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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CULTURA HOJE

 

 

 

OS PORTUGUESES

 

  

 

 

Mais generosos que avaros, mais comunitários que individualistas, mais emotivos que racionais, mais espiritualistas que materialistas, mais supersticiosos (Fátima) que devotos, mais líricos que prosaicos, mais soltos que disciplinados, mais improvisadores que metódicos, sempre desprezados pelos poderes públicos, os portugueses constituem um povo desejoso de abastança e solidariedade, um povo que defende ser a razão menos importante que a paixão, o calculismo menos importante que a fruição lúdica da vida, um povo que, face aos interesses económicos, tem pugnado pelos valores do sentimento e da comoção, os valores do gregarismo e da generosidade, os valores da partilha e do companheirismo, unidos e vinculados a um sentido transcendente orientador na busca da justiça, que desespera por nunca chegar. Volta-se então para Nossa Senhora, esperando do Céu o que a terra lhe nega.

 

A fibra de lutador dos Portugueses advém da sua história e da sua cultura – uma história, primeiro, de guerra contra os mouros; depois, de guerra contra a natureza e os povos "pagãos" que descobria em África, no Oriente e no Brasil; finalmente, arredado da fruição do Ouro do Brasil, restrito às elites políticas, a luta pela sobrevivência numa vida em permanente miséria económica até à actualidade. Todas estas causas fizeram dos portugueses um povo menos votado a uma vida certa e rotineira e mais votado a uma vida improvisada, na qual cada um deveria "desenrascar-se" por si próprio ou no interior de um pequeno grupo de companheiros. 

 

Dos Descobrimentos, ficou-nos uma fortíssima capacidade de improvisação e a necessidade de, para além de tudo, acreditarmos que Nossa Senhora nos privilegia e nos salva. Mais do que trabalharmos arduamente e criativamente, acreditamos que o euromilhões, um emprego de ocasião, um negócio milagroso ou uma herança salva a nossa vida.

 

Da Idade Média, profundamente religiosa, ficou-nos uma marca: o pensamento é superior à matéria e o espírito ao corpo.

 

Os Portugueses sempre defenderam um punhado de valores clássicos (lealdade, amizade, honestidade, generosidade…), alimentado por um sentido transcendente da História e do Homem (Deus, para uns; o Homem/Humanidade, segunda a Declaração Universal dos Direitos do Homem, para outros). Este espiritualismo nasceu de um conjunto de constrangimentos histórico-sociais muito particulares: menos o privilégio ao indivíduo e à liberdade e mais ao gregarismo comunitário; menos a autonomia e independência da sociedade civil e mais o endeusamento do Estado (a "Corte"); menos a separação e distinção radical entre as esferas da religião e do Estado e mais a prevalência dos modos tradicionais de socialização do sagrado; menos a generalização da riqueza do todo distribuída entre as partes e mais a concentração em pequenos grupos privilegiados; menos medidas de reforço da sociedade civil e mais subordinação do todo da comunidade ao Estado; menos o trabalho rigoroso e disciplinado, hora a hora, semana a semana, criando progressivamente riqueza própria, e mais a especulação de terras e imóveis, ou seja, menos produção e mais comercialização e especulação.

 

Assim, hoje, sem transcendência espiritual de valores ligados à beleza, ao bem e ao sagrado (mesmo à natureza como sagrado), Portugal transformar-se-á numa mera região geográfica da Comunidade Europeia, cheia de sol, de turistas e de euros, coarctada, porém, do essencial da vida que realiza os povos e os cidadãos. Não são os Portugueses, no século XXI, analfabetos e pobres, como os albaneses ou os sudaneses, mas cidadãos culturalmente ignorantes, robôs movidos a dinheiro, tão alegres exteriormente quanto vazios e infelizes interiormente. O presente português alimenta-se da mutilação do homem, unidimensionaliza-o numa estreita visão economicista. O futuro consistirá na libertação deste homem-máquina e na assunção de um homem pluridimensional, aberto a todos os valores, vivenciando uma realização quotidiana assente na união entre o corpo e o espírito – pensar, amar, trabalhar serão fundidos num único verbo: viver em plenitude.

 

Portugal é um país igual aos outros, carregado de defeitos e virtudes, mas com um jeitinho muito especial para operar consensos. Porventura devido à sua localização geográfica (cabo da Europa, olhos virados para o Atlântico e para África), à sua dimensão (país territorialmente pequeno) e fraca capacidade económica, as iniciativas de Portugal não ameaçam outras posições no tablado geoestratégico internacional. Neste sentido, nunca estando no topo das estatísticas mundiais, os Portugueses também não se situam na base, antes pelo contrário: situam-se no "meio", ganhando a confiança dos que têm menos sem amedrontar os que têm mais. É a posição do "meio" que serve permanentemente a Portugal – uma força "mediadora", um povo de "capatazia", como dizia Agostinho da Silva, nem de arquitectos/engenheiros, nem de trolhas e pedreiros. Assim, os Portugueses podem augurar a exercer um papel colectivo cada vez mais importante no conflito entre as nações, gerando oportunidades para a paz internacional, a justiça mundial, preparando um novo modelo organizativo e institucional onde mais prevaleça a harmonia que a desarmonia. Por outro lado, o jeito lento de sermos, a contenção na ambição de que somos feitos (consequência de 800 anos de cristianismo), a alegria natural de que somos possuídos sempre que em grupo, a predominância da afeição pelo sagrado (as romarias, os santuários, as procissões, Fátima) e o amor que devotamos à natureza (conservamos alguns dos mais selvagens – genuínos – parques naturais da Europa), podem funcionar como elementos atractivos para os povos da Europa do Norte, mais frios, racionais, ambiciosos e trabalhadores do que nós, forçando-os a mudarem de vida e a seguirem as nossas pisadas, abandonando-se a uma vida calma, justa, harmónica, gregária, numa palavra, feliz. A ideia portuguesa de Quinto Império, hoje, século XXI, consiste justamente numa Europa harmónica com a natureza, um território de paz, um continente justo, uma terra da alegria, onde o trabalho teria uma importantíssima componente comunitária e o Estado velaria pelas necessidades de todos os cidadãos.

 

Miguel Real,

Azenhas do Mar/Sintra, 7 de Janeiro de 2010.

 

 

 

 

 

 

 

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