POESIA
ODISSEIA (4)
XVI
Quando pouco a pouco o ouvido aprende a ensurdecer,
o amor tem forma de mão.
XVII
Se quanto mais vivos mais morremos,
tudo afinal nos abandona,
até o amor, essa grande companhia.
XVIII
Submete-se até a zona das perguntas
para que o mundo se não repita tanto,
para que as coisas escapem das coisas
e tudo escape de tudo,
para que as palavras se abracem de um outro modo.
IX
Onde está o que se parecia com um mundo
e que nos chegou vindo do limite da página
e nos estendeu o ombro para nos dizer
que todos os saltos necessitam de apoio,
salvo
aquele que de tanta força
se incendeia.
XX
Aqui começa o território das inseguranças
mais definitivas.
Aqui é o exato lugar onde e aonde é possível
queimar todos os princípios e todos os finais
para que se designe isto ou aquilo
adentro de uma outra
grande amnésia.
XXI

Digo:
que no desbatizar do mundo,
o homem que segura o abismo,
exprime tanta bondade e coragem
que converte a lágrima
num líquido de amor e pedra,
ambos, deliberadamente vítreos,
ambos
alternativa.
XXII
Sabe-se que existem pássaros que enlouquecem de repente
nos seus próprios movimentos.
Perdem eles o ponto de equilíbrio
tal como os homens quando balbuciam
a que poderá ser a última palavra
antes da nova linguagem.
Teresa Bracinha Vieira