CRÓNICAS PLURICULTURAIS
© Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
206. A BUSCA DA PERFEIÇÃO E A ACEITAÇÃO DA IMPERFEIÇÃO
“Que tal se começarmos a exercer o direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
Que tal se fixarmos os nossos olhos mais além da infâmia
para imaginar outro mundo possível?
O ar estará limpo de todo o veneno
Que não venha dos medos humanos
e das humanas paixões.
(…) As pessoas não serão dirigidas pelos automóveis
Não serão programadas pelo computador
Nem serão compradas pelos supermercados
Tão pouco serão assistidas pela televisão.
O televisor deixará de ser o membro mais importante da família
E será tratado como um ferro de passar roupas ou
A máquina de lavar roupas.
Será incorporado aos códigos penais o crime de estupidez.
Para aqueles que o cometem por viver para ter ou para ganhar
Ao invés de viver para viver simplesmente
Assim como canta o pássaro sem saber que canta
E como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum país irão prender os rapazes
Que se neguem a cumprir o serviço militar
Senão aqueles que queiram servi-lo.
Ninguém viverá para trabalhar,
Mas todos nós trabalharemos para viver.
Os economistas não chamarão mais de
Nível de vida o nível do consumo
Nem chamarão de qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Os cozinheiros não acreditarão que as lagostas
Adoram ser cozidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países
Adoram ser invadidos.
Os políticos não acreditarão que os pobres
Adoram comer promessas.
(…) Serão reflorestados os desertos do mundo
E os desertos da alma.
Os desesperados serão esperados
E os perdidos serão encontrados
(…) Seremos compatriotas e contemporâneos
De todos os que tenham vontade de beleza
E vontade de Justiça.
(…) Seremos imperfeitos
Porque a perfeição continuará sendo
O aborrecido privilégio dos deuses.
(…) Seremos capazes de viver cada dia
Como se fosse o primeiro
E cada noite
Como se fosse a última…”
(O Direito ao Delírio, Eduardo Galeano)
Para continuarmos a acreditar e não deixarmos de caminhar.
Mesmo que acreditemos que a utopia é inalcançável, porque devemos desistir do sonho, da curiosidade e da imaginação de a perseguir?
Nestes tempos opacos e turvos, emerge mais a distopia que a utopia, sendo esta uma demonstração do que não existe e que gostaríamos que existisse, validando-a o poema (incompleto) com o seu início, alegorias, metáforas e exemplos concretos. Entre um futurismo negativo e destrutivo e um positivo e construtivo, mais vale acreditar, sonhar e “delirarmos um pouquinho” na procura da perfeição e de nos aceitarmos como somos na nossa imperfeição, sabendo que somos intrínseca e estruturalmente imperfeitos, e que podemos melhorar, rumo a uma “perfeição” possível, como:
“(…) Uma pequena luz bruxuleante
Brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós
(…) Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exatidão, como a firmeza, como a justiça
Apenas como elas
Mas brilha
Não na distância. Aqui
No meio de nós
Brilha”
(Uma Pequenina Luz, Jorge de Sena)
28.03.25
Joaquim M. M. Patrício