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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A PAIXÃO DAS IDEIAS

AGOSTO AZUL EM ARZILA.

Por Guilherme d’Oliveira Martins

Era de madrugada quando passei a mítica porta de armas da velha Praça de Arzila. Eram praticamente três da manhã. Os voos tardios para Casablanca (a aura de Ingrid Bergman estava lá) e depois para Tânger atrasaram-se. E não há hospitalidade, por melhor que seja, como de facto foi, que dispense as burocracias das fronteiras, os passaportes, as polícias, os carimbos. Enquanto uma parte da delegação portuguesa ao Festival de Asilah (Arzila) ficou em Tânger, tive o privilégio de ficar na cidade histórica. A noite límpida de Agosto dominava a cidade, que se aquietara havia muito pouco. Atravessei de automóvel as ruas estreitas, num dédalo apertado e labiríntico, e depressa cheguei à muralha fronteira ao oceano. Quando entrei no Palácio Raisouli (hoje da Cultura), o silêncio apenas foi interrompido pelo som dos passos nos corredores semi-obscurecidos e no pátio central revestido de azulejos, coberto por uma clarabóia de quatro águas e decorado com estuques e madeiras. Ao nosso encontro vieram prestáveis camareiras, que não disfarçavam, apesar da simpatia, terem sido acordadas a desoras. Em poucos minutos, depois de uma breve hesitação na escolha do quarto, já estava acomodado em instalações amplas, com leve toque arábico e todas as benesses ocidentais.

Abri as venezianas e olhei o que se avistava da janela. Estava no coração da Medina, a iluminação deixava ver as casas brancas de cal imaculada debruadas a azul, as açoteias, o encadeado de construções, um pequeno jardim em frente, e, debruçando-me apoiado no parapeito, deparei à esquerda com o negrume do Atlântico sob o céu estrelado de uma noite de lua cheia e senti o marulhar, a cadência regular das ondas, plácidas e serenas. O cansaço da viagem adormeceu-me rapidamente. E só fui acordado pelos primeiros raios intensos da aurora. A manhã começava, e o jardim em frente acolhia-me com um magnífico caramanchão de buganvílias, que me recordaram o zelo de minha avó Ana com as suas flores algarvias. E lembrei o “Agosto Azul” de Teixeira Gomes: “por cima dos alcantis da costa progride a alvorada; cinge-se o céu de faixas de oiro cor de limão golpeadas a carmim”… Recordei o Algarve, ali tão próximo. E, ao ouvir o bater regular das ondas, senti-me em casa, como se as lembranças de menino viessem num instante. Mas era muito cedo e a cidade estava ainda em silêncio. Adormeci de novo e a luz intensa do sol invadia o quarto. Os primeiros dias de Agosto diziam: “… e o mar dilata-se infinitamente quando rebenta a luz do Sol, jorrando fogo como se por detrás do céu tudo fosse metal fundido”.

Pouco depois das nove estava na sala de refeições daquele amplíssimo palácio, reconstruído graças à determinação de Mohamed Benaïssa, antigo Ministro da Cultura e actual Presidente da autarquia. Contam-se muitas histórias sobre esse corsário dos tempos modernos que construiu aquele majestoso edifício no centro da Medida com amplos janelões para o Mar. Raisouli foi um temível guerrilheiro tribal que chegou a vencer o governador de Tânger no final do século XIX, tornando-se-se paxá da cidade de Arzila em 1906. Por ali há fantasmas desse tempo, de uma história de pouco mais de cem anos. O certo é que até há poucas décadas aquela mole imponente estava em ruínas, sem nunca ter chegado a ter uma utilização efectiva. Só a recuperação histórica da cidade dos últimos anos permitiu que o edifício tivesse sido reconstruído e adaptado para acolher convidados, artistas, escritores, governantes… Gozei o bom pequeno almoço e a vista magnífica sobre o Atlântico – e percebi que o recife de que falaram Duarte Pacheco Pereira e os nossos navegadores há muito deixou de existir.

O dia estava límpido e os azuis deslumbrantes. Percorri as ruas de Asilah, fruindo o ambiente da cidade que acordava e que começava o intenso bulício. Turistas misturavam-se com a gente da terra, os trajes informais dos estrangeiros contrastavam com as vestes tradicionais, as túnicas, os lenços das mulheres, o ritmo lento da abertura do comércio, os bazares cheios de artesanato, cerâmicas, cobres e recordações. Próximo da torre de menagem deparo-me com uma parede pintada por artistas portugueses. As silhuetas de vários visitantes saúdam uma jovem com vestes tradicionais, de rosto velado, onde apenas se adivinham os olhos, posta numa janela autêntica artificiosamente pintada. Muita gente fotografa o cenário, assinado com o nome de Portugal e uma pequena bandeira. Mais adiante vejo a placa deixada por Helena Vaz da Silva e pelo CNC em 1987 “os portugueses ao encontro de Marrocos”. A torre foi recuperada pela Fundação Gulbenkian e alberga no festival deste ano a exposição sobre o património português recuperado graças àquela instituição. É imponente, encimada por um “telhado de cobre de quatro águas, com quatro guaritas ligadas pelo caminho da ronda protegido por merlões”. No guia editado pelo CNC “Portugal e o Mundo, o futuro do passado” dedicado a Marrocos (Lisboa, 2003), Rui Rasquilho diz-nos mais: “a torre terá sido desenhada por Boytaca e por ele reconstruída conjuntamente com as muralhas no início do século XVI”. Lembre-se que D. Afonso V e seu filho D. João conquistaram Arzila em 24 de Agosto de 1471, e foi a partir daqui que Tânger foi tomada. Em 1550, por decisão de D. João III, Portugal abandonou esta praça, retomada em 1577 por D. Sebastião, a pensar nas novas conquistas marroquinas. Até que, em 1589, Filipe I decide deixar Arzila… A torre desta cidade e o Castelo do Mar em Safi, ao sul de Marrocos, são as únicas torres de traça medieval de origem portuguesa que ainda subsistem em África. Diz a tradição que foi no largo fronteiro à torre que D. Sebastião acampou com as suas tropas antes de partir para o desastre de Alcácer-Quibir. Depois do reconhecimento da Medina, regressei ao Palácio da Cultura para visitar os ateliês dos artistas.

Havia um movimento e um ambiente extraordinários. David Almeida, de há muito um dos entusiastas do festival, entregava-se à sua arte de exímio gravador, ensinando, desde o modo de tornar operacional uma prensa teimosa até à transmissão da difícil técnica de imprimir no papel o resultado do talento. José Emídio não escondia o orgulho de trazer a Cooperativa Árvore àquele lugar de tantos mitos. E ia pintando uma alegoria aos amores de D. Sebastião (naquele dia 3 de Agosto, véspera da partida funesta) conversando animadamente sobre arte, sobre a pátria e sobre tudo. Carlos Dias juntou-se à conversa, também ele (ou seria Alberto Terrível?) às voltas com a representação do mito sebástico, mas sobretudo empenhado em demonstrar que a memória que interessa viver é a da cultura, da arte e das aprendizagens. Bela Silva dirigia o ateliê de escultura. Carlos Reis, Luísa Gonçalves, Fernanda Costa afadigavam-se no entusiasmo de criar e de exprimir o gosto de estarem ali. Era emocionante entrar naquele lugar, a qualquer hora do dia. Muito mais do que invocações históricas o fundamental é transformar a memória em cultura de paz. Como diria no dia seguinte: “Em Asilah há uma vida cultural onde o património não se pode situar nem compreender sem uma ligação actual à contemporaneidade. A história e a actualidade cruzam-se, naturalmente”.

A ideia do festival é extraordinária de possibilidades. Encontramos o património e a vida, a história e a actualidade. Na manhã seguinte, numa volta exterior às muralhas, descubro uma pequena multidão de comerciantes com os seus burros com albardas, cilhas, cabrestos, gorpelhas e cangalhas como há muito não via. Lembrei-me dos nossos almocreves moçárabes, a comerciarem legumes frescos e de tudo um pouco. Afinal, os berberes marroquinos são nossos primos muito próximos, indo-europeus que circularam ao longo dos séculos no Mediterrâneo. E foi por entre uma pequena e pacífica algazarra de mercadores que visitei detidamente as portas tradicionais de Asilah: Bab Homar, de terra, virada a nascente, que ostenta ainda as armas portuguesas, algo apagadas; Bab El Bahar, próximo da torre de menagem e a de Casbá, virada a norte fronteira à avenida marginal.

À noite ao jantar, antes do espectáculo de fado de Raquel Tavares, em casa de Mohamed Benaïssa, num ambiente muito acolhedor e requintado, na Medina, foi possível rememorar mentalmente a estada única. No fundo, “há uma ideia nova de descoberta que temos de prosseguir e desenvolver, como respeito e partilha, como hospitalidade e dom. A cultura é um factor de riqueza, de mobilidade, de conhecimento, de informação. Não é possível falar de desenvolvimento humano, no sentido moderno, sem uma forte valorização do fenómeno cultural”.