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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA

  


ATORES, ENCENADORES (XXXII)
COMEMORAÇÃO DOS 74 ANOS DE CARREIRA DE EUNICE MUÑOZ
por Duarte Ivo Cruz


Com a designação de “74 Eunices”, o Teatro Nacional de D. Maria II incluiu, no programa da temporada de 2015/2016, recentemente divulgado, uma homenagem a Eunice Muñoz. E efetivamente, a atriz estreou-se precisamente no Teatro Nacional, em 1941, na peça “Vendaval” de Virgínia Vitorino, integrada no elenco da Empresa Rey Colaço- Robles Monteiro.

São pois, efetivamente, 74 anos de carreira, constante e extremamente qualificada, em termos de criação e em termos de repertório, cumpridos com algumas interrupções mas apesar disso constantes, até pelo menos à temporada de 2012, quando, novamente no D. Maria II, sofreu um acidente em cena, durante um ensaio.

Esta vastíssima carreira é extremamente valorizada pelo talento, pelo profissionalismo e pela qualidade e isto não obstante as interrupções que Eunice se autoimpôs, num critério de exigência artística amplamente justificada pela qualidade das interpretações. Uma carreira longa e de alta qualidade.

Uma carreira também obviamente variada e heterogénea no que respeita aos géneros dramáticos e aos autores, mas com algumas linhas mestras de coerência que importa salientar. É bem certo que os atores tantas e tantas vezes representam o que lhes mandam representar: e que um profissional de teatro se sujeita a repertórios que os diretores das companhias e/ou os empresários determinam: são as contingências do profissionalismo.

Mas essas contingências, por sua vez, acabam por se subordinar ao prestigio dos atores: quando um ator atinge o mais alto nível, será difícil impor-lhe um personagem que não lhe interesse fazer. E seria difícil impor fosse o que fosse, a partir de certa fase da carreira, a uma atriz como Eunice – o que não significa, note-se bem, um menor grau de profissionalismo: também nesse aspeto, Eunice é exemplar.

E nas dezenas e dezenas de peças que Eunice Muñoz interpretou nos 74 anos de carreira, destaca-se um nível de qualidade sempre assinalável, com algum destaque para peças de autores portugueses e de autores contemporâneos.

Desde logo o iniciático “Vendaval” de Virgínia Vitorino (1895-1967), que se abalançou a uma problemática política datada “em sete títulos hoje esquecidos” escrevi na “História do Teatro Português”, mas que, diz-nos agora Luis Francisco Rebello, o público da época “recebeu com entusiasmo, justificado pelo seu entrecho sentimental, habilmente doseados com laivos de crítica social” (“100 Anos de Teatro Português”), de quem aliás viria a interpretar, anos depois, a protagonista de “Os Pássaros de Asas Cortadas” no Teatro Nacional Popular – Teatro da Trindade  de Francisco Ribeiro, de que já aqui falamos.

Eunice diplomou-se entretanto no Conservatório Nacional com uma alta classificação.  E distribuiu uma carreira longa se bem que intermitente por praticamente todas as companhias relevantes do teatro português. Estreou peças de Ramada Curto, de Júlio Dantas, Eduardo Shwalbach, Carlos Selvagem, Costa Ferreira, Bernardo Santareno, José Régio, mas também de Anouille, de Pirandello, Brecht, Tenessee Williams e clássicos - Shakespeare, Molière, Alexandre Dumas, Tchékhov, e tantos outros autores. E ainda, nos nossos, Gil Vicente, Camões, Nicolau Luis, Garrett, Camilo.

E fez teatro declamado, drama e comédia, teatro musicado – e até, em “Passa por mim no Rossio”, espetáculo de Filipe La Féria que relançaria do Teatro Nacional, uma versão revisteira de expressões dramáticas diversas…

E no cinema, temos 13 filmes, a partir do iniciático “Camões” de Leitão de Barros (1946) até “Entre os Dedos” de Tiago Guedes e Frederico Serra, de 2008. E sobre o “Camões” diz, com toda a justiça Jorge Leitão Ramos, que “o seu estilo de representação se destaca da pesada e empolada retórica dominante”. (“Dicionário do Cinema Português - !895, 1961”).

E muito mais haverá a dizer de Eunice Muñoz”…


Duarte Ivo Cruz


Obs: Reposição de texto publicado em 15.07.15 neste blogue.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Michael J. Sandel © Foto de Rick Friedman


243. O GRUPO CERTO


“Fazer parte da classe certa, do grupo certo, da família certa, dos comensais certos, dos círculos certos, é muito mais do que uma mais-valia, é uma certeza de sucesso. A democratização da elite político-económica, que se esboçou desde o 25 de Abril, acabou. A elite encolheu para uma posição fetal, e está num período tão cheio de possibilidades, que sabe serem quase únicas, que não brinca em serviço”
(José Pacheco Pereira).  

Sem fazer generalizações excessivas e nem sempre justas, há que reconhecer tratar-se de uma observação transversal à esmagadora maioria dos países (senão mesmo a todos), com especial incidência nos mais pobres e subdesenvolvidos, incluindo territórios e povos que integram o chamado mundo desenvolvido, como Portugal.

Em qualquer caso, todos nós, portugueses, temos noção e a experiência de que é realista a análise, a começar por quem luta pelo acesso ao poder pelo poder, havendo sempre exceções, o que não é fácil num país onde perdura, mesmo em democracia, o ressurgimento de velhas forças e mentalidades como a cunha, o clientelismo, o compadrio, a partidocracia rotativista, o nepotismo, o tráfico de influências e a concussão. A que acresce, como crime e conduta mais grave, a corrupção. Mesmo sabendo que a cunha e o nepotismo não são ilegais, porque toleradas socialmente e tidas como normais, mesmo que antiéticas.     

O filósofo Michael J. Sandel, defende que os bem-sucedidos devem questionar se o sucesso lhes deve ser inteiramente atribuído, ou de igual modo (ou mais) à família, ao grupo, à tribo, à comunidade, ao ensino, às circunstâncias da vida, ao país ou à sorte. E, por arrastamento e consoante o contexto, à cunha, aos conhecimentos, apelidos, ao nepotismo e outras práticas socialmente toleradas. E adianta que as elites, mesmo as meritocráticas, são altivas, arrogantes e pouco humildes, raramente se interrogando sobre os seus privilégios, havendo que desafiar essa naturalização tida como adquirida, abrindo espaço a pessoas de todas condições e furando a bolha em que vivem.   

Infelizmente, após décadas de democracia, ainda há a ideia de que vivemos num sistema que obriga muitas pessoas a fazer o uso normal dos conhecimentos, da cunha, do nepotismo, do tráfico de influências e quejandos para sobreviverem, ou como um álibi para alcançarem certos fins, ouvindo-se dizer que numa sociedade onde as elites se apropriam do grosso dos recursos, não ensinar aos filhos a legitimidade de uma certa astúcia e vigarice seria privá-los de meios de subsistência.   

Mas não generalizemos, também há gente que chegou, viu e venceu, subiu e prosperou com esforço e saber, sem ter nascido numa pretensa elite ou na alegada “família certa”. Ou que também tendo nela nascido, igualmente conseguiu e venceu. 


16.01.26
Joaquim M. M. Patrício