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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 9 a 15 de fevereiro de 2026


«Camões Poeta, Herói n’Os Lusíadas» de Helena Carvalhão Buescu (Tinta da China, 2026) é uma obra estimulante que nos coloca perante a personagem multifacetada de Camões, encarada como interveniente da sua obra maior, símbolo da Cultura da língua portuguesa.


Como epígrafe, a autora cita Eduardo Lourenço, quando este afirma: “Camões conferiu-nos, coletivamente, uma existência epopeica e desta insolação sublime nunca mais nos curámos”. Não é por acaso que somos o único povo do mundo que escolheu como símbolo da sua identidade um poeta. Encontramos noutros casos heróis, guerreiros, símbolos míticos, mas não poetas, pessoas de carne e osso, com as suas angústias e dúvidas, com o seu talento, a sua sensibilidade e a sua vida. Helena Buescu parte de uma consideração de Keats, que nos fala, a propósito de grandes referências literárias, como Shakespeare, da noção de negative capability. Essa capacidade negativa  corresponde à descrição de um mundo contraditório, capaz de referir a realidade nas suas várias dimensões, envolvendo a um tempo, a glorificação e o desconcerto do mundo. Para considerar a diversidade de sentimentos e atitudes, torna-se necessário assumir por parte de um poeta ou artista protagonismo no acontecimento que descreve ou que testemunha, de modo a que essa contradição seja plenamente sentida, a partir da perspetiva do próprio autor.

Como Virgílio fizera, Camões proclama no poema que subscreve a importância da própria fama, cabendo-lhe não só enaltecer o acontecimento que glorifica, mas também considerar-se a si próprio como participante desse momento único. O mesmo se passou com Ovídio nas Metamorfoses, onde o poeta foi o verdadeiro protagonista da obra, assumindo assim a imortalidade do feito e do artista. Camões coloca-se, por isso, ao lado do próprio Gama na chegada à Índia, participando num momento pioneiro da história da humanidade. O poeta toma-se assim a voz, enquanto poeta e não apenas como narrador de feitos, cabendo-lhe a tarefa de partilhar com o próprio herói, bem como com outras personagens marcantes, como o velho do Restelo e o Adamastor, a missão de assumir a voz criativa do poema.

Jorge de Sena afirma, por isso, que Faria e Sousa considera que o poeta se transforma nas personagens “que introduz, falando conforme a qualidade de cada um e das matérias”.  E Helder Macedo confessa que Os Lusíadas é talvez “o poema épico onde o discurso personalizado do autor mais vivamente se faz sentir”. E as próprias personagens “são usadas como emissoras ou sujeitos dos discursos poéticos” de Camões. Deste modo se ilustra a capacidade negativa de Keats: “a poesia épica (mas também lírica), para se afirmar enquanto tal, precisa de manifestar a sua capacidade de celebrar o canto e de criticar o mal e o desconcerto, em simultâneo”. O caso do velho do Restelo tem uma importância especial. Ele surge como uma espécie de alter ego do poeta, ou também do bom Sá de Miranda, devendo associar-se ainda Diogo do Couto, amigo especial do poeta. Há a coerência de relato, que culmina na exortação a D. Sebastião, onde se apresenta o alerta relativamente ao risco dos fumos da Índia e à opção pela administração do império do Oriente, baseada em mercadores e missionários. Oh glória de mandar, oh vã cobiça… A espada e a pena associam-se. E, profundo conhecedor na técnica clássica das suas obras inspiradoras, Camões torna-se participante ativo.

“A complexidade invulgar que Camões incute, assim, à sua epopeia, combinando glorificação e crítica ou desconcerto, entre narração de feitos e representação do canto na própria matéria cantada, entre maravilhamento, observação e realidade, entre inspiração religiosa e inspiração mitológica, é reconhecível, sem grande dificuldade, em muitos passos do poema, e é apontada por vários críticos, quando se dedicam a Camões”. De facto, a glória não se afirma sem o desconcerto, porque o “saber de experiências feito” leva a considerar a vida como uma convergência de luzes e sombras. A perenidade de Os Lusíadas decorre, por isso, da capacidade do seu autor, pôr-nos perante a realidade existente. Glória e desconcerto não são realidades contrapostas. E temos alguns faróis éticos, como os Doze de Inglaterra, Nuno Álvares, ou a resistência de Inês de Castro. Do mesmo modo, ora encontramos  uma “poesia de dissídio” (Rita Marnoto), ora descobrimos uma ordem da desordem”. Do que se trata em Os Lusíadas é de uma interrogação sobre a nossa própria existência, num momento crucial da nossa realidade histórica. Por isso, “concentram dentro de si o fulcro em que a história de Portugal é incorporada, interrogada, e profeticamente concebida. Na verdade, o texto camoniano é um dos momentos mais altos (se não o mais alto) da nossa memória histórica e simbólica, moldada em termos literários. Neste sentido, não pode deixar de ocupar um lugar especial na história e na literatura portuguesas”.

E Camões não é apenas uma voz passiva, é alguém que acrescenta o seu juízo aos acontecimentos, representando as vozes relevantes de uma autoanálise ou introspeção necessária. Eduardo Lourenço dirá: “Nenhuma barca europeia é mais carregada de passado do que a nossa. Talvez por ter sido a primeira a largar do cais europeu e a última a regressar. Há outras nações na Europa, pequenas ou grandes, com um passado tão longo e tão ou mais ‘glorioso’ que o nosso (…) Mas nenhuma dessas nações ou antes, culturas-nações, convive com o passado como a nossa. Simbolicamente, nenhum povo vive no passado,  em particular naquele a que nós devemos o nosso perfil singular – como Portugal…”. Premonitoriamente, o poeta Camões intui esta mesma consciência, ao recusar ver apenas o lado glorioso sem assumir plenamente o desconcerto. A cada passo essa ambivalência aqui se encontra, e continuamos perante a memória da Nau da Índia, numa viagem que revivemos, de maneira diferente, do que acontece com Gonçalo M. Tavares, já não para uma Índia verdadeira,  mas para um mítico lugar de venda de ilusões… Eis por que razão Camões nos acompanha como poeta e como testemunha dos acontecimentos heróicos. 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença