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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POESIA

ODISSEIA (4)


XVI 

  


Quando pouco a pouco o ouvido aprende a ensurdecer,

o amor tem forma de mão.


XVII

  


Se quanto mais vivos mais morremos,

tudo afinal nos abandona,

até o amor, essa grande companhia.


XVIII

  


Submete-se até a zona das perguntas

para que o mundo se não repita tanto,

para que as coisas escapem das coisas

e tudo escape de tudo,

para que as palavras se abracem de um outro modo.


IX

  


Onde está o que se parecia com um mundo

e que nos chegou vindo do limite da página

e nos estendeu o ombro para nos dizer

que todos os saltos necessitam de apoio,

salvo

aquele que de tanta força

se incendeia.


XX

  


Aqui começa o território das inseguranças

mais definitivas.

Aqui é o exato lugar onde e aonde é possível

queimar todos os princípios e todos os finais

para que se designe isto ou aquilo

adentro de uma outra

grande amnésia.


XXI

 


Digo:

que no desbatizar do mundo,

o homem que segura o abismo,

exprime tanta bondade e coragem

que converte a lágrima

num líquido de amor e pedra,

ambos, deliberadamente vítreos,

ambos

alternativa.


XXII

  


Sabe-se que existem pássaros que enlouquecem de repente

nos seus próprios movimentos.

Perdem eles o ponto de equilíbrio

tal como os homens quando balbuciam

a que poderá ser a última palavra

antes da nova linguagem.


Teresa Bracinha Vieira