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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 15 a 21 de dezembro de 2025


Javier Cercas aceitou acompanhar o Papa Francisco na viagem à Mongólia e o resultado é uma obra de antologia. «O Louco de Deus no Fim do Mundo» (Porto Editora) é um diálogo apaixonante, entre um ateu confesso e o Sumo Pontífice. Nunca tal tinha sido feito, e percebemos que num diálogo entre pessoas civilizadas todos ganhamos – porque a fé é um dom que sopra onde menos se espera.


Hannah Arendt num ensaio célebre sobre o papa João XXIII conta que uma velha criada romana lhe disse que não compreendia como um Papa poderia ser um verdadeiro cristão, como ele. “Ninguém se terá apercebido de quem ele era?” E a filósofa alemã comentava: “A relutância da Igreja em nomear para altos cargos esses raros indivíduos cuja única ambição consistia em imitar Jesus de Nazaré não é difícil de compreender”. E Cercas pergunta: «Seria Bergoglio um desses poucos? (…) Seria Francisco um segundo João XXIII, o protótipo de um papa calmo, humilde e sem ambições, e por isso teve a ideia inicial de se chamar João XXIV (e a ideia final de se chamar Francisco)? Bergoglio será simplesmente um verdadeiro cristão sentado na cadeira de São Pedro? A Igreja ter-se-á enganado ao elegê-lo, tal como, segundo a criada romana de Hannah Arendt, se enganou ao eleger João XXIII? Será esse o segredo de Bergoglio?» Esta a grande interrogação que está presente ao longo deste diálogo. Os pontos relevantes são múltiplos e estamos perante o modelo de um encontro inteligente que lança pistas interessantes e inteligentes. E descobrimos, com o cardeal Tolentino, que é poeta, e com Javier Cercas, que a fé é uma intuição poética que só se pode expressar em linguagem poética. Mas encontramos ainda um caso prático com orientação dada pelo Papa, sobre a Doutrina da Fé, que certamente teria enchido de raiva o Grande Inquisidor de Dostoiévski: “O dicastério (…) noutras épocas chegou a utilizar métodos imorais. Foram tempos nos quais, mais que promover o saber teológico, se perseguiam possíveis erros doutrinários. O que espero de ti é, sem dúvida, uma coisa muito diferente”. E o destinatário dessas palavras completa. “Perante uma acusação, o dicastério deve ser um espaço de debate com essa pessoa, um instrumento que nos permita averiguar se esse alguém tem uma inquietação legítima que talvez seja preciso ter em conta, ou se algo que, à primeira vista, parece um erro, pode ser, na realidade, uma tentativa de expor um aspeto ou um problema que foi esquecido ou que não foi suficientemente pensado pela Igreja”…  Os tempos da Igreja são longos, o amadurecimento dos consensos é difícil. Compreende-se assim que seja preciso dar passos seguros. Mas há também quem se impaciente… O Papa Francisco, porém, condena o clericalismo nas suas diferentes manifestações…

Mas qual o segredo de Begoglio? Diz-nos Javier Cercas: “O segredo de Bergoglio é que não tem segredo nenhum: o segredo de Bergoglio é ser um homem comum e corrente”. Mas há o risco da mistificação. O eu pessoal e o eu social contradizem-se. “Definir o Papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo”. É o próprio papa quem o esclarece. “Francisco oculta Bergoglio, mas revela o seu desejo de ser Francisco”. Como leitor apaixonado de Chesterton, cultiva a humildade e demarca-se do orgulho satânico, mas não esquece as contradições íntimas, a lembrança das dificuldades, das angústias e dos problemas sentidos na Argentina. E é a conquista da humildade que o torna um cristão sentado na cadeira de São Pedro.

Três partes compõem este percurso: À Procura de Bergoglio; os Soldados de Bergoglio e o Segredo de Bergoglio. Há um jogo de procura e descoberta. “Foi para isto que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo”.

Ao ler o livro, compreendemos que a realidade humana esta cheia de elementos contraditórios. A Igreja é uma realidade viva, que se relaciona com o mundo como expressão da humanidade, com os seus defeitos e virtudes. E Javier Cercas desempenha exemplarmente o seu papel de interrogador e de analista, como um escritor sério que não se deixa levar pelas aparências, mas que sente a riqueza de uma realidade milenar que tem fortes raízes e busca a essência da vida…

*

A viagem ecuménica do Papa Leão XIV constituiu oportunidade para assinalar os 1700 anos do Concílio de Niceia. Tratou-se de renovar à luz dos dias de hoje o sentido do Concílio convocado em 325 pelo Imperador Constantino. O ecumenismo significa uma compreensão da diversidade com todas as suas consequências, como reconciliação, e como troca dos nossos dons e patrimónios espirituais. Neste espírito se insere a Carta Apostólica In Unitate Fidei, dirigida pelo Papa a toda a Igreja em sentido universal. “Para podermos desempenhar este ministério de forma credível, devemos caminhar juntos para alcançar a unidade e a reconciliação entre todos os cristãos. O Credo de Niceia pode ser a base e o critério de referência deste caminho. Propõe-nos efetivamente um modelo de verdadeira unidade na legítima diversidade. Unidade na Trindade, Trindade na Unidade, porque a unidade sem multiplicidade é tirania, e a multiplicidade sem unidade é desintegração. (…) Devemos, portanto, deixar para trás as controvérsias teológicas, que perderam a sua razão de ser, para adquirir um pensamento comum e, mais ainda, uma oração comum ao Espírito Santo, para que nos reúna a todos numa única fé e num único amor”. Contudo, falar de ecumenismo é referir o método sinodal e o grande trabalho confiado às Igrejas cristãs no sentido da salvaguarda da liberdade religiosa como pedra angular dos direitos humanos. Eis como hoje o diálogo entre religiões e culturas deve constituir um contributo decisivo para uma cultura de paz e para a defesa da dignidade humana. 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE PEDRO TAMEN 


23.

E ao fim do meu dia
a matéria de que se faz a minha vida
de novo abandonada
de novo de novo abandonada
pergunta-me silenciosa
se ao apagar da luz
a vida terá princípio.


in O Livro do Sapateiro, 2010


23.

And at the end of my day
the matter of which my life is made
again abandoned
yet again and again abandoned
asks me in silence
if at the going out of light
life will have a beginning.


© Translated by Ana Hudson, 2010

in Poems from the Portuguese 

 

"SANGUE SÁBIO"

  
    Flannery O’Connor com os seus pavões


Flannery O’Connor (1925-1964) é uma das grandes escritoras norte-americanas do século XX, cujo centenário assinalamos. O seu estilo é marcadamente original, representando, enquanto natural dos Estados do sul, um sinal especial de dureza e sinceridade, perante a presença dogmática protestante dos seus conterrâneos. Lê-la constitui um desafio exigente quer pelo carácter complexo dos seus temas, quer pela construção narrativa e pelo sentido que atribui ao destino dos seus protagonistas. O seu catolicismo leva-a a confrontar a realidade e a Graça, os acontecimentos e o mistério. O que caracteriza o seu pensamento é a capacidade de encarar o mundo do avesso. A consciência do mal e o pecado tornam-se não apenas um sobressalto, mas uma descoberta da humanidade. Como Mauriac, Bernanos ou Graham Greene, a escritora sublinha as situações limite, percebendo o mundo imperfeito. Deus escreve direito por linhas tortas, lembrou-o Claudel no pórtico de Le Soulier de Satin. De facto, Flannery preocupa-se, antes de mais, com a observação, a especificidade, a credibilidade, a verdade, ou seja, com a não indiferença perante o mundo e os outros, não ignorando o que parece ser simples e superficial, porque tudo lhe permite compreender a essência da vida. Por isso, alguém disse que foi apenas uma contadora de histórias, tendo sido muito mais.

Demarcando-se do “grotesco” sulista do “Bible Belt” e da ortodoxia luterana, dominados pela subalternidade, O’Connor vai assumir uma atitude inconformista, deixando nítido, como salienta Pedro Mexia no Prefácio a Um Diário de Preces, que «o “dogma” cristão é uma hipótese possível sobre o “mistério” da humanidade. De modo que quanto mais dogmático mais enigmático, ou seja mais verdadeiro». Quando afirma que O Céu é dos violentos,  sabe que “o amor deve ser pleno de fúria”, porque a guerra celestial propõe-se abandonar a sombra e procurar o sol. Cristo não traz a paz mas a espada, dizem os Evangelhos. E entre o amor dos seus pavões, as tarefas da quinta, os cuidados da doença incurável, a romancista lê S. Jerónimo e quantos a possam esclarecer sobre os mistérios da Graça.

Afinal, os temas que talvez não fizessem sentido nos dias de hoje abrem os olhos. Em lugar da placidez da indiferença, importava a luta contra os paradoxos da vida. E que é a literatura senão essa marca inesperada que abre horizontes onde menos se espera? E compreende-se que a protagonista do conto Por que motivo se rebelam os pagãos procurasse na leitura a revelação do que a intrigava. “Não era raro (…) deparar-se com uma passagem estranha sublinhada num livro que o filho deixara aberto algures e ficar a cismar sobre ela dias a fio. Uma passagem que encontrara num livro por ele deixado no chão da casa de banho no andar de cima ficara-lhe sinistramente gravada no espírito”. Em Sangue Sábio, o seu primeiro romance (1952), um jovem, neto de um pregador ambulante, abandona a fé ao servir no exército durante a Segunda Guerra Mundial. Ao regressar ao Tennessee, compreende a força da transcendência na comunidade, mas decide combatê-la através da fundação da sua “Igreja Sem Cristo”… Eis o método de Flannery O’Connor: partir da contradição para chegar à essência das coisas, oferecendo-nos sempre o que nunca nos pode deixar indiferentes. 


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


238. DO SUBLIME


Associa-se o sublime, em geral, ao excelso, grandioso, soberbo, esplêndido, digno de admiração, de uma beleza celestial, radiosa e magnífica, despertando pensamentos e sentimentos nobres de respeito.   

Mas há que não confundir a noção do belo e do sublime, dado este também representar um desafio à nossa vontade, sendo mais forte que nós, uma força maior que a dos humanos e que, na sua grandiosidade, esmagamento ou ousadia, nos pode provocar fúria ou arrebatamento. 

Daí que, elevando-se acima do humano e convidando-nos a aceitar as nossas limitações, ao desafiar a nossa vontade pode não provocar apenas um julgamento de admiração e respeito, mas também ira e ressentimento, fazendo sentir-nos humilhados pelo que é poderoso e insolente e maravilhados pelo que é poderoso e nobre, podendo chegar à adoração e veneração.     

Se o sublime nos faz sentir pequenos, porque diminui a nossa dimensão, apoucamento que, só por si, pode ser desagradável, também pode ser satisfatório, na medida em que, por exemplo, há quem viaje para atravessar e observar paisagens a fim de vivenciar emoções espiritualmente avassaladoras e gratificantes, viajando pelos espaços infinitos ou esmagadores dos vastos desertos, cadeias de montanhas, glaciares, icebergues, céus, oceanos  e outros lugares procurados intencionalmente para que, quem os procura, se sinta pequeno. E podemos não ter palavras para exprimirmos o que sentimos, estabelecendo-se uma relação espiritual com o que observamos.

O sublime excita, supera-nos e se mais forte não o devemos ter como necessariamente odioso, dado que nos interpela e transcende, ensinando-nos que o universo é mais poderoso que nós, o que está tradicionalmente associado ao nome de Deus e das divindades.   

Há quem o tenha como a nossa maior paixão e a nossa suprema experiência emocional, que está para além da alegria ou do contentamento e do acalmar no belo, mesmo quando baseado no perigo, no temor ou pânico. 

 Elevar o espírito do sublime pode traduzir-se em soltar exclamações diante do ilimitado e do infinito, ter medo, admiração e respeito por tudo aquilo que desafia a nossa vontade e a transcende.   

Por meio da sua força e grandeza, ajuda-nos a aceitar, sem azedume nem jeremiadas, os impedimentos que somos incapazes de superar e as ocorrências insondáveis que desassossegam as nossas vidas e a que não somos capazes de dar sentido, recordando-nos a nossa efemeridade e vulnerabilidade, contrariando a afirmação de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”


12.12.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

NÚCLEO 

  
    James Turrell


Como noites, as noites voltavam a arrefecer.

Nas noites de lua cheia, viajávamos sempre juntos, viajávamos tanto que perdíamos o medo do fim, de qualquer fim.

Não conseguíamos esforçar-nos mais por uma coisa viva como aquela que vivíamos.

E sobrevivíamos sempre porque nos salvávamos de modo diferente, ou não nos tivéssemos amado tal como um homem e uma mulher de folhas.

Um jardim.

Árvore aberta numa cama de flores de braços e mãos

e entrávamos na eternidade.

Foi tudo tanto que um dia te senti um caos que não sabia passar sem mim, que era um caos só teu, mas com razão de dois, e significava que a fresta se dividia de com tanta força nos unir.

Mas tudo fragmentos da parte e não do todo.

Foram imensas emoções. Tudo nos entrou pela janela aberta, por aquela por onde aparece o núcleo, aquele único mundo que nos diz que os humanos devem aprender a amar-se, mesmo quando não responder possa querer dizer muitas coisas,

e a ternura, a ternura

uma réplica de um romance russo.

Realidade.

Realidades que têm o desaforo do amor e o acesso cor de carmim às glórias, e nós por lá também.

As macieiras carregadas, pacientes, reconquistam-nos em tudo,

e tanto é o que não nos pertence como aquilo em que nos temos

e é por isso que escrevo


Teresa Bracinha Vieira

A POLÍTICA DA LÍNGUA

  


A melhor política da língua e a única decente é: nenhuma. Deviam assim desaparecer todas as cátedras portuguesas pagas pelo governo português em universidades estrangeiras; todos os professores de português pagos pelo governo português, fora de Portugal; todas as regras sobre ortografia, e todas as tentativas grotescas de sugerir que por escreverem da mesma maneira as pessoas vão falar da mesma maneira; e de insinuar que quem fala da mesma maneira não pode deixar de estar de acordo; em suma, devia desaparecer toda a política externa baseada em afinidades linguísticas; e extinto o Instituto chamado maliciosamente Camões. Para o necessário bastam os hábitos existentes e as liberdades fundamentais: de expressão, de comércio, e de circulação.

Quando se fala de políticas fala-se de meios e de modos de encorajar certos comportamentos. No caso da língua portuguesa os comportamentos não são claros: será o falar português? O impressionar pessoas que não falam português? Fazer versos? As complicações aumentam porque a chamada política da língua tem uma dimensão internacional. Ao desejo de encorajar comportamentos linguísticos fora do país, mesmo que não se saiba quais, corresponde a fórmula opaca ‘a defesa da língua.’ A expressão intima campanhas militares, e inimigos numerosos; mas também não é claro quem possam ser.

Vistas as dificuldades logísticas, a defesa da língua consiste essencialmente em aulas profilácticas de português coloquial, literatura em tradução, e visitas a feiras e congressos; estes processos não requerem discernimento especial; visam cativar estrangeiros por atacado. Há o risco porém de, no seu cativeiro, os estrangeiros poderem aprender a conjugar o infinitivo pessoal. A habilidade torna-os capazes de exercer medicina, abrir floristas, ou comprar transportadoras aéreas de modo idiomático; e tais eventualidades correspondem aos piores pesadelos dos defensores da língua.

Uma língua estrangeira é uma coisa que dá trabalho a aprender. É como tocar violino, engolir fogo ou resolver equações diferenciais. É por isso preciso uma boa razão para o fazer. É natural que haja pessoas com boas razões para aprender português. Nunca todavia serão muitas, e as suas razões serão sempre muito circunstanciais. Razões circunstanciais não requerem políticas. São sempre particulares, e na maior parte dos casos desinteressantes.

Quando se torna em objecto de política, a língua transforma-se em religião; os barulhos portugueses mais primitivos passam a ser vistos como manifestação oracular de deuses. Um poeta brasileiro chamou-lhes por isso a última flor do Fábio. Em Portugal a língua é um objecto de culto no altar onde se adoram mais restos das religiões da Lusitânia: a luz de Lisboa, a ética republicana e a porca de Murça. Não pode nem deve naturalmente proibir-se ninguém de acreditar nessas coisas; mas não se deve legislar sobre elas, exactamente como não se deve legislar sobre religiões. Uma consequência de se aceitar que o estado não deve legislar sobre religião é aceitar-se que não deve legislar sobre a língua.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Paul Ricoeur © EPA/Juerg Mueller/Lusa


O pecado original. Com uma excepção?


Aconteceu-me, há muitos, muitos anos — era ainda jovem —, que, no final de uma conferência, no período das perguntas, uma senhora me atirou: “Sempre é verdade o que dizem: o senhor nega dogmas da Igreja!” Pedi-lhe para dar exemplos. Ela: que tinha negado o dogma do pecado original.

Aí, perguntei-lhe se tinha filhos. E ela: “sim, tenho duas filhas”. Dei-lhe parabéns sinceros e desafiei-a a dizer-me se acreditava sinceramente que as duas filhas tinham sido geradas em pecado e que ela tinha andado nove meses de cada vez carregando com duas filhas em pecado dentro dela. Ela: “Eu?!  Nem pense nisso! É claro que não”.

Fiquei então, mais uma vez, a saber que, frequentemente, há na religião o que se chama dissonância cognitiva: afirma-se uma coisa, mas realmente não se acredita nela, porque se pensa outra coisa. Aquela senhora, confrontada com a questão, viu claramente que não podia acreditar que uma criaturinha inocente, concebida com amor, tivesse  sido gerada e tivesse nascido em pecado, um pecado de que não era autora nem culpada. Mas ao mesmo tempo acusava de heresia quem dissesse o contrário do que lhe ensinaram que devia dizer, sem pensar. Ora, a fé não pode entregar-se à cegueira, abandonando a razão.

O pecado original não se encontra na Bíblia. Segundo o exegeta Armindo Vaz, a “transgressão” mítica de Adão e Eva “não implica um juízo de ordem ética ou moral nem permite a sua interpretação como ‘pecado’, ‘falta’ ou desobediência moral”. Como foi possível essa interpretação moral, se, na lógica dos mitos de origem, a natureza humana ainda estava em processo de criação e as acções do casal primordial são precisamente para “complementar a criação da sua condição humana: ‘comer da árvore do conhecimento’ (aquisição do conhecimento), cobrir a nudez (aquisição da civilização), sentença divina, decreto de morte e  expulsão (aquisição da condição de sofredor, mortal e trabalhador)”?

Já o filósofo Hegel tinha interpretado a saída do “paraíso terreal” como a passagem da animalidade à humanidade. O pecado original foi elaborado essencialmente por Santo Agostinho, com a finalidade de evitar a atribuição do mal a Deus. Para ele, foi com o pecado de Adão e Eva que veio ao mundo todo o mal, incluindo a morte, e, com esse pecado, transmitido de geração em geração, a humanidade toda tornou-se “massa condenada” ao inferno, do qual só alguns são libertados pela graça imerecida de Deus.

Esta concepção agostiniana teve pesadíssimas consequências no Ocidente e no mundo. Escreveu o filósofo cristão Paul Ricoeur: “Nunca se dirá suficientemente o mal que fez à cristandade a interpretação literal, melhor, historicista, do mito adâmico, ao levá-lo à profissão de uma história absurda e às especulações pseudorracionais sobre a transmissão quase biológica de uma culpabilidade quase jurídica da falta cometida por outro homem, castigado na noite dos tempos, algures, numa fase da evolução entre o Pitecantropo e o homem de Neanderthal.”

Santo Agostinho não hesitou em deixar cair no inferno as crianças que morriam sem baptismo, entrando assim no Ocidente uma concepção bárbara de Deus. Como foi possível conceber um Deus que teria castigado a Humanidade inteira com o calvário todo da História e o inferno por causa de um único pecado de seres humanos ainda no dealbar da consciência? E como poderia aceitar-se a condenação eterna de crianças inocentes, a não ser que recebessem o baptismo?

O limbo apareceu na Idade Média para a atenuar esta crueldade. Assim, as crianças sem baptismo ficavam privadas da visão de Deus, mas não eram condenadas ao inferno. Erguia-se, porém, legítima, a pergunta: não se trataria ainda de um castigo?, e como poderia Deus, infinitamente poderoso e bom, estar dependente, em ordem à salvação, de uma concha de água?

Já em 1984, o teólogo Joseph Ratzinger afirmara que o limbo era uma mera hipótese teológica. Mais tarde, já Papa Bento XVI, aprovou um documento de 41 páginas, preparado pela Comissão Teológica Internacional, que acabava com o limbo e abre as portas da salvação às crianças que morrem sem serem baptizadas.

A impressão geral que me ficava da religião nos tempos da catequese não era luminosa. Pelo contrário, tudo aquilo transmitia um mundo bastante tenebroso, a ideia de um Deus castigador e de nós sujeitos a um destino de submissão trágica. Os primeiros pais tinham pecado, Deus andava irado com a gente e Jesus sofria na cruz para ver se nos libertava. A alegria era um roubo e a palavra Evangelho, que quer dizer “notícia boa”, não pousava sobre nós.

O que infectava o cristianismo era precisamente a doutrina infausta do pecado original. Escreveu o célebre historiador católico Jean Delumeau, que ainda tive o privilégio de conhecer pessoalmente: “Não é exagerado afirmar que o debate sobre o pecado original, com os seus subprodutos – problemas da graça, do servo ou livre arbítrio, da predestinação --,  se converteu (no período central do nosso estudo, isto é, do século XV ao século XVII) numa das principais preocupações da civilização ocidental, acabando por afectar toda a gente, desde os teólogos  aos mais modestos aldeões. Chegou a afectar inclusivamente os índios americanos, que eram baptizados à pressa para que, ao morrerem, não se encontrassem com os seus antepassados no inferno. É muito difícil, hoje, compreender o lugar tão importante que o pecado original ocupou nos espíritos e em todos os níveis sociais. É um facto que o pecado original e as suas consequências ocuparam nos inícios da modernidade europeia o centro da cena mundial, sem dúvida muito atribulado.”

No entanto, repito, a doutrina do pecado original, no sentido estrito de um pecado transmitido e herdado, não se encontra na Bíblia. Jesus nunca se referiu a um pecado original.

Sim, na sua base, encontra-se fundamentalmente Santo Agostinho, a partir de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12. Mas ele, que não sabia grego, seguiu a tradução latina: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz: “porque” todos pecaram. Ora, uma coisa é dizer que todos são pecadores e outra afirmar que todos pecaram em Adão, como a árvore fica infectada na raiz, de tal modo que todos nascem em pecado do qual só o baptismo os pode libertar. Santo Agostinho, como já ficou dito, deixava cair no inferno, mesmo que menos terrível, as crianças sem baptismo. Durante séculos, houve mães dramaticamente abaladas, porque os filhos morreram sem baptismo — eu ainda conheci algumas, que procurei vivamente consolar.

A Santo Agostinho serviu esta doutrina  sobretudo para, convertido do maniqueísmo ao cristianismo, “explicar” o mal no mundo, que não podia vir do Deus criador bom.

De facto, baseou-se numa exegese errada. E quem não sabe hoje que o que diz respeito a Adão e Eva e à queda é da ordem do mito? Adão e Eva não são personagens históricas. Depois, se eles ainda não sabiam, como diz o texto do Génesis, do bem e do mal, como podiam pecar? O que o texto diz é outra coisa, e fundamental: o que caracteriza o ser humano frente ao animal é a liberdade. O ser humano já não é um animal como os outros: tem auto-consciência, sabe de si como único – a nudez metafísica – e que é mortal...

Mas os estragos desta doutrina infausta foram e  são incalculáveis, sobretudo a partir do acrescento de Santo Anselmo e a sua doutrina da retribuição: os primeiros pais cometeram uma ofensa infinita contra Deus e, assim, era necessária uma reparação infinita para uma dívida infinita que só o Deus-homem Jesus podia pagar na cruz.

Ficou então a ideia de um Deus por vezes monstruoso, sádico — em relação a esse Deus deve-se ser ateu —, que precisou da morte do Filho, inocente, para reconciliar-se com a Humanidade. Mas como era isso compatível com o Deus amor? Porque o pecado se transmitia pelo prazer do acto sexual, a sexualidade, o corpo e a mulher ficaram envenenados, numa situação dramática, se não trágica: era preciso continuar a gerar filhos — no limite, a actividade sexual só se legitimava para a procriação —, mas eles eram gerados em pecado e a mulher trazia o pecado dentro dela. Só houve uma excepção: Maria foi concebida sem a mancha do pecado original, excepção que dá lugar à festa da Imaculada Conceição, no dia 8 de Dezembro, com feriado nacional em Portugal. Esquece-se então que Nossa Senhora não é grande porque foi isenta do pecado original, que não há, é grande porque é a primeira cristã, aquela que acreditou no seu filho Jesus e no seu Evangelho, notícia boa e felicitante: Deus é bom, Pai-Mãe, que  só quer a alegria, a felicidade e a plena realização de todos os seus filhos e filhas, que devem viver segundo essa dignidade, na fraternidade, na liberdade e no amor..., Jesus, inocente, não se acobardou e foi condenado à morte, foi crucificado, para dar testemunho da Verdade e do Amor, mas Deus não o abandonou: está vivo na plenitude da Vida, a Vida eterna...

Porque é que o primeiro acto humano da História havia de ser o pecado, pecado original? Hoje, com a evolução, a contradição torna-se ainda maior: quem foram os “primeiros  pais”, com tanta consciência, liberdade e poder de determinação da História? O único sentido do chamado pecado original só pode ser o de estar precavidos: todos são gerados e nascem sem pecado, mas num mundo e para um mundo onde já há pecado — pense-se nos horrores das guerras e da fome, na violência doméstica e nos abusos de toda a ordem, na estupidez, na imensa estupidez, na brutalidade da mentira e do ódio, num mundo que por vezes parece desmoronar-se... ­— e, por isso, precisamos de estar precavidos, pois podemos ser contaminados, como um não fumador que entra numa sala de fumadores tem de acautelar-se, já que pode ser contaminado pelo fumo...

De qualquer modo, o que São Paulo diz no passo célebre da Carta aos Romanos é uma mensagem de esperança: todos os seres humanos pecam, o pecado do ser humano é grande, mas o amor de Deus é maior. Infinito.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado, 6 de Dezembro de 2025

A VIDA DOS LIVROS

  
De 8 a 14 de dezembro de 2025


Depois da referência a Portugal Restaurado, analisamos hoje a literatura económica do século XVII português, que tem um papel pioneiro na análise das condições históricas que caracterizam o final do império marítimo do Oriente e suas consequências…


 D. Luís de Menezes, 3º Conde da Ericeira (1632-1690)


O pensamento económico português foi marcado ao longo dos séculos pelo estudo das condições que caracterizam a nossa situação quase paradoxal de um território europeu virado ao mar, mas com inequívocas carências, com exigentes solicitações globais em razão da presença dos portugueses no mundo. Tal é o pano de fundo dos movimentos que obrigaram sucessivas gerações a partir – ora para a Índia, ora, em ocasiões diferentes e com destinos diversos, para a emigração. Em 1415 vamos para Ceuta para superar a falta de trigo e de ouro – e para beneficiar do comércio do Mediterrâneo. Se a longa costa atlântica portuguesa permitiu contrariar a situação periférica, o certo é que houve sempre uma tensão entre a defesa de um melhor aproveitamento dos recursos próprios e a consideração das oportunidades dos movimentos de pessoas e mercadorias… São bem conhecidos os alertas de Infante D. Pedro das Sete Partidas na célebre Carta de Bruges (1426) ou as queixas de Francisco Sá de Miranda: “Não me temo de Castela, donde guerra inda não soa, / mas temo-me de Lisboa que ao cheiro desta canela o reino nos despovoa”. E não esquecemos, no século XVII, o 3º conde da Ericeira, D. Luís de Menezes (1632-1690), na defesa do espírito manufatureiro, a que a descoberta do ouro do Brasil não deu continuidade. Houve, assim, plena consciência de que era preciso fixar riquezas depois de partir em sua busca. Essa procura teria de ser compensada de alguma forma, para que a míngua de pessoas não impedisse a criação e consolidação de uma cabeça coerente e de uma orientação eficaz para o império. A doutrina refere-se, por isso, às duas políticas nacionais, popularizadas por António Sérgio. Falando de obras pioneiras portuguesas no tocante à economia, cabe referir, além de Ericeira, os fundamentais autores seiscentistas – Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria e Ribeiro de Macedo. Em 1608, Diálogos do Sítio de Lisboa de Luís Mendes de Vasconcelos (c. 1542-1623) é o primeiro exemplo de uma tomada de consciência sobre a importância da capacidade criadora da economia. O autor viveu na passagem do século XVI para o século XVII, foi Capitão das Armadas do Oriente e governador em Angola. Nesse livro – onde discutem um Filósofo, um Soldado e um Político – encontramos a exaltação das qualidades da cidade de Lisboa, sobretudo quando comparada com Madrid e, tratando-se do tempo de Filipe I, durante a monarquia dual, António Sérgio diz-nos que o autor procurava convencer o rei “a mudar de Madrid para Lisboa a capital do seu império”. Por outro lado, combate-se “o estonteamento da nossa política ultramarina, que consistiu em se perverter o objetivo comercial com as ideias de conquista”. Luís Mendes de Vasconcelos defende a criação e a fixação, não apenas no domínio teórico, mas com exemplos práticos do que hoje classificaríamos como ordenamento do território, em especial para o aproveitamento agrícola nas lezírias do Tejo e na região de Lisboa. Ainda para Sérgio, este reformismo assenta na “política fixadora, a da produção metropolitana, com base na estabilidade do comércio do ultramar, e da sua nacionalização”; bem como num conceito de glória e heroísmo –“a glória do político e do militar, o heroísmo do servidor da pátria está em concorrer para a prosperidade dela”…


Já o clérigo e teólogo, formado pela Universidade de Évora, Manuel Severim de Faria (1583-1654) subscreve, com preocupações semelhantes, Dos Remédios para Remédios para a falta de Gente (1655), onde critica a prioridade bélica em detrimento do comércio e da manufatura – somando-se esse mal á falta de investimento, aos defeitos do arranjo agrário, à concentração fundiária, ao absentismo e ao despovoamento... De mais a mais, o império do Índico apresentava-se frágil por falta de organização mercantil, e por defeitos no arranjo agrário. Daí se advogar a prioridade para o comércio, a indústria e as manufaturas, único modo de fixar recursos, devendo a preocupação de criar riqueza prevalecer sobre a conquista. Só favorecendo o governo do Reino a introdução de ofícios e técnicas modernas poderia o mesmo alcançar a independência económica da nação. O jurisconsulto e diplomata Duarte Ribeiro de Macedo (1618-1680) publicou o Discurso sobre a introdução das artes no Reino (1675). Em coerência com a sua correspondência com o Padre António Vieira e D. Francisco Manuel de Melo, o escritor considera ser fundamental a compreensão de que só haveria um meio para evitar a dependência do exterior pelas importações, e esse seria impedir que o dinheiro saísse do Reino através da criação de artes e manufaturas. A introdução de uma tal orientação evitaria o dano que fazem ao Reino o luxo e as modas; obstaria à ociosidade; tornaria o país povoado e abundante com gentes e frutos; aumentaria as rendas reais (“porque o peso que levam poucos, dividido por muitos, é mais fácil de levar e pode ser maior”); e atrairia ouro de Espanha, aproveitaria mais as colónias e daria ao porto de Lisboa, superior ao de Constantinopla, a primazia do comércio do mundo. Escrevendo na França de Colbert, Duarte Ribeiro de Macedo considerava que haveria que seguir os caminhos mercantilistas de França e Itália e que a Inglaterra começava a trilhar. Saliente-se ainda que, tal como o Padre António Vieira, o diplomata defendeu a necessidade de encontrar um entendimento com judeus e cristãos-novos de modo a angariar novos meios e capacidades. Dois outros diplomatas merecem referência pela valia dos seus escritos de orientação convergente com a de Duarte Ribeiro de Macedo – refiro-me a Alexandre de Gusmão (1658-1753) e D. Luís da Cunha (1662-1749). O primeiro, irmão de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, defendeu o combate à ociosidade, o aumento da agricultura, o aproveitamento das ribeiras para navegar e regar, o estabelecimento de fábricas, o progresso da indústria e o favorecimento do comércio dentro e fora do reino. O segundo insiste na necessidade de dar um uso positivo à propriedade agrícola e de favorecer o investimento nas artes. Tratava-se de colher nas experiências das nações civilizadas os melhores exemplos com resultados práticos. Quando o já citado António Sérgio publicou a sua Antologia dos Economistas Portugueses (1924), lembrou que os três autores seiscentistas “iniciaram a doutrina da política da Fixação, contra a política do Transporte; e o reformismo português, desde aí até agora, será o desenvolvimento dos princípios que defenderam nas suas obras. Em Luís Mendes de Vasconcelos é a Fixação, pela agricultura; em Severim de Faria, pela agricultura e pelas indústrias; em Ribeiro de Macedo, finalmente, são as minúcias de um programa de fomento industrial”. Logo no final do século XVII, porém, o dinheiro das minas do Brasil e mais tarde os empréstimos do constitucionalismo e as remessas dos emigrantes adiaram a realização das ideias dos três reformadores. Mas o seu espírito continua, ressalvadas as distâncias e qualquer anacronismo, vivo e pertinente, em nome de um reformismo que foi assumido por Herculano, pela geração de 1870, pela “Seara Nova” e pelo moderno pensamento democrático. Regressar aos clássicos é, no fundo, um privilégio, sobretudo quando podemos usufruir através da sua leitura de ensinamentos duradouros e perenes. Saído do período de sessenta anos em que viveu em Monarquia Dual com a Espanha, com a sua presença na Ásia enfraquecida, quer pelas conquistas dos holandeses, quer pelo desenvolvimento do mercado interasiático e a perda de Ormuz (1622) e de Malaca (1640) e expulsão do Japão (1637-41), em Portugal a procura da fixação fazia todo o sentido. A descoberta do ouro do Brasil interrompeu, porém, a concretização desse desígnio – o qual viria a ser concretizado algo fugazmente pela política de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Conde de Oeiras e Marquês de Pombal…


Guilherme d'Oliveira Martins

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ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
DE JOHN MOHUNE A JON WHITELEY
OU DE FRITZ LANG A AUGUSTE-DOMINIQUE INGRES


1. Julgo que é o título mais comprido desta série de crónicas, quer as das antigas e românticas sextas-feiras, quer as dos novos e frustres domingos onde ainda não conseguiram arranjar lugar para me sentar. Quando se escolhe um título longo, é, normalmente, para ser mais explicativo, como é o caso, por exemplo do Everything You always Wanted to Know About Sex, but Were Afraid to Ask. Não é o caso deste meu, de hoje. Dou um doce a quem, mesmo muito sabido, perceber que relação existe entre John Mohune e Ingres, ou mesmo entre o pintor e Fritz Lang. Essa relação construiu-se, para mim, nos últimos três anos e só há três dias se concretizou. Apetece-lhes ouvir a história? A mim, apetece-me contá-la.


2. John Mohune é o nome do jovem herói do romance de John Meade Falkner Moonfleet, publicado em 1898. Um desses romances de aventuras escritos para pré-adolescentes do sexo masculino, que descende de Stevenson ou, mais remotamente, de Dickens ou de Kipling, e que foi muito popular na Grã-Bretanha, dos alvores aos meados do século que passou. A ação situa-se no século XVIII. John Mohune é o filho de Olivia e a família é tão importante naquela parte da Escócia que o próprio nome da povoação que dá título ao romance provém dela. Moonfleet é contração de Mohune e Fleet. Não eram senhores muito amados os Mohune. John, órfão aos nove anos, é informado pouco depois (pouco depois da morte da mãe, que o pai é outra história) que o nome não é propriamente um nome benquisto na aldeia de contrabandistas e piratas onde se situa quase toda a ação.


A primeira vez que o vi foi no filme homónimo de Fritz Lang, estreado em 1955. Tinha os mesmos nove anos, era muito ruivo e de cabelo encaracolado, a cara cheia de sardas, olhos azuis determinados. Por uma noite sem lua, com um céu coberto de nuvens púrpuras ou amarelas, caminhou à procura de um homem que julga ser seu amigo. A certa altura pára, para tirar um seixo de um dos buracos das solas das botas. De repente, aparece-lhe - é o termo - um anjo enorme de olhar vazio e expressão inquietante. Será estátua? Será gente? Uma mão que se vê em cima de um muro parece apontar para a segunda hipótese. John Mohune tenta fugir, tropeça e desmaia. Quando acorda, está no fundo de um poço e é do fundo desse poço que nós, com ele, vemos em contra-plongée vertical uma série de caras patibulares. O miúdo caiu às mãos de 40 ladrões. Mas recupera depressa a coragem e insiste que o levem à presença de Jeremy Fox, para quem traz uma carta. Carta da mãe, que, ao morrer, o confiou aos cuidados desse homem. Quando lhe somos apresentados (a Jeremy Fox), o aspeto e as maneiras do personagem (o ator é Stewart Granger) não prometem nada de bom. Nem dele, nem dos companheiros dele (onde avulta, para mim, a voz incomparável de Joan Greenwood), nem da dançarina que dança para ele. Só muito pouco a pouco percebemos algumas coisas e nem todas são esclarecidas. Jeremy Fox tem as costas marcadas por dentes de cães que os Mohune lhe atiçaram. Plebeu, estava na companhia de senhora, senhora que só podia ser uma Mohune, para a família se enfurecer de tal modo. Se ela, ao morrer, confiou o filho ao homem que fora pasto da matilha, as probabilidades são muitas de John Mohune ser filho de Jeremy Fox, embora no filme nunca tal se diga e o miúdo nunca o suspeite. No livro? No livro nem sequer há nenhum Jeremy Fox, tal era, nesses bons tempos, a fidelidade dos estúdios aos textos originais. Mas se John Mohune nunca suspeita que Jeremy Fox é seu pai, também nunca duvida que ele seja o amigo que a mãe lhe disse que era. Contra todas as evidências, porque Jeremy Fox passa o filme a enxotá-lo. Mrs. Minton, uma das amantes dele, pergunta a Jeremy: "Que vais fazer dele? Corrompê-lo e destruí-lo, como fazes a toda a gente?" "Há um perigo bem maior", responde Jeremy, "é ser ele a destruir-me." No final do filme todos morrem, menos John Mohune, que tem finalmente toda a razão para dizer: "It’s good to have a friend".


Para interpretar John Mohune, a Metro-Goldwyn Mayer, em 1955, chamou Jon Whiteley, um miúdo escocês que se estreara nas telas aos 6 anos, em 1951, e aos oito ganhara um Óscar especial da Academia pela sua interpretação em The Kidnappers de Philip Leacock. Em 1956, aos 11 anos, desapareceu das telas. Os pais acharam que cinco anos de filmes e estúdios, entre Londres e a Califórnia, já chegavam. Mandaram-no estudar.


Mas quem ama Moonfleet como eu amo - e estou cada vez mais acompanhado - nunca mais conseguiu ver John Mohune sem ver Jon Whiteley seguindo com um cão o seu amigo e roubando para ele o tesouro do Barba Ruiva. Cinemascope, mar, o obsessivo decote de Joan Greenwood, a voz de Joan Greenwood. E, evidentemente, Jon Whiteley. Cemitérios, lousas quebradas, poentes castanhos, rochas escarpadas. A fotografia de Robert Planck e a música de Miklos Rozsa. E, evidentemente, Jon Whiteley.


3. Mas se era evidente, era tão evidente que nunca me lembrei de perguntar por ele. Nem eu, nem (aparentemente) mais ninguém. Todas as celebridades do filme disseram da sua graça, e a maior das vezes da sua desgraça. Fritz Lang só no fim da vida se reconciliou com um filme em que passou as passas do Algarve. John Houseman, o produtor (que não era nada imbecil), dizia que só os franceses é que achavam que o filme era uma obra-prima. Por "perversidade ou por lealdade para com Fritz Lang". Mas Jon Whiteley nunca foi tido nem achado, apesar de se dizer que Lang, "ditatorial e déspota", tratara com especial e teutónico sadismo o seu jovem intérprete.


Provavelmente, o assunto teria morrido por aí (e hoje não me estavam a ler), se, em finais de 2001, por ocasião de um seminário sobre cinema e pintura no Convento da Arrábida, Henri Zerner não me tivesse perguntado: "Você sabe que Jon Whiteley é meu colega e professor de História de Arte em Oxford?" Não fazia a mais pequena ideia. Mas como cinema, pintura, Moonfleet fazem trindade indissociável, pensei em convidá-lo quando saísse o livro em que esse seminário desembocou. Convidá-lo para vir a Lisboa e apresentar Moonfleet. Ao princípio correu mal: de Oxford disseram-me que o prof. Whiteley (hoje com 60 anos) estava em ano sabático algures nos Estados Unidos. Mas havia mails. Há sempre.


Já com poucas esperanças, mailei. E, na volta, tive a resposta mais simpática do mundo. Que adorava voltar a Portugal, que conhecia como turista e que adorava apresentar Moonfleet, que (e agora sublinho bem) nunca ninguém o tinha convidado a apresentar.


Em janeiro, Jon e Linda Whiteley desembarcaram em Lisboa e eu vi subitamente na minha frente, aos 60 anos, o miúdo de 9, de 1955. Mesmos cabelos ruivos, mesmos olhos azuis, mesmas sardas. E, na fantástica apresentação do filme, o mesmo medo e a mesma coragem para defender Fritz Lang, acabar com a lenda das malfeitorias e falar da conspiração de produtores e atores contra aquele velho barrigudo e monocular que ousara pular para cima de uma mesa e explicar à famosa bailarina Liliana Montevecchi como é que se devia dançar a dança que ele queria que ela dançasse para endoidar os homens e empalidecer as mulheres. Fritz Lang, o realizador que "composed scenes in the manner of a painter and treated actors like a puppet-master". "This perhaps annoyed his actors but it did not trouble me." Depois falou-me de Ingres, seu pintor favorito, e prometeu-me o livro que sobre ela tinha escrito e há muito se esgotou.


4. A fama dessa palestra de Lisboa chegou a várias partes. Este e aquele começaram-me a pedir o Whiteley de Lisboa. Até que, postos os feriados de junho e os dias de montanha russa entre Guimarães e Salamanca, Salamanca e Belmonte, recebi, com data de 8 de junho, uma carta dele e o livro sobre Ingres. Na carta dizia-me que "as a result of your invitation to Lisbon and the showing of Moonfleet" recebera um convite para comentar o filme num festival em Procida. Sabia que a cópia a ser projetada era a nossa (a melhor cópia de Moonfleet que por aí anda e não é para me gabar). "Any chance of seeing you? I hope so very much." Não, não vou rever em Procida o meu John Mohune feito Jon Whiteley, criatura de Lang e criatura de Ingres, igual aos 9 e aos 60 anos, na sua busca pela amizade e na certeza dela. Mas ganhei o livro azul, com o retrato da viscondessa de Haussonville que está na Frick Collection. E nele recordei que a duquesa de Guermantes, depois de o ter execrado como o pior dos académicos, descobriu, no fim da vida, que ele fora o genial precursor do Art Nouveau. "Como os arquitetos do barroco, Ingres ultrapassou o domínio da arte clássica para inventar uma linguagem expressiva de regras quebradas, através das quais deu forma exterior aos doces, nostálgicos, ambiciosos, sensuais e vingativos desejos que sempre possuíram a sua imaginação." Ingres, certamente. Mas também Fritz Lang. "A deeply sensuous nature." John Mohune começou na encruzilhada de Moonfleet. Mas lembrou-se que estavam por ali senhoras. Foi nos banhos turcos de Ingres.


por João Bénard da Costa
19 de junho 2005 PÚBLICO

CORES, DEUSES, VIAGENS E AMORES

  


Sabemos que Teseu, o vencedor de Minotauro, teria afirmado que a imaginação chega mais longe do que a razão. E não é preciso ir até à Grécia mítica para o confirmar, pois basta lembrar que Albert Einstein disse o mesmo, demonstrando-o no audacioso caminho científico que trilhou. Partindo de Shakespeare e do Sonho de uma Noite de Verão, continuando com o célebre mapa da Catedral de Hereford, onde se compilaram velhas lendas do mundo antigo,  culminando na viagem de Gauguin ao Taiti em busca da essência da Arte, Francisco Louçã apresenta no seu livro Imaginação - Cores, Deuses, Viagens e Amores (Bertrand, 2025) uma estimulante e inesperada reflexão sobre esta interrogação fundamental: Existirá, além da fria razão, uma essência humana que nasce do impulso da criatividade? O percurso que nos apresenta é estimulante, como referiu Lídia Jorge na apresentação do livro. E já que falámos de Teseu, cumpre dizer que podemos usar para identificar esta longa reflexão as metáforas do labirinto e de um belo caleidoscópio. Os temas entrelaçam-se e podemos compreender como é possível recorrer a diversas pistas, “seja na religião as crenças sumérias e mesopotâmicas e o Alcorão, seja na literatura a influência encantatória da Epopeia de Gilgamés, do Romance de Genji e das Mil e Uma Noites, seja reportando as viagens africanas de Ibn Battuta ou a geografia de Al-Idrisi e a sageza indígena norte americana e Kondrarionk”. Apesar das distâncias na geografia e no tempo, cerca de mil anos, vamos descobrindo a complexidade da condição humana. Estamos perante um recenseamento, naturalmente limitado, apesar da sua extensão, sobre a capacidade de pensar e criar novas possibilidades em diferentes quadros sociais e históricos. E assim vemo-nos confrontados com sobreposições temporais reveladoras. E Plínio pergunta: “quantas coisas são julgadas impossíveis  antes de terem realmente ocorrido?”. Pode o autor dizer que o guião que apresenta é incompleto e até impreciso, mas o certo é que os temas são de si promissores abrindo várias perguntas que levam a novos horizontes.

O percurso que nos é proposto faz suceder um caminho exaltante, para quem considerar a leitura, a reflexão e o pensamento poderosos fatores de emancipação. E deste modo sucedem-se os temas, ao longo da obra: Imaginar a Cor; Imaginar o Além; Imaginar o desconhecido; e Imaginar o prazer. A propósito de cada um, podemos preencher os espaços abertos pelos mistérios insondáveis que nos são apresentados. E percebemos que a imaginação é a faculdade cognitiva que cria imagens mentais e os seus imaginários. “De facto, não se pensa, sente ou aprende sem imaginar”. Cervantes inventa o romance moderno, como Fernão Mendes Pinto constrói uma verdadeira saga. E Gauguin, na sua viagem, ensina-nos que o azul é o que nos parece azul. E as religiões, nas suas misteriosas ligações milenares, são os mais antigos imaginários sociais, narrando mitos, construindo rituais, caracterizando lugares. Dostoievski em Os Irmãos Karamazov põe-nos à prova sobre quem somos, e a memória de António Conselheiro na guerra dos Canudos leva-nos ao limite. E leia-se o testamento intelectual de Maria Helena Vieira da Silva, que nos obriga a ir ao âmago da Arte: “Lego aos meus amigos/ um azul cerúleo para voarem alto / um azul cobalto para a felicidade / um azul ultramarino para estimular o espírito / um vermelhão para fazer circular o sangue alegremente…”


GOM

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