CRÓNICA DA CULTURA
Lembro-me do medo e da felicidade
1.
Também se deita a mão a um galho de água.
De dentro do destino,
e quando já não fazem parte de nós
as lembranças dos dentes de leite,
expõem-se as nossas bagagens de refugiados
que, vento por vento,
dizem da nossa vida
2.
E chegada a altura,
é sempre ela, a nossa força consigo mesma,
rasgando espaços para outras vias, outras inconstâncias,
outras fronteiras, outros rouxinóis atravessando aniversários,
e no que à nossa morte respeita,
o silêncio em todas as extremidades,
o adestrar dos pássaros
3.
Depois nós,
ora assustados, ora confortados,
enfrentamos abismos, saudades e ceifas
que estavam escritas nos livros de culinária que aconteceriam depois das claras em castelo bem firmes,
para que reinasse a paz nas nossas casas, para que a descrevêssemos com as mãos.
Mas o cantor das feridas questionava:
e se nos escapou o principal
brunido pela sua passagem?
4.
De regresso, de regresso atravessamos o Inverno e o esquecimento
e mais tarde
atamos uma corda ao ar
para chamarmos a razão de sermos aves migratórias,
tornando-nos no voo,
lentamente
pó, vertigem
e amor.
5.
E nós, nós de novo agarrados ao galho de água,
mais prontos.
Eis:
eu, passarinho pequenino, pequenino,
no meu lugar forrado com penugem,
porque me olho do lá, do muito fundo,
da escola,
daquele sítio único de onde se veem nascer
os dias grandes
Teresa Bracinha Vieira