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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 9 a 15 de fevereiro de 2026

 

Marguerite Duras morreu há trinta anos e deixou-nos uma obra multifacetada nos campos da literatura, do cinema e do teatro. Quando lembramos “L’Amant” ou “Hiroshima, Meu Amor”, apesar das diferenças no meio utilizado, temos de afirmar que há um fundo comum de humanidade e de sentido que são marcantes para hoje.

 

 

Marguerite Duras (1914-1996) morreu há trinta anos, mas a sua presença ainda se faz sentir hoje, não só pela participação que teve no “nouveau roman”, no cinema e no teatro, mas também pela sua vida atribulada e pela atitude corajosa com que pôde ser pioneira em muitos domínios. Nascida na Indochina francesa no início da primeira grande guerra não pôde deixar de ser influenciada pela experiência colonial. A infância e juventude são marcadas por essa presença. Há um percurso muito rico, marcado pela experiência familiar de um pai alto funcionário e de uma mãe professora. Esse período permitiu evoluir no seu pensamento desde uma mentalidade francesa até a um inconformismo crescente, ditado por um sentimento de defesa da justiça, da liberdade e da igualdade. “Hiroshima, Meu Amor”, de Alain Resnais continua a ser uma grande referência na obra de Duras. Também o filme “India Song” (1975) é uma marca da sensibilidade da autora. A sua escrita e reflexão, numa obra muito vasta e rica, traduzem-se num verdadeiro símbolo da evolução sentida desde a experiência asiática por alguém nascido na cidade de Saigão, que sentiu na pele o confronto com uma comunidade cultural antiga e distante.

 

Marguerite Donnadieu cedo se dedicou a uma atividade cultural intensa, antes do mais ligada a uma mentalidade francesa. Casada com o jovem jurista Robert Antelme em 1939, depara-se com a mobilização militar deste e pelo exercício de funções oficiais, durante a invasão alemã. Enquanto Marguerite desempenha funções ligadas ao controlo do papel para a edição, Robert tem funções ligadas à segurança. Dirá mais tarde, pela proximidade que tem com colaboracionistas: “Eram, de facto, colaboracionistas. Não teriam feito mal a uma mosca”… mas tratava-se de Brasillach e Drieu de la Rochelle… Em 1943, aventura-se na escrita de um romance com “Les Impudents” e adota pela primeira vez o nome Duras, localidade onde se encontra a morada familiar. É o tempo em que Robert Antelme se aproxima da resistência. “Não me empenhei. Levaram-me a isso. Não fomos heróis. A Resistência veio até mim”. Alista-se em 1944 no Rassemblement National des Prisioners de Guerre, onde está François Mitterand. Mas a Gestapo descobre o grupo e prende Robert Antelme em Fresnes, enviando-o para Buchenwald e depois Dachau. É um período muito difícil, cheio de ambiguidades. Duras procura junto da Gestapo a libertação de Robert, mas a diligência é mal compreendida. A irmã de Antelme, Maria Louise, morre na deportação. Então, Duras inscreve-se no Partido Comunista e publica um novo romance “La Vie Tranquille”. Robert Antelme é encontrado em estado muito grave em Dachau por Dyonis Mascolo e Georges Beauchamp, alertados por Mitterrand, mas consegue sobreviver. Em 1945 Marguerite e Robert criam as efémeras edições Cité Universelle, e publicam três obras “l’An Zero de l’Allemagne” de Edgar Morin, “Oeuvres” de Saint Just (por Mascolo) e “L’Espèce humaine” de Robert Antelme. A casa do casal torna-se centro de tertúlias intelectuais, onde estará Jorge Semprun. Contudo, divorciam-se em 1947 e Duras casa-se com Dionys Mascolo, de quem terá um filho, separando-se em 1956.

 

Críticas a Louis Aragon por parte de Marguerite levam ao levantamento de suspeitas sobre a fidelidade ao partido, o que a conduzirá à exclusão. A rutura formal com os comunistas, nos anos cinquenta, não impede que assuma causas comuns como o feminismo, a luta contra a guerra da Argélia e a despenalização do aborto. Então publica o romance de inspiração biográfica “Un Barrage contre le Pacifique”, que será adaptado ao cinema por René Clément. Em 1958, encena para o teatro “Des journés entières dans les arbres”, e em 1966 realiza com Paul Séban o seu primeiro filme “La Musica”. Em 1971 assina com Simone de Beauvoir, Delphine Seyrig e Jeanne Moreau o Manifesto das 343, reclamando a revogação da lei de 1920 interditando o aborto e a contraceção. Serge July, diretor do Libération, convida-a para colaborar no jornal em crónicas semanais durante um verão. A dependência do álcool leva-a a sucessivas curas de desintoxicação. Vive com o jovem Yann Andréa com quem assina “La Maladie de la Mort” e realiza em 1981 uma série de conferências sobre o filme “L’Homme Atantique” em Montreal (Canadá). Em 1983 dirige a encenação de “Savannah Bay” com Madeleine Renaud. Em 1984 escreve “L’Amant”, que obtém o Prémio Goncourt e um grande sucesso editorial. Em 1985 realiza uma série de entrevistas com François Mitterrand para o periódico “L’Autre Journal”, que começam na sua casa da rue de Saint Benoît, continuando no Eliseu. O projeto que visava publicar um livro não se concretiza, porém. Em 1995 publica “C’est tout”, uma espécie de testamento, um conjunto de textos recolhidos por Yann Andréa.

 

No dia 3 de março de 1996 às oito horas, na rue de S. Benoît, morre Marguerite Duras tendo os ofícios fúnebres tido lugar em Saint Germain des Prés e a sepultura no Cemitério de Montparnasse. É uma das escritoras de língua francesa de maior sucesso. “L’Amant” está traduzido em 35 países com mais de dois milhões de exemplares vendidos. Em 2002 “Savannah Bay” entrou no repertório da Commédie Française. O liceu francês internacional da cidade de Ho Chi Minh (antiga Saigão) tem o nome de Marguerite Duras e a Biblioteca de la Plêiade publicou quatro volumes da autora. Mulher apaixonada disse um dia: “No amor não há férias, nem nada que se pareça. O amor deve viver-se plenamente, com o seu aborrecimento e com tudo”. A sua vida foi a realização plena do amor como sentimento irrenunciável, num tempo de permanentes surpresas. Viveu o rápido século XX como um tempo vertiginoso.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença