Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
O objetivo de toda a censura é evitar a comunicação e a resposta
Cada vez mais se tem vindo a vender-se como “progresso” a fartura de informações e comunicações.
Propagou-se uma estranha forma de progresso já que o mesmo é apenas o que contém tudo o que promete rápida rentabilidade a todos os níveis.
A euforia tecnológica pressiona só por si, sem tomar em conta as consequências.
É verdade que os acontecimentos se sucedem com uma densidade e frequência crescentes; e também é verdade que a massificação acelerada dos meios de informação provoca fortíssimos estímulos sociais que afetam todas as pessoas.
Porém o desenvolvimento não pode ser medido pela intensidade dos estímulos, mas antes pela adequação e contribuição destes para o aperfeiçoamento de um meio humano mais solidário e livre.
Pelo prisma da comunicação, diga-se, o que caracteriza a sociedade atual é o caos dos significados.
Poucos percebem o que leem, o que ouvem e o que veem e desde há muito que o recetor é utilizado como recipiente.
Quem tem os meios de comunicação, possui a palavra. As imagens determinam as representações e o que se não mostra é como se não existisse.
As sequências televisivas são múltiplas e curtas e apontam ao inconsciente para que não haja tempo para formar o consciente. O objetivo de toda a censura é evitar a comunicação e a resposta.
É trágico, mas a humanidade aparenta uniformizar-se com rapidez.
Todas as histórias de dentaduras são cómicas, e todas as histórias de enterros ameaçam sê-lo. Às dentaduras chama-se por vezes dentes postiços, ou dentes falsos. E naquilo que se enterra há também qualquer coisa postiça ou falsa, como um dente, embora não seja claro o quê, e como.
As dentaduras são falsas em dois sentidos: são uma imitação de dentes; e são dentes obtidos por meios por assim dizer extra-regulamentares, por meios não-orgânicos. Um rim congénito é insusceptível de provocar o riso. Um rim transplantado será cómico apenas em caso de rejeição, mas em todo o caso menos cómico que uma dentadura. Depois a escala volta a descrescer suavemente: cabeleiras, guarda-chuvas e óculos.
As histórias de dentaduras são quase todas sobre dentaduras que se soltam do sítio onde foram fixadas: cuspidas, engolidas, roubadas ou perdidas. A falsidade de uma dentadura é exposta sempre que sai do seu lugar; desse ponto de vista a satisfação cómica que sentimos é uma satisfação praticamente moral; a falsidade e a impostura dos costumes do século são expostas sempre que acontece qualquer coisa à dentadura dos outros.
O caso dos enterros parece à primeira vista muito diferente. O elemento essencial de um enterro é um corpo humano inanimado ou morto. Em nenhum caso se pode dizer que um corpo inanimado seja um falso corpo; da mesma maneira que um carro que não funciona não deixa de ser um carro, assim um corpo morto é ainda um corpo genuíno, a que acontece estar inanimado. Um corpo morto não é de modo algum um falso corpo vivo.
A comédia das dentaduras tem a ver com imitação. Será um corpo morto imitação de alguma coisa? Há razões para pensar que um corpo humano morto é a imitação de uma pessoa, e nessa medida uma falsa pessoa (a diferença entre um corpo e uma pessoa é que todas as pessoas estão vivas, mas nem todos os corpos estão mortos). Bem entendido, a palavra ‘imitação’ está aqui a ser usada de modo exagerado, como fazem os filósofos. Enquanto um dente falso foi feito deliberadamente para passar por dente verdadeiro, um corpo morto não foi feito para passar por uma pessoa verdadeira; e aliás não foi sequer feito. Um corpo morto é no entanto uma falsa pessoa no sentido em que se parece com uma pessoa, mas lhe falta qualquer coisa. Ao longe pode enganar.
Embora seja normalmente razoável e justificado associar corpos a pessoas, com o tempo acabamos por perceber que existem excepções, nomeadamente no caso dos corpos humanos mortos; e acabamos por perceber que o que vai a enterrar não é uma pessoa: falta-lhe qualquer coisa. As histórias cómicas sobre enterros são as histórias sobre o momento do enterro em que alguém percebe que afinal não se está a enterrar ninguém. É por essa razão que as histórias sérias sobre enterros são histórias sobre túmulos vazios.
Miguel Tamen Escreve de acordo com a antiga ortografia
Como habitualmente, o Centro Nacional de Cultura escolhe os melhores livros para este Verão.
Boas férias – e que nunca faltem boas leituras!
ROMANCE E CONTO
“Cruzeiros de Inverno” de Mário Cláudio
Edição: Dom Quixote
Que terão em comum um jovem músico a quem pedem o impensável, uma ilustradora que reclama um papel que não terá – nem como artista, nem como amante – e um ministro eternamente noivo que é humilhado publicamente por actos vergonhosos? Talvez apenas uma viagem, e o lugar obscuro aonde todos irão parar na sequência daquilo a que Balzac chamou um “poema sublime de melancolia”. “A Gôndola Negra”, “Menina Sentada” e “Os Cães de Hécate” são novelas curtas que compõem, muito ao gosto do autor, mais um tríptico notável, no qual acompanharemos as vidas necessariamente curtas e problemáticas de três personagens reais – Carlos Relvas, Ofélia Marques e José Corrêa d’Oliveira -, bem como o quotidiano dos que, graças à capacidade ficcional do autor, desenterram para nós as suas histórias, como a jornalista histérica em busca de mais um escândalo, o coleccionador obcecado em expor a obra da artista que conheceu nos livros da infância, ou um par de investigadores da Judiciária especialmente interessados em desvendar uma série de atentados ao pudor. Esta é uma obra de que emanam o humor e a verve que só Mário Cláudio – um dos mais consagrados escritores portugueses – consegue resgatar a percursos de vida tão singulares e tão pouco conhecidos dos leitores.
“Livro da Doença” de Djaimilia Pereira de Almeida Edição: Relógio d’Água
“No momento em que morreu, Joaquim escrevia um livro que nunca me mostrou. Meu pai, meu estranho. Ouvi falar da sua obra inacabada desde criança. Onde guardar a dança da mão direita do escritor, enquanto projectou o romance, toda a vida adulta, o pontilhado de gestos abortados, os rascunhos fantasma, tentativas, planos, ou seriam sonhos, a energia despendida, o fogo de que irradiavam ideias que jamais viram a luz? O que restou foi o vazio. Mas talvez o vazio seja um lugar — uma cidade — repleto de avenidas.”
Livro composto de vários livros, finais e andamentos, Livro da Doença tem na sombra um livro inacabado e nunca lido por Djaimilia Pereira de Almeida, à volta do qual se constitui uma elegia pelas várias mortes e nascimentos da imaginação.
“A Nuvem no Olhar” de João de Melo
Edição: Dom Quixote
Nos 50 anos de vida literária de João de Melo, um livro de contos que muito bem ilustra a sua mestria. A Nuvem no Olhar reúne dez histórias bastante distintas entre si, onde nos são propostas diversas abordagens de cariz social que não se limitam a expor críticas a usos e costumes, antes refletem sobre as ideologias e mentalidades que lhes estão subjacentes. Nelas encontramos relações intrafamiliares, caricaturas de políticos, quadros do quotidiano docente e da intelectualidade em geral, ou a simples história da viagem de um casal, em lua de mel, às nove ilhas açorianas, apresentadas como revelação essencial. De salientar «O Tríptico dos Barcos», o conto mais longo deste livro – podendo mesmo considerar-se uma novela curta –, que nos dá a perspetiva de três elementos de uma família lisboeta sobre o fim do nosso ciclo colonial africano e o evoluir do processo português posterior à descolonização. No ano em que comemora cinquenta anos de vida literária, a intenção do autor ao reunir aqui estas histórias foi a de disponibilizar uma autoantologia das suas ficções curtas, duas delas ainda inéditas em livro, e as demais escolhidas dos dois primeiros volumes de contos que publicou, mas todas reescritas com o propósito de estabelecer a sua edição definitiva. Esta que o leitor tem agora em mãos.
“Pés de Barro” – Prémio Leya 2024, de Nuno Duarte Edição: Leya
Estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria. É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos. Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis – entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler –, Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido.
“Levarei o Fogo Comigo” de Leila Slimani Edição: Alfaguara
Mia e Inès formam a terceira geração da família Belhaj, que conhecemos nas páginas de O país dos outros. Nasceram em Marrocos, na década de 1980, num país dividido entre o desejo de modernidade e o medo de perder a alma e as tradições. É todo um novo mundo, e as duas irmãs terão de encontrar nele o seu lugar, cada uma à sua maneira, na solidão ou no exílio, no excesso ou na contenção, enfrentando o preconceito e o desprezo enquanto abraçam todas as promessas. O fôlego que as move é a ânsia de liberdade, que tem as suas raízes nas mulheres cujo sangue lhes corre nas veias: a avó Mathilde, a mãe Aïcha e a tia Selma. É nessa busca pela liberdade que Mia parte para Paris, levando consigo o fogo e a escrita. Caberá a Mia contar a história do seu povo. Levarei o Fogo Comigo completa um tríptico magistral, retrato dos heróis e heroínas deste e de outros tempos. Uma saga inspirada na família da escritora, eivada de um impressionante vigor poético, que chega ao fim, mas permanecerá com os milhões de leitores que se apaixonaram por estas vidas.
“Viver Com os Outros” de Isabel da Nóbrega Edição: Dom Quixote
Primeiro romance de Isabel da Nóbrega, distinguido com o Prémio Camilo Castelo Branco em 1964. “Toda a crítica foi unânime em considerar este livro um dos mais notáveis e originais da moderna literatura portuguesa”.
“Léah e outras Histórias” de José Rodrigues Miguéis Edição: Assírio e Alvim
Léah e Outras Histórias (1958), provavelmente o mais querido e conhecido livro de José Rodrigues Miguéis, dá-nos a síntese perfeita da vida e da obra deste autor. Dez retratos ambulantes, por entre a Beira Interior, Lisboa e a sua província, Nova Iorque, Bruxelas, ou algures num misterioso país europeu tomado pela autoritarite no ar dos tempos. Dez viagens de partida e chegada às memórias de um amor perdido ou preterido pelo dinheiro, às guerras de faca e alguidar camilianas, ao estudo sociológico das gentes da capital, das passeatas da burguesia regadas a vinho e petiscos, das aventuras de espiões ou das grandes recordações no exílio, aterrando por fim nesse nervo do passado como relíquia que é a Av. Almirante Reis: «Quem quiser saber a história toda deste sítio não tem senão que vir bater à minha porta.» Entremos, pois, neste universo de pura imaginação.
“Vento nos Olhos” de Jacinto Lucas Pires Edição: Porto Editora
O vento deita abaixo uma árvore na Ribeira Lima e isso faz começar uma história. Xavier é um artista plástico que se põe a investigar o vento. Conhece Lydia, uma historiadora de arte interessada em escultura, e a sua vida complica-se alegremente. Maria, a ex-mulher de Xavier, é uma atriz em busca de si própria. E a filha dos dois, Luz, quer nada mais nada menos do que resolver o mundo. Neste tempo da pós-verdade, qual o lugar da criação artística? Num mundo cada vez mais literal, ainda há espaço para o espírito? Mas o romance também traz o seu contrarromance. Dimas, um heterónimo do autor, entra na história à procura do famigerado sucesso. Invejoso, busca formas de sugar o ortónimo e acaba a sabotar o livro: liberta as personagens secundárias, apodera-se de referências alheias, rouba páginas para se safar, baralha os registos da narração. Noutro plano, esta história de histórias – que vai da Ribeira Lima a Berlim, do Porto a Madrid, de Bruxelas a Heidelberg, de Lisboa a Lublin – constitui uma pergunta europeia, num tempo de divisões e guerra. Este é um romance sobre o tempo, em diferentes sentidos. Aqui há morte e nascimento, aprendizagem e mistério, e restaurantes, autoestradas, desenhos animados, música, citações, recortes de realidade, política.
POESIA
“Livro de Caligrafia” de Nuno Júdice Edição: Dom Quixote
Um livro de poesia inédito encontrado no espólio do autor e que se reproduz numa bonita edição que inclui o fac-símile do original. «Nuno Júdice era um ávido consumidor de cadernos, tantas vezes comprados em museus, outra das suas paixões. Estes cadernos ora eram preenchidos compulsivamente quando tinha uma ideia ou conceito a desenvolver, ora com um único poema, como se desejasse anotar aquilo que simplesmente pensara, como se desse pequeno texto pudessem magicamente nascer outros poemas e outras ideias. Logo após a morte de Nuno Júdice, numa das minhas primeiras visitas ao seu acervo de inéditos, apareceu-nos um caderno de capa de couro no meio de tantos outros, que pela primeira vez tivemos oportunidade de folhear com mais atenção. Tratava-se de um nobre caderno de 30 folhas cosidas, num papel branco cru de gramagem alta, em cuja primeira página constava, num jogo a três cores: Livro de Caligrafia.» (Ricardo Marques, responsável pela edição deste livro)
“Meditação Sobre Ruínas” de Nuno Júdice Edição: Dom Quixote
«Meditação sobre Ruínas é um livro que nasce da ida de Nuno Júdice às terras romenas onde Ovídio foi exilado. Nesse ponto extremo da Europa, o poeta português viu o que significava ser estrangeiro, meditou no ponto Euxino, como o poeta romano, sobre os temas eternos do amor e da morte, e escreveu alguns dos seus poemas mais emblemáticos como “Receita para Fazer o Azul”. Trata-se, portanto, de um livro polifónico eivado de melancolia, em que o poeta mistura epitáfios e fantasmas de vários tempos e geografias, onde através da palavra poética se tecem elegias e se enumeram ausências, refletindo-se sobre o próprio fenómeno poético, um dos seus temas fundamentais. «Ontem, como hoje, esta obra é uma premente meditação sobre as ruínas da civilização ocidental, sendo por isso considerado como um dos livros mais europeus de Nuno Júdice e um dos preferidos da crítica e dos leitores, tendo-lhe sido atribuído o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1995.» (Ricardo Marques)
“Cinquenta Cinquenta” de Pedro Mexia
Edição: Tinta da China
Aos cinquenta anos, cinquenta poemas, todos inéditos: ideias e coisas, aquilo que se perdeu, aquilo que já não virá, valor e nulidade, finitude e tragicomédia.
TURBULÊNCIA Bem-vindo à meia-idade. Por favor, tenha em atenção que meia-idade é eufemismo, e a sua média esperança vai a dois terços, se for saudável. A da vida, digo, a outra é um mito, como o avião cair devido à turbulência. A companhia detém informações que tornam desnecessário dar-lhe as boas-vindas à turbulência. A tripulação pode garantir, dentro das expectativas, que esta aeronave não se vai despenhar. De si não diremos o mesmo.
“Mapa dos Amores Incompletos” de Rosa Alice Branco
Edição: Assírio e Alvim
Celebrando 40 anos de atividade literária e depois de 14 títulos de poesia, aqui se reúne a poesia de Rosa Alice Branco. A autora convida-nos assim a ler a sua poesia começando no livro mais recente (2025, inédito) e recuando até ao início (1988), uma viagem às arrecuas que permite ler a obra como um contínuo sempre atualizado. A edição conta ainda com um posfácio de Valter Hugo Mãe, primeiro editor a reunir a obra da poeta em Soletrar o Dia (2002).
“Objetos Principais” de António Franco Alexandre
Edição: Assírio e Alvim
Pela primeira vez publicado em 1979, pela editora Centelha, “Os Objectos Principais” é talvez a melhor porta de entrada na obra de António Franco Alexandre, um livro que vincaria ainda mais a mudança que a sua obra fazia na poesia da década de 70. Quem conseguirá esquecer estes versos de entrada, depois de os ler pela primeira vez: «poderemos, um dia, amar estas vitrinas / como quem ama uma ideia imperdoável, ou uma / breve hesitação dos condutores / a meio do percurso? […]». Esta edição conta ainda com um prefácio de Joana Matos Frias.
MEMÓRIAS E BIOGRAFIAS
“Nos Passos de José Rodrigues Miguéis – Uma Biografia como um Romance” de Teresa Martins Marques
Edição: Âncora
Nos Passos de José Rodrigues Miguéis é uma biografia escrita como um romance, através de diálogos entre o escritor e a cientista Maria de Sousa, sua grande amiga e confidente, assentando no processo narrativo monologal, em forma diarística encenada de José Rodrigues Miguéis, e dialogal, em entrevista imaginária de Maria de Sousa ao escritor, temporalmente situada entre 25 de Abril de 1979 e 27 de Outubro de 1980, dia da sua morte. Foram compulsados e citados numerosos fragmentos, de cartas inéditas de Miguéis a intelectuais e amigos. São igualmente citados excertos de crónicas, paratextos e aforismos, bem como excertos de cariz autobiográfico da sua obra ficcional. As 986 notas deste livro esclarecem a origem e veracidade de quanto aqui se narra. O leitor ficará a conhecer uma vida repartida por várias geografias e ambientes desde Lisboa de princípio do século XX até Bruxelas nos anos 30 e Nova Iorque dos anos 30 até aos anos 80. Foca-se não apenas a sua agitada vida privada, mas também a intervenção pública, na Seara Nova e no Núcleo de Ressurgimento Nacional, e também a recolha de fundos durante a Guerra Civil de Espanha. Analisam-se as principais obras migueisianas com rigor científico, mas sem opacidades, tornando este livro útil a especialistas, nomeadamente pelo exaustivo levantamento bibliográfico, mas também ao leitor comum. Na Postumografia descrevem-se actividades ligadas à obra migueisiana, depois de 1980, bem como as vicissitudes da sua herança literária.
“Uma Vida Fora de Moda” de António de Sousa Homem Edição: Porto Editora
Não ficar velho, não ficar doente, não ficar pobre – creio não ter cumprido nenhum dos conselhos. Fui velho demasiado cedo, quando podia ter aproveitado a saúde de que então gozava para atravessar o mundo e regressar incólume, tendo vivido aventuras. Adoeci de maleitas vulgares e, de acordo com a tradição familiar, pouco aristocratas – coisa de fidalgo, sim, mas rural, de botas e chapéu de aba minhota, com uma certa inclinação por mistérios pastoris, ervas nos muros, passaritos nas arribas, mimosas nas estradas de Vieira do Minho ou Melgaço. Um certo temperamento hipocondríaco fez de mim um amigo dedicado dos médicos. Só não fiquei pobre porque os hábitos dos Homem são anteriores à Regeneração ou aos liberais da Foz, bem como à Democracia, resultando de pequenos-almoços de torradas e café de cevada, de uma despensa precavida, e de um ascetismo sem rigor mas com certo gosto pela ordem natural das coisas: os casacos de tweed, as camisolas de lã, as gravatas da Camisaria Gomes, o arroz de pato da Tia Henriqueta, um carro usado durante muitos anos, um guarda-chuva antigo, uma gabardina que foi ao Brasil e voltou, livros velhos, sobremesas simples, uma caneta de tinta permanente, a caixa dos lápis, a cozinha quase sem sal de Dona Elaine, a dedicada governanta deste eremitério de Moledo – enfim, uma vida fora de moda. Isto não faz uma biografia, certamente, nem um modo de vida, mas é um resumo.
“Cartas sobre o Comércio dos Livros” de Denis Diderot
Edição: Assírio e Alvim
Escrito a pedido de uma guilda de editores parisienses contra as tenazes apertadas do Estado em desfavor da promoção da cultura, o grande filósofo iluminista Denis Diderot deixou-nos esta bela defesa do livro, dos livreiros e da importância de uma comunidade de leitores robusta.
“Dicionário da Geração de 70” de Ana Maria Almeida Martins, Guilherme d’Oliveira Martins, Manuela Rego
Edição: INCM e Presença
“O presente Dicionário, juntando os melhores estudiosos sobre o laborioso conjunto de personalidades de exceção que constituíram este escol de 1870, resulta de um trabalho exaustivo de cerca de duas décadas e pretende dar uma visão de conjunto capaz de demonstrar a importância crucial de quem prosseguiu a herança de Garrett e Herculano e legou ao Portugal do século xx condições para se modernizar e viver ao ritmo da Europa moderna, aprofundando, de forma aberta, as suas raízes históricas.» – Dos Coordenadores «A Geração de 70 é, pois, um fenómeno novo e a esse título nunca mais se repetiu em Portugal. Poetas, futuros homens de letras, romancistas, mais tarde historiadores, tiveram o sentimento de que o momento que lhes cabia de entrada na vida era um momento histórico que tinha uma especificidade e que eles definiam por um encontro entre uma vocação de ordem literária ou cultural e uma contingência histórica. É um fenómeno impressionante, porque não são políticos, no sentido próprio do termo, são verdadeiros filhos de um momento de rutura política que tinha começado na Europa em 1848 e que rapidamente se esquerdiza, tomando formas extremistas e dando nascimento a uma nova ideologia que a si mesmo se batiza como Socialismo.» – De Eduardo Lourenço
“Ir a Havana” de Leonardo Padura
Edição: Porto Editora
Nas suas histórias, os bons romancistas contam sempre com uma personagem que acaba por ter tanta importância quanto o protagonista: o espaço onde a ação acontece. Por isso, não há melhor guia para conhecer Havana do que Leonardo Padura, o autor que nunca deixou de a retratar em diferentes períodos e em cada um dos seus romances. Mas Ir a Havana é mais do que um livro sobre uma cidade. Sendo ela parte fundamental da identidade do escritor, muito do que tem sido a sua vida invade estas páginas. Assim, de Mantilla – onde nasceu – aos mais diversos recantos da capital cubana, o passeio complementa-se com as experiências do escritor, fotografias, histórias surpreendentes, e, como não podia deixar de ser, com os fragmentos dos seus romances que deram nova vida a estes espaços. Uma leitura incontornável para todos os que se têm deliciado com os casos investigados por Mario Conde ou com o passado evocado em tantos romances de Padura, com quem aprendemos a sentir esta cidade e a viajar nas suas memórias.
ENSAIO
“Gaza está em toda a Parte” de Alexandra Lucas Coelho
Edição: Caminho
“Este livro reúne reportagens, crónicas, alguns textos nunca publicados e 148 fotografias a cores, quase todas inéditas. Ao começar a organizá-lo fui em busca da revista com a última ida a Gaza. Tinha pensado talvez pô-la em anexo, já que o livro seria pós-7 de Outubro de 2023 e a reportagem era seis anos anterior. Mas quando a li, do título à última linha, parecia a véspera do 7 de Outubro. Nunca estivera online, não circulara. E dias depois achei na nuvem as 282 fotografias dessa última ida. Não podia ser um anexo. Então é assim que o livro abre, dentro de Gaza, onde os jornalistas do mundo estão impedidos de entrar desde 7 de Outubro: primeiro a reportagem, depois uma sequência de 37 imagens. Seguem-se os textos pós-7 de Outubro, sempre por ordem cronológica. A parte II — reportagens na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e em Israel — também fecha com imagens: uma série de 111 (de entre as mais de 4000 que fiz lá entre fins de 2023, início de 2024). Todas as fotografias estão legendadas no fim. Editei os textos para limpar repetições fastidiosas de contexto e coisas toscas de escrever em cima da actualidade, até ao limite em que o jornal tinha de ir para a gráfica. Acrescentei notas de rodapé com actualizações, referências, fontes. A data por cima dos títulos é a da publicação (no caso de um texto ter ficado online antes do papel, conta essa data). As origens dos textos estão indicadas. Há quatro mapas, o primeiro na Introdução, os restantes na parte II. A história que leva ao 7 de Outubro remonta ao século XIX. Escrevi sobre partes dela em três livros anteriores (Oriente Próximo; E a Noite Roda; Líbano, Labirinto). Todos os outros textos sobre Israel/Palestina desde 2002 continuam por compilar. Este é um livro pós-7 de Outubro, com a excepção dessa última ida a Gaza.” A.L.C., Março de 2025
“Cabo Verde – Ilhas Crioulas” de Manuel Brito-Semedo
Edição: Rosa de Porcelana
Este livro de Manuel Brito-Semedo centra a atenção do leitor no inegável caráter crioulo da sociedade cabo-verdiana, começando logo no título. O autor destaca o papel constitutivo da miscigenação (entre europeus e africanos, e entre africanos de diferentes etnias) típica da identidade cabo-verdiana. Todo o livro está organizado em torno da espinha dorsal da crioulidade. E embora não estejam formalmente separadas, no tratamento deste tema podem ser distinguidas duas partes, diferenciadas pelas perspetivas adotadas. A primeira metade do texto oferece-nos uma visão histórica e espacial do processo de crioulização, enquanto na segunda metade encontramos uma análise sociocultural detalhada do imaginário insular e das suas manifestações mais relevantes.
“Igualdade – O Que É e Porque É Tão Importante” de Thomas Piketti e Michael Sandel
Edição: Presença
Num diálogo fascinante, dois dos mais influentes pensadores mundiais da atualidade refletem sobre o valor da igualdade e debatem sobre o que cidadãos e governos devem fazer para diminuir o que nos separa. Da economia à filosofia, passando pela história e pela política, Piketty e Sandel analisam o que já fizemos para alcançar a igualdade mas, ao mesmo tempo, identificam e discutem, sem rodeios, o que ainda – e é tanto – nos divide, ao nível da riqueza, do rendimento, do poder e do status de cada país, numa perspetiva global. Que podemos fazer, neste tempo de grande instabilidade política e crise ambiental Piketty e Sandel estão de acordo em muitos pontos: investimento mais inclusivo na saúde e na educação e regulamentação do poder político dos mais ricos e dos mercados, por exemplo. Não obstante, até onde e quão rápido o podemos fazer? Devemos dar prioridade ao lado material ou à mudança social? Que horizonte de mudança podemos ter, quando as forças nacionalistas estão a ganhar, novamente, terreno? Como deve a esquerda abordar valores como o patriotismo ou a solidariedade entre cidadãos da mesma nacionalidade, quando colidem com os desafios da migração em massa e as alterações climáticas? Ler este livro e assistir ao debate entre Piketty e Sandel é ver novas possibilidades de mudança e justiça, mas é também encarar uma imutável verdade: progredir em direção a mais igualdade nunca é possível sem profundos conflitos sociais e acesa luta política.
“Todas as Noites Sonho com um País Diferente” de Nicolai Gumiliov
Edição: Assírio e Alvim
Inédito em Portugal, publica-se agora a prosa reunida de Nikolái Gumilióv, uma peça fundamental para entender a chamada Geração de Prata (com Anna Akhmátova, sua mulher, Óssip Mandelstam, Boris Pasternak ou Marina Tsvetáeva). São textos de ficção curtos, delirantes, monstruosos, cheios de aventura, lirismo e peripécias cavaleirescas. Mas também existem textos pessoais de testemunho da guerra, de investigações ocultistas, arqueológicas ou de um fascínio imenso por África. Aqui, encontramos uma fonte inesgotável do folclore, das ambições imperiais e da multiversidade étnica que constroem esse país-continente que é a Rússia. A competentíssima tradução ficou a cargo de Larissa Shotropa e João Maria Lourenço.
Porque nos tribunais portugueses decorre um processo por causa de um vídeo humorístico, ouso voltar ao tema em epígrafe, mesmo correndo o risco de aqui e ali me repetir.
Sobre Deus que sabemos nós? Ele é infinito e está para lá de tudo o que possamos pensar ou dizer. O que sabemos dEle sabemo-lo sobretudo através de Jesus, a sua imagem no mundo.
Através de Jesus, sabemos que Deus é, como se lê na Primeira Carta de São João, Agapê: Amor incondicional. Mas o Evangelho segundo São João também diz que Deus é Logos: Razão, Inteligência e que tudo foi criado pelo Logos. Por isso, Deus tem sentido de humor, pois o humor é sinal de inteligência. Não é o humor fino revelador de uma inteligência fina? Mas o que estamos a dizer, quando dizemos isto acerca de Deus?
Logo no primeiro livro da Bíblia, o Génesis, há uma passo belíssimo em conexão com o riso. “O Senhor apareceu a Abraão quando ele estava sentado à porta da sua tenda”, sob a figura de três homens. ‘Onde está Sara, tua mulher?’ Ele respondeu: ‘Está aqui na tenda. Um deles disse: Passarei novamente pela tua casa dentro de um ano, nesta mesma época, e Sara, tua mulher, terá já um filho’. Ora, Sara estava a escutar à entrada da tenda. Abraão e Sara eram já velhos, e Sara já não estava em idade de ter filhos. Sara riu-se consigo mesma e pensou: ‘Velha como estou, poderei ainda ter esta alegria, sendo também velho o meu senhor?’.” O que é facto é que “o Senhor visitou Sara, como lhe tinha dito, e realizou nela o que lhe prometera. Sara concebeu e, na data marcada por Deus, deu um filho a Abraão, quando este era já velho. Ao filho que lhe nasceu de Sara deu Abraão o nome de Isaac. Abraão tinha cem anos quando nasceu Isaac, seu filho. Sara disse: Deus concedeu-me uma alegria, e todos quantos o souberem alegrar-se-ão comigo.”
Há aqui dois tipos de riso: Sara ri-se para dentro: como é possível, velha, ter um filho? Mas ao filho é dado o nome de Isaac, que, em hebraico, quer dizer “riso”, sendo aqui o riso um riso intenso de alegria: Isaac também quer dizer “aquele que traz alegria”.
De Jesus diz-nos o Evangelho que chorou: chorou pela morte do seu amigo Lázaro, também sobre Jerusalém. Não se diz que riu. Mas já Santo Tomás de Aquino observou que é evidente que Jesus riu. A prova: Jesus é homem e rir é característica essencial do ser humano. Jesus participou em festas de casamento e alguém imagina uma festa de casamento sem risos, sem piadas festivas? O Evangelho testemunha que Jesus experienciou o melhor sentimento face à vida e ao seu milagre: o do maravilhamento e do contentamento.
O humor e o riso, repito, são um sinal evidente de inteligência, desdramatizam a vida, permitem viver de modo sadio consigo próprio, fazem bem à saúde, abrem transcendências. A Igreja está, ou deveria estar, atravessada pelo bom humor, porque “um santo triste é um triste santo”. E há piadas fatais. Lá está o dito famoso: “ridendo castigat mores”: a rir castiga-se e corrige-se os costumes. Gil Vicente foi exemplar nisso. Digo: ai da Igreja e dos crentes sem a crítica mordaz, ácida, pela palavra e pela caricatura! O que não se pode é cair na boçalidade, pois esta apenas significa falta de inteligência. O riso também cura a vaidade oca: “Mesmo no mais alto trono do mundo, está-se sentado sobre o cu”, escreveu Montaigne. Umberto Eco, o inesquecível autor de O nome da rosa, esse desabafou: “Aprendi que o riso é a única forma de lidar com a absurdidade da existência”.
Na Idade Média, realizava-se a chamada Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Pegava-se num subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de bispo, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “e Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.” Chamada a pronunciar-se, a Faculdade de Teologia de Paris, justificou-a com a necessidade de dar expansão à crítica, voltando depois a ordem.
A propósito da força crítica da piada e da caricatura, fica aí esta sobre o Vaticano e todo aquele luxo, que blasfema do Evangelho de Jesus, no fausto de uma procissão com cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores... Veio São Pedro à janela do Céu e viu aquilo e, estarrecido, chamou Jesus, que olhou e apenas comentou: “E pensarmos nós, Pedro, que começámos aquilo, entrando eu de burro em Jerusalém onde fui crucificado... Lembras-te?” Por isso, respondi uma vez a uma jornalista: “Não. Jesus não entraria no Vaticano, porque não o deixariam entrar.”
Francisco socorria-se também do bom humor, e todos os dias rezava a Oração do bom humor, oração atribuída a São Tomás Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo. Francisco recomendou-a também aos membros da Cúria Romana, onde tinha tantos adversários e até inimigos, a quem falta o bom humor divino: “Dá-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir./ Dá-me um corpo saudável e o bom humor necessário para mantê-lo./Dá-me uma alma simples que sabe valorizar tudo o que é bom/ e que não se amedronta facilmente diante do mal, /mas, pelo contrário, encontra os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar./ Concede-me, Senhor, uma alma/ que não conhece o tédio,/ os resmungos,/ os suspiros/ e as lamentações,/ nem os excessos de stress por causa desse estorvo chamado ‘Eu’./ Dá-me, Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder partilhá-la com os outros./ Ámen.”
Em Junho de 2024, Francisco fez questão de encontrar-se com mais de 100 humoristas de todo o mundo, incluindo os portugueses Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques e Maria Rueff, afirmando que é “importante fazer rir os outros, pois isso pode ajudar as pessoas...” “É possível rir também de Deus? É claro que sim, isto não é blasfémia, assim como brincamos e fazemos piadas com as pessoas que amamos. A tradição sapiencial e literária hebraica é mestra nisso. Pode ser feito, mas sem ofender os sentimentos religiosos dos fiéis, especialmente dos pobres.” Pessoalmente, acrescento: afinal, não é de Deus que rimos, mas das nossas imagens de Deus, tantas vezes ridículas (a palavra ridículo vem do latim ridere (rir) e quer dizer precisamente o que provoca riso).
Fiquei encantado, quando li Francisco a dizer que, no caso de alguém se sentir numa situação de algum abatimento, fizesse como ele: caretas frente ao espelho... Estou convicto de que isso lhe aconteceu várias vezes, para poder superar tantos dissabores por causa dos seus adversários e até inimigos no Vaticano e não só, como ficou dito...
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 26 de Julho de 2025
Assinalamos hoje a atualidade da Música Popular Portuguesa, através da evocação de Sérgio Godinho.
Nos anos sessenta e setenta do século XX a música popular portuguesa de intervenção foi buscar as suas raízes à tradição trovadoresca, bem como ao Cancioneiro Geral e a Camões. Houve, assim, uma confluência de fatores que se enriqueceu graças ao aguilhão crítico de um tempo que anunciava transformações e a necessidade da liberdade. O programa Zip Zip, de Raul Sonado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia, foi um sinal positivo que valeu em si muito mais pela distensão e abertura que representou do que outras tentativas de índole política que não se concretizaram, bloqueadas pelas hesitações marcelistas. O caso português no campo artístico prestava-se especialmente, até pela situação colonial, reconhecendo a importância cultural do escárnio e maldizer, bem como do picaresco, como reconheceu António Tabucchi, em complemento do lírico e do trágico-marítimo. A censura, explícita e implícita, constituiu um alerta mobilizador que não impediu o estabelecimento de um clima de preparação democrática, apesar da radicalização do final do consulado de Marcelo Caetano.
O caso de Sérgio Godinho, poeta e cantor, nascido no Porto no ano do fim da Guerra é significativo. Originário de uma família de melómanos, com apenas 20 anos de idade, deixou a licenciatura em Economia e partiu para a Europa. Na Suíça, estou psicologia e pedagogia e foi aluno de Jean Piaget. Partindo depois para França, viveu os acontecimentos de Maio de 1968 e integrou a produção francesa do musical “Hair”, onde esteve dois anos. É desse tempo o conhecimento de outros músicos portugueses, como Luís Cília e José Mário Branco. Em 1971 fez “Os Sobreviventes”, proibido três dias após a sua edição. Apesar de proibido, o disco foi eleito «Melhor disco do ano» e obteve o prémio da Imprensa para «Melhor autor do ano». Em 1972 é o tempo de “Pré-histórias”, onde se inclui o célebre tema de “A noite passada”, colaborando com José Mário Branco no álbum “Margem de Certa Maneira”. Em 1973, já no Canadá, onde se casa com Sheila Charlesworth, sua colega na companhia “The Living Theatre”, integra-se na Comunidade hippie de Vancouver, onde toma conhecimento da Revolução portuguesa. Já em Portugal, em plena Revolução, edita “À Queima Roupa”, um grande sucesso de vendas e de popularidade. “Com um brilhozinho Nos olhos”, “O primeiro dia” e “É terça-feira” tornam-se verdeiros hinos de Abril. O cantautor torna-se participante e protagonista da nova filmografia, como na banda sonora de “A Confederação” de Luís Galvão Telles ou na canção-tema do filme de José Fonseca e Costa “Os Demónios de Alcácer”, onde intervém como ator e cujo tema é incluído no álbum “De pequenino se torce o destino” (1976). A banda sonora do filme de Fernando Lopes “Nós por Cá Todos Bem” inclui relevante participação de Sérgio Godinho (1977). O quinto álbum “Pano-cru” foi editado no ano seguinte e em 1979 sai “Campolide”, que viria a ser premiado como o melhor álbum de música portuguesa desse ano.
Em 1980, volta a colaborar com José Fonseca e Costa no clássico “Kilas, o Mau da Fita”, obra referencial do pós-revolução. “Canto da Boca” foi também editado nesse ano, tendo recebido o prémio de "Melhor disco português do ano" da Casa da Imprensa, além do Sete de Ouro para o "Melhor cantor português do ano". Em 1983, “Coincidências” realiza uma parceria de Sérgio com Chico Buarque de Holanda, Ivan Lins e Milton Nascimento. Seguem-se “Salão de Festas”, “Na Vida Real” e “Aos Amores”, além de “Era uma vez um Rapaz” e do álbum infantil “Sérgio Godinho canta co os Amigos de Gaspar” (1988). Em 1990, o Instituto Franco-Português apresenta “Sérgio Godinho Escritor de Canções”, de que sairá um Álbum ao vivo. Na RTP 2 apresentam-se no Verão de 1991 seis programas com algumas das profissões menos conhecidas do mundo da música: letristas, instrumentistas, encenadores, técnicos de som e produtores. Em 1992, realizou três filmes de ficção, com o título genérico “Ultimactos”,produzidos para a RTP (1994). Escreveu ainda “O Pequeno Livro dos Medos”, para crianças, que ilustrou. São de 1993 o disco “Tinta Permanente” e o espetáculo “A Face Visível”.
Em 2013, Sérgio Godinho gravou o disco Caríssimas Canções que resultou de uma série de crónicas feitas para o “Expresso”, editadas em livro. 2014 foi ainda o ano de "Liberdade ao Vivo" e do livro de contos "Vidadupla" (2014). "Coração Mais que Perfeito" (Quetzal, 2017) foi o primeiro romance do escritot Sérgio Godinho. "Eu o que faço é tentar contar coisas, falar de coisas, fazer interrogações à minha maneira e saber que há pessoas que são tocadas por isso", sublinhou o poeta. Essas interrogações são "contos de um instante", como canta numa das canções do novo disco, e tanto podem falar de amor, como da situação do país e das incertezas do presente ("Acesso Bloqueado"). Em 2018, regressa com o disco de originais "Nação Valente". As letras são todas da sua autoria, mas em apenas duas é também autor da música: resultando as restantes composições de colaborações designadamente com José Mário Branco e Hélder Gonçalves.
A Música e a Poesia, o mundo do cinema e dos livros, eis uma ligação natural que nos enche de júbilo e proveito espiritual. Sérgio Godinho, na senda da poesia mais antiga que construiu e consolidou a cultura da língua portuguesa, é um exemplo que ultrapassa em muito o quotidiano dos acontecimentos. Chegamos, de facto, à vitalidade de uma língua multifacetada que nos leva até à essência da liberdade.
Ser português é como ser aborígene ou americano Posso comer bacalhau com batatas a murro em qualquer lugar Camões e Pessoa em todas as línguas tal como Rilke e Confúcio O Português só me une aos mortos da literatura
Vivo neste canto por uma questão de inércia climática Nunca estou cá – Lisboa já não é a cidade das igrejas e quartéis É um cenário intermitente onde vivo separadamente – vou ao super comprar chocolate belga e vinho chileno
Já não tenho inimigos nem sarracenos nem chinos como o Pinto Nem os portugueses me incomodam nas classes de comportamentos grosseiros em que não são os piores – Por isso vivo aqui com os meus livros e discos iguais em toda a parte
Being Portuguese is the same as being an Aborigine or an American I can eat dry cod and roasted potatoes anywhere Camões and Pessoa in all languages like Rilke and Confucius Portuguese connects me only with the literary dead
I live in this corner due to climatic inertia I’m never here – Lisbon is no longer the city of churches and army barracks it’s an intermittent scenery where I live separately – I go to the supermarket and buy Belgian chocolate and Chilean wine
I no longer have enemies be they Saracens or Chinamen like Pinto* nor do the Portuguese bother me or their grossly behaving classes which aren’t even the worst – that’s why I live here with my books and CDs which are the same everywhere
Há poucos dias terminou mais uma edição do programa literário “Disquiet”, iniciativa conjunta da editora Dzanc Books, sedeada no Michigan (EUA), e do Centro Nacional de Cultura, na qual mais de uma centena da escritores norte-americanos participaram com autores portugueses num momento único, de que se assinalou a décima terceira edição, um encontro cultural em nome da liberdade criativa, visando aprofundar o conhecimento entre escritores dos dois lados do Atlântico e divulgar a sua obra. A própria designação, desde as suas origens, centra-se na ideia de “desassossego” de Bernardo Soares e Fernando Pessoa. E, como lembraram Scott Laughlin e Richard Zenith, a memória inspiradora do poeta Alberto Lacerda (1928-2007), falecido em Londres, está bem presente e mobiliza este encontro. E quando lemos do poeta “Labareda – Poemas Escolhidos” (com seleção e prefácio de Luís Amorim de Sousa) compreendemos bem a importância desta referência, bem como a ligação ao papel inovador das vanguardas de “Blast” (1914-15) de Whyndham Lewis e de “Orpheu” (1915) de Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
Coincidindo com este programa, na Fundação Gulbenkian, termina dentro de uma semana a importante exposição Arte Britânica – Ponto de Fuga, que apresenta mais de cem obras de 74 artistas de primeira importância, entre os quais: Bridget Riley, David Hockney, Antony Gormley, Francis Bacon, Rachel Whiteread, Frank Auerbach, ou David Bomberg. E a memória de Alberto Lacerda está bem viva, já que assim como no “Disquiet” é a ideia de emancipação e de intercâmbio que reúne Paula Rego, Bartolomeu Cid dos Santos, Menez, Eduardo Batarda, Fernando Calhau, Graça Pereira Coutinho, João Penalva e Rui Sanches – que procuraram formação neste “ponto fuga” que era a cidade de Londres. Os casos de Alberto Lacerda, como antes de António Pedro e Ruben A., de Paula Rego, de Bartolomeu Cid dos Santos, de João Cutileiro, de Jorge Vieira permitem a compreensão da importância da experiência britânica, como fator de emancipação, de cosmopolitismo e de inserção nas novas tendências. Simultaneamente não pode esquecer-se, como foi salientado por Henda Ducados, a tomada de consciência da questão africana através das intervenções de Joaquim Pinto de Andrade e de Amílcar Cabral junto da Câmara dos Comuns. Paula Rego é especialmente representativa, neste contexto, estando desperta para os grandes desafios do seu tempo, bem espelhados na sua obra, uma vez que a sua grande originalidade é fruto da relação estabelecida com o ambiente, o intercâmbio e o espírito cultivado entre os artistas britânicos e as suas instituições. Quando tomamos contacto com a experiência destes artistas e intelectuais verificamos um tensão virtuosa entre o desafio lançado por um ambiente de liberdade, como era o londrino, contrastante com uma lógica limitativa, fechada e protecionista. Pode dizer-se que é o melhor espírito do português que aqui se manifesta. Trata-se de um verdadeiro caleidoscópio que permanentemente transforma a visão que temos da realidade histórica, fazendo-a desenvolver-se. O exílio e a aprendizagem desta geração de portugueses ao encontro do mundo constituiu uma experiência única, em que cultura, educação e formação se uniram e se projetaram numa realidade poliédrica, que se foi desenvolvendo e metamorfoseando. Como diria Ruben A., houve que abrir caminho para que pudéssemos pensar.
Francisco de Vitoria, por Daniel Vázquez Diaz (1957) - Smithsonian American Art Museum
223. A LEI, O PODER DO MAIS FORTE E O BEM COMUM
O ser humano, no mundo moderno e contemporâneo, sempre foi o tema central, havendo sobre ele muitas interpretações, sendo de assinalar, desde o início daquilo a que chamamos Direito Internacional Público, duas: a de Maquiavel e Hobbes, pessimista, e a de Francisco Vitória e Francisco Suárez, cristã.
Os critérios de Maquiavel, estabelecendo a secularização do Homem, com a sua tendência para a desordem e a exaltação do poder político, foram abraçados por Hobbes, negacionista do livre arbítrio e para o qual a soberania, uma vez alienada pelo povo, é o resultado de um contrato irrescindível, onde quem exerce a autoridade tem poderes temporais e espirituais ilimitados.
Se o Estado é uma comunidade organizada, resultante de um contrato social definitivo, que substituiu o “estado de natureza” (de egoísmo ilimitado) dos indivíduos, por um poder estadual absoluto, ilimitado e coercivo, a verdade é que, na vida internacional, os Estados se apresentam em “estado de natureza”, não havendo normatividade e segurança jurídica positiva e coativa entre eles, aí imperando o poder do mais forte.
Vitória, por seu lado, diz que há uma “lei eterna” que dirige o mundo e é apreendida pela razão, da qual descende a “lei natural”, sendo por esta que nós, humanos, participamos daquela havendo, por fim, uma “lei positiva” que se baseia no direito natural. Há um justo por direito natural, independente da vontade (é justo que os pais eduquem os filhos e que estes obedeçam aos pais) e um justo por direito positivo, voluntário (de acordo com o normativo legal). Porque bom em si, o direito natural liga-se ao “jus gentium” que a razão natural estabeleceu entre todas as nações (“inter omnes gentes”), sendo o mundo político composto de Estados soberanos que formam em unidade universal a comunidade internacional.
Suárez, por sua vez, defende que o género humano, apesar de dividido em nações diferentes, tem uma certa unidade que decorre do “preceito natural do amor e da caridade mútuos”, o que faz com que toda a comunidade perfeita seja uma parte do conjunto do género humano. Da necessidade de intercâmbio dessas comunidades, decorrem normas jurídicas que caraterizam o direito das gentes ou internacional. Há uma conceção pessimista e disruptiva onde o Direito e a Justiça são a lei e poder do mais forte, em oposição a outra, cristã e otimista, em que o Direito é objeto da Justiça, traduzindo esta o que é justo.
É um debate muito antigo, já conhecido na antiga Grécia, exemplificado pela contenda entre Sócrates e Trasímaco, onde o primeiro tem a justiça como uma virtude política que visa o bem comum, tendo-a o segundo como a vantagem do mais forte. A uma ideia de justiça independente e do exercício do poder para outros fins que não a autoperpetuação e o poder pelo poder, contrapõe-se a de justiça que serve a lei do mais forte, em que o poder serve apenas aquele que o exerce e os seus interesses.
São formulações e doutrinas que se adaptaram ao direito estadual interno e transitaram para a comunidade e ordem internacional, baseada em regras de respeito pelo direito internacional, desde sempre insuficiente, em termos normativos e de coação, mas onde continuamente se lutou por prevalecer o princípio de que a Justiça, como bem maior e supremo, não pode nem deve ser apenas o exercício do poder pelo mais forte, consenso que se tem vindo a degradar.
Normalizar ou priorizar a lei e o poder dos mais fortes, em que os mais poderosos podem, sem mais, decidir o destino e o futuro dos mais fracos é anticivilizacional e um retrocesso do progresso espiritual da humanidade, em que se agudiza a guerra, quando é essencialíssima a paz, dado que se a guerra nasce no espírito dos homens, é nesse mesmo espírito que devem ser construídas as defesas da paz.
P.S. Prezadas leitoras e prezados leitores, até setembro!
O amor de mãe parece a toda a gente uma boa ideia, independentemente dos pormenores; ou pelo menos ninguém é contra o amor de mãe. Pensar-se-ia por isso que não há muito a dizer sobre o tema. Acontece porém que os tópicos sobre os quais não parece haver opiniões diferentes são os tópicos que toda a gente gosta mais de tratar, e de que se fala com mais eloquência.
A nossa atitude acerca do amor de mãe é uma boa ilustração da nossa atitude sobre muitos outros assuntos. A estes se pode chamar assuntos amor-de-mãe. Entre os assuntos amor-de-mãe contam-se, além do amor de mãe propriamente dito, a fome, a justiça, a corrupção, a violência, o crescimento, a educação, o crime, a excelência, a poluição, e o Papa Francisco. Note-se que entre os assuntos amor-de-mãe há assuntos sobre os quais a opinião é unânime no sentido em que são coisas a evitar (e.g. a violência), e assuntos sobre os quais a opinião é unânime no sentido de que são coisas a celebrar (e.g. o crescimento).
Poder-se-ia dizer que a razão por que um assunto é amor-de-mãe é que é tão vago que se pode prestar a entendimentos opostos. É em parte verdade que ‘educação’ ou ‘excelência’ são palavras usadas de um modo vago. Mas só em parte: toda a gente é contra a corrupção ou a violência, toda a gente entende de modo muito parecido as palavras ‘corrupção’ e ‘violência,’ e toda a gente reconhece sem dificuldade casos de violência e corrupção, por exemplo nos outros.
Ao contrário de assuntos não-amor-de-mãe (como a escolha entre fome e poluição, ou o Papa Bento XVI) não é frequente haver discussões genuínas sobre assuntos amor-de-mãe. Imaginemos uma mesa-redonda sobre a educação, a justiça, ou a corrupção: só quem já as organizou sabe como é difícil arranjar quem defenda as vantagens da última ou as desvantagens das primeiras. As razões por que numa atmosfera em que todos se exprimem livremente ninguém acha nefasto o combate à corrupção não são claras. Os corruptos poderão ser uma excepção a esta tendência: mas como nem sempre são francos é difícil ter a certeza.
Uma discussão sobre assuntos amor-de-mãe é assim uma actividade que se parece com uma discussão, mas em que não é de esperar que uma das características principais de uma discussão (os seus intervenientes poderem mudar de opinião) se verifique. A razão é que todos os participantes têm a mesma opinião. A maior parte das discussões a que assistimos são discussões entre pessoas com as mesmas opiniões; são discussões sobre assuntos amor-de-mãe, isto é, não são discussões. Pouco se segue das nossas conversas sobre fome e educação, a não ser talvez a satisfação de estar em maioria sempre que não há nada para decidir.
Miguel Tamen Escreve de acordo com a antiga ortografia