CRÓNICAS PLURICULTURAIS
238. DO SUBLIME
Associa-se o sublime, em geral, ao excelso, grandioso, soberbo, esplêndido, digno de admiração, de uma beleza celestial, radiosa e magnífica, despertando pensamentos e sentimentos nobres de respeito.
Mas há que não confundir a noção do belo e do sublime, dado este também representar um desafio à nossa vontade, sendo mais forte que nós, uma força maior que a dos humanos e que, na sua grandiosidade, esmagamento ou ousadia, nos pode provocar fúria ou arrebatamento.
Daí que, elevando-se acima do humano e convidando-nos a aceitar as nossas limitações, ao desafiar a nossa vontade pode não provocar apenas um julgamento de admiração e respeito, mas também ira e ressentimento, fazendo sentir-nos humilhados pelo que é poderoso e insolente e maravilhados pelo que é poderoso e nobre, podendo chegar à adoração e veneração.
Se o sublime nos faz sentir pequenos, porque diminui a nossa dimensão, apoucamento que, só por si, pode ser desagradável, também pode ser satisfatório, na medida em que, por exemplo, há quem viaje para atravessar e observar paisagens a fim de vivenciar emoções espiritualmente avassaladoras e gratificantes, viajando pelos espaços infinitos ou esmagadores dos vastos desertos, cadeias de montanhas, glaciares, icebergues, céus, oceanos e outros lugares procurados intencionalmente para que, quem os procura, se sinta pequeno. E podemos não ter palavras para exprimirmos o que sentimos, estabelecendo-se uma relação espiritual com o que observamos.
O sublime excita, supera-nos e se mais forte não o devemos ter como necessariamente odioso, dado que nos interpela e transcende, ensinando-nos que o universo é mais poderoso que nós, o que está tradicionalmente associado ao nome de Deus e das divindades.
Há quem o tenha como a nossa maior paixão e a nossa suprema experiência emocional, que está para além da alegria ou do contentamento e do acalmar no belo, mesmo quando baseado no perigo, no temor ou pânico.
Elevar o espírito do sublime pode traduzir-se em soltar exclamações diante do ilimitado e do infinito, ter medo, admiração e respeito por tudo aquilo que desafia a nossa vontade e a transcende.
Por meio da sua força e grandeza, ajuda-nos a aceitar, sem azedume nem jeremiadas, os impedimentos que somos incapazes de superar e as ocorrências insondáveis que desassossegam as nossas vidas e a que não somos capazes de dar sentido, recordando-nos a nossa efemeridade e vulnerabilidade, contrariando a afirmação de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”.
12.12.25
Joaquim M. M. Patrício