Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MIA COUTO, BIBLIOTECANDO

  
    Mia Couto © António Silva/LUSA 


“Bibliotecando em Tomar” é uma iniciativa única que realizou a sua 15ª edição. É o resultado da vontade de um município e de uma comunidade que põem de pé todos os anos uma grande homenagem à leitura. Lembramo-nos do diálogo épico entre José-Augusto França e Eduardo Lourenço, que ficou na nossa memória como momento grande de uma cultura viva. Este ano, Mia Couto foi a personalidade eleita. Foi, de novo, um momento excecional, graças à presença de um dos grandes escritores contemporâneos da língua portuguesa. Estudantes, professores, famílias, público em geral, todos usufruíram da generosidade e do talento do escritor moçambicano, que se dispôs a dialogar com quantos tornam o “Bibliotecando” a ilustração viva do prazer do livro e da leitura. Mia Couto tem entusiasmo pelas coisas novas, praticando o bom método de “rasgar horizontes”. O uso sábio das palavras permite-nos compreender melhor a substância da vida. “Velho, não / Entardecido, talvez / Amigo, sim. / Me tornei antigo / porque a vida, / tantas vezes se demorou. / E eu a esperei como um rio aguarda a cheia”. De facto, que é o andar do tempo senão a compreensão de que só entendemos as raízes, se percebemos o que a elas nos liga? E é esta relação com as raízes que Mia Couto nos transmite. Ao ver as palavras do avesso podemos perceber melhor o que elas representam. “Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho” Ah, como é difícil a relação com o sonho. Terra Sonâmbula (1992) tem como pano de fundo os tempos da guerra em Moçambique, da qual se traça o quadro de um realismo forte e brutal. Dentro deste cenário de pesadelo movimentam-se personagens de uma profunda humanidade, por vezes com uma dimensão mágica e mítica, todos vagueando pela terra destroçada, entre o desespero mais pungente e uma esperança que se recusa a morrer. Mia Couto tratou do tema da Terra Sonâmbula de um modo admirável e a crítica literária considera esta como uma  das melhores obras literárias nos últimos anos escritas em língua portuguesa e um dos melhores livros africanos do século XX.

Já em O Mapeador de Ausências (2020), há um poeta “que vem à procura da sua infância” e que “vai começar a perceber que aquilo que é presente para ele no sentido temporal, nasce da ausência de alguém”. Vivemos e depois deixamos o nosso espaço e tempo. Essa ausência mais não representa do que uma comunidade de vida. E Mia recorda o pai, o jornalista e poeta Fernando Leite Couto, entre os ausentes que permanecem vivos. Estamos perante um “escritor da terra”, que escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a natureza humana na relação íntima e umbilical com a terra. As palavras inventadas, “estórias abensonhadas”, como que adivinham a secreta natureza do que referem, como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada no seu lugar. As imagens evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve a ambiência terna e pacífica dos sonhos. O encontro com João Guimarães Rosa foi, assim, uma aproximação natural e necessária, porque, lembrando Riobaldo e Diadorim, “sertão é dentro da gente”, e “Deus existe mesmo quando não há e o demónio não precisa de existir para haver”.


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


215. A FELICIDADE REALIZÁVEL


Consta que a felicidade é quase sempre medida não por aquilo que se tem, mas por aquilo que falta. E que basta que aconteça algo pior para percebermos que, afinal, o que sentíamos não era infelicidade. 

Trata-se de uma permanente e incessante busca de ser feliz, o que é normal dentro de certos limites, tidos como razoáveis, tornando-se nociva quando excessiva e irrealizável.

Em princípio, todas as pessoas que gozam de boa saúde e podem atender plenamente as suas necessidades fundamentais deveriam ser felizes, dado que para além da felicidade depender (segundo estudiosos), por um lado, de condições interiores e, por outro, de condições exteriores, tem inerente alguma subjetividade e indeterminabilidade.

Afastando, desde já, liminarmente, uma felicidade que, de tão exigente, é humanamente irrealizável, parece-nos que, correlativamente, daqui decorre ser necessário afastarmos de nós determinados objetos ou desejos que são, na sua essência, inacessíveis, como o exemplifica a obtenção de um conhecimento absoluto em qualquer área do saber.  Expurgadas vontades e fins inalcançáveis, há que descobrir e procurar o que é desejável e acessível, fazendo-nos feliz, vivendo objetivamente, com interesses plurais, propensão para o afeiçoamento e sentido crítico, estimulando a autoconfiança e a capacidade de querer estar só, quando necessário, purgando ideias erradas sobre o mundo e a humanidade, imperfeitos por natureza, priorizando o que temos de bom e excluindo a infelicidade diária de que sofrem tantas pessoas.   

Excelente preventivo contra a tristeza, o ócio e o tédio é a pluralidade de interesses pelo mundo exterior, que incentiva a atividade, sem prejuízo do conhecimento por nós próprios, defrontando-nos com o silêncio, a introspeção e os mistérios da vida, em equilíbrio e conjugação de esforços, dando luta, em qualquer caso, à inatividade.   

Um interesse excessivo por nós próprios, pelo contrário, pode conduzir-nos a egocentrismos de várias espécies, como o narcisista, o megalómano e o pecante, destrutivos por si e incentivadores de infelicidade. 

Tem que haver um apetite e gosto natural por coisas realizáveis, de que a felicidade não é exceção, tendo presente a nossa imperfeição de que ela também depende.


30.05.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

A paixão pela compreensão

  


A paixão pela compreensão implica necessariamente uma entrega ao pensamento crítico reflexivo, uma capacidade de amar a vida e de a entender, preocupando-nos com a formatação que nos impõem, procurando pensamentos à busca de uma finalidade.

Pensar e repensar é um imperativo ao compreender.

Não descurando analogias com outros tempos, a pertinência de pensarmos o mundo liberta-nos para aferirmos uma outra responsabilidade pelas nossas ações a fim de acedermos a um pensamento que melhor entenda os elementos da condição humana.

Não existimos sozinhos, todos somos diferentes uns dos outros, todos, um dia desapareceremos. Parece, pois, que existimos num espaço de transição, nesse mesmo em que pode prevalecer o interesse de construirmos um mundo em comum, um mundo apesar dos apesares, um mundo com uma oportunidade mais humana.

Aqui e agora, na nossa vida quotidiana, o modo de criarmos linguagem para melhor interpretarmos os nossos pensamentos, baliza a acutilância com que os mesmos se vêm a formular e a esclarecer-nos.

Compreender e ser-se compreendido clareia a própria experiência da solidão, clareia e alerta o declínio da cultura.

Há que aprender a cultivar a ataraxia para que haja uma certa indiferença em relação a tudo o que não deve suscitar preocupação excessiva da nossa parte.

Recolhamo-nos, pois, até ao fundo das contradições para voltarmos a todos os inícios a partir de nós, a partir da perspetiva do outro.

Livremo-nos do que obscurece a mente para que se aprenda a discernir e a desconfiar das ideias inúteis.

Há que gozar a vida também e através de atos belos, critério sábio para avaliar entre correto e incorreto.


Teresa Bracinha Vieira

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA CULTURA PORTUGUESA

  


Há poucos portugueses, e quase todos têm até três opiniões: a de que os portugueses que não são como eles são corruptos; a de que os portugueses que são como eles estão adoentados; e a de que os produtos portugueses de exportação são incomparáveis. Há um grande consenso em Portugal sobre o sofrimento dos corpos, a corrupção das almas, e o comércio externo.

Os dois primeiros tópicos foram já tratados pelos principais sábios. Não tem sido porém dedicada atenção suficiente ao comércio externo. As convicções generalizadas sobre justiça e saúde obscurecem uma dificuldade que a qualquer marciano pareceria evidente. A dificuldade exprime-se na seguinte pergunta: como é possível que uma população corrupta e doente produza quase sem esforço produtos tão apreciados no estrangeiro?

Existe uma ligação profunda entre a  corrupção de terceiros, as desconfianças sobre a saúde própria e alheia, e o comércio externo. Foi sobretudo estudada por críticos literários e historiadores das artes. Estas profissões estão há vários séculos habituadas a lidar com espécies inclinadas à meliância, v.g. pintores, músicos e escritores, que, muitas vezes em condições precárias de saúde, produziram o que de melhor se fez à face da terra. Ao seu objecto genérico de eleição chamam, e com eles o resto de nós civis, cultura. É uma combinação feliz de maldade e hipocondria que explica que os portugueses sejam sobretudo conhecidos em todo o mundo como produtores de cultura.

A origem da cultura parece estar na natureza. De facto, a natureza dá exemplos numerosos de animais de mau carácter e saúde precária cujas actividades conquistaram grandes êxitos junto de outras espécies. São animais culturais os gansos, que desenvolvem cirroses; os cisnes, que se colocam deliberadamente em perigo de vida por razões artísticas; e até os crocodilos, bichos particularmente maus, que por vezes concedem em se esfoliar. O foie-gras, a música e a marroquinaria são três das mais importantes áreas da cultura.

Também a cultura portuguesa é produzida em pequena escala por um número reduzido de animais tortos, adoentados e atentos ao comércio externo. É porque o número de produtores é pequeno que os produtos são poucos; e é porque são poucos que despertam mais entusiasmo entre aqueles que os procuram. Os seus compradores são no geral animais incorruptos e de saúde indiferente, e por essa razão exportam sobretudo produtos de interesse reduzido, como servo-mecanismos e adubos.  

O termo genérico ‘cultura portuguesa’ designa assim o resultado da conjunção, única em Portugal, de um pequeno número coeso de almas corruptas e corpos em sofrimento. Esta conjunção parece explicar as enormes vantagens comparativas dos grandes produtos portugueses de exportação: o vinho, os sapatos, a arquitectura, o futebol e a poesia.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    O pensador de Rodin, CC BY-SA 2.0 © Daniel Stockman 


O novo normal


1. Há dias, Ursula von der Leyen fez uma comunicação de abalo e despertar. Nela, referiu que “hoje aumentam as tensões geopolíticas. As regras comerciais estão a ser reescritas”, caindo-se numa guerra comercial global. “Acontecimentos climáticos extremos são cada vez mais frequentes, devido às mudanças climáticas. A mudança nas tecnologias é cada vez mais rápida”, apresentando o exemplo da IA (inteligência artificial), que está a evoluir mais rapidamente do que imaginaríamos há algum tempo...

Para rematar: “The ‘new’ normal is anything but ‘normal’.”  O ‘novo normal é tudo menos ‘normal’.”

2. Entretanto, uma boa amiga escreveu-me nestes termos:

“Estou tão triste, meu amigo.
Que mundo vamos deixar aos jovens?
Que planeta?
Que pessoas?

Onde vamos buscar esperança?”   

3. Ah! Se, nesta corrida vertiginosa e louca em que embarcámos, cada uma, cada um, parasse! Para pensar. Pensar vem do latim “pensare”, que quer dizer pesar razões e, portanto, reflectir, meditar..., para ir ao essencial.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
24 de Maio de 2025

A VIDA DOS LIVROS

  

De 26 de maio a 1 de junho de 2025


Bernardim Ribeiro é um dos mistérios da nossa literatura. Pouco se sabe sobre ele, muito se especula. “Menina e Moça” encerra em si uma revelação sobre o fundo complexo e múltiplo, lírico e trágico, da nossa cultura.


Bernardim Ribeiro foi amigo de Francisco Sá de Miranda, mas o certo é que “Menina e Moça ou a novela Saudades” (publicado em Itália, em Ferrara, no ano de 1554) é um verdadeiro símbolo da nossa tradição lírica, bucólica e romanesca… Mas, mais do que isso, revela-nos o carácter complexo da nossa cultura. Assim começa esse texto fundamental: «Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha». Para Pina Martins, a história de “Menina e Moça” é apenas uma novela sentimental. «Há que lê-la e não subentende-la. Há que interpretá-la à luz das categorias do seu tempo e não do nosso…». O romance principia com o monólogo de uma jovem que não conhecemos nem de nome nem de condição, num processo que parece seguir a antiga tradição lírica e lembra as cantigas de amigo. A jovem protagonista queixa-se de uma dolorosa separação e de mudanças que a atiraram para o desterro de um monte solitário, onde está há dois anos. E vai-nos contar o que ocorreu dias antes, estando mergulhada numa solidão sem medida. Viu então a manhã formosa por entre os prados verdejantes do vale, sentando-se debaixo de um freixo, à beira-rio, e então numa ramada vem poisar um rouxinol. A ave canta um triste trinado e cai morta na corrente larga da água, que a arrasta para longe. Aproxima-se então uma mulher idosa e então com ela a jovem inicia uma conversa em torno das desventuras de cada uma. Esta contou-lhe então a maldição daquele lugar, em que dois amigos acabaram mortos à traição, deixando sós as suas amadas. Entra aqui a tradição conhecida dos relatos de amor cavalheiresco, na linha de Amadis de Gaula. Assim se conta a história do cavaleiro Lamentor, chegado de longes terras, acompanhado de duas irmãs, Belisa, dele grávida, e Aónia. Belisa dá à luz Arima, mas morre quando dá à luz. Num momento inesperado e trágico, Lamentor mata um cavaleiro que se dedicava a guardar uma ponte e chega um desconhecido, Binmarder, que se apaixona por Aónia e pela sua extraordinária beleza. Temos, assim, três núcleos do enredo: Lamentor e Belisa, que correspondem ao início do relato, Binmarder e Aónia; e, por fim, Avalor e Arima… Os dois amigos que marcam a tragédia são Binmarder e Avalor e entre os dois há uma geração de permeio, que vai de Aónia a sua sobrinha Arima, órfã de Belisa. Cabe dizer que Aónia e Arima encontram destinos semelhantes; amam e são amadas por homens comprometidos anteriormente com Aquelísia e a Senhora Deserdada. Binmarder e Avalor estão condenados a viver o sofrimento da separação. Aquelísia ama Binmarder que ama Aónia, que por sua vez é obrigada a casar com um vizinho. A Senhora Deserdada ama Avalor que ama Arima. Encontramos, assim, um mundo de amores e desencontros – num romance que termina de modo inesperado com uma dama ultrajada nos seus desejos amorosos a pedir ajuda a Avalor… O amor e o sofrimento estão, assim, sempre presentes. E é a saudade ou soydade que faz Lamentor ficar para sempre ligado à memória de Belisa, como Avalor à esperança de encontrar Arima. A saudade, como lembrança e desejo, surge como expressão do sofrimento e da esperança, alimentados pela separação e pela ânsia de regresso, numa perspetiva religiosa e amorosa, que Pina Martins considera cristã, e que Helder Macedo prefere interpretar à luz da tradição judaica. Bernardim é, assim, um símbolo da tradição do amor saudoso que vem dos trovadores…Com uma ou a outra das influências, a verdade é que Bernardim Ribeiro é, simultaneamente, marcado pela fundo cristão e pela marca judaica. Estamos perante uma cultura diversificada e complexa, que se torna reveladora de uma capacidade para ir ao encontro de realidades diferentes.


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
NINGUÉM QUE NÃO TENHA NOME


1 - A coleção chamava-se "Os Grandes Livros da Humanidade". Julgo que se começou a publicar nos finais dos anos 30 do século passado, ou nos inícios dos anos 40. Editou-a a Livraria Sá da Costa, ao tempo em que também editou os famosos "clássicos" que permitiram o acesso efémero a muito do melhor da nossa literatura e da literatura universal.

Mas Os Grandes Livros da Humanidade eram adaptações dos mais "famosos textos", "destinados a promover nos jovens e no povo o gosto pela cultura". Não sei que resultado tiveram junto do "povo", mas desculpa-se o chavão pela generosidade do propósito. Junto dos jovens, por mim falo. Se aprendi a ler, devo-o, em boa parte, a esses livros brancos de capa a cor que me revelaram, era eu criança, a "Peregrinação e a História Trágico-Marítima", o "Caramuru" e a "Crónica do Condestável". António Sérgio, Aquilino, Jaime Cortesão, João de Barros, Marques Braga, etc. foram os adaptadores. Nem sempre brilhantes, mas quase sempre cativadores. O melhor resultado - sempre falando por mim e por aqueles que de mim herdaram - foi alcançado por João de Barros (que eu ainda conheci, a buscar os netos à escola, baixinho, muito branquinho e de monóculo) com a adaptação da "Odisseia" de Homero, que foi o segundo título da coleção. Na capa, figurava-se Polifemo, o Cíclope medonho, aquele que "não se assemelhava / a quem se alimenta de pão, mas antes ao cume cheio de arvoredos / de uma alta montanha, que à vista se destaca dos outros". Imenso e nu, com um só olho na testa, como todos os da sua estirpe, estava sentado no chão de uma gruta, com as partes vergonhosas convenientemente cobertas e segurava na enorme dextra dois jovens que se preparava para comer. Fosse pela capa (de Martins Barata) fosse pela narrativa do célebre episódio, a história do Cíclope que comeu seis dos dez companheiros de Ulisses foi sempre a que mais me fascinou, de entre as terríficas e maravilhosas aventuras de Ulisses, desde que saiu de Tróia, até que aportou em Ogígia, onde vivia Calipso, a deusa de belas tranças, "deusa terrível de fala humana" que dele cuidou e a ele amou (Cantos IX a XII da "Odisseia").
Muito mais tarde, em adaptação de adaptação, bem ao meu jeito e ao meu modo, contei-a aos meus filhos e aos meus netos, não me temendo de assustá-los com os três banquetes antropófagos e com a minuciosa descrição de como Ulisses cegou o monstro, girando no único olho dele o tronco de oliveira em brasa, até o sangue "correr quente em toda a volta". Entre um e outro festim carnal, tinham rido às gargalhadas, quando eu lhes contava como o astuto Ulisses o enganara no nome, dizendo chamar-se Ninguém. "Ninguém é como me chamo. Ninguém chamam-me / a minha mãe, o meu pai e todos os meus companheiros." Mais riam quando, já cego, Polífemo chamava os irmãos cíclopes em seu socorro. "Quem te mata pelo dolo e pela violência?". "Ó amigos, Ninguém me mata pelo dolo e pela violência". E eles iam-se embora, dizendo estas palavras "apetrechadas de asas". "Se na verdade ninguém te está a fazer mal e estás aí sozinho / não há maneira de fugires à doença que vem de Zeus." Ulisses "ria-se no coração", "porque os enganara o nome e a irrepreensível artimanha". É claro - ou é escuro - que eu reforçava Homero entre os versos 385 e 420 do canto IX (porque é que os cantos nonos são sempre os mais libidinosos, é pergunta para que ainda não achei resposta). Polífemo não se ficava com a seca recusa dos irmãos. Na minha versão, também "destinada a promover nos meus descendentes o gosto pela cultura", sem que eu e eles tivéssemos disso clara consciência, Polífemo insistia: "Não! Não! Não se vão embora! Ninguém me faz mal! Ninguém me mata!" Três vezes o repetia, acentuando desesperadamente o Ninguém maiúsculo. Três vezes os outros o repreendiam. "Se ninguém te faz mal, se ninguém te mata, porque nos importunas a esta hora da noite e nos arrancas ao sono?" Entre a maiúscula e a minúscula, entre o nome definido e o pronome indefinido, Polífemo se perdia para gáudio de várias gerações de benardzinhos.


2 -
 Conheci, pois, a "Odisseia", mesmo se contada às crianças, em mui tenra idade e dei-a conhecer a crianças de igual tenrura. Além de Polífemo, o Cavalo de Tróia, Círce "a das muitas poções mágicas", a ilha das duas sereias, Cíla com as doze pernas, os seis pescoços e as três filas de dentes, a Caríbdis temível, sugadora da água escura, e as "robustas ovelhas do sol", pastoreadas pelas ninfas de belos cabelos, Featusa e Lampécia.

Só no fim da adolescência, entre o Pedro Nunes e os corredores do Convento de Jesus, no meio das voltas de muitos elétricos, me abeirei (Clássicos Sá da Costa) da versão em prosa dos Padres Dias Palmeira e Alves Correia, de que me apartou o português retorcido. Foi nos tempos em que aprendi algum grego e, para meu grande espanto de hoje, juro que a Ana Maria e eu chegámos a traduzir do original os primeiros cem versos do canto I. Mas a plena revelação deu-se com a tradução francesa (em prosa, como a dos padres portugueses) de Mario Meunier, edição da Guide du Livre de Lausanne, que me acompanhou pela vida dentro. Se me lembro do princípio, em francês o recordo: "Quel fut cet homme, Muse, raconte-le moi, cet homme aux milles astuces, qui si longtemps erra, après avoir renversé de Troade la sainte citadelle?" A pouco e pouco, esquecido o português de João de Barros, e ainda mais esquecido o grego dos meus 19 anos e de um explicador diligente e tímido, de quem nem o nome recordo, a "Odisseia" começou a falar-me em francês com um Odisseus de mil astúcias e uma Atena "aux yeux pers", adjetivo que me queriam convencer a traduzir por "glauco", palavra que sempre me pareceu feia, lembrando-me logo horrores de glaucomas. Se sempre esse livro me foi "o livro" (pelo menos tanto quanto A Bíblia), faltou-me sempre, como para A Bíblia me falta, a língua dele. E, nestas coisas, não há volta a dar: ou a língua é a original (e é tarde demais para eu pensar em voltar a aprender grego, de que, néscio, tão cedo me distraí) ou a língua é a minha. Mas, na minha língua, nenhuma "Odisseia" me valia, embora me digam que há uma ou outra de tempos pretéritos e de acesso recôndito que vale a pena consultar.


3 -
 Por isso, o maior acontecimento editorial do ano que acabou há poucos dias foi o lançamento da tradução de Frederico Lourenço, que motivou esta subjetiva digressão, onde todas as passagens citadas entre aspas dele vêm, com a óbvia exceção das autocitações que fiz da minha versão oral para crianças. Publicada pela Cotovia, essa tradução define logo, com clareza e concisão admiráveis, os seus dois objetivos fundamentais: a) colmatar uma lacuna evidente, pois que nenhuma tradução disponível, do original grego e em verso, existia para quem, como eu, procurava uma língua para Homero; b) "Devolver ao leitor de língua portuguesa o prazer do texto homérico. Significa isto que, apesar de vertida do grego e com a máxima fidelidade ao original, não é uma tradução arcaízante nem académica. É uma tradução para ser lida pelo gozo de ler."

Da fidelidade ao original não serei eu, pelas razões que já expliquei, a poder ajuizar. Mas aquela que é unanimemente reconhecida como a nossa maior helenista - falo da Prof. Maria Helena Rocha Pereira, conhecida por ser parca em elogios - já veio a público (creio mesmo que no PÚBLICO) gabar essa fidelidade. Quanto ao "gozo de ler" (e como eu estou agradecido ao Frederico Lourenço por ter tido a coragem de o invocar como objetivo supremo), ele me foi incomparável. Mais ainda quando a leio em voz alta ("além do que é preciso não esquecer que 'A Ilíada' e 'A Odisseia' são textos orais. Não foram concebidos para a leitura. A forma de receção do texto, implícita na própria contextura poética, é a audição") do que quando a leio em voz baixa. Não me sobra espaço para exemplos. Mas, no "verso aparentemente livre", "no fundo apoiado sobre o hexâmetro" e no ritmo dele, que Frederico Lourenço foi buscar a poetas como Sophia, Ruy Belo ou Eugénio de Andrade, soube ele encontrar a "pulsação das sílabas", num português em estado de graça. E, nesse português, contou a história do regresso a Ítaca de Odisseus, o filho de Laertes, aquele que só disse o seu nome e só contou essa sua história, quando o pai de Nausicaa, a das lindas vestes, lhe recordou que "entre os homens não há ninguém que não tenha nome, uma vez que tenha nascido". E com o meu nome vos digo que um dia, quando assentar a poeira e não restar memória dos "light tops" editoriais de 2003, se saberá que o grande livro escrito em língua portuguesa, neste ano da Graça de Deus, foi "A Odisseia", traduzida por Frederico Lourenço, quando Palas Atena nele insuflou a grande força poética.


por João Bénard da Costa
9 de janeiro de 2004, in Público

CHEGARAM OS JACARANDÁS EM FLOR

  
    Portas do Sol, Santarém © C.M. Santarém


Chegaram os jacarandás em flor. A instabilidade meteorológica determina a existência de flores tímidas, mas em breve teremos o que desejamos, a cidade pintada de lilás, com a espécie vinda do Brasil, que Félix de Avelar Brotero  espalhou na cidade de Lisboa, a partir do Jardim Botânico da Ajuda, que o botânico dirigiu na primeira década do século XIX.

Por estes dias, Pedro Canavarro lançou um pequeno livro de poemas, na magnífica casa das Portas do Sol em Santarém, de tantas recordações. “O Infinito à Cabeceira” é um retrato fiel de alguém que tem feito da cultura e dos seus mistérios a sua vida. O património cultural, para ele, não é uma realidade do passado, mas a vida autêntica, num encontro permanente entre quantos constroem a história humana .Como diz o Padre Adelino Ascenso: «O Pedro galgou distâncias, montes e planícies, “de continente em continente”, pois a única coisa que fez foi viver, agora viaja no seu quarto, pelas paredes e “pinturas espalhadas pelo chão”, pelos objetos e pelas fotos que são portos de abrigo, consciente de que é preciso saber viajar…» A viagem no quarto é a que Garrett evoca no início de “Viagens na Minha Terra” – “Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até ao jardim”. E por isso foi no jardim que tudo se passou, depois de termos ouvido o sino, abrindo a sua função. “Ouvir soar as Avé-Marias / dos sinos da minha cidade / é tudo recordar e amar”. O ambiente humano reuniu tudo o necessário. Naquele fim de tarde, ali estavam todos, vidas e memórias. “Na cadeira ‘capitonê’ de dois braços / o avô esperava por mim / A salamandra estava apagada / sobreposta, a estampa no coração aberto de Jesus / Era clássico beijá-lo antes de deitar, / alegrava-se com a aprendizagem do meu inglês…” Ainda hoje, os olhos de Pedro sentem essa alegria. “Viajar no meu quarto é belo / dele saio e entro / na liberdade de ler / tudo posso olhar / tudo posso querer e sonhar / só não posso dele fugir”… É preciso saber viajar, e o que Pedro sempre fez foi ensinar e aprender a viajar. Que é a cultura senão a compreensão dessa constante peregrinação interior? “Olho da minha varanda / tudo vejo / Só não encontro o Infinito / Onde estão os meus pais?”. Essa é a dimensão da memória que nos vai acolhendo sempre. E sempre a mesma pergunta que se repete. Como nos podemos reencontrar?

“Tudo se passou / há tanto, tanto tempo…/ e vivi esse tempo todo / como se fosse o meu tempo. / Hoje, neste novo tempo / ainda sou eu, já sem tempo, / quando ainda olho o tempo, / como se ainda fosse meu”. E olhamos em volta, e ali estão os verdadeiros heróis deste lugar e deste tempo – Almeida Garrett e Passos Manuel. “Plantada de laranjeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e parreiras, aquela pequena cerca, apesar dos muitos canteiros e alegretes de alvenaria com que está moirescamente entulhada, é amena e graciosa à vista”. É a voz de Garrett, ali connosco. E vem a memória antiga, e a lembrança das conversas, do chá, da política, da literatura, de Santarém e do sono regalado do poeta, que acordou  ao repicar incessante e apressurado  dos sinos da Alcáçova. O resto conhecemos de cor e para quem não lembra, corra a ler e a gozar o prazer máximo da melhor palavra. Quando ali estamos, sentimos esse reviver. 


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


214. O NÃO VAZIO DA SOLITUDE


Sendo a solitude a capacidade de escolher estar só, enfrenta o silêncio e dá-nos a oportunidade de meditar, pensar e refletir, compreender os desejos e sentimentos mais íntimos e profundos de cada um de nós. Como estado emocional e psicológico que é, não se limita a um estado físico. Exige autoconhecimento, introspeção e maturidade, para nos reconectarmos com nós mesmos.   

Porque decorrente de uma escolha deliberada, pessoal e voluntária, está associada à alegria de estar só, ao invés da solidão, associada à incapacidade de estar sozinho, cujas manifestações se manifestam pela dor, tristeza, sofrimento e vazio.   

O querer e saber estar só, não implica não estar em contacto com outras pessoas, havendo um equilíbrio e uma interação entre a autoconfiança de estar sozinho e a necessidade social de convivência e contacto com os outros.   

Não há um sentimento de vazio na solitude, dado não ser um isolamento forçado sendo, na sua maioria, um estado de isolamento temporário de que precisamos para permanecermos em repouso e nos afastarmos do impulso geral danoso de asfixiar a nossa angústia numa fuga antropológica para a agitação, o ruído e o não pensar, iludindo-nos perante a mortalidade da nossa condição.     

E há tanto trabalho produtivo e singular que a solitude inspirou e produziu, desde   autores, cientistas e inventores clássicos aos atuais, pensadores como Sócrates, Aristóteles, Marco Aurélio, Montaigne, Nietzsche, Pascal, entre outros, que ficaram intemporalmente universalizados, ao contrário de quem vive tão só uma vida repetitiva, embora carregada de ação, emoção e adrenalina, mas sem capacidade e tempo para parar e pensar estando só.  


23.05.25
Joaquim M. M. Patrício

POESIA

Essa avó das avós


1.
Essa avó


das avós

que carregava o mundo todo

e contava

como se faziam os caramelos

com a nata do leite que sim

podia vir das montanhas

de qualquer coração


2.
Essa avó


das avós

toda de luto no vestir e no sentir

que essa tristeza além de si, o sabia

ter outro além

e sobretudo

quando

rezava o terço

de um lugar distante


3.
Essa avó


das avós

tão luminosa no cuidar

tão tempo de essências

tão caminho à casa

tão significado

em todos os semeares

e nos bordares dos lenços

a ponto-pé-de-amor


4.
Essa avó


das avós

tão mãos de lua, de silêncios e sorrisos

e nos ombros

o desassossego dos sonhos

a perder-se de si e a encontrar-se

quando recriava a luz dos pirilampos

invisíveis


5.
Essa avó


das avós

uma noite, à beira-hora

descansou

carne, terra, mar, instinto, poesia,

bosques, vulcões, recordações, travessias

e logo o voo

do pássaro-andarilho

 

uma outra luz


Teresa Bracinha Vieira

Pág. 1/4