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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 16 a 22 de maio de 2022.


“Saramago – Os Seus Nomes – Um Álbum Biográfico” edição de Alejandro Garcia Schnetzer e Ricardo Viel (Porto Editora, 2022) reconstitui no ano do centenário o percurso do romancista, a partir das referências fundamentais.


DÁ VONTADE DE PERGUNTAR: PORQUÊ? 
“Da história de Portugal sempre nos dá vontade de perguntar: porquê? Da cultura portuguesa: para quê? De Portugal, ele próprio, para quando? Ou: até quando? Se estas interrogações não são gratuitas, se, pelo contrário, exprimem, como creio, um sentimento de perplexidade nacional, então os nossos problemas são muito sérios”. Na obra de Saramago não há indiferença perante qualquer destes temas. Para todas as interrogações o escritor procura pistas. E assim a sua obra corresponde a um percurso cultural e humano que merece, na sua complexidade, atenção, sobretudo pela diversidade criadora que pressupõe um constante enriquecimento da cultura, da literatura e da língua. Quando o escritor salienta que Almeida Garrett em “Viagens na Minha Terra” e Almada Negreiros em “Nome de Guerra” constituem casos especiais na inovação e renovação da língua portuguesa, que enriqueceram o que encontramos nas várias culturas e línguas que, a partir do português, se difundiram e difundem no mundo global, permite-nos ler a sua obra multifacetada à luz de uma preocupação emancipadora, em ligação à língua e à sociedade como realidades vivas. Saramago chega mesmo no “Ano da Morte” a lamentar que Alberto Caeiro não tenha vivido o suficiente para conhecer o contributo extraordinário de Almada Negreiros. Aliás, a “Viagem a Portugal” é um modo atual e necessário de ver o País, a partir da realidade das gentes concretas, do país profundo, na senda de Garrett e de Raul Proença. E na obra de Saramago está também um complemento, com naturalidade e originalidade, da obra do romancista, de “Levantado do Chão”, de “Memorial do Convento” ou de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.  E se a sombra de Garrett e de Almada está bem presente, o certo é que há uma evolução, que permite compreender Portugal como realidade em confronto permanente entre o presente e o passado. 


LIBERTAÇÃO DA LITERATURA
E assim a literatura liberta-se. Como? Colocando-se do lado da vida e assumindo a incerteza histórica, mais do que qualquer cânon ou receita. O sucesso da obra de José Saramago não se deve, assim, a uma predisposição previsível, mas a uma exigente procura de algo que possa mobilizar o leitor, não pelo que seria esperável, mas como demanda e descoberta da própria humanidade de um povo heterogéneo, mas com raízes unificadoras. Nesse ponto encontramos a cultura, como Cícero lhe chamou “humanitas”, como algo que define a essência da vida. Assim a libertação da literatura não é separação da realidade, mas compreensão do ato criador, que não pode ceder à repetição ou à previsibilidade, porque a vida se contrapõe a essa ideia. Lembre-se o que Saramago diz de “Levantado do Chão”. “Era uma questão que eu tinha que resolver e que tinha que ver com a minha própria vida, com o lugar onde nasci, eu não nasci no Alentejo, mutatis mutandis, a história é a mesma. Assim como se eu tivesse que agarrar aquela gente, que foram os meus avós, os meus pais, os meus tios, essa gente toda, analfabetos e ignorantes, e tivesse que escrever um livro”.  E nesse “agarrar” da gente”, encontramos uma dupla aceção: compreender a realidade descrita e mobilizar os leitores para acompanharem a narrativa, como uma relação biunívoca. Também a criança que ouve uma história vive as peripécias da mesma e sente-se ao mesmo tempo como protagonista e destinatária.  É o tecido humano que importa, ou seja, o movimento que mobiliza a um tempo a atenção e a iniciativa. Há, pois, na obra de Saramago, uma persistente procura da heterogeneidade da existência: pensamento e ação, vontade e inércia. E assim a obra vai sofrendo alterações no texto e no contexto, na tónica e na temática. “Mafra é um pouco como as nossas pirâmides do Egito. Andaram a trabalhar nas suas obras 400 mil pessoas. Como é que uma massa de gente construiu uma massa como esta?”. A emancipação humana liga-se à emancipação da cultura. E se Almada Negreiros e Fernando Pessoa acompanham a viagem terminal de Ricardo Reis, é o Padre António Vieira, e os ecos do pregador barroco, que acompanham Baltazar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, apesar da distância temporal. E a capacidade de adivinhar e de ver por dentro é, no fundo, a invocação da tarefa do escritor de poder ver para além de todas as aparências. E a dureza da existência e da exploração humana, ao longo de milénios, encontra na exigência do sonho o caminho para encontrar novos modos de nos compreendermos.


UM CAMINHO COMPLEXO
E José Saramago, o neorrealista dos começos, evolui naturalmente no sentido do recurso a elementos que abrangem a realidade e o mistério, além do encontro com a vontade de emancipação, como se queira entendê-la. A escolha de Ricardo Reis, em “O Ano da Morte” é, assim, justificada “por ele ser o contrário de mim”; “escolhi-o por isso, para falar dele e para falar de mim. São dialéticas contrárias”, diz o autor. A ficção obriga, de facto, a que a realidade seja desconstruída, para melhor ser descrita nas suas contradições. E Marcenda e Lídia constituem um permanente confronto. A dúvida sobre a escolha fica em suspenso. E não podemos esquecer a muito inesperada aparição de um “humano” cão das lágrimas em “Ensaio sobre a Cegueira”, símbolo de fidelidade e de compreensão, ou de Salomão, o elefante. Os símbolos são fundamentais explicações. “Não é impossível que, ao menos uma vez, apareça um elefante, e que esse elefante traga sobre os ombros um cornaca chamado subhro, nome que significa branco, palavra esta totalmente desajustada em relação à figura que, à vista do rei de Portugal e do seu secretário de estado se apresentou no cercado de belém”. Há, pois, uma preocupação do escritor na procura de uma melhor compreensão da realidade que o cerca, quer através da interrogação das raízes próprias, quer em referências humanas ou históricas, numa dupla abordagem da emancipação, como exigência pessoal e responsabilidade da humanidade, literária e cultural. “No fundo, a coisa é muito simples: eu posso criticar Portugal, mas há uma pergunta. E quem seria eu se não tivesse nascido neste lugar do mundo?” E na interrogação essencial sobre quem somos, como portugueses, Saramago pergunta: “Como explicar esta dormência, que é também ‘inquietude’, sem cair em destrutivos negativismos? Como evitar que a ‘antiga e gloriosa história’ continue a servir de derradeira e estéril compensação de todas as nossas frustrações?” Longe do conformismo, o que encontramos é uma constante insistência na exigência de recusar o fatalismo. “Como resistir à tentação falaz de sobrevalorizar o que há anos se acreditou ser “uma certa renovação cultural”, fazendo dela um álibi ou uma cortina de fumo. Ou chegámos já tão baixo, que, depois de termos desistido de explicar-nos, nem nos damos ao trabalho de justificar-nos”. A recusa de destrutivos negativismos, de uma antiga e gloriosa história ou de uma estéril compensação das nossas frustrações significará a confirmação do que Eduardo Lourenço designa como a aceitação de quem somos - imperfeitos, nem melhores nem piores do que os outros, postos perante as responsabilidades de corresponder aos desafios presentes e não a ilusões mirificas. Mais do que cair em sonhos providenciais, trata-se de entender que o velho Alexandre Herculano considerava ser o querer a verdadeira explicação da nossa existência coletiva. Na epígrafe de “O Ano da Morte”, está uma citação do próprio Ricardo Reis: “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”. É o confronto que anima o romancista, porque há uma contradição entre a vontade de agir e necessidade de seguir os acontecimentos. Mas Fernando Pessoa está noutra dimensão, do sonho e da indiferença. A ideia de emancipação é mista – emancipando-nos, desejamos libertar-nos do que nos limita e constrange, e participar de um anseio comum, a que não podemos ser indiferentes. Tal como Blimunda, ansiamos por compreender para além das aparências, ver com outros olhos. O espetáculo do mundo faz-nos embrenhar-nos em mil enigmas, sabendo que não podemos desvendá-los como desejaríamos. Apenas podemos demandar novas perguntas. “Exatamente, meu caro Reis, vida e morte é tudo um, Você já disse hoje três coisas diferentes, que não há morte, que há morte, agora diz-me que morte e vida são o mesmo, Não tinha outra maneira de resolver a contradição que as duas primeiras afirmações representavam, e dizendo isto Fernando Pessoa teve um sorriso sábio, é o mínimo que deste sorriso se poderia dizer, se tivermos em conta a gravidade e a importância do diálogo”. Ver melhor significa, no fundo, recusar a tentação de uma racionalidade sem contradições. 

 
Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

O PERDÃO E A GÉNESE DO RELIGIOSO


Pergunto-me a mim próprio se a maior revolução na história das religiões não está naquela ordem que Jesus, na continuidade dos profetas, essas figuras colossais da História, coloca na boca de Deus: “Ide aprender o que isto quer dizer: ‘Eu não quero sacrifícios, mas justiça e misericórdia’.”


Por princípio, nas diferentes religiões, uma das componentes essenciais é precisamente o sacrifício a oferecer à divindade. E degolam-se cordeiros, vitelos, bois, pombas, cabritos. Mesmo pessoas humanas foram sacrificadas. Quem não se lembra do terror de Isaac, o miúdo carregando com a lenha do sacrifício, desconhecendo que a vítima era ele próprio? Também por princípio, só os sacerdotes podem oferecer sacrifícios. Há quem afirme que no tempo de Jesus, serviam no Templo de Jerusalém uns 20.000 sacerdotes e levitas -- os levitas eram uma ordem inferior de clérigos, que ajudavam os sacerdotes em vários serviços, como apresentar os animais e a lenha para o altar. Embora hoje os historiadores estejam de acordo em reconhecer que é um número exagerado, Flávio Josefo escreveu que numa Páscoa em Jerusalém foram degolados 255.600 cordeiros. Atendendo ao sangue que corria no meio do calor, entende-se a expressão forte do profeta, quando faz Deus dizer que é um fedor que chega aos céus.


Jesus veio proclamar que Deus é bom, que está farto de sacrifícios, e foi mesmo o enfrentamento com o sacerdócio judaico uma das razões da sua crucifixão. Deus é amor. Se há definição para Deus, ela só pode consistir na acção de amar: Deus é aquele que ama. Deus está do lado da Humanidade. Deus criou não para a sua maior honra e glória, mas para a alegria e a realização plena dos homens, das mulheres, dos jovens, das crianças. Deus é Pai/Mãe e só quer a felicidade de todos. Deus não está irado com a Humanidade. Portanto, não precisa de ser aplacado com sacrifícios.


A revolução é, pois, esta: os homens e as mulheres não têm que ter medo de Deus. Ora, se não precisam de ter medo, são livres e não escravos. Então, libertos do medo, não metem medo. Porque não haja ilusões: quem tem medo mete medo. Deve-se ter medo de quem tem medo: por paradoxal que pareça, o medo desencadeia toda a forma de violência.


Que a rejeição dos sacrifícios por parte de Jesus constituiu uma revolução prova-se também pelo facto de, a partir de alusões já no Novo Testamento, se ter dado à própria morte de Jesus uma interpretação sacrificial: essa morte era a paga a Deus pela dívida contraída pela Humanidade com o pecado dos primeiros seres humanos. A ofensa cometida contra Deus era infinita, e, assim, a reparação também tinha de ser infinita. Por isso, Deus não poupou o próprio Filho: a sua morte sangrenta foi exigida para aplacar Deus na sua ira e assim Deus reconciliar-se com a Humanidade.


Foi deste modo que Deus-amor voltou a ser o Deus-Moloch sanguinário e bárbaro. Mas, se Deus é sádico e exige sangue, os homens podem fazer o mesmo -- e aí está a religião enquanto legitimadora de tanto sangue derramado e de tanta violência cometida, desde sempre. Aí está hoje uma invasão injusta com uma guerra hedionda, brutal, torturadora, que não poupa civis nem mulheres nem crianças, que atira cadáveres para valas comuns, que humilha a Onu, que não teme o perigo de uma guerra nuclear, com a ameaça do fim da própria Humanidade, e é uma invasão e uma guerra provocadas por quem se diz cristão, apoiado pelo seu líder religioso, contra cristãos…


O Deus que mete medo e apavora está ao serviço do poder: é fácil subordinar quem vive afogado em medo. Quanto poder religioso e político não foi beber no medo! Pregou-se o medo para poder subjugar e dominar homens e mulheres, povos inteiros. Se o medo for medo de Deus, já se está vencido.


Sim, Jesus sacrificou-se até à morte e morte de cruz, mas não foi Deus que exigiu a sua morte. Pelo contrário. Jesus, cuja é mensagem é que Deus é Amor, não desistiu, apesar de saber as consequências dela por palavras e obras, foi coerente até ao fim, morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor, mandado crucificar pela coligação de interesses religioso-imperiais, postos em causa pelo Deus que Ele pregava. Morreu crucificado, para proclamar bem alto e para sempre que Deus não quer crucificados. Ser discípulo de Jesus quer dizer fazer como Ele fez e o que Ele fez: significa libertar os crucificados, os oprimidos, contribuir de todos os modos para a dignificação de todos.


No dia em que a mensagem de Jesus chegar à cabeça e ao coração e à acção dos seres humanos, já não haverá medo de Deus. O que então habitará no mais íntimo será a reconciliação consigo e com os outros, e a compaixão e a misericórdia, que é o que Deus quer. E até haverá a graça do perdão, para perdoar o imperdoável -- o perdão sem condições, que já não pertence à ordem do jurídico nem do político. Aí, no perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade de cálculo que cessa. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste 'desejo' ou deste 'pensamento' do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 de maio de 2022

SALAS DE ESPETÁCULO DE VILA REAL DE TRÁS-OS-MONTES

  


Como já uma vez vimos a cultura e a arquitetura ligada aos espetáculos tem em Vila Real inesperadas e extremamente interessantes referências a nível da atividade artística propriamente dita, mas sobretudo hoje na expressão cultural inerente. E mais: não obstante a necessária descentralização, em tempos imposta pela distância relativamente a grandes centros de espetáculo, nunca deixou de se verificar e registar uma atividade de produção artística adequada, à expressão urbana e arquitetónica.


Referimos o Conservatório Regional de Música, o Teatro Municipal e ainda, como memória, o antigo Teatro-Circo. Assim, temos para já o Conservatório Regional de Musica, projeto do Arquiteto Belém Lima, inaugurado em 2004. E, como adiante se refere, é o próprio autor do projeto que nos esclarece acerca dessa tradição modernizada, a qual hoje tanto valoriza a cidade.


Estamos no quadro de uma tradição urbano-arquitetónica que remonta ao antigo Convento São Domingos, com vestígios plausivelmente originários dos séculos XVI/XVII. E há uma heterogeneidade significativa na localização urbana e no que ainda sobressai, e não é pouco, do edifício em si mesmo.


Citamos então o próprio arquiteto: “Em quinhentos e oitenta anos, o chão conturbado do Convento de São Domingos foi também hospital, quartel, estalagem, cine-teatro”. (cfr. “O Novo Hóspede” in “Conservatório de Música de Vila Real”, 2005, texto reproduzido em “Habitar Portugal 2003/2005 - ed. Ordem dos Arquitetos 2006).


E insistimos, foi também, em épocas passadas, teatro, pois lá terá eventualmente estreado em 1846 a primeira peça de Camilo Castelo Branco, “Agostinho de Ceuta”.  E a propósito dessa estreia, transcrevo o que escrevi sobre o então Theatro de Vila Real:


“Com a peça, estreou também um Teatro com ar de Igreja, e se calhar fora-o antes, singelamente denominado Theatro de Vila Real. Era pertença de João Pinto da Cunha, tio do escritor. Seguiram-se algumas salas até ao Teatro Avenida, depois Cine-Teatro Real, de 1930. ( in “Teatros de Portugal” ed. INAPA 2005).


Sobre o Conservatório Regional de Música, e tal como tivemos já ocasião de referir, o que mais impressiona é a conciliação do atual projeto arquitetónico com a funcionalidade de uma casa destinada ao ensino, sem trair nem a tradição nem a modernidade. Salienta-se designadamente a harmonização da arquitetura contemporânea com o romano-gótico da Sé e com a envolvente urbana, num edifício de vocação ampla e realizada na docência e no espetáculo artístico inerente.


Ora bem: Sousa Bastos cita, em 1908, um Teatro Circo de Vila Real, construído a partir de 1879 e inaugurado “em 1 de janeiro de 1892 com o drama D. António de Portugal desempenhado pelo grupo de amadores dos Bombeiros Voluntários de Vila Real e pela atriz Carlota Veloso. Tem 26 camarotes numa só ordem, 4 frizas, 208 cadeiras, 170 lugares de superior e 300 de galeria”!... (in “Diccionario do Theatro Português” ed. 1908 pág. 326).  

DUARTE IVO CRUZ

Obs: Reposição de texto publicado em 09.12.17 neste blogue.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


105. HISTÓRIA E GUERRA E PAZ EM TOLSTOI (I)


O interesse pela História e pela verdade histórica era crucial para Tolstoi. 


Só a História tinha a solução para o mistério de porque é que o que sucedia, sucedia como sucedia e não de outra maneira. Porque é que as coisas acontecem como acontecem e não de outro modo. 


Tendo a Filosofia da História como banal e superficial, desconfiando do abstrato, da metafísica, do impalpável e do sobrenatural, tinha a experiência, o concreto, o empírico, o observável, o verificável, todo o espírito de investigação empírica, como a chave para a verdade histórica.   


Só a História continha a verdade, quando baseada em acontecimentos concretos, na real experiência humana, em factos puros e duros reconhecíveis pelo intelecto normal, e não a História escrita pelos historiadores, que deseja ser algo que não é, não sendo uma ciência com conclusões exatas.


Mas ao reconhecer a natureza não científica da História, conclui ser inviável descobrir leis históricas autênticas e fiáveis que em conjugação de esforços com a observação empírica viabilizassem predizer o futuro (e a retrodicção do passado). O ser humano, usando os seus próprios recursos, é impotente para compreender e controlar o rumo dos acontecimentos, dada a existência de uma lei natural segundo a qual, e num grau não inferior ao da natureza, a vida dos seres humanos é determinada.     


Não sendo, de facto, livres, mas não podendo viver sem a convicção de que o somos, conclui que se permitirmos que a vida humana seja governada pela razão, a probabilidade de uma vida espontânea envolvendo a consciência do livre-arbítrio é destruída. Desta oposição entre a ilusão do livre-arbítrio a as leis deterministas que comandam o mundo, surge um caos sem sentido onde a desordem da nossa vida é refletida na guerra, no seu grau mais extremo. 


Questionando-se porque acontece a guerra, não encontra resposta, podendo ser tantas as causas que acabam por não ser nenhumas. Sucede por acaso ou porque sim, tendo como errada a ideia dos historiadores que têm este facto ou aquele evento como causa principal da guerra, defendendo que a História só dirá a verdade quando não se limite aos grandes homens, tidos como carneiros que o pastor engorda para o abate, pois a verdade sobre a condição humana está nos que têm a humildade de reconhecer a sua irrelevância e insignificância, sem vaidades nem ressentimentos. 


Na esteira de Schopenhauer, o ser humano sofre em demasia porque espera demasiado, é infeliz porque é eternamente insatisfeito, incessantemente ambicioso porque sobrevaloriza as suas capacidades de um modo fantasioso e, acima de tudo, tem o propósito insensato de querer observar e estabelecer uma ordem a partir da convicção desesperada de que deve existir uma ordem, mesmo que o caos em que vivemos o contrarie, como a guerra, densa e intensamente, o exemplifica.               

 

13.05.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (II)

  


VI

Que os livros se encontrem
Todos abertos
Pois mesmo que as sirenes alertem
Neles
Braços e beijos

Mais é
Que expõem o transforme das palavras

Entendimentos

Mãos
A voltarem da escola


VII

E quanta vitalidade
Teremos depois da nossa morte
Nós
Mártires

Não submissos


VIII

Quero tanto as trepadeiras do tempo
Enquanto sob alpendres
Todos juntos

A mesa


IX

Estou ao alcance das armas
Nelas me olho e não me procuro
Pouco falta

Para o desconhecido

Em que eu perco


X

Conheço um pomo
Que segura um piar de vida

Enquanto a guerra
Faz mira
Ao que não posso

Nos olhos
Uma medula de paz
Pica o lixo ao lado das galinhas
E ordena-se segundo

A Criação

 

Teresa Bracinha Vieira

ANTOLOGIA


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
A POESIA DA MORTE

1 - Os meus avós paternos tiveram nove filhos, nascidos entre 1880 e 1900. Nada de excecional, nesses tempos e no meio social que era o deles. Mais excecional é que desses nove, oito tenham chegado a adultos, já que "isso de crianças morre muito" como dizia uma velha criada minha, também vinda desses tempos. Só um morreu no berço, aos seis meses, e sempre me fez confusão que me falassem desse bebé dos retratos, com o pomposo nome de Tio Mário. É indiscutível que era meu tio, mas nunca consegui ultrapassar a desproporção entre o grau de tio e os degraus onde ele nem sequer chegou a brincar. Coisas de crianças, para usar um plural abusivo, pois que dele não foram certamente. 
Numa família tão dada ao culto dos mortos, falava-se pouco dele. Os quatro irmãos nascidos depois nunca o viram. Dos quatro mais velhos, dois nunca os conheci e os dois, que tios de verdade me foram, tinham, respetivamente cinco e três anos quando ele morreu de uma dessas mortes de que morriam os infantes de então, de uma dessas mil coisas que existiam para as meninas e os meninos morrer delas, para citar uma personagem de Oliveira ("O Passado e o Presente") que por acaso fui eu. Falei de retrato, mas, em boa verdade, nem me lembro de ter visto algum. Se calhar, nunca foi fotografado, já que em 1888 não havia fotógrafos por maternidades (nem mesmo se nascia em maternidades) nem as máquinas para as tirar eram de uso doméstico. Pelo contrário, muitos retratos vi, e com muitos convivi, do tio que depois dele morreu. Tinha 19 anos e morreu tuberculoso. Embora também fosse morte comum nesse ano de 1906, choraram-no como raríssimos terão sido chorados. O meu pai costumava contar do vexame que sofreu, quando uma senhora estrangeira (tinha que ser estrangeira) se insurgiu contra a imagem dele e do irmão mais novo (respetivamente, com dez e seis anos), cobertos de luto da cabeça aos pés, negríssimamente vestidos em tardes de Verão e de mar. Durante meses, eram severamente repreendidos quando riam. "Já te esqueceste?" E ele acreditava, culpabilizadíssimo, que era pecado esquecer. Muitos dos irmãos guardaram essa culpa e esse luto pela vida fora. "Somos uma família que sofreu muito", ainda me lembro de ter ouvido frequentemente, eu que nasci quase 20 anos depois da morte dele. A morte do tio de 19 anos continuava a ser a razão maior de tamanha dor, incessantemente alimentada e renovadamente ateada. "O teu tio Raul [era o tio Raul] fazia hoje 38 anos, se fosse vivo." "Faz hoje anos que morreu o teu tio Raul." Ainda hoje, quase no centenário da morte dele, sei de cor o dia em que ele nasceu e sei de cor o dia em que ele morreu. Outro tio também não o conheci nunca. Era o mais velho, chamava-se José Pedro, como o pai, como o avô e como o bisavô, e morreu aos 60 anos, quando eu tinha quase seis. Mas não se atribua à minha tenra idade a falta de memória. A verdade é que, três anos antes de eu ter nascido, cortara relações com todos os irmãos (ou todos os irmãos cortaram relações com ele) como não podia deixar de ser por questões de partilhas ou, como hoje eu penso, por mal resolvidas questões de primogenitura. No estado em que as coisas estavam, não foi muito chorado nem em casa dos meus pais, nem em casa dos meus tios. Não me recordo de retratos nas salas. Ele e o recém-nascido eram os incessantes ausentes, contra a omnipresença do irmão Raul, que até deu nome a uma casa, casa das minhas perpétuas saudades.

 

2 - Bem ao contrário do meu pai, a morte nunca rondou nem a minha infância nem a minha adolescência. Morreram, é certo, dessas mortes a que chamamos naturais (como se morte alguma o fosse) tios-avôs e tias-avós, primos e primas velhas ou amigos da família. Mas eram mortes distantes, que nunca me fizeram chorar uma lágrima. Quanto muito, ou quando mais surpreendentes, davam origem a muitas noites e dias de conversa, com minudentes pormenores do antes e do depois. Os meus avós paternos morreram antes de eu nascer. O meu avô materno, tinha eu dois anos. E a minha avó materna morreu no fim do ano que começou com a primeira morte que me doeu a valer. 
Foi, em 1957, tinha eu quase 22 anos, a morte da irmã mais velha do meu pai, a única que sempre foi solteira, a que herdou a casa sombria e imensa que fora dos meus avós - a Casa do Jardim do Tabaco - como herdou a casa da Arrábida, essa batizada com o nome de Raul. Nela vivia com uma tia, com uma irmã e com uma sobrinha, casa de mulheres, mas onde a ausência-presença masculina era figurada em imensas efígies. Quase tanto como a casa dos meus pais, ou como a casa da Arrábida, casa minha, pois que semanalmente a visitava, até à morte dela, semanalmente lá passava as tardes e semanalmente lá jantava, em jantares preparados para os meus gostos e pelo gosto que ela gostava de mim. 
Contaram-me que, quando eu nasci, foi ela a primeira pessoa a pegar-me ao colo. Desde que a conheci, assumira a herança familiar, o lugar de zeladora de todas as memórias e a memória dela era familiarmente lendária. Dado que de coisas íntimas nunca se falava, ignoro porque não casou. Mas cedo lhe coube um papel sacrificial, que assumiu sem disfarces nem exibições. Aos vinte e poucos anos, foi ela quem acompanhou a doença e a agonia do irmão tuberculoso, como, mais tarde, acompanhou a de tios e tias que não tinham descendência direta. Mas se a morte a rodeou por todos os lados e se de mortes se rodeou, não lhe faltava um sentido de humor peculiar. Não me lembro de a ver rir - mais do que todos e todas, carregando lutos ancestrais - mas lembro-me que me fazia rir, com imagens cortantes para pessoas e situações. Para além da família, não tinha vida social. Mas praticamente conhecia "toda a gente" e dessa "toda a gente" sabia as histórias todas, reais ou imaginárias. Por exemplo: eu falava-lhe dos meus colegas de liceu. Para todos os que tinham apelido, logo ela me dizia que devia ser neto de X, sobrinho de Y ou primo de Z. Eu, depois, ia perguntar ao dito cujo. Invariavelmente, este confirmava-me quanto ela me dissera. Como o sabia, foi sempre mistério para mim. Como mistério era que folheando esses enormes volumes, de capa azul e fechos dourados, que Rocha Martins consagrou a D. Carlos e a D. Manuel II, ela identificasse quase todos os retratos (e tantos eles eram) relacionando-os com vivos ou conhecidos, por coisas só por ela sabidas. Ainda hoje, quase todas as "petites histoires" de quem foi quem no fim da monarquia ou no princípio da república, com ela as aprendi, a ela as devo. Se bem me lembro, nunca viajou mais longe do que os Açores, no início da guerra de 14. Mas, ou com Júlio Verne ou com Ferreira de Castro, sabia tudo o que havia a saber sobre o vasto mundo. 
Posso contar uma história vergonhosa? Pelo vosso silêncio - mais atónito do que nunca perante o que me deu para hoje - concluo que não têm objeções, até porque a história só é vergonhosa para mim e, mesmo assim, nos tempos em que me vou correndo, muito menos do que já foi. Um dia, nessa casa do Jardim do Tabaco, onde estavam sempre a acontecer surpresas - e onde até havia uma porta, que dava para a rua, hermeticamente fechada, para impedir eventual acesso aos carbonários da primeira república - descobri, numa antiga escrivaninha, uma mola de segredos que fazia deslocar o armarinho central. Retirado este, descobri duas gavetas que ninguém suporia que lá estivessem (eu não suporia, pois que o expediente é useiro e vezeiro em escrivaninhas dessas). As gavetas estavam vazias, o que muito me dececionou. Lembrou-se ela então de me incitar (eu devia ter 11 ou 12 anos, e também já tinha lido muito do Júlio Verne que nessa casa abundava) a esconder lá uma mensagem. Que mensagem? Surgiu então a ideia de uma "carta aos vindouros". Que desejei eu aos meus descendentes? Que já tivessem chegado a outros planetas e que já vivessem livres do espectro do comunismo. Não nos passava pela cabeça que os vindouros não tivessem que vindourar tanto como imaginávamos. Se acaso o segredo ainda existe e a carta ainda lá está, os meus netos a leriam como a antiguidade que é. Não foi no tempo da minha tia, mas foi no meu. O dom da profecia nunca foi o meu forte.

 

3 - A redação vai longa e não merece nota alta. Sei-o bem, mas deixem lá que vezes são vezes e o revés é só meu. Estava a pensar numa coisa e saiu-me outra. Nem sempre o mote obriga, embora aconteça que desabrigue. Só eu me sinto abrigado, com o gosto das castanhas piladas a voltar-me à boca que já não as pode comer. Volto às mortes que aqui me trouxeram. Essa minha tia, que vira casas feitas e casas desfeitas, e aguentou a pé firme muitos velórios, do tempo em que ainda não se mandavam defuntos para as igrejas e se morria em casa e não nos hospitais (e, em casa, ela morreu) conhecia, como raros, as ilusões que os efeitos dela provocam nos vivos. Nada como os pesares para aligeirar consciências. A paz dos mortos pesa-nos e, para sacudir esse peso, esses são os momentos ideais (pêsames vem de peso) para juras eternas de eterna remissão. Com a graça dos mortos, propomo-nos, Senhor, nunca mais pecar, como no fim dos atos de contrição. Amaremos os vivos como os mortos os não amámos. Inimigos reconciliam-se, ódios velhos repousam e nem espuma fica à superfície. Trocam-se promessas impossíveis de cumprir. Nada como um caixão para o renascimento da paixão. Os "dear ones" tornam-nos a todos queridíssimos, pelo menos até à missa de 7º dia. Era tudo isso que ela resumia na expressão que dei por título a este artigo. Sempre que lhe contavam efusões dessas, ela que tantas vezes as havia conhecidas e tantas vezes verificara a sua fátua verdade, comentava com uma expressão bem dela: "A poesia da morte." E preparava-se para as duras prosas futuras, à hora da leitura dos testamentos.

 

4 - Porque será que me lembrei tanto dela e que tanto me lembrei dessa expressão nestes últimos dias? A porca da vida. A poesia da morte. E a terrível solidão - tão maior quanto mais acompanhada - daqueles que, num ápice, passam de uma a outra. E com a porcaria ainda agarrada à pele - ou à alma - recebem os arrobos poéticos dos que, na véspera e no dia seguinte, voltarão a ser como eram e quem eram. Porque - como se costuma dizer, finda a hora da poesia - a vida continua.

 

João Bénard da Costa
18 de junho de 2004 in Público

BIBLIOTECANDO EM TOMAR

  

 

Uma biblioteca é a melhor metáfora do mundo. É um labirinto cujos caminhos se fazem de perguntas e respostas. E há um misterioso fio de Ariadne que nos leva em cada estante, em cada livro, em cada palavra à descoberta dos enigmas que nos permitem vislumbrar os contornos dos sentidos que a humanidade reveste. O meu saudoso amigo António Pinto da França telefonou-me um dia a fazer um desafio para um projeto aliciante, que estava em curso e tinha como epicentro Tomar, com o título quase mágico de “Bibliotecando”. Em duas palavras, falou-me com entusiasmo de professores, alunos e comunidade, que colocavam na relação com os livros a raiz de um diálogo entre as escolas e a vida. Embarquei logo, com gosto, nessa nave que continua a fazer o seu caminho, graças a uma equipa denodada e à reflexão sobre os temas mais atuais e pertinentes. Entretanto, o António partiu, mas nunca esqueci as suas palavras de alegria e a sua lição de vida, tão presentes na sua ação e na sua obra histórica, em que os acontecimentos e a sua compreensão funcionam como um modo de ir ao encontro das culturas enquanto expressão plural da dignidade humana.  Com Agripina Carriço Vieira, António Godinho ou Célio Gonçalo Marques e uma equipa incansável, os anos foram-se sucedendo com os temas e a preocupação de pôr a diversidade, a complexidade e a incerteza no centro das “leituras em diálogo”. No próximo fim-de-semana, terá lugar a 12ª edição do “Bibliotecando em Tomar” e o tema, escolhido, antes que se pudessem adivinhar os desenvolvimentos de uma guerra absurda como a da Ucrânia foi “Presença e Exílio”. E Alberto Manguel lembrou, invocando Dante, como o exílio de Florença constituiu matéria-prima inesgotável para a criação e para a circulação das ideias. A distância aguça o talento, a lembrança dá densidade aos acontecimentos e a memória revela o sentido das existências.


Muitos argumentos podem ser utilizados para demonstrar a importância da leitura e da relação amorosa com os livros, mas nenhum é tão forte como a compreensão da vida pela sua representação e pela narrativa da existência humana. Somos nós que nos encontramos no relato do combate entre Aquiles e Heitor, na rebelião de Antígona, na armadilha de Ulisses ou na viagem de regresso a Ítaca, além da linhagem de Abraão, Isaac e Jacob, da lição de José do Egipto, da libertação de Moisés ou da dúvida de S. Tomé. Aí está a raiz da literatura, projetada no ciclo bretão do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, na “Divina Comédia”, na “Peregrinação”, em “D. Quixote”, mas também em Camões, Shakespeare, Stendhal, Tolstoi, Dostoievski ou Virgínia Woolf ou Thomas Mann… Jorge Luís Borges falou-nos, assim, das “literaturas que honram as línguas dos homens, as filosofias que procurei penetrar, os entardeceres, os ócios, as solitárias orlas da minha cidade, a minha cidade, a minha estranha vida cuja possível justificação está nestas páginas, os sonhos esquecidos e recuperados, o tempo”… O “Bibliotecando em Tomar”, à sombra da história intensa da cidade, faz-nos reviver a justificação das estranhas vidas, dos sonhos, das interrogações e do indefinível tempo. A pandemia, que nos tolheu, revelou a companhia insubstituível dos livros. A guerra, os refugiados, a violência bárbara apelam à importância da leitura, do entrecruzar das culturas e das suas diferenças, que levam a vermo-nos no olhar dos outros. Este ano o “Bibliotecando” homenageia Lídia Jorge e a sua obra, pela riqueza do testemunho e pelo exemplo da relação entre a literatura e o mundo, entre as pessoas concretas e a sua dignidade. Só compreendendo-nos poderemos partilhar a ética da convicção e a ética da responsabilidade. Uma sociedade melhor depende da misteriosa capacidade para dialogarmos com os mortos e com os vivos, em nome do respeito dos vivos, para entender o futuro como fecunda espera.        

GOM 

A VIDA DOS LIVROS

  

De 9 a 15 de maio de 2022.


“Fomos em Busca do Japão” (Verbo, 2015) de Camilo Martins de Oliveira, com fotografias de José de Guimarães é um livro fascinante que não permite que esqueçamos o seu autor e a sua viagem.


NO RASTO DE HERÓIS
Quando soube que o meu amigo Camilo Martins de Oliveira (1942-2022) tinha partido, veio-me à lembrança, imagem por imagem, a maravilhosa viagem que em 2010 fizemos ao Japão, sob a sua coordenação, acompanhados de José Tolentino Mendonça e de José de Guimarães.  E fui reler o pequeno livro que escreveu, cheio de boas recordações, Fomos em Busca do Japão. Partimos no rasto de Fernão Mendes Pinto, de Francisco Xavier e de Wenceslau de Moraes e ainda hoje sentimos o peso de um conhecimento ancestral, já que os portugueses foram os primeiros europeus a ter contacto com o Japão, quando em 1543 três naufragaram em Tanegashima e deram a conhecer a primeira arma de fogo. Conheci Camilo Martins de Oliveira, ao longo de quase cinquenta anos, como bom amigo e exemplar diplomata no campo económico. A primeira vez que nos encontrámos foi em Bruxelas e com ele comecei a percorrer os corredores comunitários. O seu currículo já merecia atenção. Como católico inconformista, foi em 1965 um dos subscritores do Documento dos 101 contra a ditadura. Na Morais e em “O Tempo e o Modo” traduziu e publicou Teilhard de Chardin. Depois de ter estado na Guiné como alferes, veio trabalhar em 1969 com Rogério Martins, então Secretário de Estado da Indústria, tendo tido papel relevante no fim do condicionamento industrial e do protecionismo. Depois seguiu-se um percurso notável no exterior: como delegado na OCDE, diretor da Missão Comercial em Bruxelas, perito em Missões das Nações Unidas, representante económico nos Estados Unidos e depois em Tóquio (1987-2001), com funções no Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia, sendo ainda Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão). Era um conversador extraordinário; num serão, começávamos por falar da história de um biombo Namban, continuávamos na reflexão sobre a arte contemporânea, muitas vezes com a presença discreta, mas agradabilíssima, do irmão Gaëtan Martins de Oliveira, e terminávamos discreteando sobre a economia, a política internacional, a integração europeia, e ainda história ou filosofia, tantas vezes em diálogo com António Sousa Franco, grande amigo comum. Além do mais, era um leitor insaciável, imbatível no conhecimento da última novidade literária.


VIAGEM FANTÁSTICA
E volto à lembrança dessa viagem fantástica. Quando chegámos a Quioto sentimos a tradição japonesa, como sinal de um povo antigo, sereno, amável e hospitaleiro. No bairro de Gion, que conhecíamos das narrativas e descrições romanescas, testemunhámos o desenho tradicional de uma antiga cidade nipónica. O movimento é intenso, os edifícios baixos e pequenos, em madeira, bem ordenados, assinalados com balões coloridos de papel iluminado e vemos geishas em trajes de função. As ruas são estreitas e limpas, a ordem e a organização imperam. A cada passo, as pessoas saúdam-nos com vénias, ora para nos convidarem a entrar, ora para nos agradecerem se lhes demos primazia no burburinho dos passeios. Era no Outono, uma das estações privilegiadas do Japão, e havia uma especial alegria e jovialidade no ar, mesmo que a noite já tivesse caído. Não havia humidade e a temperatura rondava os 12 graus. Ao passar pela zona dos teatros, recordamos a importância do Kabuki e a sua evolução. No restaurante Nishisaka, usufruímos a refeição de um delicioso shabu shabu, pequenas fatias de carne de vaca cozidas por nós em água a ferver, que Camilo Martins de Oliveira nos aconselhou, com aplauso geral. As árvores que rodeiam a cidade no Outono têm as folhas vermelhas ou amarelas. Wenceslau de Morais (1854-1929), cujos textos nos acompanham, lembra que «as espécies europeias não oferecem igual maravilha em colorido». Sentimos entusiasmo ao ver as grandes massas desta folhagem belíssima do “moimiji”. O Pavilhão de Prata, o Ginkaku-ji, literalmente apagava-se diante da natureza outonal pujante. Era a memória do xógum Yoshimasa, no século XIV, que estava presente, a partir da recordação de seu avô Yoshimitsu, que num gesto de suprema audácia, cobriu de folha de ouro o Pavilhão Dourado, o surpreendente Kinkaku-ji, celebrado por Mishima… O importante foi o enaltecer da natureza em toda a sua intensidade. O momiji tudo domina, parecendo dizer que a natureza culta, domada pelo ser humano, é dominada pelas folhas escarlate, como se fossem flores. Deambulamos pelas veredas do jardim, contamos as suas pedras, deslumbramo-nos com os musgos tratados, com as águas, com os lagos, com os jardins secos, com o saibro riscado ou a terra cuidadosamente penteada, a representar o mundo.


CAMINHO DOS FILÓSOFOS
Seguimos pelo caminho dos filósofos ou via dos mestres. Um canal ladeado de cerejeiras segue sinuoso pelo sopé das Montanhas Orientais e há muita gente que caminha, gozando a natureza, conversando, lendo ou simplesmente indo ao templo zen de Nanzen-ji. E recordamos Nishida Kitaro (1870-1945), professor da universidade de Quioto, que tornou este lugar obrigatório para a compreensão da cultura japonesa. Os tons vermelhos e amarelos das folhas do Outono inebriam-nos, o sol e o dia ameno contribuem para o nosso deleite. E com que esmero Camilo nos indicava todos os pormenores. Em Nanzen-ji aprendemos a lição «sê mestre da tua mente». A colossal Sanmon à entrada do recinto do templo demonstra estarmos num lugar essencial da cultura zen. O portão descomunal não tem um prego, foi erguido no século XVII apenas com encaixes que põem à prova a habilidade e a inteligência humanas. Tudo para consolar as almas dos que morreram no cerco do Castelo de Osaka. Nos aposentos do Abade do Convento deparamos com o célebre “Tigre a beber água”, obra-prima da pintura japonesa do século XVII de Tamyu Kano, além de uma intervenção de Kobori Enshu, com seixos e pinheiros num impressionante jardim seco. Na relação do tempo e do universo, sentimos o equilíbrio entre a arte e a natureza, nos jardins, nos seixos, nas representações, mas especialmente na cerimónia do chá, no templo de Kodai-ji. Tudo exige o domínio do corpo e o respeito, da tranquilidade, da pureza e da harmonia e a cerimónia do chá é um gesto litúrgico, como ficou demonstrado por Wenceslau de Moraes no clássico “O Culto Chá”. E Camilo Martins de Oliveira levou-nos para além da imaginação até ao âmago do encontro entre culturas e afetos, com as belas fotografias de José de Guimarães. Tratou-se de uma peregrinação que correspondeu a um desafio, para que conhecêssemos melhor o Japão…   E ficou a lembrança viva de que “para o japonês, o que se procura, o que determina a entrega à contemplação, é o que não se vê. Olhar ou escutar – assistir a um concerto no Japão - é perceber como o silêncio é participante – torna-se, assim, mais do que um exercício de sentidos, uma extensão da alma. E é esse olhar ou escuta da alma que traz a obra de arte – cheia do mundo invisível e inaudível para o convívio quotidiano”.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A SANTA ESPERANÇA

  


Uma reflexão aprofundada sobre a esperança, deverá começar por aquela tendência para o futuro que caracteriza todo o ser vivo e mesmo toda a realidade cósmica, uma vez que está em evolução, de tal modo que já é e ainda não é adequadamente — por isso, está a caminho.


O cosmos desde a sua origem é em processo (do latim procedo, avançar, ir para diante). A realidade material tem carácter “prodeunte” (do verbo latino prodeo, avançar), para utilizar uma palavra do filósofo Pedro Laín Entralgo, que estou a seguir.


Trata-se de uma propriedade genérica que se vai fazendo proto-estruturação – passagem das partículas elementares às complexas --, molecularização – dos átomos às moléculas --, vitalização – das moléculas aos primeiros seres vivos --, vegetalização, animalização – aparecimento e desenvolvimento da vida quisitiva da zoosfera – e hominização – transformação da tendência geral para o futuro em futurição humana, tanto no indivíduo como na espécie humana e na história, desde o Homo habilis até ao presente. 


Nestes modos de existir na orientação do futuro, só quando se chega ao nível do ser vivo, que precisa de buscar para viver, é que se dirá que a tendência para o futuro se configura como espera, podendo chegar a ser esperança. Do nascimento à morte, entre a esperança e o temor, o animal vive permanentemente voltado para o futuro e orientando a sua espera na procura do que precisa para viver.


O animal e o Homem
esperam, mas, enquanto a espera animal é instintiva, no quadro dos instintos e  de estímulos, situada e fechada, a do Homem transcende os instintos, os estímulos e as situações, sendo, portanto, aberta, de tal modo que nunca se contenta com a realização de cada um dos projectos parciais em que a sua futurição constitutiva se concretiza.


Laín dá um exemplo. Numa “sala de espera” de uma estação de caminho de ferro, não me limito a aguardar a chegada do comboio que traz o meu amigo, pois, mesmo que não tenha consciência explícita disso, espero o que será a minha existência em todo o seu decurso posterior, para lá do reencontro. A espera humana está realmente aberta a possibilidades que transcendem a realização feliz ou frustrada de cada projecto.


Ora, tanto num caso como no outro, tanto na espera do concreto – aqui, a chegada do amigo – como, mesmo que não pense directamente nisso, na espera do que transcende o concreto e limitado – o que será de mim na minha vida depois da chegada do amigo --, são possíveis duas atitudes enquanto tonalidades afectivas: a confiança e a desconfiança.


Devido a uma multiplicidade de factores, do temperamento às circunstâncias biográficas de sorte ou desgraça, passando pela educação, estes dois estados de ânimo – confiança e desconfiança – “podem converter-se em hábito de segunda natureza: a esperança, quando é a confiança que domina, e a desesperança, quando prevalece a desconfiança”.


O Homem, como o animal, não pode não esperar: vive orientado para o futuro e esperando o que projecta, isto é, a consecução de metas e objectivos concretos e também, quer se dê conta disso quer não, o que permanentemente transcende a obtenção dos seus projectos. A esperança tem, pois, dois modos complementares: a esperança do concreto (o hábito de confiar que os projectos parciais se irão realizando bem) e a esperança do fundamental (o hábito de confiar – a confiança não é certeza – em que a realização da existência pessoal será boa).


Esta esperança do fundamental é a “esperança genuína”, que assume dois modos, que não se excluem: a esperança terrena e histórica e a esperança meta-terrena e trans-histórica. Esta é própria dos crentes numa religião que afirma confiadamente a vida para lá da morte em Deus.


Aí encontrará o Homem finalmente, como viu Santo Agostinho, aquela plenitude por que aspira na tensão constitutiva entre a sua radical finitude e a ânsia de Infinito: “o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti, ó Deus”. “Santa esperança”, dizia Péguy.


O ser humano é constitutivamente esperante. Porque é que os seres humanos, apesar de todos os fracassos, horrores, sofrimentos e cinismos, ainda não desistiram de lutar e de esperar? Porque é que continuamos a ter filhos? Porque é que, depois de terramotos devoradores e de guerras destruidoras, recomeçamos sempre de novo? Perguntava, com razão, o célebre teólogo Johann Baptist Metz: “Porque é que recomeçamos sempre de novo, apesar de todas as lembranças que temos do fracasso e das seduções enganadoras das nossas esperanças? Porque é que sonhamos sempre de novo com uma felicidade futura da liberdade?”, embora saibamos que os mortos não participarão nela? Porque é que não renunciamos à luta pelo Homem novo? Porque é que o Homem se levanta sempre de novo, “numa rebelião impotente”, contra o sofrimento que não pode ser sanado? “Porque é que o Homem institui sempre de novo novas medidas de justiça universal, apesar de saber que a morte as desautoriza outra vez” e que já na geração seguinte de novo a maioria não participará nelas? Donde é que vem ao Homem “o seu poder de resistência contra a apatia e o desespero? Porque é que o Homem se recusa a pactuar com o absurdo, presente na experiência de todo o sofrimento não reparado? Donde é que vem a força da revolta, da rebelião?”


Neste movimento incontível, ilimitado, do combate da esperança, pode ver-se um aceno do Infinito, um sinal de Deus. Como não se cansava de repetir o ateu Ernst Bloch: “Onde há esperança, há religião.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 07 de maio de 2022

AUDITÓRIO FERNADO LOPES GRAÇA DE TOMAR

  


Temos aqui referido com destaque a politica de descentralização cultural e de património, na conjugação destas duas componentes que convergem mas não implicam obviamente uma comum dimensão temporal, pois o património histórico em si mesmo comporta um significado cultural, mas a cultura tantas vezes se assume e desenvolve à margem de patrimónios específicos.

E isto mais se acentua na ponderação da cultura de espetáculo e dos espaços, modernos ou clássicos que a sua concretização necessariamente envolve.

Nesse sentido, demos aqui notícia do Cine-Teatro Paraíso de Tomar, “herdeiro” de um Teatro Nabantino do século XIX, sucessivamente remodelado em 1920 e em 1948, projeto de Francisco Korrodi, municipalizado em 1997 e reaberto em 2002.

Hoje referiremos o Auditório Fernando Lopes Graça, também situado em Tomar.

E começamos por frisar que o Auditório Fernando Lopes Graça representa, na arquitetura, na evocação e na função, essa convergência modernizante da simbologia e da atividade cultural.

Desde logo pelo património histórico-urbano em que se implanta e na conciliação da sua modernidade arquitetónica com a tradição monumental da cidade. Mas também pela evocação de um nome e de uma obra referencial da cultura portuguesa moderna,  o compositor Fernando Lopes Graça (1906-1994), natural de Tomar e figura destacadíssima no meio musical.

Trata-se de um edifício de notável qualidade na modernidade do projeto mas também da abrangência das atividades culturais e pedagógicas desenvolvidas. Na origem encontramos um grupo coral criado em 1980 na Sociedade Banda Nabantina que se constitui em 1982 como Associação Cultural autónoma com a designação programática de Canto Firme de Tomar.  Foi reconhecida como Associação Cultural de Utilidade Publica em 1992. Mas vinha de muito antes a sua ação e projeção regional e nacional no plano das artes do espetáculo e da respetiva docência e formação.

Recordemos então os antecedentes culturais da cidade.

Como vimos em crónica anterior, mas é oportuno novamente referir, existe desde os anos 60 do seculo XIX uma tradição de edifícios teatrais em Tomar. Por essa época foi efetivamente inaugurado o Teatro Nabantino com 30 camarotes de 1ª e 2ª ordem, 12 frisas e 126 lugares de plateia. Trata-se então de uma assinalável iniciativa local, que se foi prolongado ao longo do século passado e que agora se reforça no notável edifício do Auditório Fernando Lopes Graça.

E efetivamente, este Auditório Fernando Lopes Graça – Canto Firme , assim conhecido,  constitui um conjunto de valências de cultura e de espetáculo, desde logo a partir da sala principal com lotação de 250 lugares e com palco devidamente dimensionado e equipado.

Mas não só: o edifício comportou ainda uma Escola de Música e áreas de atividades diversas de complementação de cultura e convívio especialmente vocacionadas para formação didática e de juventude.

E com destaque para a produção de espetáculos teatrais.

 

DUARTE IVO CRUZ