CRÓNICA DA CULTURA
O medo, e nós, do que seremos capazes, afinal?
Alguém que é visto vivendo em condições sub-humanas é alguém que vai perdendo pedaços da essência do género humano.
A exclusão destes seres atinge o que todos sabemos ser o núcleo da humanidade do homem.
E como se designa a ausência de humanidade que é sentida perante alguém que se arrasta?
Que horror é este que se tornou horizonte do nosso quotidiano e que define esta sociedade que parece já não tentar o suficiente para atingir o que é humano?
Que regras do medo se querem impor para que a sociedade futura constate definitivamente a invisibilidade forçada do sofrer?
Conhecemos nós até onde o medo difuso e o objeto do medo conseguem encarnar-se no prolongamento do medo transformado em terror dissimulado e que desmobiliza aquela humanidade que nos pode paralisar?
A verdade é que a paragem do pensamento-sentir impede que as nossas comoções impliquem responsabilidade ativa face à desumanização que se pratica ao nosso lado até que chegue a nossa vez.
Certo é que as injustiças violentas esmagam os seres irrepresentados e a pergunta impõe-se: a que realidade já obedecemos para aqui chegados?
Registamos, particularmente, que as catedrais do consumo, bem compartimentadas, criaram espaços vagos onde se circula sem trajeto visível e por onde se movem gentes isoladas e fechadas sobre si, gentes temerosas e incapazes de compreender que todos se pavoneiam de algemas.
Os padrões que estas pessoas continuam a seguir esvaziaram uma liberdade que foi perdendo qualidade, que foi perdendo a maior qualidade que o ser humano não poderia perder: o dever de não ser indiferente.
Mas se é certo que interiormente as gentes se estão a deixar paralisar em pavores nascentes – desde ser punido a não conseguir ser semelhante ao modelo de beleza magra ou a não controlar qualquer ansiedade difusa – há muitos dias que velam e nos revelam explosivamente que, se os cegos falam de cores, então e nós, do que seremos capazes, afinal?
Teresa Bracinha Vieira