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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POESIA

Barco 

  


Nem posso acreditar que fomos tão fortes nos nossos tempos de juventude sim,

avançávamos para a frente do barco e pegávamo-lo com todas as viagens em cima, as feitas e as por fazer e as paralelas a tudo o que conhecíamos da vida num sentimento tremendamente poderoso que nos ligava ao mar e às urzes, a tudo junto, julgo, as pedras também

Agora sentimos que as realidades permaneceram em nós, como aquilo que foram e como aquilo de que não abdicamos

e já levo as mãos aos olhos e esfrego os olhos, e penso que afinal nada hoje é como sempre foi, algo aconteceu ou foi acontecendo,

mas o quê? Fixa-te na distância, digo, fixa-te a ir vendo

o sobrevindo

e esse quê é o sobrevindo

e é o que me leva e levou a alterar rotas em direção ao longe lá longe quando o horizonte se une com o céu, bem lá ao longe

depois regressámos e passámos a usar o ponto de referência

e de novo o barco alinhado, mas a partir desse ponto de referência,

e é diferente, julgo, é mesmo diferente, agora as nossas partidas só se fazem a partir dos pontos de referência, a partir daí, sim é isto que passou a estar no nosso entendimento

e esfrego os olhos de novo

Vá experimenta tu primeiro, encontraste uma explicação por que as nossas razões não se afundam, por que se recusam a afundar-se

Sim, é por aí, claro que sim, é por aí, digo

Depois o oceano quer-nos no barco com tudo o que amamos

No barco nunca esteve o que não amamos

por essa razão depois

tudo ao mesmo tempo nos aproxima da eternidade

sim, por que passámos a estar nela

e estamos de mão dada, firmes, fortes

Nem posso acreditar que somos tão fortes, tão fortes

que já nem sentimos o frio

antes o recuperamos para nos aquecermos

e preciso tanto, tanto, que venhas comigo agora


Teresa Bracinha Vieira