POESIA
Chiu
Vai correr tudo bem
Lá fora tantas asas e luzes e vozes que são parte de um todo que se não vê, e chiu, chiu e chiu, um calmo chiu
pois que agora que nos dói braços, estomago, coração e que nos falta o ar
então, como dizia a minha mãe, abre os olhos e olha para eles
abre os olhos e olha para eles
chamo-te Lia, é um nome bonito, sim, acaba de ocupar o lugar de hoje na vida, dizes
Lia é um nome de quem está de esperanças, mas muito pertinho de dar à luz mesmo quando ainda falta uma boa distância, está perto, pertinho, sempre perto
Tu dizes sim com a cabeça e chiu, chiu e chiu, um calmo chiu
Que a Lia assegura que bem sabe do seu cansaço, mas não conseguirá adormecer nunca e eu simplesmente ali, como se não tivesse ouvido nada do chiu que vi nos meus olhos quando para eles olhei, nem do chiu que grita tudo, nem do que me sorri e afaga com dedos muito longos como só a Lia tem e está na hora
Tenho a certeza disso
não há que duvidar da luz, a luz é sempre jovem e se o tempo estiver especialmente mau ela é manhã todo o dia e toda a noite, foi sempre assim desde que me lembro
Ainda temos teto e filhos e sonhos e verdades, penso
Pois penso, penso e cuido, e agora é altura de ir como fomos ao longo dos tempos
Olho pela fresta da janela e tu enches a cafeteira e logo a pousas no fogão, na verdade não podemos contar do chiu, chiu e chiu, um calmo chiu
a ninguém?
É que para ser sincera até me sinto mais segura em mim, do que nunca alguma vez, é como se me recitassem todas as orações do que foi e é o meu não poder ser diferente,
e julgo que uma pessoa também deve de cantar, nem bem nem mal
Cantar
Chiu e chiu, um calmo chiu que todos ouvem
Teresa Bracinha Vieira