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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 5 a 11 de janeiro de 2026


No início do novo ano, recordamos Pascal (1623-1662), grande filósofo francês e europeu, cuja reflexão enriquece os dias de hoje e o pensamento contemporâneo.


Como lembra Jean Guitton, numa das edições que coordenou de “Pensées” (“Pensamentos”) de Pascal, o pensador disse um dia: “Não sei quem me pôs no mundo, nem o que é este mundo, nem mesmo quem sou eu; estou numa ignorância terrível sobre todas as coisas; não sei o que é o meu corpo, o que são os meus sentimentos, o que é a minha alma ou o que é esta pequena parte de mim que pensa o que digo, que faz a reflexão sobre tudo e sobre ela mesma, e que se desconhece como aliás acontece com tudo o resto”. Ora, o certo é que a vida de Pascal é uma tentativa desesperada, até à morte, para procurar compreender. Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand no dia 19 de junho de 1623. Órfão de mãe, teve a sua educação entregue aos cuidados do pai. Cedo se manifestaram nele qualidades de um prodígio, em especial para as ciências físicas, o que levou a família a partir para Paris, onde o jovem se dedicou ao estudo da matemática. Com apenas 16 anos, Pascal escreveu “Ensaio Sobre as Cónicas” (1640). Depois, acompanhou o pai para Rouen, onde realizou as primeiras pesquisas no campo da física. Inventou então uma pequena máquina de calcular, a primeira calculadora manual conhecida, que hoje se encontra  no Conservatório de Artes e Medidas de Paris. Tem nessa altura os primeiros contactos com os jansenistas, grupo cristão que aceitava a predestinação e ensinava que a graça divina seria a chave da salvação, em lugar da realização de grandes obras. Em Paris, concretiza experiências sobre a pressão atmosférica, escreveu um tratado sobre o vácuo e inventou a prensa hidráulica. Formula e desenvolve a "Teoria da Probabilidade" e o “Tratado do Triângulo Aritmético" (1654). Em 23 de novembro de 1653 conhece um êxtase místico. Depois de quase morrer em um acidente de carruagem, Pascal decide consagrar-se a Deus e à religião. Recolhe-se à abadia de Port-Royal des Champs, centro do jansenismo e elabora os princípios de uma doutrina filosófica, centrada na contraposição dos dois elementos básicos, não excludentes entre si:  a razão com suas mediações que tendem ao exato, ao lógico e ao discursivo (espírito geométrico), e a emoção, ou o coração, que transcende o mundo exterior, sendo intuitiva e capaz de aprender o inefável, o religioso e o moral (espírito de finesse).

Assim, Pascal resume o seu pensamento filosófico na frase "o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Na base dessa divisão está a oposição entre a natureza divina do espírito e a natureza humana da matéria. Publica então “Les Provinciales” (1656-1657), um conjunto de 18 cartas escritas para defender o jansenista, Antoine Arnauld, oponente dos jesuítas, que estava em julgamento pelos teólogos de Paris, mas também dá a lume “Pensées” (1670), enquanto tratado sobre a espiritualidade cristã. Então surgem as primeiras evidências de que o pensador começava a afastar-se do jansenismo, voltando-se para uma visão antropocêntrica da Graça. Ao lermos as suas reflexões, sempre preocupadas com a clareza e a utilidade, usa um estilo elegante, breve e conciso que o torna o primeiro grande prosador da literatura francesa. A “condição humana” constitui uma preocupação contante na sua obra e assim o teólogo e o escritor tornam-se mais influentes do que sua contribuição para a ciência. Deste modo, torna-se uma referência no pensamento dos séculos seguintes, desde os românticos até ao próprio Nietzsche e aos católicos modernos. Considera como fundamental o conceito de aposta. Como refere ainda Jean Guitton: “Pascal sabe que a fé é um dom de Deus e que ela se manifesta através do amor: não podemos provocar a fé por um mero cálculo. Mas Pascal conhece razoavelmente o coração humano, o coração descrente, para saber que o descrente não se convence com apelos, com pensamento, ou até com razões, a não ser que esteja disposto a crer; se renunciou a levar uma vida terrestre, só de prazer e de interesse. Há um círculo verdadeiramente mortal: apenas podemos crer se renunciamos aos falsos prazeres da vida; mas apenas renunciamos aos seus prazeres, se cremos”. Pascal desejava romper esse círculo. Se renunciamos aos falsos prazeres, não perderemos nada. Mas nessa aposta se pudermos ganhar (sendo verdadeira a religião de Jesus Cristo), ganharemos tudo. E Pascal conclui, quem não ousará ceder nada, para ganhar tudo? E deste modo o pensador considera a experiência da fé como uma atitude que suscita por si o despertar da própria fé. Por outro lado, devemos distinguir três tipos de ideal: a ordem da carne, a ordem do espírito e a ordem da caridade, representadas por Alexandre, o Grande; Arquimedes, o geómetra; e Jesus, o Santo de Deus. O destino humano relaciona as três dimensões, mesmo que a compreensão entre elas seja difícil ou impossível, no entanto, como pôde testemunhar o próprio Pascal na relação intima entre todas, encontramos a humidade e o amor, que permitem uma vida capaz de nos compreendermos melhor. E aqui encontramos os dois infinitos, em cuja encruzilhada nos encontramos: “Quando considero o tempo curto que é a nossa vida, vemo-lo absorvido na eternidade precedente e na eternidade seguinte, o tempo que nos antecedeu e o que vai seguir-se. O pequeno espaço que preencho está, assim, rodeado por dois infinitos. “Quantos reinos nos ignoram! O silêncio eterno desses espaços infinitos perturba-me”.     


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença