LÍNGUA SEMEADA PELO MUNDO TODO
O tempo parou no palacete de S. João dos Bem-casados. Quando se entra na casa onde viveram Veva de Lima e Rui Enes Ulrich sentimos o ambiente de um cenário de Marcel Proust ou de Luigi Pirandello. Regresso sempre com gosto ao lugar onde se realizaram dos últimos serões literários do panorama lisboeta, lembrando os míticos encontros dos árcades com Alcipe, a Marquesa de Alorna, em que participou o jovem Alexandre Herculano. Tenho na memória as descrições de Fernanda de Castro sobre esses encontros de magia e ilusão. Os móveis, os livros, as fotografias, os damascos que vislumbramos testemunharam silenciosamente esses tempos e representam a decoração portuguesa de várias influências, de Paris até à Índia. O meu amigo Alfredo Magalhães Ramalho, que conheci no Pedro Nunes, é a alma desta tertúlia, conhecendo como as suas próprias mãos cada recanto da velha casa. E ouvimos a cada passo a voz do espírito fulgurante de Veva, filha de Carlos Mayer, um dos Vencidos da Vida com Eça, Ramalho e Oliveira Martins. “Enquanto vivos (…) talvez não houvesse, realmente, com tal conjunto, orquestra mais sumptuosa em polifonias de valores mentais, como a que eles, associados, conseguiam manter pela harmonia das suas superioridades equivalentes na zona de ideias em que habitavam”. Foi este o espírito que procurou manter vivo e que sua filha, a exemplar educadora Maria Ulrich, persistentemente trouxe até aos nossos dias.
Pediu-me o Alfredo que falasse numa das suas quartas-feiras, depois do habitual jantar em ambiente familiar, recordando os grandes dias, do tema “Duas Vezes 500”, a propósito de dois centenários marcantes – do nascimento de Luís de Camões e da morte de Vasco da Gama. E fomos transportados à análise de Toynbee sobre o início da Era Gâmica, génese da globalização, momento crucial da história da humanidade. Quando lemos Os Lusíadas podemos compreender a complexidade dessa empresa e o seu significado essencial – o dos “descobrimentos” não como glória mítica, mas como obra humana, com claros e escuros, virtudes e pecados, mas caminho que avança e obra que se constrói gradualmente. Perante o fecho do levante mediterrânico depois da conquista turca de Bizâncio, o Infante D. Henrique e D. João II apontam à Índia, procurando a passagem de África para o Índico. A morte trágica do jovem D. Afonso compromete os objetivos do Príncipe Perfeito, que designa D. Manuel como seu sucessor, celebrando-se o Tratado de Tordesilhas. O Venturoso assumiu plenamente a herança de D. João II e logo após as Cortes de Montemor-o-Novo de 1495, reuniu o seu Conselho a quem perguntou: “Vamos à Índia?”. E, ouvindo dúvidas e reticências, respondeu, contra as mesmas, determinadamente: “Urge partir!”. E Camões soube como poucos traduzir essa audácia segundo a tradição dos grandes clássicos, usando como modelo Virgílio, numa nova Eneida. De facto, o poeta possuía um saber erudito, que abarcava vários domínios do conhecimento, da geografia à botânica, da cosmologia à astronomia. A qualidade do seu estilo e o domínio rigoroso da sintaxe, o emprego adequado do vocabulário, decorrem de longas e profícuas leituras, e da convivência desde tenra idade com o latim. Não é assim por acaso que um poeta seja o símbolo da pátria, caso único entre tantos outros, numa língua nascida dos trovadores e semeada pelo mundo todo.
GOM