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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ENTRE ORFEU E EURÍDICE

 

Minha Princesa de mim (serás?):

Olho para o "Orfeu e Eurídice" do Jean Raoux, quadro exposto aqui, no J. Paul Getty Museum de Los Angeles. Pintura talvez já moldada por uma qualquer achega iluminista: uma alma do sec.XVIII interroga um mito clássico e interpreta-o. O lírico Orfeu dá a mão direita à infeliz Eurídice, enquanto a sua esquerda, segurando o violino que à moda do tempo a seu modo foi representando a lira, lhe aponta a saída para a luz da vida. O mundo da felicidade como destino, parece ele dizer-lhe, está lá fora, fora do tenebroso subterrâneo a que a mordedura de uma serpente, mandada por Hadés / Plutão, a encerrou.  Mas Eurídice, nesse preciso momento em que o seu amante  -  depois de ter conseguido graciosamente descer aos infernos, para do enterro deles a libertar  -  a quer levar, não é para Orfeu que olha, nem para a esperança. Vira para trás o bonito rosto, como se lhe custasse mais  despedir-se do soberano Hadés, no qual uma rendida Perséfone/Prosérpina amorosamente se reclina. E ali estão os três fados ou fadas, a fiar, desfiar, cortar o cumprimento da sua vida. Prosérpina, sabemos, ainda será descoberta e liberta por Ceres, sua mãe, a Mãe-Terra que, de Plutão, arrancará o consentimento dos nove meses de vida livre, ao sol e ao vento, para a que, todos os anos, renascerá Flora, a Primavera. Essa que só por um trimestre astral deverá submergir-se no silêncio escuro do reino das profundezas… Mas Eurídice é humana, não sabe já  -   por tanto ser do mundo intermédio  - distinguir entre trevas e luz. Numas, não vê. E, da outra, um medo a tolhe, pois que sempre tememos que nos cegue o brilho. Aos pés dessa mulher, jazem frutos que, em tempo de castigo, cegueira e submissão, Prosérpina deixou tombar, antes de voltar a ser Flora. Não os vê Eurídice, nem para o seu amante olha. Não quer deixar o que conhece agora. Reduz-se,volta para trás. Resigna-se, renuncia, anula-se. Orfeu terminará o seu percurso. Sem Eurídice. Chegará sozinho à superfície da terra, onde o seu canto e a sua lira já haviam emprenhado de concórdia, alegria e paz, as bestas ferozes com os animais todos que julgamos mansos. Mas sobre ele se precipitarão as bacantes... Como poderia Baco, deus do vinho, do esquecimento e da discórdia, consentir a vida de um coração fiel? Morrerá o amante, por muito ter amado. Se Jesus fosse, Baco teria perdoado. Zeus/Júpiter, todavia, ainda abriu ao poeta o céu. E, no infinito silêncio das noites cobertas de pérolas, ainda hoje ouvimos a voz do trovador. E vemos, estrelas que são promessas, as luzinhas em que se tornaram os pedaços da lira que as bacantes desmancharam... É tão bom, Princesa, ouvir cantar!


Camilo Martins de Oliveira 

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