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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O CONDE DE MONSARAZ NO CENTENÁRIO DA SUA MORTE

Lembrar aqueles que de algum modo alcançaram uma certa relevância na literatura em Portugal não é tarefa a que entre nós nos dediquemos habitualmente. Mesmo vultos do nosso tempo, que atingiram uma grande dimensão num passado recente, quantas vezes deixam rapidamente de ser estudados, recordados e lidos, mal desaparecem do mundo dos vivos. Por isso, não é de espantar que a passagem de efemérides relativas a escritores muito anteriores aos nossos dias não seja motivo de evocação, deixando-se perder completamente na memória a sua existência e mais ainda a sua obra que, mesmo quando datada e hoje fora de moda, não mereceria ser de todo ignorada como parte, pequena que seja, da história da Literatura Portuguesa.

Neste ano de 2013 completaram-se cem anos sobre a morte de António de Macedo Papança, que ficou conhecido literariamente como Conde de Monsaraz. Nascido em Reguengos de Monsaraz em 1852, filho de um abastado lavrador alentejano, estudou leis em Coimbra, foi Deputado pelo Partido Progressista, Par do Reino, Embaixador ao Congresso da Paz de Paris de 1900, Sócio da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras e recebeu os títulos de 1º Visconde e depois de 1º Conde de Monsaraz. Monárquico convicto, abandonou Portugal após a proclamação da República em 1910, tendo-se fixado na Suiça e depois em Paris, de onde em 1913, no próprio ano da sua morte voltou, já doente, para Lisboa, regressando à sua casa na Rua Victor Cordon, com uma magnífica vista sobre o Tejo, que fora cenário de grandes saraus literários antes do seu exílio voluntário, onde recebia como homem encantador que era e gozando de largo prestígio nos meios mundano, político e intelectual.   

Durante o período em que Camilo Castelo Branco viveu em Coimbra, em 1875-1876, alguns jovens académicos conviveram com ele, entre os quais Macedo Papança, Nunes da Ponte, Gonçalves Crespo e Teixeira de Queiroz. Sobre o primeiro, escreveu  Camilo  que “Macedo Papança faz que um leitor sério se deixe ir atrás das tranças soltas, e da espádua nua, e do desnalgado requebro da poesia moderna” e, em carta ao jovem poeta de raiz parnasiana, inspirado no exemplo  de João Penha, referiu que “tem V.Exª.  o condão de ser bom e amorável no meio dos seus satanismos poéticos”.  Apesar destas críticas, Camilo tinha pelo futuro Conde de Monsaraz grande simpatia e intimidade, que lhe permitiu dedicar-lhe un soneto satírico a propósito de Macedo Papança ter feito na récita dos quintanistas de Direito de 1976 o papel de Tomásia, a  ingénua da peça Fígados de Tigre de Francisco Gomes de Amorim:

Destes reis da Etiópia, Arábia e Ásia / Detesto cordialmente a realeza: / Mas dobro o joelho a ti, loira princesa, Doida cocote, lúbrica Tomásia. // Não lembras de Romeu a doce amásia; / Mas fazes recordar certa Teresa / Que, em banzés de Paris, mantinha acesa / A lascívia que faz perder Aspásia. // Quem te pôs nesses olhos requebrados / O dardo cupidíneo com que feres /

Uns peitos já senis e encouraçados? // Tu és hermafrodita quando queres; / E na farsa dos “Fígados danados” / És mulher mais mulher do que as mulheres”.

 

Nas suas Telas Históricas, publicadas em 1882, antecedidas pelo livro Crepusculares, de 1876 e pelo  poema  Catarina de Ataíde, de 1880,   Urbano Tavares Rodrigues reconhece-lhe  ter dado “ provas exemplares de um talento fácil de metrificador”  em “versos inspirados aliás por um respeitável fervor patriótico”,  embora em sua opinião  “de exímia mediocridade”, em contraste  com o seu último volume de poesias, Musa Alentejana, de 1908 , “que lhe confere realmente um lugar entre os poetas que se fizeram eco de uma terra”, sendo “na própria expressão da terra, da sua força e divina quietude, que o Conde de Monsaraz consegue os seus melhores efeitos poéticos”, através dos quais se comunicam “o sortilégio do som na amplidão” e “a magia dos intensos poentes” (Dicionário de Literatura, direcção de Jacinto do Prado Coelho, 2º volume, Livraria Figueirinhas, Porto, 1979).

Já antes, Augusto de Castro observara que foi ao chegar a Lisboa que o poeta “regressou ao drama da terra, à écloga da sua província, à alma das charnecas e dos montados, à graça matinal das azinhagas em flor. Foi na época dourada da sua existência que ele sentiu melhor a humilde gestação do seu povo, o divino crepúsculo dos horizontes de sobreiros e de giestas em que nascera. Foi então que nele surgiu o admirável poeta regional que ia criar o lirismo alentejano e lhe ia dar o lugar que lhe compete, como um dos clássicos da nossa poesia moderna” (Mestre Outono, Pintor, Bertrand, Lisboa, 1957).

E António Sardinha, alentejano de Monforte que seguiu na sua pegada como autor de poemas de cunho nacionalista e de temática regionalista, escreveu no prefácio da Musa Alentejana que “é no fim da existência que ele se liberta das imposições canónicas do seu parnasianismo exigente e nos deixa não o testemunho de uma sensibilidade, mas o hino de força, que é bem o pregão dum forte temperamento na posse de si mesmo”.

Do Conde de Monsaraz, aqui se deixam três poemas característicos da sua vasta obra.

O primeiro, o soneto Reguengos, evocativo da sua terá natal.

 

Inverno, manhã cedo. A luz que banha / A paisagem é gélida e cinzenta; / A vaga pompa do cenário ostenta / Ao largo, as serras húmidas de Espanha. // Hortas, vinhedos, e a carcaça estranha / De Monsaraz, numa ascensão violenta; / A erva tenrinha os pastos apascenta, / Que em tons de bronze a terra desentranha. // E eu olho a paisagem dolorida, / Testemunha que foi da minha vida, / Povoada agora de visões errantes… // Eu olho-a e dentro da minha alma afago-a, / Que os seus olhos longínquos, rasos de água, / São hoje os mesmos que me olharam dantes.

 

O segundo, Recordações, é um poema em que se manifesta, como em outros, a sua preocupação com os desfavorecidos da sorte.

 

Dias e noites da minha aldeia, / Noite de lua, dia de sol, / Mares de trigo que o vento ondeia, / Ingénuo rio que o mar engole. // Velhas charnecas de azinho e esteva, / Turibuladas de rosmaninho, / Onde altas horas ninguém se atreva, / Que as bruxas andam pelo caminho. // Montes e vales, rochas fragueiras, / Hortas, vinhedos, noras cantantes, / Medas de palha junto das eiras, / Onde em pequeno brincava dantes. // Maltês sem rumo, quero trabalho; / Eis-me no alpendre: “Bom lavrador, / Chove água a potes, dá-me agasalho, / Quem bem semeia colhe melhor. // Ando no mundo desamparado, / Foi para isto que ao mundo vim; / Tens muito trigo?... toma cuidado, / Se queres tê-lo, tem dó de mim!”

 

Por último, em Miserere, surge a poesia de pendor patriótico, que reflecte o sentimento de decadência nacional que ciclicamente se apropria do colectivo português, como actualmente acontece.

 

Ai, povo português, que entre os mais povos / Foste heróico, e sublime, e egrégio outrora, /

Quando entre o batalhar das raças fortes, / Da guerra entre o rugir das tempestades, / Peito a peito lutando, braço a braço, / O olhar em fogo e os lábios espumantes, / Erguias o estandarte vitorioso / Na negra dentadura das muralhas / E fazias flutuar as santas quinas / No espaço azul das glórias que não morrem. // Ai, povo português, povo maldito, / De sangue envenenado, que circula / Nas veias duma raça decadente, / Que de sonhos esplêndidos desperto, / Acordado no charco onde apodrece / A carne vil dos povos condenados, / Embalde tentas, num impotente esforço / Ser digno dos avós que te ilustraram / E que da escuridão da morte fitam / O duro olhar na tua decadência. // Ai, povo português, que choras, gemes / E soluças na dor que fibra a  fibra / Convulsiona o teu ser abastardado . / Ao Céu erguendo os olhos rasos de água, / Imploras, desgraçado, o sangue novo, / A alma nova, que insuflada em estos / De arrojo e de bravura, revigore / Em ti o teu passado deslumbrante; / À força dos teus músculos de ferro, / A viva fé que enchia os olhos castos / Dos velhos Portugueses que lutaram / Sobre os oceanos e nos campos de batalha, / Onde com sangue e lágrimas teceram / Os versos de oiro, as rimas deslumbrantes / Das tuas epopeias imortais. // Ai, povo português, que Deus te salve / E, se puder, que os nossos peitos encha / Dessa luz, dessa fé consoladora, / Que as nuvens do futuro dissipando, / Entre de vez no mundo das estrelas… /  Luz que ilumine as páginas da História / E vá com estrelas escrever os feitos, / Exaltar tantos rasgos de bravura, / Que entre os povos da terra o mundo espantam! // Raça de heróis, que Deus se compadeça / De ti e te resgate a Providência.

 

Mário Quartin Graça

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