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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ABECEDÁRIO DA CULTURA DA LÍNGUA PORTUGUESA

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N. Nemésio (Vitorino)

 

Num folhetim de fantasmas, Vitorino Nemésio não pode deixar de estar, como pensador da cultura na sua expressão mais rica. Nemésio não é, ele mesmo, um fantasma, é um genial criador de protagonistas que representam de forma suprema a vida humana… E de que falamos na História da Cultura? De continuidades e de mudanças, de características singulares e convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não se trata apenas de seguir os acontecimentos, mas de compreender a lógica sincrónica e a perspetiva diacrónica. Não basta um sobrevoo da cultura geral, que mais não significa do que um contacto vazio e superficial com a criação e a arte, esquecido do que avança e progride e do que estagna. Assim, no ensino da Cultura Portuguesa, António Manuel Machado Pires tem recordado a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: “E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?” (Cf. “Luz e Sombras no Século XIX em Portugal” de António M. Machado Pires, INCM, 2007).

 

A cultura pressupõe diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e o que se pretende ver e entender numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada pelo próprio Nemésio – “Varanda de Pilatos”. E quando voltamos a ouvir as charlas televisivas de Nemésio, “Se bem me lembro”, verificamos que estas corriam entre a intuição e a inteligência, entre a erudição e a capacidade de perceber o “mundo da vida”. Mau Tempo no Canal (1944) é uma obra-prima da literatura portuguesa. É marcante no século XX por pôr em destaque, de um modo original, a panóplia de elementos novos que se distanciam do romance oitocentista.

 

Segundo Miguel Real, em “Obras de Referência da Cultura Portuguesa”: «Mais do que um espelho dos Açores, Mau Tempo no Canal é, sobretudo, um espelho do fim de um certo Portugal, o Portugal do fim do prestígio dos nomes aristocratas substituídos pelos nomes dos "Garcias" comerciantes e procuradores; do fim de uma economia assente em agregados familiares, substituída por uma economia empresarial; do fim das famílias alargadas identificadas com uma quinta ou um palácio, substituídos pelos prédios de apartamento; do fim da carroça e do cavalo como meios de transporte substituídos pelo automóvel e pela camioneta; do fim do azeite, do petróleo e do gás como meios de iluminação, substituídos pela eletricidade; do fim da cultura própria das comunidades de pescadores de caça à baleia, substituída pela cultura migrante americanizada; do fim dos transportes marítimos de passageiros, substituídos pelo avião; do fim da ocupação doméstica das mulheres substituída pelas profissões femininas; do fim de uma sociedade hierarquicamente ordenada de um modo atávico em privilégios irrevogáveis de superiores e em obrigações sociais de inferiores, substituída por uma sociedade popular e de massas.

 

Toda esta atmosfera social e mental (prossegue Miguel Real) desenha-nos literariamente um Portugal do "fim", fundamentalmente o Portugal do fim da Monarquia (os capitães-donatários, os barões, as vastíssimas quintas, as terras cedidas diretamente pelo rei a antigas famílias, que agora vendem a novos ricos, como a Ribeira dos Flamengos, dos Dulmo), mas também o anúncio do fim do Império, identificando-se os Açores com a nau de Portugal em deriva histórica no exato centro da imagem que tem constituído parte importante da nossa identidade cultural - o mar. Nada havendo já por descobrir e restando-nos a pulsão da "demanda", as personagens revertem-se sobre si próprias, criando labirintos mentais monstruosos de saudade e desejo, não raro criando ou situações perversas (Henriqueta, Catarina, Diogo Dulmo, Ângelo...) ou situações trágicas (Margarida).

 … Mau Tempo no Canal é dos poucos romances portugueses do século XX cuja personagem central, Margarida Clark Dulmo, encontra-se esteticamente à altura de um destino trágico, não já da tragédia clássica - e por isso é também um romance do fim -, onde os deuses se conjuram contra a vontade humana, mas da tragédia atual, onde os desencontros, os acasos, as perfídias subterrâneas, as pequeninas vaidades humanas, desembocam na mais pura e inviolável das rotinas: a anemia social, a indiferença, a passividade, o absentismo e, sobretudo, a resignação e a renúncia ao sonho. Margarida acaba por se casar com André Barreto, salvando assim da falência e da ruína a casa dos Dulmos. Margarida levará uma existência rotineira, parasitária, uma existência vazia. É nesta ausência de futuro - que não seja o futuro do tédio - que reside o elemento trágico da existência de Margarida. Neste caso, a tragédia não resiste na vontade de lutar ou no desejo de desafiar, mas na sua renúncia e na consequente interiorização de um profundo luto pela vida que nunca se terá. Os títulos dos capítulos ("A Serpente Cega", "Uma Aranha e uma Teia", "Outra Aranha e Outra Teia", "Mortos e Vivos", "A Íris da Aranha", "Cucumaria Abyssorum", "As Aranhas Fecharam as Teias", "Fogo") geram desde logo a atmosfera de suplício e opressão social que forçará Margarida a desistir da sua vontade singular, conformando a sua "soberba" e o seu "orgulho" com os ditames sociais, resignando-se a um destino semelhante ao da mãe, reprimindo o seu desejo de viagem, de realização em Inglaterra, contra os preconceitos sociais. A tragédia - a pior das tragédias atuais – evidencia que, depois do seu casamento com André, Margarida não tem História, deixou de haver História para Margarida, estará viva para os filhos e para a sociedade e morta para si própria…»

Tantos fantasmas encontrámos já, mas neste caso Nemésio transforma as suas personagens em verdadeiros símbolos de um tempo que rapidamente se transforma… ao desenhar a figura austera de Alexandre Herculano e ao evocar o subjetivismo existencial de Margarida, Nemésio retrata o seu tempo, numa evolução rápida que o levará a si mesmo às fronteiras do surrealismo, bem presentes na sua poesia…

 


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A VIDA DOS LIVROS

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   De 14 a 20 de agosto de 2023

 

Recordamos o testemunho de Rita Azevedo Gomes no texto que escreveu na revista “Electra” (Ausência Imperfeita – Agustina - nº 20, Primavera de 2023).

 

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UMA ESTRANHA ESCOLHA

 

Conta-se que um dia, em 1995, a Cinemateca pediu a Agustina uma sugestão de filme para apresentar na iniciativa “Terças-Feiras Clássicas”. Então sugeriu o filme As You Like de Paul Czinner, de 1936, raríssimo, e que nunca fora exibido naquelas sessões cinéfilas. Era uma opção misteriosa, que causou surpresa entre gente muito habituada a este género de escolhas. Moveram-se céus e terra, e lá apareceu a cópia. Quando houve oportunidade, perguntaram qual o motivo de tão inusitada escolha. E a resposta veio para espanto de todos. Não se tratava de qualquer memória de algo que a escritora tivesse visto alguma vez, nem se tratava de lembrar a primeira interpretação de Sir Laurence Olivier de Shakespeare. Não, Agustina nunca tinha visto o filme e tinha curiosidade em vê-lo pela primeira vez. Interessava-lhe ver o desempenho de Elisabeth Bergner, de quem ouvira falar, quando teria oito ou nove anos, como uma grande atriz, superior à Garbo, e desejava confirmar com os próprios olhos e ouvidos o que ouvira aos amigos de seu Pai, no tempo em que este a levava às matinées do Passos Manuel no Porto. Era assim Agustina, sempre desarmante na enorme capacidade de surpreender.

 

O testemunho de Rita Azevedo Gomes no texto que escreveu na revista “Electra” (Ausência Imperfeita – Agustina - nº 20, Primavera de 2023), confirma que Agustina Bessa-Luís é um caso especial. “Lembro a Helena e o Alberto Vaz da Silva, o Manuel Lucena e o João Bénard da Costa, que não parava de falar do prodígio da inadjetivável escrita da autora d’A Sibila”. Jorge Alves da Silva, João Botelho e Manuela Viegas juntavam-se a tal grupo de admiradores. “Descíamos juntos a Rua da Misericórdia, ao Chiado, pelo passeio da Guimarães na expectativa de ver exposto na vitrine o último romance de Bessa-Luís”. E havia histórias contadas por Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge, do tempo em que visitavam a escritora na sua casa no Porto. E temos de lembrar, na continuação deste preito de homenagem, o outro caso de uma relação contrastada que tem a ver com Manoel de Oliveira. Tratou-se de Francisca. Sem entrarmos nas clássicas discussões sobre as soluções de títulos e de enredos, Agustina teria gostado mais que tivesse sido assumido o título do romance original, Fanny Owen, mas Oliveira preferiu a proximidade, até para que o ambiente romântico ficasse mais evidente. Para o cineasta haveria que garantir a fidelidade aos textos e à palavra, mas igualmente o recurso à magia da representação. Mais do que na representação do teatro, teríamos a fixação das imagens em movimento, suscetíveis de ser repetidas, como se o tempo pudesse ser revisto e a reflexão tivesse uma nova oportunidade. A cena recordada é a dos momentos finais da protagonista no suspiro derradeiro: “Não há por aí um homem que ame?”. Paulo Rocha estava investido no papel de médico e Agustina, fora do plano de cena, assistia ao desenrolar da cena. Rita Azevedo Gomes ocupava-se em ver o desenrolar da filmagem – “a voz ondulada do Paulo Rocha; o riso menineiro e sagaz de Agustina”. E depois importaria que o cerimonial do passamento fosse adequado e sentido: “Os pés nus têm de ficar descobertos”.

 

LEMBRAR “FRANCISCA”

 

Teresa Menezes, no papel de Francisca, deveria aparecer como alguém que assumia em pleno o drama representado. E não poderia esquecer a ligação entre as palavras escritas e a vida vivida e mortal. “A alma não é uma cadeira que se oferece a uma visita. A alma é um vício”. De facto, falar de Agustina é assumir um paradoxo, uma aposta, a capacidade de ver o avesso e o direito das coisas. Por isso mesmo, ela se lembrou de Elisabeth Bergner em As You Like, preferindo falar não de algo que pudesse conhecer realmente, mas de uma impressão original, apreendida sem preconceitos. Por certo que teria ouvido falar das lendas de Bergner (até nos misteriosos ecos no celebrado All About Eve de J. Mankiewicz), mas o que lhe interessava verdadeiramente era cultivar a surpresa em diferentes registos – para si própria e para os seus interlocutores. Frederico Lourenço, não por acaso, fala de «um percurso, afinal de contas, demasiado desconcertante na sua mescla de arrojo e de convenção para poder almejar esse estatuto incolor, outorgado aos pouquíssimos escritores que têm o azar de ser aclamados por todos os críticos, que é o de serem ‘pardamente consensuais’».

 

Rita Azevedo Gomes lembra o seu filme A Portuguesa, baseado num texto de Robert Musil. Sobre esse conto, Agustina disse em 1966: “como quem atinge um segredo através do anódino, ele aflorou como ninguém essa sombra melodiosa e fria”. Mas que fique esclarecido: não é infiel a portuguesa; contudo é mais do que isso. “A fidelidade da portuguesa é o que aniquila o marido; é uma fidelidade que não tem nada a ver com a mesura da virtude nem com o reflexo do tédio. “É um estado de graça, algo blasfemo talvez e não se sabe desafiador”. Para quem lê o conto e vê o filme encontra imbrincados dois caminhos paradoxais – a virtude e a sua recusa. Musil terá ido buscar esta portuguesa ruiva ao extraordinário quadro póstumo de Ticiano, feito por encomenda de Carlos V, da muito bela Imperatriz Isabel de Portugal, sentada “como quem espera a confirmação de uma notícia importante, sem ansiedade e também sem abandono”. E, com base nesse conto, emerge um diálogo misterioso escrito por Agustina, a pedido da realizadora. Musil dá-nos o enigma e a romancista encarrega-se de o completar com outra interrogação perturbadora: “Dizem que tenho amor pelos gatos que têm um pacto com o demónio. Os gatos têm uma alma de filósofo. É só isso. O diabo não é filósofo porque inveja Deus e a criação do mundo”. Tudo, afinal, se liga. Agustina era portentosa na definição emblemática dos temas. O lançamento das narrativas envolvia um surpreendente jogo de ideias e de palavras. Por isso, o testemunho de Rita Azevedo Gomes permite compreender encontros e desencontros na representação das palavras. É o princípio da incerteza que funciona, há o ganhar e o perder e os dois eram fascinantes para Agustina. “Portugal é tímido e ama a sua rotina: preza uma felicidade que tem de pagar pelo preço das suas submissões” (As Fúrias). Tinha, ao invés, o prazer da audácia. E volto a Frederico Lourenço: “À cigarra compete apenas concentrar-se no seu próprio canto, independentemente da zurraria dos burros que criticam (cito aqui os termos bem conhecidos do poeta helenístico Calímaco). Lição em que Agustina foi exemplar».     

 

Guilherme d'Oliveira Martins