Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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Jürgen Habermas (1929-2026) morreu. Era o maior filósofo vivo. Homenageamos a sua memória.
Jürgen Habermas (1929-2026) deixou-nos. O seu pensamento corresponde à maior demonstração da importância das Humanidades nos dias de hoje, como salientou Adela Cortina. Com mais de noventa anos, mantinha-se ativo, de um modo persistente, na compreensão da importância do tempo, da decisão e da reflexão na vida democrática. O tema da democracia está na ordem do dia. Há nuvens negras no horizonte e deveremos estar despertos para os perigos que espreitam. E se hoje há urgência na prevenção e na ação, para que a res publica não contrarie a democracia, é importante falar do “patriotismo constitucional” e da “democracia deliberativa”, de que tratou Habermas, não apenas nas democracias nacionais, mas também na vida supranacional, em especial europeia. Num momento em que a dúvida se confunde com a descrença, e em que o desalento alimenta a desistência, importa não esquecer o que nos diz o filósofo: “A verdade não existe no singular”, pelo que a legitimidade democrática deve ligar-se à mediação das instituições e ao envolvimento dos cidadãos.
No debate europeu, há sinais de recusa de uma elementar solidariedade que contrarie a fragmentação e a lógica do salve-se quem puder. E Habermas lembrava as origens da União Europeia, como construção de paz e desenvolvimento, capaz de integrar as diferenças, sem esquecer a memória histórica, não numa perspetiva de culpa (se lembrarmos o Holocausto), mas sim de responsabilidade. E a tarefa do intelectual tem de ser a de melhorar o lamentável nível do discurso das confrontações, evitando a todo o custo o cinismo. Um filósofo intelectual é contemporâneo dos nossos contemporâneos – e daí a sua necessária inserção numa ética de responsabilidade. Foi esse o papel que Habermas assumiu, com todas as limitações e virtualidades – lembrando tantas vezes aos seus alunos: “Nunca te compares com um génio, mas trata sempre de criticar a obra de um génio”. Nesta perspetiva, ainda jovem, o filósofo ousou afrontar Heidegger, em 1953, num texto publicado no “Frankfurter Allgemeine Zeitung” com o título significativo “Pensando com Heidegger contra Heidegger”, menos pelo desprezo que o velho pensador tinha pela igualdade democrática, e mais pela recusa da autocrítica e pelo facto desse silêncio contaminar irremediavelmente a atitude filosófica. Afinal, a principal tarefa dos que se dedicam ao ofício de pensar é a de fazer luz sobre os crimes que se cometeram no passado e manter desperta a consciência sobre eles? Lembrar para que não voltem a acontecer, mas evitando o ressentimento e a vingança. Heidegger evitaria a polémica e responderia que a sua preocupação tinha a ver com a relação entre o homem e a técnica. Mas Habermas contraporia que a sua crítica não tinha a ver com o envolvimento político com o nacional-socialismo em 1933, mas com a teimosa negativa em reconhecer o seu erro a partir de 1945. No fundo, “a discussão sobre o comportamento político de Martin Heidegger não poderia nem deveria servir propósitos de difamação e desprezo sumários. Como nascidos depois, não podemos saber como nos teríamos comportado nessa situação de ditadura”.
Habermas também chamaria a atenção de Theodor W. Adorno com um texto publicado na revista “Merkur” “A dialética da racionalização”, no qual analisava a alienação gerada tanto pelo trabalho numa cadeia de montagem, como no consumo sem limites. E premonitoriamente avisava: «da produção ao transporte, passando pela comunicação ou pelo ócio, a “cultura das máquinas” terminará por dominar as nossas vidas. Cada dia, estaremos mais longe da natureza e do resto dos seres humanos». Apesar da resistência de M. Horkheimer, pelo pendor pacifista de Habermas na altura, este ingressou, em 1956, no Instituto de Investigação Social, centro da chamada Escola de Frankfurt, o dito Café Marx, que Lukács designava depreciativamente como “Grande Hotel Abismo”… Adorno admirava o pensador, e para sua mulher Gretel ele fazia lembrar Walter Benjamin, o grande amigo, que se suicidara em Portbou, em 1940, perseguido pela Gestapo… Na biografia de Stefan Müller-Doohm (2014) é acompanhado um percurso extraordinário, em que, além de Adorno e Gadamer, encontramos os dilemas do pós-guerra, num contexto de complexidade, diversidade e incerteza. E fica claro que a reflexão filosófica e o compromisso social são faces de uma mesma moeda – a necessidade da Ilustração… E é esse sentido de responsabilidade crítica que marcará a decisiva importância do pensador na atualidade. Daí a necessidade de domesticar o capitalismo com a democracia garantida por um Estado de direito com “rosto social”, com superação do “pessimismo antropológico” que caracterizou a primeira fase da Escola de Frankfurt. Os conceitos de conhecimento, liberdade e progresso constituem valores de uma razão ilustrada, no contexto de uma “modernidade”, como “projeto inacabado”, por contraponto à “condição pós-moderna”… Lembrando ainda a democracia quando há sinais da sua fragilidade em tempos de peste, recordo outro livro, Penser la Justice, constituído por entrevistas a Michael Walzer por Astrid von Busekist, (Albin Michel, 2020). Para o filósofo norte-americano, democracia e justiça têm de estar ligadas. Aos grandes sistemas, Walzer prefere as “pequenas teorias”, acreditando num Estado social, no qual as nações e as fronteiras sejam garantes da liberdade das pessoas. E, em seu abono, lembra o Profeta Amos, para quem não bastava condenar a injustiça e a idolatria, sendo necessário construir em concreto a sociedade mais humana. Tanto Walzer como Habermas insistem numa consciência crítica capaz de entender a sociedade em mudança, em conflito e em diálogo, num contexto plural. E conta-se esta andota: um professor norte-americano aterra na Alemanha, toma um táxi e diz: “Leve-me à Escola de Frankfurt!”. E o taxista surpreendido responde: “A qual delas?”…
ATORES, ENCENADORES (XXXIV) O INÍCIO DO EXPERIMENTALISMO TEATRAL por Duarte Ivo Cruz
Evocamos hoje dois movimentos que marcaram, no início do século XX, a renovação e atualização, em termos da expressão teatral-experimental, o teatro português, no plano integral - o único verdadeiramente significativo – do texto, do espetáculo, da cena e da dramaturgia: movimentos “experimentais”, diríamos hoje, na altura efémeros, mas que modernizaram, insiste-se, o teatro português, e iniciaram uma linha de renovação, em companhias profissionais ao longo do século passado e de que hoje temos exemplos mais modernos, marcantes em plena atividade – o Teatro Experimental do Porto ou o Teatro Experimental de Cascais, por exemplo.
Esta linha de renovação surge, repita-se, com o início do século XX, designadamente em duas iniciativas, então efémeras, que marcaram profundamente a cultura teatral da época. Trata-se concretamente do Teatro Livre, de 1904, e do Teatro Moderno, de 1905, há exatos 110 anos, o que é também de assinalar.
E ambos se devem a um ator muito marcante na época, Luciano de Castro, desde 1892 ligado a peças e espetáculos que, na altura, constituíram também fator de renovação e modernização da dramaturgia portuguesa, com autores então em plena atividade e modernidade: por exemplo D. João da Câmara ou Marcelino Mesquita, Afonso Gaio, Bento Mântua e sobretudo o jovem Ramada Curto, com a peça inicial da sua vastíssima dramaturgia, “O Estigma”, estreada em 1905, tinha o autor 19 anos!
Na época ator muito apreciado, Luciano de Castro mereceu encómios do seu contemporâneo Sousa Bastos: “belo elemento para o drama, muito distinto na comédia, e até na revista, tirando partido da simplicidade e naturalidade com que representa”… (in Diccionário do Teatro Português - 1908; idem - fotografia do ator Luciano de Castro).
Ora bem: hoje, alguns daqueles dramaturgos são expressões “históricas” do teatro português, mas na altura eram expressões de modernidade – e hoje como na altura são expressões de indiscutível qualidade.
E aí, destaco Manuel Laranjeira, autor só lembrado por “especialistas” na história da dramaturgia portuguesa mas que, na época, marcou e percorreu as grandes linhas de renovação e atualização. A existência malograda deste dramaturgo, que pôs termo à vida em 1912 com 35 anos, reflete-se nas duas peças que chegaram até nós, “…Amanhã” e “Às Feras”, cenas de sentido social e temática ligada a problemas socio-económicos então extremamente sensíveis.
Para lá da produção dos espetáculos, o Teatro Livre e o Teatro Moderno marcaram ainda o meio teatral com uma teorização avançada para a época. Glória Bastos e Ana Isabel Teixeira de Vasconcelos recordam as grandes linhas do manifesto do Teatro Livre, claramente modernizante, do movimento, que se propunha “trazer um sopro de vida à dramaturgia portuguesa” e “redimir pela Arte e vencer pela Educação”: notável programa, se considerarmos o que era o teatro profissional e o público habitual no início do século XX. (in “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República” ed. Museu Nacional do Teatro - 2004).
E é ainda de assinalar que diversos destes espetáculos foram dirigidos por António Pinheiro, notável ator/encenador da época, que haveremos aqui também de evocar.
Como havemos de evocar outro movimento teatral da época, também claramente renovador mas efémero – o Teatro da Natureza que, no verão de 1910, sob a direção do ator-encenador Augusto Pina, atuou no Jardim da Estrela.
Mas esses temas ficam para próximas crónicas.
Duarte Ivo Cruz
Obs: Reposição de texto publicado em 29.07.15 neste blogue.
Corre sem vela e sem leme o tempo desordenado… - Camões
Não por acaso, nós portugueses escolhemos como símbolo da nossa identidade um poeta. Encontramos noutros casos heróis, guerreiros, símbolos míticos, mas não poetas, pessoas de carne e osso, com o seu talento, as suas angústias e dúvidas. Camões, Poeta, Herói n’Os Lusíadas (Tinta da China) de Helena Buescu constitui uma magnífica reflexão sobre o carácter único de Camões, enquanto símbolo de uma cultura criativa e fecunda, partindo de Keats, que nos fala, de capacidade negativa, correspondendo nos grandes autores, como Shakespeare, à descrição de um mundo contraditório, envolvendo a um tempo, glorificação e desconcerto. Como fez Virgílio, o mestre da Eneida, inspirador de Camões, este proclama no seu poema maior a importância da fama, cabendo-lhe não só enaltecer o acontecimento que elogia, mas também considerar-se a si próprio como participante desse momento único. O épico coloca-se, por isso, ao lado do próprio Gama na chegada à Índia, participando assim nesse momento pioneiro da história da humanidade. O poeta não é apenas narrador, cabendo-lhe a tarefa de participar, designadamente ao lado de outras personagens marcantes, como o velho do Restelo ou o Adamastor, enquanto a voz criativa do poema.
Jorge de Sena disse, por isso, que o vate se transforma nas personagens “que introduz, falando conforme a qualidade de cada um e das matérias”. E Helder Macedo confessa que Os Lusíadas talvez seja “o poema épico onde o discurso personalizado do autor mais vivamente se faz sentir”. Deste modo, se ilustra a capacidade negativa de Keats: “a poesia épica (mas também lírica), para se afirmar enquanto tal, precisa de manifestar a sua capacidade de celebrar o canto e de criticar o mal e o desconcerto, em simultâneo”. O caso do velho do Restelo tem importância especial. Ele é o alter ego do poeta, e até porta-voz de Francisco Sá de Miranda ou do especial amigo do poeta, Diogo do Couto. Aí está o alerta relativamente ao risco dos fumos da Índia e à influência dos mercadores e missionários. Oh glória de mandar, oh vã cobiça… Camões torna-se participante ativo, com a espada e a pena, como interrogante do curso dos acontecimentos.
De facto, a glória não se afirma sem o desconcerto, e a perenidade de Os Lusíadas decorre dessa capacidade do poeta nos pôr diante da realidade. Glória e desconcerto não são realidades contrapostas. Do que se trata em Os Lusíadas é de uma interrogação sobre a nossa própria existência, num momento crucial da nossa história. Por isso, o texto camoniano é um dos momentos mais altos (se não o mais alto) da nossa memória histórica e simbólica, moldada em termos literários. E Camões é alguém que acrescenta o seu juízo aos acontecimentos, representando as vozes relevantes de uma introspeção necessária. Eduardo Lourenço dirá: “Nenhuma barca europeia é mais carregada de passado do que a nossa. Talvez por ter sido a primeira a largar do cais europeu e a última a regressar. (…) Mas nenhuma (das outras) nações ou antes, culturas-nações, convive com o passado como a nossa. Simbolicamente, nenhum povo vive no passado, em particular naquele a que nós devemos o nosso perfil singular – como Portugal…”. Premonitoriamente, o grande Camões intui essa mesma consciência, ao recusar ver apenas o lado glorioso sem assumir plenamente o desconcerto.
Se considerarmos que a chave da evolução sempre foi caraterizada por uma euforia criativa e dominada pelo progresso científico e técnico, conclui-se que travar a criatividade natural do ser humano só ajudará a uma regressão, mesmo sabendo que o mero progresso material não trará consigo o progresso moral e ético.
Se considerarmos que a esquerda é progressista e, nesse sentido, tende a querer mudar a natureza humana, enquanto a direita se inclina a que é impossível (na sua génese), isso não significa que há necessidade (para a direita) de travar a criatividade humana, ao invés da esquerda, dado que, em qualquer caso, há que aspirar sempre a tentar conter a nossa natureza conflituosa e imperfeita, num misto de conservacionismo e progressismo, orientando-a na direção do bem comum.
Indicia-se que o bem comum é em abstrato transversal a todas as ideologias, tal como o egoísmo o é em relação a todas as pessoas quando se preocupam em melhorar, antes de mais, a sua condição pessoal e familiar, sendo que é o pluralismo democrático que está mais bem posicionado, até hoje, para não travar a criatividade natural do ser humano, ajudando a que nos moderemos reciprocamente, rumo a um bem comum de predisposição para o consenso e a paz.
A criatividade natural humana tem a sua máxima potencialidade de exercício e da sua manifestação em democracia, nas suas mais variadas formas e áreas do conhecimento, investigação e saber, como na arte, onde fala através do pensamento humano e da nossa imaginação, o que é uma ameaça em sociedades totalitaristas.
Na sua diversidade e pluralidade, a criatividade natural que há em nós lembra-nos que o importante é estar em sintonia com os outros, no respeito às diferenças, rumo a uma inventividade e humanidade mais ampla e plural, pondo em causa determinismos dogmáticos e rígidos, mas que não prescinde de um corpo de referentes comuns imprescindíveis para o bom funcionamento das sociedades, e onde a imaginação não precisa de justificativas, apenas da sua presença.
Não seguindo um molde único, nem se limitando a um conceito fixo, é também um reflexo contínuo e permanente das mudanças do mundo em que habitamos, desafiando os padrões estabelecidos, e reinventando-se, adaptando-se e reconfigurando-se.
Impõe-se conhecer a natureza específica da comunicação visual e compreender o quanto ela deseja hoje que a herdemos como único meio para tirar medidas.
Julgamos que há que dar uma resposta à banalização do uso da imagem e deixar claro que ela não nos deixa contentes por termos esta realidade trágica entre mãos.
Uma imagem é uma complexidade imensa e não deve ser usada como mera mercadoria que atiça a guerra-arma-espetáculo; que atiça o objetivo de manter o mundo verdadeiro à distância sem que a estranheza acorde alguém.
E sabe-se que o colapso também poderá vir por aí e, por aí, fará parte imensa da nova desordem mundial.
É possível, depois de tudo o que acontece, criar uma visão daquilo que a vida é e deveria ser, num esboço que seja um elo entre nós e o apaziguamento de nos sermos?
Cremos que a sociedade do espetáculo ilude o maior medo de cada indivíduo, o medo de se sentir à margem, o medo, afinal, de que o ecrã o possa não habitar vinte e quatro horas.
Tragicamente, o desejo de ser colonizado angaria cada vez mais pessoas na vontade constante de aumento do nível de ilusão, e muitos acreditam que este mundo nunca se cansará sequer do seu próprio reflexo.
Assim não pensamos.
Se o falso, o cruel e tudo o mais que nos visa destruir se vira contra nós, resta-nos a inspiração primordial da luta, exatamente e de novo iniciada na linha do horizonte.
O cinema pode recuperar a verdade e a beleza do mundo.
Imagem do filme Le Rayon Vert (Eric Rohmer 1986)
No texto “Le Celluloid et le Marbre” escrito em 1955, Eric Rohmer defende um cinema em que a espiritualidade revela-se através de caminhos tortuosos e imprevistos e de momentos inesperados. Neste texto, Rohmer acredita que o cinema é uma invenção material capaz de dizer outras coisas que até então eram impensáveis de exprimir. Aparentemente, o cinema é a forma de arte mais perecível de todas, no entanto, Rohmer explica que a sua ‘base de emulsão’, de que deriva o celuloide, e cuja fragilidade antes se temia, orgulha-se por resistir à corrosão do tempo mais do que o mais duro mármore de Paros (da escultura e da pintura grega pouco resta e as tonalidades da pintura impressionista já estão gastas e por isso Rohmer acredita que o filme - o celulóide - tem a capacidade física de ser o testemunho eterno da civilização humana). O filme é assim algo palpável e que se bem conservado pode permanecer e existir durante muito tempo.
Rohmer afirma que o cinema não é, nem pode ser visto como um rival das outras artes. É antes um revelador, pois permite um olhar renovado sobre o mundo. O cinema não só dá a ver, mas também tem a capacidade de nomear e de designar. O filme ativa assim duas formas de arte: a pintura e a poesia. Por um lado, a pintura através dos sentidos reproduz a forma material do mundo. Por outro lado, a poesia usa signos que são palavras e desvia-os do seu significado quotidiano de maneira a dissimular a verdade.
Rohmer acredita que o cinema liberta da nomeação, pois a beleza de qualquer fenómeno da natureza e do mundo torna supérfluo qualquer artifício estilístico. Tem a capacidade de ter poesia intrínseca - até nos gestos mais banais se transportam significados. E não é um artifício de adição ou de qualquer outro processo externo de aproximação arbitrária. O cinema revela harmonia pré-estabelecida e manifesta o paralelismo constante entre os fenómenos de diversas ordens naturais: vegetal e humano; sólido e liquido; espiritual e material. O cinema apresenta a ideia de um universo hierárquico e ordenado com vista a um fim último. Por trás do que o filme mostra (e que está para lá dos fenómenos reais) está um princípio espiritual.
Noel Herpe na conferência “Eric Rohmer, un cinéphile en liberté” afirma que existe em Rohmer uma certa angústia em relação ao materialismo e por isso usa o cinema para chegar a uma transcendência. Herpe explica que Stromboli (Rosselini ) é uma referência essencial que transforma e cria o estilo de Rohmer - na procura pela transcendência na imanência, na ausência, no vazio, no deserto, na solidão e no silêncio.
Para Herpe, nos filmes de Rohmer, a transcendência não se prevê - é, na verdade torcida, desviada, deslocada. Mas pode existir e ser concretizada através do cinema, porque para Rohmer, o cinema é a única arte que permite recuperar a beleza do mundo.
Herpe declara que o texto “Le Celluloid et le Marbre”, ao analisar as artes do seu tempo - a pintura, a arquitetura, a música e a literatura – Rohmer descreve o cinema como a única arte capaz de libertar todas as outras artes da sua perda de adesão do espírito àquilo que é verdadeiro. Todas as artes, exceto o cinema, encerram-se numa celebração de subjetividade que as separa do ser humano e da humanidade na sua plenitude. O cinema ao ser uma arte simultaneamente clássica e realista é capaz de devolver a beleza e a harmonia do mundo.
E segundo Herpe, a reflexão sobre a metáfora é igualmente central em Rohmer. Para Rohmer, a metáfora é uma figura de estilo que tem muito valor na literatura, e que consiste na evocação por equivalência. A metáfora para Rohmer é a fraude de dizer, é o engano da linguagem. E por isso, a referência a esta figura de estilo é um dos temas do seu cinema – e está relacionada com a ideia de que a linguagem é débil para conter todo o ser e toda a história.
Rohmer admira os filmes que se abstêm de interpretar, que se contentam em mostrar e onde a subjetividade e o domínio do criador é mantido tão discreto quanto possível. Rohmer acredita que a mestria de um cineasta se exprime através da sua ausência. O cinema é a afirmação do carácter exterior e objetivo da realidade - Rohmer defende que a ideia de exterioridade documental como sendo ainda mais importante do que a ideia de objetividade ou de interioridade literária.
Segundo Herpe, Rohmer capta sobretudo o vazio das personagens, a ausência do seu pensamento. Os temas rohmerianos estão mais relacionados com o abandono, o deserto, o nada e o insignificante. O cinema de Rohmer não deseja elevar-se sobre as suas personagens, mas sim estar no meio delas - sem nunca as julgar, mostrando-se por vezes até confuso ou perdido. Rohmer anseia pelo desvanecimento, pela discrição, pois só assim poder-se-á ver e dar a conhecer as personagens de perto, tal como são.
Herpe clarifica que o horizonte de Rohmer é a procura pelo insignificante, de onde poderá brotar o sentido e também o sublime. Há sim a procura por um ideal que se exprime através do materialismo, da representação - um ideal que aparece a partir da pura observação da matéria. Porém Rohmer utiliza a insignificância e a banalidade como uma espécie de derrota e de ausência de sentido para trazer ao de cima o sublime.
Na opinião de Herpe, esta é, deste modo, a singular aposta cinematográfica de Rohmer: a exterioridade pura, a relação especular que o indivíduo tem consigo próprio na solidão (no qual se transforma no próprio objeto de contemplação), a continuidade espacial, as conversas triviais, a derrota do significado, o desvanecimento na insignificância, a apoteose do nada, a adoração da banalidade, o misticismo da monotonia que trará de volta o sublime - e que aparecerá por acaso. Para Herpe, este é o grande paradigma rohmeriano, a derrota da vontade criadora para ver aparecer algo sobre o qual o ser humano não tem qualquer controlo. E o cinema é o sistema, é o veículo que permite ao cineasta o acesso à representação da totalidade, da homogeneidade e da continuidade do espaço e que dá acesso a essa misteriosa espiritualidade.
1. Retorno ao tema, pois é de actualidade candente e amanhã, 8 de Março, é o Dia Internacional da Mulher; faço-o, solidarizando-me com todos os que lutam contra a misoginia da Igreja — atendendo à data, nomeadamente muitas associações de mulheres apresentaram protestos —, e retomando o que já aqui escrevi em 2011: “As mulheres têm motivo para estar zangadas com a Igreja, que as discrimina. Jesus, porém, não só não as discriminou como foi um autêntico revolucionário na sua dignificação, até ao escândalo.”
Veja-se a estranheza dos discípulos ao encontrar Jesus com a samaritana, que tinha tudo contra ela: mulher, estrangeira, herética, com o sexto marido, mas foi a ela que se revelou como o Messias. Condenou a desigualdade de tratamento de homens e mulheres quanto ao divórcio. Fez-se acompanhar — coisa inédita e mesmo escandalosa na época — por discípulos e discípulas. Acabou com o tabu da impureza ritual. Estabeleceu relações de verdadeira amizade com algumas. Maria Madalena constitui um caso especial nessa amizade: ela acompanhou-o desde o início até à morte e foi ela que primeiro intuiu e fez a experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado não foi entregue à morte para sempre, pois é o Vivente em Deus, está vivo em Deus para sempre como esperança e desafio para todos os que crêem nele, a ponto de Santo Tomás de Aquino e outros, apesar da sua misoginia, a declararem a “Apóstola dos Apóstolos”, precisamente por causa do seu papel fundamental na convocação dos outros discípulos para a fé na Ressurreição: na morte, não caímos no nada, pois entramos na plenitude da vida em Deus, Deus de vivos e não de mortos. Aliás, já São Paulo, na Carta aos Romanos, pede que saúdem Júnia, “Apóstola exímia”.
2. Num dos seus últimos escritos antes da morte, o grande teólogo José M. Castillo — faleceu em 2023 — veio lembrar isso precisamente. Quando se lê os Evangelhos, o que constatamos é que Jesus teve conflitos e confrontos com vários grupos, desde as mais altas autoridades religiosas até aos discípulos que o acompanhavam: a Pedro, por exemplo, chegou a chamar-lhe Satanás. Mas há um dado que “chama poderosamente a atenção: as mulheres são o único grupo com o qual Jesus não teve problema algum, inclusivamente naquele caso da mulher cananeia que suplicava a cura da sua filha doente; parece que Jesus lhe deu uma má resposta, mas o carinho daquela mãe foi tão intenso que até fez Jesus dizer: ‘Mulher, como é grande a tua fé!’. E a filha ficou curada.”
Castillo insiste que Jesus esteve sempre do lado das mulheres, mesmo quando eram adúlteras ou prostitutas. Jesus deixou que uma mulher o perfumasse com perfume caro, ou lhe beijasse os pés com lágrimas e lhos enxugasse com os cabelos. E foram as mulheres que se mantiveram sempre fiéis no caminho do Calvário e depois da morte, diante da Cruz. E foram as primeiras testemunhas do Ressuscitado, do Jesus vivo em Deus para sempre.
E, atravessando a história da Igreja, lança a pergunta: “Como é possível o que está a acontecer? Se há tantos bispos que vivem em palácios, usam vestimentas que já ninguém usa, têm privilégios que ninguém mais tem, julgam ter poderes que Deus lhes deu a eles e a mais ninguém, não é lógico e inevitável que na Igreja esteja a acontecer o que todos vemos?” E conclui: “Como é possível que as mulheres continuem nesta Igreja que as marginaliza, as exclui, as anula em tantas coisas...? Porque é que hão-de continuar numa Igreja que, apoiada em séculos, nega e resiste a que celebrem Missa ou que possam ser esposas de padres? Se Jesus não proibiu nada disso, porque é que havemos de ser nós a proibir e, para cúmulo, ficando com a consciência do dever cumprido? O que é mais importante: agradar a uns tantos cardeais ou servir toda a gente?”
3. A Igreja continua a ser um dos maiores esteios da sociedade patriarcal. Até inconscientemente, com a doutrina tradicional, embora esta não encontre apoio no Evangelho.
Dou três exemplos.
Eva, que estaria, segundo a doutrina tradicional, a partir de uma leitura literal da Bíblia, na base do “pecado original”, criou a imagem da mulher tentadora, associada ao pecado.
Quando João Paulo I se referiu a Deus como Mãe foi um escândalo tal que não faltaram os protestos, clamando que Deus é Pai e não Mãe. Para esta visão, contribuiu também o desconhecimento da biologia. De facto, o óvulo feminino só foi descoberto em 1827. Por isso, na geração, a mulher era passiva e não activa. Neste quadro, nunca se poderia rezar o Credo, começando assim: “Creio em um só Deus, Mãe toda-poderosa, criadora dos céus e da terra...” nem rezar o “Pai Nosso”, dizendo “Mãe Nossa”. Mas, em relação a esta concepção, é preciso tomar consciência de que Deus está para lá da determinação sexual e, por isso, tanto nos podemos dirigir a Ele como Pai ou como Mãe, melhor: Pai-Mãe...
Também se diz que Deus encarnou no homem Jesus. Sim, esta afirmação é clara para a fé cristã, desde que não se ignore que, no Evangelho de São João, se lê que o Logos, que é Deus, se fez carne, no sentido de humanidade frágil. De facto, a palavra utilizada no original grego é “sárx”, que significa precisamente a humanidade enquanto frágil, e não “anér, andrós”, que se refere ao homem masculino (daí, andrologia e androcentrismo). Deus manifestou-se, revelou-se a todo o ser humano, na humanidade frágil do homem Jesus.
Neste contexto, pergunta-se: a mulher não poderá presidir à Eucaristia? Já há anos, o então cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, que sabia Teologia, fez uma declaração que teve muito eco nos média, inclusive estrangeiros: “Teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental” à ordenação de mulheres. A recusa baseia-se apenas na tradição. É evidente que, perante esta afirmação, os protestos choveram e o meu amigo cardeal José Policarpo, por pressão do Vaticano, teve de recuar, dando esclarecimentos. Mas, evidentemente, era ele que tinha razão, como também outros cardeais reconhecem.
Para contrapor, invoca-se que na Última Ceia não houve mulheres. Ora, esta afirmação é contestada por grandes exegetas. De qualquer modo, onde é que está que Jesus ordenou alguém “in sacris” naquela noite? Mais: o famoso biblista, talvez o maior exegeta do século XX, Herbert Haag, da Universidade de Tubinga, com quem tive o privilégio de privar, ironizou: como eram só judeus os presentes, então a Igreja devia ordenar só homens judeus!... Sobretudo: é sabido que as primeiras comunidades cristãs — não havia igrejas nem capelas nem basílicas ou catedrais — se reuniam na casa de cristãos mais abastados, pois sempre teriam uma casa mais ampla, e quem presidia era o dono ou a dona da casa. Então, se já foi possível mulheres presidirem à Eucaristia...
A questão da mulher na Igreja tem, pois, de ser revista. Para não ferir o que Jesus disse: “Sois todos irmãos e iguais” nem este princípio fundamental do Concílio Vaticano II: “Toda a forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa por razão do sexo deve ser vencida e eliminada, por ser contrária ao plano divino.”
Afinal, a linguagem que nos leva a dizer: “a Igreja discrimina as mulheres” revela bem onde reside o nervo do problema. Que Igreja é que discrimina? Quem é a Igreja? Evidentemente, ao dizer que a Igreja discrimina as mulheres, estamos a referir-nos à Igreja hierárquica: Papa, cardeais, bispos, padres, cónegos, monsenhores — com duas classes: clero e leigos —, quando o que Jesus queria era a Igreja como comunidade de comunidades, que obriga a dizer: “a Igreja somos nós”, a comunidade dos baptizados, homens e mulheres, uma comunidade de iguais, com carismas e ministérios vários ao serviço de todos, entre eles, o da presidência da Eucaristia, exercido por homens ou mulheres.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 7 de Março de 2026
"Convenção de Faro – Um Novo Conceito de Património Cultural" é o tema do curso que esta semana se iniciará no CNC. Publicamos hoje a nota introdutória para o mesmo.
A Convenção Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea foi assinada pelos Ministros da Cultura dos Estados-membros a 27 de outubro de 2005 e entrou em vigor em 1 de junho de 2011. Definido ao longo do tempo pela ação humana, o património cultural, longe de se submeter a uma visão estática e imutável, tem de ser considerado como um “conjunto de recursos herdados do passado”, testemunha e expressão de valores, crenças, saberes e tradições em contínua evolução e mudança. O tempo, a história e a sociedade estão em contacto permanente. Nada pode ser compreendido e valorizado sem esse diálogo extremamente rico. Usando a expressão de Rabelais, estamos sempre perante “pedras vivas”, já que as “pedras mortas” dão testemunho das primeiras. O património surge, nesta lógica, como um primeiro recurso de compromisso democrático em prol da dignidade da pessoa humana, da diversidade cultural e do desenvolvimento durável. E constitui um capital cultural resultante do engenho e do trabalho de mulheres e homens, tornando-se fator de desenvolvimento e incentivo à criatividade. Quando falamos de respeito mútuo entre culturas e das diversas expressões da criatividade e da tradição estamos a considerar o valor que a sociedade atribui ao seu património cultural e histórico ou à sua memória como fator fundamental para evitar e prevenir o “choque de civilizações”, mas, mais do que isso, para criar bases sólidas de entreajuda e de entendimento. Impõe-se, deste modo, o reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem no continente e uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações. E não esqueçamos o contributo do património cultural para a sociedade e o desenvolvimento humano, no sentido de incentivar o diálogo intercultural, o respeito mútuo e a paz, a melhoria da qualidade de vida e a adoção de critérios de uso durável dos recursos culturais do território. Daí a importância da “cooperação responsável” na sociedade contemporânea, através da ação conjugada dos poderes públicos, do mundo da economia e da solidariedade voluntária. Perante a exigência do reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem e de uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações, realizamos um exercício prático, onde, a propósito da herança cultural e da salvaguarda de marcos de memória, descobrimos a importância do diálogo entre valores e factos, entre ideais e interesses, entre autonomia e heteronomia. O certo é que os valores quando reconhecidos socialmente adquirem um carácter de permanência, tornam-se expressão da memória e do movimento, da tradição e da criação e aliam-se às constantes e invariáveis axiológicas numa relação complexa em que o património e a herança culturais se tornam fatores de liberdade, de responsabilidade, de emancipação, de respeito mútuo e de afirmação da dignidade humana. Uma obra de arte, uma catedral ou uma choupana tradicional, um conto popular, as danças e os cantares, a língua e os dialetos, as obras dos artesãos, a culinária ancestral – eis-nos perante expressões de valores que põem em contacto a História e a existência individual, a razão e a emoção, que constituem a matéria-prima de uma cultura de paz.
Há exemplos que nos são dados pela natureza e que constituem motivo sério de reflexão sobre as noções de património e de memória. As borboletas-monarca são alvo de atenções especiais dos cientistas, em virtude das misteriosas migrações que protagonizam de muitos milhares de quilómetros e há milhões de anos, no Atlântico e no Pacífico, especialmente nas Américas. Tendo uma vida curta, de 2 a 7 meses, esse tempo não permite a estas borboletas realizarem mais do que uma viagem em vida e num só sentido – demonstrando que a memória genética pode ser mais importante do que a aprendizagem. Um segundo exemplo tem a ver com as nossas observações do firmamento. Verificamos que muitos dos corpos celestes que ainda vislumbramos, há muito que estão extintos e no entanto ainda parecem ser nossos contemporâneos, em virtude da «lentidão» da velocidade da luz. Vemo-los, mas já não existem… O terceiro caso relaciona-se com os belos jacarandás que temos em Portugal e que têm uma fugaz floração, quase impercetível no outono europeu, uma vez que prevalece a lembrança genética da primavera brasileira. Afinal, as árvores têm memória. As três referências levam-nos a dar uma especial atenção às nossas responsabilidades ligadas ao tempo e ao que dele recebemos. No fundo, temos o dever de estar atentos ao valor dinâmico do que recebemos e do que legamos – seja memória genética, seja perceção virtual do passado, seja reminiscência histórica… Quando falamos de património cultural é de atualização criadora que cuidamos – pelo que não é apenas o passado que importa, mas sim uma responsabilidade presente que renova e atualiza a fidelidade à herança recebida. Quantas épocas diferentes, quantos estilos, quantas intervenções compõem o mosteiro dos Jerónimos? O mesmo se diga das grandes catedrais europeias, que foram sendo construídas em diversos momentos e em camadas arqueológicas e arquitetónicas múltiplas. Na catedral de Salamanca, entre os elementos decorativos foi acrescentada no século XX a representação de um pequeno astronauta, que não choca quem o descobre e que apenas demonstra que a História não se detém. Também no património imaterial, assistimos a atualizações, desde a gastronomia aos hábitos e costumes, não esquecendo a língua…
(in Guilherme d’Oliveira Martins, Património Cultural – Realidade Viva, ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos)
João Salgueiro deixou uma herança maior ao país, que não pode ser esquecida ou desperdiçada. De facto, mais do que no exercício de um poder direto, foi alguém que deixou uma marca perene na sociedade portuguesa. A publicação pela Imprensa Nacional do precioso volume João Salgueiro – Planeamento, Política e Economia, coordenado por Emílio Rui Vilar e Rita Bessone Basto, com prefácio do Presidente da República, representa uma inesperada e necessária reunião de textos, criteriosamente escolhidos com grande cuidado, que dão um retrato fiel de um percurso único de alguém cujas lições de vida continuam bem presentes, devendo ser seguidas em nome da melhor defesa do bem comum.
Muitas vezes se repete que o improviso é uma suposta qualidade dos portugueses. Puro engano. É uma característica que pode compensar alguns erros, mas que não deve erigir-se em método. Olhe-se a história portuguesa. Só pudemos ser relevantes quando fomos capazes de planear, de antecipar e de preparar cuidadosamente o que deveria fazer-se. Leia-se Zurara, compreenda-se a figura do infante D. Henrique, lembre-se o caminho do Príncipe Perfeito e de D. Manuel, e não se esqueça Sebastião José… O improviso só pode funcionar quando os desígnios já são claros e definidos. Caso contrário, nada acrescenta. Ao lermos os textos que agora se apresentam, compreendemos que “o desenvolvimento é demasiado sério para poder ficar ao sabor das circunstâncias”. Eis por que as intervenções têm um apurado sentido pedagógico, deixando bem vivo o exemplo de quem os disse e escreveu.
As seis partes que constituem o livro seguem os temas: Planeamento, SEDES, Política, Banca, Integração Europeia e Globalização, Crise Financeira, os Desafios da Economia Portuguesa. O texto de dezembro de 1969 assume uma importância fundadora. Tratava-se de Construir uma Sociedade Nova. Era o fim da autarcia que tinha de se concretizar. “A substituição das políticas protecionistas por esquemas de promoção ativa (das exportações) constitui, assim, condição de sobrevivência para as nossas unidades de produção. (…) De facto, quer tenhamos, ou não, consciência antecipada do fenómeno, trata-se verdadeiramente de construir nos próximos decénios uma sociedade nova”. Havia que concretizar um “planeamento objetivo, coerente e eficaz”, para que as aspirações de progresso dos portugueses dessem lugar a uma “obra verdadeiramente comum de desenvolvimento económico e social”.
Como nos disse tantas vezes na SEDES, havia um trabalho persistente que exigia uma ponderação dos meios disponíveis, das capacidades humanas mobilizáveis e dos bloqueamentos. Em dez anos que presidi à Associação contei sempre com a sua disponibilidade, o seu compromisso e o desafio constante à ideia de reforma. Por isso, repetia tantas vezes: “Mudanças adiadas são ruturas agravadas”. Num texto notável, no primeiro ciclo do CIDSENIOR, animado por Alberto Regueira, intitulado “Do Restelo à Globalização – Da sobrevivência e da relevância portuguesa” (2017), João Salgueiro afirma que Portugal, fiel à sua história, deve ter um projeto que garanta níveis superiores de inovação e de competitividade, necessitando de um projeto solidário, para que a transformação não produza desigualdades e custos mal distribuídos. Mas acrescentava que apesar do consenso sobre os grandes desígnios, não temos conseguido traduzi-lo em estratégias de mudança… Eis o dilema.