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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

SOB A INVOCAÇÃO DA ESPERANÇA

  
  Cardeal Pietro Parolin © Agência ECCLESIA/HM


A presença em Portugal do Cardeal Pietro Parolin constituiu um acontecimento que merece destaque, uma vez que teve lugar no âmbito do Ano Jubilar de 2025, que vivemos sob a invocação da Esperança. As palavras que o Secretário de Estado da Santa Sé proferiu na Fundação Calouste Gulbenkian constituem afirmações de especial importância, considerando o momento que hoje se vive de incerteza, de guerra em fragmentos e de ausência de regulação no sentido da paz. O Compromisso com a Cidade constitui uma exigência destes tempos de instabilidade, pelo que a proposta de sermos Peregrinos da Esperança revela uma especial responsabilidade para todos. Neste Jubileu das Autoridades houve, assim, um apelo muito forte no sentido de haver um empenhamento para que compreendamos os sinais dos tempos, de modo a criar condições para uma cultura de paz e de justiça, onde todos caibam, como foi muito claramente proclamado pelo Papa Francisco e hoje continua a ser proposto por Sua Santidade o Papa Leão XIV. Nesta ocasião a palavra Autoridades liga-se à capacidade de assumir o serviço público com todas as suas consequências, ligando-se a uma etimologia que enaltece a qualidade criadora como fator de partilha e de salvaguarda do cuidado, da atenção aos outros e do bem comum. Apesar de continuarmos a ser vozes que clamam no deserto, importa não desistirmos, persistindo na mobilização de vontades em prol da Justiça. Não esquecemos o exemplo de S. Tomás Morus, patrono da vida política, ele mesmo símbolo de sacrifício máximo perante a razão de Estado, mas lembramos outros casos contemporâneos de cidadãos exemplares como Robert Schuman um dos pais fundadores da União Europeia ou Giorgio La Pira, síndaco de Florença, cujo exemplo de cristão defensor da democracia, dos direitos fundamentais e do respeito mútuo está bem presente em todos nós.

Como afirmou o Cardeal Parolin: “Neste tempo complexo e marcado por profundas fraturas, sentimos uma necessidade que precede até o dever: a de voltar a falar, com coragem e verdade, da dignidade humana. Uma dignidade que não é concedida, mas reconhecida; que é infinita e inalienável, própria de cada homem e cada mulher, sem qualquer exclusão”. E é esta dimensão universal da dignidade da pessoa humana que tem de se assumir como prioridade absoluta, quando na cena internacional assistimos a uma onda de horrores com muitas vítimas inocentes da cegueira humana e da recusa do primado do direito e da justiça. Deste modo,  “num mundo que tantas vezes parece perder a direção, é importante recordar que a esperança não é apenas um conceito abstrato, mas uma promessa concreta; neste tempo de crescente complexidade global, somos todos chamados – como cidadãos responsáveis e profissionais do compromisso público – a promover o humano e a sua dignidade com um olhar amplo, integral e profundo.”

Perante os apelos pungentes de tantos inocentes, civis, mulheres e crianças, devemos recordar especialmente as recentes palavras do Papa Leão XIV: «Farei todos os esforços para que a paz se propague. A Santa Sé está disponível para que os inimigos se encontrem e se fitem nos olhos, para que aos povos se devolvam a esperança e a dignidade que merecem, a dignidade da paz. Os povos querem a paz e eu, com o coração nas mãos, digo aos responsáveis dos povos: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos! A guerra nunca é inevitável, as armas podem e devem ser silenciadas, pois não resolvem os problemas mas só os aumentam; pois ficará na história quem semeia a paz, não quem ceifa vítimas; pois os outros não são sobretudo inimigos, mas seres humanos: não vilões a odiar, mas pessoas com quem falar”. Deste modo, o Papa é muito claro: “Rejeitemos as visões maniqueístas típicas das narrações violentas, que dividem o mundo entre bons e maus. A Igreja não se cansará de repetir: silenciem as armas!”

O que estamos a assistir hoje obriga-nos a refletir. Os sinais dos tempos trazem palavras de violência e os seus ecos. As instituições têm dificuldade em funcionar normalmente. A sociedade civil tarda em fazer-se ouvir. Faltam instrumentos de mediação que facilitem a representação e a participação dos cidadãos. Nestas condições, emerge a tentação do apelo às intervenções de um falso messianismo, do mesmo modo que prevalecem as lógicas mercantis, como se tudo fosse transacionável. Deve recordar-se a atualidade da Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, capaz de abranger todos os homens e mulheres de boa vontade. A palavra todos tem, assim, um significado amplo, unificador e diferenciador. Para tanto, a justiça e a paz constituem desígnios que obrigam a uma grande determinação, capaz de superar as resistências, os equívocos e as ilusões. A verdade e a vida tornam-se assim sinais de sinceridade. Há pontes que têm de se estabelecer, diálogos a aprofundar, esperanças a cultivar.

As palavras do Cardeal Secretário de Estado e o apelo do Papa ecoaram numa casa de cultura como é a Fundação Calouste Gulbenkian, sob a inspiração do seu fundador, defensor das Artes e do diálogo entre Ocidente e Oriente. Foi bom ouvir as palavras que recordamos com especial ênfase. Que a Justiça e a Paz se tornem deveres da Humanidade toda.


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  

De 29 de setembro a 5 de outubro de 2025


Esta semana, Ruben A. estará presente na Fundação Gulbenkian, com apoio do Centro Nacional de Cultura e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa num debate que promete muito intitulado “O Incrível Ruben A.”

 


 

“A Torre da Barbela” (1ª edição, 1964) é uma obra-prima barroca desconcertante, no melhor sentido etimológico das palavras. O uso do verbo e do enredo é muito exigente e só um historiógrafo experimentado poderia ter lidado, como lidou, com o anacronismo com tanta inteligência e sem despropósito. Tudo começou na Casa de Esteiró (Caminha), com Maria do Patrocínio e José Manuel Villas-Boas, quando estes “contaram a história virtuosa de duas irmãs, da casa de Sestêlo, que, cansadas de uma longa vida de oração e prática de virtudes, resolveram pecar”. Pouco antes da morte, “confessaram ao Abade de Moutosa que não queriam entrar no Purgatório de almas lavadas”. Por que motivo? “Se assim o fizessem, seria grave ofensa às almas que lá estavam penando”. Pecar seria, afinal, um último ato de virtude – “só assim continuava no outro mundo o seu exemplo de modéstia e humildade”. Ruben A. pegou no tema, desenvolveu-o imaginosamente e criou uma trama fantasmagórica, onde a História pátria surge recontada num exercício onírico, a partir de conversas, comentários, encontros e desencontros de pessoas do reino dos mortos.


“Ao fim da tarde, antes do crepúsculo cantar as suas loas e sem se descortinar a realidade, apoderava-se da Barbela um sentido incógnito da existência”. A torre medieval era um antro de acontecimentos fantásticos. “Existissem ou não estrelas, fosse breu ou luar a jorros pelos campos marginais, o mundo abria-se dividindo o tempo”. Numa palavra, “os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre”. E esse ressuscitar transfigurava a torre. “A procissão saía a pé ante pé dos túmulos de pedra, dos sarcófagos egípcios - trazidos por Dom Payo da Barbela, quando das suas incursões por terras do Prestes João – e também da vala comum”… Ah! Havia um “caseiro papagueando frases”, sobre esses distantes Barbelas, desde Dom Raymundo (que se crê tenha sido “o primeiro grande home da família da Torre”), coevo de Dom Afonso Henriques, seu primo colateral. São 350 páginas de imaginação delirante e de um humor muito fino, capazes de nos explicar limitações ancestrais. Cavaleiros verdadeiros e falsos, honra e prosápia, beatos e hereges, força e decadência, deparamo-nos com de tudo um pouco, até àquele limiar da aurora em que todo esse mundo tinha de regressar ao encanto da imobilidade. O Cavaleiro, Madeleine, Dom Raymundo, Frey Cyro, Dona Mafaldinha, Urraca, Dr. Mirinho… “Os Barbelas, ao aproximar do dia, a vidência da luz, apareciam também humanos na sua imortalidade noctívaga, no reino absoluto impenetrável das suas relações, eles tinha de voltar à morte”. E quem tenha querido passar o umbral proibido que separa a noite do dia, obteve a pena capital do esquecimento. “Desapareceram. A história do seu anonimato está por contar”. Quantos rumores nossos se ouvem na história dessa Torre…


Numa palavra, este debate promete muito, porque Ruben A. teve uma vida plena de reflexão e de ação persistentes sempre em prol da cultura como realidade viva e uma especial atenção ao património cultural, material e imaterial, natureza, paisagem, tecnologias e criação contemporânea. Longe de uma ideia retrospetiva, estamos perante um conceito aberto e dinâmico virado para o futuro, para que se preserve quem somos, donde vimos, para onde vamos.


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANTOLOGIA

  
Adelina Abranches (in http://aps-ruasdelisboacomhistria.blogspot.pt/)


ATORES, ENCENADORES (XXVIII)
ADELINA E AURA ABRANCHES: RENOVAÇÃO FAMILIAR
por Duarte Ivo Cruz


Há uma certa constância, ao longo dos tempos, na renovação geracional da profissão e da atividade de atriz e ator. No século passado, os casos de Amélia Rey Colaço e Mariana Rey Monteiro, ou de Laura Alves e Vasco Morgado Filho podem servir de exemplo, entre outros mais.

Precisamente: trazemos hoje a evocação de duas atrizes exponenciais na história do teatro-espetáculo português, mãe e filha, que cobriram, em atividade simultânea ou sucessiva, quase um século de atividade contínua, a partir da segunda metade do século XIX. Assim, Adelina Abranches, nascida em 1866, estreou-se com 5 anos de idade, no Teatro D. Maria II (janeiro 1872). Morreu em 1945, celebram-se pois daqui a meses os 75 anos. E a sua filha, a atriz Aura Abranches, nasceu em 1896 e morreu em 1962.

Também da família, filho de Adelina, irmão de Aura, o ator Alfredo Ruas fez a sua época, mas não abordaremos aqui.

Ocorre que Adelina Abranches esteve em cena, como se diz na gíria teatral, até pelo menos 1942. E Aura estreou-se no Teatro D. Maria II em 1907, num espetáculo protagonizado pela mãe. E em cena se manteve até 1962, tendo encerrado a carreira com uma impressionante interpretação do vicentino “Pranto da Maria Parda” em 1961, a que assisti: inesquecível pela qualidade e já agora pela formidável ovação do público, no final…

Ora bem: para lá desta recordação, a que acrescento muitas outras de Aura Abrantes, quero aqui referir um aspeto interessante das duas carreiras complementares. É que tanto Adelina como Aura surgem ligadas à estreia/revelação predominante de autores contemporâneos de cada uma delas. E isto, no que respeita ao teatro europeu ou brasileiro - pois ambas representaram no Brasil - mas sobretudo no que se refere ao teatro português. E Isto porque, designadamente no tempo de Adelina Abranches, quase não se representava entre nós qualquer outro “teatro” que não fosse, ou português, ou espanhol ou francês.

Mas o mais relevante, sobretudo no que diz respeito ao repertório português de ambas as atrizes, é a sua modernidade – para a época, claro: mas também a sua qualidade, e essa já não obriga a restrições cronológicas.

Senão, vejamos: Adelina estreou peças de Marcelino Mesquita, de D. João da Câmara, de Eduardo Swalbach, Bento Faria, Henrique Lopes de Mendonça, Vasco Mendonça Alves, Ramada Curto, entre outros mais. E sobretudo, pela qualidade e pela repercussão à época e ainda hoje, registe-se a estreia “escandalosa" de “O Lodo” de Alfredo Cortez em 1923 e de “O Gebo e a Sombra” de Raul Brandão, em 1927.

Ora, no mesmo registo se desenvolveu a carreira de Aura Abranches, com maior internacionalização de repertório, agora mais recetivo a autores e peças de outras origens. Mas evoquemos, no que se refere ao teatro de autores portugueses, além de alguns já citados – Schwalbach, Ramada, Cortez – Júlio Dantas, Chagas Roquete e autores estrangeiros de grande modernidade e ainda hoje de grande qualidade – por exemplo Alexandre Casona, Luigi Pirandello, Arthur Miller, este com “As Bruxas de Salem” que fez época no D. Maria II.

Mas importa ainda referir a intervenção de Adelina e Aura Abranches numa iniciativa aliás gorada mas notável no sentido da modernização. Tratou-se do chamado “Teatro da Natureza”, que em 1911 reuniu, no Jardim da Estrela, por iniciativa do cenógrafo e futuro professor do Conservatório e diretor do D. Maria II Augusto Pina, um grupo de artistas apostados ma atualização do repertório clássico, enquadrando-o numa versão moderna. Estrearam então a “Oréstia ” de Ésquilo, com um elenco notável: Adelina e Aura Abranches, Alexandre de Azevedo, Barbara Wolkar…

Mas o espetáculo durou três dias!

(cfr. Luís Francisco Rebello “Dicionário do Teatro Português” Prelo ed págs. 72-74. e  “O Teatro Simbolista e Modernista”  ed. ICP 1979 pág. 86;  Duarte Ivo Cruz “História DO Teatro Português” ed. Verbo 2001 pág.240; Gloria Bastos e Ana Isabel E. Teixeira de Vasconcelos “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República” ed. MNT 2004 pág.146).


Duarte Ivo Cruz


Obs: Reposição de texto publicado em 17.06.15 neste blogue.

O EXEMPLO DE ERNÂNI R. LOPES

  
    Ernâni Lopes © João Relvas/Lusa


Quando desempenhou, num momento especialmente dramático da vida nacional, as funções de Ministro das Finanças (1983-85), Ernâni R. Lopes afirmou de um modo claro e simples como era seu timbre: “É preciso valorizar o trabalho e não o golpismo, a honradez e não o oportunismo, o espírito de competição e não o privilégio, o lucro legítimo e não a ganância especuladora ou a caça ao subsídio”. Nestas palavras resume-se o que poderia estar num tratado de cidadania, constituindo um conjunto de objetivos e alertas que deveriam estar presentes no funcionamento de uma sociedade justa e decente. Infelizmente, há um grande esquecimento destas ideias, que de pouco valerão se se limitarem a um conjunto de conselhos bem intencionados. Na boca de quem as proferiu houve uma preocupação de traduzir em exemplos e em experiência tais desígnios. A publicação de “Ernâni Lopes – Vida e Pensamento” (U. Católica, 2025) apresentada há pouco reúne reflexões suas e testemunhos de uma equipa que consigo trabalhou. Ainda jovem confessou desejar ser monge, militar ou professor. De facto, optou pela docência, partindo das qualidades espirituais e de organização. Profundo estudioso e conhecedor da História, e em especial da grande saga dos portugueses nos descobrimentos do mar oceano, teve em mente a afirmação de Duarte Pacheco Pereira, o genial negociador de Tordesilhas e provável navegador dos mares do sul: “a experiência é a madre de todas as cousas”. No fundo, mais do que todas as teorias, importaria ligar o saber e o saber fazer. Por isso, Camões deu especial importância ao “velho de aspeito venerando”, “cum saber só d’experiências feito” – tendo alertado para que a Fama e Glória são nomes “com quem se o povo néscio engana”…

Conheci bem Ernâni Lopes e ainda hoje recordo os seus conselhos essenciais, que basicamente se centravam nas qualidades que mais prezava - o estudo e o trabalho. Sabia como ninguém que os problemas do País exigiam a recusa do improviso. Havia que delinear a ação de modo coerente, definir objetivos e metas com a ponderação rigorosa das condicionantes, sabendo que não há explicações simples e que a economia e a sociedade estão intimamente ligadas. Quando Ernesto Melo Antunes o escolheu para Embaixador na República Federal Alemã, no momento em que a democracia dava os primeiros passos, fê-lo com extraordinária visão de futuro. Havia que preparar a democracia com rigor e conhecimento, em ligação com a melhor experiência europeia, e hoje sabemos que essa foi a estratégia necessária, a pensar na mobilização das qualidades nacionais, na perspetiva da integração europeia. “A decisão de aderirmos à CEE foi a maior mudança no posicionamento estratégico de Portugal e a maior reforma estrutural do país depois da II Guerra Mundial”. Apesar de todas as vicissitudes, esta foi a opção decisiva para a modernização do País. “O Portugal que queremos construir no futuro é uma nação livre e democrática com níveis de bem-estar e de desenvolvimento económico próximos dos países evoluídos do final deste século, integrada no modelo das democracias ocidentais”. Eis o que estava em causa, e daí o forte empenhamento pessoal no delineamento do projeto democrático. “Não vos escondo que a terapêutica será dolorosa”. Lembramo-nos desse momento decisivo, a que a democracia tanto deve.     


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Milan Kundera, ca. 1980. Photograph by Elisa Cabot


227. UMA NOÇÃO ESPIRITUAL EUROPEIA


“Com efeito, o que é a Europa para um húngaro, um checo, um polaco? Desde o começo que estas nações pertenciam à parte da Europa enraizada na cristandade romana. (…) A palavra “Europa” não representa para eles um fenómeno geográfico, mas sim uma noção espiritual que é sinónimo da palavra “Ocidente”.

“A Europa geográfica (aquela que vai do Atlântico aos Urais) foi sempre dividida em duas metades que evoluíam separadamente: uma ligada à antiga Roma e à Igreja Católica (…); a outra ancorada em Bizâncio e na Igreja Ortodoxa (…). Depois de 1945, a fronteira entre estas duas Europas deslocou-se para Oeste, e algumas nações que se tinham sempre considerado como ocidentais acordaram um belo dia e constataram que se encontravam a Leste.         

Na sequência disso tomaram forma na Europa três situações fundamentais: a da Europa Ocidental, a da Europa Oriental e, a mais complicada, a da parte da Europa situada geograficamente ao centro, culturalmente a Oeste e politicamente a Leste”. Milan Kundera     

Kundera, em 1983, num artigo célebre denominado Um Ocidente sequestrado ou a tragédia da Europa Central, defendia que os países do centro europeu tinham sido raptados e “anexados” pela Rússia, passando a ser seus satélites. Tratava-se, segundo ele, de uma violação, dado que fazendo parte, pelos seus valores, da constelação cultural ocidental, foram raptados, sequestrados e violentados à força, através da lei do mais forte, pelo espaço gigantesco, neoimperial e poderoso da Rússia, após a segunda grande guerra.     

Interesses políticos e geoestratégicos russos e da União Soviética prevaleceram sobre os do ocidente europeu, nomeadamente os culturais, ficando este amputado de uma parte de si mesmo, estando-se perante um “ocidente raptado”, nas palavras de Kundera.   

Após a queda do muro de Berlim e da União Soviética, a maioria dos países da Europa central e de leste regressaram ao ocidente, integrando um número significativo a União Europeia, num momento em que os acontecimentos relacionados com a guerra na Ucrânia têm gerado uma desconfiança quanto aos dirigentes políticos russos, o que não pode confundir-se com uma errada descrença no que toca à cultura russa que faz parte da História cultural do nosso continente, incluindo o ocidente, quando a Europa culta e civilizada ia de São Petersburgo a Paris e Londres.   

A condenação da invasão da Ucrânia não pode confundir o povo russo, a alma russa, a arte e a sua cultura com as tentações megalómanas dos seus dirigentes políticos, pois o povo, a arte e a cultura russa antepõem-se-lhes e são-lhe anteriores.

Não há dúvidas sobre a importância de Dostoievsky, Tolstoi, Tchekhov, Pushkin, Pasternak, Gogol, Tchaikovsky, Stravinsky, Chestov, Berdiaev, Mandelstam, Akhmatova, Chagall ou Kandinsky na alma e cultura europeia. Toda a grande literatura, artes em geral, música e ópera russa fazem parte de uma noção espiritual europeia (incluindo o cristianismo), que é transversal a toda a Europa, desde o Atlântico aos Urais. 

Se assim é, há que chamar a cultura para a construção de uma Europa do futuro em que a ocidentalidade se complemente com as nossas raízes euroasiáticas, em que a palavra Europa não é um mero fenómeno geográfico, mas, antes de mais, uma noção espiritual e um fator essencial de paz, sem os pensamentos de sequestro belicista da Budapeste de 1956, da Praga de 1968 e da Ucrânia de 2022. 


26.09.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Desrespeitar a humanidade é impedir-lhe a sua ideia de liberdade

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   Allin Braund

Substituir a antiga opressão por outras opressões mais contemporâneas em nome de imperativas e perversas mudanças?

Criar formas de vigilância e censura mais agressivas usando o poder das máscaras com que se disfarçam?

Adubar o nascimento e o crescimento de quem gosta de ser mandado e não arrisca pensar sozinho?

Manter a ordem na não transformação e no não progresso do ser como se todos fossemos um enclave?

Mas não somos nós um palimpsesto vivo em que se entrecruzam diferentes processos históricos?

Mas não somos nós uma maioria na tentativa constante de um processo de emancipação?

Mas não somos nós nesse processo sempre dissidente, os que bem compreendemos o quanto desrespeitar a humanidade é impedir-lhe a sua ideia de liberdade, a sua experiência da existência singular?

Mas não somos nós natureza, cultura, extensão, nascimento, possibilidade, desabrochamento, condição de não cativo, ideal?

Teresa Bracinha Vieira

O TAMANHO DE UMA DEMOCRACIA

  


A democracia ateniense durou pouco e acabou mal; o corpo de cidadãos era aproximadamente equivalente ao dos habitantes da freguesia de São Domingos de Rana. Durou apesar de tudo o que durou porque o número de cidadãos era baixo. O processo deliberativo, que conheceu várias versões, pareceu-se em todas mais com um pátio das cantigas, onde havia apenas seitas e consensos, do que com qualquer coisa a que modernamente pudessemos chamar deliberação. Era um modo de manter uma paz relativa entre vizinhos rancorosos, e um modo de estimular o meio essencial para a manutenção dessa paz. O meio era verbal. Atenas foi no seu apogeu um bairro unido por bisbilhotices, rumores e discursos públicos; comparada por exemplo com Esparta, que nos seus respectivos tempos áureos tinha todo o encanto combinado de uma caserna e de um parque de campismo, era a freguesia menos desagradável da Grécia Antiga.

Não há qualquer paralelo possível entre aquilo a que hoje se chama geralmente democracia e a Atenas do século sexto ou quinto. As dificuldades eram aí menores porque havia muito pouca gente;  sem grande esforço as pessoas conheciam-se, ou pelo menos podiam rapidamente saber quem eram. Casavam-se entre si ou praticamente só entre si. Solon, um conhecido defensor da democracia em Atenas, era primo do principal tirano da altura. Naquilo a que hoje se chama democracia é muito raro as pessoas conhecerem-se; e quanto (considera-se) mais desenvolvida é a democracia, menos a possibilidade de saber quem alguém é deve contar. Os eleitores casam-se comummente noutras freguesias.

Comparar a Atenas do século quinto com uma democracia é como comparar uma pista de comboios eléctricos com uma rede ferroviária; na minha casa de jantar posso com um único olhar contemplar toda a pista; posso ocupar-me amorosamente de cada carruagem; e posso corrigir os meus descarrilamentos e os meus erros. Nada que eu aprenda com os meus comboiozinhos, porém, me prepara para ser sequer guarda de passagem de nível. Solon não conseguiria ser eleito deputado numa democracia moderna; e o primo não conseguiria ser um tirano capaz.

Tal como existe um tamanho abaixo do qual deixamos de reconhecer uma democracia, assim provavelmente existe um tamanho acima do qual aquilo a que chamamos democracia se torna dificilmente reconhecível. Os países em que geralmente se reconhece um modo democrático de organização são quase todos países de tamanho médio; Andorra é uma tirania, e a Índia é na melhor das hipóteses uma democracia muito disfuncional. O único milagre americano, mas que não é pequeno, consiste precisamente no facto de os Estados Unidos serem o único país do mundo com uma democracia pouco disfuncional e uma população acima de cem milhões de habitantes.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

A FESTA DO BANQUETE

Em merecido descanso, reproduzimos uma crónica anterior do Padre Anselmo Borges.

  


É surpreendente que o austero Immanuel Kant, um dos pensadores maiores de todos os tempos, autor da moral do imperativo categórico, tenha deixado na sua Antropologia um belo texto sobre as regras de uma refeição agradável em boa companhia. Não é saudável, mesmo para o filósofo e sobretudo para o filósofo, escreve ele, comer sozinho. É que o objectivo da celebração de uma refeição não deve ser tanto a satisfação corporal (portanto, comer em ordem à sobrevivência física) - isso podia fazê-lo cada um por si mesmo - quanto o prazer de estar juntos. Daí que sublinhe permanentemente o imperativo do respeito mútuo. "De facto, escreve, mesmo sem prévio pacto expresso, todo o banquete tem uma certa sacralidade". A conversa deve ser mantida em bom ritmo, de tal modo que a refeição termine, "como num concerto, no meio da alegria geral e assim seja tanto mais salutar; como naquele banquete de Platão, do qual o convidado dizia: ‘As tuas refeições não agradam só enquanto se saboreiam, mas também sempre que se pensa nelas'". E os amigos, sempre que se reencontram, avisam: “havemos de repetir”.

Não é verdade que uma das alegrias grandes que podemos conceder-nos é oferecer um almoço ou um jantar, pelo simples prazer de estarmos juntos? Será possível imaginar uma festa - um casamento, um aniversário, um reencontro - sem um banquete, por mais simples que seja?

Por surpreendente que pareça, há um feriado nacional em Portugal que tem a ver com um banquete, a Última Ceia de Jesus Cristo. Jesus, que escandalizou os contemporâneos, pois comia com mulheres consideradas pouco recomendáveis e os pecadores públicos, antes de ser condenado à morte, ofereceu uma refeição de despedida. E os cristãos, ao longo dos tempos, deviam reunir-se, lembrando-se dele e da sua causa, que é a causa dos seres humanos, isto é, a liberdade, a dignidade, a igualdade, a felicidade, a alegria, a fraternidade entre todos os homens e mulheres.

Quando os cristãos se reúnem para a celebração da Missa ou da Ceia do Senhor, partilham o pão e o vinho. Na nossa cultura mediterrânica, o pão e o vinho são dois símbolos fundamentais. O pão quer dizer força, vida, o vinho simboliza festa e alegria. Quem convida para essa festa é o próprio Jesus Cristo. Ele oferece pão e vinho. E, segundo a mentalidade oriental, quem oferece uma refeição oferece sobretudo a sua presença. Assim, os cristãos, quando se reúnem para lembrar a Última Ceia de Jesus, acreditam que Ele está presente. Mas discutir o modo dessa presença só pode levar a becos sem saída, como é sabido pela História. O decisivo é reunir-se, ouvindo e cumprindo o único mandamento de Cristo: sede bons uns para os outros, amai-vos uns aos outros como eu vos amei. O amor vence a morte.

Lembrar. Se, neste instante, perdesse a memória, não perdia apenas o passado. De facto, uma vez que já não saberia quem sou, ao perder a memória, perdia não só o passado, mas também o presente e o futuro. O animal vive da imediatidade do presente. O ser humano, esse, conjuga os verbos no passado, no presente e no futuro. Pela memória, sabemos que vimos de um passado, pela atenção, damos por nós no presente, pela expectativa, pela esperança, projectamo-nos no futuro. E é integrando o passado, o presente e o futuro, que nos vamos erguendo, na procura de uma identidade sempre a caminho.

Por estranho que pareça, isto tudo vem, mais uma vez, a propósito da festa que a Igreja Católica celebra: a festa do Corpo de Deus, festa que nos remete para a Eucaristia e, em linguagem mais comum, para a Missa. Aos Domingos, muitos cristãos continuam a ir à Missa. O que é que lá se vai fazer? Diria que fundamentalmente lembrar, recordar. Na Última Ceia, Jesus, abençoando o pão e o vinho, que significam a sua entrega por amor a todos, disse: “Fazei isto em memória de mim”. Na Eucaristia, os cristãos recordam-se do que Jesus é e fez. Assim, lembram-se também do que eles próprios são e devem ser e fazer. E anunciam, desde já, o futuro: celebram a esperança do que há-de vir: a vida eterna. Deste modo, não é totalmente destituído de sentido que muitos que nem eram praticantes habituais, quando morrem, queiram uma Missa: porque nela se celebra a memória do futuro..., a esperança da salvação. Um funeral de alguém, no contexto cristão, é a celebração da sua morte e ressurreição.

A festa do Corpo de Deus. É impressionante: festa do Corpo de Deus. Quem imaginaria? A pergunta então é: celebra-se o Corpo de Deus, e depois despreza-se o corpo? A festa do Corpo de Deus tem de ser também a festa do corpo humano, que é corpo vivo, que sente, corpo que deseja, que pensa, que quer, que ama, corpo que diz eu, que é esperante,  até espera para lá da morte...

Na festa do Corpo de Deus, há quem pergunte se os católicos acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia. A resposta é sim. Mas é preciso distinguir entre a presença física e coisista e a presença real pessoal. Por exemplo, um homem e uma mulher, pela relação sexual, estão fisicamente presentes, mas, se não houver amor, estão realmente ausentes enquanto pessoas. Porém, até pode acontecer que, por qualquer motivo, tenham de estar fisicamente ausentes, mas se há amor, continua a presença real entre eles. Os católicos não crêem na presença físico-coisista de Cristo, mas na sua presença espiritual, dando o seu Espírito de Vida, de Amor,  de Paz: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Isso tem de ter consequências na vida.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 de junho de 2024

A VIDA DOS LIVROS

  
    De 22 a 28 de setembro de 2024


«Nuno Júdice – O Prazer das Imagens» é uma exposição que tem lugar no Museu de Portimão com curadoria de José Gameiro, Manuela Júdice e Filipa Leal e evoca a relação entre o poeta os Museus e as grandes obras de arte. A mostra foi inaugurada no sábado dia 20 com a presença de Guilherme d’Oliveira Martins.


© Luísa Ferreira


Graça Morais, Júlio Pomar, Jorge Martins, Rui Chafes, Manuel Amado, Duarte Belo e os franceses Bernard Cornu, Colette Deblé e Julie Ganzin, são alguns dos artistas presentes nesta exposição, que inclui poemas inéditos de Nuno Júdice e depoimentos do ator e encenador Luís Miguel Cintra ou de Donatien Grau, Conselheiro da Presidência do Museu do Louvre, para os programas contemporâneos. Igualmente serão exibidos os filmes - documentários “Eco, Nuno Júdice”, de Rita Féria e Teresa Júdice da Costa e “Nuno Júdice, 3”, do Arquivo-RTP, gravado no Programa “Com Todas as Letras”, de agosto de 1975 coordenado por Eduardo Prado Coelho, Manuel Alberto Valente e Manuel Costa Silva.


Ao regressar de Portimão de um encontro fugaz com tantos amigos, recordo o poema “Estrelas”, publicado em Pedro Lembrando Inês, que exprime um sentimento de gratidão para com o Algarve, a saudosa terra que Nuno definia como o lugar que afirma as pequenas marcas do seu carácter único. “Desfaço nas mãos, os figos / fugazes de setembro, enquanto o seu leite / escorre pelas folhas verdes que / os envolvem. Esses figos, que me traziam / em cestos de vime, eram mel na boca / que os saboreava. Secos iam parar / aos frascos fechados para o inverno, de onde / os tirava para meter no bolso, / antes de sair. ‘O que tens aí?’, perguntavas-me. E /eu passava-te para a mão um desses figos, e via / como o abrias, chupando os seus grânulos, / e passeando na boca a amêndoa que / o recheava. Onde estarás ?, pergunto. Poderia / ainda hoje partilhar, contigo, um / desses figos do inverno? Ou o seu leite secou, / nos cantos dos lábios, roubando-te / as palavras, e o húmido murmúrio / do amor?”. Num tema aparentemente tão simples, está toda a grandeza do poeta e da sua atenção. Nuno Júdice seguiu o melhor lirismo, que vem dos trovadores, que se desenvolve nos grandes cancioneiros e culmina na herança inesgotável de Camões e em tudo quanto se lhe seguiu. Um pormenor do quotidiano, o figo, maduro e seco, e o diálogo da amizade e do amor são ingredientes indispensáveis à compreensão da vida. António Carlos Cortez publicou Um Canto na Espessura dos Textos – Leituras da Poesia de Nuno Júdice (D. Quixote, 2024). Encontramos aí a expressão viva, do que para o poeta é mais do que um balanço ou do que uma homenagem. Trata-se da demonstração da relevância de uma figura maior da nossa literatura, em confronto com os nossos maiores. Afinal, a justa projeção internacional que Nuno Júdice alcançou corresponde a muito mais do que uma afirmação individual, tratando-se de uma fecunda manifestação da cultura da língua portuguesa além-fronteiras.


UMA POESIA BEM VIVA! 
Ouvimos o discurso direto do poeta: “Quando começo um poema nunca sei para onde estou a ser conduzido. Há muitas formas de encontrar linha de desenvolvimento, umas vezes lógica, outras mais contraditória ou paradoxal, mas o que é comum é o modo como o poema se fecha a si próprio, quase sempre de uma forma inesperada que surpreende através de várias formas, desde a ironia até esse encontro como o que posso chamar uma transcendência que obriga a ler o poema e a reinterpretá-lo. O que importa é a surpresa no final, que subverte ou transforma o que vinha antes”. De facto, para o autor não pode haver Poesia sem passado e sem memória. Todavia, a memória não vem apenas da experiência pessoal, mas de uma poesia perene, dos poemas lidos, das situações próprias, mas também da partilha de experiências. E então a memória reinventa-se, como na genial lição de Eduardo Lourenço, na revisitação de Fernando Pessoa sobre a falsa influência de Walt Whitman na “Ode Triunfal” e a verdadeira repercussão do americano em Caeiro, numa inversão de termos, que reinventa a unidade da criação poética de Pessoa…


“O título é a última coisa que aparece quando estou a compor um livro (diz ainda Nuno). Tem de conter em simultâneo uma síntese, mas também a forma como vou distinguir um livro de outro, encontrando essa ‘personalidade’ que o distingue”. E se falamos de passado e de memória, importa enfatizar o necessário diálogo com as diversas artes. As experiências de Berna e de Paris, presentes nesta mostra, permitiram ao poeta desenvolver uma relação forte com a pintura, os museus, os artistas com quem conviveu, os livros de arte que escreveu, de Manuel Amado a Graça Morais, de Jorge Martins a Júlio Pomar, que conferiram à poesia de Nuno Júdice um lado visual, que se tornou paradigmático. Como disse ainda: “Não há poesia sem imagem, tal como não há poesia sem ideia (embora no meu caso a filosofia seja algo mais interrogativo do que explicativo)”. No fundo, para Eduardo Prado Coelho, estamos perante um poeta da imaginação, não se considerando neorromântico nem surrealizante. É verdade que há, sem dúvida, a imaginação, mas também “uma razão que inscreve essa imaginação não num plano delirante (…), mas numa dimensão que vai buscar uma lógica nem sempre previsível no início do poema para criar uma surpresa e uma transformação na forma de ver a realidade”.


O CULTO DA PALAVRA POÉTICA
“Desde o início que o poema longo faz parte da minha poesia. Isso deve-se à leitura de Campos, de Caeiro, de um Eliot ou de um Pound, mas também de poetas franceses como Saint-John Perse. E resulta de uma necessidade que, nesses anos 60, senti de transformar a escrita poética numa forma de narrativa, ou conto (o Jorge Luís Borges é essencial nesse processo)”. Há aí, assim, a rejeição da poesia formalista, que se empobrece e esgota no processo da sua invenção…  Nesse ponto Antero de Quental e Fernando Pessoa têm um papel fundamental. Antero reconcilia-o com o soneto, e reforça a força da ideia e do pensamento que sempre atraiu Nuno Júdice.  Pessoa transforma a poesia em ficção e o final de Antero corresponde a uma transformação ficcional “naquele banco onde se suicida de uma forma perfeitamente encenada”. Deste modo, “memória, imaginação e ficção são partes essenciais da criação poética, mas se na sua origem não se encontra uma experiência, uma relação próxima com a realidade, o poema soa a vazio, a falso”. E o certo é que a poesia se torna não só uma forma de resistência, mas também de sobrevivência. E Nuno Júdice considera-se beneficiário de um privilégio – “nasci em Portugal e o país pese a essa tendência masoquista da nossa ‘inteligência’ para nos autodestruir, é uma exceção que permite respirar um pouco melhor quando olhamos o mundo. E tem uma grande história literária e paisagens e espaços únicos”… Essa é a natureza viva que constitui matéria-prima de um autor de exceção, cuja descoberta é ainda inesgotável.  


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE NUNO JÚDICE 

  


A vindima de Eros


E de novo este céu desenrola a sua matéria
de outono. Com a precisão do vindimador, agarro
as suas vides e corto os cachos de névoa que
caem sobre a terra. Ponho-os no carro do poema,
e levo-os para a adega abandonada do sonho
para os transformar num vinho de palavras
feitas com as sílabas mais líquidas, as que se
podem beber pela taça da estrofe. E um fumo
da antiga inspiração evola-se da cuba
dos mistérios. As raparigas descalças, com
os seus aventais de sol, sobem para o lagar
e pisam as uvas. O cheiro do sumo sobe
até ao fundo da sua cabeça, e antes que fiquem
tontas começam a contar as memórias perecíveis,
as que nasceram de uma fuga nocturna
pelos campos impunes do estio. Espero
que acabem o seu trabalho, e vejo-as sair com
as pernas roxas até aos joelhos, e as saias subidas
até às coxas. Os seus olhos rodam como
as velas de um moinho ébrio de vento; e
abrem os braços à luz, como se desejassem
que ela limpasse os seus corpos da espuma
que os envolve. E canto esses corpos, como
se elas me pedissem que transformasse
o mosto dos seus lábios no vermelho puro
da madrugada. Assim, uma levada de versos
recitados nos rituais da origem inunda
os seus seios e restitui-lhes a brancura inicial,
enquanto me obrigam a beber os líquidos
que os seus pés destilaram. E apenas lhes peço,
quando vestem as suas túnicas de nuvem,
que atravessem de novo as videiras decepadas
e abracem os vindimadores, beijando-os,
para que eles provem o vinho novo dos seus lábios.


in A Convergência dos Ventos, 2015


The grape harvest of Eros


And again this sky unfolds its autumn
matter. With the precision of a vintager, I grasp
the vine branches and cut bunches of mist pouring
over the earth. I load them on to the poem’s wagon
and drive them to the abandoned cellar of dreams
to turn them into a wine of words
made from the most liquid syllables, those which
can be drunk from the cup of the stanza. A smoke
of ancient inspiration rises from the vat
of mysteries. Barefooted girls wearing
aprons of sun climb on to the press
and tread the grapes. Juicy smells reach
their heads, and before they get too
tipsy they tell of perishable memories
born from nocturnal escapades
through unpunished fields of summer. I wait
for their work to be done and watch them leave,
their legs purple to the knee, their skirts lifted
to the thigh. Their eyes whirl like
wind-inebriated sails; and they open
their arms to the light, wanting it
to rid their bodies of clinging foam.
And I sing those bodies, as
if they had asked me to transform
the must of their lips into the pure red
of dawn. Thus, a wave of lines
uttered during the rituals of origin spreads over
their breasts, bestowing primeval whiteness,
and making me drink the liquid
distilled by their feet. I can only beg them,
as they dress in their gowns of cloud,
to go again through the severed vines
and embrace the vintagers, kissing them,
so they may taste the new wine on their lips.


© Translated by Ana Hudson, 2015
in Poems from the Portuguese 

 

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