Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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NASCER É UM REGRESSO? por Camilo Martins de Oliveira
Minha Princesa de mim:
Enigma seria eu me ter esquecido de tão bizarra forma de tratamento: "Minha Princesa de mim"... é fórmula tão enigmática como o esquecimento. Pois quem entenderá em qualquer dia que o esquecimento, afinal, é ontologicamente aquilo cuja lembrança perseguimos, o enigma que sucessivamente não deciframos, uma enervante contradição da saudade. Esta, mais do que lembrança, é presença. Tal como a memória dos mistérios no-los traz até nós. O esquecimento, quando muito, será, na melhor das hipóteses, e por fortíssimo esforço cerebral, o sacramento da morte. Se alguém ousar entender que pode salvá-lo assim. Sinto-me, nesta noite quente e quieta, um pobre de Deus que se silencia por não se encontrar já mais no apagão da memória da sociedade em que vive. Donde vimos? Donde chegámos aqui? Como nos constituíram os que foram a nossa vida antes de nós? O que nos dizem os nomes que nos deram, e aqueles que damos às coisas? O que é o amor? Esta tarde, aqui em Florença, nos Uffizi, contemplei com vagar duas pinturas de Sandro Botticelli: "A Primavera" e o "Nascimento de Vénus". Neste, pareceu-me - até pelo semblante e as flores que lhe alegravam o tecido do vestido, ou as que, ainda, se juntavam em colar ao seu pescoço - que a moça oferecendo um manto à Vénus desnuda que, sobre uma concha, nascia das ondas do mar era Flora, que Ovídio identificou a Clore, filha de Deméter (ou Ceres, em Roma). A tal que Hades (Plutão) raptou e arrastou para o reino das profundezas, onde passou a chamar-se Perséfone (Prosérpina). (Por ela voltaremos a Stravinsky)." A Primavera", essa é certamente Flora, vestida, coroada e enfeitada de flores. Mas Zéfiro, o vento que a levou, esse também aparece soprando no "Nascimento de Vénus". Reunidos estão a deusa do amor, a da primavera que significa esse amor como efeméride e ressurreição, o vento que em pétalas sopradas a leva, mas que a conduzirá ao altar de Zeus. E lembrada é a mãe de Flora, Deméter (Mãe da Terra) ou Ceres, deusa das culturas, dos cereais e frutos que alimentam os mortais. A narrativa mitológica de Deméter e do rapto de sua filha Clore - que se chamará Perséfone quando Hades (Plutão) fizer dela rainha do mundo subterrâneo - tem muitos registos. Talvez por estar em Itália, tenho aqui à mão uma canção de Calíope, no Livro V das "Metamorfoses" de Ovídio, em latim. Por isso é Deméter Ceres, e Perséfone Prosérpina. A Clore sempre chamei Flora (onde? - procuro - disse-o Ovídio?) e sempre me sugeriu "éclore" (desabrochar, nascer do ovo ou da terra). E Flora são flores que se abrem ao sol e ao vento, que lhes rouba e espalha a semente, e as desflorará. O mesmo vento, Zéfiro, que soprando sobre as ondas do mar delas ergueu a espuma donde Vénus surgiu. O sopro inicial que levanta o amor de sobre as águas, e beija as flores e depois as desflora para que delas nasçam os frutos de Ceres, da mãe terra. Esta precisa da primavera, de Flora, sua filha, para que não morram as culturas dos cereais (de Ceres) e frutos que dão alimento à vida. Têm os mitos muitas versões, são, como os pensamentos dos homens, muito vagabundos. Por cada narrativa deles, poderá, irrequieto, percorrer-se o labirinto mágico das nossas imaginações. Em cada um de nós se mexe um caminho, e nele nos deixamos mover. Lembro-me de Bora-Bora, quando a onda vaga da maré nos conduzia ao abandono maravilhado a um visionário percurso por primaveras submarinas... De nós só sabemos o que sempre vamos descobrindo. Longo foi o percurso de Ceres em busca da Primavera, sua filha. Sem esta, secavam-se os campos à míngua de rebentos. E quando a descobriu no reino subterrâneo... com Plutão, senhor das profundezas, acordou que Flora ali estaria três meses do ano, que nos outros nove seria necessária à alegria! Raptada, talvez ainda, mas por Zéfiro, o deus do vento que tudo leva, mas semeia e traz de volta. Na "Perséphone" de Stravinsky, a rebuscada prosódia de André Gide é declamada pela protagonista, sobre a música, mas cantada pelo coro. Talvez porque só a música saiba contar-nos mistérios.
Camilo Martins de Oliveira
Obs: Reposição de texto publicado em 24.11.13 neste blogue.
Quem quiser compreender o Brasil na sua complexa diversidade tem oportunidade de o procurar na Exposição que tem lugar na Fundação Gulbenkian, com curadoria de José Miguel Wisnik, secundado por Milena Brito e Guilherme Wisnik, contando com a bela cenografia de Daniela Thomas e Maristella Pinheiro. Fui ao país da minha avó brasileira. E ouvi Darcy Ribeiro a dizer que o Brasil é “inventar o humano, criando um novo género de gentes, diferentes de quantas haja”, mas também Agustina Bessa-Luís a pontuar que “a tristeza e a alegria fazem parte do dia-a-dia brasileiro. Fazem parte da sua liberdade e da sua coragem. Temos de aprender com o Brasil”. Chico Buarque lembra que traz nas suas veias o sangue do açoitado e do açoitador. E Valter Hugo Mãe lembra que “estar disponível para todos os sentidos e todos os caminhos é algo que está no radical brasileiro”. Com emoção, somos transportados à semana de Arte Moderna de 1922, e à reinvenção brasileira moderna de Mário de Andrade.
Reportando-nos aos clássicos intérpretes da formação brasileira – Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior - dir-nos-emos em três países diferentes quase incompatíveis: “num deles, somos um exemplo da mais perfeita integração em terras tropicais” (conforme a primeira frase de Casa Grande e Senzala); no outro, somos “desterrados em nossa terra” (conforme o primeiro parágrafo de Raízes do Brasil); no terceiro, somos nem desterrados nem integrados, um detalhe malformado e atrasado da mundialização do capital que rege o “sentimento da colonização” (conforme o primeiro capítulo de Formação do Brasil contemporâneo). E assim o adjetivo complexo ganha pleno sentido. O que é “declarar de saída que se trata de algo que está fora do alcance de explicações prontas e que escapa a qualquer pretensão totalizante ou esgotante. E o que temos é um conjunto de biomas, de etnias, de culturas, de lógicas, de línguas (quase três centenas), de religiões, e um complexo de processos económicos e de classes sociais, marcadas pela desigualdade. Isto, além do complexo de inferioridade e de superioridade – “síndromes que brasileiros e portugueses costumamos frequentar” (como lembra José Miguel Wisnik). No fundo, importa desencobrir o encobrimento dos brasis numa espécie de desencobrimento mútuo de portugueses e brasileiros. Trata-se de “uma sociedade desigual, que desafia, não obstante isso, a pensar suas formas singulares e diversas de sociabilidade e de criação cultural. Um convite à experiência de brasis, sujeita necessariamente às funções, aos atritos, ao riso, beirando por vezes a admiração, o espanto, o fascínio e o horror”.
Eliane Brum escreve a Carta de Desfundação do Brasil, dirigida aos descendentes dos súbditos do Rei D. Manuel I e põe-nos a responsabilidade atual e futura perante a floresta, criada por todos que nela vivem durante 50 milhões de anos, e que em meio século se aproximou do ponto de não retorno. E em nome do tempo longo, Glicéria Tupinambá trouxe a vestimenta de penas de aves brasileiras, ao lado do manto indígena originário. É uma imersão total no Brasil brasileiro, onde se eterniza Portugal, no impensado de Eduardo Lourenço. E lembro essa fantástica realidade quando fomos a casa de Dona Canô no Recôncavo Baiano, em Santo Amaro da Purificação, e hoje recordamos em Maria Betânia – “Gosto de cantar e escolher minhas palavras para esse Brasil. Não posso viver sem isso!”
A sexta-feira preta ocorre na última sexta-feira do penúltimo mês do ano, no dia de hoje, 28 de novembro de 2025.
Com raízes nos Estados Unidos da América e mundializada pela globalização anglo-saxónica, indicia-se ser mais universalmente conhecida por “black friday”, como sucede entre nós, o que se lamenta, tanto mais que o seu nome e dicção, em português, é eficaz e marcante, mesmo em termos comerciais lusófonos. Ou sexta-feira negra? Tenho, por mim, a sexta-feira preta como menos artificial e elaborada, porque naturalisticamente mais nativista.
Porquê esta anglicização incorporando na língua portuguesa vocabulários desnecessários, quando o nosso idioma é portador de expressões que têm um significado igual e um efeito similar? Ou até um impacto superior, e não inferior, em termos de pronunciação linguística, com a vantagem de que fazemos “jus” à nossa língua materna como elemento e referência número um em termos da nossa singularidade como nação e no espaço lusófono.
Há que não contribuir para que nosso idioma seja “socialmente subestimado”.
Há que não promover o uso confidencial da nossa língua.
Há que não fazer o culto de esconder dos ouvidos externos um bem de que eventualmente nos julguemos ser os únicos possuidores.
Muito menos ter um complexo de inferiorização linguístico de algo que nos identifica e é uma língua de comunicação global e internacional, transcontinental e transcultural.
E que surge na galáxia linguística mundial como integrando o restrito conjunto das “central languages” (línguas centrais), no quadro de um sistema linguístico global, mesmo sabendo que o inglês surge como hipercentral, função que agora lhe cabe.
Se já há quem não resiste à sexta-feira preta em termos de um consumismo apelativo de um consumo compulsivo tendencialmente tido como enganador ou indutivo em erro, o ideal seria começar por não sucumbir a um estrangeirismo, um anglicismo tomado desnecessariamente por empréstimo.
Por preguiça mental ou puros interesses comerciais? Por ambos os motivos, por certo, a par de um provincianismo de seguir mimeticamente, com uma subordinação alegre, chique e inconsciente, o que é importado de países alegadamente “superiores”.
É lamentável que nem nós próprios, na nossa própria casa, não consigamos resistir a esta usucapião pacífica linguística, subtil e lesiva, de um bem jurídico que nos singulariza e universaliza.
Há que dispensar o cocktail da política do ódio, da mentira, do pessimismo
As desigualdades mais revoltantes não se gerem no descompasso dos processos simbólicos do inverso das coisas más serem as boas e de imediato identificá-las com o bem personificado na pessoa-divindade que se assume como tal.
Todos temos os nossos constrangimentos externos e internos que balizam o exercício das liberdades e nos instam a entender que ninguém escolhe livremente agendas na totalidade, o que também não nos condena a escolhas de óbvios defeitos e horrores.
O modelo avatar condiciona processo e resultado, circulação de narrativas e imagens, e procura o controlo da ignorância oferecendo-lhe os mais lustrosos jogos simplistas que se encaixam em todos os preconceitos considerados de senso comum, qual receita de controlo completo à escala planetária.
O enfraquecimento do ensino, da educação, dos meios de comunicação, a multiplicação de canais sem evoluções substantivas, a própria Internet, tudo emergiu numa mercantilização tremenda pela atenção humana.
As próprias teses do conspiricionismo já descobriram há muito a importância dos discursos a soundbites pois a atenção das gentes já não se mantém para além do instantâneo.
Muito, demasiado mesmo, se entregou ao poder do dinheiro, enquanto as dores se não queixavam dos ataques sem precedentes que as provocavam e que advinham da decisão referida ao poder puramente mercantilista.
Há que gerir as compatibilidades que impedem a vida dos naufrágios em naufrágios e, para tal, a simples força de vontade poderá não ser suficiente, e por essa razão as mutações devem ser usadas para convergir e virar os tortuosos e apocalípticos jogos em decisões conscientes num outro caminho de humanidade real.
A própria heterogeneidade espicaça a criar conteúdos e a descobrir o razão do mais urgente, e se não estivermos a ser apenas reativos, produziremos um modo de nos entendermos a nós próprios e às sociedades, evitando o extremo saque do mundo e a anulação completa de sistemas que ainda têm muito para serem refundados.
Para tanto dispense-se de imediato o cocktail da política do ódio, do pessimismo, da mentira.
A auto-confiança e a auto-ajuda são consideradas sentimentos parecidos; existe uma correlação observada entre ter a primeira e cultivar a segunda; e acredita-se em ambos os casos que causam emoções respeitáveis. São por isso encorajadas, consideradas desejáveis nas crianças, e objecto de estima. As noções foram inventadas por dois autores que viveram na mesma altura e que são frequentemente confundidos um com o outro. Há no entanto qualquer coisa de admirável na noção de auto-confiança, e qualquer coisa de duvidoso na noção de auto-ajuda.
O que é admirável na noção de auto-confiança não é naturalmente o exagero de supor que tudo depende das opiniões que temos a respeito de nós próprios, e em que costumamos acreditar; tais opiniões acelerarão quando muito o nosso metabolismo, far-nos-ão sair de casa sem cachecol, e levarão erradamente a imaginar que mais ninguém nota as vilanias que vamos cometendo. Mas a quem assim exagera só podemos lembrar que a estupidez humana está muito melhor distribuída do que se pensa.
O que é admirável numa pessoa auto-confiante é pelo contrário fazer certas coisas sem pedir desculpa, mas deixar de as fazer sem hesitação; ouvir as opiniões das outras pessoas, mas saber quando as opiniões das outras pessoas não adiantam; saber mudar uma lâmpada, mas saber quando precisa de um electricista. Haverá sempre quem veja estes momentos de independência e mudanças de direcção como manifestações de orgulho; mas trata-se de um orgulho venial. É no pior dos casos parecido com um ataque de soluços: desagradável mas assistemático, e aliás de curta duração.
No que diz respeito à noção de auto-ajuda, todavia, aquilo que é em todos os casos duvidoso é a insistência sistemática em que tudo aquilo que nos diz respeito depende de nós. O Evangelista tinha já sugerido que os médicos, para variar, se tentassem curar a si próprios. Sabia evidentemente que há qualquer coisa de suspeito na ideia de auto-medicação, como na ideia de profecia em causa própria, e na ideia de que o tempo que fará amanhã depende da nossa energia mental de hoje. O santo padroeiro da auto-ajuda é o Barão de Münchhausen, que há cerca de duzentos e cinquenta anos terá tentado içar-se de um pântano puxando pelo seu próprio carrapito.
A maior secção, e a mais frequentada, em qualquer livraria contemporânea é normalmente a secção onde se alinham os meios incontáveis de puxar por carrapitos próprios. Sob a designação genérica ‘auto-ajuda’ incluem-se aí os livros em que nos explicam que somos os nossos melhores amigos, os nossos melhores conhecedores, os nossos melhores terapeutas, os nossos maiores admiradores. Incluem-se também livros em que nos recomendam que tomemos o nosso destino nas nossas mãos, e em que nos explicam que enfrentar o nosso destino é como mudar o arranjo de uma sala; e que tudo o que nos diz respeito é fácil como desenvolver uma personalidade, ou ir acampar sozinho.
Miguel Tamen Escreve de acordo com a antiga ortografia
Perante o horror, inevitável a pergunta: Onde está Deus?
Actualmente, porque, com a televisão e outros meios, temos acesso às imagens, talvez seja sobretudo perante os horrores das guerras que se pode ficar estarrecido perante o silêncio de Deus. São bombardeamentos que não deixam pedra sobre pedra, que matam indiscriminadamente homens, mulheres, crianças, e ficamos esmagados sobretudo pela dor, o clamor, as lágrimas, a desorientação das crianças inocentes. Onde está Deus?
Joseph Ratzinger, chamado aos 17 anos para o serviço militar do Reich, foi desertor e prisioneiro dos americanos. Já Papa Bento XVI, como já aqui escrevi, esteve em Auschwitz e fez um discurso dramático e deveras emocionante: "Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o ser humano sem precedentes na História, é quase impossível, e é particularmente difícil e deprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atónito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: Porque te calaste? Porque quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque se calou?”
Perante o horror do mundo e todos os mortos e todas as vítimas — ah!, as vítimas inocentes — e o aparente silêncio de Deus, percebemos a tentação do ateísmo. E até poderá tratar-se de um ateísmo moral, um ateísmo ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus, que é preciso recusar por causa da moral: um mundo com tanta dor, tantas injustiças, tanto sofrimento de inocentes, tanto cinismo brutal do poder, como pode ser criação de um Deus bom? Mas a quem recusa Deus assalta-o outra pergunta: se Deus não existe, donde vem o bem e a nossa revolta, desde a raiz de nós, contra o mal e a morte, clamando por justiça e salvação para as vítimas inocentes? Porque, sem Deus, afundamo-nos no nada e anula-se, em última análise, a própria diferença entre bem e mal. Por isso, segundo Jürgen Habermas, para mim o maior filósofo vivo, agnóstico, o que mais nos inquieta é “a irreversibilidade dos sofrimentos do passado — a injustiça contra as pessoas inocentes vítimas de maus tratos, aviltamento e assassinato — sem que o poder humano possa repará-los”, acrescentando: “A esperança perdida da ressurreição” sente-se como um grande vazio.”
Há uma pergunta decisiva (para Max Horkheimer, da Escola Crítica de Frankfurt, a que Habermas também está ligado, é mesmo “a pergunta fundamental da Filosofia”): o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? As vítimas inocentes clamam, e um grito sem fim, ensurdecedor, percorre a História. Há uma dívida incontável para com essas vítimas. Quem a pagará?
Max Horkheimer e Theodor Adorno, principais representantes da Escola Crítica, com quem Bento XVI entrou em diálogo na sua encíclica sobre a esperança, “Salvos em Esperança”, viveram filosoficamente a inconsolável “tristeza metafísica” da impossibilidade de fazer justiça às vítimas da História. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse possível a edificação de uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela não poderia ser feliz. A razão é simples: ou essa sociedade se lembrava de todas as vítimas do passado, que não participam dela, e então seria atravessada pela infelicidade, ou não se interessava por essas vítimas, e então não era humana, porque não solidária.
Adorno e Horkheimer exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, não podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, há uma verdade da religião, apesar de todas as suas traições no conluio com o poder e os vencedores: a religião “no bom sentido” é, segundo Horkheimer “o anelo inesgotável, sustentado contra a realidade fáctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justiça”. Não se trata de um desejo egoísta, mas da esperança contrafáctica de que a realidade dominante da injustiça não tenha a última palavra. Daí, “o anelo do totalmente Outro”, o “anelo da justiça universal cumprida”, “a esperança de que a injustiça que atravessa a História não permaneça, não tenha a última palavra.”
Esta esperança tem de traduzir-se numa práxis solidária tal que, como disse de modo incisivo Kant, “a práxis tem de ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.” Nesta práxis, está implicado o pensamento do Absoluto, como exigência moral e como anelo de que o finito e o mundo da injustiça não sejam a ultimidade e o definitivo. Também neste sentido, Adorno escreveu que “o pensamento que não se decapita desemboca na Transcendência”. Neste domínio, a única filosofia legítima seria “o intento de contemplar todas as coisas como aparecem à luz da redenção”. A pergunta pela esperança truncada das vítimas, que acusam o mundo da história dos vencedores, obriga a pensar para lá dos limites da imanência, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela justiça universal.
No seu diálogo com a Escola Crítica de Frankfurt, Bento XVI reconheceu que a necessidade individual da realização plena e da imortalidade do amor já é “um motivo importante para crer que o ser humano está feito para a eternidade”, “mas só o reconhecimento de que a injustiça da História não pode de modo nenhum ter a última palavras” convence da necessidade da ressurreição dor mortos e da vida eterna.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado 22 de Novembro 2025
Na passagem dos 180 anos do nascimento de Eça de Queiroz realizaram-se em colaboração do Círculo Eça de Queiroz, do Grémio Literário e do Centro Nacional de Cultura diversas iniciativas, entre as quais um roteiro do Chiado queirosiano, conduzido por Guilherme d’Oliveira Martins no sábado 22 de novembro.
Quando relemos “Os Maias”, lembramo-nos do longo tempo de feitura e de revisão que o autor dedicou a tal obra, o que permite que aí encontremos um conjunto complexo e heterogéneo de elementos, que nos levam a compreender a sociedade do tempo, o património cultural material e imaterial, a cidade, a natureza e a paisagem, e a capacidade criadora ditada pela contemporaneidade. Alguém disse “está lá tudo”… Não sei se está, mas a verdade é que há aí muito do que permite compreender criticamente a nossa realidade. Fizemos um longo percurso, o apuramento do sentido crítico que Eça e a sua geração nos ensinaram teve os seus resultados, mas há muito para fazer. Daí a importância de podermos lidar com a oficina do escritor, percebendo que à mediocridade devemos saber contrapor o não deixar ao abandono o que recebemos e a aprendizagem exigente da informação que tem de se tornar conhecimento e do conhecimento que deve ser sabedoria…
Na célebre carta a Ramalho Ortigão de 20 de fevereiro de 1881, a propósito de uma hipótese confusa de publicação em folhetins de Os Maias no “Diário de Portugal”, por Lourenço Malheiro, Eça fica na esperança de poder obter uma boa retribuição monetária pelo romance. Oiçamos o escritor: “e como via nessa proposta uma pequena fortuna (o Malheiro afiançava-mo) decidi logo fazer não só um romance, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco. A ocasião confesso era sublime para jogar uma enorme cartada”… O episódio revela, porém, desencontros e incompetências, atrasos tipográficos e outras incapacidades. Mas só em 1888 essa obra, considerada quase pronta sete anos antes, viu finalmente a luz do dia. O que importa dizer é que o romancista fez indiscutivelmente uma grande aposta – e é esse o resultado de que todos somos beneficiários, ao ler uma ampla representação da sociedade do momento. Em 12 de junho de 1888, em carta a Oliveira Martins, dirá: “Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e sobretudo o sarau literário. Basta ler isso e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa”. Os Maias são um retrato do Portugal citadino do final do século XIX. Há um rico percurso que abrange desde um tempo de confronto entre a tradição e os ventos novos, representado pelo avô Afonso da Maia, que nos liga à sociedade antiga, até chegar aos efeitos da acalmação e do progresso concretizado pela Regeneração. Dir-se-á, porém, que confluem a imitação das sociedades avançadas da Europa e a ausência de meios suficientes para assegurar que os melhoramentos de Fontes Pereira de Melo tornassem o país próspero e superasse o atraso. A sombra do défice e da dívida pública abatem-se sobre o país (como se vê no jantar do Hotel Central) – e os ingredientes do romance trazem-nos, ao lado de uma trágica trama amorosa entre dois irmãos, que se desconhecem, o confronto entre o tédio vivido por Carlos da Maia e o pensamento de João da Ega, ditado pelas influências de um fim de século pessimista e contraditório. Há mudanças profundas que se reclamam, há intenções. Mas o pano de fundo revela futilidade, descrença, ilusão e mediocridade.
Indiscutivelmente, Os Maias é um romance fiel ao ambiente que se vivia quando foi publicado e escrito, o que faz crer a muitos que continuamos a persistir nessa sociedade retratada há tantos anos, numa obra longamente escrita e pensada… As diferenças na sociedade são profundas, mas há reminiscências que perduram. A escrita é cortante, clara, incisiva e tem de ser reconhecida na sua imensa riqueza. Os Maias assumem um lugar central no nosso panorama literário, pelo carácter, pela diversidade das personagens, pela força da escrita e pelo sentido crítico. Representam uma das marcas deixadas pela Geração de 1870 – graças a uma voz severa, mas não a um negativismo sem horizonte. Devemos lembrar o que Eduardo Lourenço disse em O Labirinto da Saudade: “Não é suscetível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e dececionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol”. E sobre a crítica de Fialho de Almeida, o próprio Eça dirá em sua defesa: “condenar um escritor, como caluniador e maldizente, porque ele revela os ridículos do seu país – é declarar maldizente toda a literatura de todos os tempos, que toda ela tem tido por fim fazer a crítica dos costumes, pelo drama, a poesia, o romance e até o sermão!” (a Mariano Pina, 27.7.88). Talvez A Ilustre Casa de Ramires seja mais problematizante, mas também mais enigmático. Estamos, assim, diante de uma panóplia inesquecível, que deve ser recordada por quem queira conhecer a literatura portuguesa. Lembremos Maria Eduarda, fantasma marcante no romance, a condessa de Gouvarinho, Jacob Cohen, Dâmaso Salcede, Tomás Alencar, Palma Cavalão… E não se esquece, no Primo Basílio do célebre diálogo na entrada da Basílica dos Mártires entre Luísa e o Conselheiro Acácio. A diversidade romanesca esconde, no entanto, uma uniformidade desgostante da sociedade que decai. Mas é de literatura como realidade viva e atual que cuidamos, eis a razão desta escolha – de uma obra-prima da língua portuguesa de sempre. E na rampa de Santos, Carlos e João da Ega dão ainda uma corrida atrás do Americano – “Ainda o apanhamos!”.
ATORES, ENCENADORES (XXX) FRANCISCO RIBEIRO E OS COMEDIANTES DE LISBOA por Duarte Ivo Cruz
Não vamos transformar esta série de artigos num levantamento histórico, mesmo de história moderna do espetáculo em Portugal: mas é justo e necessário para compreensão da estética e da política do teatro português contemporâneo, enquadrar o teatro que hoje se faz, e os artistas que o fazem, numa perspetiva de antecedentes históricos, designadamente a nível de repertório moderno da época e de hoje, desde que de qualidade: com a “agravante” que essa contemporaneidade, em tantos exemplos, era na época perfeitamente “vanguardista”.
E mais: o mérito de quem o fez em Portugal surge hoje reforçado pelo ambiente difícil, distanciado, no mínimo desconfiado ou repressivo com que esses espetáculos chegavam ao público – e quando chegavam… Nesse sentido, ainda falarei aqui de algumas iniciativas hoje “históricas” mas na data extremamente relevantes e importantes.
Referi, no artigo precedente, a importância de Francisco Ribeiro na estruturação e atualização do teatro em Portugal, ao longo do século passado. E já na altura vimos que não se tratou, então como agora, de uma simples evocação “histórica” – do espetáculo e da própria literatura dramática. Já não seria pouco, dada a época. Mas o que importa salientar é que a atualidade dos autores, de facto em muitos casos desconhecidos na época, conciliou-se com uma renovação de elencos, de estilos e de estéticas que abrangeu a arte teatral portuguesa como um todo. E de tal forma, que não perdeu hoje atualidade.
Está nessa perspetiva a evocação do companhia dos Comediantes de Lisboa, dirigida nos anos 40/50 por Francisco Ribeiro e pelo irmão António Lopes Ribeiro. E isto porque se mantêm atuais muitos dos autores e das peças na altura estreadas, mas sobretudo, essa perspetiva de renovação que constituiu o cerne dos programas, mesmo quando reencenavam autores já na altura clássicos, e cito como tais as peças de Ibsen, de Tolstoi, de Camilo, de D. João da Câmara, de Dumas Filho – e muitos deles constituíam revelações, no que respeita ao teatro encenado em Portugal. Isto não obstante outras iniciativas então empreendidas, e é justo evocar a renovação que também trouxe à cena a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro.
Mas o repertório dos Comediantes de Lisboa era de facto moderno e na época inovador. Inclusive, pela revelação de dramaturgias então pouco ou nada conhecidas em Portugal. Basta lembrar que o primeiro espetáculo dos Comediantes de Lisboa foi uma peça americana, o ainda hoje evocável “Não o Levarás Contigo” de Kaufman e Hart, depois divulgado na versão cinematográfica. E se passarmos rapidamente o repertório traduzido dos Comediantes de Lisboa, encontramos peças como a “Fanny” de Marcel Pagnol, a “Eletra” de Giraudoux, o “Pigmalião” de Bernard Shaw, “O Círculo” de Somerseth Maugham, e ainda textos de Marcel Achard e tantos mais.
Mas mais interessante será a insistência em dramaturgos portugueses contemporâneos, o que desde logo reforçava a dificuldade de os apresentar em público. E nesse aspeto, apraz-me salientar a estreia do “Baton” de Alfredo Cortez, pela qualidade do texto mas também pela revelação que na época constituiu, depois de anos de proibição.
O tema da peça será delicado – mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem, numa retoma, agora num ambiente social e urbano desenvolvido de alta burguesia, antes referido por Cortez num meio rural em “O Lodo”. A peça acaba por propor uma solução de renúncia ética e social, mas nem por isso causou menos turbulência na época. “Sátira burguesa” dizem António José Saraiva e Óscar Lopes na “História da Literatura Portuguesa”.
Ora, importa então referir que a peça, proibida em 1938/9, acabou por ser, anos decorridos, um dos mais assinaláveis espetáculos dos Comediantes de Lisboa, a partir da encenação de António Lopes Ribeiro e da interpretação de João Villaret no papel de “Tatinho - rapaz novo, efeminado”, diz a didascália, e percebemos bem o que representaria essa caracterização do personagem, no Teatro da Trindade, em 1946!
Mas ficou também a qualidade do restante elenco, desde Lucília Simões a Maria Lalande, José Gamboa, Josefina Silva, Lucia Mariani, e outros mais, de primeiro plano já na altura: e muitos deles, ainda os vi anos depois representar, só que em personagens bem mais idosos…
Duarte Ivo Cruz
Obs: Reposição de texto publicado em 01.07.15 neste blogue.
A atribuição do Prémio Camões a Ana Paula Tavares constitui um facto especialmente importante, uma vez que reconhece a relevância da língua portuguesa no mundo, e em especial para a poeta, historiadora e antropóloga na cultura dos trópicos. Estamos perante o caminho nómada de um idioma, enriquecido pela riqueza da permanência e da passagem. Ler e ouvir Ana Paula Tavares é compreender a diversidade de experiências que a escritora foi testemunhando. “Os contadores de histórias do meu país (ouvimo-la) sabem como usar as suas línguas maternas para realizarem as tarefas de Deus, a transmutação do corpo em voz, e uma vez voz, repetir o murmúrio da tradição que assim se fortalece e se transforma em pedra de tanto durar. (…) Assim se acumulam notícias e cresce o espanto, que a língua tem dessas armadilhas: amortece a queda, cuida dos viventes, ensinando a conviver com a notícias deste danado tempo dos anos da peste”.
Nascida no planalto da Huíla, Paula Tavares deixou-se fascinar pela região e pela sua vida. Aí foi a sua primeira casa a dois mil metros de altitude, onde o olhar se perdia na distância do horizonte, limitado pela serra. A sua poesia liga-se aos ciclos da vida, à terra, às flores, aos frutos, e está cheia de oralidade, perante o mistério e a diversidade das línguas locais. O ritmo dos poemas é dominado pela cadência dos relatos mais antigos dos comerciantes de gado, que iam e vinham. E o mundo das mulheres fascinava-a. Elas compreendiam bem a vida autêntica. “Filha da savana / A árvore fêmea / Oferece os frutos / Na estação seca / Comida de onça / Remédio de gente / Serve de goma / Ao bairro das oleiras”. Cada poema encerra o entendimento de que as pessoas e a natureza se casam naturalmente. E todos os segredos se revelam aí. “Os livros, as estações do ano, as chuvas e as palavras jazem esquecidas nos baús da memória (diz-nos ainda). Ninguém sabe como ou porquê tal fenómeno acontece e dele só damos conta quando de repente, assim de manso, um acontecimento, uma moda, um ato de vontade, traz à superfície de muito turvas águas a palavra, o cheiro da terra molhada, as goiabas penetrando os poros, saturadas de cheiro, o silêncio breve de uma igreja vazia, o doce calor de uma vela acesa. As línguas francas, próprias ou alugadas, estão cheias desses enigmáticos recursos e engordam à custa de vocábulos repescados, esquecidos, retomados outra vez”. E, lembrando Mia Couto, Ana Paula diz-nos, no fundo de si: “Há que celebrar a viagem a empreender dentro de nós”.
Neste ainda ano do centenário do nascimento de Camões, a escritora faz da nossa língua comum o arado que vai permitir que a terra nos dê o fruto da palavra, que entra no coração da gente. É, pois, com emoção que recordamos o exemplo de Ana Paula Tavares, e que ouvimos as suas palavras, de mulher, lutadora da liberdade, amante da escrita, da língua e da generosidade dos povos que nos unem e fazem compreender as diferenças, sentindo-a como um elo forte que liga as várias margens do Atlântico. E ao lembrar há dias o exemplo da autora de “Sangue da Buganvília” com os confrades da Academia Brasileira de Letras quis exprimir como a língua portuguesa se expande nos quatro cantos do mundo exigindo-nos uma vontade comum de continuar o caminho ao encontro da liberdade e da diferença.
Se o infinito exprime a ideia de um caminho sempre aberto, um processo contínuo e permanente de continuidade sem fim, uma busca pelo ilimitado, um ciclo eterno que nunca se conclui, à imagem de uma biblioteca infinita que contém todas as histórias e saberes possíveis, tem de ser inerentemente antiautoritário, tal como a liberdade o é, valendo-se ambos de todos os recursos, desde logo intelectuais, ao seu dispor, dado que quanto mais se avança, mais essa procura pelo infindável e a liberdade avançam.
Têm de estar abertos à experimentação, à dúvida, à discordância, à refutação, à tolerância, à incerteza, à ignorância, à diversidade, à imprevisibilidade, à crítica, ao provisório, a conclusões probabilísticas, à mudança, ao não sectarismo, à criatividade, à autonomia e independência, à universalidade, ao falível, ao indeterminismo, à atividade criativa e ao empreendedorismo contínuos.
E se o cérebro humano, estruturalmente finito, tem a capacidade de conceber o infinito, imaginando e idealizando mundos e universos intermináveis, números sem fim e possibilidades infinitas, também temos de ter asas para voar sempre mais alto, não nos servindo de nada se a porta da gaiola nunca se abrir, roubando-nos a curiosidade e a liberdade.
Mas há um preço, que se chama responsabilidade, que transcende a abstração e se materializa num legado que é um elo entre o passado, o presente e o futuro, sendo preciso saber, em cada momento, se se pode decidir quando voar e quando parar, sobrepondo o bem comum à nossa vontade individual.
O fascínio e sedução pelo infinito e por ser livre não é voar indefinidamente e porque sim, é também poder justificar as nossas escolhas.