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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

SAIR DE PORTUGAL


    Estátua D. João III em Coimbra,  Diego Delso, delso.photo, License CC BY-SA 


Oiço com espanto os barulhos compungidos de quem lamenta que “a geração mais bem preparada de sempre” tenha de sair de Portugal. Tudo pesado, tendo a achar que é uma bênção essas pessoas não apenas sairem como terem de sair de Portugal; e não terem de o fazer por razões políticas.

Tendo também a achar que o problema de quem lamenta o êxodo foi não ter saído de Portugal na altura certa, ou ter saído de Portugal pelos motivos errados. A melhor parte da preparação da geração mais bem preparada de sempre é a facilidade com que se dispõem a mudar de sítio. Uma dimensão muito importante da democracia é a facilidade com que as pessoas podem mudar de sítio; e o modo como as pessoas não são punidas por se arrependerem dessas escolhas. Na China (geração bem preparada: vede ‘hukou’) e na Rússia (idem, ‘propiska’), por exemplo, tais escolhas levantam dificuldades.

É verdade que oiço de vez em quando programas sobre esta geração onde, a julgar pelo que se lhes ouve, lhes falta a quase todos a luz de Lisboa, o bacalhau, o mar, os amigos e a família (por esta ordem). Então porque não voltam? A resposta é: não voltam porque acham que mais vale andar à chuva em Stuttgart do que comer bacalhau. Andar à chuva em Stuttgart tem ainda a vantagem de, para quem aprecia o género, aumentar a probabilidade de poder passar a segunda parte da vida a tomar banho com os amigos.

Diz-se por vezes, sempre a chorar, que a geração mais bem preparada de sempre foi forçada a emigrar por causa do modo como se destruiu em Portugal o ensino e a investigação. Tive de ir para o Luxemburgo, diz um biólogo aos soluços, intimando nigerianos na Sicília. Tranquilize-se o biólogo: ninguém destruiu coisa nenhuma. O que é preciso explicar é que, apesar da choradeira, menos pessoas se sintam tentadas pelas não-destruídas universidades portuguesas, e já agora pela família e pela luz de Lisboa.

Poderá vir a  verificar-se que a única coisa importante que aconteceu às universidades portuguesas depois de D. João III foi o programa Erasmus. O programa, que a geração mais bem preparada de sempre conhece bem, subsidia um semestre ou um ano de ócio e actividades noutras latitudes. O factor importante é: outras latitudes. O valor de mudar de sítio para as massas de pessoas cujos antepassados não mudavam de sítio ou mudavam de sítio por maus motivos é inestimável.

Além disso, este cirandar é um incentivo conubial. Virá decerto a descobrir-se também que a medida principal da integração europeia não foi o patusco Parlamento de Estrasburgo mas a taxa de casamento entre pessoas que sairam dos sítios onde nasceram. Sair de Portugal é uma bênção: a bênção que permitirá porventura à geração mais bem preparada de sempre chegar pela primeira vez a Portugal.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Theodor Adorno e Max Horkheimer


Homenagem a Francisco: A dívida para com as vítimas inocentes


Recordando Francisco, o Papa de uma Igreja aberta a todos e que até ao fim quis estar próximo dos últimos, fica aí este meu texto sobre a dívida incomensurável da História para com as vítimas inocentes.

Na sua encíclica sobre a esperança — Spe salvi (Salvos em esperança) —, Bento XVI, o Papa antecessor de Francisco, debruça-se sobre uma pergunta decisiva – “a pergunta fundamental da Filosofia” (Max Horkheimer): o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? As vítimas inocentes clamam, um grito sem fim e ensurdecedor percorre a História.

No mundo moderno, conduzido em grande parte  pela ideia de progresso, ergueu-se, nos séculos XIX e XX, um ateísmo moral por causa das injustiças do mundo e da História. “Um mundo no qual há tanta injustiça, tanto sofrimento dos inocentes e tanto cinismo do poder, não pode ser obra de um Deus bom”.

Quase se poderia dizer que se é ateu ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror do mundo, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus, que é preciso recusar por causa da moral.

Afastado Deus, deve ser o Homem a estabelecer a justiça no mundo. Mas não será esta uma pretensão arrogante e intrinsecamente falsa? “Um mundo que tem de criar a sua justiça por si mesmo é um mundo sem esperança. Ninguém nem nada responde pelo sofrimento dos séculos”, escreveu o Papa.

Aqui, Bento XVI apela para a Escola Crítica de Frankfurt, nomeadamente para Max Horkheimer e Theodor Adorno, que viveram filosoficamente a inconsolável  “tristeza metafísica” da impossibilidade de fazer justiça às vítimas da História. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse possível a edificação de uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela não poderia ser feliz. A razão é simples: ou essa sociedade se lembrava de todas as vítimas do passado, que não participam dela, e então seria atravessada pela infelicidade, ou não se interessava por essas vítimas, mas então não era humana, porque insolidária.

Horkheimer e Adorno exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, não podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, há uma verdade da religião, apesar de todas as suas traições no conluio com o poder e os vencedores: a religião “no bom sentido” é, segundo Horkheimer, “o anelo inesgotável, sustentado contra a realidade fáctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justiça”. Não se trata de um desejo egoísta, mas da esperança contrafáctica de que a realidade dominante da injustiça não tenha a última palavra. Daí, o “anelo do totalmente Outro”, o “anelo da justiça universal cumprida”, “a esperança de que a injustiça que atravessa a História não permaneça, não tenha a última palavra”.

Esta esperança tem de traduzir-se numa práxis solidária tal que “não se possa pensar que não existe um Além”. Nesta práxis, está implicado o pensamento do Absoluto, não para afirmá-lo, mas como anelo de que o finito e o mundo da injustiça não sejam a ultimidade e o definitivo.

Também neste sentido, Adorno escreveu que “o pensamento que se não decapita desemboca na Transcendência”. Frente às aporias da razão, neste domínio, a única filosofia legítima seria “o intento de contemplar todas as coisas como aparecem à luz da redenção”. Embora se não possa afirmar nada para lá da imanência, a pergunta pela esperança truncada das vítimas, que acusam o mundo da História dos vencedores, obriga a pensar para lá dos limites da imanência, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela justiça universal. 

Em diálogo com a Escola Crítica de Frankfurt, Bento XVI reconhecia que a necessidade individual da realização plena e da imortalidade do amor já é “um motivo importante para crer que o Homem está feito para a eternidade”, “mas só o reconhecimento de que a injustiça da História não pode de modo nenhum ter a última palavra” convence da necessidade da ressurreição dos mortos e da vida eterna. 

Na Sexta-Feira Santa, como já aqui escrevi, lembra-se Cristo na cruz, que morre, inocente, e gritando uma oração em pergunta in-finita, que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?” Os cristãos acreditam que o Deus do amor, seu Pai — o Papa Francisco escreveu que “o nome de Deus é Misericórdia” —, respondeu, ressuscitando-o dos mortos, dando assim esperança ao clamor das vítimas da História.

Francisco ainda saudou a multidão no passado Domingo, Festa da Páscoa. Morreu na manhã de Segunda-Feira, Segunda-Feira de Páscoa. Adeus, Francisco.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia

A VIDA DOS LIVROS

  
De 28 de abril a 4 de maio de 2025


A data de 5 de maio foi oficialmente considerada no ano de 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com a UNESCO, para celebrar a língua comum e as culturas da nossa língua.


A língua portuguesa é uma das línguas com maior expansão no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, sendo ainda a língua mais falada no hemisfério sul. O português é assim hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e um idioma com uma forte extensão geográfica, prevendo-se um desenvolvimento significativo da sua influência até ao final do século, com especial incidência no Atlântico Sul. Os dias dedicados às línguas faladas em todo o mundo celebram anualmente a importância do multilinguismo e da diversidade cultural como fatores de paz e de respeito mútuo, bem como enquanto catalisadores da Educação, Ciência, Cultura e Comunicação, finalidades essenciais da UNESCO. Tais iniciativas constituem oportunidade para sensibilizar a comunidade internacional para a história, a cultura e o intercâmbio e cooperação entre as diferentes línguas. O multilinguismo é, aliás, um valor central das Nações Unidas e um objetivo de importância estratégica para a UNESCO, como fator essencial para a comunicação e entendimento entre os povos, suscitando a unidade, a diversidade, a compreensão internacional, a cooperação, a troca de experiências, o respeito mútuo e o diálogo entre culturas.


O idioma é essencial para a afirmação de uma identidade, mas também para enriquecer o diálogo entre culturas e civilizações. A língua portuguesa projetou-se em todos os continentes. Quando falamos dela, consideramos uma longa história, a partir do galaico-português, língua antiga, que cedo alcançou assinalável maturidade. O português ou o espanhol jamais foi dialeto um do outro. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como a moçárabe, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico, pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos da expansão graças à cultura quinhentista. Devemos, assim, falar de uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas. De várias culturas, pela natureza própria da diversidade política, como língua de unidade de várias nações, como língua segunda, ou como língua integradora no complexo mosaico étnico e geográfico – ora em África, ora no Brasil. Quando referimos várias línguas, reportamo-nos ao desenvolvimento dos crioulos, de raiz portuguesa, e à coexistência com as línguas autóctones. Lembremo-nos de Baltasar Lopes, de Cesária Évora ou de Mário Lúcio e encontramos pontes essenciais de diálogo. De facto, sem paternalismos ou simplificações, a partir de exemplos concretos, trata-se de considerar uma “língua coincidente” que deve ser vista como realidade em constante movimento.


Temos assim de abrir espaço para a diversidade linguística, estabelecendo pontes entre os vários idiomas e as várias culturas. Não podemos esquecer que as chamadas Humanidades irão ganhar uma configuração cada vez mais fortemente relacionada com todas as disciplinas científicas. Como investigar as literaturas e as artes sem considerar a diversidade de culturas e línguas? Como dignificar a ciência sem ter vocabulários ligados á línguas?   Infelizmente, há quem julgue que a avaliação académica deve ser uniformizada e redutora, o que é o contrário da compreensão da diversidade. E não se pense, pois, que a tendência futura é para a existência de uma única língua franca. Num mundo globalizado, não podemos falar da língua portuguesa como realidade fechada, mas como uma identidade aberta e dinâmica, e aí está a sua riqueza e a sua virtualidade.


Como disse Sophia de Mello Breyner: «Gosto de ouvir o português do Brasil / Onde as palavras recuperam sua substância total / Concretas como frutos nítidas como pássaros / Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas / Sem perder sequer um quinto de vogal…» (Geografia, 1967). Como Unamuno bem pressentiu e Eduardo Lourenço interpretou, com rigor e perfeição, somos feitos de lirismo e de história trágico-marítima – com mistura do picaresco, do escárnio e maldizer. Encontramo-nos nessa realidade multiforme desde a poesia trovadoresca até à rica poesia contemporânea, passando por Camões, Sá de Miranda, Bocage, Garrett, Herculano, Antero de Quental, João de Deus, Cesário, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Jorge de Sena e todos mais… Portugal, como palavra, é uma eterna convergência da lembrança e do desejo, do amor e da provação, e a língua portuguesa, espalhada pelo mundo foi-se construindo nessa pluralidade e nessa complementaridade… A língua portuguesa, temperada com mais açúcar ou mais especiarias, é um traço de união e de diferença. E se dúvidas houvesse João Guimarães Rosa leva-nos em busca da terceira margem, Mia Couto reinventa-nos em permanência, enquanto Adélia Prado usa como matéria-prima o afeto e a esperança… Eduardo Lourenço é perentório: «O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Somos quem somos, porque queremos. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma constante batalha cultural. Mas há ameaças e perigos, e até indiferença e acomodação. Idioma de várias latitudes e culturas – eis um caleidoscópio incompatível com uniformidade ou paternalismo. Prevalecem o pluralismo e a diversidade. Por isso, Vieira, Garrett, Antero e Cortesão aspiraram a um patriotismo prospetivo, em que o fundo da língua portuguesa se afirma como exigência de abertura e pluralismo. Como disse magistralmente António Ferreira: «Floresça, fale, cante, ouça-se e viva / A Portuguesa língua, e já onde for. / Senhora vá de si, soberba e altiva. / Se téqui esteve baixa e sem louvor, / Culpa é dos que a mal exercitaram, /Esquecimento nosso e desamor». 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
O GRISÚ E OS CANIBAIS (II) 


1. A 1 de abril, prometi eu que na "próxima sexta-feira" contaria mais histórias de Júlio Verne, passando dos grisús aos canibais (PÚBLICO, 1 de abril de 2005). Promessas de 1 de abril, dia das mentiras? Não eram, não, embora poucos me acreditem e ainda menos me creditem, o que, às vezes, dói o seu bocado. Acontece que tropecei num regresso de Londres e fiquei impróprio para consumo durante a tal "próxima sexta-feira" e as feiras mais vizinhas dela. Donde, dois azares, já que dos ditos se diz que nunca um vem sozinho. Faltei à promessa e faltei ao PÚBLICO (qualquer dia sou demitido por absentismo); fiquei a meio da história, o que é sempre a pior coisa que pode acontecer a um contador delas.


Em semana de tantos acontecimentos, cheguei a ponderar esquecer Verne e os canibais e passar a outros temas mais candentes. Ganhou o meu lado Xerazade. O que começou tem de acabar. Esqueçam (como eu vou tentar esquecer) a semana de 4 a 9 de abril. A "próxima sexta-feira" transfiram-na, a título póstumo, de 8 para 15. E ela aí está, se a minha Futura não se me encolher numa nega. 


2. Se bem se lembram, a 1 de abril eu resumi As Índias Negras, primeiro romance de Verne que me leram e eu li, como então expliquei. Pela voz da mesma Luzinha e na mesma escura sala, que dava para o pátio das traseiras do Lar Educativo João de Deus, ali na Rua Viriato, às Índias Negras sucedeu-se Em Frente da Bandeira, que não me deixou tão funda recordação. Ao que julgo recordar, era a história de um cientista dementado, de nome Thomaz Roque, que de mal com os homens e de mal com a pátria (a França) dedicava a vida ao fabrico de um explosivo potentíssimo, premonição verniana da bomba atómica. Era o "fulgurador Roque" e desse nome nunca mais me esqueci. Já não sei porque bulas o sábio erguia o seu laboratório num vulcão das Bermudas, entre piratas e outras gentes sequiosas de vingança. A notícia do perigo chegou às grandes potências e a França aparelhou uma frota para a captura do louco e seus acólitos. Demasiado tarde! O fulgurador Roque estava pronto a servir e o sábio saboreava a hora suprema em que mandaria para as profundezas a armada punitiva. Só que Roque podia estar louco, mas era francês. E, assim, o final era apoteoticamente chauvinista. Quando o cientista ia a dar ordem fatal, viu na sua frente a bandeira tricolor. "Em frente da bandeira", vacilou. Não estava tão inveterado no crime que bombardeasse o seu próprio país! Atirando ao chão o frasco do explosivo, esmigalhou-o com o tacão. Rebentou a ilha e todos quantos a habitavam, mas salvou-se a França e a humanidade.


Mas se, mesmo para os meus 9 anos, tal acesso de nacionalismo me pareceu pouco convincente, o gosto por Verne não abrandou. Foi nesse ano que devorei quase toda a obra dele. Percorri, o paralelo 37 com os filhos do Capitão Grant, reencontrei o Capitão Nemo na lagoa subterrânea de A Ilha Mysteriosa e as mesmas lágrimas que salvaram de cegueira o correio do czar, me fizeram amar acima de todos Miguel Strogoff. Acima de todos? Minto. Mais ainda que ele, amei outro russo, em que o correio era pombo e se chamou Mathias Sandorf. Lá fora, na varanda da Vila Raul, zangavam-se os crescidos, no último Verão em que a família, em aceção mais lata, coabitou nessa casa. No meu quarto, a que me acantonava o ritual da sesta, terrificavam-me tanto essas iras genéticas como a fuga de Sandorf, desescalando muralhas tão íngremes que era preciso ser ave ou demónio para dali escapar. Mas os meus favoritos (porquê o mas?) chamaram-se O Castelo dos Cárpatos e a Galera Chancellor. No Castelo dos Cárpatos nasceu o cinema como arte necrófila e como arte audiovisual. Na Galera Chancellor revelou-se o oculto Verne quase tão perverso como o gajeiro da Nau Catrineta. Como vos prometi histórias de canibais, soltem-se elas.


3. Chancellor (O Chancellor, apesar de ser galera) era o nome do bonito barco de novecentas toneladas, pertencente à poderosa casa Leard & Irmãos, que, a 27 de setembro de 1869, largou da Carolina do Sul (região obcecante para Verne) com destino a Liverpool.


Era um navio "forrado e cavilhado de cobre, tabuado exterior de teka e com mastros reais, exceto o da gata, de ferro e o aparelho fixo de arame". A Veritas, ao que presumo, publicação de autoridade na matéria, classificou-o como de primeira classe. Ao sair da barra, arreou o pavilhão britânico "mas nenhum homem do mar desconheceria a sua nacionalidade. É realmente o que parece, inglês desde a linha de flutuação até ao topo dos mastros".


A bordo, sete passageiros, dezoito nautas (capitão, imediato, um oficial, um mestre e catorze marinheiros, todos ingleses ou escoceses), um dispenseiro e um cozinheiro preto. Os passageiros eram um casal americano de Buffalo, uma jovem e bela inglesa, "a criada grave" da americana, um engenheiro de Manchester, um negociante de Cardiff, dois franceses, pai e filho, residentes no Havre e um tal J. B. Kazallon, cuja maior importância provém de ser ele o autor do diário que entre setembro de 1869 e janeiro de 1870 fixou as desditas do Chancellor. Porque este é um dos raros romances de Verne (só me lembro de outro mais) escritos na primeira pessoa, ou seja, em que existe uma "voz off" que é a voz de Kazallon. O narrador também é inglês (de Londres) mas não será inocente que neste "filme de terror" quase todos os personagens sejam sinistros, à exceção dos dois franceses, da tal "criada grave", do imediato, e, obviamente, do narrador.


Segundo as boas regras, tudo começa sob os melhores auspícios. Mas, ao fim de pouco tempo, destaca-se, pelo comportamento bizarro, o capitão que impõe à galera inexplicável rumo. Felizmente, o homem descobre a tempo a sua impotência e delega funções no imediato, que será o grande herói da fita. Só que já se perderam bastantes dias e, naquelas paragens, há um tempo para o mar e um tempo para a terra.


Rapidamente, nova desgraça: fogo a bordo, na carga de algodão. O imediato consegue manter segredo (só descoberto pelo narrador e poucos mais). Até que um dia, este (o narrador) surpreende uma conversa do negociante de Cardiff com o engenheiro de Manchester, em que o primeiro diz ao segundo que meteu clandestinamente na bagagem um boião com cerca de trinta libras de picrato de potássio, danado explosivo.


"Infame! Pois não sabe que temos fogo a bordo?", ruge Kazallon. O pânico espalha-se, o negociante enlouquece e acaba por se atirar borda fora e toda a gente espera ver a galera explodir, quando uma tempestade a atira contra uns rochedos. Males que vêm por bem. Os rombos no casco deixam que o mar apague o fogo que, por milagre, não chegara ao boião. Mas impedem o barco de continuar viagem. Alguns cobardes (cinco, incluíndo o ex-capitão e o americano de Buffalo) roubam o salva-vidas e põem-se a milhas. "Cinco salvos", diz o mestre. "Cinco perdidos", responde com mais sabedoria um velho marinheiro irlandês.


Lá fazem das fraquezas forças e constroem nova jangada, enquanto mais três marinheiros morrem e morre também a velha americana, abandonada pelo marido. Dos vinte e sete ficaram dezoito para um terrível mês de dezembro, em que a jangada foi parar à zona das tempestades, assim chamada porque "observador de ouvido fino sentirá continuamente o estrondear do trovão". Falta comida, falta de água. Deitaram sola de molho, mas a sola era tão rija que não a podiam tragar. Um dia morre mais um marinheiro. Quando o atiram ao mar, já lhe falta um pé, que foi servir de isco para a pesca. Com outro morto fazem-se menos cerimónias. Só não foi comido todo, em bródio de gáudio, porque o jovem francês, horrorizado, atirou ao mar, durante a noite, o que sobejara do manjar de um dia.


"É mister" (espantosa expressão que cada passo se encontra na tradução de Marianno Cyrillo de Carvalho que é a minha deste livro) é mister, dizia eu, que, aqui chegado, vos tenha que contar uma ou duas coisas sobre os tais franceses. O pai, Letourneur, homem de cinquenta anos, é a honestidade em pessoa. Fere-o, porém, mágoa máxima. O filho, André, nasceu aleijado de um parto em que lhe morrera a mulher. Desde aí, vive para André, que educou, com quem viaja e que acima de tudo protege. André, vinte e pouco anos, herdou as virtudes morais do pai, mas fisicamente de poucos préstimos é.


Volto ao meu conto. Felizmente, entre a marujada esfaimada, ninguém se apercebeu que fora André a atirar aos peixes os restos do cadáver. Mas pressentindo que o ato veio de um "civilizado" querem vingança de classe. "Capitão, em que dia tiraremos à sorte?"


O dia chegou a 26 de janeiro, quando já só restavam onze dos náugrafos. O narrador só no fim percebeu porque é que o honrado Letourneur se ofereceu para a "tarefa sinistra". Ao nono nome disse: "Letourneur". "Qual? perguntou o mestre. André! responde o pai. Ouve-se um grito. André cai desmaiado - Avia-te! exclama rugindo o carpinteiro Daoulas cujo o nome e o de Letourneur são os únicos restantes no chapéu, tira o penúltimo bilhete e, sem que a voz lhe trema, com uma firmeza que não era de esperar d'aquele velho, pronuncia esta última palavra: Daoulas!" A seguir, rasgou sem ler o último bilhete. Mas o narrador consegue apanhar um bocadinho onde lê: "And...". "O pai sacrificou-se pelo filho, e não possuindo mais que a vida para lhe dar, deu-lhe a vida." Chega o clímax. O velho Letourneur ainda propõe aos algozes um negócio. Para dez, o corpo dele é mais que suficiente. Contentem-se hoje com os meus dois braços e amanhã comam-me o resto. O negócio é aceite, mas o capitão e o narrador não suportam tanto. Atiram-se aos outros que, por sua vez, os atiram borda fora. E é quando o narrador engole a água que descobre que esta é doce e que, sem o saberem, navegavam há dias no Amazonas, "único rio de corrente tão abundante e impetuosa que repele a água do mar até vinte milhas da foz! À noite, a galera Chancellor estava em terra a varar. Assim me despeço das índias mais negras de Júlio Verne, dito escritor para jovens e para a boa edificação destes. Porquê? Acham que não foi?

por João Bénard da Costa
15 de abril 2005 in Público

DEMOCRACIA INCOMPLETA

  
    António Barreto © António Cotrim/Lusa


Para grandes males grandes remédios. Vivemos um dos momentos mais graves da história contemporânea. O que aconteceu nos últimos dias na cena internacional, quanto a hesitações, avanços, recuos e discursos absurdos assemelha-se aos tempos mais tristes da história. Precisamos de cabeça fria e nervos de aço, para não corrermos atrás dos estranhos acontecimentos que povoam o mundo… O caos instalado está a prejudicar todos e corresponde a uma pulsão suicida, que se assemelha à parábola dos cegos no precipício. E nós portugueses, ainda que distantes do epicentro do temporal, não podemos alhear-nos do que se passa. Somos, por isso, chamados à responsabilidade.

Há dias, numa entrevista de rara lucidez, com a coerência que lhe conhecemos, António Barreto disse preto no branco o que deve ser dito: “Se houver maioria de um só partido ou se os dois partidos centrais fizerem coligação e governo talvez haja uma mudança positiva. Haverá mais possibilidades de resolver a questão dos financiamentos europeus, os problemas de segurança e defesa e o relançamento do Serviço Nacional de Saúde. Talvez a justiça mereça mais atenção por parte do legislador; depois destes anos de verdadeira desordem institucional. (…). Defendo um governo de coligação nacional, com os dois maiores partidos, com um programa escrito, assinado com validade para quatro anos” (DN, 28.3.2025). Está tudo dito. E não se perca muito tempo. Sabemos que há mil argumentos sobre futuros imponderáveis, contudo a coragem obriga a forçar os acontecimentos e a não seguir os falsos lugares comuns. Estamos numa circunstância única. Não podemos dar-nos ao luxo de continuar a debater o sexo dos anjos.

Veja-se o que ocorre neste momento na Alemanha. Os riscos da grande coligação são evidentes, mas a ausência de uma solução forte determinaria necessariamente uma crise arrastada e fatal. Num tempo em que se tornou moda não ouvir a ciência e a sabedoria, devemos desconfiar das frases bombásticas e das simplificações grotescas. Impõe-se, pois, criar condições de governabilidade e se as mesmas funcionarem, não há o perigo de dar argumentos aos discursos radicais, pois já sabemos do que não são capazes e dos efeitos nefastos das suas políticas. Mais do que a moderação, precisamos de cuidar do bem comum e do interesse geral. Os maiores economistas do último século e meio – Knut Wicksell e John Maynard Keynes – ensinaram-nos a necessidade de estarmos atentos aos acontecimentos, às incertezas e à “experiência madre de todas as cousas”. Para o sueco, importaria encontrar consensos duráveis nas políticas estruturais entre os principais partidos, para que as alternativas pudessem funcionar nos ciclos eleitorais democráticos, sem sobressaltos e demagogias. Para o britânico, haveria que ligar a procura efetiva global à capacidade de realizar investimentos reprodutivos pelos diferentes agentes económicos privados e públicos, com atenção especial à criatividade, à ciência e até à arte. Infelizmente, um certo hedonismo cínico tem esquecido estes elementares ensinamentos e o nosso antigo “saber todo de experiências feito”, que Camões elogiou no centro de “Os Lusíadas”. Gerir é menos que governar, e do que precisamos é de capacidade para dar um rumo, uma orientação à sociedade e ao Estado, centrada no pluralismo, na liberdade e no Estado de Direito. Eis o que importa.

NOTA - O título da crónica é o mesmo do livro que escrevemos em 1978 com António Rebelo de Sousa.   


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Vasco Graça Moura © José Coelho/Lusa


210. LIBERDADE PARA UMA OPINIÃO LIVRE E ESCLARECIDA


“Não sinto propriamente a obrigação de, como escritor, fazer ouvir a minha voz como exercício de uma dada responsabilidade de intervenção cívica. Isso pode, na prática, acontecer ou não, mas não terá de obedecer a um programa ou a uma contrição ideológica. No meu caso, não obedece com certeza. As minhas responsabilidades enquanto cidadão não têm forçosamente de irromper ou de se projetar nas minhas produções enquanto escritor. Mas admito perfeitamente que haja quem pense ter essa responsabilidade nos termos enunciados e o faça em coerência com tais conceções. Tanto uma opção como outra devem ser estritamente respeitadas por toda a gente”
(Vasco Graça Moura, JL n.º 1105, sublinhado nosso).

A formação de uma opinião livre e esclarecida é essencial numa sociedade democrática, onde a liberdade de expressão, informação e de criação artística serão maiores quanto maior o seu grau e valor. 

No culto dessa liberdade o que mais nos deve entusiasmar é o que não sabemos (não o que sabemos), com experimentação e consequências em todas as artes e saberes, sabendo interpretar a beleza e a criatividade associadas ao 25 de abril e fazendo valer a liberdade pela liberdade e a arte pela arte.   

Há que contrariar  qualquer tarefa autoritária, ditatorial ou oficial de fixação de dogmas e normas ideológicas a que as artes, artistas, investigadores e opinião pública se devem submeter através da imposição de uma arte ou ideologia estadual, tendo-os como um mero meio ou instrumento de transformar a sociedade para fins utilitários ou deterministas, e não como um fim em si mesmo.       

Mesmo sabendo-se que a criatividade, enquanto elemento de combate e de intervenção, pode ser um modo especial e extremamente eficaz de luta pela liberdade a favor dos oprimidos e mais desfavorecidos, isso não nos legitima a respeitar apenas uma opção, proibindo a outra, dado sabermos que sempre houve quem preferisse o campo dos dominadores, dos opressores ou dos indiferentes e tivesse elaborado e deixado uma obra que perdurará.


25.04.25
Joaquim M. M. Patrício

POESIA

Quando no dia

o era

é

  


1.

Como era, como era?


Era como a passagem de uma brisa,

o pensamento ia sem norma,

tão leve, tão volúvel, tão impreciso como um sorriso


2.

Como era, como era?


O silêncio puro, o riso carmim, as essências molhadas

de laranjas

um nada muito cheio

enquanto os amigos nobres

nas mãos


3.

Como era, como era?


Quando a luz da tarde-oiro

no amor por entre os choupos

porque vivo, porque vivo

porque sei saber sentir

nas palavras por dizer

acesas


4.

Como era, como era?


A vida universal

um hálito da terra vestido de tristeza e de sorriso

Os pássaros vivendo em tudo

Os moinhos de vento, vagamente flores

e os comboios que não param


5.
 

Como era, como era?


Quando no dia

o era

é

por todas as razões

liberdade


Teresa Bracinha Vieira

SOFRER POR MOTIVOS ERRADOS

  


Sofre-se por muitos motivos: lumbago, escrúpulos, causas. Quase ninguém é de opinião que o sofrimento seja agradável. E a maior parte das pessoas acha que evitar sofrimentos, sobretudo próprios, é um objectivo razoável. Mas será que uma pessoa que sofre é necessariamente uma boa pessoa? E será que uma causa ou uma ideia por que uma pessoa sofreu se torna boa apenas pelo facto de alguém ter sofrido por isso? A noção não ocorreria a propósito de lumbago. O lumbago não pode ser um motivo errado.

Estas perguntas vêm de ouvir de vez em quando um programa ao fim de semana em que se entrevistam pessoas que foram torturadas em prisões políticas portuguesas. A tortura é um processo detestável. Não devia existir e não devia ter existido. Um regime em que não se torturam pessoas é sempre melhor que um regime em que se torturam pessoas. De igual forma, o sofrimento das pessoas que foram torturadas é genuíno e deveu-se a motivos injustificados.

No entanto, pelo facto de uma pessoa ter sido torturada as suas opiniões não passam a ser verdadeiras. Pessoas com opiniões nobres e opiniões detestáveis são indiferentemente torturadas por quem as tortura. A nobreza ou o carácter detestável de uma convicção não resulta do somatório dos horrores por que os seus adeptos passaram: o sofrimento não pode ser convertido em mérito intelectual. Por essa razão, a nobreza ou o carácter detestável de uma pessoa torturada não podem ser desligados da natureza das suas convicções.

A maior parte das pessoas ouvidas no programa foram e acredito que ainda sejam militantes comunistas. O facto de terem sofrido é porém irrelevante para os méritos do comunismo. Se fossem nazis ou democratas-cristãos o seu sofrimento também não alteraria em nada a qualidade das suas convicções. A qualidade das convicções políticas mede-se por aquilo que acontece àqueles que não as partilham. O teste de uma doutrina política não é nem pode ser a qualidade ou a quantidade de sofrimento que causou aos seus adeptos; embora uma característica de certas doutrinas políticas seja o sofrimento que inflingem aos seus próprios adeptos.

Existe um erro de raciocínio que consiste em concluir que, como a tortura é detestável, as opiniões das pessoas que foram torturadas são nobres. É este erro que leva muita gente a sentir-se tentada a respeitar por atacado as ideias de todas as pessoas que foram torturadas, excepto possivelmente as dos nazis. Acontece que a maior parte das pessoas que ouvi naquele programa têm ideias confusas, cruéis e primitivas. Devemos ser capazes de distinguir os horrores que lhes aconteceram das enormidades que eles dizem. A nossa compaixão deve antes ser reservada para quem foi torturado porque tinha ideias boas, mas muito em especial para quem foi torturado porque não tinha quaisquer ideias.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA


A Páscoa: não à opressão e à morte


O famoso filósofo Johann G. Fichte tem um texto com perguntas que todo o ser humano, minimamente atento à vida, alguma vez fez, pois são perguntas que ele transporta consigo, melhor, que ele é.

O filósofo alemão escreveu que o ser humano não deixará facilmente de resistir a uma vida que consista em “eu comer e beber para apenas logo a seguir voltar a ter fome e sede e poder de novo comer e beber até que se abra debaixo dos meus pés o sepulcro que me devore e seja eu próprio alimento que brota do solo”; como poderei aceitar a ideia de que tudo gira à volta de “gerar seres semelhantes a mim para que também eles comam e bebam e morram e deixem atrás de si outros seres que façam o mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que gira sem cessar à volta de si?... Para quê este horror, que incessantemente se devora a si mesmo, para de novo poder gerar-se, gerando-se, para poder de novo devorar-se?”

Também Ernst Bloch, o filósofo ateu religioso, escreveu que o ser humano nunca há-de contentar-se com o cadáver.

Há aquelas perguntas in-finitas: Quem sou? Para onde vou? Onde estarei quando cá já não estiver?

E o dramático é que, por um lado, a vida depois da morte é completamente não figurável – para lá do espaço e do tempo, não é possível qualquer representação. Nunca poderei dizer: morri, estou morto  -serão outros a dar a notícia.

Por outro lado, é insuportável acabar, andar, na vida, de sentido em sentido e, no fim, afundar-se no nada – não ir para lado nenhum. Sendo o ser humano “alguém”, quem afirma o nada no termo vê-se confrontado com a pergunta: como se passa de “alguém” a “ninguém”? Como conceber uma consciência morta? Afinal, o que era antes de morrer? Se tudo desembocasse no nada, qual seria, em última análise, a distinção entre bem e mal, honestidade e desonestidade, honradez e mentira, verdade e falsidade, já que no fim tudo se afundaria no nada e tudo seria o mesmo: precisamente nada?

Nos seus inícios, o cristianismo triunfou, porque a uma sociedade angustiada com a morte se apresentou com a promessa inaudita da esperança na ressurreição. Mas hoje a morte é tabu, e a ressurreição dos mortos e a vida eterna tornaram-se não plausíveis e sem interesse. Parece que as pessoas se contentam com o consumo diletante, entretidos na corrida louca de uma agitação paralisante, desfrutando instantes e entregando-se à morte inevitável, numa espécie de melancolia resignada.

E não será assim porque hoje se ama pouco, pois só o amor requer eternidade? Mas então, numa sociedade sem eternidade, o que resta são só  instantes, que não podem fazer texto nem encontrar sentido último, porque se devoram uns aos outros.

Para quem se não perdeu na superfície da banalidade, a Páscoa, no seu sentido de passagem, é a experiência do transcender constitutivo do ser ser humano. O Homem nunca se contenta com o dado nem com os factos brutos: vai sempre além, num além sem limites, transgredindo, pela esperança, as próprias fronteiras da morte.

A primeira Páscoa é a do Antigo Testamento e consiste na libertação da escravidão no Egipto: Deus não aceita a opressão. A segunda Páscoa é a culminação da primeira: Deus não tolera a morte. Jesus crucificado para dar testemunho da Verdade e do Amor não morreu para o nada, mas para o interior de Deus, que é a Vida eterna. Como diz São Paulo na Carta aos Romanos, o Deus que cria a partir do nada ressuscita os mortos.

É tão próprio do ser humano saber que é mortal como esperar para lá morte. Mas é mesmo de esperança que se trata, pois a morte é a experiência de que o Homem não pode dar a si mesmo a salvação – ela é dom de Deus. O Novo Testamento só utiliza a palavra imortalidade duas vezes: uma em que se diz que só Deus possui a imortalidade, e outra em que se afirma  que o nosso corpo mortal há-de revestir-se da imortalidade da ressurreição, o que significa que a imortalidade é um dom.

Então o crente dirá ao não crente, como escreveu o teólogo J. I. González Faus, recentemente falecido: espero que no fim, para lá da morte, encontrarás esse Pai ou  Mãe ou essa Luz de braços abertos para ti, encontrarás esse Mistério último acolhedor.

Mas o não crente poderá responder ao crente: verás a surpresa que vais ter quando vires que não há nada.

Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a pena viver como vivi, se vivi no bem. Acreditando, a minha vida foi mais humana, abriu-se a mais dimensões da realidade, encontrou Fundamento e Sentido último. A prova de que a fé dos crentes não é vã só pode ser a luta contra todas as formas de morte: a fome, a guerra, a injustiça, e a favor da liberdade, da dignidade, da paz, da realização plena de todos os seres humanos.

Páscoa feliz!


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
19 de Abril de 2025

A VIDA DOS LIVROS


De 21 a 27 de abril de 2025


Recordamos hoje um grande amigo, destacado intelectual brasileiro – Marcos Vinícios Vilaça, membro da Academia Brasileira de Letras.


As lembranças não são apenas memórias passadas, são referências da própria existência presente que fazem reviver as relações humanas na sua plena representação. Quando recebemos a notícia da partida de um amigo dileto, como Marcos Vinícios Vilaça (1939-2025), fica-nos a recordação de encontros inolvidáveis, animados por um espírito brilhante e versátil e por uma incontida generosidade, completada pela presença inesquecível de sua mulher, Maria do Carmo, que constituía sempre uma companhia que nos enchia, a seus amigos, de uma verdadeira alegria. O nosso conhecimento foi muito fácil e natural, até porque depressa encontrámos memórias comuns, através de meu avô, conferencista, no Recife, nas celebrações do Tricentenário da Restauração Pernambucana (1954), tendo-se tornado a partir de então amigo de Jordão Emerenciano (1919-1972), brilhante intelectual e orador, que conheci em Lisboa e sobre quem falámos longamente de vastas memórias pernambucanas. 


Nascido no município de Nazaré da Mata, no estado de Pernambuco, Marcos Vilaça foi justamente considerado como um ensaísta brilhante, consciente da importância da relação estreita entre a cultura e a iniciativa económica, tendo desempenhado importantes responsabilidades, como no Conselho Federal de Cultura. Por designação do Presidente José Sarney, foi ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) durante mais de duas décadas. Desde 1950, viveu no Recife, onde estudou no tradicional Colégio Nóbrega, fazendo o “Curso Clássico”, onde aprofundou os campos das Letras e das Humanidades. Depois de 1958, foi professor de História do Brasil no Ginásio de Limoeiro, no Recife, e ingressou no curso de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde se licenciou em Direito e obteve o grau de mestre, o que lhe permitiu tornar-se professor daquela instituição no ano de 1964. Marcos Vilaça lecionou as disciplinas de Direito Internacional Público e de Direito Administrativo, o que foi de grande utilidade para o desempenho de suas funções quando se tornou ministro de TCU. Na década de 1960, dedicou-se à literatura, à reflexão e ao ensaísmo, áreas que o consagraram no mundo cultural. Um pouco antes, em 1958, publicou Conceito de Verdade, o discurso que pronunciou no Salão Nobre do Colégio Nóbrega em dezembro de 1957, na condição de orador da turma de finalistas do Curso Clássico.


Em 1961, Marcos Vilaça publicou um dos seus trabalhos literários de maior sucesso e originalidade: Em torno da Sociologia do Caminhão, que recebeu o prémio Joaquim Nabuco da Academia Pernambucana de Letras. Na Academia Brasileira de Letras ocupou a cadeira 26, sendo eleito em 1985 na sucessão de Mauro Mota, seu conterrâneo, e recebido pelo académico José Sarney. Recebeu os académicos Ariano Suassuna, Alberto da Costa de Silva e Marco Maciel, tendo sido Presidente da ABL no biénio 2006-2007. Além do ensaio sobre a juventude de Gilberto Freyre (1980), escreveu o impressivo “O Coronelismo no Nordeste Brasileiro” (2004), que nos permite compreender como a influência política e social se repercutiu na evolução cultural da região. Marcos Vinícios era um conversador nato, uma companhia inigualável, as conversas com ele interligavam-se de modo ininterrupto e com uma cadência de grande vivacidade.


NOITE INOLVIDÁVEL
Tanto falávamos da sua experiência política no Recife e sobre José Sarney, grande artífice com Mário Soares da génese da CPLP, através do Instituto Internacional de Língua Portuguesa ou do papel desempenhado por José Aparecido de Oliveira, assim como invocávamos o ambiente dos romances de Eça de Queiroz, como aconteceu num jantar inolvidável no Grémio Literário, com José Carlos de Vasconcelos, Alfredo José de Sousa e José Tavares, em que Luís Santos Ferro nos pôde falar deliciosamente de Manuel Vilaça, a personagem romanesca fidelíssima de “Os Maias”, de quem ouvimos dizer: “Eu sou um homem de princípios e os princípios não se vendem” ou chamar a atenção para a importância do amor à casa em que se nasceu. Mas o prazer das palavras e da memória viva do ambiente queirosiano, ali mesmo onde o romancista terá lido pela primeira vez “Les Fleurs du Mal” de Baudelaire, culminou nas esperadas gargalhadas para o Taveira, amanuense do Tribunal de Contas. "Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara para o relógio. E eu aqui, empregado público, tendo deveres para com o Estado, logo às dez horas da manhã. - Que diabo se faz no Tribunal de Contas? perguntou Carlos. Joga-se? Cavaqueia-se? - Faz-se um pouco de tudo, para matar tempo... Até contas!" E o efeito não se fez esperar. E Luís Santos Ferro com o seu humor e conhecimento das coisas animou aquela charla, lembrando, de seguida, naturalmente Maria Eduarda. E a descrição foi pontuada por natural volúpia, lembrando que a morada dela era a dois passos de onde se encontra o Grémio, hoje rua Ivens, outrora rua de S. Francisco. E todos relembrámos esse momento crucial da obra de Eça: ela era «uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas». Estava tudo dito. Maria do Carmo saudava o estilo irrepreensível de escrita e Marcos Vinícios a arte enaltecida pelo Luís. Todos aplaudíamos.


E a conversa continuava no elogio da nossa língua de um lado e do outro do Atlântico, com a lembrança de Machado e do extraordinário domínio das palavras e dos sentimentos. “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs as suas espécies”… E se Machado de Assis foi a alma da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinícios Vilaça fazia questão de pôr a tónica no convívio e no diálogo cultural, como centro da criatividade, institucionalizando o chá como ponto de encontro para o necessário ambiente de acolhimento e encontro capaz de reunir vontades e lembranças, desejos e esperanças. Nas nossas memórias ficou gravado para sempre o tom dessa amizade, verdadeira matéria-prima da língua comum e da cultura enquanto realidades indestrutíveis.   


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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