CRÓNICA DA CULTURA
LEMBRO-ME
Lembro-me tanto de quando a poesia me explodiu na adolescência.
Depois de rezar o terço com a senhora mais velha da casa, depois dela adormecer esquecida da telefonia ligada, às vezes, as cartas de Goeth:
uma a uma as palavras.
Lembro-me tanto o quanto as não entendia e o quanto me apaixonava logo ali, liberta.
Eu,
eu a criada ainda adolescente.
Eu, a que tinha medo das bruxas, dos males ligados ao sobrenatural, do diabo que instigava que todos na casa tivessem autoridade sobre mim, até os mais novos. Até o cão.
E lembro-me que no dia dos meus anos não era dia de nada. Ninguém legitimava que eu existia na forma de gente que fizesse anos.
O camião do lixo passava à mesma hora, e o barulho dos carros era quase igual ao das panelas enquanto as areava. Depois, faria as camas de lavado, encerava as áreas mais desgastadas do chão e logo com o brilho do lustro, as palavras de Goeth. Algumas, soltinhas, tomavam conta de mim.
Ao domingo havia missa, missa com véu preto quase a trocar de vida, mas podia ser domingo, mas se o marido da senhora estivesse zangado com Deus, não havia ida à missa para ninguém, e o ambiente era como pedra lá em casa e a minha folga era ter ido à missa que não fui.
Também me lembro que havia uma porta lá na casa que não se podia abrir nunca pois havia atras dela muitas verdades, e nenhumas ou todas com razão, não sei bem, e dizia a patroa que não me competia saber, havia apenas que manter a porta sempre fechada e não escutar radio à noite depois do terço rezado.
E lembro-me também de ler a carta que me escreveste e na qual dizias que até me conheceres, pensavas que inventavas os caminhos da tua vida, e depois aprendeste que eu era para ti tão importante que me poderias até deixar ouvir rádio, mas que eu não pensasse que te casarias comigo.
Lembro-me de te ter dito que ao amolador de facas contei um verso que tinha pensado e que ele naquele dia me disse que o verso amolava melhor do que ele aquilo que eu quisesse amolar.
Depois lembro-me de algumas das nossas primeiras vezes no carro do teu pai, e foi nesse carro que decidi que os meus versos futuros se chamariam rodas, e que precisava de ir às urgências de um hospital quando as dores de cabeça eram tão fortes que até torcia melhor os lençóis tirados da barrela.
E sim, ensinaste-me a escrever quase sem erros, e deste-me muitas uvas, e lembro-me de te perguntar se sabias quantos anos tinha a minha idade que era mais nova do que a tua.
E lembro-me que uma cigana, um dia, me leu a sina e me disse que eu seria trocada toda a vida por coisas, coisas desentendidas das coisas, e esta foi mesmo a primeira história de terror que ouvi, e que me fez apertar tanto a salsa entre os dedos que a senhora me perguntou se a tinha pisado, e disse-me que naquele mês me não pagaria porque até nem podia, mas que eu nem merecia o dinheiro.
E fui.
Lembro-me de prometer a mim mesma que não voltaria. Fugi.
Vários anos depois, esperei-te com uma carta de Goeth e um disco de vinil.
Parecia-me agora natural saber que só no meio era o enigma.
E hoje, publiquei-te numa tatuagem na minha perna direita, e lembro-me da última vez que disse «amo-te» a alguém que já não queria na minha vida, e invoquei o algoritmo,
como se ele, ignorante,
conhecesse os instantes em que nada ainda é passado, em que tudo nasce, ou soubesse algum dia que o lúcido pecado é traçado por Deus quando na mão uma lanterna acesa,
Goeth.
Teresa Bracinha Vieira