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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FALTA QUE NOS FAZ...

 

 

 

Por Guilherme d’Oliveira Martins

 

 

Recordo a amiga generosa, inteligente e determinada, mulher de ideias, de causas e de convicções, que conheci quando ambos entrámos na Faculdade de Direito de Lisboa (tínhamos 17 anos). Sempre encontrei nela uma especial atenção aos outros e à justiça, que, com o tempo, se foi acentuando – com abertura e afetuosidade. E a verdade é que se foram tornando evidentes convergências significativas quanto à necessidade de renovar as políticas sociais, de recusar a pura lógica do mercado, de combater a lógica de casino e de apontar para a diferenciação positiva, em nome da dignidade humana. Há muito pouco tempo (parece ontem, porque a doença foi rápida e fulminante), debatemos longamente a última encíclica do Papa Bento XVI «Caritas in Veritate» e voltámos a convergir, naturalmente, na recusa de uma lógica mercantilista. Por isso, empenhou-se, na fundação criada por Maria de Lourdes Pintasilgo, na missão exigente de fazer da justiça um ato permanente amoroso e emancipador. Daí a importância que dava a «cuidar o futuro», às «redes de proximidade» e aos «corpos intermédios», em termos atuais e modernos para responder à crise do Estado-providência, pela ação responsável do Estado e da Sociedade, com pessoas e comunidades concretas, no sentido da cidadania ativa e de uma Sociedade-providência. O seu percurso profissional fez-se assim de entusiasmo genuíno e de causas: o serviço público e a justiça na Maternidade Alfredo da Costa e na Misericórdia de Lisboa; o bem comum e a criatividade na cultura, no cinema; e a magistratura cívica na Camara Municipal de Lisboa, na Assembleia da República…

 

Quando ouvi a leitura das bem-aventuranças ou quando o Padre José Tolentino Mendonça recordou a serenidade com que ela (quase sem o deixar falar) lhe disse, há pouco, que «Deus ama quer os vivos quer os mortos», percebi que a experiência da fé só pode ser vivida, por cada pessoa de forma irrepetível, como sinal da graça de Deus, esse dom fantástico que permite ligar a razão e a esperança. Encontrámo-nos, em mil circunstâncias. Estou a ouvi-la chamar-me, com a sua voz inconfundível, a perguntar sobre as coisas mais diversas (e sabia muito bem ouvir). Na Rádio Renascença, no final dos anos noventa, encontrávamo-nos todas as semanas na «Prova dos Quatro», a debater o País e o mundo, com Maria João Avillez e João Amaral. Entre mim e ela eram mais as convergências que as divergências, por causa dos valores e das políticas sociais. O José Cutileiro lembrou e bem o Ruy Cinatti: «Eu fui criado à direita mas puxa-me o corpo para a esquerda e o que vejo por aí é o contrário». Outras vezes, em sua casa ou em A-dos-Negros, até desoras, com o Jaime e a família, discutíamos tudo acaloradamente (sem ponta de má língua) – a política, o serviço público, os políticos, as ideias. Uma vez, fez entrar nessas nossas conversas (para gáudio de todos) Nelida Piñon, personalidade fascinante de horizontes abertos e inteligência fulgurante. Foi um deslumbramento ouvi-la falar sobre a literatura e a vida. Não fazia sentido falar sem paixão sobre as coisas do mundo. As diferenças vinham naturalmente à tona, mas o essencial era a procura da dignidade. Os seus argumentos faziam sentido, eram convincentes, claros, e como fazem os mais sábios, era sempre capaz de se colocar no lugar do outro, enquanto antagonista de ideias. Essa qualidade extraordinária permitiu-lhe ligar o sentido prático do serviço e a solidez dos argumentos e dos projetos. Como S. Paulo, combateu o bom combate. Sentimo-lo intensamente. O exemplo é a principal lição. E o tempo cimentou a nossa amizade como uma relação de confiança e admiração. «O Senhor é meu Pastor, nada me falta» (Sl., 23, 1). Não me sai da memória o verso do Salmo que Maria José Nogueira Pinto escolheu para encerrar o belíssimo texto que escreveu pouco antes de nos deixar. Diz tudo de como era, e da falta que nos faz.       

 

 

 

Fotografia cedida pela Radio Renascença

 

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