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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O QUE É O HOMEM?

  


Pela primeira vez na História a humanidade é hoje compelida a sair da lógica da guerra e do depauperamento incondicionado do ambiente. Parece que pode começar uma inversão da tendência com a assunção da consciência de que desta maneira não se pode seguir por diante, sob pena de destruir a humanidade a provocar a desolação do planeta.


Se nas últimas décadas constatámos de uma forma crescente que se estão a dar grandes passos rumo à barbárie, parece emergir agora uma reação que ainda não é a «insurreição das consciências» invocada por Pierre Rabhi, mas é a reiteração, de novo, da necessidade urgente de humanização.


São significativos, a propósito, os títulos de alguns ensaios filosóficos e sociológicos que apelam à humanização da modernidade, da política, da sociedade…. Perante as crises globais que se abateram sobre nós, como a pandemia, as crises económicas, as guerras nas fronteiras da Europa e do Mediterrâneo (portanto junto á nossa casa e, na realidade, guerras que também nós estamos a combater ao fornecer armas aos beligerantes), como afirmar um humanismo que seja um objetivo almejado com convicção pelas várias humanidades que fazem parte de um tecido da vida, da comunidade global?


É por isso que a pergunta séria e urgente que devemos colocar-nos não é sobre Deus mas sobre o mundo humano: «O que é o humano?». Pergunta na verdade antiga, que significativamente reencontramos no início e no fim do Saltério hebraico: «O que é o Homem?».


Devemos refazer-nos estas perguntas sobretudo hoje, porque o humano está esmagado entre o inumano e o pós-humano.


Conhecemos bem o inumano como possibilidade de depredação e negação do próprio humano: quando o ser humano é reduzido a “res”, coisa, quanto é humilhado e reduzido ao nada, distorcido pelo ódio e pela violência dos massacres e dos genocídios, desconhecido nos migrantes que apenas invocam compaixão, o inumano reina e nega o rosto à pessoa, nega a sua vida.


E é sempre permanente a necessidade de discernir o desumano também na nossa vida quotidiana, nas relações pessoais entre familiares e conviventes, nas situações onde falta a palavra apropriada, o respeito que sabe reconhecer o outro, a mansidão que pode assegurar a paciência recíproca. Bernanos escrevia: «A barbárie aninha-se nas fronteiras das nações como nas casas mais humildes».


E todavia hoje o humano está também desconfiado do pós-humano, ou seja, esse novo estádio evolutivo da humanidade no qual o cruzamento entre biologia e tecnologia está cada mais omnipresente. Deveremos alimentar muita inquietação perante estas novas oportunidades que poderão chegar a negar o corpo para o substituir com estruturas artificiais munidas de elementos de inteligência humana. Ao “homo sapiens” sucederá a “macchina sapiens”? E não será este talvez um delírio de omnipotência que deseja ser capaz de transumanismo até chegar a negar a mortalidade?


Pessoalmente nutro uma tal confiança na humanidade que não acredito que seja possível essa deriva e continuo convicto de que mais uma vez o “homo sapiens” saberá responder de maneira vital à pergunta que só ele sabe colocar-se: o que é o Homem? Porque há na humanidade um selo que pode ser pisado e negado, mas que é indestrutível e jaz como indestrutível na sua profundidade: a fraternidade. Ela tem a força de emergir assim como a terra, depois da água, do fogo, do vento, deixa despontar a erva e retomar a vida.


Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins