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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PARA RAMOS ROSA

por Teresa Vieira

 

 

Descobrir e conhecer o princípio da palavra, é um dos confrontos de especificidade inconfundível que o Escritor sempre enfrenta.

 

A utilização da linguagem, nomeadamente, da linguagem escrita e não desatenta à denúncia de horizontes opados, constituiu uma luta franca de Ramos Rosa à vigilância no acto de leitura do próprio acontecer.

 

Sempre a ressonância interior da sua escrita também visou romper o nanismo da criatividade, esse mesmo que corresponde ao homem-valor-desaparecido, e à secagem do ar que lhe é destinado por direito.

 

Assim, entendi a força de Ramos Rosa numa escrita que cria sempre pontes entre o homem e a sua clarificação, fermento bastante à implacável decadência de uma qualquer verdade.

 

Creio que os nossos dias ignoram que o mundo faz-se sonho, e sonhar faz-se mundo, como escreveu Novalis, e, ignora-se, inclusive, a inquietude do homem, tentando cessar-lhe o mosto das insensatas paixões: aquelas que são trilhos fortes e flagrantes e independentes, aquelas cuja ideia só por si age em nós.

Assistimos a tempos em que se esvai a linguagem legítima, portadora de identidades e de sentires, de tal modo que se ignora a fantástica utopia da palavra.

 

É então chegado o momento de recorrer mais uma e outra vez a Ramos Rosa: à sua bela e certeira palavra-flecha. E nunca é excesso recorrer à sensação do Ser saboreado.

 

A linguagem é uma das medidas pela qual sobressaem os homens; constitui um domínio antiquíssimo na arte da transmissão das coisas; exprime a cultura íntima à própria pátria-mãe; cria fortíssimos laços de compreensão planetária; arrasta em si a obstinação de exprimir o inexprimível; insinua-se às essências primeiras e aos fundamentos últimos; seduz em todos os limiares...

 

Devo dizer que receio, receio muito que os pantanosos vazios dos homens e nos quais ensaiam o exercício de supostas competências comunicacionais, obscureçam, o quanto são eles próprios os bárbaros e sua única periferia.

 

Em rigor, o século XXI lançou a dúvida sobre os garantes da esperança, bem como a credibilidade dos tempos do futuro, mas a conquista de adventos de novas eras, de novos saberes insubmissos, residirá em princípios de palavra que não param de datar com força-luz a interpretação dos alertas já que

 

“Com minuciosa febre

alguém traça na folha

a sibilina trama

de um meticuloso desastre”

RAMOS ROSA

 

Às vezes não é clara

A leitura da realidade.

Escapa-nos o poema

Que ficou na fila

Do ninguém sabe.

No entretanto

Também se escrevem

Magros sucedâneos

Atordoados.

Mas não basta dizer um sentir

Com um outro nome:

Há que registar se o excesso não foi nosso.

Há que registar o que leram certas lentes

De quem olhou para o mundo e seu revés.

Às vezes, um homem consegue ser a palavra

Entre a terra e a terra

E abrir uma porta.

 

TERESA VIEIRA

Lisboa, 1 de Outubro 2007

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