Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
viste que os dias não passavam disto, e viste bem. desse lado do céu, tens o melhor miradouro sobre a madrugada. se encontrares o pintainho que sepultámos, em segredo e lágrimas, no quintal das tias, pede-lhe o arco da sua asa nas noites de lua nova. remete-me, quando puderes, pacotes de chuva miúda, gosto de a ver decalcar a terra, fundir-se com as sementes de milho no canto da achadinha.
entretanto, vou montando o telescópio, com as instruções que me deste. põe-te à vista e combinamos um gelado a meio caminho, à hora da infância.
in Avulsos por causa, 2010
letter to A.
you saw the days were little more than this, and you saw right. on that side of the sky, you have a better view on the dawn. if you ever find the little chick we buried in secret and tears, in auntie’s garden, ask for the bow of his wings on moonless nights. send me, when you can, packets of rain drizzle, I like seeing it paste the earth, dissolve with the corn seeds at the far end of achadinha.
meanwhile, i’ll carry on assembling the telescope, with the instructions you left me. you go where i can see you and we’ll arrange an ice cream halfway, in the hour of childhood.
O fim do trabalho foi profetizado como uma utopia moderna e futurista por filósofos, sociólogos e economistas. Keynes, aproximadamente há 100 anos, previu que um século depois o tempo ocupado pelo trabalho seria de 15 horas semanais, o que é contrariado pela realidade que vivemos.
A era da cibernética, da digitalização, da inteligência artificial e da robótica, com a sua automatização, veio reforçar a ideia do fim do trabalho e reavivar as utopias. O que coloca novos desafios, entre eles o de repensar a própria noção de trabalho.
Para o sociólogo francês Casilli, o trabalho é “digitalizado” ou “plataformizado”, como sucede ao fazermos reservas de avião, comboios e espetáculos, serem os clientes a substituir empregados nas caixas automáticas dos supermercados, bancos e um sem número crescente de tarefas. É o trabalho digital do dedo que clica ou carrega no botão, participando num sistema de produção escondido e gratuito, que sustenta a titânica economia digital.
E a celeridade e a rapidez velocista e transformadora da tecnologia acelerou a impessoalidade, substituindo a presença física, as conversas e os diálogos circunstanciais da mesma forma que se começaram a substituir empregados e trabalhadores presenciais e manuais, sendo evidentes os ganhos proporcionados e a proporcionar pelos recentes e futuros desenvolvimentos na inteligência artificial.
Se a tradição resiste e o novo ainda não se afirmou com clareza, tendo emergido um novo agente transformador que combina regras e algoritmos, permanecendo o futuro enigmático, entre a utopia e a distopia, a meio de um caminho de fusão entre o natural e o artificial, há que não estranhar a novidade.
Se a geração nova tem o papel messiânico de romper com o passado, transcender o presente, acelerar a evolução e criar o novo, não há que começar também a pensar em deixar de encarar como puramente hedonistas atividades e micro-tarefas vanguardistas e adotar, quanto a elas, uma visão “trabalhista”?
De todo o modo, em qualquer caso, é impossível que algo não mude seriamente em termos de trabalho, não se excluindo, em termos sociais, uma epidemia da solidão estimulada, sem contacto, promovida e desenvolvida pelas novas tecnologias, abolidoras ou não potenciadoras de relações interpessoais.
Indicia-se ainda que à medida que que se desenvolvem as tecnologias que prometiam diminuir o trabalho, o tempo livre não aumenta, rareando ou extinguindo-se, não poucas vezes.
E será que sem trabalho a vida humana não serve para nada e que o que Sísifo recebeu de Zeus não foi um castigo, mas sim um favor?