CRÓNICAS PLURICULTURAIS
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222. O HÁBITO DE COMPETIÇÃO COMO FINALIDADE DE VIDA
Há uma filosofia de vida, geralmente aceite, que concebe a nossa existência, como uma competição, uma luta, na qual se deve respeito e submissão ao vencedor.
O trabalho é adulterado e viciado pela teoria que exalta o espírito de competição, o êxito e o triunfo, em que o ócio e o tédio são envenenados na mesma medida.
O género de descanso e de prazeres tranquilos que nos acalmam e restauram chegam a ser aborrecimento, podendo produzir-se uma fatídica aceleração contínua, cujo fim pode ser o consumo de drogas e a ruína.
O remédio pode consistir em conceber o trabalho como tendo um sentido para a vida e ser um elemento indispensável ao equilíbrio ideal da nossa vivência material e espiritual.
Insistir demasiado no espírito, êxito e triunfo da competição pode ter um preço muito elevado por confronto com o benefício que se obtém e o que se sacrifica, pois embora não se negue que o sucesso torna a vida mais feliz, esse mesmo êxito só pode ser um dos vários elementos da nossa felicidade, que deve ser constituída por uma pluralidade de interesses potencialmente credíveis e realizáveis, de modo que falhando um ou vários, outro ou outros possam emergir, estabelecendo-se novas prioridades.
A causa deste espírito competitivo está enraizada, predominantemente, no mundo financeiro e dos negócios, em que quem investe deseja obter cada vez mais dinheiro com o intento de maior luxo, ostentação e de poder suplantar ou eclipsar os que até então eram seus iguais ou concorrentes.
Um ser humano comum, liberto de um excessivo espírito de competição, o que deseja obter do dinheiro é estabilidade, descanso e segurança, sem frequentes perdas e contínuos cuidados e angústias de numerário.
O hábito da competição tende a apossar-se, com facilidade, de áreas que lhe são alheias, havendo quem fale que a sua relevância atual, nas nossas vidas, está em relação com o declínio do nível de cultura, com prazeres mais intelectuais e tranquilos que vão sendo abandonados e esquecidos, como a arte da conversação, ler e o conhecimento da boa literatura.
Há que equilibrar um saudável hábito e espírito de competição com o gosto pelo que fazemos, não abusando (nem abusarem) das nossas capacidades e o trabalho não pesar exageradamente em relação aos demais interesses da nossa vida.
18.07.25
Joaquim M. M. Patrício