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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  
De 31 de março a 6 de abril de 2025


O papel desempenhado pela cultura portuguesa na génese do Renascimento merece atenção especial. O pano de fundo da história portuguesa dos séculos XV e XVI abrange, assim, em termos culturais, referências fundamentais. Neste ano em que se celebra o quinto centenário de Camões referimo-las.



PARA ALÉM DA TRADIÇÃO LÍRICA
Na grande tradição da lírica poética, vinda dos trovadores galaico-portugueses e das cantigas de amor e de amigo, chegamos à maturidade da língua portuguesa com Luís de Camões (1524-1580), antecedido por Garcia de Resende (1470-1536), coordenador e artífice do Cancioneiro Geral, acompanhado por Francisco Sá de Miranda (1481-1558), o grande introdutor em Portugal da medida nova de Petrarca, ou pelo autor de “Menina e Moça”, Bernardim Ribeiro (1488-1552). Ao lado deste fundo lírico, temos o domínio épico, de que Camões é o supremo representante, em paralelo como a “História Trágico-Marítima” (obra impressa no século XVIII, baseada em publicações dos séculos XVI) – que levou Miguel de Unamuno, a considerar a cultura portuguesa, a um tempo, lírica e trágica. A estes dois campos, junta-se, porém, o domínio picaresco, na tradição das cantigas de escárnio e maldizer – a que urge juntar o teatro de Gil Vicente (1465-1536), que António Tabucchi exemplificou com o extraordinário “Prato de Maria Parda”, podendo acrescentar-se, dentro de uma produção riquíssima, o “Auto da Lusitânia”, com as inconfundíveis personagens de Todo o Mundo e Ninguém (que Almada Negreiros considerou gémeos). Por outro lado, há um dos fundadores da moderna narrativa Fernão Mendes Pinto (c.1510-1583) com a obra fundamental “Peregrinação” – obra-prima de moderna transição romanesca, que nos permite compreender a diversidade de experiências dos portugueses no mundo, em que o autor se define como «treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. Por outro lado, temos as primeiras Gramáticas da Língua Portuguesa datam respetivamente de 1536 com Fernão de Oliveira (também autor da “Ars Nautica”) e de 1540 com João de Barros. Se referimos João de Barros, não podemos deixar de aludir a sua notável função de cronista, em que seria sucedido por Diogo do Couto, o célebre autor do “Soldado Prático”, repositório fundamental sobre as fragilidades do império. Nessa plêiade de grandes escritores, não podemos deixar de referir Damião de Góis, diplomata, intelectual prestigiado na Europa, amigo de Erasmo e de Dürer, alvo de desconfianças em virtude da sua relação com os maiores humanistas.


O DOMÍNIO DAS ARTES
No campo artístico, temos no século XV os exemplos notáveis de Nuno Gonçalves (c. 1450-1491) e de Vasco Fernandes (Grão Vasco) (1475-1542) – sendo primeiro autor de uma das obras-primas europeias de sempre, os Painéis ditos de S. Vicente (c. 1470), redescobertos no final do século XIX e identificados pela representação do Infante D. Henrique tal como se encontra na edição da Crónica dos Feitos da Guiné da Biblioteca de Paris. Na arquitetura, Nicolau de Chanterene (1470-1551), Diogo Boitaca (1460-1528) e João de Castilho (1470-1522) criaram o que conhecemos como o manuelino de que é paradigma o mosteiro dos Jerónimos, além de Francisco de Arruda (m. 1547), que assina a Torre de Belém, merecendo todos especial destaque, ao lado do grande mestre teorizador Francisco de Holanda (1517-1585), não se esquecendo na ourivesaria a preciosidade da Custódia de Belém, possivelmente da autoria de Gil Vicente. Na música, encontramos figuras de relevância europeia como Mateus de Aranda (1495-1548), Pedro de Escobar (1465-1535), Filipe Magalhães (1571-1652), Manuel Mendes (1547-1605), Pedro Cristo (c.1545-1618) e Duarte Lobo (1565-1646).


O SABER DE EXPERIÊNCIAS FEITO
Aos domínios referidos, importa acrescentar no que designamos como a primeira globalização as seguintes referências. Na ciência, há a figura maior de Pedro Nunes (1502-1578) matemático e cosmógrafo-mor do reino, de dimensão mundial, mas ainda a de Abraão Zacuto (1450-1522), autor da “Tábuas Astronómicas”; além de Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), autor do “Esmeraldo de Situ Orbis” e elemento crucial na preparação e concretização do que veio a ser o Tratado de Tordesilhas; de Garcia de Orta (1501-1568), médico e naturalista; de Amato Lusitano (1511-1568), médico e fisiologista, e de D. João de Castro (1500-1548), político, cartógrafo e naturalista. Deste modo, até ao reinado de D. Manuel, há uma assinalável convergência de influências, num caleidoscópio de povos e crenças. No entanto, com a expulsão dos judeus, no início do século XVI, depois do massacre de Lisboa de 1506, houve, também uma dispersão e a perda de vantagens económicas e de conhecimento. Pode dizer-se que a saída dos judeus sefarditas da Península Ibérica teve consequências desastrosas no tocante aos investimentos e ao apoio científico – tendo resultado de uma forte pressão diplomática e religiosa, que um século depois o Padre António Vieira procuraria inverter na Restauração da Independência (1640). A primeira globalização, que Arnold Toynbee designa como era gâmica (por homenagem a Vasco da Gama), abre novos horizontes à língua e à cultura portuguesas nos diversos continentes. A língua franca dos mercadores e missionários da Ásia será o português, designado como “papiar cristão”, enquanto a miscigenação promovida, através dos casamentos mistos, por Afonso de Albuquerque vai permitir o surgimento de um relevante diálogo entre culturas – que Jaime Cortesão considerará como base do humanismo universalista dos portugueses…


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
O GRISÚ E OS CANIBAIS (I)


1. Por maior que seja o meu gosto por efemérides, juro à fé de quem sou que não me apanham a discutir os méritos ou deméritos relativos de Sartre e de Aron. Para esse peditório já dei e até julgo que generosamente. Voltar a ele, a pretexto de centenários, nem com luvas de amianto. Embora não resista a divertir-me com títulos como "o intelectual dos intelectuais" ou "o homem que nunca se enganou". Cala-te boca... Pelo contrário, Júlio Verne puxa-me o pé e puxa-me mesmo por aí acima de qualquer deles. Também é verdade que, no caso dele, se não comemoram berços mas sepulcros, pois que o homem, se fosse vivo, (Aquário como eu, nascido no dia seguinte ao dia dos meus anos) contaria 177 anos bem contados. 77 tinha ele quando morreu, em Amiens, a 24 de março, ainda Sartre nem nascido era e contava Aron apenas dez dias.


2. Antes de me ir à memória, uma divagaçãozinha gramatical sobre mistérios da língua portuguesa. Tal como nunca ninguém me conseguiu explicar porque bulas a proposição a se contrai ou descontrai do artigo dos artigos definidos a ou o em nomes de povoações ou de países, também me é identicamente misteriosa a razão ou razões por que se "aportuguesam" alguns nomes próprios estrangeiros, conservando-se no original a maioria deles. Dou exemplos, para ser claro. Porque é que se diz "ir a Cascais" e "ir ao Barreiro", ou "ir a França" e "ir ao Japão"? Depende das consoantes por que começa o substantivo próprio? Não depende nada, já que igualmente se diz "ir à Finlândia" e "ir a Java", "ir ao Cadaval" ou "ir a Braga". Também nada tem que ver com vogais no início do substantivo. Diz-se "ir à América", mas ninguém diz "ir à Almada", diz-se "ir a Évora" mas nunca ouvi dizer "ir a Estónia". Pura e simplesmente, não há regra ou eu nunca conheci José Pedro Machado que ma explicasse. Mas dá que pensar que digamos todas da mesma maneira ou, quando alguém troque (por exemplo: "ir à Espanha" ou "ir à França") que logo lhe identifiquemos a condição social, já que só o "povo" aglutina assim em vez de assado.


À exceção de alguns puristas, sobretudo do século XIX ou da primeira metade do século XX, não é de bom tom, em português, "aportuguesar" nomes de gente célebre. Não me estou a ouvir, nem estou a ouvir ninguém que conheça, a citar Honorato de Balzac, Henrique Stendhal, Guilherme Shakespeare, Luís de Beethoven, José Verdi, João Bellini, Marcos Rothko ou Frederico Murnau. Mas sei que faço figura de pedante se disser Michelangelo em vez de Miguel Ângelo, Raffaello em vez de Rafael, Victor Hugo (com acento no o de Victor e no o de Hugo) em vez de Victor Hugo, como se estivesse a falar do matemático. Pior ainda (muito pior) se estiver a desfiar nomes de reis. Louis XIV, Henry VIII ou Wilhelm II, não se espera ouvir nem da boca do mais pintado. Por que sim ou por que não quem saiba que mo explique, que eu só sei responder como se responde aos "porquês" das crianças: "por que sim" e está tudo dito sem se dizer nada.


Tanta conversa para quê? Para observar que, além do autor de Les Misérables (e, neste caso, era preferível escrever Os Miseráveis) Júlio Verne é o único escritor do século XIX a que raríssimos portugueses chamam Jules Verne. A imensa popularidade tem que ver com isso, no caso de Hugo como no caso de Verne? É bem possível. Eles foram dos pouquíssimos que foram quase integralmente traduzidos no seu tempo e lidos por portugueses que não sabiam palavra de francês, coisa que no século XIX, e até cerca de 1960, era sinal de incultura grassa. A "sociologia cultural", embora não explique Miguel Ângelo ou Rafael, pode explicar o Júlio Verne, que se pegou aos espíritos cultivados por contágio dos baixíssimos ou dos pré-adolescentes que em tempos idos o liam.


3. Júlio Verne, assim o conheci eu também, entre os meus 8 e os meus 12 anos, mais coisa menos coisa. Em casa dos meus avós, como em casa dos meus pais, havia prateleiras de estantes cheias, com as edições que começaram por ser de David Corazzi, subnominadas "imprensa horas românticas", e passaram depois para a Bertrand (Aillaud e Bertrand), mantendo-se idênticos o formato, a encadernação, o encarnado (às vezes o verde) e as gravuras da capa: uma bananeira com uma serpente enroscada no caule; um leão; um navio naufragado com um vago vulcão ao fundo; e um balão pelos ares. Para além do título da obra, lia-se em maiúsculas itálicas, a quase toda a altura, a expressão Viagens Maravilhosas.


Por uma dessas edições (de 1888 - mas já era a terceira) conto eu trinta e dois volumes já editados nesse ano em português, sendo que vários deles eram duplos ou triplos (A Aventura do Capitão Hatteras, Os Filhos do Capitão Grant, Vinte Mil Léguas Submarinas, A Ilha Mysteriosa, Miguel Strogoff, O Paiz dos Pelles, Heitor Servadac, Um Heroe de Quinze Annos, A Casa a Vapor, Keraban o Cabeçudo, Mathias Sandorf, Norte Contra Sul) e um (As Grandes Viagens e os Grandes Viajantes) era quíntuplo, o que, bem feitas as contas, perfaz quarenta e oito livros, que haviam de chegar aos setenta e dois, à data da morte do escritor. A grafia usada era o esplêndido português anterior ao malfadado acordo de 1911, em que se escrevia A Esphinge dos Gelos e Luctas de Marinheiro, tanto na Rua Garrett em Lisboa como na Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro. Esses livros, esse encarnado, essa ortographia, essas figuras da capa, mergulhavam-me em tal êxtase, que me consolava bem de não me deixarem tocar nas luxuosas edições da Hetzel, com gravuras de Neuville, Férat, Laplante ou Doré, que havia em casa do meu Avô Bénard, no original. Numa delas, escreveu o meu Avô a lápis: "Donné par mon père le 27 Juin 1880". Era o dia dos anos dele, 11 no caso em questão, que é o de Vingt Mille Lieues Sous Les Mers, que tivera primeira edição em 1870. Só 71 anos depois, a 1 de maio de 1951, passaram tais livros à minha posse, oferecidos pela minha Avó. O meu Avô leu Verne em 1880, como o meu Pai o leu em 1907 e eu o li em 1945. Três gerações educadas a Verne, mas já não juro pela quarta, pois que, apesar dos meus esforços, em 1970 ou durante essa década, os meus filhos já não devem ter terminado nenhum dos romances dele. Verne durou de 1860 a 1960, pelo menos como "leitura global". Raros serão hoje os maiores de 50 anos que entraram na adolescência guiados pelos filhos do Capitão Grant ou reencontraram o Capitão Nemo na ilha misteriosa. "Chamaste-me Capitão Nemo?" A mim chamou-me (e de que maneira!) naquele escritório da Rua do Jardim do Tabaco, que ficava logo à direita da porta da entrada e onde uma escura livreira de mogno guardava as viagens maravilhosas que me levaram aos pólos e ao equador, à lua e ao fundo dos mares, à estrela do sul e ao centro da terra.


4. Mas a minha introdução a Verne não foi escrita, foi oral. Tinha eu 9 anos e andava no Lar Educativo João de Deus. Uma das netas do poeta, que era minha professora - Maria da Luz de Deus Ramos que, depois de casada, já fora desse tempo, se chamou Maria da Luz Ponces de Carvalho, a Luzinha como então todos lhe chamávamos - ocupava parte da aula da tarde a ler-nos Verne. O primeiro livro que assim nos leu foi As Índias Negras, que se situava nas hulheiras de Aberfoyle, na Escócia de outras eras.


"Pede-se ao engenheiro Jaime Starr o obséquio de se dirigir amanhã às hulheiras de Aberfoyle (...) onde lhe será feita uma comunicação da mais alta importância." Assim começava esse livro. A hulha havia-se esgotado nas minas que foram abandonadas, mas estranhos mistérios ocorriam nas profundezas dela. Após muitas peripécias - e para muito resumir - descobria-se que o antigo capitão da mina ("Overman", chamou-lhe o tradutor), um velho de nome Silfax, que todos julgavam morto, se refugiava nas galerias dela, acompanhado por uma neta e por uma estranha ave, um harfang, tão mais insólito quanto nunca consegui perceber de que espécie de pássaro se tratava. O velho ensandecido procurava uma vingança contra quem lhe roubara o último filão das velhas hulheiras e também o amor da neta. O plano dele era libertar grisú, um gás explosivo, e fazer ir a mina abaixo, com todos os que o haviam roubado. Terrível era a aparição final do velho, no meio de um lago subterrâneo, "de olhar sinistro, barbas alvíssimas, caindo sobre o peito, roupas talares e a cabeça coberta por um capuz". Tinha na mão uma lâmpada de Davy e com ela queria fazer explodir o gás, o grisú. "Oh, grisú, oh grisú... Soou a hora da minha vingança!" No último minuto, dava-se a salvação e a morte de Silfax. Mas, até chegar aí, foram tardes e tardes em que eu nada mais esperava do que saber que mistério escondia a mina e quem era o fantasma que a habitava. O suspense foi demasiado. Precipitei-me para o livro e, nesse mesmo dia, começou a minha compulsiva paixão por Verne, que durou três anos e trinta livros. Começaram também os meus pesadelos com Verne, revendo o velho e o harfang de "penas brancas mosqueadas de pintas negras". Os pesadelos ainda os consegui transmitir. Em carnavais da Serra da Estrela, em casa da Zézinha e do António Alçada, quando a neve caía lá fora, antes de deitar os meus filhos mais velhos (7 e 6 anos à época) eu contei-lhes resumidamente esse extraordinário romance, detendo-me, como a Luzinha fizera comigo, na descrição das tenebrosas galerias da mina, no pássaro sinistro e na aparição do velho com o seu grito de vingança. Imitava o gesto de "horrível imprecação" que Silfax soltou ao ver frustrados os seus intentos. Grito que foi o último que proferiu, pois se precipitou nas águas do lago que não quiseram restituir à sua presa.


As crianças ouviam-me aterradas e, ainda hoje, a minha filha Ana estremece a evocar os pesadelos infantis, provocados pelo grisú, pelo harfang e pelo velho Silfax com a sua barquinha e o seu "riso cavernoso", enquanto se espalhava o cheiro do "hidrogénio protocarbonado". Imaginem que eu lhe tinha contado a história dos canibais da Galera Chancellor! Não conhecem? Esperem até à próxima sexta-feira. Já não têm 7 anos.


por João Bénard da Costa
1 de abril 2005 in Público

NÃO ESQUECER CAMILO…

Regresso sempre com redobrada admiração ao percurso controverso e atribulado, mas fascinante, de Camilo Castelo Branco. Passam por estes dias duzentos anos sobre o nascimento do extraordinário cultor das nossas língua e literatura, sendo tempo de não o esquecer. Só uma personalidade capaz de  incorporar as dimensões contraditórias da vida pôde ser um criador tão fulgurante, capaz de revelar na sociedade em que viveu as mais inesperadas características. Foi um romancista sobre quem alguns julgaram que tinha uma fórmula de sucesso, no entanto, se virmos com atenção, verificamos a genialidade, o conhecimento profundo da História e da complexidade humana, a grande curiosidade, a cultura excecional e a capacidade de entender o mundo social e político (de José do Telhado ao Bispo de Viseu). Percorrendo as fundamentais “Memórias Fotobiográficas (1825-1890) de Camilo Castelo Branco” do meu amigo José Viale Moutinho (Caminho, 2009) – fico com a consciência clara sobre quem foi o homem e o intelectual, que primeiro se tornou entre nós profissional da escrita. Dele disse Trindade Coelho: “Glória nacional, dir-se-ia que, na febre com que trabalha e produz, é desígnio de Camilo dar um livro a cada português que saiba ler. Cérebro portentoso, conhecedor profundíssimo da língua, génio criador e obreiro incansável, ele tem escrito muitíssimo e escreve como ninguém”.  E um dia o romancista confessou o segredo da sua inesgotável criatividade: “Eu sou um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorância, contar a vida alheia”. E uma vida “atrapalhada”, como a sua, deu sempre abundância de temas.

As Memórias do Cárcere são, no seu drama e vitalidade, um momento crucial para a compreensão do romancista, que é o principal protagonista do seu romance. E aí encontramos o rei D. Pedro V, incólume como figura moral, em visita à Cadeia da Relação do Porto, onde encontra Camilo preso. E antecipa a sentença judicial, que se tornou um julgamento humano. “O rei deu alguns passos no meu quarto e reparou um instante num livro aberto, que era um Plutarco, na Vida dos Varões Ilustres. Observou-me fitamente, e disse-me: - Estimarei que se livre cedo. (…) Saiu Sua Majestade e, ao descer as escadas, proferiu as palavras iniciais deste capítulo: - Isto precisa de ser completamente arrasado”.  Num tempo de pusilanimidade, vem ao espírito a honradez e a sinceridade do homem público. E se Camilo escreveu Amor de Perdição em quinze dias, os mais atormentados da sua vida, nos tempos da cadeia, a verdade é que se lembrava que desde menino ouvira contar a triste história do tio paterno, Simão António Botelho, e assim pôde compor uma obra-prima inscrita a letras de ouro nas nossas letras e artes. Quando lemos A Queda dum Anjo, sob a sombra de Calisto Elói, retrato severo de uma sociedade de transição, entre o rural e o urbano, o fechado e o cosmopolita – o romancista confessa a seu amigo Castilho que “quisera um livro didático ameno (…) que sem dizer que ensinava ensinasse”. Os temas multiplicam-se, parecendo as novelas “querer demonstrar que sucedem casos incríveis”. E como acontece no Retrato de Ricardina, num volte-face “venceu a verdade, onde já agora e tão somente, lhe é permitido vencer – nas novelas”. Mais do que romântico, Camilo foi um retratista único da sociedade que o gerou e em que viveu. Eis por que a sua leitura continua a ser necessária.   


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
© Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


206. A BUSCA DA PERFEIÇÃO E A ACEITAÇÃO DA IMPERFEIÇÃO


“Que tal se começarmos a exercer o direito de sonhar?       
Que tal se delirarmos um pouquinho?       
Que tal se fixarmos os nossos olhos mais além da infâmia     
para imaginar outro mundo possível?

O ar estará limpo de todo o veneno       
Que não venha dos medos humanos     
e das humanas paixões.

(…) As pessoas não serão dirigidas pelos automóveis     
Não serão programadas pelo computador   
Nem serão compradas pelos supermercados       
Tão pouco serão assistidas pela televisão.

O televisor deixará de ser o membro mais importante da família     
E será tratado como um ferro de passar roupas ou       
A máquina de lavar roupas.    

Será incorporado aos códigos penais o crime de estupidez.     
Para aqueles que o cometem por viver para ter ou para ganhar       
Ao invés de viver para viver simplesmente         
Assim como canta o pássaro sem saber que canta     
E como brinca a criança sem saber que brinca.     

Em nenhum país irão prender os rapazes   
Que se neguem a cumprir o serviço militar       
Senão aqueles que queiram servi-lo.  

Ninguém viverá para trabalhar,   
Mas todos nós trabalharemos para viver.    
Os economistas não chamarão mais de   
Nível de vida o nível do consumo     
Nem chamarão de qualidade de vida     
a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não acreditarão que as lagostas   
Adoram ser cozidas vivas.

Os historiadores não acreditarão que os países   
Adoram ser invadidos.             

Os políticos não acreditarão que os pobres           
Adoram comer promessas.        

(…) Serão reflorestados os desertos do mundo   
E os desertos da alma.

Os desesperados serão esperados   
E os perdidos serão encontrados

(…) Seremos compatriotas e contemporâneos   
De todos os que tenham vontade de beleza       
E vontade de Justiça.

(…) Seremos imperfeitos   
Porque a perfeição continuará sendo           
O aborrecido privilégio dos deuses.

(…) Seremos capazes de viver cada dia 
Como se fosse o primeiro     
E cada noite       
Como se fosse a última…”

(O Direito ao Delírio, Eduardo Galeano)      


Para continuarmos a acreditar e não deixarmos de caminhar.  
Mesmo que acreditemos que a utopia é inalcançável, porque devemos desistir do sonho, da curiosidade e da imaginação de a perseguir?               
Nestes tempos opacos e turvos, emerge mais a distopia que a utopia, sendo esta uma demonstração do que não existe e que gostaríamos que existisse, validando-a o poema (incompleto) com o seu início, alegorias, metáforas e exemplos concretos. Entre um  futurismo negativo e destrutivo e um positivo e construtivo, mais vale acreditar, sonhar e “delirarmos um pouquinho” na procura da perfeição e de nos aceitarmos como somos na nossa imperfeição, sabendo que somos intrínseca e estruturalmente imperfeitos, e que podemos melhorar, rumo a uma “perfeição” possível, como:


“(…) Uma pequena luz bruxuleante         
Brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós

(…) Uma pequenina luz bruxuleante e muda         
Como a exatidão, como a firmeza, como a justiça         
Apenas como elas       
Mas brilha         
Não na distância. Aqui       
No meio de nós             
Brilha”

(Uma Pequenina Luz, Jorge de Sena)


28.03.25 
Joaquim M. M. Patrício

POESIA

Chiu

  


Vai correr tudo bem

Lá fora tantas asas e luzes e vozes que são parte de um todo que se não vê, e chiu, chiu e chiu, um calmo chiu

pois que agora que nos dói braços, estomago, coração e que nos falta o ar

então, como dizia a minha mãe, abre os olhos e olha para eles

abre os olhos e olha para eles

chamo-te Lia, é um nome bonito, sim, acaba de ocupar o lugar de hoje na vida, dizes

Lia é um nome de quem está de esperanças, mas muito pertinho de dar à luz mesmo quando ainda falta uma boa distância, está perto, pertinho, sempre perto

Tu dizes sim com a cabeça e chiu, chiu e chiu, um calmo chiu

Que a Lia assegura que bem sabe do seu cansaço, mas não conseguirá adormecer nunca e eu simplesmente ali, como se não tivesse ouvido nada do chiu que vi nos meus olhos quando para eles olhei, nem do chiu que grita tudo, nem do que me sorri e afaga com dedos muito longos como só a Lia tem e está na hora

Tenho a certeza disso

não há que duvidar da luz, a luz é sempre jovem e se o tempo estiver especialmente mau ela é manhã todo o dia e toda a noite, foi sempre assim desde que me lembro

Ainda temos teto e filhos e sonhos e verdades, penso

Pois penso, penso e cuido, e agora é altura de ir como fomos ao longo dos tempos

Olho pela fresta da janela e tu enches a cafeteira e logo a pousas no fogão, na verdade não podemos contar do chiu, chiu e chiu, um calmo chiu

a ninguém?

É que para ser sincera até me sinto mais segura em mim, do que nunca alguma vez, é como se me recitassem todas as orações do que foi e é o meu não poder ser diferente,

e julgo que uma pessoa também deve de cantar, nem bem nem mal

Cantar

Chiu e chiu, um calmo chiu que todos ouvem


Teresa Bracinha Vieira

PATRIOTISMO

  


“Menino, sabes o que é a Pátria?”, perguntava o Livro da Terceira Classe; mas depois não ficou para ouvir a resposta. A resposta que qualquer menino lhe teria dado é a de que a pátria é a causa daquilo que identificamos como patriotismo. Como definir, no entanto, ‘patriotismo’? A teoria quase unanimente aceite é a de que o patriotismo é uma série de convicções ou actividades que se propagam pela atmosfera, e que impregnam os habitantes de uma determinada área geográfica. Tem porém defeitos.

À ideia de um conjunto de pessoas acreditarem nas mesmas coisas porque vivem no mesmo sítio falta sempre a explicação do modo como um sítio pode causar uma convicção. Se um sítio causasse uma convicção, todos os que nele vivessem acreditariam nas mesmas frases e possivelmente fariam as mesmas coisas. Esta noção é falsa. Um poeta romano observou que é doce e decente morrer pela pátria; mas se todos os romanos tivessem acreditado no que é decente e doce a queda do Império Romano teria tido lugar muito mais cedo, causada por excesso de patriotismo e falta de romanos. E nessa altura a sobrevivência do Império Romano terá sido causada por falta de patriotismo.

Uma ideia a meu ver melhor de patriotismo é defini-lo como equivalente da lista daquilo que cada pessoa não está disposta a fazer em relação ao que identifica como pátria, pelo menos em circunstâncias normais. Tais listas variam muito. Para alguns incluem a recusa de decisões momentosas como vender a cidade do Porto ou comprar fruta importada. No meu caso, é a ideia de mudar de nacionalidade que acho inimaginável.

Aos devotos da Terceira Classe o meu patriotismo parece de menos; como para o Rei Lear, tudo o que não seja lacrimoso lhes é suspeito. Os raros não-devotos, no entanto, invocam o argumento mais sério de que as nossas experiências e memórias são independentes da nossa nacionalidade: e, claro, são. A não ser num sentido trivial, poderia ser quem mais ou menos sou se o meu passaporte fosse outro.  

Acontece porém que não é invulgar que o passaporte que temos faça parte do conteúdo das experiências e memórias  que nos acontecem. O facto será trivial: mas tal não significa que nos seja indiferente. Talvez por essa razão uma mudança de passaporte seja para mim uma possibilidade ociosa, como uma liposucção ou uma ida ao Brasil: só em circunstâncias muito extremas é que a encararia. Fosse eu um menino filosoficamente inclinado teria respondido ao Livro da Terceira Classe, e com firmeza, que tinha uma ideia do que era a pátria. Mas depois não tinha ficado para a discussão.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Martin Heidegger


Cuidado! Cuidar


Entre as grandes obras filosóficas do século XX, figura uma do filósofo alemão Martin Heidegger: Sein und Zeit (Ser e Tempo). Nela, retoma a célebre fábula sobre o Cuidado, de Higino, um escravo culto (64 a. C.-16 d. C.). Fica aí, traduzida literalmente.

“Uma vez, ao atravessar um rio, ‘Cuidado’ viu terra argilosa. Pensativo, tomou um pedaço de barro e começou a moldá-lo. Enquanto contemplava o que tinha feito, apareceu Júpiter. ‘Cuidado’ pediu-lhe que insuflasse espírito naquela figura, o que Júpiter fez de bom grado. Mas, quando ‘Cuidado’ quis dar o próprio nome à criatura que havia formado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse dado o seu. Enquanto ‘Cuidado’ e Júpiter discutiam, surgiu também a Terra (Tellus) e também ela quis conferir o seu nome à criatura, pois fora ela a dar-lhe um pedaço do seu corpo. Os contendentes invocaram Saturno como juiz. Este tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: ‘Tu, Júpiter, deste-lhe o espírito; por isso, receberás de volta o seu espírito por ocasião da sua morte. Tu, Terra, deste-lhe o corpo; por isso, receberás de volta o seu corpo. Mas, como foi ‘Cuidado’ a ter a ideia de moldar a criatura, ficará ela na sua posse enquanto viver. E, uma vez que entre vós há discussão sobre o nome, chamar-se-á  ‘homo’ (Homem), já que foi feita a partir do húmus (Terra)’.”

Martin Heidegger, um dos maiores filósofos do século XX, retoma a fábula e reflecte sobre o cuidado enquanto estrutura essencial do ser humano. Cuidar e ser cuidado são determinantes da sua constituição. O que seria de nós, se, ainda dentro do ventre materno, não houvesse cuidado, se, ao nascermos e depois do nascimento, não cuidassem de nós? O cuidado nunca nos pode abandonar. Sem o cuidado ao longo da vida toda, do nascimento à morte, o ser humano desestrutura-se, sente-se perdido, só, não encontra sentido e acaba por morrer, entregue ao abandono. 

O cuidado tem uma dupla vertente. Por um lado, significa preocupação mais ou menos ansiosa e a consequente prevenção. É assim que os pais dizem aos filhos, ameaçados por perigos: tem cuidado, filho; tem cuidado, filha! E prevenimos os amigos que nos pedem conselho: eu não iria por aí, tem cuidado, tenha cuidado, acautele-se! Por outro lado, e sobretudo, tem a ver com a entrega abnegada aos outros, cuidando deles em todas as dimensões, pois a perfeição do ser humano na realização das suas possibilidades mais próprias é tarefa do cuidado.

Cuidar de quem e de quê?

Claro, cuidar de nós, cuidar dos familiares e amigos, cuidar dos mais frágeis, cuidar da natureza, cuidar da espiritualidade, da transcendência..., de Deus em nós.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
22 de março de 2025

A VIDA DOS LIVROS

  
De 24 a 30 de março de 2025


Helder Macedo, Maria Filomena Molder e Adelino Cardoso publicam um notável conjunto de ensaios intitulados “Melancolia, Tristeza e Cura da Alma no Renascimento Português” glosando a obra de Filipe Elias Montalto “Arquipatologia” (1614).


Melancolia, Tristeza e Cura da Alma no Renascimento Português
de Adelino Cardoso, Helder Macedo e Maria Filomena Molder (Húmus, 2025), com a capa de António Dacosta, intitulada Melancolia II, é constituído por um conjunto de ensaios belíssimos que nos permitem encontrar as antigas raízes da cultura portuguesa, graças à evocação de autores fundamentais dos séculos XV, XVI e XVII. Partimos do texto de Filipe Elias Montalto, judeu português exilado, nascido em 1567 como cristão-novo, que publicou em 1614 Arquipatologia, composto por tratados clínicos sobre os mecanismos da mente, escritos em latim e recentemente traduzido para português. É uma obra de charneira que, na descrição de estados psíquicos frequentemente antecipa o que veio a ser retomado pela psicologia moderna, embora recorrendo a tratamentos derivados da antiga medicina galénica, mesmo quando põe em dúvida a sua pertinência. Falamos da melancolia como forma agravada de tristeza, com a presença de três autores portugueses de primeira relevância – D. Duarte, Bernardim Ribeiro e Francisco Sá de Miranda. Além destes, outros houve que merecem referência, como Luís de Camões, contemporâneo mais velho de Montalto, que, segundo os seus biógrafos tendo sido “na conversação muito fácil, alegre e dizidor, já sobre a idade deu algo tanto em melancólico”, ou como o cristão-novo e quase exato contemporâneo de Filipe Montalto, Francisco Rodrigues Lobo, cuja Corte na Aldeia, publicada pouco depois da Arquipatologia é uma ampla meditação sobre a melancolia individual amplificada na coletividade nacional.


O HUMOR MELANCÓLICO DE D. DUARTE
Mas D. Duarte merece uma atenção especial, numa análise pioneira do “humor merencório”, de que ele próprio padeceu e do modo como se curou. Como diz na dedicatória do Leal Conselheiro: “o entendimento é a nossa virtude mui principal”. E o certo é que o futuro rei pôde recuperar, por sua própria iniciativa, o gosto de viver e ficou “perfeitamente são, como se de tal sentimento nunca fora tocado”, mesmo sentindo-se na maturidade adquirida através desse penoso percurso “mais ledo do que era antes”. Já Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda oferecem-nos dois poemas tornados clássicos na nossa literatura, que não podem ser esquecidos: do primeiro: “Entre mim mesmo e mim / não sei que se alevantou / que tão meu imigo sou”… E do segundo, temos as palavras com que todos nos deliciámos – “Comigo me desavim / sou posto em todo o perigo / não posso viver comigo / nem posso fugir de mim”… O criptojudaísmo do autor de Menina e Moça apresenta um modelo de criação, anunciador dos caminhos renascentistas, que não esquecem a raiz medieval, encontrando o mesmo “pecado da tristeza” de D. Duarte, com o trilhar do caminho da cura; enquanto o humanista cristão Sá de Miranda se aventura por domínios novos, avaliando as ambiguidades do conhecimento e a importância das mudanças e o “domínio da desrazão”. O espírito inovador valoriza, afinal, a devoção interior em contraste com a materialidade das obras, relacionando o entendimento com a liberdade, a equidade, a razão, a consciência e o conhecimento, mas também: o encantamento, o engano, o sentimento, a loucura, a ilusão e o cativeiro. E Paulo Tunhas apresenta-nos, de um modo pujante, as Condições de Descrer, ainda em Francisco Sá de Miranda – para quem a verdadeira liberdade seria o poder tudo sobre si. Fernando Gil entenderá essa autonomia individual, na sua ideia de convicção, como adesão a si do eu… E assim encontramos o seu ensaio notável sobre as “inevidências do eu”, publicado inicialmente, em 1998, com Helder Macedo em Viagens do Olhar. Retrospeção, visão e profecia no renascimento português (por nós referido no JL de 8.1.2025) onde refere que “a perda do amor por si é uma maneira de dizer que o sujeito perdeu a confiança. Não espera mais dar corpo ao desejo, que se des-realiza pouco a pouco, nem fazer-se ouvir e do silêncio nasce o mutismo e a mudez”. E Sá de Miranda apresenta-se como um poeta “absolutamente moderno”, bem para lá do doce stil nuovo que trouxe para Portugal. E é notável como encontramos num autor quinhentista intuições que só o tempo futuro viria a revelar e a desenvolver, onde há semelhanças com Montaigne, mas enquanto este descobre a unidade do sujeito, o português refere a  desunião do eu.


PECADO DA TRISTEZA EM SÁ DE MIRANDA
Adelino Cardoso apresenta nas suas considerações uma revelação importante sobre o pioneirismo renascentista do pensamento dos portugueses, atentos às ideias novas e às preocupações humanas em torno do eu, considerando a melancolia “como compleição estudiosa, inquieta e fantasiosa” na Arquipatologia de Filipe de Montalto. Aos ouvidos do leitor contemporâneo sentimos algo de pertinente e familiar quando ouvimos Montalto a aconselhar-nos a contrariar a “desrazão”: «Evite a ira, a tristeza e os desgostos, oriente a vida para a alegria e a tranquilidade do ânimo, oiça frequentemente o canto e a música instrumental, tire proveito das fábulas e dos jogos tradicionais. Afaste as imaginações prolongadas sobre a doença”. E, por momentos, compreendemos como D. Duarte, Bernardim, Sá de Miranda se houveram com o “pecado da tristeza”. E Maria Filomena Molder ajuda-nos a compreender como esses caminhos puderam ser trilhados, pondo-nos a ouvir Bernardim na Écloga de Pérsio e Fauno – “como pode repousar / quem traz a morte consigo?” e a recordar a fala de Bruno Huca na peça concerto Da Felicidade (de Cristina Carvalhal de João Henriques):Proponho um brinde à melancolia a esse pequeno distanciamento da vida confrontado a nascente e sul pelo alvéolo do desejo a fazer caminho. Limitado a poente pelo aborrecimento, com o intuito de se encontrar o norte”.  A melancolia surpreende os pontos cardeais, desde o tédio até ao chamamento do norte, podendo falar-se de cura neste “intuito de encontrar o norte”. O ensaio merece leitura atenta e ponderada. E eis que se confrontam Heraclito e as suas lágrimas e Demócrito e o seu riso, a propósito da Elegia a uma Senhora muito lida em nome de um seu servidor de Sá de Miranda. “Estas seriam as desventuras / que Heraclito chorava em vida andando, /e Demócrito ria por loucuras, / com muitas outras que fazem grão brando, / mas haviam de ser as principais / dos que perdendo vão-se outrem buscando”. Não se vislumbra aqui, porém, preferência do poeta por Heraclito. As lágrimas e o riso são tomados como modos de resistir ao desacerto do mundo e como forma de avaliação crítica… Os sentimentos coexistem. E Maria Filomena Molder revela-nos num remate esclarecedor: “Do que gosto em Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro? Dos meios reduzidos, das palavras que se repetem incessantemente (…), do ritmo criado pelo espaço que as circunda e que elas engendram, dos precipícios que se abrem profundos em cada verso da evitação do desperdício, das obscuridades francas. Tudo bons condimentos para alimentar  saudade, a mágoa e o luto e não ser submergido por eles”.    


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANTOLOGIA

  


NUNC ET IN HORA…
por Camilo Martins de Oliveira


Meu Caro José:

Nomeai-vos, foi pelo José dito, uns aos outros. E bem. São sempre bonitos e bons, e connosco devem ficar, estes nomes que pais ou avós, ou padrinhos ou quem nos acolheu, ou alguém antes de nós, nos deu em penhor de nos querer bem. Pensossinto, muitas vezes, esse instante único, irrepetível, em que, todos nós, fomos simplesmente esse ser que gritou um choro ou chorou um grito, pouco importa aqui a ordem das palavras, a dor de um livramento de mulher é a nossa dor inicial, e a alegria dela aquela que não sabemos nunca quanto tempo dura. Assim somos feitos, esta, e nenhuma outra, é a nossa condição. Da minha vida só sei que a recebi para que jamais ela me pertença. Não possuo, nunca poderei possuir, o meu bem mais precioso. Aí, onde hoje já não está mas simplesmente é, o José único, que em seu dia nasceu, talvez saiba já (já, para mim, aí se apagou o tempo, nem espaço há, digo aí por escassez de conhecimento) que a negação de Deus é tão absurda, aqui em baixo, se assim me posso exprimir, como qualquer perentória afirmação de um deus reduzido à nossa dimensão, com as nossas simpatias e antagonismos. Há um rasgão inato à condição humana: ao rompimento das águas do ventre materno, somos compulsivamente atirados para o desconhecido, e não sei se choramos para podermos respirar, ou se já de saudade de um refúgio que tão cedo não teremos. Nesse momento, sem o saber sabemos que, da nova vida em que acabámos de entrar, só a morte nos livrará. E porque, a partir daí, passamos a ser quem busca sempre, quem sempre terá de procurar, queira ou não queira, até aquilo que desconhece e não sabe se irá encontrar, aprenderemos de nós que somos esses que Ortega y Gasset chamou trânsfugas da natureza. E mais trânsfugas seremos ainda, quando, de Caronte, o barqueiro sombrio nos largar na outra margem. Onde, teimo eu em crer, com S. João Evangelista, "Deus é luz e nele não há quaisquer trevas"... Como se tivéssemos sido destituídos de um paraíso inicial, achamo-nos desamparados, sabemos todos que seremos sempre pobres, mesmo aqueles que acumulem muitas riquezas no mundo. É nesta aflição que pensamos em Deus ou, se preferir, interrogamos o desconhecido, o inevitável mistério da vida e do destino. E essa interrogação habita o coração de cada um, como segredo que se poderá ou não desvendar... Mas lá fica, usque ad mortem. O José já (já, para mim, claro!) conhece a resposta, sem segredo, tão só como evidência. Eu ainda não, e todos os dias repito a mesma prece: Que a minha tão dura condição não me deixe cair no desalento, nem baixar os fracos braços perante a injustiça e o mal; nem me leve a qualquer raiva, manifesta ou surda, contra a única esperança que a transcende. Que não esqueça, no decurso do tempo incógnito desta minha vida - o único em que ontem ou amanhã, agora, jamais ou nunca poderão ser significantes - que  "um só dia, perante o Senhor, é como mil anos, e mil anos como um só dia". Ascendeu o José a uma sabedoria que está muito acima da minha, da nossa, dos que por cá andamos neste esforço de cegos a abrir os olhos. Conhece o que é o mal, não precisará de procurar, como nós, uma explicação plausível, comum a todos, para o escandaloso facto de ter sido razão de castigo maior Adão e Eva terem provado o fruto da árvore do conhecimento. Eu ainda me pergunto porquê. Sobretudo quando considero tanta literatura sacra, tantas religiões insistindo em que devemos saber distinguir entre o bem e o mal. E será o mal, cujo conhecimento original nos foi negado -  só porque a primeira mulher o terá querido saber - culpa mesmo nossa? Diz o José que Caim matou Abel, mas por culpa de Deus. E que em nome de Deus (perdoa-me, certamente, que antes da minha hora eu escreva Deus com maiúscula) se foram fazendo, pela extensão do tempo e do espaço, fartas guerras, perseguições, sevícias e mortandades. Não posso negar que assim, de facto, foi e é múltiplas vezes invocado esse nome de Quem é. Como não será possível escamotear que, em nome do benefício da negação e desejada morte de Deus, tão indesculpáveis atrocidades se cometeram, ainda em tempo da vida terrena do José, do império soviético ao Cambodja de Pol Pot. Porque terei eu de culpar Deus de tudo o que os humanos fazem - e do mal, ainda, de todo o mal que cada um de nós considera que não praticou e cuja responsabilidade, portanto, a outrem deverá ser imputada? Não é tudo isto um enormíssimo absurdo? Que sentido tem a raiva, o ódio do Outro, o mesquinho, malevolente impulso ou desejo de lhe imputar culpas? Será essa revolta que nos libertará do mal que nos rodeia e persegue? Quantas teses filosóficas, quantas revoluções sangrentas nos prometeram a construção do homem novo pela sua auto-apropriação, por essa ilusão de um destino possível e controlável? E, finalmente, impuseram regimes de tão sentida redução do homem e tanta injustiça persecutória... A tal ponto que George Orwell verificou esta simplicidade lapaliciana: "All animals are equal, but some animals are more equal than the others..." Assim é sempre, e a injustiça relativa dos destinos pessoais e das desigualdades sociais, tanto quanto o possamos saber, não encontrou ainda solução satisfatória, isto é, resposta adequada das nossas teorias e métodos. Por maioria de razão, perplexos continuaremos perante a questão do mal. No tempo e no lugar, no espaço em que o José percorreu a vida tensa que a cada um de nós cabe "cá em baixo" (e é bem baixinho, por vezes...), acreditou talvez no milagroso Deus da sua infância, jurou, mais tarde, a morte dele e a redenção dos homens pelos homens (repare no plural). Só não acabou (porque, como o José tão bem disse,há "essa estranha formosura" que não morre) nem revoltado nem resignado por obra e graça da Morte (perdoe-me outra vez a maiúscula) que, afinal, se queda intermitente, hesita e, como se Deus fosse, não ceifará um homem, só pelo encanto de uma suite para violoncelo, de Bach. Mais precisamente, como aponta José Saramago em "As Intermitências da Morte", da 6ª, em ré maior. Composta em Cöhten, quando o compositor estava ao serviço da família ducal Anhalt-Cöhten que, apesar de calvinista, fazia questão em fomentar a liturgia e a música, quer sacra quer profana. Conta-nos o José que a Morte foi visitar o violoncelista desconhecido a sua casa, para lhe entregar o pré-aviso da sua hora letal. Mas não resiste à tentação de lhe pedir que para ela toque essa suite nº6, opus 1012, ao que ele finalmente acederá: "mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a Rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher"... Mas foi Rostropovitch quem escreveu: "Com a "allemande" da 6ª suite espera-nos uma grande surpresa. A sua melodia flutuante parece escapar à lei da gravitação universal - é como se errasse pelo espaço". Creio que o José Saramago sabe que nunca se emancipou totalmente de uma certa tentação religiosa. Afinal, o pessimismo da sua visão do mundo e dos homens parece-me ser antes fruto duma frustração: a de não ter jamais conseguido discipliná-los, tal como, ao engano, também certas instituições religiosas chegam a presumir que podem. Ou como Ricardo Reis que, monárquico educado pelos jesuítas, até no seu neopaganismo continua sendo fiel à disciplina mental dos tais jesuítas. E eu ousaria afirmar que há fortes analogias psíquicas entre arautos do materialismo ateu e fundamentalistas religiosos, entre os quais certos proclamados católicos que num qualquer "corpus" canónico pretendem encerrar Deus e assim responder terminalmente às inquirições da nossa angústia. Penso todavia que a revelação de Deus não está terminada, vai-se desenrolando ao longo da história dos homens. São, assim, os dogmas uns semáforos, surgem em encruzilhadas e têm o seu tempo: avança, espera,pára, avança, etc. Deus vai-se revelando em nós e por nós. Essa é a dinâmica do cristianismo, religião incarnada. Aí se debruça Deus como o pai do fugitivo pródigo, naquele quadro do Murillo,na National Gallery de Washington D.C., que Camilo Maria gostava de lembrar e comentava dizendo que, sem querer blasfemar, lhe parecia que o pai, ao acolher o filho arrependido, lhe pedia perdão também, perdoar outro é pedir-lhe perdão também. Eis o que, para mim, é tão bonito no cristianismo, essa constante misericórdia que, só ela, torna solidária a esperança. Contemplo muitas vezes o mundo e a história com uma visão "teilhardiana": vivemos um processo de cosmogénese, somos, Deus e nós, solidários no sofrimento, na dor do parto, e na alegria da promessa que nos dá esperança. Que bem o diz este Papa Francisco: "A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para S. Francisco de Assis, ou os pobres para a beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles; aproximando-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob forma de uma presença que o acompanha, de uma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, se tornou " autor e consumador da fé " (Hebr.12,2). O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente..." E agora mesmo, no silêncio desta casa grande onde estou só, a essa fé entrego a dor do meu parto, e à esperança a simultânea alegria. Talvez também como a Morte faz no fim das intermitências do seu livro, José: "A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu".


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 01.11.13 neste blogue.

MALES QUE VÊM POR BEM

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    Grand Place, Bruxelas © Celuici_creative commons


Há males que vêm por bem, como diz o povo. O regresso dos fantasmas do protecionismo americano tem precedentes, lembramo-nos da História, cada vez mais esquecida. E temos de recordar, no sentido inverso, Franklin Delano Roosevelt, que em aliança com Winston Churchill, foi o primeiro responsável por um momento decisivo de afirmação da influência americana no mundo. Quando hoje se fala de regressar a um passado glorioso que outra lembrança poderá haver senão a dessa “Pax Americana”? Por isso, a tentativa de destruição dessa herança constitui uma contradição nos termos e um jogo perigoso, de efeitos imprevisíveis. Infelizmente, lê-se muito pouco, mesmo nas mais altas instâncias, e esse desconhecimento não tem apenas a ver com a dimensão histórica, mas também com o reconhecimento científico e cultural da América, como País de acolhimento. Lorde Keynes com as suas análises argutas da realidade económica foi o grande inspirador do “New Deal”. Hoje, pelo contrário, parece prevalecer o método das impressões gerais, que dificilmente pode funcionar. Pode contentar momentaneamente um eleitorado sedento de pão e circo, mas no largo prazo está condenado ao fracasso. Eis o ponto em que nos encontramos. A Europa está confrontada com responsabilidades, que não se traduzem apenas no mercado das armas, mas exigem a adoção de uma nova dissuasão num mundo de polaridades difusas, com recurso ao método das cooperações reforçadas, garantindo que possam avançar os Estados que quiserem e estiverem melhor preparados.

O guarda-chuva protetor americano e a iniciativa Marshall foram importantes na reconstrução do mundo destruído por duas guerras mundiais. Todos beneficiámos. Mas hoje os tempos são outros, importando não voltar aos erros que conduziram ao desastre de há um século. Lembramo-nos da afirmação de Jean Monnet: “sempre pensei que a Europa far-se-ia nas crises e que se construirá pela soma das soluções que encontrarmos para essas crises”. Este é um desses momentos cruciais, sendo necessário mobilizar capacidades para chegar onde se concentram as ameaças, ou seja, a leste, desde a atitude assumida pelo governo russo até à retirada norte-americana. Daí que tenha razão Fareed Zakaria quando diz que “a Europa deve reforçar os seus elos, pôr em prática uma política de defesa e externa mais unificada, fazer crescer as despesas em matéria de segurança. Todos o sabem. Contudo, a única questão que fica por saber é se há vontade política”. E os dirigentes europeus ainda procuram uma receita que lhes permita convencer os seus eleitores de que esse é o caminho da sobrevivência. No entanto, a conjuntura é extremamente difícil. Mudam as circunstâncias e, ao contrário da prática dos últimos cinquenta anos, o sistema internacional passou a ser dominado pelos instintos de um Presidente norte-americano, que não tem uma estratégia, mas segue a tendência dos poderes de facto, que se desenvolvem fora dos quadros do Direito Internacional. Surpreendentemente, Vladimir Putin, que avançou para a invasão da Ucrânia em 2022, no pressuposto errado de uma deposição do governo de Kyiv rápida e imediata, inebriado pelas operações da Chechénia, da Georgia e da Crimeia, passou agora a contar com a cumplicidade de Trump… O impasse reveste-se da maior gravidade. A paz torna-se necessária e a Europa está sob a exigência da recusa da irrelevância. Se houver uma resposta consistente e durável talvez os males venham por bem…     


GOM

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