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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Rebecca Horn e as extensões do corpo.

 

‘Pelas extensas imediações do corpo
um calor circunvagueia.’
Luiza Neto Jorge

 

Na obra de Rebecca Horn (1944), no final da década de 1960 e no início dos anos 70, encontram-se estudos experimentais ligados sobretudo ao corpo. Horn utiliza próteses sobredimensionadas, como modo de extensão das extremidades do corpo - como por exemplo se pode ver em Bleistiftmaske (1972), Handschuhfinger (1972), Kopf-Extension (1972).

 

O corpo é visto, por Horn, como um objecto de comunicação, frágil e confinado. As extensões fazem e desfazem o corpo. Por um lado, Horn deseja uma qualquer transformação, uma metamorfose para um melhor entendimento do vasto mundo que a rodeia, e de um mais próximo encontro com o outro. As extensões e encaixes, possivelmente, tentam corrigir a incerteza subjectiva, as incapacidades físicas e a incompletude humana. Podem ter também a capacidade de ser máscaras, e assim possibilitar uma outra experiencia de ser e de estar. Têm igualmente a qualidade de testar e de sentir o espaço circunstancial numa outra totalidade dimensional.

 

‘Imoderadas máscaras, imoderados risos
ó invasão, fascínio, ciclo’
Luiza Neto Jorge

 

Por outro lado, as próteses (sempre apresentadas sob a forma de performances, regidas por instruções muito precisas, em ambientes específicos e em situações únicas) servem para testar os limites e as capacidades do corpo - que é muito mais completo do que se pensa ou se deseja. Porque, porventura, as próteses podem tornar-se numa outra prisão, numa ainda mais acentuada limitação do corpo para a qual é preciso uma adequada adaptação, um conhecimento próprio e uma destreza específica. O acrescentamento das extremidades e a restrição da percepção sensorial pode criar assim silêncios, vácuos, equívocos, distâncias e isolamentos. As extensões criam a desprotecção e o descontrolo das acções do corpo. Aceleram o encontro com o remoto, com o inacabado, com o imperfeito, com o artificial, com o inventado e com o remediado.

 

Sendo assim, as performances com próteses de Rebecca Horn têm uma amplitude dual porque trazem a possibilidade do corpo se sentir completo e uno (numa pluralidade) mas também incompleto e fragmentado.

 

Um corpo rodou
no calcanhar:

suave ronda
ao procurar
a mais eterna
acção de estar.’
Luiza Neto Jorge

 

Ana Ruepp

SE AS MULHERES NA IGREJA FIZESSEM GREVE?

 

1. Hoje, dia 8 de Março, é o Dia Internacional da Mulher. Mas dias da mulher são todos. Da mulher e do homem. Porque só com homens e mulheres, iguais e diferentes, há humanidade e futuro. Diferentes, mas com dignidade e direitos iguais. Só porque ainda se não reconhece ou, pelo menos, não suficientemente, essa igualdade de dignidade e direitos, é que é necessário haver o Dia da Mulher.

 

Também na Igreja, não existe, desgraçadamente, esse reconhecimento. O próprio Papa Francisco, recentemente, depois de declarar que o preocupa  que continue a persistir “uma certa mentalidade machista, inclusive nas sociedades mais avançadas, nas quais há actos de violência contra a mulher, convertendo-a  em objecto de maus tratos, de tráfico e de lucro” (pergunto: saberá ele que em Portugal neste ano de 2019 já houve 12 mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica?), disse: “Preocupa-me igualmente que, na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o cristão está chamado deslize algumas vezes, no caso da mulher, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço.”

 

A gente pasma ao constatar que esta situação de subalternização e exploração continue, pois Jesus manifestou claramente a igualdade. Contra o que se via e praticava no seu tempo, teve, com escândalo de muitos, discípulos e discípulas — pense-se nos amigos íntimos Lázaro, Marta e Maria; pense-se na samaritana, a quem, apesar de estrangeira, herética, pecadora, se revelou como o Messias; pense-se em Maria Madalena, por quem teve uma predilecção especial e  que, após a crucifixão, foi a primeira a fazer a experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado está vivo em Deus e voltou a reunir os discípulos para que fossem anunciar a Boa Nova do Evangelho, de tal modo que até Santo Agostinho a chamará “Apóstola dos Apóstolos”...

 

Foi através de Jesus que veio ao mundo a ideia e a realidade da dignidade da pessoa e de que todos têm a dignidade de pessoa, com direitos divinos, respeitados pelo próprio Deus, que é Pai e Mãe de todos. Nesta consciência, São Paulo escreverá aos Gálatas: “Em Cristo, já não há homem nem mulher, judeu ou grego, escravo ou livre”. E na Carta aos Romanos menciona Júnia, “ilustre entre os Apóstolos”.

 

2. Também na Igreja, as mulheres estão em processo de emancipação e querem e lutam por libertação, contra a opressão. Teve imensa repercussão há uns meses aquela reportagem do suplemento feminino “Mulheres, Igreja, Mundo” do Osservatore Romano, diário oficioso do Vaticano, de que aqui me fiz eco, na qual várias freiras se queixavam e denunciavam situações de exploração laboral e subalternização por parte de cardeais, bispos e padres: “as irmãs não têm horário”, “o pagamento é baixo ou nenhum” e “raramente são convidadas a sentar-se à mesa de quem servem”. Simples criadas.

 

E houve agora um grito de alarme da União Internacional das Superioras Gerais, que representa mais de meio milhão de religiosas, exprimindo a sua “profunda tristeza e indignação pelas formas de abuso que prevalecem na Igreja”. O próprio Papa, no voo de regresso da sua viagem histórica aos Emirados Árabes Unidos, admitiu abusos sexuais e de poder contra as religiosas dentro da Igreja,  reconhecendo que vêm de longe: “É verdade. Dentro da Igreja houve sacerdotes e bispos que fizeram isso. E julgo que ainda se faz. Há já algum tempo que estamos a trabalhar nisto. Suspendemos alguns clérigos... É preciso fazer mais? Temos vontade? Sim, Mas é um caminho que vem de longe.” Lucetta Scaraffia, a jornalista que dirige o já citado suplemento do Osservatore Romano, denunciou que realmente existem “muitos casos” de abusos laborais e sexuais que freiras sofreram por parte dos superiores: “É um problema muito grave, não só porque se trata de religiosas, mas porque à violência muitas vezes segue-se o aborto.”

 

Neste contexto, a teóloga Marinella Perroni, sublinhando o esforço que muitas religiosas fazem para que “a Igreja se transforme em expressão de liberdade feminina e não de marginalização e subordinação”, confessa: “A condição das mulheres dentro da Igreja reflecte a condição das mulheres na sociedade civil.”

 

A Igreja é constituída por homens e mulheres. Por isso, as mulheres não podem continuar marginalizadas, como se viu ainda recentemente de modo escandaloso no Sínodo sobre os jovens. Por um lado, o documento final pede uma maior “presença feminina nos órgãos eclesiais em todos os níveis”. Mas, por outro, facto é que nenhuma das 30 mulheres que participaram nos trabalhos sinodais teve direito a votar. Houve uma petição online para que o pudessem fazer, e em poucos dias recebeu  mais de  7000 assinaturas. Mas, respondendo às críticas, o bispo holandês Everardus Johannes de Jong declarou: “Penso que a presença das mulheres é clara, escutamo-las. Mas Jesus escolheu homens como apóstolos.”

 

Fica a pergunta: e se as mulheres fizessem greve na Igreja?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 8 MAR 2019

O MAIS JOVEM PÁRA-QUEDISTA DO MUNDO

 

 

 

Agora que Marcelo Rebelo de Sousa voltou a aproximar Angola e Portugal, pondo-nos nos braços uns dos outros, num daqueles kandandos apertados (que é como os caluandas chamam a um abraço amigo), veio-me à lembrança do luandense, que eu também sou, um episódio de sonho e inocência

 

 

Quando flutuam no céu não sei se parecem anjos se, longe e pequeninos, são mais alforrecas.

 

Em “O Dia Mais Longo”, invade-se a Normandia. Milhares de barcos tapam o mar, a multidão de soldados de infantaria chapinha na última onda da praia fugindo à metralha alemã. Entretanto, os pára-quedistas saltam atrás das linhas inimigas.

 

Recordo a aldeia de St. Mère Église. Os páras tinham os boches à espera. Vinham no ar e eram ceifados sem piedade. Um ficou preso no campanário da igrejinha. Fingiu-se morto e ficou pendurado, horas, os sinos a ensurdecer-lhe os ouvidos, vendo o morticínio dos camaradas. Episódio real, o pára sobreviveu no filme e na vida.

 

No filme mais fácil de assobiar de que os meus lábios se lembram, “A Ponte do Rio Kway”, saltam em território inimigo para sabotar a ponte que o prisioneiro Alec Guinness construiu para os japoneses. William Holden, o pára-quedista americano, salta com a alegre elasticidade moral yankee que o fez logo mais herói a meus olhos do que a sorumbática honradez do britânico Guinness.

 

Saí da matinée e, aos 7 anos, vi os primeiros páras saltar, num festival a que Luanda assistiu mal a guerra começou.

 

No ar, os velhos Nordatlas, chamados barrigas de jinguba, roncavam, preguiçosos. Abriram-se como torneiras e o azul celeste povoou-se de pontos negros caindo vertiginosos para a morte. De repente, nascia-lhes na cabeça uma salvadora e ampla cabeleira. Flutuavam, então, presos a esses alucinados lençóis de Deus.

 

Três amigos, 7 anos como eu, extasiaram. A imaginação exigiu-lhes igual cabeleira. Cortaram plásticos, novelos de fio grosso. Procuraram local propício: uma obra em construção. Subiram a um andar. No chão, dois montes da amarela areia do Bengo garantiam queda macia.

 

O resto é pura epopeia. Um amarrou ao pescoço o científico e improvisado pára-quedas. Os outros, em rígida continência, tributavam-lhe a coragem. Saltou.  O plástico reagiu com eficácia newtoniana e abriu-se. Numa imparável cadeia de efeitos, a corda esticou e, ai meu Deus, o pescoço do mais jovem boina verde do mundo viu-se apertado. Faltou-lhe o ar e os olhos (mania que os olhos têm) esbugalharam-se, aflitos, para o mundo. Tentava gritar roucos sons intraduzíveis.

 

Os amigos foram amigos. Correram escadas, saltaram andaimes, trovejando “tem calma! tem calma!”, “já aterras! já aterras!

 

Corriam desenfreados e pairava o herói em histérica majestade. Aterraram juntos: os dois maratonistas de andaimes esfolando-se no cimento, o atónito pára-quedista na areia dourada. Cinema puro: terminava com um fio de sangue, suor tropical e sem lágrimas a aventura militar de um trio empreendedor e aberto à experimentação científica.

 

Muito estremeceu depois o céu de Angola, mas já não com a valente inocência de uns principezinhos sem asas.

 

Manuel S. Fonseca

A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de março de 2019

 

 

«Diário – 2000-2015» de João Bigotte Chorão (Imprensa Nacional, 2017) é um repositório de lembranças, de análises, de encontros, de ensaios sobre a literatura viva, num intimismo pedagógico, que nos leva a acompanhar o escritor agora desaparecido…

 

 

PERSONALIDADE FASCINANTE
Com a partida de João Bigotte Chorão, deixa-nos uma personalidade fascinante na vida cultural e literária portuguesa. Quem teve a felicidade de o conhecer, como eu próprio, sabe bem as suas extraordinárias qualidades. Com uma grande generosidade e uma capacidade única para compreender o essencial de uma obra literária ou de um pensamento, o ensaísta era de uma perspicácia crítica única e de uma verve muito rica, na linha de seus mestres Camilo, Araújo Correia ou Tomaz de Figueiredo. Conheci-o ao longo de várias décadas, sempre com a mesma coerência, sempre com o mesmo denodo no perscrutar do fundo dos estilos ou das personalidades, dos autores e dos protagonistas ou até dos meros figurantes. Quantas vezes, no seu feitio muito próprio e com o seu falar vincadamente beirão, nos puxava de lado, para nos segredar um pormenor picaresco ou revelar um breve segredo literário. Além do mais era um cultor perfeito da língua. No Círculo Eça de Queiroz falámos longamente, envolvendo outros amigos, como Fernando Guedes ou Fernando Garcia – e pudemos preparar e concretizar iniciativas de animação do Chiado, de que tanto gostava, com o Centro Nacional de Cultura. E para aqueles que se dividiam artificialmente entre as tribos de camilianistas e queirosianos – deixava-os sempre desarmados, uma vez que os dois autores do Olimpo da nossa literatura, para um fino conhecedor, não podiam excluir-se mutuamente na rica expressão dos seus livros. De facto Camilo e Eça são diferentes, inesgotáveis, mas indispensáveis de conhecer. A modéstia de Bigotte Chorão não lhe permitia, porém, cometer a imprudência de se reconhecer como imbatível, mas posso asseverar que era verdadeiramente imbatível no conhecimento rigoroso da nossa melhor literatura, sobretudo dos séculos XIX e primeira metade de XX. O certo é que as subtilezas, os detalhes eram-lhe familiares e nos casos de Camilo e Eça, ou de Francisco Costa ou Tomaz de Figueiredo sabia, como ninguém, distinguir a riqueza e a versatilidade. De facto, cada autor tem uma personalidade própria, uma escola inimitável, indefinível nos cânones tradicionais – e João Bigotte Chorão detetava-o como os melhores provadores de vinho fino, caracterizando castas, densidade, sabor, aroma, mas sobretudo a intensidade e a subtileza do verbo. Foi uma das peças importantes nos tempos heroicos da Verbo – e nunca esquecerei essa memória.   

 

VIDA VIVIDA DESDE AS RAÍZES
João Bigotte Chorão nasceu na Guarda em outubro de 1933 e deixou-nos em Lisboa, aos 85 anos de idade. Notabilizou-se como professor, crítico, diarista e ensaísta, sendo um dos grandes especialistas na obra de Camilo Castelo Branco. Foi diretor literário da Editorial Verbo, ao lado de Fernando Guedes (que também recordo com saudade), onde teve a seu cargo o departamento de Enciclopédias e Dicionários, no qual coordenou a publicação da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 volumes, 1998-2003) e a Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi, como se disse, além de Camilo, um profundo conhecedor das obras de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo ou João de Araújo Correia. Escreveu O Essencial Sobre Camilo e O Essencial Sobre Tomaz de Figueiredo, obras que publicou na Imprensa Nacional, respetivamente em 1996 e 2000. Ainda no âmbito do ensaio, introduziu várias obras da Imprensa Nacional, devendo mencionar-se os prefácios de Contos e Novelas, de João de Araújo Correia, de Nó Cego (nas «Obras Completas de Tomaz de Figueiredo») e de Contos e Novelas, de Domingos Monteiro. Bigotte Chorão começou por publicar os seus escritos em obras coletivas, ou em jornais e revistas, entre as quais a Tempo Presente, a Colóquio/Letras e a Távola Redonda. Do que publicou em livro destaque-se Vintila Horia ou Um Camponês do Danúbio, de 1978, O Escritor na Cidade, de 1986, João Araújo Correia, Um Clássico Contemporâneo, de 1986, Camilo, Esboço de Um Retratado, 1989, Páginas Camilianas e Outros Temas Oitocentistas, de 1990, e O Espírito da Letra, de 2005. Humanista cristão, cultivou o gosto pelas culturas italiana e francesa, dando particular atenção ao memorialismo, à epistolografia e ao diarismo — géneros dos quais foi mestre. Discípulo Noturno, de 1965, e Aventura Interior, de 1969 provam-no. «Escrevo e escreverei nem que seja para preservar a memória dos meus dias e vencer o vazio pela disciplina mental da escrita», disse. Já em 2001 publicou Diário Quase Completo, na Imprensa Nacional — obra com a qual viria a receber o Grande Prémio da Literatura Biográfica da APE. A Imprensa Nacional publicaria aquela que seria a sua derradeira obra: Diário 2000-2015, em fevereiro de 2018. Em Diário 2000-2015, na escrita intimista com que sempre nos habituou, João Bigotte Chorão leva-nos, no intervalo destas datas, em cerca de trezentas páginas, à descoberta do seu universo cultural e a tudo aquilo que o entusiasmava e comovia, deixando para a posteridade um precioso espólio de memórias que por sua própria vontade resistem e vão continuar a resistir ao esquecimento. João Bigotte Chorão era membro da Academia das Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, tendo sido Presidente do Círculo Eça de Queiroz. Era membro do conselho editorial da Imprensa Nacional e também do júri do Prémio IN/Vasco Graça Moura. Leitor criterioso, partilhou com os seus fiéis leitores muitas das suas apreciações e análises. Parafraseando um dos títulos que bastamente conhecia, podemos dizer que o seu exemplo é o de um “Amor de Salvação”. Elas constituirão um elemento fundamental na compreensão da literatura como realidade viva. O nosso agradecimento!

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

  Chove, é cinzenta e sombria a manhã, mas ocorre-me que Brahms, em alemão, quer dizer giesta, esse arbusto de flores brilhantemente amarelas que nos alegra os campos, e deixo que a música do concerto em ré menor de Johannes Brahms, para piano e orquestra, continue a tratar de mim. Lentamente, muito de mansinho, refletidamente, pensandossentindo. Como se fosse tocada no meu universo interior. No final, apesar deste ser um Rondo, Allegro non troppo, nada me impele ao aplauso, a qualquer manifestação. Toda a música tem os seus espaço-tempo de silêncio. Por vezes, no final de uma audição, o silêncio manda ainda mais, ficou-nos cá dentro, em nós edificou uma casa onde habita aquela música. Como se construísse um amor mais íntimo. Lembro-me desse verso do David Mourão-Ferreira que a grande Amália canta com música de Alain Oulman: Vou recolher à casa onde nasci, por teus dedos de sombra edificada... E recordo ainda os versos com que Goethe abre o seu Divã Oriental, e José Bruyr a sua biografia de Brahms na Solfèges (Seuil, Paris, 1965): Wenn der Dichter will verstehen, muss in Dichters Land gehen. Quando se quer compreender o poeta, tem de se ir à terra dele.

 

   Passou uma hora sobre esse recolhimento. Volto à carta, porque, entre as diferentes interpretações desse concerto que aqui tenho, encontro uma que talvez deixe o Glenn Gould mais acompanhado por outro oficiante do mesmo rito: trata-se da de Claudio Arrau, chileno, nascido em 1903, em Chillán, falecido em 1991, em Mürzzuschlag, na Áustria. A sua reputada virtuosidade em nada diminui a profundidade intelectual e espiritual que procura encontrar naquilo que toca. Nesse sentido, e para melhor compreendermos o que ficou dito nas minhas cartas anteriores sobre o entendimento do concerto de Brahms, traduzo-te um texto de John Clark, acerca das Conversations with Arrau, de Joseph Horowitz, sobre as inúmeras controvérsias que o pianista, ao longo da sua carreira internacional, teve com múltiplos maestros, precisamente por causa deste "nosso" 1º concerto:

 

   No caso do primeiro concerto, Arrau torna-se inesperadamente dogmático, insistindo em que há apenas uma maneira de interpretar os dois primeiros andamentos. O primeiro andamento é Maestoso, não Allegro. Executá-lo pela batida 6/4 em seis tempos é a única maneira de criar «a qualidade trágica, a grandeza, a profundidade» que o pianista vê na partitura. O segundo andamento, Adagio, também em 6/4, deve ser muito lento, tanto mais quanto Arrau o concebe como reflexo da tragédia dos Schumann: a morte de Robert, a aflição de Clara. As tónicas religiosas conotam também o segundo andamento e Brahms até teria escrito no manuscrito as seguintes palavras: Benedictus qui venit in nomine domini. Imaginemos o tanto que Arrau se comoveu com estas palavras da missa. Ao escutá-lo, não nos podemos impedir de sentir a extraordinária profundidade da sua resposta à dor. A execução do concerto em ré menor de Brahms representa uma das obras primas do vasto repertório pianístico de Claudio Arrau.

 

   O registo que agora começo a escutar é de outubro de 1969, com a Royal Concertgebow Orchestra, de e em Amsterdam,sob a direcção de Bernard Haitink. O som é menos americano, diria eu: tem o feitiço de uma tranquilidade submarina. Lindíssimo e, como Arrau queria, profundamente comovente. Fecho os olhos e deixo que a música venha morar no meu íntimo silêncio.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

REFERÊNCIAS A TEATROS LUÍS DE CAMÕES

 

Evocamos hoje e atualizamos em simultâneo dois textos oportunamente aqui divulgados, em situações que, para cada um deles, enquadrava a atualidade: atualidade essa que obviamente não se perdeu.

 

Trata-se então do estudo de dois modernos Teatros Luís de Camões, um eles denominado hoje Teatro LU.CA, ambos em Lisboa. Importa ter aliás presente que no início do século XX existiam em Portugal pelo menos um Teatro Camões em Bragança, inaugurado em 1892, e dois Teatros Luís de Camões, um em Belém, inaugurado em 1880, o outro na Ilha do Pico, inaugurado em 1888.

 

Ora, há cerca de 10 anos, aqui referimos o Teatro Luís de Camões surgido da renovação urbana decorrente da Expo 98, no Parque das Nações em Lisboa, e que nesse contexto foi aliás também evocado com o nome de Júlio Verne.

 

Trata-se, este Teatro, de um projeto de Manuel Salgado e Marino Fei, notável nos dois blocos que em si mesmos, pela perspetiva cenográfica, marcam desde logo a vocação da arquitetura de espetáculo.

 

E precisamente: como de espetáculo se trata, nada mais adequado do que a citação de José Augusto França, a propósito deste Teatro, quando evoca “o segundo espetáculo que o grande átrio, com as suas escadas simétricas, oferece do exterior, pela transparência da parede que o fecha ou abre, de tal modo que os utentes do espetáculo da sala são usados também por quem passe e olhe as suas deambulações” (“Lisboa, História Física e Moral”, ed. Livros Horizonte 2008).

 

Por nosso lado, referimos já aqui o Teatro Luís de Camões da Calçada da Ajuda. Este foi inaugurado em 1880 com a peça “Camões e o Jau” de Casimiro de Abreu. A iniciativa ficou a dever-se a um comerciante local, de nome João Açúcar. Sobre este Teatro evocamos a sua relevância sobretudo na época, mas não só.

 

Pois como tivemos ensejo de referir, o Teatro passa em 1899 a servir de sede ao Belém Clube. Lá se estreou e se despediu, muitos anos passados, a atriz Adelina Abranches. Por lá passaram grandes nomes da cena, como João Villaret, Mirita Casimiro, Sales Ribeiro, Procópio Ferreira, Bibi Ferreira.

 

E até Tomás Alcaide lá iniciou uma fulgurante carreira que duraria até à sua morte. Evocaremos Tomás Alcaide em outro texto.

 

E da fase mais recente do Teatro Luis de Camões e do atual Teatro LU.CA falaremos também noutro artigo.

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLV - Do Neocolonialismo e Imperialismo Linguístico
Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses
Apreciação e Crítica (II)     

 

Recapitulando, no essencial e na opinião de Alfredo Margarido, extinto o império, Portugal transferiu para a língua, que tem como sua, um sentimento imperial, reforçado pela lusofonia, tratando-se então de defender que a língua portuguesa tem de ser preservada a todo o custo, porque é essa a sua essência. 

 

Salvo o devido respeito, trata-se de uma visão maniqueísta em que os portugueses são sempre os maus da fita. 

 

Não se vê o porquê em falar-se em “língua do colonizador”, “língua imperial” ou “força imperial”, uma vez já não existir o pretenso colonizador, tendo-se perdido a guerra e o império, com a subsequente descolonização e expulsão; mas também por a língua pertencer a quem a fala, pelo que a língua portuguesa pertence, em primeiro lugar, a todos os seus falantes em igualdade de partilha e uso, à semelhança do que defende o ensaísta, e com quem, a este propósito, concordamos.

 

Nem se antevê que Portugal tenha atualmente potencial suficiente para se impor como “força imperial”, mesmo através da língua, apesar de ser a língua portuguesa (ou será tão só por “portuguesa” se tratar?). Se são tantos aqueles, incluindo africanos, que aceitam que Portugal não arquitetou nenhum plano nem delineou qualquer estratégia do tipo neocolonial para continuar nas ex-colónias, facilmente se conclui que a lusofonia, nesta perspetiva, não é estratégia de neocolonialismo.

 

Alfredo Margarido esquece o óbvio: que a lusofonia será, de momento, aquilo que o Brasil entender que deve ser. O resto será encenação e retórica.

 

Por que não falar do Brasil, no pressuposto de que o presente e o futuro da lusofonia e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) será, no essencial, aquilo que quiser e vier a ser esse país, com caraterísticas continentais e de potência emergente? Será que pelo facto de já ter sido colónia se lhe não pode aplicar tal raciocínio?

 

Nem a outras ex-colónias que venham a ter potencialidades para se afirmarem e concorrerem com a ex-metrópole, como Angola?

 

Tanto mais que existe uma ex-colónia inglesa que se impôs à ex-potência colonizadora, os Estados Unidos, com a agravante de que a debilidade portuguesa, por confronto com a hegemonia francesa e inglesa, pode abrir relacionamentos pós-coloniais mais democráticos.     

 

E agora, quem coloniza quem? Os antigos impérios coloniais europeus, tidos por muitos, no presente, como neocolonialistas, ou algumas das ex-colónias, umas já emergentes e outras em ascensão?

 

Em especial no que toca aos países africanos, foram eles que viram no português um instrumento de emancipação, progresso, de identidade e unidade, adequação aos tempos atuais e novas tecnologias, e não uma forma de exclusão. A sua adoção foi um ato de soberania desses países e de Timor-Leste.

 

Sugestivo é o exemplo angolano, onde após a independência o português era uma segunda língua para a maioria populacional, materna para parte significativa da população urbana, dando-se prioridade às línguas nacionais como reivindicação de afirmação identitária, falhando o objetivo de introdução dos idiomas nativos no ensino.

 

Reconhecendo a realidade, um estudo do escritor Pepetela defendeu, em 1985, a tese da nacionalização da língua portuguesa, reclamando uma evolução autónoma em relação ao português de Portugal. Tal tese, inicialmente polémica, uma vez a fala do colonizador não poder ter a mesma dignidade e estatuto dos idiomas nacionais, foi torneada via eufemismo da “língua veicular”. De idioma nacional e materno para parte dos angolanos, a idioma de comunicação entre todos os habitantes é, na atualidade, língua oficial do Estado e de ensino, por opção dos angolanos.

 

Amílcar Cabral, referindo-se aos colonialistas portugueses, reconheceu que a língua portuguesa foi uma das coisas boas que os tugas deixaram em África.

 

Nem o tráfico negreiro foi de exclusiva responsabilidade portuguesa, sendo conhecido e praticado pelos próprios africanos aquando da chegada dos europeus, por muito politicamente incorreto que seja lembrá-lo.

 

E se tudo aponta para tentativas neocolonialistas, também é verdade que há quem contra-argumente, por mera defensiva, que os países lusófonos e da CPLP mais pobres só se interessam por tais realidades na medida em que as instrumentalizem em seu benefício.   

 

É urgente superar complexos e desconfianças de que tudo o que vem do ex-colonizador é mau.

 

Também à custa de se querer não ser paternalista (ou neocolonialista), acabam por não se desenvolver projetos interessantes, caindo-se na retórica do vazio.

 

Além de que a crítica da suposta superioridade do português europeu, esquece que o futuro da futura globalização do nosso idioma será protagonizada de fora da Europa, no essencial a partir do Brasil e de África.

 

Num certo sentido, o fim do colonialismo transformou os antigos colonizadores em territórios “colonizados” pelas antigas possessões, sendo estas uma certa continuidade daqueles e algumas delas as novas potências do futuro.

 

Perspetivar a lusofonia apenas em termos redutores de neocolonialismo do ex-colonizador, ou de ideologias radicais, revela ausência de pragmatismo, desprezando um factor de imagem de união internacional, em favor de interesses de terceiros, também baseados num mesmo conceito linguístico-estratégico (como a anglofonia, francofonia, espanofonia, germanofonia).             

 

 

05.03.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Qual é o défice de que falamos?

 

Segundo critérios contabilísticos normais, o défice ficará acima de x ou abaixo de y, dependendo dos compromissos que a Nação assumiu, ouve-se desde há muito na radio, na televisão, em tudo quanto é órgão por onde se faça comunicação. Também nos explicam uns, que pode existir inscrição de receitas falsas, camuflando o défice e este surgindo w ou z. Acontece que nos explicam ainda que não tenhamos ilusões, mas o défice não é um facto financeiro, é sim, uma decisão política assente no comportamento expectável de exigir a todos o não defraudar do fisco e por aí adiante. Mas, o motorista do táxi olhou para mim pelo espelho do retrovisor e perguntou-me bruscamente:

 

- Bolas, mas o raio do défice nunca se segura? ou tem de ser admitido porque tem de se pagar a saúde, ou, não pode ser admitido porque o motivo dele é todos roubarmos em tudo?

 

É assim?

 

- Hum!

 

- Hum! Então e a senhora não acha que o défice de que eles falam só tem lugar porque o verdadeiro défice é o da nossa falta de confiança neles, e olhe que com toda a razão. Neles e nos que se passeiam com eles, e nos que eles deixam a passear-se, não é?

 

- Pois…percebo.

 

- Claro que percebe. Se até eu percebo que o meu défice de sono assenta nas 12h de trabalho que faço, e ainda assim não durmo com a preocupação do dinheiro e as despesas a crescerem, e eu a saber o que agrava o meu défice de confiança em que eles me protejam quando eu já preciso de ajuda…e olhe, não entendem o meu défice, mas querem obrigar-me a entender o deles, e o deles, dizem que é o meu, ou que é por minha causa ou porque a culpa é da vigarice se encontrar a cada esquina e agrava o défice. Então não acha que o défice é um vício não tratado? é um vício de mata bicho e mata homem, sem prisão? E não há vacina?

 

- Bom, sabe, a democracia é muito frágil e abusa-se do que ela oferece de melhor e

 

- E…, desculpe, e…, nada, porque a democracia está a ser um vicio de país pobre, que já nem mata a sede com o voto, porque o défice é também a falta de trabalho e ninguém faz o necessário para o criar, pois, ou não sabem, ou não se querem meter em prejuízos se as medidas descambam. Não é? E a malta desmoraliza e já vota pouco. É outro défice, não é?

 

Olhe e temos conversa…, com este trânsito! completamente parado, pois já viu que neste país é um por cada carro? Aqui não há défice, não é? Então qual é o défice de que falamos? É nuns locais e noutros não? Então porque não copiam onde não há défice? nos tais locais do não? Que acha? Era boa ideia, não?

 

- Boa ideia era podermos acreditar nos direitos, nas instituições…e

 

- E…, desculpe, e…, nada. Como posso acreditar nas instituições se são elas que me tramam? Ando há 8 meses a tentar perceber quem me resolve um problema da reforma da minha mulher e até já me disseram a sorrir, olhe vá no dia 13 a Fátima e lá dizem-lhe. Vê, vê, isto é um défice de respeito ou um excesso de desvergonha? Que podemos fazer para termos paz face às garantias que a democracia nos prometeu?

 

- Prometeu e se o senhor lutar por ela, ela cumpre!

 

- Ah!, não sabia, então, desculpe lá, mas acha que eu não votei estes anos todos? Ninguém me pode acusar desse défice, e olhe que sempre fui pondo o pão na mesa, e olhe que tenho honra em Portugal e na minha aldeia. Mas pronto os portugueses habituam-se à miséria desde que respirem, e tem de haver algum défice estranho que os mantém assim. Não acha? Não acha? E os bancos? Olhe, minha senhora, quem não tem dinheiro para arranjar esse onde vai sentada, sou eu, e se os clientes continuarem a queixar-se, lá vou viver das dívidas, aumentar o défice, e os especuladores e os corruptos em crescimento na boa, até já nem haver crédito. Desculpe lá, ando a pregar e não mudo nada com isto, mas se não falo com os clientes, chego a casa bem pior que uma panela de pressão.

 

Ora faz favor, aqui está o troco. E tenha um bom dia e tenha esperança! e ainda fique com esta: o Estado precisa que existam pobres para justificar alguma proteção bondosa e daí o défice. Se calhar é desse défice que se quer que todos falemos e pelo qual não nos podemos queixar. Devemos ser bondosos. A senhora não é jornalista, pois não? Pois não?

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Bob Law e as pinturas pretas.

 

‘I have, or I think I have, my perfect work in my mind’s eye. To bring that work into reality or existence is another matter - there is always some small flaw. Some improvement to be made. And it is this seeking after quality that most interests me.’, Bob Law, 1977

 

Nos anos sessenta, Bob Law trabalhava entre vários pólos paradoxais - o cheio e o vazio; a imagem e o objeto; a plenitude e a incompletude.

 

As pinturas pretas, de Bob Law, desejam encontrar uma nova forma de perfeição na intenção e na execução da tela mas também tornar inteligível uma perfeição naquilo que o fruidor observa. São soma e subtração - várias camadas de cores (por exemplo vermelho, azul, roxo) são sobrepostas cuidadosamente e pacientemente debaixo do preto. São a marca, a existência e a sombra do ser humano no mundo. São unidades completas porque em simultâneo conseguem ser presença e negação, ausência e reflexão, expansão e contração. São irreproduzíveis e insubstituíveis, só existem como objeto físico que tem de ser visto como uma coisa real e palpável. Law acredita que uma pintura é capaz de mudar aquele que a vê, mas as pessoas não mudam as pinturas. Uma pintura é um objeto permanente. Segundo Law as pessoas que olham as pinturas são subjetivas e influenciáveis e as pinturas são elementos físicos permanentes e objetivos.

 

Em simultâneo, às pinturas pretas, Law fazia desenhos de margem preenchidos ou esvaziados. Os desenhos de campo metafísicos, feitos no final dos anos cinquenta, que gravavam a experiência de um corpo num lugar concreto (privilegiando a relação física com o mundo), constituem a origem das pinturas pretas.

 

Todas as pinturas têm o mesmo tamanho (168 x 176 cm), que corresponde ao tamanho de um corpo de braços esticados e abertos - e pretendem ser grandes o suficiente para serem periféricas quando vistas.

 

‘I remember Le Corbusier’s teachings really impressed me. When he designed his architecture, he said a room should be the height of a man with his arm raised above his head; and then he worked out a blue and red scale into the human form, a modular system dividing up proportions. I also came across it in Leonardo, and in Islamic art, where they work out the configuration of mandalas and domes on the human scale, beautifully.’, Bob Law, 1974

 

Cada pintura é feita com o objetivo de criar uma imagem única. Não há uma pintura igual à outra - as diferenças acontecem por causa da quantidade de cores sucessivamente aplicadas em camadas. A tinta pode ser colocada na totalidade da superfície, só numa área central ou só nas margens da tela. Cada pintura é irrepetível e é feita, no mínimo de nove ou dez camadas de tinta (o título de cada uma revela as cores usadas).

 

‘They’re black or blackish, because that’s the pigment which works. It makes a big pool, it sucks the light in rather than out, and you can’t quite focus on the pigmentation because the eye is trying to find the right wavelength, the pupil oscillates in its attempt to get the right colour vibration. It can’t quite make it, and so you get this hovering hole. I have done pink paintings, green paintings, almost every colour; but I found the most successful to be in the longer wavelengths - blues and violets.’, Bob Law, 1974

 

A tinta deve ser distribuída uniformemente e secar sem falhas num longo processo de espera - apenas uma pintura em oito tem sucesso. Cada camada, assim que colocada, leva dois dias a secar. Este processo técnico de grande perícia, envolve longos períodos de contemplação - Bob Law concentrava toda a sua atenção a ver a pintura. Assim que terminada, a tela, é posta de parte de maneira a permitir um novo recomeço - a nova tela transporta, por isso, somente, através da memória do sujeito, a experiência do trabalho anterior.

 

‘The work becomes a very serious trial and examination process in which the artist is solely responsible to himself for the quality and conviction of the work.’, Bob Law, July 1977

 

Ana Ruepp

REVOLUÇÃO COPERNICANA NA IGREJA

 

1. Foi uma verdadeira revolução copernicana. Com Copérnico, ficámos a saber que não é o Sol que gira à volta da Terra, é a Terra que gira à volta do Sol. Com a Cimeira no Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado, para se tomar consciência da monstruosidade da pedofilia na Igreja e pôr-lhe termo, convocada, num gesto inédito, corajoso e histórico, que se impunha, do Papa Francisco, ficámos a saber que, de agora em diante, o centro não continuará a ser ocupado pela Igreja enquanto instituição, mas pelas vítimas, que serão defendidas com toda a seriedade.

 

No encerramento, perante os 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, superiores e superioras gerais de ordens e congregações religiosas, peritos e alguns leigos,  Francisco, num discurso histórico, muito bem elaborado e com dados arrepiantes sobre o abuso físico e psicológico de menores e adultos vulneráveis não só dentro da Igreja mas transversalmente na  sociedade global, incluindo as famílias e outras instituições (nesta abrangência, as vítimas são muitos milhões), comprometeu-se a que a Igreja “não se cansará de fazer tudo o que é necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido abusos de tipo sexual” e que nunca “tentará encobrir ou subestimar nenhum caso”.

 

Perante o horror da pedofilia, afirmou que ela lhe fazia lembrar “a prática religiosa cruel, difundida no passado em algumas culturas, de oferecer seres humanos (muitas vezes crianças) como sacrifício às divindades nos ritos pagãos”. Perante a “monstruosidade da pedofilia” na Igreja, assegurou: “Quero reafirmar com clareza: se na Igreja se descobrir nem que seja um único caso (que representa em si mesmo uma monstruosidade), esse caso será enfrentado com a máxima seriedade”. Prova inequívoca disso foi, ainda antes da Cimeira, a redução ao estado laical do ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrick, e, depois, no passado dia 26, a sanção imposta ao cardeal australiano George Pell, a terceira figura do topo da Igreja, ex-superministro das finanças do Vaticano, condenado por abuso sexual de menores: enquanto decorre o recurso nos tribunais, está suspenso e impedido de  contactar, seja de que modo for, com menores.

 

2. No discurso de encerramento, Francisco deixou oito directivas para o futuro, de que deixo aí uma síntese:

 

2.1. A protecção dos menores. “O objectivo principal de qualquer medida é proteger os menores e impedir que sejam vítimas de qualquer abuso psicológico e físico”. Assim, é preciso mudar a mentalidade, para “combater a atitude defensivo-reactiva de salvaguardar a instituição, dando prioridade às vítimas dos abusos em todos os sentidos”. Ouvir o Mestre Jesus: “Ai de quem escandalizar um destes pequenos. Mais lhe valeria que lhe atassem a mó de um moinho ao pescoço e o lançassem ao fundo do mar.”

 

2.2. Seriedade impecável. “Desejo reiterar agora que a Igreja não se cansará de fazer tudo o que for necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido estes crimes. A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar nenhum caso.”

 

2.3. Uma verdadeira purificação. Os pastores (bispos, padres...) devem empenhar-se renovadamente no seu compromisso de santidade, “cuja configuração com Cristo Bom Pastor é um direito do Povo de Deus”. A Igreja perguntar-se-á “como proteger os menores, como evitar essas desgraças, como tratar e reintegrar as vítimas, como fortalecer a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja mas também da sociedade.”

 

2.4. A formação do clero. “A exigência da selecção e da formação dos candidatos ao sacerdócio, com critérios não só negativos, preocupados principalmente com excluir as pessoas problemáticas, mas também positivos, para oferecer um caminho de formação equilibrado aos candidatos idóneos, orientado para a santidade e no qual se contemple a virtude da castidade.”

 

Note-se que, em propostas anteriores, Francisco já tinha exigido “avaliação psicológica dos candidatos através de peritos credenciados”.

 

2.5. Reforçar e verificar as directrizes das Conferências Episcopais. Isto, para que se perceba que há “a exigência da unidade dos bispos na aplicação de parâmetros que tenham valor de normas e não só de orientação”. Explicitando: as normas são para aplicar universalmente em toda a Igreja, sem os subterfúgios da sua aplicação segundo as culturas.

 

2.6. Acompanhar as pessoas abusadas. “O mal que viveram deixa nelas feridas indeléveis que se manifestam em rancor e tendência para a autodestruição. Portanto, a Igreja tem o dever de oferecer-lhes todo o apoio necessário, valendo-se de peritos nesta matéria. Escutar, deixai-me dizer ‘perder tempo’ a escutar.”

 

2.7. O mundo digital. “A protecção dos menores deve ter em conta as novas formas de abuso sexual”, através das novas tecnologias. “É preciso animar os países e as autoridades a aplicar todas as medidas necessárias para limitar os sítios da internet que ameaçam a dignidade da pessoa humana, do homem, da mulher e, de modo particular, dos menores: o delito não goza do direito à liberdade”. E lembra novas normas “sobre os delitos mais graves” aprovadas pelo Papa Bento XVI em 2010, onde foram acrescentados como novos casos de delitos “a aquisição, a retenção ou divulgação” realizada por um clérigo, “em qualquer forma e com qualquer tipo de meio, de imagens pornográficas de menores”.

 

2.8. O turismo sexual. “A conduta, o olhar, a atitude dos discípulos e dos servidores de Jesus há-de saber reconhecer a imagem de Deus em cada criatura humana, a começar pelos mais inocentes”. “As autoridades governamentais devem dar prioridade e agir com urgência para combater o tráfico e a exploração económica dos menores.”

 

3. Houve analistas e vítimas que protestaram, clamando que, afinal, segundo a expressão corrente, a montanha pariu um rato.

 

Embora os compreenda, não têm razão. Esquecem que se trata de directivas. As normas, a dar-lhes conteúdo, com opções e acções concretas e eficazes, virão em breve. De facto, tem de haver um “antes” e um “depois” desta Cimeira. Caso contrário, isto é, se, como se comprometeu o Papa Francisco, “não voltar a ser absolutamente credível e digna de confiança”, a Igreja caminhará, concretamente no Ocidente, para a sua autodestruição.

 

P.S.: Foi a sepultar, no passado dia 23, Frei Bernardo Domingues. Pude ver, no funeral, várias centenas de pessoas e muitas lágrimas sentidas. Afinal, também há padres que se dedicam generosamente aos outros, apoiando muitas vidas e iluminando caminhos.

 

Por mim, gostava de deixar um testemunho pessoal. Se não estou enganado, foi em 1972. Eu era um jovem professor no ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), Porto, de que ele era o Director. Também regia uma cadeira de “Humanismo ateu e humanismo cristão”. E houve um Bispo que me foi acusar de herético... Frei Bernardo disse-lhe: “Senhor Bispo, primeiro mande-nos por escrito as heresias dele. Depois, vamos analisar se são heresias ou não. Só então podemos tirar as consequências”. O Bispo não escreveu.

 

Fica  aqui a minha sentida homenagem a um homem bom e intelectualmente honesto e livre.

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 3 MAR 2019