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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


232. O DESEJO E A SUA AUSÊNCIA


Na medida em que o desejo também nos puxa para o desconhecido, a curiosidade, os mistérios da vida, nos transforma e tira da inércia, do ócio, do tédio, programando o que poderá ou poderia ser, acaba por ser, de igual modo, uma manifestação de liberdade de expressão que se quer livre.     

Se não reconhecido fica censurado, se reprimido torna-se silencioso, desembocando a ausência (de desejo), nesse contexto, em angústias, silêncios e numa previsível “infalibilidade” de quem reprime e não se assume como falível. 

Contentando-se com o que é repudiado e o que poderia ser, a ausência de desejo apela, num certo enquadramento, à segurança, ao mito da normalidade, ao estabelecido e não questionado, ao não querer correr riscos, à arrogância de querer ter sempre resposta conhecida para o desconhecido.     

O reconhecimento da nossa própria falibilidade, refutando a infalibilidade, faz parte do que faz alguém ter um desejo sério, fazendo progredir o conhecimento humano.   

O desejo, como a liberdade, é inerentemente antiautoritário, autocorrigindo-se, ao invés da sua omissão.       

Mas também é ambíguo, luz ou sombra, solar ou escuridão, de bom ou mau gosto, sendo o seu significado determinado pelo seu contexto de apresentação ou de expressão. Desejar é viver em estado de incerteza e de inquietação, é ser liberal, estar aberto à experimentação, à tolerância, à dúvida, à mudança, à refutação, ao erro, à diversidade, em conjugação com o facto de o ser humano ser, por natureza, incompleto ou imperfeito.   

Há desejos que nos libertam e os que nos amarram, e os que reconhecem o mistério da vida a que não cede quem ousa pensar (ingloriamente) que tem resposta para tudo.      


31.10.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

O QUE HÁ A GANHAR AINDA NÃO FOI PESADO CONTRA O QUE SE PODERÁ PERDER 

  


Nas palavras de Naomi Baron, a grande questão reside em saber o quanto a memória, a concentração, as reflexões serão parcialmente perdidas pela leitura no ecrã que nos tem conduzido a um novo normal.

Existem sinais de desincentivo à leitura graças às máquinas que invadem as vidas na era digital e assim os cérebros se vão remodelando. Receia-se mesmo que a inovação digital esteja a avançar muito mais depressa do que a nossa capacidade de entender os efeitos dessas inovações nos nossos cérebros.

O que há a ganhar ainda não foi pesado contra o que se poderá perder.

Há uma base sólida para estes receios, para a falta de substancialidade. Desde logo, a distração por ecrãs, torna o tempo dedicado a qualquer novidade conceptual imoderadamente escasso para o integrarmos no nosso conhecimento.

A leitura induzida é superficial, o que pressupõe um pensamento igualmente superficial, o que nos faz recear que na era digital, possamos perder a leitura profunda bem como o próprio processamento profundo, aquele que é conhecedor da luz que ilumina.

De registar que se assim for, a própria política, bem cheia desta mudança decisiva - e se a mesma continuar a ser fragmentada e descontextualizada-, só conduz a uma exacerbação da polarização o que só contribui para a mentalidade de soma zero e alimenta o sentimento de "nós versus eles".

Na verdade, a informação curta e imediata funciona como custo de oportunidade, confundindo informação com conhecimento.

Esta mentalidade gera hostilidade e impede a cooperação, a própria colaboração entre indivíduos, dificultando o próprio desenvolvimento económico já que um país que impõe tarifas a mercadorias estrangeiras, protege as economias domésticas, mas limita a inovação e o crescimento.

O novo pensamento gerado pelo digital-humano não interioriza, pois não existe contexto, tudo se pode consultar imediatamente no computador, o que pode tornar extremamente difícil um pensamento credível sobre a ordem mundial.

Mas ainda vamos a tempo de impedir que o santuário solitário que nos chega com a leitura, seja despromovido a solidão.

Mas ainda vamos a tempo de não acabarmos como Eloi no livro A Máquina do Tempo (1895), de H.G. Wells.


Teresa Bracinha Vieira

O ACTUAL INQUILINO

  
    © Jsobral/Creative Commons - Atribuição 2.5 Genérica


O que acontece quando nos chega correio (por exemplo uma carta dos impostos) para o anterior inquilino do sítio onde moramos? Com probabilidade deitamo-lo fora; nalguns casos, devolvêmo-lo ao carteiro, para que se descubra o anterior inquilino. As coisas estão bem feitas; os inquilinos sucessivos de um mesmo local têm normalmente nomes diferentes; não achamos que as cartas destinadas aos anteriores ocupantes da nossa casa nos sejam dirigidas.

Algumas pessoas no entanto acham também que as cartas que chegam à sua actual morada e em seu nome não são necessariamente para si. Trata-se de pessoas que gostam de se referir a si próprias como o actual inquilino do seu corpo; que falam com desembaraço das várias pessoas que têm sido ao longo da vida; que acreditam que não têm nada a dizer sobre as várias coisas que na vigência do seu corpo disseram, pensaram ou fizeram. Quando chega uma carta declaram ao carteiro que o destinatário já não mora ali.

A ideia parece excêntrica; mas nalguns casos pode ter vantagens. Uma lei sensata sobre falências, para dar um exemplo, é uma lei que se dispõe a considerar que em certas circunstâncias deixa de haver continuidade entre uma certa pessoa e quem no passado ocupou o mesmo corpo. O inquilino actual escusa por isso de responder às cartas que foram mandadas ao inquilino anterior do seu corpo (com quem também partilha normalmente o nome).

Em diferentes lugares do mundo as leis e os costumes tratam de modo diferente a possibilidade de uma pessoa ser o inquilino temporário de um corpo. Nalguns países uma pessoa cujo negócio faliu será toda a vida olhada como uma pessoa cujos negócios irão falir; e quem em pequeno roubou peras do pomar do vizinho será para sempre um ladrão. Noutros entende-se que uma vez não são vezes; e que quem roubou as peras não prosseguirá necessariamente uma carreira de crime. A ideia de regeneração tem à primeira vista um certo parentesco com a ideia de inquilinato de um corpo.

A diferença entre os casos sensatos e a ideia excêntrica é a diferença entre existirem leis ou costumes partilhados sobre maneiras de tratar pessoas, e imaginar que quem eu sou depende apenas de mim. Quando acho que quem eu sou depende apenas de mim acredito que posso despejar os anteriores inquilinos do meu corpo com liberalidade, e substituí-los por quem acho que actualmente sou.    

Como as minhas opiniões sobre o meu actual inquilino são quase sempre favoráveis, o único resultado desta lei do inquilinato é gerar propaganda a favor de quem actualmente sou. Quem actualmente sou é como a última ideia que tive: sempre melhor que a penúltima. Parece pois prudente não deixar aos interessados a determinação de quem realmente são. Não me deve caber a mim estipular quem é o actual habitante do meu andaime biológico. Não somos os senhorios do nosso actual inquilino.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    E. Ciorán


Sem Deus, que sentido?


O que é a religião? O que deve entender-se por pessoa religiosa? Onde se fundamenta a religião? Qual é o dinamismo que está na base das religiões? Porque há religião/religiões?

Toda a religião tem a ver com a ética e também com a estética. Hegel viu bem, quando afirmou que a arte, a religião e a filosofia estão referidas ao Absoluto. A pergunta é, como escreveu o filósofo J. Gómez Caffarena, se a ética, a estética e a filosofia acabarão por absorver a religião, como já insinuava Goethe: “quem tem arte (e moral e filosofia) tem religião; quem a não tem que tenha religião”.

Segundo Lucrécio, “o medo criou os deuses”. Desde então, isso tem sido repetido, acrescentando a ignorância e a impotência, de tal modo que, com o avanço da ciência e da técnica, a religião acabaria por ser superada e desaparecer. Será, porém, verdade que na génese da religião estão o medo, a ignorância e a impotência? Ninguém poderá negá-lo. A questão é saber se esses são os únicos e decisivos factores e de que modo actuam. De facto, não é a limitação enquanto tal que está na base da religião, mas a consciência da limitação. Na consciência da finitude, que tem a sua máxima expressão na consciência da mortalidade, o Homem transcende o limite e articula um mundo simbólico de esperança de sentido último e salvação. Como disse Hegel, a verdade do finito encontra-se no Infinito, e Kant viu bem, ao referir a religião à esperança de um sentido final. Segundo ele, o interesse da filosofia pode reduzir-se às seguintes perguntas: “O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o Homem? À primeira pergunta responde a metafísica, à segunda a moral, à terceira a religião e à quarta a antropologia”. Assim, é possível que a ciência e a técnica obscureçam a força do apelo religioso. Mas, permanecendo a finitude e a sua consciência, há-de erguer-se sempre a pergunta pelo Fundamento e Sentido últimos.

Como disse E. Ciorán, “tudo se pode sufocar no Homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos e mesmo ao desaparecimento da religião”. Na mesma linha, afirmou L. Rougier: “A Igreja pode declinar. O sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam Transcendência, subsistirá.” O que, do ponto de vista biológico, une a Humanidade é a interfecundidade. Do ponto de vista espiritual, o que a une é a pergunta radical pela totalidade e o seu sentido, o Sentido último.

O Homem é o animal que pergunta pelo seu ser e pelo ser. A razão humana não cria a partir do nada. Na base do ser humano, há uma “passividade originária”, como repetia o meu saudoso mestre e amigo Miguel Baptista Pereira: quando damos por nós, já lá estamos, ninguém foi consultado nem decidiu vir a este mundo e ser quem é; depois, um dia, a morte chega e leva-nos. A razão humana constrói, portanto, a partir do dado e, feito todo o seu percurso, sabe que acende a sua luz na noite do Mistério. Se pergunta, é porque ela própria é perguntada pela realidade, que é ambígua. Precisamente na sua ambiguidade, provocando, por isso, espanto positivo e negativo, a realidade e a existência convocam para a pergunta radical: o que é o Ser?, o que é o Homem? Quando, no processo evolutivo, se deu a passagem do animal ao homem, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo Sentido de todos os sentidos, portanto, a pergunta pelo Sentido último. A dinâmica religiosa deriva da experiência de contingência radical e da esperança num sentido final. A mesma experiência tem um duplo pólo: a radical problematicidade do mundo e da existência e a referência em esperança a uma resposta de Sentido último, plenitude, felicidade, orientação, identidade, salvação. Este domínio da busca de sentido aparece de modo tão central na vida humana que a História da Humanidade não se compreende sem a história da consciência religiosa, não sendo de esperar o fim da religião e das religiões. Neste contexto, não é ousado afirmar que todo o ser humano é religioso, na medida em que é confrontado com a pergunta pela Ultimidade. Só poderíamos falar de irreligiosidade, no caso de alguém se contentar com a imediatidade empírica, recusando todo e qualquer movimento de transcendimento, o que não é possível, pois isso é contraditório.

É inevitável a pergunta: Sem Deus, que sentido teria a vida?


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado, 25 de Outubro de 2025

A VIDA DOS LIVROS

  

De 27 de outubro a 2 de novembro de 2025


«Novas Fases da Lua» de João de Melo (D. Quixote) é um diário dos anos de 2017 a 2024 (com exceção de 2020 e 2022) no qual encontramos o pulsar da vida cultural pela pena de um grande escritor.


O diário de um escritor é sempre a revelação apetecível de um retrato do mundo através do testemunho de quem procura ir além das aparências e do prazo curto. João de Melo é um excelente cicerone, que nos conduz por caminhos muito sedutores que nos ajudam a compreender o tempo e as pessoas. A cada passo encontramos autores e acontecimentos que seguimos com um incontido prazer, pois além da sedução da escrita podemos usufruir de uma leitura qualificada da realidade cultural que nos cerca. Em 17 de fevereiro de 2019, ouvimos o autor: “Ponho-me a imaginar a minha biblioteca sem mim, ou seja, depois de mim. Todos estes livros têm a marca das minhas mãos, uma história silenciosa que um dia se calará comigo. Dói-me imaginar o destino que os levará a outros olhos e a mãos diferentes das minhas. Perder-se-ão as dedicatórias dos autores, a minha leitura deles, os milhares de livros lidos sobre os quais se apagará a luz e a gratidão dos meus olhos. Houve um tempo em que as bibliotecas representavam pequenos tesouros familiares que os filhos herdavam com proveito e alegria. Hoje ninguém quer bibliotecas particulares: todos os lugares estão cheios e saturados delas – acabarão num sótão ou numa cave escura e coberta de pó, ou nas mesas de rua dos vendilhões de livros em segunda mão, comprados a pataco como pechinchas de ocasião. (…) Toda a vida a comprar e trazer livros para casa, e depois este logro, esta inutilidade alheia”. Estamos aqui no coração deste diário, de modo a que possamos usufruir da essência da memória, para além do desaparecimento do tempo. Olhe-se a lembrança de “Ana Karénina”, aprendendo “com os mestres a simplicidade profunda, o segredo discreto do génio, a linguagem natural da literatura. A grande literatura faz-se com a paciência laboriosa do inventário, com atenção e rigor máximo no pormenor”. Eis como um livro se mistura com a vida do leitor, e a biblioteca é a grande representação do mundo em que cada um de nós se insere. Tolstoi torna-se, assim, nosso companheiro. E lembramos Vargas Llosa a ensinar-nos que “devemos organizar a vida como se fossemos viver indefinidamente. De maneira que a morte seja como um acidente”. Assim a literatura e os livros tornam-nos participantes de um tempo eterno…  “A literatura mudou o curso dos meus dias. Deu-me no mundo um conhecimento bem mais vasto do que as minha origens. Nem eu sei que espécie de vertigem explica a minha necessidade vital de cultura, dos livros próprios e alheios, do que mim se irmana ao ler e amar os livros dos outros e de ser lido e amado por eles”. E assim nos deparamos com a fascinante leitura de “Astronomia” de Mário Cláudio, em que as personagens não têm nomes: são os Pais, os Tios, as Criadas, o Menino, o Rapaz e o Velho. Assim, o leitor descrê do teor pessoal da leitura e fixa-se na ficção biográfica. A realidade e a imaginação misturam-se, e entramos de pleno no mundo de uma realidade que nos faz assumir a transição entre o sonho e o mundo concreto, como sombra de várias sombras.


E de súbito encontramos a criada de Herculano, convencida de que o historiador era um preguiçoso, por levar os dias sentado  a escrever. Assim convivia com essas sombras míticas, projetando-as para além do tempo. No diário os temas sucedem-se, e o memorialista depara-se num passeio ao Sol de Inverno com um bairro novo cujas ruas têm nomes de escritores. Rua Vitorino Nemésio é paralela à de Jorge de Sena, e perpendicular à Alameda António Sérgio. Numa bela metáfora, os habitantes das estantes de uma biblioteca ocupam os espaço público. Tudo a partir da recordação do “poeta preclaro e secreto no seu género miúdo, prosador de luxo em várias frentes de escrita”. Temos, pois, o genial autor de “Mau Tempo no Canal” e dos contos magistrais de “O mistério do Paço do Milhafre”. E a escrita do diário flui, rápida e apaixonante. Depois de Nemésio, vamos ter com Raul Brandão e as suas “Memórias”. “Vê-se quando se fixa em testemunhos de bastidores. Não faltam motivos de interesse a prenderem-me à leitura desta obra sintomática: lá está o prosador emérito, tão subtil como expressivo, com uma linguagem dúctil e surpreendente, que nunca nos deixa indiferentes. Às vezes diz mais uma frase isolada do que alguns de nós em longos e amargos parágrafos”. E não se esconde a admiração por Aquilino, o sábio criador verbal que remexer fundo na linguagem e traz a superfície a nova língua portuguesa”.


Lembrando o seu tempo em terras de Espanha, o cronista afirma: “Pudesse eu ter meios para tanto, vinha viver aqui, podendo em Barcelona ser português, espanhol e catalão, em simultâneo, desde sempre, para sempre”. Há um sentido especial de grandeza, na arquitetura e no urbanismo, que nos aproxima de sermos ibéricos. Eu conheci melhor João de Melo nas andanças da Educação. Tive grande gosto em contar com a sua colaboração numa ideia com virtualidade indiscutíveis – usufruir da experiência dos escritores e artistas em itinerância nas escolas. Diz-nos João de Melo: “Fui um professor seguro da sua competência e dos seus deveres. E dos seus afetos. Revi nos alunos não a minha juventude mas a deles num país a abrir-se a novas práticas pedagógicas, novos direitos no exercício da experiencia escolar e democrática. A vida dividiu-me entre a docência e a literatura. Passei a ser o ‘escritor da Escola’”. A escola primária da Achadinha não se esquece e as raízes estão sempre presentes, entre mil afetos. Essa ligação à terra e à casa que o viu nascer e crescer é muito forte. A cada passo vem essa recordação intensa. Mas o escritor não esquece a imposição consumista do público e a influência desse modismo nos editores. “As editoras pedem-nos romances, só romances e nada mais que romances. Instalou-se de tal ordem esta ditadura do gosto sobre a condição literária, que tudo parece adverso e exige coragem, afinco, resistência ao lado da pequena minoria que frequenta a chamada short story e ainda dela se orgulha. Como eu”. E ainda esta mentalidade resistente sente-se quando o autor se rebela quanto ao conselho de poupar por não adquirir livros em papal, em benefício de obras no império digital. João de Melo partilha connosco pertinentes reflexões sobre o mundo contemporâneo. Não esconde preocupações com as tergiversações do Presidente Trump, com as estranhas cumplicidade com Putin e com a evolução da China: “Converteu-se o PC em conquistador do capitalismo dos outros. Não se percebe o que vai lá dentro, que regime é o deles com o partido único, um regime pouco ou nada comunista que catapulta sobre nós um imperialismo económico, algo de obscuro que nos vem de longe e de cima, lá de um alto a que não chega o orgulho europeu de cada pais, e menos ainda a união da velha Europa”. O Médio Oriente é também motivo de atenção. “Em Gaza morre-se por tudo e por nada. Morrem crianças, mulheres e gente velha só por isso: por existirem”. Por outro lado, “Ninguém sabe até onde irá Putin na sua sanha antieuropeia. O déspota do Kremlin começo a ameaçar-nos com as suas bombas atómicas. E com uma terceira guerra mundial. Morre gente tão boa, dia a dia – e o escroque sempre tão cheio de saúde e de veneno”. O perigoso mundo continua a rodar e as perplexidades vão-se acumulando, ao ritmo de um diário… É tempo de atenção e cuidado.   


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANTOLOGIA

  
   Ribeirinho (in http://www.novatv.pt/)


ATORES, ENCENADORES (XXIX)
EVOCAÇÕES PESSOAIS DE IONESCO E DE BECKETT
por Duarte Ivo Cruz


Começo com uma nota pessoal:

Tive o gosto de acompanhar o meu irmão, Manuel Ivo Cruz, numa visita de Eugene Ionesco e de sua mulher por Lisboa, lá para o início dos anos 60 do século passado. Vinham de Paris assistir a um espetáculo de Jacques Mauclair, na altura ator de primeiro plano, no Festival de Sintra: representou-se “La Leçon” e “Les Chaises”, de Ionesco, numa produção/realização de primeiríssima qualidade – ou assim a recordo, passadas estas dezenas de anos: mas já na altura me desdobrava entre estudos jurídicos e estudos de literatura dramática, e acompanhava por isso a produção dramatúrgica vinda do exterior.

Ionesco voltaria pessoalmente a Lisboa, e muitas e muitas vezes seria  representado em Portugal ao longo do século. Recordo, entre muitas outras, as traduções de “A Lição” e “O Rinoceronte” por Luis de Lima, ou “O Novo Inquilino” por Luisa Neto Jorge, peças e versões que citei especificamente em livros e aulas.

Mas também tive ensejo de citar peças e espetáculos de Samuel Beckett, traduzidos e/ou produzidos em Portugal. E precisamente, quero agora evocar a inesquecível estreia que constituiu, em 1959, “À Espera de Godot” pelo Teatro Nacional Popular, dirigido por Francisco Ribeiro, no Teatro da Trindade.

Recordo bem esse espetáculo, que deu brado e provocou certo “escândalo” no então condicionado meio teatral português.  Estávamos, repito, em 1959. Por todos os motivos, portanto, a iniciativa de Francisco Ribeiro - Ribeirinho, numa companhia subsidiada, (e que o não fosse…), com um autor praticamente na época desconhecido do grande público, constituiu um ato de coragem em todos os aspetos.

E mais: a direção e as interpretações do próprio Ribeirinho, num registo nada habitual na sua carreira de admirável cómico, bem como as de Costa Ferreira, Canto de Castro, Rui Mendes e do então muito jovem João Lourenço,  atingiram um nível de qualidade e de homogeneidade acentuado pela própria  estrutura  do texto e da linguagem, numa verdadeira iniciação, do que costuma designar-se por “teatro do absurdo” ou mesmo por “antiteatro” – e essa designação é que se revela totalmente absurda: pois a peça é extremamente “teatral” no seu aparente estaticismo.

E o mesmo se dirá do teatro de Ionesco.

Mas também há qualquer coisa de musical no texto de Beckett, a saber, a repetição de um tema recorrente e simbólico, aqui sintetizado no diálogo desencantado, repetido vezes sem conta pelos dois protagonistas: “(Estragon) – Didi, vamos embora/(Vladimir) –Não podemos/ (E) - Porquê?/ (V) - Estamos à espera de Godot / (E) – Ah, é verdade”…    

Pois bem: este aparente estaticismo é superado e sublimado pela força do próprio diálogo e pela profundidade da análise. “Espetáculo altamente discutido, que suscitou apaixonada polémica” escreveu Tomás Ribas. E também eu, na altura, frisei numa crítica a grande qualidade do espetáculo mas também o paradoxo implícito na peça: pois para além do fatalismo dominante, “os dois vagabundos que esperam por Godot fazem ressentir uma esperança situada mais acima das desgraças do dia-a-dia.” E terminava assim:

“Essa esperança não é compreendida no palco, Valdimir e Estragon vão-se embora. Tê-lo-á sido no entanto na plateia? Receamos bem que não”…

E há ainda muito a dizer sobre o Teatro Nacional Popular e sobre o Francisco Ribeiro.


Duarte Ivo Cruz


Obs: Reposição de texto publicado em 24.06.15 neste blogue.

REGRESSO AOS CLÁSSICOS

 

Cerimónia de atribuição do Prémio Vida Literá

 

Em boa hora a Academia das Ciências de Lisboa celebrou o centenário do nascimento da Professora Maria Helena da Rocha Pereira, classicista de mérito que foi uma referência nacional e internacional no estudo das civilizações grega e latina. Tive o gosto e a honra de privar com a sua personalidade fascinante, para quem o conhecimento deveria ser sempre cultivado, partilhado e aprofundado, em nome de uma humaníssima atitude que visava no essencial o respeito e a salvaguarda da universal dignidade da pessoa humana. Foi na Fundação Gulbenkian que a encontrei quer na extraordinária condução da publicação de obras dos autores clássicos, quer no júri dos prémios da Fundação, na companhia do também saudoso mestre Vítor Aguiar e Silva. Recordo essas tardes inesquecíveis em que o conhecimento se misturava naturalmente com o quotidiano, numa manifestação simples e sublime de puro saber. Maria Helena da Rocha Pereira era uma pessoa simples e generosa, que exprimia os seus pontos de vista com clareza e determinação, sempre disponível para ouvir todos os argumentos em sentido de autêntico diálogo, confrontando princípios e sentido prático, mas nunca transigindo no rigor do conhecimento.

 

Fui testemunha do reconhecimento pelos maiores especialistas do mundo sobre o profundíssimo conhecimento que tinha dos vasos gregos, fruto de uma experiência longa de estudo, desde a sua presença na Universidade de Oxford, onde foi discípula de E. R. Dodds, Rudolf Pfeiffer, Fraenkel e John Beazley. Além do seu prestígio indiscutível nos estudos clássicos, o seu parecer sobre os vasos antigos fazia lei entre os maiores cultores da matéria, que a consultavam sobre os maiores problemas. Tive ainda a grande honra de receber de sua família a generosa doação dos direitos intelectuais à Fundação Gulbenkian, que considerava sua casa, com a Alma Mater coimbrã. A sua biografia constitui um exemplo único de determinação e de pioneirismo. Foi a primeira mulher membro da Academia das Ciências depois de Maria Amália Vaz de Carvalho e de Carolina Michaelis de Vasconcelos, como fora a primeira mulher professora catedrática na Universidade de Coimbra formada na instituição, já que Carolina proveio de formação alemã. Com a difusão digital gratuita das traduções clássicas de sua autoria, estas tornaram-se no Brasil, como já acontece em muitas Universidades onde se cultivam os estudos clássicos em língua portuguesa, um motivo de reconhecimento geral de uma excecional qualidade didática, pedagógica e científica por muitos estudantes, professores e investigadores. Essa preocupação mantém-se atual na mensagem da sua obra, centrada na ideia de recusar simplificações fáceis, o que obriga os estudiosos de hoje a prosseguir um exigente caminho de aprofundamento. Ao falar de regresso aos clássicos, refiro a necessidade de valorizar tais raízes. Por isso, como tem defendido Frederico Lourenço, devemos dar importância acrescida ao estudo do latim e do grego, para melhor compreendermos que o estudo das línguas é um fator de cultura e de vitalidade criadora.

 

Lembro ainda que na última semana ocorreu em França a entrada solene no Panteão de Robert Badinter defensor intransigente dos direitos fundamenais, que aboliu no seu país a pena de morte, no que Portugal foi pioneiro, sob o elogio de Vítor Hugo. Conheci-o bem, foi meu companheiro de lugar na Convenção Europeia. É exemplo inolvidável do humanismo moderno com fortes raízes clássicas.

 

GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


231. O DESCANSO PRECISA DE SE JUSTIFICAR?


Estar ocupado ou sempre ocupado é, cada vez mais, um símbolo de importância, produtividade, estatuto ou poder. Para muitos dá status e é gratificante saber-se que têm excesso de agitação e de compromissos, falta de tempo ou que não têm tempo para nada. Glorifica-se e exibe-se com orgulho o ser ocupado.   

O descanso, por sua vez, é visto, crescentemente, como improdutivo, fracasso, preguiça, ócio, tédio, aborrecimento, não fazer nada, uma repetição monótona e permanente, um tempo livre e rame-rame ocioso e não produtivo. Desacelerar, priorizando o descanso, é fracassar. Mesmo aqueles que trabalharam décadas continuamente sentem-se, tantas vezes, mal vistos, porque menos produtivos e a reclamarem o seu direito ao descanso. 

Todos sabemos que o trabalho é, antes de tudo, um preventivo contra o aborrecimento, que dá a satisfação de matar o tempo e possibilidades de êxito e de saída à ambição, havendo nele todas as gradações, desde o mero alívio do tédio às gratificações mais profundas. Se em excesso gera fadiga física, nervosa ou emocional podendo, segundo os especialistas, provocar neurastenia por exaustão corpórea ou psicológica, onde o amor à agitação pode conduzir ao não abandono do trabalho como “remédio” para uma cura fictícia, quando o verdadeiro “fármaco” deveria ser a desaceleração e o descanso. 

A informática e as redes sociais reforçam e dão visibilidade a este excesso de trabalho e compromissos, mesmo que haja uma ilusão mediática e virtual de maior produtividade cada vez que são massivamente usadas.     

Há, pois, que repensar este modelo de vida, tendo como referência primordial que o valor de uma pessoa não deve estar essencialmente amarrado à sua produtividade, há que reclamar e readquirir, com naturalidade e equilíbrio, o direito ao descanso, ao ócio e tédio criativo, ao não ruído, à não agitação, à contemplação, à pausa, ao silêncio. Nem podemos perder a capacidade de simplesmente não fazer nada. Nem do tempo livre, proporcionado pelo descanso, ter de ser sempre preenchido por mais, mais “trabalhos”.  

O descanso tem de ser tido como um sinal de equilíbrio que cuida e nos aproxima de nós próprios, que se justifica por si e não precisa de ser justificado.  


24.10.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

PERDER VOCABULÁRIO É PERDER LIBERDADE

  


O bem que a inteligência artificial nos está a trazer, é enorme, mas o que a IA nos assusta reside nas forças que a podem capturar e utilizar com objetivos terríveis.

Mas como se sabe a IA é instantânea num mundo que já era de enter e delete, e negligenciou-se, por excesso, o quanto as relações humanas se degradavam ligadas ao empobrecimento do sentir e da linguagem que o exprime.

As crianças, demasiado robotizadas pelas máquinas, foram entrando numa onda que se permitiu avaliar de baixo preço.

Criaram-se indiferenças ao que gera e gerou a pobreza das palavras e dos seus significados; ao que a falta de vocabulário acarreta na impotência para descodificar as mentiras que se propagam a velocidades indizíveis; ao quanto a perda de vocabulário impede o próprio raciocínio de defesa.

E, na verdade, perder vocabulário é perder liberdade.

Vivem-se sociedades que se permitiram reduzir o espírito, reduzindo as palavras, e consequentemente o seu amplo poder, admitindo-se com plausibilidade que se vai aceitando esta violência como se se tratasse de algo natural.

Não há dúvida de que ler livros exercita a nossa autodisciplina e o nosso sentido de sequencialidade, o que nos permite conhecer o passado, e com maior eficácia, planear um futuro com criatividade, quer enquanto indivíduos, quer em cooperação com os outros.

Provado está que o potencial de cooperação humana através do qual nos preservamos e expandimos e que envolve o conceito de «humanidade» foi-se expandindo exponencialmente pela literacia.

Provado está que os conhecimentos dos significados do vocabulário têm mantido acesa a liberdade durante períodos totalitários, pois que a escrita e a leitura e o pensar e sentir as palavras, coroam tudo o que se pode imaginar e lutar para um futuro melhor.

Também o perigo de um sistema político dirigido pela inteligência artificial é atroz, mas há muito que vimos pessoas chupadas por ecrãs, totalmente desligadas sensorialmente, e comandadas por ritmos digitais, enquanto o senso comum vai aceitando oferecer a sua vontade, esta mesma que a IA pode controlar, controlando as massas numa normalização das instituições ditas democráticas, a bem de uma mais convincente delegação e esmagamento das vontades.

E sim, perder vocabulário é perder liberdade, primeiro intelectualmente e depois institucionalmente.

E não, não estamos destinados a um futuro estagnado e fechado. Não estamos condenados à pobreza e à brutalidade da mentalidade de soma zero.

Na nossa senda como espécie, temos feito e continuaremos a fazer muito melhor do que isso.


Teresa Bracinha Vieira

OS DEJECTOS DOS OUTROS

  
   © Raimo Bergroth | Dreamstime.com


Habituamo-nos a pensar que não conseguimos fazer aquilo que nunca fizemos, e aquilo que nos repugna fazer. Tratar dos outros quando isso envolve repugnância parece portanto uma tarefa impossível; e a repugnância parece um obstáculo inultrapassável. Há naturalmente pessoas que fazem esse serviço por nós, e a quem pagamos. E contenta-nos pensar que, em podendo, lhes podemos pagar para que nos seja poupado não o trabalho, como se pensa muitas vezes, mas justamente a nossa repugnância.

Em certos casos (e.g. crianças pequenas), lidar com os dejectos dos outros é comparativamente mais fácil. Sabemos que o fazemos para que as pessoas com quem temos de lidar se tornem autónomas, e deixem de precisar de quem remexa nelas. A verdadeira dificuldade só aparece em circunstâncias em que falta esta certeza, em especial quando sabemos que as coisas só vão piorar, e vão piorar cada vez mais.

Veja-se os casos em que pela primeira vez temos que tratar de uma pessoa muito velha ou muito doente, sem qualquer experiência, sem qualquer preparação, ou em qualquer emergência. Se nos tivessem dito antes o que haveríamos de vir a fazer teríamos fugido a sete pés. Estas descrições têm o condão de meter medo, e de tornar ainda mais difícil o que já de si é repugnante; mais tarde, se nos acontece ter de cumprir essa tarefa, encontramos frequentemente um alívio sombrio em impressionar os outros com histórias das nossas façanhas. Podemos desta maneira trocar o medo que sentimos por uma reputação imerecida de valentia.

E no entanto há uma espécie de coragem particular que só sobrevém em situações de ignorância e inépcia; a altura em que pela primeira vez, e sem grande alternativa, temos que fazer coisas de que nunca nos julgaríamos capazes. O melhor exemplo são as ocasiões em que os dejectos dos outros entram em contacto connosco. A alguns durante filmes violentos intriga o modo como uma peça de roupa em condições normais de limpeza que foi prolongamente ensopada em sangue poderá readquirir a sua pureza pristina. Não são apenas inquietações de dona de casa:  são a expressão do horror daquele primeiro momento incontrolado de contacto com os outros.

O primeiro momento, porém, não dura para sempre. Uma vez estragada a camisola, ou sujas as mãos, não há grande coisa a fazer. Nessas alturas a afeição pela camisola defunta e pelas nossas mãos incontaminadas atenua-se muito; percebemos que a nossa repugnância era apenas, como dizia um general nas suas memórias, uma certa ideia da repugnância. Podemos até vir a achar nisso alguma satisfação; será em parte a satisfação das coisas bem feitas, da fralda bem mudada e da retrete bem limpa; mas é sobretudo a satisfação de perceber que nos tornámos sem querer numa daquelas pessoas a quem costumamos pagar para que o nojo nos seja poupado.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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