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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

A verdadeira arquitetura manifesta-se como um ponto do universo que permite compreender e dar sentido.

 
    Revista OASE #90 


A verdadeira arquitectura existe sempre que se manifesta uma experiência aberta, única, nova, central e individual. 

No texto “Half an Hour of Silence.” Christophe Van Gerrewey (OASE # 90. 2025) afirma que a ocorrência de verdadeira arquitetura só poderá acontecer se houver contraste direto com o contexto. Algo diferente deve acontecer - algo desconhecido, algo que quer ser conhecido mas que resiste ao conhecimento total. Desta maneira, tudo o que é fundamental e abrangente fica envolvido. Por isso,  a arquitetura é uma experiência acima de tudo relativa à existência precisamente porque diz respeito ao ser humano em continuidade e em movimento no espaço.

Christophe Van Gerrewey sublinha que a arquitetura é uma experiência individual. No verdadeiro sentido, é uma experiência que não se reproduz, porque o que é importante é a singularidade de cada espaço e lugar e a maneira como isso se revela em cada indivíduo. Cada ser humano está sempre em busca de algo extraordinário e a verdadeira arquitetura poderá ser o caminho para essa procura. Em solidão e em silêncio a arquitetura revela uma exceção. E é precisamente a descoberta, e não aquilo que constitui espectáculo, que determina a importância da arquitetura em cada ser humano. Para Van Gerrewey, a verdadeira arquitetura é capaz de silenciar tudo resto onde apenas só o silêncio interior é audível - o silêncio do cosmos, o silêncio divino, o silêncio de meia hora.

A verdadeira arquitetura, escreve Van Gerrewey, permite a abertura a inúmeras possibilidades, porque anteriormente não existia algo assim de semelhante. A verdadeira arquitetura é algo que se formou num lugar específico e determinado e que trouxe novas ligações e novas capacidades. A verdadeira arquitetura é singular, é criada através de uma impressão que reverbera no tempo e em cada um que experiência a sua condição e o seu limite. A arquitetura abre a possibilidade para aquilo que não existia antes e forma uma vida que nunca tinha sido antes vivida - uma vida que não é descrita pelos costumes e hábitos dominantes, uma vida que possibilita o desapegar de certas condições, conceitos e regras.

“Architecture - it might as well be a design paper project or even a concept - turns the client and each spectator temporarily into a Houdini who gets provided by the means to detach himself from the straitjacket of the well-known conditions of laws and prescriptions.”

Van Gerrewey revela que a arquitetura traz à atenção tudo aquilo que muitas vezes não se quer enfrentar ou reconhecer. A verdadeira arquitetura tem a qualidade de apresentar com claridade contradições, desejos, perdas, preocupações e camadas não visíveis da existência humana. É uma construção que quando executada tem a capacidade de iluminar cada ser humano através de uma série de acções que só a cada indivíduo diz respeito. É um programa único, individual e irrepetível que reflete aquilo que é mais importante para cada ser. 

Lê-se ainda no texto, que a arquitetura não se torna verdadeira ao referenciar-se em modelos clássicos, nem na precisão técnica e nem em preferências estéticas. Para Van Gerrewey, a verdadeira arquitetura manifesta-se sim através do questionamento constante de todas as referências conhecidas. Questionar o que é conhecido evita criar fórmulas e impede ditar diretivas. A arquitetura não pode  deixar de ser ambígua, porque não deve ser obrigada a nada externo. Deve sobretudo reformular tudo aquilo que já é conhecido, de modo a que a experiência possa ser totalmente nova, única e nunca antes pensada. Van Gerrewey explica que o passado e toda a história é importante somente no sentido em que se pode verificar que cada projeto é singular e irreproduzível - a verdadeira arquitetura tem de ir contra a generalidade, tem de ir contra a formatação e ir além da criação de padrões e de relações óbvias. 

Van Gerrewey declara ainda que a verdadeira arquitetura nunca está completa, nem terminará jamais. A verdadeira arquitetura distingue-se do seu contexto e do resto do mundo através dessa abertura, desse vazio e desse interstício que cria de modo único, pessoal e intransmissível. No caos infinito do cosmos, de repente, abre-se um espaço de articulação e de organização, que pode ser projetado no seu contexto mais próximo, e que pode permitir uma compreensão ainda que momentânea do mundo. Só a verdadeira arquitetura se manifesta então como um ponto do universo que permite compreender e dar sentido. A arquitetura dá a ver a infinitude do cosmos mas ao mesmo tempo a insignificância, as limitações e as imperfeições humanas.

“Of course, thanks to this aspect architecture tries to transfer old religious, sacred, holy, mystical, spiritual cosmic claims to a disenchanted world.”

Por isso, na opinião do autor a verdadeira arquitetura é uma manifestação singular daquilo que é mais sagrado. É um ponto absoluto e fixo no centro do universo. É um intervalo e um meio que permite que a vida de cada ser humano seja única e irrepetível.


Ana Ruepp

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

 
    Immanuel Kant


A dignidade humana e o seu fundamento


Todos os homens e mulheres são iguais, porque são pessoas. O ser humano, porque é racional e livre, faz a experiência de autoposse, de ser dono de si, responsável por si e pelo que faz. Portanto, é pessoa e não coisa. Os outros animais não são coisas, mas não são pessoas.

Historicamente, foi decisivo o contributo do cristianismo para a noção de pessoa e de que todo o ser humano é pessoa. Na Grécia e em Roma, ser humano e pessoa não eram sinónimos, pois só os cidadãos livres eram sujeitos de plenos direitos e deveres. O cristianismo afirmou e afirma que todo o ser humano — homem, mulher, escravo, deficiente... — é pessoa, com dignidade inviolável, porque é filho de Deus. O filósofo Immanuel Kant, a partir daqui, reflectirá filosoficamente, concluindo que as coisas são meios para outra coisa e, por isso, têm um preço; mas nenhum ser humano pode ser tratado como simples meio, pois é fim e, por isso, não tem preço, mas dignidade. É nesta dignidade que se fundamentam os direitos humanos nas suas várias gerações.

O Papa Francisco falou de diferentes crises, examinando ao mesmo tempo “as oportunidades que delas derivam para construir um mundo mais humano, justo, solidário e pacífico”. O ponto central é a dignidade inviolável da pessoa humana. Tendo I. Kant em fundo, disse: “Cada pessoa humana é um fim em si mesma, nunca um simples instrumento cujo valor é medido só pela sua utilidade, e foi criada para conviver na família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros têm a mesma dignidade. Desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres”, e lembrava, por exemplo, a responsabilidade de acolher e ajudar os pobres, os doente, os marginalizados. “Se se suprime o direito à vida dos mais débeis, como se poderá garantir de facto todos os outros direitos?”.

Aqui, impõe-se perguntar: qual é o fundamento da dignidade da pessoa humana, fim em si mesma e não simples meio? Pessoalmente, defendo que esse fundamento se mostra e se encontra na constituição do ser humano, constituição que o faz perguntar, mas de tal modo que, de pergunta em pergunta, inevitavelmente chegará à pergunta pelo Infinito. Nesta capacidade de perguntar ao Infinito pelo Infinito, em última análise, por Deus, mostra-se que o Homem tem em si algo de infinito. E só o Infinito é fim e não meio: na verdade, o que é que há para lá do Infinito? Por isso, a pessoa humana é livre e faz a experiência da liberdade no ser dada a si mesma. Cada um, cada uma, é senhor, senhora, de si mesmo, de si mesma, e das suas acções, autopossui-se, é dono, dona de si e das suas acções, respondendo por elas: é responsável.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia 

Sábado, 17 de Janeiro de 2026

A VIDA DOS LIVROS

   

De 19 a 25 de janeiro de 2026


«Liberdade Religiosa no Mundo – Relatório 2025» (Fundação AIS) constitui um documento de grande importância para o conhecimento da situação real da liberdade de consciência no mundo, num momento especialmente difícil nesse domínio.

Ao analisarmos o último relatório elaborado Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), apresentado no Centro Nacional de Cultura, verificamos que no período analisado do início de 2023 até ao final de 2024 houve graves violações da liberdade religiosa em 62 dos 196 países analisados, sendo que em 24 deles as violações foram classificadas como “perseguição” e em 38 como “discriminação”, sendo que estes países correspondem a cerca de 64,7% da população global.

Além destes, há ainda 24 outros países classificados “sob observação”, devido a uma “onda de sinais de alerta que ameaçam a liberdade religiosa”. Entre elas conta-se o aumento da intolerância, bem como a erosão das proteções legais, o extremismo religioso e a crescente interferência estatal na vida religiosa. Isto significa que 750 milhões de pessoas correm neste momento o risco de discriminação religiosa. Durante o período abrangido, apenas duas nações, o Cazaquistão e o Sri Lanka, apresentaram melhorias em comparação com a edição anterior. Na origem da crescente repressão religiosa está o “autoritarismo” como o principal motor das violações. Em 19 dos 24 países na categoria de perseguição e em 33 dos 38 países com discriminação, os Governos aplicam “estratégias sistemáticas para controlar ou silenciar a vida religiosa”. Na China, Irão, Eritreia e Nicarágua as autoridades utilizam tecnologias de vigilância, censura digital, legislação restritiva e detenções arbitrárias, visando comunidades religiosas independentes. “O controlo da fé tornou-se uma ferramenta do poder político”, sendo a “burocratização da repressão religiosa” cada vez mais sofisticada. Há ainda a expansão do extremismo religioso, em particular em África e na Ásia, em 15 países destes continentes.

A violência jihadista aumenta, adapta-se e desestabiliza a uma escala sem precedentes. Na região do Sahel, em África, grupos como o autoproclamado Estado Islâmico da Província do Sahel têm provocado a morte de centenas de milhares de pessoas, a deslocação de milhões e a destruição de centenas de igrejas e de escolas cristãs. Situações semelhantes são encontradas na República Democrática do Congo e Moçambique, onde a procura de estabelecer um “califado” tem legitimado tais ações. No continente asiático é sobretudo o nacionalismo étnico-religioso que impulsiona a repressão das minorias. Na Índia e em Myanmar é evidente o clima de perseguição. A discriminação é denunciada na Palestina, em Israel, no Sri Lanka e no Nepal. Na Índia ocorre uma “perseguição híbrida”, legal e articulada com a violência das multidões. No caso da Nigéria, os ataques de militantes fulani radicalizados atingiram igrejas, aldeias e clérigos, desencadeando deslocações em massa. No Burquina Fasso, Níger, Mali e na guerra civil no Sudão, “comunidades religiosas inteiras foram desenraizadas, os seus locais de culto destruídos e o património religioso eliminado”. Dos conflitos armados na Ucrânia, Sudão, Myanmar, Gaza e Nagorno-Karabakh têm resultado em “deslocações em massa, encerramento de igrejas e ataques dirigidos a comunidades religiosas”. Do mesmo modo, o crime organizado tem tido “sistematicamente como alvo os líderes e as comunidades religiosas” em Estados enfraquecidos ou falhados e em zonas de conflito. É o que acontece na Nigéria, Haiti e México, onde o crime é um dos principais impulsionadores da perseguição ou discriminação. Verifica-se ainda o “aumento acentuado dos crimes de ódio antissemitas e antimuçulmanos”, sobretudo após o ataque do Hamas em Israel, a 7 de outubro de 2023, e a subsequente guerra em Gaza.

“Os incidentes antissemitas e antimuçulmanos aumentaram em toda a Europa, América do Norte e América Latina”. Em França, os atos antissemitas aumentaram 1.000%, enquanto os crimes de ódio contra muçulmanos aumentaram 29%; na Alemanha houve 4.369 crimes associados ao conflito religioso, face a apenas 61 registados em 2022. Foram atacadas sinagogas e mesquitas e o discurso de ódio proliferou online. Face a isto, “em muitos casos, as respostas governamentais revelaram-se inadequadas, alimentando o medo e a insegurança entre as comunidades religiosas”. Só em 2023, a França registou aproximadamente 1.000 incidentes anticristãos, enquanto a Grécia reportou mais de 600 casos de vandalismo em igrejas. No Canadá, 24 igrejas foram alvo de fogo posto entre 2021 e o início de 2024. Há ainda novas formas de “perseguição digital” na “era da inteligência artificial”. Os grupos extremistas exploram ferramentas digitais para incitar à violência e difundir propaganda negativa e exclusiva e as redes sociais são utilizadas como armas para silenciar as minorias, difundir o discurso de  ódio e alimentar a polarização. Duplamente vulneráveis, mulheres e raparigas de minorias religiosas, algumas com apenas 10 anos de idade, sofrem abusos sistémicos. A IA e as ferramentas digitais estão a ser utilizadas para reprimir grupos religiosos. Na China e na Rússia, a “dissidência online” é controlada e punida, enquanto as plataformas religiosas são bloqueadas. Na Coreia do Norte, os relatos citados no documento indicam que as autoridades aplicam um sistema agressivo de vigilância.

Como fica claro neste Relatório “a liberdade religiosa não é um privilégio – é um direito humano fundamental”. “Da região de Cabo Delgado, em Moçambique, ao Burkina Fasso, as iniciativas inter-religiosas demonstraram que a liberdade religiosa pode servir de base para a unidade e salvaguardar a dignidade humana. A educação desempenha um papel fundamental neste processo, promovendo a coesão social, afirmando a igualdade de valor de todos os indivíduos e capacitando os grupos minoritários, tanto a nível cultural como económico”.  


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

AS ENERGIAS ALINHADAS

  


Nenhuma cidade, nenhuma casa, e de facto nenhuma parte de casa, deve ser construída ou arrumada sem que as energias estejam perfeitamente alinhadas. A arte antiga do Chop Suey assegura-nos que nenhuma janela pode estar virada a poente a menos que a máquina de sumos irradie para o quarto de cama; que não se pode descurar os armários e a parede; e que os Quatro Ventos são comandados pela via de cintura interna. Um pouco abaixo da cintura, outra linha imaginária une a parte esquerda da alma ao centro cultural. Para o demais, um cesto de artesanato com hemoptises, cristais, cornélias e ermelindas negras. Sentimos que o mundo é a nossa ostra, e que a nossa casa nos abraça.

Trata-se da origem da antiga arte da planificação, e com resultados semelhantes. A atenção às energias alinhadas é responsável pela harmonia entre pessoas, animais e cosmos. Cada pessoa, animal ou cosmos pode ser comparado a um rim; as energias acumuladas passam pelo meridiano de Greenwich, o qual por sua vez afecta os rins. O rim tem a forma da ostra, e regista a ecografia dos sons. Foi desde muito cedo na história da espécie, quase desde o primeiro Ano do Gato,  um modo seguro de evitar as Dez Abominações. Inserindo agulhas esterilizadas na Hóstia de Camarão, revelam-se os Quatro Ventos; brotam aproximadamente mil flores, numa média de duzentas e cinquenta por armário, segundo se calcula.

Com a casa arrumada estamos finalmente prontos para começar o Chow Min. Sem ele as nossas manhãs não seriam como de facto são. Nos jardins preparados antecipadamente pelo Ancinho os praticantes sincronizados movem-se como o polvo entre as flores. Com uma lentidão calculada  levantam todos a mesma perna; ‘a mesma perna’, dizemos bem. Com efeito, embora num sentido trivial a perna seja de quem acontece tê-la, qualquer perna, por maior que seja, é a perna do Um. O Um corresponde por sua vez sensivelmente a metade do Dois.

Só quem não participou alguma vez numa aula de Chow Min, com a extraordinária experiência que isso implica, a pode reduzir às coreografias que parecem inconclusivas a olhos estranhos, sem comparação possível com as aulas buliçosas de Herodes ou de Kwanza. Tal como o Chop Suey organiza o espaço físico, a verdadeira dimensão do Chow Min é mental. Parte a partir do físico, por assim dizer, em direcção ao mental, até acabar por lá chegar. A mente, que é a marca do mental, caracteriza-se por ter um extraordinário poder de concentração mental, como um sumo a que não foi adicionado qualquer outro sumo. Ao focar-se nas luzes que estão para lá do muro, levanta-se uma energia. Dizem os fiéis, e com perfeito motivo, que assim até dá gosto viver na Parede.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

MEMÓRIA DE QUERUBIM LAPA

  


Nos últimos dias do ano, passou o centenário do nascimento de um notável artista plástico contemporâneo, que se singularizou como ceramista,  pintor e escultor, fazendo moderna uma tradição antiga em que Portugal se destacou. Tive o gosto e a honra de trabalhar de perto com o mestre e amigo, num projeto que me foi transmitido por Roberto Carneiro e que prossegui com muito prazer e belos resultados. Perante as iniciativas espontâneas das escolas de introduzirem elementos decorativos por intervenção de professores e alunos, verificava-se uma grande heterogeneidade de situações, muitas delas sem qualidade ou sem o necessário equilíbrio e a exigência artística adequada. Daí ter sido decidido criar uma equipa constituída por artistas consagrados, que passaram a apreciar e a acompanhar os projetos apresentados pelas escolas. Querubim Lapa, Francisco Simões e Manuela Pinheiro, com provas dadas nos domínios da cerâmica, da escultura e da pintura, foram os escolhidos e empenharam-se nessa tarefa de modo exemplar. O resultado da experiência foi excelente, como reconheceram as comunidades escolares, professores e estudantes, que recordam com orgulho os resultados alcançados graças à interação entre a escola e os artistas, que assim se tornaram intervenientes ativos na criação de estabelecimentos mais atraentes e motivadores da criação artística. Francisco Simões é uma referência no nosso panorama artístico. Manuela Pinheiro, que há pouco nos deixou, tem uma obra assinalável que merece especial atenção, sugerindo-se que o Ministério da Educação possa atribuir o seu nome a uma das escolas com a qual a artista esteve ligada. De facto, a aprendizagem torna-se mais viva, mercê do reconhecimento da importância das artes. Por isso, promovemos também a presença nas escolas de escritores, poetas e artistas, com resultados extraordinários e inesquecíveis para a vida de estudantes e educadores.

Querubim Lapa era um mestre. A vida das escolas atraia-o. Os diálogos que foi estabelecendo estavam cheios de boas lembranças: desde a participação no filme de Manuel Guimarães sobre Soares dos Reis, que o marcou decisivamente, até à partilha de experiências com António Ayres e Lagoa Henriques no mesmo ateliê. A partir de 1950 foi para a Escola de Belas Artes do Porto, onde trabalhou com Barata Feyo, um dos seus mestres mais influentes, abraçando a escultura como uma das suas artes de eleição, em ligação natural com o desenho e a pintura. Professor do ensino secundário, o ensino dos mais jovens era uma verdadeira paixão. Essa memória  levou-o a dedicar-se com tanto entusiasmo ao projeto de renovação das escolas, a partir do trabalho de professores e alunos. A cada passo recordava o caminho que fez, desde os primeiros passos na Viúva Lamego, a colaboração com Lino António e o ensino na sua Escola António Arroio, cujas oficinas conhecia como ninguém. Houve ainda o projeto da Gravura – Cooperativa de Gravadores Portugueses, onde teve a sua primeira exposição individual com pintura, gravura e cerâmica, bem como a decoração da Loja das Meias, a convite do arquiteto Carlos Tojal, a intervenção no Hotel Ritz ou os magníficos painéis de cerâmica policromada na Pastelaria Mexicana, além do entusiasmo na pintura, atraído pelos nenúfares de Monet. Querubim Lapa é assim uma presença inconfundível que continua a marcar decisivamente a cultura e a arte pública entre nós.


GOM

ANTOLOGIA

  


ATORES, ENCENADORES (XXXII)
COMEMORAÇÃO DOS 74 ANOS DE CARREIRA DE EUNICE MUÑOZ
por Duarte Ivo Cruz


Com a designação de “74 Eunices”, o Teatro Nacional de D. Maria II incluiu, no programa da temporada de 2015/2016, recentemente divulgado, uma homenagem a Eunice Muñoz. E efetivamente, a atriz estreou-se precisamente no Teatro Nacional, em 1941, na peça “Vendaval” de Virgínia Vitorino, integrada no elenco da Empresa Rey Colaço- Robles Monteiro.

São pois, efetivamente, 74 anos de carreira, constante e extremamente qualificada, em termos de criação e em termos de repertório, cumpridos com algumas interrupções mas apesar disso constantes, até pelo menos à temporada de 2012, quando, novamente no D. Maria II, sofreu um acidente em cena, durante um ensaio.

Esta vastíssima carreira é extremamente valorizada pelo talento, pelo profissionalismo e pela qualidade e isto não obstante as interrupções que Eunice se autoimpôs, num critério de exigência artística amplamente justificada pela qualidade das interpretações. Uma carreira longa e de alta qualidade.

Uma carreira também obviamente variada e heterogénea no que respeita aos géneros dramáticos e aos autores, mas com algumas linhas mestras de coerência que importa salientar. É bem certo que os atores tantas e tantas vezes representam o que lhes mandam representar: e que um profissional de teatro se sujeita a repertórios que os diretores das companhias e/ou os empresários determinam: são as contingências do profissionalismo.

Mas essas contingências, por sua vez, acabam por se subordinar ao prestigio dos atores: quando um ator atinge o mais alto nível, será difícil impor-lhe um personagem que não lhe interesse fazer. E seria difícil impor fosse o que fosse, a partir de certa fase da carreira, a uma atriz como Eunice – o que não significa, note-se bem, um menor grau de profissionalismo: também nesse aspeto, Eunice é exemplar.

E nas dezenas e dezenas de peças que Eunice Muñoz interpretou nos 74 anos de carreira, destaca-se um nível de qualidade sempre assinalável, com algum destaque para peças de autores portugueses e de autores contemporâneos.

Desde logo o iniciático “Vendaval” de Virgínia Vitorino (1895-1967), que se abalançou a uma problemática política datada “em sete títulos hoje esquecidos” escrevi na “História do Teatro Português”, mas que, diz-nos agora Luis Francisco Rebello, o público da época “recebeu com entusiasmo, justificado pelo seu entrecho sentimental, habilmente doseados com laivos de crítica social” (“100 Anos de Teatro Português”), de quem aliás viria a interpretar, anos depois, a protagonista de “Os Pássaros de Asas Cortadas” no Teatro Nacional Popular – Teatro da Trindade  de Francisco Ribeiro, de que já aqui falamos.

Eunice diplomou-se entretanto no Conservatório Nacional com uma alta classificação.  E distribuiu uma carreira longa se bem que intermitente por praticamente todas as companhias relevantes do teatro português. Estreou peças de Ramada Curto, de Júlio Dantas, Eduardo Shwalbach, Carlos Selvagem, Costa Ferreira, Bernardo Santareno, José Régio, mas também de Anouille, de Pirandello, Brecht, Tenessee Williams e clássicos - Shakespeare, Molière, Alexandre Dumas, Tchékhov, e tantos outros autores. E ainda, nos nossos, Gil Vicente, Camões, Nicolau Luis, Garrett, Camilo.

E fez teatro declamado, drama e comédia, teatro musicado – e até, em “Passa por mim no Rossio”, espetáculo de Filipe La Féria que relançaria do Teatro Nacional, uma versão revisteira de expressões dramáticas diversas…

E no cinema, temos 13 filmes, a partir do iniciático “Camões” de Leitão de Barros (1946) até “Entre os Dedos” de Tiago Guedes e Frederico Serra, de 2008. E sobre o “Camões” diz, com toda a justiça Jorge Leitão Ramos, que “o seu estilo de representação se destaca da pesada e empolada retórica dominante”. (“Dicionário do Cinema Português - !895, 1961”).

E muito mais haverá a dizer de Eunice Muñoz”…


Duarte Ivo Cruz


Obs: Reposição de texto publicado em 15.07.15 neste blogue.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Michael J. Sandel © Foto de Rick Friedman


243. O GRUPO CERTO


“Fazer parte da classe certa, do grupo certo, da família certa, dos comensais certos, dos círculos certos, é muito mais do que uma mais-valia, é uma certeza de sucesso. A democratização da elite político-económica, que se esboçou desde o 25 de Abril, acabou. A elite encolheu para uma posição fetal, e está num período tão cheio de possibilidades, que sabe serem quase únicas, que não brinca em serviço”
(José Pacheco Pereira).  

Sem fazer generalizações excessivas e nem sempre justas, há que reconhecer tratar-se de uma observação transversal à esmagadora maioria dos países (senão mesmo a todos), com especial incidência nos mais pobres e subdesenvolvidos, incluindo territórios e povos que integram o chamado mundo desenvolvido, como Portugal.

Em qualquer caso, todos nós, portugueses, temos noção e a experiência de que é realista a análise, a começar por quem luta pelo acesso ao poder pelo poder, havendo sempre exceções, o que não é fácil num país onde perdura, mesmo em democracia, o ressurgimento de velhas forças e mentalidades como a cunha, o clientelismo, o compadrio, a partidocracia rotativista, o nepotismo, o tráfico de influências e a concussão. A que acresce, como crime e conduta mais grave, a corrupção. Mesmo sabendo que a cunha e o nepotismo não são ilegais, porque toleradas socialmente e tidas como normais, mesmo que antiéticas.     

O filósofo Michael J. Sandel, defende que os bem-sucedidos devem questionar se o sucesso lhes deve ser inteiramente atribuído, ou de igual modo (ou mais) à família, ao grupo, à tribo, à comunidade, ao ensino, às circunstâncias da vida, ao país ou à sorte. E, por arrastamento e consoante o contexto, à cunha, aos conhecimentos, apelidos, ao nepotismo e outras práticas socialmente toleradas. E adianta que as elites, mesmo as meritocráticas, são altivas, arrogantes e pouco humildes, raramente se interrogando sobre os seus privilégios, havendo que desafiar essa naturalização tida como adquirida, abrindo espaço a pessoas de todas condições e furando a bolha em que vivem.   

Infelizmente, após décadas de democracia, ainda há a ideia de que vivemos num sistema que obriga muitas pessoas a fazer o uso normal dos conhecimentos, da cunha, do nepotismo, do tráfico de influências e quejandos para sobreviverem, ou como um álibi para alcançarem certos fins, ouvindo-se dizer que numa sociedade onde as elites se apropriam do grosso dos recursos, não ensinar aos filhos a legitimidade de uma certa astúcia e vigarice seria privá-los de meios de subsistência.   

Mas não generalizemos, também há gente que chegou, viu e venceu, subiu e prosperou com esforço e saber, sem ter nascido numa pretensa elite ou na alegada “família certa”. Ou que também tendo nela nascido, igualmente conseguiu e venceu. 


16.01.26
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Lembro-me do medo e da felicidade 

  


1.

Também se deita a mão a um galho de água.

De dentro do destino,

e quando já não fazem parte de nós

as lembranças dos dentes de leite,

expõem-se as nossas bagagens de refugiados

que, vento por vento,

dizem da nossa vida


2.

E chegada a altura,

é sempre ela, a nossa força consigo mesma,

rasgando espaços para outras vias, outras inconstâncias,

outras fronteiras, outros rouxinóis atravessando aniversários,

e no que à nossa morte respeita,

o silêncio em todas as extremidades,

o adestrar dos pássaros


3.

Depois nós,

ora assustados, ora confortados,

enfrentamos abismos, saudades e ceifas

que estavam escritas nos livros de culinária que aconteceriam depois das claras em castelo bem firmes,

para que reinasse a paz nas nossas casas, para que a descrevêssemos com as mãos.

Mas o cantor das feridas questionava:

e se nos escapou o principal

brunido pela sua passagem?


4.

De regresso, de regresso atravessamos o Inverno e o esquecimento

e mais tarde

atamos uma corda ao ar

para chamarmos a razão de sermos aves migratórias,

tornando-nos no voo,

lentamente

pó, vertigem

e amor.


5.

E nós, nós de novo agarrados ao galho de água,

mais prontos.

Eis:

eu, passarinho pequenino, pequenino,

no meu lugar forrado com penugem,

porque me olho do lá, do muito fundo,

da escola,

daquele sítio único de onde se veem nascer

os dias grandes


Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  
    Fool with a Flower, 1944, Cecil Collins 


A arte sensibiliza o interior de cada indivíduo, sincronizando-o com cada elemento do mundo.


“For beneath the tyranny and captivity of the mediocre culture of political dictatorships and their mechanical systems, and beneath our own commercial travellers' civilisation, there still flows the living river of human consciousness within which is concentrated in continuity the life of the kingdom of life, animals, plants, stars, the earth and the sea, the life of our ancestors, the flowing generation of men and women as they flower in their brief and often tragic beauty. And the artist is one of the vehicles of the continuity of that life; he is its guardian, and his instrument is the myth and the archetypal image, his language the symbol.” Cecil Collins (Collins 2002, 113)

O ser humano tem uma vida interior que vai para além da sua existência quotidiana, essa vida interior pode revelar-se através da prática e da experiência da criação, isto é, através da arte.

No texto ‘Art and Modern Man’, Cecil Collins revela que o ser humano tem uma existência exterior e uma existência interior, porém a existência interior para que exista, floresça e seja ativada tem de ter um espaço (um mundo e um ambiente próprio) para se desenvolver e expandir. E, de acordo, com Cecil Collins a arte é o único instrumento que pode ajudar a construir esse mundo e ser casa arquetípica - o centro de tudo aquilo que o ser humano procura. Assim, se os dois mundos (interior e exterior) viverem unidos e em comunhão dar-se-á em cada indivíduo um equilíbrio e um sentido definido e derradeiro.

A civilização atual, Collins explica, é organizada de acordo com a ordem da alta tecnologia e deixou de olhar para o mundo como se fosse um vasto poema escrito com forma e cor. Esse mundo, onde cada elemento e objeto real tinha um significado escondido, sagrado e essencial, cessou de existir no mundo de hoje. Era um mundo que quando entendido permitia fundir-se com o seu recetor por ressonância e mútua compreensão.

O domínio do conhecimento, focado simplesmente nos aspetos físicos, afasta e esvazia a vida interior do ser humano. Sendo assim, o ser humano é impedido de se aproximar e de criar uma resposta em comunhão com aquilo que o rodeia. E, por isso, vê-se obrigado a viver num estado de alienação, de esvaziamento e de escapismo constante, permitindo que cada indivíduo se transforme numa máquina sujeita a constantes pressões de eficiência e abandone o verdadeiro propósito da sua existência.

Cecil Collins acredita que os fatores e elementos mais significativos para a vida só poderão ser transmitidos e ensinados através da experiência humana e nunca através de máquinas. Numa cultura viva existe um equilíbrio entre a energia, a força, a experiência, a realidade, o sonho, a imaginação, a abstração e a sabedoria. É a comunhão e a unidade que existe entre o ser e o cosmos que traz vida e dá sentido à vida.

“Ours is the only civilization I know of in the whole history of man which has a purely exterior environment. In the metaphysical civilizations the environment was created entirely by artists so that the human spirit through the human hand was imprinted directly upon the material objects surrounding man.” Cecil Collins (Collins 2002, 107)

Collins escreve que, desde sempre, o artista é aquele que manifesta e que ativa a vida interior do ser humano. A concentração de todos os meios disponíveis num só aspeto determinado mundo pode contribuir para a sua destruição. Por isso, é preciso entender que existem diferentes níveis de conhecimento e de inteligência – cada indivíduo tem uma linguagem e uma expressão particular e irrepetível e é através de experiências diversas que se vai descobrindo e aperfeiçoando essa linguagem que revela e que pode ajudar a revelar. O artista está primeiramente interessado em criar significado através da revelação de identidade, de experiência, de lugar, de presença, isto é, através do entendimento do ser humano como um todo.

“And then secondly we understand, that the signature or form is no spirit, but the receptacle, container, or cabinet of the spirit, wherein it lies; for the signature stands in the essence, and is as a lute that liest still, and is indeed a dumb thing that is neither heard or understood; but if it be played upon, then its form is understood, in what form and tune it stands, and according to what note it is set.”, Jacob Boehme In The Signature of all things 

Collins afirma que o ser humano é um instrumento da consciência, que transporta em si o sentido da vida e que vai para além da superfície. A transformação e a revelação da consciência humana não pode ser analisada, pensada nem descrita. Pode só dar-se perante pequenas relações e sensibilidades que acontecem em resposta a vibrações que existem nas outras vidas, elementos e objetos que existem. A arte ou a capacidade de criar ajuda a sensibilizar o interior de cada indivíduo e da sua consciência, de modo a poder sincronizar-se com cada elemento (por mais insignificante que seja) do mundo e do cosmos. Para que o ser humano possa entender, estudar e conhecer um elemento do mundo, ele próprio tem de se transformar nesse elemento: “Never did eye see the sun unless it had first become sun like and never can the soul have vision of the first beauty unless itself be beautiful”, Plotinus (Collins 2002, 109)

Mas a arte (e tudo o que é criado pela mão humana) só possibilitará a comunhão, a visão e a semelhança com aquilo que existe, se for a realização da essência daquilo que existe. E será um instrumento da natureza interior do ser humano se permitir a manifestação, por meio da matéria, da sua essência e da essência do mundo - de modo que o cosmos possa estabelecer relações profundas, próximas e sincronizadas com a vida. 

Por sua vez, o ser humano ao permitir que a sua consciência seja transformada e tocada através da arte, torna-se mais sensível a qualquer pormenor e vibração e assim haverá uma ligação mais profunda com cada elemento do mundo.

Collins escreve que o ser humano deve contactar com o seu centro pois assim entrará em comunhão com o centro do universo – e só assim deixará de ser prisioneiro de um mundo vazio e superficial. O centro do universo transporta o sentido da vida e a nostalgia do paraíso perdido (já mencionado entre as comunidades primitivas, cujo drama e energia flui no sentido de fazer parte do mundo arquetípico). 

Ao artista cabe então refletir sobre aquilo que dá sentido à vida. A arte ajuda a reativar o verdadeiro eu eterno do ser humano. Arte, para Collins, é assim uma interpenetração de mundos, é um encontro entre o que se conhece e o desconhecido – o desconhecido  refresca a vida humana, pois sem esta dimensão cada ser crescerá estéril e mortal. 

Por isso, Collins fala da importância do artista em usar a linguagem dos símbolos, a linguagem das formas originais. Os símbolos existem não para responder a questões, nem resolver soluções. Os símbolos são vestígios, são formações e transformações dos diversos modos de ser. Um símbolo é um contentor, é uma imagem de contemplação e de participação. É um veículo e um meio. É uma imagem pronta a receber. Estados profundos do ser humano podem ser espelhados num símbolo: “In contemplation all these symbols have to be returned to our being and dipped into its profound depths and thus be reborn again.”, Cecil Collins (Collins 2002, 113)

Collins termina com a ideia de que a arte é a entrada para aquilo que mais importa – não só para o artista que cria e que aprende a ver mas também para aquele que perante a arte se transforma. A vida interior do ser humano deve manter-se viva e transmitida pois essa é a verdadeira fonte da vida e do propósito humano e a arte é o único veículo que pode salvar perante o abismo.

“The modern technological world has the real possibility of poisoning in us those inner instruments by which we contact the very source of life…”, Cecil Collins (Collins 2002, 114)


Ana Ruepp

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Fiódor Dostoiévski


O fardo da dignidade da liberdade


Aparentemente, não há nada para o homem que ele tanto preze como a liberdade. Mas, tendo de optar entre a segurança — intelectual, espiritual, psicológica, social, económica, política, religiosa — e a liberdade, não se sabe quantos ficariam do lado desta e não daquela, do lado da liberdade e não da segurança.

Fiódor Dostoiévski disse-o de modo ácido e também sublime num texto em que também se critica com justiça a Igreja de Roma. Fá-lo em Os Irmãos Karamázov, no poema de Ivan com o nome "O Grande Inquisidor". A história passa-se em Espanha, em Sevilha, nos tempos terríveis da Inquisição, precisamente no dia a seguir a um "magnificente auto-de-fé" em que foram queimados de uma assentada, na presença do rei, da corte, dos cardeais e das damas mais encantadoras da corte e da numerosa população de Sevilha, quase uma centena de hereges. Cristo "apareceu, devagarinho, sem querer dar nas vistas e... coisa estranha, toda a gente O reconhece." Mas o cardeal inquisidor aponta o dedo e manda que os guardas O prendam. E é num calabouço do Santo Ofício que lhe diz que no dia seguinte O queima na fogueira como ao pior dos hereges. E a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Cristo a coisa mais preciosa. Não foi Ele que disse tantas vezes: "Quero tornar-vos livres?"

Cristo, afinal, não percebeu que "o homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua liberdade." "Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!", diz-lhe o inquisidor. "Esqueceste-Te de que a tranquilidade e até a morte são mais queridas para o homem do que a escolha livre do bem e do mal? Não há nada mais sedutor para o homem do que a liberdade da sua consciência, mas também não há nada mais torturante." Assim, ao longo de quinze séculos, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo, baseando-a em milagre, mistério e autoridade. Agora, todos sabem em que é que hão-de acreditar e o que é que hão-de fazer, sem terem de perguntar porquê nem de escolher. "E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava."

Como única resposta o prisioneiro beijou-o, e o velho cardeal vai até à porta, abre-a e diz: "Vai-te embora e não voltes mais... não voltes... nunca, nunca!"

O homem angustia-se com a liberdade. Porque ser livre quer dizer ser senhor de si e dos seus actos e ter de escolher e ter de responder por si e pelo mundo e pelos outros. Ter de escolher é para o ser humano, que quer tudo e todos os caminhos, ter de escolher algo e um caminho só de cada vez e ter de renunciar a tantas outras possibilidades, sem poder ficar com tudo, na consciência disso. Ser livre quer dizer entrar na urgência de um projecto e poder falhar e, num tempo irreversível, que inexoravelmente caminha para a morte, nunca mais ter tempo para remediar, para refazer, para fazer outra coisa e um ser si mesmo outro: é tudo sempre pela primeira e última vez, sem ensaios...

A angústia da liberdade e da responsabilidade  e a busca falaz da segurança explicam a facilidade da entrega a poderes totalitários, a seitas cegas, a colonizadores de corpos e de almas, a vendedores de "verdades e certezas" tapadas e irracionais.

A liberdade é condição de possibilidade da ética. Mas até do ponto de vista das raízes etimológicas gregas — ethos com épsilon e ethos com eta, que significam, respectivamente, acção, costume, modo habitual de agir, e toca do animal, morada, casa — se diz que a questão ética é indissociável da pergunta pela nossa morada enquanto horizonte de sentido, pátria onde se quer habitar. Sim! Afinal, para onde queremos ir? Na presente situação de hecatombe político-moral num mundo enlouquecido, para onde vamos sem uma conversão ética?

Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e age no quadro de uma rede de instintos, o homem vem ao mundo praticamente desarmado de instintos e aberto a possibilidades sem conta e tendo de fazer-se a si mesmo no mundo com os outros. Pode escolher entre esta e aquela possibilidade, até tem a capacidade de não escolher, mas quem tenta escolher não escolher também escolhe. De qualquer modo, é capaz de erguer-se a si mesmo acima dos apetites, do simplesmente agradável ou útil e colocar-se no lugar do outro. Transcende os interesses particulares da natureza e enquanto ser racional dá a si mesmo de modo autónomo a lei moral universal que é a lei da liberdade. Kant formulou-a nestes termos: "Age segundo uma máxima que queiras ao mesmo tempo que se transforme em lei universal de acção", ou então: "Trata a humanidade em ti e nos outros sempre como fim e nunca como simples meio." As coisas são meios e, por isso, têm um preço. O ser humano é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade.

Sem capacidade moral e liberdade — a liberdade é a condição de possibilidade da moralidade e, consequentemente, da responsabilidade (responder pelo que se faz ou não e como se faz) —, o homem não seria digno de louvor nem estaria sujeito à censura, e não haveria distinção entre o bem e o mal. Como escreveu o filósofo Luc Ferry,  que foi Ministro da Educação da França, "um materialismo consequente deveria limitar-se, sempre, a uma 'etologia', sem nunca falar de moral a não ser como uma ilusão mais ou menos necessária, fazendo parte do real mas, sem embargo, enganadora". Embora condicionado, só porque não é completamente subordinado nem guiado pela natureza é que o ser humano "pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a maldade) quer no bem (o amor e a generosidade)".


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia 

Sábado, 10 de Janeiro de 2026

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