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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
© Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


206. A BUSCA DA PERFEIÇÃO E A ACEITAÇÃO DA IMPERFEIÇÃO


“Que tal se começarmos a exercer o direito de sonhar?       
Que tal se delirarmos um pouquinho?       
Que tal se fixarmos os nossos olhos mais além da infâmia     
para imaginar outro mundo possível?

O ar estará limpo de todo o veneno       
Que não venha dos medos humanos     
e das humanas paixões.

(…) As pessoas não serão dirigidas pelos automóveis     
Não serão programadas pelo computador   
Nem serão compradas pelos supermercados       
Tão pouco serão assistidas pela televisão.

O televisor deixará de ser o membro mais importante da família     
E será tratado como um ferro de passar roupas ou       
A máquina de lavar roupas.    

Será incorporado aos códigos penais o crime de estupidez.     
Para aqueles que o cometem por viver para ter ou para ganhar       
Ao invés de viver para viver simplesmente         
Assim como canta o pássaro sem saber que canta     
E como brinca a criança sem saber que brinca.     

Em nenhum país irão prender os rapazes   
Que se neguem a cumprir o serviço militar       
Senão aqueles que queiram servi-lo.  

Ninguém viverá para trabalhar,   
Mas todos nós trabalharemos para viver.    
Os economistas não chamarão mais de   
Nível de vida o nível do consumo     
Nem chamarão de qualidade de vida     
a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não acreditarão que as lagostas   
Adoram ser cozidas vivas.

Os historiadores não acreditarão que os países   
Adoram ser invadidos.             

Os políticos não acreditarão que os pobres           
Adoram comer promessas.        

(…) Serão reflorestados os desertos do mundo   
E os desertos da alma.

Os desesperados serão esperados   
E os perdidos serão encontrados

(…) Seremos compatriotas e contemporâneos   
De todos os que tenham vontade de beleza       
E vontade de Justiça.

(…) Seremos imperfeitos   
Porque a perfeição continuará sendo           
O aborrecido privilégio dos deuses.

(…) Seremos capazes de viver cada dia 
Como se fosse o primeiro     
E cada noite       
Como se fosse a última…”

(O Direito ao Delírio, Eduardo Galeano)      


Para continuarmos a acreditar e não deixarmos de caminhar.  
Mesmo que acreditemos que a utopia é inalcançável, porque devemos desistir do sonho, da curiosidade e da imaginação de a perseguir?               
Nestes tempos opacos e turvos, emerge mais a distopia que a utopia, sendo esta uma demonstração do que não existe e que gostaríamos que existisse, validando-a o poema (incompleto) com o seu início, alegorias, metáforas e exemplos concretos. Entre um  futurismo negativo e destrutivo e um positivo e construtivo, mais vale acreditar, sonhar e “delirarmos um pouquinho” na procura da perfeição e de nos aceitarmos como somos na nossa imperfeição, sabendo que somos intrínseca e estruturalmente imperfeitos, e que podemos melhorar, rumo a uma “perfeição” possível, como:


“(…) Uma pequena luz bruxuleante         
Brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós

(…) Uma pequenina luz bruxuleante e muda         
Como a exatidão, como a firmeza, como a justiça         
Apenas como elas       
Mas brilha         
Não na distância. Aqui       
No meio de nós             
Brilha”

(Uma Pequenina Luz, Jorge de Sena)


28.03.25 
Joaquim M. M. Patrício