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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


171. LER É VIVER VÁRIAS VIDAS EM LIBERDADE


Extrapolando o excerto bíblico, é verdade que no princípio era o verbo, ou seja, a palavra falada, já que a palavra oral se antecipou temporalmente, em milhares de anos, no mínimo, à escrita.


E se é possível imaginar um mundo sem escrita, sem esta pouco ou nada saberíamos das civilizações que a criaram, nem poderíamos, sem leitura, contactar e dialogar com outras gerações que nos antecederam ao longo de milénios de história.   


Quem não lê, um país que não lê será sempre fraco, a falar e escrever pior, a ser mais prontamente manipulado, menos eficiente em algo de essencial e no exercício do contraditório, não estimulando a memória e a aquisição de conhecimento, perdendo-se a capacidade de questionar e de ser livre, ficando mais despossuídos de mandarmos em nós próprios e mais permissivos para sermos mandados.   


Ler é ter porta aberta a todos os mundos, alegres, tristes, pacíficos, sombrios, sinistros, fantásticos, futuristas, imaginários, um sonho que nos liberta pela mão de outrem e pela nossa imaginação. 


É um escape, uma fuga, voar mais alto, ir mais além do atingível, tocável e inteligível.   


Ao chavão “só fala e escreve bem quem lê muito”, opina-se que “falar e escrever bem estão em extinção, dada a redução do vocabulário, porque não se lê ou lê pouco”, com a cultura da leitura à beira do abismo, endeusando-se a quimera da igualdade e do saber das redes sociais, mesmo tendo-se como adquirido não ser o mesmo ler num ecrã de telemóvel/computador ou num livro, como sucede com os livros clássicos e sapienciais, pois escreve-se e lê-se pior através dos pequenos e grandes ecrãs.


Se é verdade que a leitura de livros vai perdendo a competição para os tablets (na maioria das casas, mesmo endinheiradas, os livros não existem ou são coisas raras), também a sua aprendizagem e uso privilegia e singulariza cada vez mais, pela positiva, quem o faz, não desprezando o lado analógico da nossa condição humana. 


E se para acionarmos a fala inventámos a escrita, se para acionar a escrita criámos a leitura, para a leitura exercitamos a imaginação de vivermos múltiplas vidas em liberdade, pois “Ler é transformarmo-nos, de um em muitos, de singular a plural” (Eugénio Lisboa, em Indícios de Oiro).


19.04.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

POR OCASIÃO 

 


Conheço uma árvore podada que ficou muito menos frondosa, mas ganhou em viço.

O escritor olhava-a e sempre que o texto lhe parecia acabado, alterava-o, revisitava outros países num tempo rápido e voltava a olhar para a árvore.

Como explicar? A árvore despertava-lhe um poder de fruição de expectativas, de desempenhos, de diferentes eixos de narrativas e uma profunda curiosidade de lhe entender o viço, de lhe seguir o fio que a levava ao desvendamento da sua razão.

O escritor pensava mesmo se não haveria textos que nunca se concluiriam por não encontrarem o itinerário do viço depois de podados.

E insistia. E naufragava. E olhava de novo para a árvore.

Havia entre eles um romance inacabado, algo indecifrado, algo inesperado que solicitava o escritor como num campo magnético e o mobilizava naquela química literária do interpretar poda e viço.

Não se imagina a libertação do escritor quando num espaço-tempo no frequentar da árvore, conseguiu enfim reconstruir uma epistemologia, e não encontrando outro ser vivo da sua espécie, soube que a árvore o entendera.

Intentou então o escritor ir além dele, exercendo a literatura no aceitar o preço da poda e da condição aleatória que lhe coube.

Árvore e escritor, uma hipótese, uma aventura, um preceder da entrada em cena da escrita, um processo de caução aos vários avatares.


Teresa Bracinha Vieira

AMADEO E DELAUNAY NO POMPIDOU

  


O encontro de agora de Amadeo de Souza Cardoso, Sonia e Robert Delaunay em Paris no Centro Pompidou numa exposição memorável, inaugurada há dias, constitui um marco fundamental para a compreensão da história do modernismo no início do século XX. Depois da apresentação no Grand Palais parisiense da grande retrospetiva sobre Amadeo, com curadoria de Helena de Freitas (2016), há agora oportunidade para, através de uma correspondência entre os três artistas de exceção, se proceder à análise (que é disso que se trata para o visitante informado) de um verdadeiro diálogo, baseado em identidades criadoras que se diferenciam e que se completam, dando-se à expressão Correspondência(s) um significado que envolve aproximação e emancipação no domínio do pensamento e da arte. Como diz Helena de Freitas num precioso catálogo: “foi uma escandalosamente (quase) desconhecida correspondência que deu corpo ao histórico da relação destes três artistas, e dos restantes que constituíram os artistas da chamada “corporation nouvelle” reunidos pela guerra (de 14-18) em Portugal e em Espanha”. E o certo é que essa ideia de grupo informal surge como sinal de uma surpreendente modernidade, à volta das ideias de expositions mouvantes, de transferências culturais e de um trabalho transnacional em rede, em tudo contrariando qualquer centralismo parisiense.


A verdade é que a exposição do Centro Pompidou é ela mesma uma ilustração criativa da ideia complexa de correspondência, antes de mais expressa no rico diálogo entre Helena de Freitas e Angela Lampe na apresentação do tema e, em seguida, na demonstração prática sobre os percursos paralelos de Amadeo e dos Delaunay, nos quais nos apercebemos bem da independência de Amadeo, avesso à ideia de escola, em contraponto com o caminho de Sonia e Robert. Como salientaram Laurent Le Bon, presidente do Centro Pompidou, e Xavier Rey, diretor do Museu Nacional de Arte Moderna, a cooperação com a Fundação Calouste Gulbenkian “inscreve-se numa ambição mais alargada de reescrever a história da arte do início do século XX, revelando um panorama artístico complexo e interconectado”. E assim podemos não só reconhecer a grande importância da obra de Amadeo, mas também compreender neste contacto transfronteiras o sentido plural das raízes do pensamento moderno, bem evidenciado no grupo que abrange ainda Eduardo Viana, Almada Negreiros e Samuel Halpert, que Ana Vasconcelos criteriosamente tem estudado.


Contudo, a força criadora capaz de pôr as cores a girar e de garantir o culto da luz, como dizia Sonia, foi perturbada por um episódio grotesco em que a artista foi vítima de uma denúncia anónima, algo delirante, que a acusava de ser espia pró-alemã, por emitir sinais, através dos círculos órficos da sua pintura, para os submarinos alemães ao largo da costa portuguesa. Foi um caso caricato que projetou para fora da dimensão artística uma premonição intelectual que constituiu pano de fundo para estas correspondências que representam a vivência de uma nova mentalidade na arte de pensar e de criar.


Sente-se o ambiente tenso. Amadeo, em 1915, diz: “Esta paz tornou-se demasiado cara (…) e nós estamos a pagá-la”. Mas, perante as acusações absurdas de espionagem, já em 1916, descansa Robert Delaunay: “Fique tranquilo. Tudo acabará por correr bem. A verdade e a razão são muito poderosas. Todo o Porto está ao corrente deste caso e Lisboa também. Depois disto, fará exposições artísticas ainda com mais sucesso…” E dirigindo-se a Sonia: “O meu jardim está pleno de cores de seiva e de luz. Há morangos para encher os cestos, ‘rosas jovens e fortes’. Estou apaixonado. O Rimbaud vive no meu quarto. Vivo sob ‘cúpulas de esmeraldas’. Vejo ‘na minha anca a assinatura do poeta, e sou animal, e isso agrada-me”. E, embrenhado nesse prazer vivido, em Manhufe, Vila Meã, concluía: “Cuido, do que aprendi e herdei”.


GOM

SAÚDE, MEDICINA, SALVAÇÃO

  


Os doentes estiveram entre as preocupações e cuidados maiores de Jesus.  A saúde é, de facto, um bem precioso, mas só damos por isso, quando a perdemos. 


A saúde tem um carácter pluridimensional. No sentido autenticamente humano inclui vários níveis:


a) a saúde somática: o bom estado físico, portanto, um organismo capaz de desempenhar normalmente as suas funções;


b) a saúde psíquica: autonomia mental para enfrentar as dificuldades do meio e capacidade para estabelecer relações gratificantes interpessoais e com o ambiente;


c) a saúde social: se não cuida do meio ambiente, da habitação, da alimentação, da harmonia social, da saúde pública, como salvaguardarão as pessoas a sua saúde?


d) a saúde ecológica: se o homem é solidário da biosfera em geral, a sua saúde dependerá da saúde ambiental: ar puro e não contaminado, água limpa, ambiente belo, sem poluição sonora;


e) a saúde espiritual e religiosa: a dimensão de transcendência do ser humano tem de ser salvaguardada, num duplo sentido: a interioridade e a transcendência são elementos constituintes da saúde plenamente humana, mas será necessário prevenir contra crenças e ideias neuróticas, que prejudicam o ser humano.


Depois da Segunda Guerra Mundial, divulgou-se a definição de saúde da Organização Mundial de Saúde, que a considera “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Mas ela foi acusada de dar uma concepção estática de saúde. Haveria também o perigo de esquecer a capacidade de integração do sofrimento e da própria morte. Impõe-se, por outro lado, acentuar a importância da relação com o ambiente material e humano, em constante transformação. Assim, Francisco J. Alarcos, depois de considerar todos estes níveis e dimensões, esboçou a seguinte tentativa de definição: “A saúde é a capacidade de realizar eficazmente as funções requeridas num dado meio, e como este meio não deixa de evoluir, a saúde é um processo de adaptação contínua a múltiplos micróbios, contaminações, tensões e problemas que o Homem diariamente tem de enfrentar. Mas o sujeito humano está também em constante evolução. A saúde é a capacidade de adaptar-se a um meio ambiente que muda; capacidade de crescer, de envelhecer, de sarar, por vezes com sofrimentos inevitáveis, e finalmente de esperar a morte em paz.” 


A saúde comporta viver com sentido e, portanto, estar a salvo de tudo o que desumaniza e impede a realização adequada e plenamente humana. Por exemplo, saudar (de salutem dare) significa que estar são inclui “dar saúde” a quantos nos rodeiam, viver em solidariedade com todos, na alegria e na dor. No sentido íntegro da palavra, saúde é sinónimo de viver humana e harmoniosamente, com inclusão da esperança e da abertura à transcendência. Há hoje imensos estudos científicos que mostram a relação positiva entre uma prática sadia da religião e a saúde e até maior longevidade.


Mas acontece que ficamos doentes. Então socorremo-nos dos médicos. Também aqui a etimologia das palavras é iluminante. Significativamente, o radical med., donde deriva em latim mederi, com o sentido de ponderar, curar, cuidar de, restabelecer o equilíbrio, está na base de moderação, medicina e meditação. Aí está, pois, a saúde com o sentido holístico de harmonia, e o médico e o doente não se encontram como um técnico e uma máquina (o corpo) desarranjada, mas como dois seres humanos em diálogo, estabelecendo um pacto: o doente entrega-se à solicitude de outro ser humano, que, afectado por um pedido, escuta compassivamente e põe a sua arte ao serviço de uma existência ameaçada. 


Isso acontece, em princípio, numa clínica, num hospital. Veja-se, mais uma vez, a etimologia. Clínica provém do grego klínein, inclinar-se. Hospital relaciona-se com hóspede. Um hospital deveria ser, portanto, sempre o lugar da hospedagem acolhedora e amiga. Mas é-o realmente? Veja-se a conexão entre as palavras latinas hospes e hostis (hóspede e inimigo, respectivamente), como pode ver-se, por exemplo, hoje na palavra hostel, como se o hóspede enquanto estranho fosse ou pudesse tornar-se alguém hostil. Nos hospitais, hoje, para lá da efectividade, torna-se, pois, urgente recuperar a afectividade da hospedagem, para que o doente e o moribundo possam ser reconhecidos na sua dignidade e não como alguém estranho e hostil.


É bom saber do sentido holístico de saúde — sem esquecer Kant  dizendo que O Céu, para aliviar as muitas dificuldades, nos deixou três coisas: “a esperança, dormir bem, rir com alegria” —, que implica também, no meio da agitação constante, capacidade para parar e não esquecer o melhor e poder pensar e meditar e ouvir música e contemplar a beleza de uma simples folha de erva, de um pôr-do-sol e do céu estrelado na sua quietude exaltante. Outra vez a etimologia: pensar vem do latim pensare, pesar razões, mas de pensare provém também o penso sanitário: pensar cura. Aí está, pois, a ameaça hoje das redes sociais e do “dedar” constante e absorto nos ecrãs e as nefastas consequências desse brutal consumo para o cérebro ao nível da saúde mental e da capacidade para ler, reflectir, estudar...


A saúde está intrinsecamente vinculada ao cuidado. Viver é cuidar. Cuidar de nós, cuidar dos outros — a solidão mata —, cuidar da natureza, dos amigos — a vida sem amigos não presta —, cuidar do Sagrado, da Transcendência, do sentido, Sentido último. Salus, salutis dá origem a saúde e a salvação.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 13 de abril de 2024

A VIDA DOS LIVROS

  
De 15 a 21 de abril de 2024


“Memórias Minhas” de Manuel Alegre (D. Quixote, 2024) constitui uma obra oportuníssima para celebrar os 50 Anos de Abril. Eis uma parte da recensão crítica desse importante testemunho.

 


DESTRUIR A SOMBRA DO SEBASTIANISMO.
A experiência angolana da guerra e a prisão da PIDE em S. Paulo contribuíram para uma nítida tomada de consciência. Era preciso destruir a sombra de D. Sebastião. Apesar do «orgulho na aventura marítima de Portugal, achava que era tempo de fazer ao contrário a viagem de caminho marítimo para a Índia. Houve um tempo de partir, agora era tempo de voltar e ‘achar Portugal em Portugal’». Havia que derrubar a ditadura e que mobilizar as consciências. Chegado a Coimbra, a PIDE aperta o cerco. Um dia, na Praça da República, a caminho do Mandarim, com Adriano Correia de Oliveira, nota a sombra da polícia política e num ápice nasce o tema da “Trova do Vento que Passa”, que se tornará uma bandeira da liberdade: “Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não”. Um canto triste contra a tristeza. Mas o cerco da polícia e da ditadura chegaram ao ponto do perigo máximo. Avisam-no que se prepara uma nova prisão. Por isso, tem de partir, o que faz com o apoio de João José Cochofel, tendo como destino imediato a Casa de Vilar, graças à generosa solidariedade de Rui Feijó sob a invocação da memória do poeta Álvaro Feijó. “Casa de onde mais não sairei. Mesmo depois de partir, sobretudo depois de partir”. Daí sairá do País clandestinamente e é emocionante a descrição desse momento, correndo todos os riscos. Depois, Paris e Argel, a “Voz de Portugal” e dez anos a preparar dia-a-dia as emissões, com entusiasmo e sacrifício, a Emissora da Frente Patriótica de Libertação Nacional, contra o fascismo e contra a guerra colonial, por um Portugal livre e democrático. O hino nacional e o coro de Fernando Lopes Graça: “Vozes ao alto, vozes ao alto / unidos como dedos da mão…”. É histórica a entrevista de Amílcar Cabral, onde este afirma: “Não é mentira, não, os portugueses deram de facto novos mundos ao Mundo e aproximaram povos e continentes”. Afinal, o fascismo e o colonialismo é que estavam a desunir o que a História tinha aproximado. São tempos intensos em que se sente o pulsar de uma oposição plena de dúvidas e incertezas. Em Argel, relê a Odisseia e sente-se dentro da errância de Ulisses, no relato de uma viagem de retorno.


Trata-se de um testemunho essencial. “Não se pode dizer que estou a escrever uma autobiografia, muito menos História. Vou atrás da memória, a caneta flui pelo espaço e pelo tempo ao sabor dela ou dos seus caprichos. Posso dar-me ao luxo de ainda estar na Casa de Vilar e, de repente, mesmo sem atravessar a fronteira, já ter passado dez anos de exílio e, por exemplo, na manhã de 11 de março de 1975, receber um telefonema do Mário Cardia: - A Força Aérea está a bombardear o Ralis”… As memórias sucedem-se, vivas, intensas, afinal a democracia constrói-se com muita vontade e persistência. E Manuel Alegre traz-nos recordações que emocionam. “A revolução democrática venceu. Nas urnas, nas ruas e na Assembleia Constituinte onde, apesar de todos os confrontos, os deputados foram fazendo o seu trabalho, redigindo uma Constituição que não poderia ser alheia às transformações políticas, sociais, económicas e culturais ocorridas desde o 25 de abril de 1974. Várias e até contraditórias conceções de revolução. Mas o essencial está consubstanciado na Constituição”… Porque a cultura é o sal da democracia, como disse Mário Soares: “A literatura andou sempre comigo. Ou melhor, a poesia. Em folhas de papel quadriculado onde, de vez em quando, rabiscava uns versos. E em certos livros, Camões, sempre.” E lembra sentidamente Sophia de Mello Breyner: “Estar com Sophia foi sempre uma espécie de celebração. À volta de uma chávena de chá… (…) Ela falava-me das praias, da Granja, de Lagos, de Sagres. E dos seus amigos de adolescência. Falava-me deles como se eu próprio os conhecesse. Às tantas, mesmo sem os ter visto, já éramos íntimos”.


DETERMINAÇÃO E CORAGEM
“Memórias Minhas” são tecidas com alma, determinação, coragem, sentimento e vontade. “Procuro decifrar a imprevisibilidade de um Mundo virado do avesso. Seria preciso uma nova vidência poética. Mas as musas gregas estão feridas. O anjo de Rilke está fechado em Duíno. E o duende de Lorca não aparece nos rebordos dos lábios que sangram. A ditadura do Mundo mata, disse-me Natália Correia, ao telefone, três dias antes de morrer”. São tocantes as últimas recordações de Mário Soares: “Conversávamos como se nada se tivesse passado entre nós. E nunca trocámos uma palavra sobre o que nos tinha separado. Reencontrávamos a velha cumplicidade. Para além dos familiares, fui um dos poucos amigos que ele sempre reconheceu”. E nestas palavras está o sentido da liberdade de espírito e da coragem, que nunca esquecemos em Manuel Alegre.   


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RAQUEL NOBRE GUERRA

  


Sorrio aos mortos e enterro os vivos


Sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro
por que rodaram mãos e jeitos de luz.

Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão doido.

Lê assim

podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias
mas cairei por aqui.

Meu amor

Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.


2016, Senhor Roubado
Douda Correria
© Raquel Nobre Guerra


I smile at the dead and bury the living


I smile at the dead and bury the living
like a dark object
well handled in beams of light.

I live as if I weren’t here
lightly dressed for life.
I’m carried from the first to the last beat
in the breathing of a crazy lung.

You can read as follows

I might burn not very far from you
on the little square of one of your poems
and things would be returned to me, mere,
as if I were being carried by the days
but I’ll fall right here.

My love

The door on the latch and empty hands.
For quite a while that’s all I’ve been left.


© Translated by Ana Hudson, 2020
in Poems from the Portuguese

RAIZ & UTOPIA NOS 50 ANOS DO 25 DE ABRIL

RAIZ & UTOPIA NOS 50 ANOS DO 25 DE ABRIL.jpg

 

No âmbito das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, o Centro Nacional de Cultura, que tem vindo a tratar o espólio da revista Raiz & Utopia, assinala a importância desta publicação como momento fundamental de reflexão e debate na fase de estabilização da democracia, através da exposição A Raiz & Utopia que o 25 de Abril trouxe - espólio de uma revista que sonha e que pensapatente ao público até 3 de maio, e do debate O Manisfesto da Revista Raiz & Utopia, Agoraa ter lugar no próximo dia 18 de abril (quinta-feira), pelas 18h00 no CNC. De entrada livre, o debate contará com a participação de Carlos Laranjo Medeiros, Maria Bello, Rita Azevedo Gomes, Vasco Rosa e moderação de Guilherme d’Oliveira Martins.

A exposição está patente ao público até 3 de maio
Horário: dias úteis, das 10h às 13h e das 14h às 17h
CNC - Sala Sophia de Mello Breyner Andresen e Francisco de Sousa Tavares 
Entrada livre 

 

Sobre a revista Raiz & Utopia

A revista Raiz & Utopia surgiu na Primavera de 77. Vivia-se então em Portugal o efeito de um confronto – se não sangrento, pelo menos violento –, de que os saneamentos e as campanhas de dinamização cultural do MFA foram aspetos desgastantes que, mesmo à distância, mais parecem anedóticos.

A sociedade estava cansada de “palavras de ordem” e de um excesso de politização, o que explica o amplo movimento de adesão que se criou em torno da revista.

Ao manifesto Raiz & Utopia (que teve três autores, António José Saraiva, José Baptista e Carlos Medeiros, os dois primeiros já desaparecidos) reagiram por escrito dezenas de intelectuais e políticos de vários horizontes – e essa foi uma primeira grande vitória da Raiz & Utopia a que se viriam a somar outras semelhantes ao longo da sua existência, que terminou no Outono de 81.

Adelino Amaro da Costa, Alfredo de Sousa, Nuno de Bragança – para só citar estes, também desaparecidos tão antes do tempo – saudaram, entre muitos outros, a “pedrada no charco” que era o Manifesto publicado no nº 1 e que aqui se resume com o texto na contra-capa desse número, hoje esgotadíssimo:

Os burocratas, tecnocratas e salvadores políticos dos vários mundos, independentemente das suas diferenças de situação e doutrina, estão empenhados em consolidar um sistema em que a grande maioria dos homens executa mecanicamente as decisões tomadas por alguns. Torna-se cada vez mais urgente restituir a cada homem a sua humanidade, quadriculada e esquartejada num mundo cada vez mais programado. “Raiz & Utopia” não propõe uma nova doutrina no plano político e ideológico em que se exibem os actores do dia. Não contribui para o discurso dominante. Tão pouco alinha com o que é moda chamar-se “ciência”. Recusa a ilusão do “progresso” considerando que a famosa “marcha da humanidade” é um comboio num túnel em forma de funil. Os problemas de raiz estão hoje escamoteados no discurso tecnoburocrata. É preciso mudar radicalmente a problemática a partir do quotidiano, transformar a atitude do espírito perante as coisas. A utopia não é um impossível: é um Norte, a Leste ou a Oeste das ilusões confortáveis que hoje são servidas como ópio às massas resignadas. Estava-se em 1977. Ainda não se vislumbravam os contornos da sociedade da informação, tal como hoje a conhecemos, desejamos e tememos – e no entanto há quase trinta anos anunciava-se já o tempo que hoje vivemos.

Raiz & Utopia – de que Helena Vaz da Silva assegurou a direção a partir do nº 5 até ao fim – foi, de facto, pedrada no charco enquanto existiu. Quando parou, não foi por falta de leitores, mas por se ter entendido que se tinha esgotado o seu projeto, que estava cumprida a sua missão de proclamar uma nova atitude face à vida e à política.

A revista perfez um ciclo – nasceu na Primavera, morreu no Outono, 4 anos volvidos –, mas o seu apelo a uma utopia radical, em favor de um repensar dos fundamentos da vida, propagou-se e deixou sementes.

 


Testemunhos de quem criou e colaborou na Revista:

 
 




CRÓNICAS PLURICULTURAIS


170. DO AMOR E ÓDIO À HUMANIDADE


A destruição do nosso planeta por um holocausto nuclear estará inscrita na História da Humanidade? Hiroshima e Nagasaki foram apenas um “erro” que não voltará a repetir-se? O Holocausto foi um simples “erro” irrepetível? A guerra, como realidade histórica que tem acompanhado o ser humano na sua trajetória terrena, é irredutivelmente eterna? A presença do Homem na Terra é só destruição?     


É uma visão cruel da presença humana na Terra, que trouxe (e trará) destruição à natureza e aos humanos. Só que, olhando para a natureza, compreendemos que ela também é cruel, o que não legitima que defendamos que o mal humano é mais digerível quando o transformarmos num mal natural.     


Não foi a presença humana, em si e só por si, que trouxe destruição à natureza e à espécie humana, por muitos exemplos que haja da sua crueldade. Apesar do seu quinhão de destruição, evitável, em parte, o saldo é e continua positivo, através de um enriquecimento substancial do mundo em que habitamos. A não se entender assim, é legítimo concluir que há quem seja portador de um pessimismo intrínseco que prefere um mundo desumano e com ódio à humanidade. 


Tomando como referência a tese geral de que a presença humana na Terra é destrutiva, há quem a torne extensiva ao colonialismo (racismo e não só), que com a escravatura, por exemplo, destruiu a natureza do humano e da cultura nas comunidades locais colonizadas.


Trata-se, por um lado, de uma avaliação e generalização simplista, dado saber-se que quando os europeus chegaram o tráfico de escravos já era conhecido. É consensual que os africanos já se escravizavam entre si antes dos portugueses chegarem a África. Pode falar-se de uma questão de grandeza, uma vez que os europeus da época praticaram a escravatura (já existente) numa escala maior. O que também pode levar, por outro lado, a um incitamento ao ressentimento e à violência, começando por um certo ódio tribalizado que se pode universalizar, apesar de, à nascença, segundo Rousseau, sermos todos bons selvagens.   


E é muito pouco consensual (no mínimo) a teoria crítica da raça, segundo a qual como só os brancos tinham poder, apenas os brancos poderiam ser racistas. Os negros, não, ou, se o fossem, eram-no apenas porque tinham “interiorizado a branquitude”, tida como contagiosa para desculpabilizar os que não comungavam as novas ideias e teorias raciais. E os da Ásia e das Américas?   


Não se pretende “branquear” a colonização, escravatura e racismo, porque condenáveis na sua desumanidade, repugnância e ódio à humanidade. Mas é incompreensível só aceitar visões maximamente supremacistas, de vencedores ou vencidos, que muitas vezes apenas sobrevivem por ressabiamento e pelo odioso ao que é humano, não as contextualizando, escrutinando e confrontando nos seus prós e contras. É um discurso negativo, revanchista, vingativo, ressentido, megalómano, perigoso e vil. Há que não estimular ideologias de incitamento ao ódio, antes sim as de união e reconciliação. A lista de coisas boas é extensa e gratificante: avanços médicos, científicos, tecnológicos e as artes em geral de que o mundo beneficia. E que o nosso amor à humanidade sedimenta e amplia.


12.04.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

JON FOSSE

  


Uma pessoa no interior de uma brancura luminosa (…) É isso que há aqui. Isso e eu (…) e talvez todos os anjos sejam bons e maus, pois essa também será uma possibilidade (…) era quase como se houvesse algo a que se pode chamar amor (…) ou, ou. (…) É assim. Ou, ou. (…) É quase como uma pequena casa que eu arranjei para mim. Casa. 

 

  


A recente obra Uma Brancura Luminosa de Jon Fosse, surge pela chancela Cavalo de Ferro em fevereiro do corrente ano.


JF - Nobel de Literatura de 2023 - nas 54 páginas deste livro proporciona um núcleo do sublime de uma escrita única, assombrosa e comovente.


Leio sempre Jon Fosse aproximando-me dos passos que me levam até quem conhece como se fecham as abóbodas.


Mais uma vez, neste livro, palavra e ação são meios de conhecimento decisivo quando do choque Jon Fosse sabe que nem sempre resulta o mesmo.


E de tudo nos aproximamos como quando nos aproximamos de coisas movediças. Coisas que se fazem e desfazem para nos divulgarem o que afinal nos aguarda.


Sempre que leio e releio Jon Fosse, regresso a um passar a limpo as ideias iniciais, e assim vou assumindo cada página como uma evolução a mapear para riqueza do espólio da memória.


Os sons das palavras da escrita de JF constituem fontes de imagens, pensamentos e relações que ele oferece num desapossamento do poder de assim dizer, ligando-nos à tecedura de quem tem a capacidade de transportar nas palavras aquilo para que foram feitas.


E


(…)
também eu já estou descalço (…) mas há tantas coisas que não entendo (…) como se os significados tivessem deixado de existir, porque tudo é apenas isso, por assim dizer, tudo é significado.


Teresa Bracinha Vieira

A CAMINHAR PARA O PRINCÍPIO…

  


A Exposição que está na Biblioteca Nacional de Portugal alusiva ao centenário do nascimento de Eduardo Lourenço, comissariada por João Dionísio, é uma muito boa surpresa. Não se trata apenas de mais uma evocação do pensador e ensaísta, já que se baseia no seu espólio inesgotável, que agora começa a ser revelado. Nesse sentido, mostra-se uma faceta do escritor que só agora pode começar a ser estudada, enriquecendo o conhecimento do prolífero autor, cuja obra longa e multifacetada precisa de ser mais bem conhecida. E cabe elogiar o excelente trabalho desenvolvido por João Dionísio na conceção do percurso, apresentado numa sequência que vai do epílogo para o começo, em revelação apaixonante de uma vida cuja riqueza correspondeu a uma simbiose fecunda entre a existência e a reflexão, não podendo esquecer-se o contributo decisivo para a reunião destes preciosos elementos de João Nuno Alçada, conhecedor profundo deste extraordinário acervo.


O título “A caminhar para o princípio” diz tudo. Há um percurso cronológico concebido às avessas baseado num pequeno apontamento do ensaísta e numa fotografia. No primeiro lê-se: “Pour moi il (est) trop clair que nous marchons dès le commencemet vers notre commencement» - Para mim é demasiado claro que caminhamos desde o começo até ao nosso começo. Na fotografia, de Sílvia Seova, já publicada num dos volumes das Obras publicadas pela Gulbenkian, Lourenço, de costas, na companhia de um cão, caminha na direção de um túnel, sobre o qual os arbustos e as árvores deixam entrever a parte cimeira de uma casa. De forma natural, é como se Eduardo nos contasse a sua vida – começando por uma bela fotografia de Duarte Belo, que reproduz o gabinete, com luzes de estúdio, no qual captou centenas de imagens do espólio. Em seguida, identificando o século XXI, surge a imagem de Eduardo Lourenço na Fundação Calouste Gulbenkian, quando administrador não executivo, seguindo-se, para os anos 90, o pensador com Annie Salomon na muralha da China, na comitiva oficial do Presidente Jorge Sampaio. Para os anos 80, temos a impressiva imagem da visita ao Carmelo de Santa Teresinha, onde estava Lurdes, irmã de Eduardo. Nos anos 70, contamos com a paradoxal colagem da autoria de Mário Botas, em que a face recortada do pensador, com ar prazenteiro, ocupa a face do Rei Desejado, na pintura clássica de Cristóvão de Morais. A década anterior apresenta-nos a imagem do casal Faria com o filho Gil, enquanto o prólogo colocado às avessas envolve imagens inéditas do casamento de Annie e Eduardo em Dinard (Bretanha) e a presença do herói de tenra idade com os olhos bem abertos para o mundo. Estes são os marcos fundamentais deste fantástico caminho, também ilustrado pelo friso multicolorido com as capas das obras vindas a lume em Portugal e no estrangeiro. E, ao seguir esse caminho, orientado para o começo, fica a lembrança do devorador de periódicos que Eduardo era, colecionando, dobradas em quatro, as páginas dignas de maior interesse: “Não posso passar um dia sem ler o jornal. Compro-o e vou para ele como se o mundo viesse ao meu encontro”. E o exemplo de Hegel vinha à baila, na oração matutina do homem civilizado. Sou testemunha disso, com o meu vizinho de gabinete. E, em lugar de imagens já conhecidas, surpreendem-nos referência inéditas que ilustram a passagem dos sinais dos tempos que tanto o interessavam. Não por acaso, na célebre “Heterodoxia”, surgiu como símbolo, como ex-libris inconfundível, Migdar, a serpente de aspeto circular que morde a própria cauda. “Podemos ver (no velho mito germânico) uma imagem da vida como um todo que solicitou no seu seio a necessidade mesma da morte”. É a paixão circular da vida por si mesma, demarcada de um só caminho ou de nenhum caminho. Está de parabéns a Biblioteca e a sua diretora Inês Cordeiro, convidando o visitante a conhecer um pouco do fascinante espólio de um não menos fascinante autor.


GOM

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