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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RENATA CORREIA BOTELHO 

  


carta para A.


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.

entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.


in Avulsos por causa, 2010


letter to A.


you saw the days were little more
than this, and you saw right. on that side
of the sky, you have a better view
on the dawn. if you ever find
the little chick we buried
in secret and tears, in auntie’s
garden, ask for the
bow of his wings on moonless nights.
send me, when you can,
packets of rain drizzle, I like seeing
it paste the earth, dissolve
with the corn seeds
at the far end of achadinha.

meanwhile, i’ll carry on assembling
the telescope, with the instructions
you left me. you go where i can see you
and we’ll arrange an ice cream
halfway,
in the hour of childhood.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


246. O FIM DO TRABALHO?


O fim do trabalho foi profetizado como uma utopia moderna e futurista por filósofos, sociólogos e economistas. Keynes, aproximadamente há 100 anos, previu que um século depois o tempo ocupado pelo trabalho seria de 15 horas semanais, o que é contrariado pela realidade que vivemos. 

A era da cibernética, da digitalização, da inteligência artificial e da robótica, com a sua automatização, veio reforçar a ideia do fim do trabalho e reavivar as utopias. O que coloca novos desafios, entre eles o de repensar a própria noção de trabalho.

Para o sociólogo francês Casilli, o trabalho é “digitalizado” ou “plataformizado”, como sucede ao fazermos reservas de avião, comboios e espetáculos, serem os clientes a substituir empregados nas caixas automáticas dos supermercados, bancos e um sem número crescente de tarefas. É o trabalho digital do dedo que clica ou carrega no botão, participando num sistema de produção escondido e gratuito, que sustenta a titânica economia digital.   

E a celeridade e a rapidez velocista e transformadora da tecnologia acelerou a impessoalidade, substituindo a presença física, as conversas e os diálogos circunstanciais da mesma forma que se começaram a substituir empregados e trabalhadores presenciais e manuais, sendo evidentes os ganhos proporcionados e a proporcionar pelos recentes e futuros desenvolvimentos na inteligência artificial.       

Se a tradição resiste e o novo ainda não se afirmou com clareza, tendo emergido um novo agente transformador que combina regras e algoritmos, permanecendo o futuro enigmático, entre a utopia e a distopia, a meio de um caminho de fusão entre o natural e o artificial, há que não estranhar a novidade.   

Se a geração nova tem o papel messiânico de romper com o passado, transcender o presente, acelerar a evolução e criar o novo, não há que começar também a pensar em deixar de encarar como puramente hedonistas atividades e micro-tarefas vanguardistas e adotar, quanto a elas, uma visão “trabalhista”?     

De todo o modo, em qualquer caso, é impossível que algo não mude seriamente em termos de trabalho, não se excluindo, em termos sociais, uma epidemia da solidão estimulada, sem contacto, promovida e desenvolvida pelas novas tecnologias, abolidoras ou não potenciadoras de relações interpessoais.   

Indicia-se ainda que à medida que que se desenvolvem as tecnologias que prometiam diminuir o trabalho, o tempo livre não aumenta, rareando ou extinguindo-se, não poucas vezes.   

E será que sem trabalho a vida humana não serve para nada e que o que Sísifo recebeu de Zeus não foi um castigo, mas sim um favor?   


06.02.26
Joaquim M. M. Patrício