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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ABECEDÁRIO DA CULTURA DA LÍNGUA PORTUGUESA


K. «KWY» - LOURDES CASTRO


Este folhetim trata de fantasmas. E quem melhor soube representá-los como sombras vivas foi Lourdes Castro e os seus amigos. A revista KWY foi um veículo precioso! Publicou-se em doze números de fabricação artesanal de 1958 a 1964. A denominação tem a ver com as três letras que então estavam ausentes do alfabeto português. Só por ironia disse-se que significava Ká Wamos Yndo… O grupo foi responsável “pela abertura da arte portuguesa no contexto internacional e pela franca adesão às novas linguagens figurativas que, sob a égide da reconstrução económica do pós-guerra, deram impulso a um dos períodos mais estimulantes da cultura europeia do século XX”. Em lugar de agrupamentos por tendências, há grupos de intervenção. Trata-se de um realismo cosmopolita. Com o grupo “KWY” (Lourdes Castro, René Bertholo, Costa Pinheiro, José Escada, João Vieira, Gonçalo Duarte, Jan Voss e Christo), abrem-se horizontes além-fronteiras, ultrapassando a dimensão paroquial, fora da censura no caminho criador pelo repensar das raízes.

Lourdes Castro compreendeu o novo tempo e as novas tendências de um modo exemplar. “A surpresa do desenho, a simplicidade da forma, o contorno da sombra fascinou-me tanto que ainda hoje para mim é nova” (como testemunhou a Joana Galhardo Frazão). Ao seguirmos o seu percurso é impressionante o modo como soube trilhar caminhos absolutamente inesperados e inovadores. Em “O Grande Herbário das Sombras” reencontrou a Natureza e a vegetação da Ilha da Madeira, domínio da laurissilva, sua terra natal, com uma centena de espécies botânicas, que permitem ligar o labor da artista à criação essencial e transcendente. Como recordou José Carlos Seabra Pereira, a obra envolve “a imanência do mundo criado e a Transcendência que lhe dá sentido último”. É o dom da vida que está em causa, como fica demonstrado no filme “Pelas Sombras” de Catarina Mourão (2010), no qual se apresenta o encantamento “com a magia no quotidiano das coisas”. Por isso, a artista afirma: “a minha pintura é esta: o viver, o estar cá”. E assim a sua arte foi-se tornando o espaço à sua volta. “Não a posso transportar. Ela nem quereria mudar de sítio”. José Tolentino Mendonça afirmou que, para ela, “a arte nunca foi simplesmente um fazer. A arte era um intransigente pensamento sobre o estar”. Por isso, não deixa apenas obras que podemos ver nos museus, deixa uma visão. E tal constitui um facto político raro. Lembrando o “Teatro de Sombras”, verdadeiro património imaterial posto em prática primeiro com René Bertholo e depois com Manuel Zimbro, trata-se de arte em movimento. Os primeiros passos foram no Centro Nacional de Cultura, em 1954, com José Escada. Não por acaso, o Centro era uma casa onde o teatro tinha especial importância, sob a influência de Fernando Amado e de Almada Negreiros. E Lourdes Castro, no tempo da fugaz passagem em Belas-Artes, começou a fazer teatro com Fernando Amado no Centro, e foi no espaço do teatro que a jovem começou por apresentar os primeiros passos nas artes plásticas. E vem à memória a peça “Antes de Começar” de Almada Negreiros, encenada por Amado, nos princípios que conduziriam à criação da “Casa da Comédia” e à amizade que se prolongará no tempo, pela vida fora, com o pintor Manuel Amado, companheiro, com sua mulher Teresa, em férias e viagens na Madeira e Porto Santo. E está aqui a preciosa chave, capaz de ligar a descoberta das sombras, a representação teatral e a paixão pela vida. E há o encontro simbólico entre a memória do primeiro modernismo de Almada Negreiros e a lembrança de Fernando Pessoa, muito presentes nesse tempo e no grupo, quando o poeta do “Livro do Desassossego” começava a ser descoberto, ao lado de um outro modernismo, totalmente novo, da geração de “KWY”. E foi essa pulsão vital que levou Lourdes Castro a realizar esses fantásticos livros de artista, que explicou simplesmente – “porque havia tesouras, havia papel, havia tempo, gostava de livros…”. E, ao apresentá-los, Paulo Pires do Vale compreendeu bem como a artista continuou a criar, mesmo quando se retirou da intervenção ativa. “Na verdade, não deixou de criar”, continuou, sim, a “transformar a própria vida”, a “dar-lhe maior atenção” (Público, 9.1.22). E na exposição “Tudo o que Eu Quero”, Helena de Freitas e Bruno Marchand, na Gulbenkian, ficaram em destaque as sombras na sua múltipla dimensão, absolutamente singular e inovadora – silhuetas bordadas em lençóis brancos, retratos de amigos em plexiglas, flores e folhagens. “As suas sombras tornam-se progressivamente mais leves. A presença aprofunda-se na ausência e cumpre-se no desaparecimento” (Anne Bonin).

José Tolentino Mendonça refere três momentos no caminho de Lourdes Castro. “A primeira etapa é aquela que vai até ao ‘Teatro de Sombras’ e constitui talvez a parte mais reconhecível da sua produção artística”. A segunda etapa foi a do movimento das sombras, como se uma parede deixasse de ser um obstáculo, descobrindo-se no branco do muro intransponível uma passagem na transparência. E lembro o enigma dos jardins japoneses, como em Ryoan-ji, em Quioto, quintessência de um templo zen, representação do mundo contada por João Bénard da Costa no filme “A Décima Quinta Pedra” de Rita Azevedo Gomes. Por fim, a terceira etapa foi a dos jardins madeirenses – a Praia Formosa, a Quinta do Monte, o lugar de exílio de Carlos de Habsburgo, e o Jardim do Caniço… De facto, o jardim tornou-se a própria obra (cf. Expresso, 14.1.22). “O meu jardim é a minha tela”. A Natureza é que tudo faz. Lourdes Castro preparava-se, afinal, para a última viagem, em direção ao Jardim das Nuvens. A obra de arte deixou de se limitar a um espaço contido, às fronteiras de uma tela ou de um lençol, abriam-se os horizontes, e não havia fronteiras intransponíveis nesse teatro de nuvens.    


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CRÓNICAS PLURICULTURAIS


145. NÃO SOMOS A MEDIDA DE TODAS AS COISAS (II)


O que é mais poderoso que o homem é tradicionalmente associado ao nome de Deus. Nesta perspetiva, sendo omnipotente e o criador de todas as coisas, e Job um homem bom, piedoso e justo, interrogamo-nos porque se manteve Deus mudo perante o seu sofrimento, exercendo sobre ele, que não fora mau, o seu poder implacável, apesar da sua fidelidade, aflição e humildade, acabando por lhe endereçar uma das mais pertinentes interpelações do Velho Testamento (ver texto anterior).

Enquanto as vozes e lamentos de Job não chegavam ao céu, sendo vítima de sucessivas provações que o levaram a amaldiçoar o dia em que nasceu, a sua agonia e humilhação é, para muitos, bárbara, cruel e mesquinha, um momento injustificável da ausência e do silêncio de Deus, levando-os a não crer num Deus do bem e misericordioso, antes sim num Deus inflexível, punitivo e mau que, podendo, não elimina o mal.  

Esta apatia de Deus à dor, esta omissão e indiferença na relação que devemos ter com o outro, que deve ser o centro do nosso olhar e compaixão quando sofre, conduz muitas pessoas a questionarem-se se se pode acreditar em Deus, concluindo que não e tornando-se ateus. O mesmo perante os horrores do holocausto, a iniquidade de Auschwitz e do Goulag, os males da guerra e a pedofilia. Se Deus é infinitamente bom e criador do universo, porquê um Deus castigador, vingativo e sacrificial? Recordo, da minha infância, uma catequista ter justificado com a ira de Deus o afundamento do Titanic, provocado por um icebergue, dada a soberba humana de o ter como inafundável, sendo um exemplo de arrogância, vaidade e luxúria (pecado mortal).

É uma, entre várias, interrogações e interpretações, todas legítimas, em paralelo com a de que o universo é mais poderoso que nós, seres humanos frágeis e mortais, limitados na nossa finitude e imperfeição, portadores do bem e do mal, daí o afirmarmos, amiúde, que ninguém é perfeito, embora perfectíveis. 

Pode compreender-se, assim, que quando Job reclamou de Deus que lhe explicasse o facto de ter permitido que a sua vida se transformasse num acumular de sofrimento, apesar de ser um homem bom, a resposta se baseasse em chamar-lhe a atenção para as leis dos fenómenos naturais, que nos ultrapassam, como os rios, oceanos, relâmpagos, trovão, chuva, orvalho, granizo, neve, astros, céus, a que podemos adicionar a imensidão e o esmagamento de glaciares, icebergues, desertos, montanhas, dado que o universo é maior que nós, não estando ao nosso alcance saber a que lógica obedece, não admirando que Job não compreendesse o porquê do que de ilógico, em termos humanos, lhe acontecera, o que não demonstra que o universo seja ilógico per si.   

Há inúmeros fenómenos no universo que diminuem a nossa dimensão, que nos fazem sentir a nossa pequenez e fragilidade, que indiciam e transportam em si uma força, grandeza e monumentalidade maior, que nos ameaçam e desafiam, provocando-nos admiração e respeito, mesmo se humilhados porque mais poderosos que nós, o que se pode combinar com um desejo de adoração ou exclamação diante do ilimitado e sublime, lembrando-nos que a nossa vida (e a razão) não é a medida de todas as coisas, o que não implica aceitar, sem mais, a indiferença e a resignação.  


11.08.23
Joaquim M. M. Patrício