banalize, massificando-a.


Personifica o combate à tradição, a agressividade, inovação e desafio ao poder estabelecido, sabendo-se por antecipação que qualquer vanguarda ou progresso, pela sua própria essência de experimentação constante, está sempre condenada à efemeridade, pois outras alternativas acabarão por superar as anteriores.    


21.07.23
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Os especialistas dos ofícios a tempo inteiro


A história tem enfatizado que comerciantes, políticos, generais, advogados, sacerdotes, médicos, entre outros donos de saberes específicos, se agruparam para proteger a sua “propriedade” num diagnóstico de verdade demasiado genérica, assimilada completamente no poder da ascensão do Estado.

Estas elites são criaturas de classes dominantes que não descuraram - na organização das sociedades - o extrair para si mesmas, boas fatias à manipulação de poderes.

Crê-se que os “administradores” de todos os ofícios a tempo inteiro, imaginaram que tudo era possível gerir não partilhando excedentes, até a nível da cultura, excedentes, cuja distribuição abanasse alicerces que colocassem em causa a justificação do seu poder.

Assim, físicos, teólogos, matemáticos, entre outros que desempenhassem as especialidades de ofício a tempo inteiro, tornaram-se também talentosos caçadores das artes, aceitando estas cumprir o suficiente, nas relações de dependência, para que no retorno lhes coubesse um espaço de visibilidade reconhecido.

Ora, tudo isto contrasta muito com o desejo que se invoca de um projeto de mundo diferente do atual e que possa dar frutos num futuro condigno aos seres.

Parece que ainda se não descortinou um investimento que ultrapassasse o lucro para muitos indivíduos que o obtêm do exercício do poder uns sobre os outros.

Parece que ainda as correntes de um cativeiro algo dissimulado e até aparentemente polido, se continuam a organizar esperançosas de que a realidade se mantenha esta, e que seja tudo menos diferente.

Sugere-se, em última análise, que sempre foi assim e assim será, e que o modelo da “gratificação” cria sempre algo igual, e que, a ele, quase todos estamos presos, na sedução e na aceitação do conteúdo do mesmo.

Enfim, este, um patamar elevado sem a mácula do fracasso, que os especialistas dos ofícios a tempo inteiro ainda sugerem que nos inscrevamos como alternativa convincente.


Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


A forma da capela de Notre-Dame-du-Haut domina com autoridade mas admite concessões através da experiência e dos fenómenos a que está exposta. 


‘1950-1955. Liberté: Ronchamp. Architecture totalement libre. Pas de programme autre que le service de la messe, - l’une des plus vieilles institutions humaines. Une personnalité respectable était toutefois présente, c’était le paysage, les quatre horizons. Ce sont eux qui ont commandé. Véritable phénomène d’acoustique visuelle. “Acoustique visuelle, phénomène introduit au domaine des formes”: les formes font du bruit et du silence; les unes parlent, les autres écoutent…’  Le Corbusier In L’atelier de la Recherche Patiente (Le Corbusier 2015, 166)


No texto “Actualidade de Le Corbusier”, de Nuno Portas (Portas 2005, 180-194) lê-se que a Capela Notre-Dame-du-Haut em Ronchamp (Le Corbusier, 1955) surgiu já após do movimento CIAM (Congressos Internacional de Arquitetura Moderna) se ter desagregado e após os discípulos de Le Corbusier e camadas mais jovens terem posto em causa os diversos lados do método e do vocabulário do racionalismo e o estilo internacional. 


No início da década de 1950, Portas explica, reabriram-se novas referências tais como o organicismo de Frank Lloyd Wright, a arte nova de Van de Velde, o empirismo e o neo-realismo dos nórdicos e dos italianos. A máquina de habitar de Le Corbusier estava agora contaminada com o realismo, os costumes e as tradições populares e com a pretensão de integração e diálogo com os ambientes históricos preexistentes. Para Nuno Portas esta retirada de Le Corbusier como propulsionador e profeta coincidiu “…com o seu mais importante período de construtor de obras diferentes e dispersas e atestam a capacidade maravilhosa de um homem que fora o mestre de maior influência escolástica neste século…” (Portas 2005, 192)


Neste novo período Le Corbusier foi capaz de superar as próprias bases do seu próprio método e conseguiu também romper com esquematismos ideológicos e figurativos, através de um esforço em tornar a sua linguagem formal mais realista - que resulta de um franco diálogo com as condições concretas da existência e da permanente investigação ao ritmo da mudança daquilo que existe de facto. Talvez para trás tenha ficado também a sua inclinação por ideais de cariz fascista (https://www.bbc.com/news/world-europe-32546182).


Em todas as primeiras obras de Le Corbusier estava presente a ideia de aglutinação dos elementos da composição - os elementos eram volumes que traduziam uma função única. E estes volumes funcionais eram por Le Corbusier tratados como sólidos geométricos simples que, ao serem justapostos e o articulados com outras peças de circulação, formavam um edifício onde o observador se poderia deslocar para contemplar os volumes como uma escultura geométrica arquitetónica se tratasse. 


Nos últimos quinze anos de produção, Le Corbusier interessou-se em tornar o espaço interno o protagonista da sua nova arquitetura. O espaço interno é assim moldado, escavado e esculpido dentro das paredes através da luz, da cobertura, do chão inclinado e do céu. O espaço interno é agora o elemento principal que consegue, através da sua escala e do seu percurso, comunicar e relacionar-se com cada indivíduo que contempla, que vive e que se move.


Ora, Vincent Scully no texto ‘The Nature of the Classical in Art’ refere-se à arquitetura dos últimos anos de Le Corbusier, também como sendo uma tentativa de resolver integralmente espaço interior e revestimento exterior - forma e espaço são um só. 


Para Scully, a capela de Ronchamp evoca a escala humana, a horizontalidade a verticalidade, o peso, o suporte, uma ordem nova artificial e abstrata, que completa aquele mundo natural da colina. Sem aquele artifício, aquele lugar específico não faria sentido. Le Corbusier coloca toda a paisagem visível em foco humano. A capela é ponto de convergência que transforma mas dá a ver. Le Corbusier escava no interior cavidades nos volumes inchados para uma experiência sublime de luz e de cor. O exterior escultural revela elementos dissonantes e violentos mas que se apaziguam ao estarem combinados, colados e cosidos uns aos outros. 


Scully escreve que, tanto as paredes como a cobertura estão comprimidos em direção ao interior. O objeto não é um simples volume oco. Em Ronchamp, caverna e invólucro são um só. O santuário escavado interno é revestido com formas externas de força escultórica extraordinária - Scully afirma que a capela é um impulso material que atracou naquele monte em eterno voo.


Está-se, por isso, perante um recipiente espiritual, que engole e que envolve. É um corpo que cobre, que rodeia e que cerca um outro corpo.


Ronchamp lida com o todo e sobretudo com opostos em conflito e em confronto: a figura e o abstrato; o finito e o eterno; o absoluto e o relativo; a matéria e o espírito. E a fusão, o equilíbrio, o diálogo dos opostos só se dá através da vivência daquele espaço - é o indivíduo que permite a concretização total daquele lugar.


A forma da capela de Ronchamp domina com autoridade mas admite concessões através da experiência e dos fenómenos a que está exposta. É a sua unicidade e singularidade que permite a irrepetibilidade da experiência. Experiência essa que é individual e rara e que coloca o indivíduo perante existências ambíguas e por vezes contrárias. É aí que se situam em simultâneo verdades e incertezas, respostas e perguntas, presenças e ausências, massa e vazio, luz e sombra, barulho e silêncio, o dentro e o fora, o primitivo e o novo, o passado e o futuro.


Scully refere-se a Ronchamp como o invólucro que apela à liberdade a todos os que reconhecem a condição não submissa nem constrangida desta capela. É o absoluto que cresce através da aceitação total do que é relativo e indeterminado pois o interior e o exterior completam-se e confundem-se. 


Le Corbusier conseguiu na capela de Ronchamp aproximar opostos ao relacionar diretamente o ser humano com a natureza. E foi assim capaz de criar um espaço gerador e suscetível de criar um novo ser. O estado rudimentar e inicial, de concha e de casulo, deste objeto, provoca e permite o princípio de algo. Este é o sentido sagrado desta capela pois é um espaço causador, capaz de criar, de produzir e de propor constantemente novos conteúdos. É um espaço contentor contemplativo mas acima de tudo indizível.


“… e esta(s) obra(s) ficam entre as mais poderosas máquinas de comover que terão sido inventadas.”, Nuno Portas (Portas 2005, 193)


Ana Ruepp

FRANCISCO E OS JOVENS. 1

  


No passado dia 2, no jornal “La Croix”, Gilles Donada sintetizou, em dez pontos e a partir de citações de discursos, mensagens e apelos feitos  por ele, o pensamento e atitude do Papa Francisco em relação aos jovens. Permito-me pedir emprestado, e com a devida vénia, o essencial dessa bela síntese, que, julgo, poderá ajudar imenso na preparação para a Jornada Mundial da Juventude.


1. “Vós, jovens, criai confusão, fazei barulho”.
É a tradução da frequente  exortação de Francisco aos jovens: “hacer lío”, expressão tipicamente argentina. Com ela, quer pedir que não adormeçam, que remem  “contra a corrente”, erguendo-se contra a injustiça. “Fazei barulho”, mas “um barulho construtivo”, “um barulho de amor”. “Quero que vos façais ouvir nas dioceses, quero que a Igreja vá para a rua, quero que nos defendamos de tudo o que é mundanidade, imobilismo, conforto, do que é clericalismo, de tudo o que nos fecha em nós próprios”.


Confia aos jovens a tarefa de serem “revolucionários”, “discípulos missionários, mensageiros da Boa Nova de Jesus, sobretudo para os  contemporâneos e os amigos.” “Não tenhais medo de  levantar questões que ponham as pessoas a reflectir”. “Quereria pedir-vos que griteis, não com a voz, mas com a vossa vida, com o coração, para assim serdes sinais de esperança para o desencorajado, uma mão estendida a quem está doente, um sorriso acolhedor para o estrageiro, um apoio atento para quem está só.”


2. “Não confundais a felicidade com um divã”
.
Francisco não quer ver uma parte da juventude anestesiada na passividade e no consumismo. Ele agita-a: Onde se instalaram  “estes jovens adormecidos, atordoados,  embrutecidos?” Denuncia a atitude dos que se instalam num divã sem se importar com nada e dos que ficam num balcão a ver de longe a vida a passar, reformados antes do tempo... “Na vida, há uma paralisia ainda mais perigosa e muitas vezes difícil de identificar e que nos custa muito reconhecer. Gosto de lhe chamar a paralisia que nasce quando se confunde a felicidade com um divã”. “Um divã que nos ajuda a sentirmo-nos confortáveis, tranquilos, bem seguros. Um divã que nos garante horas de tranquilidade para passar  para o mundo dos videojogos e horas e horas diante do computador. Um divã contra toda a espécie de dor e de medo, sem preocupações. Cuidado: quando escolhemos o conforto,  confundindo felicidade e consumismo,  o preço que pagamos é elevadíssimo: perdemos a liberdade”.


3. “Deixai a vossa pegada neste mundo”
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Não viemos ao mundo para “vegetar”  como “legumes”, insiste, mas para deixar uma “pegada”. “Podeis tornar o mundo melhor, deixar uma pegada que marque a história, a vossa história e a de muitas outras pessoas. A Igreja e a sociedade têm necessidade de vós. Que a vossa visão das coisas, a vossa coragem, os vossos sonhos e ideais derrubem os muros do imobilismo e abram caminhos que nos conduzem a um mundo melhor, mais justo, menos cruel e mais humano!”


Essencial para poder deixar a sua pegada neste mundo é cada um, cada uma acolher primeiro a pegada de Jesus. “Que Cristo transforme o vosso optimismo natural em esperança cristã, a vossa energia em virtude moral, a vossa boa vontade em amor autêntico, desinteressado. Eis o caminho que sois chamados a percorrer. Este é o caminho para vencer tudo o que, nas vossas vidas e na vossa cultura, ameaça a esperança, a virtude e o amor. Deste modo, a vossa juventude será um dom para Jesus e para o mundo.”


4. “Não deixeis que vos roubem a vossa alegria e a vossa juventude”
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Francisco está consciente do perigo de instrumentalização da juventude pelo mundo de hoje. “A cultura actual apresenta um modelo de pessoa muito associado à imagem do jovem. Sente-se belo quem tem um ar jovem, que faz tratamentos para fazer desaparecer os traços do tempo. Os corpos jovens são constantemente utilizados na publicidade, para vender. O modelo de beleza é um modelo jovem, mas atenção!, porque isso não é elogioso para os jovens. Isso significa apenas que os adultos querem roubar a juventude para eles, isso não significa que respeitem, amem e cuidem dos jovens.”


Por isso, suplica: “Por favor, mantende viva a vossa alegria, ela é o sinal de um coração jovem, de um coração que encontrou o Senhor. E se mantiverdes viva esta alegria de estar com Jesus, ninguém vo-la poderá tirar, ninguém. Mantende esta alegria, conscientes de ser amados pelo Senhor. Com este amor, ireis poder mudar esta sociedade.“


Pede que não se deixem enganar. “Vós, caros jovens, vós não sois o futuro. Diz-se habitualmente: ‘Vós sois o futuro’. Não; vós sois o presente. Vós não sois o futuro de Deus: vós sois a hora de Deus. Ele convoca-vos, chama-vos nas vossas comunidades, chama-vos nas vossas cidades para ir à procura dos vossos avós, dos vossos anciãos, apela para que vos levanteis e tomeis a palavra com eles e realizeis o sonho que Ele sonhou para vós.”


5. “Ousai sonhar grande!”
É outro refrão de Francisco, dirigindo-se aos jovens: “Não tenhais medo do futuro. Ousai sonhar grande! É para estes sonhos grandes que vos convido hoje. Por favor, não vos acantoneis  na ‘pequenez’, não voeis ao rés-do-chão, voai alto e sonhai em grande!” “Nós, nós todos, ficamo-vos gratos quando sonhais. Sim, enquanto Igreja, também temos necessidade de sonhar, temos necessidade do entusiasmo, do ardor dos jovens para ser testemunhas de Deus que é sempre jovem.”


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 de julho de 2023

A VIDA DOS LIVROS

  

De 17 a 23 de julho de 2023


Num tempo em que o tema da Inteligência Artificial está na ordem dia, entre muitas interrogações, celebra-se o quarto centenário do nascimento de Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, matemático, investigador, estudioso de complexos instrumentos de cálculo e precursor dos computadores.


UM PENSAMENTO PRECURSOR
Como Raimundo Lúlio e Leibniz, Blaise Pascal foi dos que demonstraram que os raciocínios lógico-matemáticos poderiam ser automatizados. Nascido em 19 de junho, em Clermont-Ferrand, filho de um magistrado e matemático, ficou órfão de mãe aos três anos, manifestando desde muito cedo uma extraordinária capacidade para o estudo e compreensão das ciências e das matemáticas. Com o apoio de seu pai, Blaise Pascal frequentou, desde muito cedo, os meios letrados. Com onze anos compôs um “Tratado dos sons” e com dezassete anos um “Ensaio sobre os cónicos”, começando a interessar-se pela criação de uma máquina aritmética. As experiências sobre o vazio levaram-no a proceder a aprofundados estudos, que o conduzem a uma polémica com Descartes, apesar da sua admiração pelo autor do “Discurso do Método”. De facto, nota-se nessa relação o inconformismo de Pascal – reconhecendo a importância da dúvida metódica, mas cultivando um caminho próprio de pensar. “O homem é visivelmente feito para pensar. Está aí toda a sua dignidade e todo o seu mérito”. Por isso, parte de Descartes, usando o seu pensamento autónomo, mas também o sentido crítico. E aí encontramos a sua aproximação a Montaigne, mesmo que o considere um mestre incómodo, já que Pascal o critica por tantas vezes motivar a indiferença perante os seus leitores e seguidores.


Em 1645 inventa a sua máquina de calcular, a Pascaline, que é autorizada para o comércio em 1649, após o final da Guerra dos Trinta Anos. O aparelho de Pascal não tem, porém, o esperado sucesso no mercado. Entretanto, aproxima-se de Jansénio, seguido pela irmã Jacqueline, em Port-Royal. Reflete sobre essa conceção no seu próprio “Augustinus”, que ficará inédito, mas confronta-se com a condenação de tal conceção por Inocêncio X (1653). O Papa Francisco recordou, porém, há pouco na Carta Encíclica “Sublimitas et Miseria Hominis” a importância do pensador. E lembra que, no dia 23 de novembro de 1654, Pascal viveu uma experiência mística muito forte, referida como a «Noite de Fogo». Esta episódio, que o fez derramar lágrimas de alegria, foi tão intenso e decisivo que o descreveu num pedaço de papel datado com precisão, o «Memorial», que guardou no forro do casaco e que foi descoberto só depois da sua morte. É impossível saber a natureza exata do que se passou na alma de Pascal naquela noite, mas parece tratar-se de um encontro semelhante ao vivido por Moisés diante da sarça ardente.


A DIMENSÃO ESPIRITUAL
Nesse mesmo ano de 1654, terminou os tratados de física e sobre o triângulo aritmético, correspondendo-se com o célebre matemático Fermat (num “encontro admirável”). Escreve ainda “Sur la conversion du pecheur”. Em 1655, no mês de janeiro, realiza um retiro espiritual na comunidade de Jansénio em Port-Royal – sendo tal a data presumível do “Abrégé de la Vie de Jésus-Christ”. Segundo o entendimento defendido na comunidade, em que participa Jean Racine, haveria que partir-se da humildade perante Deus, valorizando a simplicidade e a clareza de expressão. “A grandeza dos príncipes exige o aparato, a dos sábios a admiração dos seus pares, a glória de Jesus manifesta-se na humildade da sua condição”. Assim, Pascal recusa a tirania religiosa e a idolatria. Impor a religião pelo terror é “contranatura”, ou seja, procurar a prevalência do terror sobre a razão, como o pensador demonstra na carta XII de “Provinciais”, texto essencial numa hora em que regressam os fanatismos religiosos e políticos. Saint-Beuve, ao falar de Port-Royal, propôs um retrato de Pascal com múltiplas facetas, sábio, moralista, filósofo e crente; não apenas como notável escritor, mas como alguém que procurou a coerência entre uma inteligência científica excecional e uma capacidade especial para compreender a transcendência. Lembrando ainda o Papa Francisco, este afirma: «A filosofia de Pascal, toda ela em paradoxos, deriva de um olhar simultaneamente humilde e lúcido, que procura alcançar a “realidade iluminada pelo raciocínio”». Parte da constatação de que o homem é como um estranho para si mesmo, grande e miserável; grande pela sua razão, a sua capacidade de dominar as paixões, grande até «na medida em que se reconhece miserável».


UM COMBATENTE
Pascal foi um homem comprometido, combateu, por isso, a intolerância, a injustiça e o abuso do poder. Foi um permanente inconformista. Razão e coração deveriam completar-se – o espírito geométrico exigiria o “esprit de finesse”. Para Pascal, contudo, o “homem é um ser paradoxal, dilacerado entre diferentes capacidades que o obrigam a reconhecer que a verdade se coloca para além das leis, das normas, das regras e dos dados objetivos”, como afirmou Maria Luísa Ribeiro Ferreira (“Sete Margens”, 24.6.2023). Para Pascal, o uso do conhecimento científico pressupõe distância, obrigando ao sentido crítico e à compreensão dos limites. Essa foi a chave da originalidade de quem entendeu como poucos que a aventura da sabedoria humana obriga a cuidar da razão e do coração. “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. E assim pode dizer-se que o filósofo viveu apesar da grave doença que o atingiu, foi livre, apesar do peso da opressão que sentiu e foi capaz de inventar contra todo o tipo de conformismo, tão comum na sua época. E assim submeteu as questões da fé a um cálculo de probabilidades, enquanto espírito matemático sem quebras. Haveria tudo a ganhar no acreditar e nada a perder se a aposta não funcionasse. Afinal, somos incapazes de conhecer nem o que é, nem se se é. E quanto à capacidade de persuadir, essencial para um pensador – essa arte consistiria “tanto no que mobiliza como no que convence, até porque os homens se governam mais por capricho do que pela razão”. Conhecendo a obra de Blaise Pascal, não será difícil considerar que no debate atual sobre a Inteligência Artificial, ele teria uma atitude esperançosa, distinguindo claramente meios e fins, e entendendo os novos meios como auxiliares da humanidade e não como motivos de subordinação. Lidar com a incerteza é o que Blaise Pascal nos propõe e assim se podem desenhar as linhas de uma felicidade possível apesar das dificuldades…  


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE VÍTOR NOGUEIRA

  


Noite

Os gestos mudaram, a iluminação também.
Conseguimos esconder-nos atrás de nós mesmos.
A noite, como sempre, vai servindo para esperar.
De que se vive, afinal? De que se morre?


in Quem diremos nós que viva?, 2010


Night

Gestures have changed, and so has the lighting.
We manage to hide behind ourselves.
Night, as always, is good for waiting.
What do we live off after all? What do we die of?


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
DE JOHN MOHUNE A JON WHITELEY
OU DE FRITZ LANG A AUGUSTE-DOMINIQUE INGRES


1. Julgo que é o título mais comprido desta série de crónicas, quer as das antigas e românticas sextas-feiras, quer as dos novos e frustres domingos onde ainda não conseguiram arranjar lugar para me sentar. Quando se escolhe um título longo, é, normalmente, para ser mais explicativo, como é o caso, por exemplo do Everything You always Wanted to Know About Sex, but Were Afraid to Ask. Não é o caso deste meu, de hoje. Dou um doce a quem, mesmo muito sabido, perceber que relação existe entre John Mohune e Ingres, ou mesmo entre o pintor e Fritz Lang. Essa relação construiu-se, para mim, nos últimos três anos e só há três dias se concretizou. Apetece-lhes ouvir a história? A mim, apetece-me contá-la.


2. John Mohune é o nome do jovem herói do romance de John Meade Falkner Moonfleet, publicado em 1898. Um desses romances de aventuras escritos para pré-adolescentes do sexo masculino, que descende de Stevenson ou, mais remotamente, de Dickens ou de Kipling, e que foi muito popular na Grã-Bretanha, dos alvores aos meados do século que passou. A ação situa-se no século XVIII. John Mohune é o filho de Olivia e a família é tão importante naquela parte da Escócia que o próprio nome da povoação que dá título ao romance provém dela. Moonfleet é contração de Mohune e Fleet. Não eram senhores muito amados os Mohune. John, órfão aos nove anos, é informado pouco depois (pouco depois da morte da mãe, que o pai é outra história) que o nome não é propriamente um nome benquisto na aldeia de contrabandistas e piratas onde se situa quase toda a ação.


A primeira vez que o vi foi no filme homónimo de Fritz Lang, estreado em 1955. Tinha os mesmos nove anos, era muito ruivo e de cabelo encaracolado, a cara cheia de sardas, olhos azuis determinados. Por uma noite sem lua, com um céu coberto de nuvens púrpuras ou amarelas, caminhou à procura de um homem que julga ser seu amigo. A certa altura pára, para tirar um seixo de um dos buracos das solas das botas. De repente, aparece-lhe - é o termo - um anjo enorme de olhar vazio e expressão inquietante. Será estátua? Será gente? Uma mão que se vê em cima de um muro parece apontar para a segunda hipótese. John Mohune tenta fugir, tropeça e desmaia. Quando acorda, está no fundo de um poço e é do fundo desse poço que nós, com ele, vemos em contra-plongée vertical uma série de caras patibulares. O miúdo caiu às mãos de 40 ladrões. Mas recupera depressa a coragem e insiste que o levem à presença de Jeremy Fox, para quem traz uma carta. Carta da mãe, que, ao morrer, o confiou aos cuidados desse homem. Quando lhe somos apresentados (a Jeremy Fox), o aspeto e as maneiras do personagem (o ator é Stewart Granger) não prometem nada de bom. Nem dele, nem dos companheiros dele (onde avulta, para mim, a voz incomparável de Joan Greenwood), nem da dançarina que dança para ele. Só muito pouco a pouco percebemos algumas coisas e nem todas são esclarecidas. Jeremy Fox tem as costas marcadas por dentes de cães que os Mohune lhe atiçaram. Plebeu, estava na companhia de senhora, senhora que só podia ser uma Mohune, para a família se enfurecer de tal modo. Se ela, ao morrer, confiou o filho ao homem que fora pasto da matilha, as probabilidades são muitas de John Mohune ser filho de Jeremy Fox, embora no filme nunca tal se diga e o miúdo nunca o suspeite. No livro? No livro nem sequer há nenhum Jeremy Fox, tal era, nesses bons tempos, a fidelidade dos estúdios aos textos originais. Mas se John Mohune nunca suspeita que Jeremy Fox é seu pai, também nunca duvida que ele seja o amigo que a mãe lhe disse que era. Contra todas as evidências, porque Jeremy Fox passa o filme a enxotá-lo. Mrs. Minton, uma das amantes dele, pergunta a Jeremy: "Que vais fazer dele? Corrompê-lo e destruí-lo, como fazes a toda a gente?" "Há um perigo bem maior", responde Jeremy, "é ser ele a destruir-me." No final do filme todos morrem, menos John Mohune, que tem finalmente toda a razão para dizer: "It’s good to have a friend".


Para interpretar John Mohune, a Metro-Goldwyn Mayer, em 1955, chamou Jon Whiteley, um miúdo escocês que se estreara nas telas aos 6 anos, em 1951, e aos oito ganhara um Óscar especial da Academia pela sua interpretação em The Kidnappers de Philip Leacock. Em 1956, aos 11 anos, desapareceu das telas. Os pais acharam que cinco anos de filmes e estúdios, entre Londres e a Califórnia, já chegavam. Mandaram-no estudar.


Mas quem ama Moonfleet como eu amo - e estou cada vez mais acompanhado - nunca mais conseguiu ver John Mohune sem ver Jon Whiteley seguindo com um cão o seu amigo e roubando para ele o tesouro do Barba Ruiva. Cinemascope, mar, o obsessivo decote de Joan Greenwood, a voz de Joan Greenwood. E, evidentemente, Jon Whiteley. Cemitérios, lousas quebradas, poentes castanhos, rochas escarpadas. A fotografia de Robert Planck e a música de Miklos Rozsa. E, evidentemente, Jon Whiteley.


3. Mas se era evidente, era tão evidente que nunca me lembrei de perguntar por ele. Nem eu, nem (aparentemente) mais ninguém. Todas as celebridades do filme disseram da sua graça, e a maior das vezes da sua desgraça. Fritz Lang só no fim da vida se reconciliou com um filme em que passou as passas do Algarve. John Houseman, o produtor (que não era nada imbecil), dizia que só os franceses é que achavam que o filme era uma obra-prima. Por "perversidade ou por lealdade para com Fritz Lang". Mas Jon Whiteley nunca foi tido nem achado, apesar de se dizer que Lang, "ditatorial e déspota", tratara com especial e teutónico sadismo o seu jovem intérprete.


Provavelmente, o assunto teria morrido por aí (e hoje não me estavam a ler), se, em finais de 2001, por ocasião de um seminário sobre cinema e pintura no Convento da Arrábida, Henri Zerner não me tivesse perguntado: "Você sabe que Jon Whiteley é meu colega e professor de História de Arte em Oxford?" Não fazia a mais pequena ideia. Mas como cinema, pintura, Moonfleet fazem trindade indissociável, pensei em convidá-lo quando saísse o livro em que esse seminário desembocou. Convidá-lo para vir a Lisboa e apresentar Moonfleet. Ao princípio correu mal: de Oxford disseram-me que o prof. Whiteley (hoje com 60 anos) estava em ano sabático algures nos Estados Unidos. Mas havia mails. Há sempre.


Já com poucas esperanças, mailei. E, na volta, tive a resposta mais simpática do mundo. Que adorava voltar a Portugal, que conhecia como turista e que adorava apresentar Moonfleet, que (e agora sublinho bem) nunca ninguém o tinha convidado a apresentar.


Em janeiro, Jon e Linda Whiteley desembarcaram em Lisboa e eu vi subitamente na minha frente, aos 60 anos, o miúdo de 9, de 1955. Mesmos cabelos ruivos, mesmos olhos azuis, mesmas sardas. E, na fantástica apresentação do filme, o mesmo medo e a mesma coragem para defender Fritz Lang, acabar com a lenda das malfeitorias e falar da conspiração de produtores e atores contra aquele velho barrigudo e monocular que ousara pular para cima de uma mesa e explicar à famosa bailarina Liliana Montevecchi como é que se devia dançar a dança que ele queria que ela dançasse para endoidar os homens e empalidecer as mulheres. Fritz Lang, o realizador que "composed scenes in the manner of a painter and treated actors like a puppet-master". "This perhaps annoyed his actors but it did not trouble me." Depois falou-me de Ingres, seu pintor favorito, e prometeu-me o livro que sobre ela tinha escrito e há muito se esgotou.


4. A fama dessa palestra de Lisboa chegou a várias partes. Este e aquele começaram-me a pedir o Whiteley de Lisboa. Até que, postos os feriados de junho e os dias de montanha russa entre Guimarães e Salamanca, Salamanca e Belmonte, recebi, com data de 8 de junho, uma carta dele e o livro sobre Ingres. Na carta dizia-me que "as a result of your invitation to Lisbon and the showing of Moonfleet" recebera um convite para comentar o filme num festival em Procida. Sabia que a cópia a ser projetada era a nossa (a melhor cópia de Moonfleet que por aí anda e não é para me gabar). "Any chance of seeing you? I hope so very much." Não, não vou rever em Procida o meu John Mohune feito Jon Whiteley, criatura de Lang e criatura de Ingres, igual aos 9 e aos 60 anos, na sua busca pela amizade e na certeza dela. Mas ganhei o livro azul, com o retrato da viscondessa de Haussonville que está na Frick Collection. E nele recordei que a duquesa de Guermantes, depois de o ter execrado como o pior dos académicos, descobriu, no fim da vida, que ele fora o genial precursor do Art Nouveau. "Como os arquitetos do barroco, Ingres ultrapassou o domínio da arte clássica para inventar uma linguagem expressiva de regras quebradas, através das quais deu forma exterior aos doces, nostálgicos, ambiciosos, sensuais e vingativos desejos que sempre possuíram a sua imaginação." Ingres, certamente. Mas também Fritz Lang. "A deeply sensuous nature." John Mohune começou na encruzilhada de Moonfleet. Mas lembrou-se que estavam por ali senhoras. Foi nos banhos turcos de Ingres.


por João Bénard da Costa
19 de junho 2005 PÚBLICO

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


CV - CANTAR O PORTUGUÊS UNIVERSAL


O facto de se cantar em português nunca impediu ninguém de ter uma carreira internacional bem conseguida, dado que não é fazendo desaparecer as marcas de origem que se torna exportável. 


Amália Rodrigues, Teresa Salgueiro, Mariza, Ana Moura, Carmen Miranda, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Betânia, Gal Costa, João Gilberto, Elis Regina, Vinícius de Moraes, entre tantos, sobressaíram no mar imenso da produção cultural contemporânea, tendo a língua portuguesa como marca de excelência, dignificando-a com a sua singularidade vocal e musical, criando a sensação, para o estrangeiro, de estar perante algo de único.   


Há anos Mariza, numa entrevista, disse que jamais cantaria em inglês porque não faria sentido. O mesmo se pode dizer de Teresa Salgueiro. Pode cantar-se em inglês, mas não tentando equiparar-nos aos outros, abdicando do que nos é singular.   


Os cantores e intérpretes mais bem-sucedidos e reconhecidos internacionalmente, foram sempre, até hoje, os que cantaram em português, inclusive em agrupamentos, como os Madredeus, tendo tido um contributo decisivo para a difusão, promoção e divulgação universal do nosso idioma.


Foram eles próprios, em conjugação com uma estratégia consistente, que se internacionalizaram, tornando o português um idioma de exportação e universal.


E nunca há incapacidade ou impedimento para encontrar uma boa letra, um bom título em português, adaptar uma música ao nosso idioma, além de que internacionalizar não é desnacionalizar.


14.07.23
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

PESSOAS LIVRES


De um modo ou de outro ficamos a coçar a cabeça quando encontramos as mesmas pessoas das manifestações pela liberdade, agora em sôfregas brigadas de consumismo, como se estivessem a optar livremente pela última razão que lhes é dada como alternativa.

Também nos convencemos, solenemente, e sobretudo durante o nosso período de trabalho, de que o consumo não é aquilo que importa na vida, e, quantos, numa “frugalidade superior” até fazem voz, registando o justo e livre sentido de aquisição de uma casa de estatuto, ou a “simplicidade” do saber, na classe social a que pertencem, não merecesse o solto sacrifício da transação.

Não há dúvida que os poderes que controlam as pessoas “livres” encontram nestas, a janela de um poder ansioso de possibilidades que prova até que ponto se não questionaram os seres humanos, acerca do modo como foram ficando presos.

Afinal a reivindicação de poder permanente de uns seres sobre outros, faz-nos pensar nos poderes das castas, nos poderes dos homens sobre as mulheres, nos poderes monetários, nos poderes eclesiásticos, entre outros, e faz-nos questionar sobre o que terá levado as pessoas a aceitarem os poderes que lhes foram reduzindo a escala de vida.

Hoje assiste-se cada vez mais a vidas encapsuladas em territórios de fronteiras minadas de indefinição.

Então, quando se iniciou o espírito aborígene? Aquele que sai de nós, reconhece a arvore e nos envolve como irmãos e irmãs?

Aquele que viaja e encontra.

Aquele que entende a língua sem ligação com a sua porque a dor e o amor são clãs alimentados pelo mesmo ar.

Aquele que avança face ao poder estabelecido e não o tempera, camuflando-o de coisa nova.

Aquele que afinal quer acudir à viagem de todos os que se desejam clonos numa vida de pessoas mais felizes.

Pessoas mais livres, sim, porque podem com verdade antecipar que aquele cálice-mão estará sempre presente nas horas mais difíceis.

 

Teresa Bracinha Vieira