CRÓNICA DA CULTURA
MOLDURA
Dentro de uma imagem de mundo, tudo em nós nos diz e persevera que é assim o mundo, e tudo dentro da moldura é ele mesmo, e nós e as nossas sensações de seguranças dentro dele.
Mas um dia, descobrimos que o que tínhamos por garantido nos desaparece num segundo.
Afinal, basta mesmo que nos anunciem uma doença sem controlo, que nos desapareça quem muito amávamos, que um casamento feliz seja agora contenda, que uma guerra nos leve casa e comida, que se perca o emprego, que desapareçam as poupanças, que caiam as aparências que criámos, e logo a nossa ideia de constância é posta em causa.
Então, de repente, tudo nos escapa, e dentro da moldura tudo é inconsistência.
Eis, pois, que traçámos na areia as linhas das nossas batalhas, e mutantes, nós mesmos, nunca admitimos o quanto poderoso era e é a característica do provisório.
A moldura que criámos com resistente e sedutor “passe-partout” não resistiu ao pedaço de caos que nela aceitou.
Talvez se tudo o que circulava fora da moldura, estivesse dentro do nosso campo de lucidez e coragem, não nos teriam chegado as cegueiras simulatórias que tanto foram mutilando a nossa decifração.
Afinal, sob cada um de nós, qual parte nos habita e subjuga?
Teresa Bracinha Vieira