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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

15. PROCRASTINAR, PROCRASTINANDO, …

 

Há palavras que impõem que se lhes faça sentido. 

 

Que reclamam sentinela.

 

Que merecem pagar imposto.

 

São empoladas, elitistas, pedantes, petulantes.

 

Apresentam-se bem.

 

Usá-las é um luxo pessoal e cultural.

 

São altivas e soberbas no vestir.

 

Presunçosas e pretensiosas por condição.

 

No essencial, apenas se escrevem, sinal de solenidade escrita.

 

Marginalmente faladas, não se cantam, não se dançam, nem consta que inspirem poesia.

 

Chamativas e ousadas, não convivem com a plebe.

 

Têm-se por chiques, chiquérrimas, usando smoking, no mínimo fato e gravata, vestidos de gama superior e de alta costura.

 

Nos tribunais, onde a solenidade também faz a lei, é palavra de acórdãos, sentenças, requerimentos e recursos, vestindo beca e toga negra.

 

Só que, vulgarmente falando, procrastinar significa adiar, atrasar, delongar, demorar, transferir para outro dia, deixar para depois.

 

Procrastinação significa adiamento, delonga, dilação, morosidade, protelação.

 

Sendo depreciativo, no mínimo incomodativo, saber que frases comuns como: “Estás atrasado!” ou “Adiou-se o julgamento!” significam: “Estás procrastinado!” e “Procrastinou-se o julgamento!”.

 

Atrasar, adiar, demorar são palavras vulgares.

 

Procrastinar, procrastinando, procrastinação manifestam-se com jactância.

 

E são caprichosas, curvilíneas, maneiristas e extravagantes de escrever.

 

São barrocas por natureza, como o procrastinador que procrastina, procrastinando e com procrastinação, o que é procrastinável. 

 

São invulgares, eruditas e não gostam da rua.

 

Mas também se usam para nos entendermos. 

 

11.09.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

LUÍS MIGUEL NAVA

 

O Círculo de Poesia da Moraes Editores publica em 1979 o livro de poesia PELÍCULAS de Luís Miguel Nava prémio de revelação de poesia da Secretaria de Estado da Cultura.

 

Recordo a referência expressa a este livro em diálogo com António Alçada Baptista. Não nos restava qualquer dúvida sobre a inquestionável qualidade e originalidade da obra de poética de Luís Nava numa incessante ideia do conhecimento de excesso e de limite, e que muito clara nos surgia neste livro.

 

Formado em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, na qual foi assistente, parte para Oxford como leitor de português, mudando-se em 1986 para Bruxelas, tendo sido cruelmente assassinado em 1995 no seu apartamento por um companheiro de circunstância.

 

Estávamos a almoçar em Sintra eu e o António ainda incrédulos acerca da notícia do assassinato do Luís quando nos veio à memória a profunda influência que nele teve Eugénio de Andrade aquando do conhecimento de ambos em 1975. Em rigor, Luís Miguel Nava, nunca mais referiu como escrita ativa tudo o que tinha escrito antes de conhecer Eugénio de Andrade. Terá sentido o Luís - dizia-me o António – que até Eugénio de Andrade o que escrevera fora apenas indício de nada.

 

Julgo que o modo de se acender na escrita surge-lhe depois de Eugénio e surge-lhe do jeito que surge às águas: fala de torrente por caminho de ondas. Digo.

 

Há pouco tempo escrevi sobre uma obra de Bashô, e logo abri a página 10 deste livro de Luís

 

O TANQUE DE BASHÔ

O tanque junto a que o crepúsculo mo traz é o de

bashô.

   A água maravilha-se.

 

Inquinam-se as imagens, a pequena rotação do outono,

o dia decompõe-se, o sangue explode contra a claridade.

 

Um nó de leite a nudez cresce pela água.

 

e

ARS ERÓTICA

Eu amo assim: com as mãos, os intestinos. Onde

ver deita folhas.

 

ou

OLHANDO O MURO

E assim ficava olhando o muro. Não atentava então na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam (…) metade do seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da fabulação.

 

Creio que existe sempre um relâmpago de cores diferentes quando relemos Luís Miguel Nava.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

‘Pregnant Landscape’ de Phoebe Unwin.

 

‘Sentada no jardim vejo o crepúsculo.’, Fiama Hasse Pais Brandão em ‘Cantos do Canto’

 

 A pintura de Phoebe Unwin (aqui) pretende materializar uma ideia que é fecunda, que gera vida e que sobretudo tem a capacidade de ser sentida com o corpo todo.

 

No texto, que acompanhou a exposição ‘Pregnant Landscape’, na Galeria Amanda Wilkinson (Londres) no passado mês de maio, lê-se que Phoebe Unwin não trabalha através de imagens pré-existentes ou através de fotografias – a cultura contemporânea das imagens, que excessivamente circulam diariamente diante dos nossos olhos não tem, propositadamente, nenhuma influência sobre o trabalho que realiza. Unwin faz pinturas – no sentido mais completo de ser uma pintura (um objeto que transporta e expõe uma subjetividade muito pessoal e única).

 

‘Tudo aquilo que está a ser olhado arruma-se no verso com a ordem que coloca os seres em relação recíproca provável mas de evidência falsa.’, Fiama Hasse Pais Brandão em ‘Cantos do Canto’

 

As pinturas criadas em ‘Pregnant Landscape’, são superfície, são matéria e são sugestíveis, mas funcionam sempre como o reverso da abstração (a abstração normalmente é entendida como sendo uma fuga à realidade ou como um purificar do concreto). Ora, nas pinturas de Unwin é o abstrato que desencadeia o figurativo. A pintura é assim tida como uma coisa em si que tem a capacidade de surpreender, de seduzir e de se relacionar individualmente com aquele que frui (e que a partir daí consegue criar um novo conteúdo e um significado único). Unwin sente, por isso, uma grande afinidade com o campo de visão imaginado, com o ponto de vista subjetivo, evitando sempre metáforas, referências diretas ou narrativas. A artista insiste sempre na ativa participação do observador para gerar sentido e significado. Cada pintura é uma transformação de algo abstrato em algo concreto. Cada pintura consegue aglutinar/fundir irrepetivelmente cor, matéria, forma, a marca e o tema.

 

Para Unwin só a pintura consegue a ligação mais completa entre o mundo mais profundo e particular com aquilo que é imediatamente comunicável. É um objeto físico que envolve, em simultâneo, memória, imaginação, escala e corpo.

 

‘Só o meu verde absoluto da paisagem não se move em nenhuma direcção, é o labirinto imóvel alcançado ao meditar na Forma sem o olhar.’, Fiama Hasse Pais Brandão em ‘Cantos do Canto’

 

Ana Ruepp

A MÍSTICA DO QUOTIDIANO 

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Há uma história que Aristóteles narra sobre uma palavra do filósofo Heráclito a uns forasteiros que queriam chegar até ele. Aproximando-se, viram como se aquecia junto a um fogão. Detiveram-se surpreendidos, enquanto ele lhes dava ânimo: "Também aqui estão presentes os deuses."

 

Os visitantes ficaram frustrados e desconcertados na curiosidade que os levou a irem ao encontro do pensador. Julgavam ter de encontrá-lo em circunstâncias que, ao contrário do viver dos homens comuns, deveriam mostrar em tudo os traços do excepcional e do raro e, por isso, excitante.

 

Em vez disso - e estou a transcrever o comentário do filósofo Martin Heidegger à história relatada por Aristóteles -, os curiosos encontraram Heráclito junto ao fogão. É um lugar banal e bastante comum. Ver um pensador com frio que se aquece tem muito pouco de interessante. A situação é mesmo frustrante para os curiosos. Que farão ali? Heráclito lê essa curiosidade frustrada nos seus rostos. Ele sabe que a falta de algo de sensacional e inesperado é suficiente para fazer com que os recém-chegados se vão embora. Por isso, infunde-lhes ânimo. Pede-lhes que entrem: "Também aqui estão presentes os deuses." Também ali, naquele lugar corriqueiro, é o espaço para a presentificação de Deus.

 

A mística Santa Teresa de Ávila também dizia que Deus anda na cozinha no meio das panelas. Para sublinhar que quem julga encontrar Deus fora do mundo lida apenas com as suas ilusões.

 

E há muitas formas de ilusão e pseudomística. Escreveu, com razão, o então cardeal Joseph Ratzinger: "A curiosa magia dos estupefacientes apresenta-se como atalho para o Paraíso, aquele atalho que nos pouparia todo o "penoso" caminho da ascética e da moral. A droga é a pseudomística de um mundo que não tem fé, mas que de modo algum pode prescindir da ânsia da alma pelo Paraíso. A droga é, por conseguinte, um sinal indicador de algo mais profundo: não só descobre na nossa sociedade um vazio, que esta não é capaz de preencher com os seus próprios meios, como chama a atenção para uma exigência íntima do ser humano, que, se não encontrar a resposta acertada, se manifesta de forma pervertida."

 

Santo Agostinho viu bem, quando rezou: "Senhor fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti." Jesus, que é quem terá feito a máxima experiência mística, já tinha prevenido: quem quiser salvar a sua vida perde-a; quem a perder por amor de Deus e dos outros ganha-a. É preciso ir até ao mais fundo e mais íntimo, porque é lá que se encontra Deus. Mas é sempre a dialéctica do perder e ganhar. Onde está o nosso eu verdadeiro? Dou um exemplo: onde está o nosso eu, quando escutamos uma daquelas sinfonias que nos exaltam e extasiam? Aparentemente, perdemo-lo, pois, na exaltação da sinfonia, não pensamos em nós, até nos esquecemos de nós, mas, precisamente aí, suspende-se o tempo e a morte e somos verdadeiramente nós.

 

Então? Qual é a mística verdadeira? É aquela que, em Deus, o Bem e a Beleza, leva a tratar dos irmãos e a transformar o mundo. Há, de facto, muita religião falsa, que os filósofos da suspeita justamente apelidaram de ópio. Mas também os estupefacientes são pseudomística. Por um lado, repito, eles exprimem, numa sociedade em que se experimenta o vazio, a necessidade de salvação e de sentido. Mas, por outro, na droga, o que acontece é a alienação. Pretende-se superar os problemas, mas os problemas continuam lá, e mais graves. A droga leva a "viagens" aparentemente felicitantes, mas, como aquilo é produto da química, quando se regressa da viagem, reencontra-se os problemas e está-se com menos força e energia para enfrentá-los. O critério da mística autêntica tem, portanto, que ver com a força e energia para enfrentar a existência e transformá-la e contribuir para uma sociedade mais justa, fraterna e livre.

 

Na união com Deus, Mistério último da realidade, o crente continua no mundo, embora o veja, precisamente por causa dessa união, a uma luz nova. Por isso, mística, sem o compromisso com os outros, concretizado também no amor político, que inclui o amor cósmico-ecológico, é auto-engano. Como escreveu o filósofo Henri Bergson, "a mística completa é acção"; o místico autêntico, "através de Deus, por Deus, ama a humanidade inteira com um amor divino". Aliás, para Bergson, a prova da existência de Deus são os místicos.

 

Por isso, todas as religiões acentuam o vínculo indissolúvel entre mística e ética. São João escreveu de modo forte e pregnante: "Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?" São Tiago não é menos explícito: "De que aproveitará a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano e um de vós lhe disser: "Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos", sem lhes dar o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se a fé não tiver obras, está completamente morta.

 

O Evangelho deixa qualquer leitor perplexo. De facto, referindo-se ao Juízo Final, não à maneira de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, mas no sentido mais profundo da revelação definitiva do que é a realidade verdadeira na sua ultimidade, de quem é Deus para o ser humano e o ser humano para Deus, não pergunta aos homens e às mulheres, em ordem à salvação, se praticaram actos religiosos de culto, mas se deram de comer ao famintos e de beber aos que têm sede, se vestiram os nus, se trataram os doentes e os abandonados, se foram à cadeia visitar os presos (e supõe-se que estavam lá justamente condenados)... E os salvos, que não sabiam, ficam a saber que foi ao próprio Cristo que deram de comer, de beber, que vestiram, que acolheram, que visitaram no hospital ou na cadeia, que trataram em todas as dificuldades, que promoveram, que foi a ele que deram a mão. Apresenta-se, pois, como critério de juízo sobre a história a humanitariedade, isto é, o interesse real, prático, eficaz, pelo ser humano necessitado, na unidade do amor de Deus e do próximo.

 

O místico Ruysbroek disse: "Se estiveres em êxtase e o teu irmão precisar de um remédio, deixa o êxtase e vai levar o remédio ao teu irmão; o Deus que deixas é menos seguro do que o Deus que encontras." Também Buda, depois de ter lavado e tratado de um monge doente e abandonado, disse aos seus monges: "Quem quiser cuidar de mim cuide dos enfermos." São João da Cruz tem aquela expressão famosa: "Ao entardecer desta vida examinar-te-ão no amor."

 

Aí está, em síntese, a missão da Igreja: ser a multinacional do sentido, sentido último, que se encontra no Mistério, em Deus, e o espaço do combate, lúcido e eficaz, pela humanitariedade, num mundo justo e livre. A vida na sua dupla vertente: vida contemplativa e vida activa.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 01 SET 2018

CALCORREANDO VILA FRESCA…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número Extra 2

 

Calcorreando pachorrentamente por Vila Fresca, gozo este fim de Verão, em que os dias se alternam entre o calor e a brisa enevoada. Um velho amigo encontrou-me e, inesperadamente, perguntou-me pelo meu velho “carocha”. Surpreendeu-me a questão. Parece-me que inventaria antiguidades… Disse-lhe que estava de boa saúde, bem guardado e em funcionamento. É das coisas em que tenho mais orgulho, uma vez que é um original raro, com o óculo traseiro ainda dividido e com matrícula das séries antigas, que já poucos identificam, anterior a 1955, portanto identificável pelo número central. É um verdadeiro clássico, com um motor muito simples e fiável, apesar da dor de cabeça que sempre me deu a bateria, por ser muito fraca… Ligo-o sempre que posso e dou uma volta para gáudio de todos. E como quis preservar o original, mantive esse velho defeito de origem, ou seja, a bateria pindérica… No fim da guerra foram os ingleses que deram um impulso decisivo à popularidade desse pequeno automóvel. Hitler inventou-o, mas não lhe deu condições de persistência. E é mesmo de património cultural que falamos. Quantos de nós, da minha geração, pudemos gozar as vantagens desse carro modesto, mas de indiscutível qualidade… Devo, porém, dizer que é raríssimo o modelo que tenho de cor original preta… O meu amigo ficou contente por ter boas notícias desse caso mítico na história do automóvel, e combinámos, um dia destes, ir à minha garagem de Vila Nogueira, visitar e dialogar com o meu “carocha”, que faço questão de manter brunido e impecável, como nos tempos em que me foi vendido pela velha Guérin. Mas também esclareci que ao lado dele está um Morris 8 de 1948, igualmente como veio de origem, com uma vaquinha por símbolo. Esse era um carrinho nervoso, mas bom amigo, que me pregou sustos na serra de Sintra por causa dos travões, mas no qual aprendi sobretudo que o melhor auxiliar de um bom condutor é a caixa de velocidades, que me permitiu sempre sair-me bem (diabo seja surdo…) de várias atrapalhações. Abençoada caixa de três velocidades… Nestas crónicas, já vos falei das inesquecíveis jornadas das corridas de Monsanto, em que vi em carne e osso Stirling Moss, Jack Brabham, Jim Clark e o nosso Nicha Cabral. Já não vi cá Juan Manuel Fangio, que veio dois anos antes de eu ter ido a Montes Claros pela primeira vez. As corridas de automóveis eram fantásticas, sobretudo num tempo em que não podíamos ver as transmissões televisivas e tínhamos de ir aos locais para gozar o prazer do movimento e do ruído ensurdecedor das máquinas. Sim, o património cultural material e imaterial faz-se também de recordações da tecnologia, do desporto, dos heróis e das tragédias. . E ficámos os dois ali esquecidos do tempo, a recordar. Meu amigo lembrou-me ainda um primo meu e homónimo. Quantas recordações? E voltamos a falar do «joaninha» de outro familiar nosso, com que seguia a temporada espanhola dos touros. Onde estará esse Renault – dito joaninha? Na sucata por certo. Quanta coisa fica esquecida pelo caminho? E que importa? Conversa de velhos. E falar dessas coisas e pessoas é melhor do que nos atermos às maleitas e às doenças, que é o verdadeiro tédio. Despedimo-nos – Até ver!

E continuo a andar, pelas ruas de Vila Fresca sem destino certo. A andar para ir lembrando e para pensar com meus botões.

Já se notam os dias mais curtos. O sol desce no horizonte.

Como é bom percorrer as ruas e olhar em volta e gozar o tempo antigo da serra.

E dou-me de súbito a recitar intimamente.

Como gostaria de encontrar agora o meu amigo António.

E cito, cito sem hesitação:

 

ALDEIA DE IRMÃOS (de António Osório):

 

Ao pé dos eucaliptos,

Do lavadouro, as casas.

Capela fechada, oficiantes ratos,

E cães, patos, galos

Na rua e a dormir dentro,

Individuais, subreptício.

E doentes, cavadores, crianças

sonhando com ninhos destruídos.

Longe, na paróquia o cemitério.

Em torno vinhas, olivais,

Irmãos uns dos outros

Como tijolos dentro da parede.

E no Inverno o canto

Da lenha exorbitando na lareira,

A queimar, a queimar a cinza por debaixo.

  

Agostinho de Morais

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 10 a 16 de setembro de 2018

 

O códice número 477 da Biblioteca Nacional de Portugal, intitulado “Crónica de El Rei Dom Sebastião, Décimo Sexto Rei dos de Portugal na qual se contém, por maior, os sucessos do seu Reinado e vida”, da autoria de Miguel Pereira (1584), constitui o mais antigo relato sobre a vida e reinado de D. Sebastião que chegou até nós.

 

 

UM TEXTO IMPORTANTE
Até ao momento contávamos, além de obras esparsas, como a Crónica de Bernardo da Cruz (1586), podendo ainda referir-se o controverso texto de Girolamo Franchi Cosnestaggio (1585) e a brevíssima relação da Batalha de Alcácer-Quibir de Goes Loureiro (1595). Recorde-se que a Crónica de Frei Bernardo da Cruz, frade menor e capelão-mor da armada de D. Sebastião, que não há certeza de presenciado a batalha, foi publicada pela primeira vez por Alexandre Herculano em 1837. O manuscrito que serve de base à publicação da presente obra é de 1795, sendo uma cópia de outra anterior, que se diz ter sido “tirada fielmente do original”, sendo segundo testemunho do copista, a que Barbosa Machado encontrou ou viu na Biblioteca do Duque de Lafões. A Crónica, como é fácil de ver, corresponde a um roteiro que deveria ter sido escrito para ulterior desenvolvimento, dado o teor parco dos textos. O seu interesse assenta, contudo, no facto de haver uma indicação suficientemente precisa do conteúdo essencial. É certo que faltam pormenores, mas deparamos com a base fundamental que nos permite compreender o curso dos acontecimentos. Não nos fazem falta as considerações pessoais que se adivinham. O texto cobre 59 capítulos curtos, onde se referem os elementos mais significativos da vida do Rei Desejado. Os primeiros 14 capítulos referem-se à regência de D. Catarina, viúva de D. João III, com as vicissitudes conhecidas, e à do Cardeal D. Henrique. Fala-se depois do cerco de Mazagão e do seu levantamento, da chegada ao trono do jovem monarca, de diversas medidas de governo adotadas, designadamente no tocante à desvalorização da moeda (abatimento às valia dos patacões), à evolução legislativa e judiciária, à grande peste (1569), às intervenções militares em África (como em Monomotapa), ao cerco de Goa e Chaul, à exploração das Minas de Achém em Angola, à ida do rei a Ceuta e Tânger, à crise económica e às fomes em Entre-Douro-e-Minho e Beira, até ao embarque do Rei para Alcácer-Quibir. Fica claro que Filipe II de Espanha, tio do Rei, tentou por diversos meios demover D. Sebastião da empresa de África, pedindo mesmo ao Duque de Alba, D. Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, que enviasse um parecer circunstanciado sobre os perigos da guerra. Afinal, apesar da vitória dos cristãos na Batalha de Lepanto sobre os turcos, a conjuntura apresentava-se largamente desfavorável relativamente a uma intervenção em Marrocos, como veio a acontecer. O Rei persiste no intento, procurando mobilizar a fina-flor da nobreza – que, em grande maioria, sente no íntimo que se trará de uma aventura perigosa. Prevalece a ideia da pouca ponderação do monarca. A posição do Cardeal D. Henrique não oferece dúvidas, sendo claramente contrária ao projeto.

 

A PARTIDA PARA ÁFRICA
Até que finalmente na manhã do dia de S. João de 1578 ocorre a partida, com perto de mil velas em que entravam Galés e Galeões, Naus, Caravelas e “outras embarcações de toda a sorte, vela e remo”. Se a racionalidade vê com reserva a empresa, o aventureirismo excede-se em número e dimensão, o que também não facilitou a criação de condições favoráveis. Estava-se no verão, as condições atmosféricas eram desfavoráveis, pelo extremo calor, que reduzia drasticamente a eficácia das tropas mobilizadas. Na descrição rápida de que dispomos, depressa percebemos que tudo se encaminha para um desastre. Após 4 ou 5 horas de combate intenso, verifica-se a completa derrota dos exércitos de D. Sebastião e do seu aliado Abu Addallah Mohammed II Saadi (Mulei Mohammed) com quase 9 mil mortos e 16 mil prisioneiros, nos quais se inclui grande parte da nobreza portuguesa. A batalha ficaria conhecida como “dos três Reis”, todos mortos. D. Sebastião, ao finar-se, abriu de imediato uma grave questão dinástica. A morte deu-se em combate, tendo o seu corpo sido reconhecido por um grupo de nobres portugueses. Abu Abdallah Moahmmed II morreria afogado no rio Mocazim (Mekhazen) e, em sinal trágico, o vencedor da contenda Abdal-Malik I Saadi (Mulei Moluco), tio do aliado de D. Sebastião, também se finaria durante a batalha, uma vez que a sua saúde já era muito precária, tendo mesmo sido obrigado ao esforço de aparecer montado no seu cavalo antes da batalha, numa demonstração inútil de autoridade. Esta morte abriria caminho ao reinado de Amade Almançor Saadi (1578-1603). Precocemente desaparecido aos 24 anos, D. Sebastião é descrito como homem de estatura média, “alvo, loiro e, em boa maneira afigurado, dobrado em carnes e de grandes forças”. Sem grande pormenor e originalidade, a figura do rei é enaltecida pela elegância - “airoso a pé e muito a cavalo, principalmente à gineta, tomava lança com tanto ar, e seguro na sela, que obrigava a quem o via folgar de o imitar”. Trabalhador, determinado, “atrevido mais do que convinha a Rei”. Como caçador era, no entanto, imbatível, e ninguém ousava concorrer com ele. Nos amores, nada se lhe conhece. “Foi tão casto e honesto, que nunca lhe sentiram juntar-se com mulher, nem se inclinar à Damas do Paço no modo que nos Príncipes se permite e lhes é dado”…

 

MAUS AUGÚRIOS
Mas, ao autor não escapa o mau agoiro que rodeia a preparação da batalha. Dir-se-ia que tudo apontava para o desastre. E que sinais foram esses? A passagem de um cometa, o fogo ateado nas tercenas da pólvora, os sinais proféticos aparecidos em Trancoso, um ano antes, com a representação de gente de guerra, tal como se referia o livro dos Macabeus. Se tudo isto não fosse já suficientemente perturbador, ainda havia referência ao texto de S. Lucas sobre os desenganos da guerra, texto da liturgia diária da Missa celebrada perante o Rei. Ainda por cima, o Alferes-Mor encarregado de trazer o estandarte, embicou com ele de modo que “foi causa da bandeira se inclinar de má feição”, ainda que não caísse. Tudo eram sinais perturbadores que culminariam no facto da Galé onde estava El-Rei, apesar do mar quieto, ter sido abalroada por outra embarcação, tendo-lhe quebrado o esporão. Maus agouros acumularam-se. É certo que o autor procura evitar essas considerações pagãs, mas a verdade que não passam despercebidas, como maus augúrios, devendo-se haver “por admoestações e avisos certos”.  

 

O SIGNIFICADO DO MITO…
O sebastianismo, analisado criticamente, tem sido considerado uma «prova póstuma da nacionalidade». Contudo, fácil é de entender que o sebastianismo não é de compreensão fácil. Pode ser visto como um «avatar delirante», mas mais do que isso é o símbolo de uma história complexa que alterna momentos gloriosos e decadentes, em que a fatalidade e a vontade se entrecruzam e se alimentam mutuamente. Qual a relação entre o messianismo judaico e a ideia nacional de um império futuro? Eduardo Lourenço liga o mito cultural de Alcácer Quibir a uma «estrutura de ausência», vista como corolário do tempo em que substancialmente perdemos a independência, ainda que juridicamente tal nunca se tenha consumado verdadeiramente. E é assim que Portugal aparece como «ausente de si mesmo e esperando-se nessa ausência». Interrogando-se sobre os mitos portugueses, Eduardo Lourenço demarca-se das leituras negativistas e fatalistas, uma vez que considera, com Oliveira Martins, que a «estrutura de ausência» não pode confundir-se com a incapacidade de espera. E o certo é que o autor de “Portugal Contemporâneo” sempre se dispôs a crer em uma «Vida Nova», capaz de fazer regressar a pátria a um caminho de vontade e prosperidade. Ao contrário do que se exigiria, o sebastianismo, como mito, é uma prova póstuma da nacionalidade, mas também sonho ou vaga esperança messiânica – e neste ponto o ensaísta contemporâneo chega a Fernando Pessoa. E o poeta pensa no mito cultural como impulso libertador. No pensamento de Eduardo Lourenço estamos perante um «mito», mas não uma esperança de índole transcendente ou religiosa. É o «herói simbólico» que se apresenta – na tradição do ciclo bretão, do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda. E o tema do herói merece atenção. Por contraponto a D. Sebastião, há Nun’Álvares, os Filhos de D. João I e o Príncipe Perfeito. Contra o fatalismo, surge a vontade de Herculano temperada pela índole coletiva. Teixeira de Pascoaes ligou o sebastianismo à saudade lusíada (lembrança e desejo, de Duarte Nunes do Leão) e Costa Lobo procurou ancorar nas razões históricas as repercussões do cativeiro – desde as Cortes de Tomar a Dezembro de 1640. Lembramo-nos do Quinto Império de Vieira ou de Pessoa e é de um Império espiritual e cultural que se trata. Entrando de pleno no mundo dos mitos, Eduardo Lourenço chega ao século XX e longe de qualquer tentação ilusória, diz-nos, com clareza, que «o Portugal – D. Sebastião de Pessoa é todo-o-mundo-e-ninguém com ele Pessoa – D. Sebastião é ninguém-e-todo-o-mundo, um e outro, a “eterna criança que há de vir”, aquele que morre como particularidade nacional ou pessoal, para ser tudo em todos, exemplo de um mundo e de uma personalidade sem limites nem fim». Para o Padre António Vieira o que estaria em causa era um império sobrenatural, capaz de superar os «fumos da Índia» e as fragilidades que tinham conduzido a Alcácer Quibir. «Assim o que começou como um sonho de um Império redivivo termina com Pessoa em Império de sonho». E, deste modo, a propósito do «Desejado», Lourenço regressa à sua leitura histórica fundamental – da natureza imperfeita de Portugal como cais de partida e de chegada, do regresso ao infante D. Pedro das Sete Partidas, da compreensão da Europa como lugar de ambição mais amplo do que as suas fronteiras e de um universalismo heterogéneo de uma lusofonia de grandes diferenças e complementaridades, que obriga a entender os mitos e essa ligação extraordinária de reminiscências vicentinas de Todo o Mundo e Ninguém, metáfora de um império que se fez mundo fora na reunião de condições inesperadas e impossíveis, e de que o mais adequado símbolo é o herói picaresco por excelência da nossa literatura, Fernão Mendes Pinto.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Nunca entendi bem como funciona esta minha teimosia em procurar salvar-me de sentidos pensamentos que me afligem, partindo em busca das respetivas raízes, ou do solo em que medram. Como se o antídoto de qualquer mal fosse ir ao seu encontro, ao fundo do seu porquê. Mas tampouco é vício masoquista, quem como tu me conhece bem sabe que je suis plutôt bon vivant ou, como tantas vezes me disse, rindo muito, a nossa tia Bertha Eugenia: Camilo, tu es un jouisseur! Vejo-a agora, quase trinta anos depois, a vir comigo a uns five o´clock tea, no Plaza, em Manhattan, ao som de violinos que ressuscitavam música vienense que lhe encantara a mocidade. Viera visitar-nos, ao nosso posto estadunidense, airosa e contente, elegante e esperta, flor de oitenta e dois anos, viajando, viúva sozinha, desde Bruxelas. Viria a morrer dez anos mais tarde, aos noventa e dois, em Gerardsbergen, onde ainda a visitei muitas vezes, quando fazia escala em Bruxelas em viagens do Japão a Portugal. Apesar do ou por causa do seu fervoroso catolicismo, aquela Senhora tinha, como sua irmã mais velha, minha Mãe, uma alegria contagiosa e um otimismo que inspirava confiança... era de boa companhia.


   Voltando às minhas interrogações, aquela citação final da Hannah Arendt na minha carta anterior (Sempre acreditei que somos o que vivemos) foi-me soprada pela leitura de um livro que te recomendo: Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil), três filósofas judias, duas alemãs e uma francesa de origem alsaciana, meditadas por outra filósofa (francesa), Sylvie Courtine-Denamy, na Bibliothèque de l´Évolution de l´Humanité (Albin Michel, Paris, 1997). Logo no prólogo, a autora, além da citada frase da carta de Arendt a Mary McCarthy, lembra-nos que a designação "os tempos sombrios" (1933-1943) se deve a Bertold Brecht, num poema onde, dirigindo-se «aos que nascerão depois de nós», lhes implorava indulgência para com esta geração que não tinha sabido «preparar o terreno para um mundo de amizade». Têm-me surgido, como fantasmas, tentações de referência, de factos e acontecimentos hodiernos, a situações de tensão, afrontamentos e reviravoltas, daqueles tempos, nesses anos em que a confusão dos espíritos foi levando a melhor sobre o amor do próximo... Desde a Guerra de Espanha, em que até padres católicos se odiaram uns aos outros, até à França de Vichy que, vencida pelo invasor nazi, se defendia dizendo "Hitler plutôt que le Front Populaire!", ou do pacto germano-soviético à conferência de Yalta... Traduzo um trecho de Les Grands Cimetières sous la lune, de Georges Bernanos:

 

   Parece-vos natural que Deus não tenha abençoado a sageza do mundo, a tal que confere honras, fortuna, riquezas. Esqueceis que, no decurso dos séculos, os homens consideraram a conquista desses bens, fosse pela força, pela injustiça ou pela manha, como legítima, sendo a posse assim obtida um favor do Altíssimo. A maioria dos grandes reis de Israel, a começar por Salomão, tinham do poder uma ideia comparável à que presentemente tem o Dr. Rosenberg. Será, aliás, precisamente por isso que os povos totalitários eliminarão fatalmente os seus judeus, já que cada um deles acredita que é eleito, e não há, no mundo, lugar para dois povos eleitos. Um facto, um simples facto, deveria abrir-vos os olhos: o sacrifício do fraco, do inocente, por muito tempo foi tido como o mais agradável a Deus. Por toda a parte, em qualquer idade, por milhares de séculos, a ideia de oração, de graça, de purificação, de perdão, esteve ligada à imagem repugnante de animais degolados por padres fumegando sangue lustral...

 

   [O Dr. Alfredo Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do século XX, foi um dos principais teorizadores do nazismo, ficando ainda famoso por ter organizado, durante a 2ª Grande Guerra, o saque de museus, bibliotecas e coleções privadas nos países ocupados. Mas talvez tenha escrito a sua mais negra folha de serviços enquanto Ministro dos Territórios de Leste, em 1941, ordenando execuções e deportações em massa, com o fito de germanizar a Ucrânia. Aprisionado em 1945, foi julgado em Nuremberga e executado em 1946.] 

 

   Seguindo o fio duma meada que, desde há algum tempo, trago na cabeça (terei começado pelo conceito de Tianxiá, e talvez lá regresse), retomo reflexões de Trois femmes dans de sombres temps, em que a autora vai analisando pensamentos de Hannah Arendt : Do carácter decididamente planetário e sem precedentes dos acontecimentos contemporâneos, Étienne Gilson [que foi meu professor], no seu Les Métamorphoses de la Cité de Dieu [Lovaina, 1952], conclui pelo necessário estabelecimento duma «sociedade universal», o que pressupõe a adesão de todas as nações a um princípio que a todas transcenderia. Não estaremos, assim, pergunta Hannah Arendt, a condenar-nos à alternativa do domínio global do totalitarismo ou à sociedade universal promovida pelo cristianismo? Em ambos os casos se ameaça a liberdade política, que só é possível no exercício de uma pluralidade de «princípios de vida e de pensamento» [Cahiers de Philosophie]. Não estaremos confrontados com a hipótese que ela encara em O que é a política? para demonstrar a perda irreparável de mundo que uma guerra total determinaria : «Se tivesse de acontecer que, na sequência de uma enorme catástrofe, só um povo sobrevivesse no mundo, e se tivesse de acontecer que todos os seus membros percebessem e compreendessem o mundo a partir duma única perspetiva, vivendo em consenso pleno, o mundo, no sentido histórico-político, caminharia para a sua perda, e esses homens privados de mundo, e que seriam os únicos sobreviventes sobre a terra , não teriam mais afinidades connosco do que essas tribos privadas de mundo e de relações que a humanidade europeia encontrou quando descobriu novos continentes, e que foram reconquistadas pelo mundo dos homens ou exterminadas sem que se desse conta de que pertenciam igualmente à humanidade».

 

   Certo é que, em tempo de invasiva globalização (pensei esta expressão e dou-me bem com ela), ninguém escapa à interrogação do destino do mundo, caminho de todos e de cada um, e acerca de se isso poderá ter governo e como. Esse epifenómeno da egocultura americana, vulgarmente chamada "american dream", que dá pelo nome de Donald Trump, poderá julgar que a grandeza dos EUA, como potência superior, quiçá hegemónica, será a chave do fado e da ordem mundial. Mas, não só a confusão das gentes que compõem o seu eleitorado, e cujo único denominador comum é uma pungente debilidade das respetivas visões do mundo, é incapaz de ultrapassar critérios sectários desfasados do tempo hodierno, como tampouco saberá produzir um discurso compreensível, racional e sentidamente aceitável pelos restantes cidadãos estadunidenses e outras muitas e variegadas gentes. E não será assim tão só em resultado de pouca instrução e fraca cultura do espírito, nem apenas pela exposição quotidiana de mentes sem educação do espírito crítico às ilusões mediáticas de notícias ou anúncios falsos, sejam esses de motivação política, publicitária ou outra. Pois também a falta de mais propostas livres e promotoras de consciência humanista é fruto do "quero, posso e mando" dos grandes interesses político-económicos, da omnipresença quase omnipotente do seu "marketing" nas orientações dos comportamentos dos indivíduos. Mesmo aqueles que se tomam por independentes, modernos, informados e cultos, são certamente enformados nas suas opções de dietas, passeios, leituras e lazeres, para já não entrarmos por questões políticas e outras de fora da sua vida estritamente privada. Basta falar com qualquer quarentão ou cinquentão (a média idade nas sociedades de "afluência"), para encontrar gente bem convencida de si e suas artes, mas que, afinal, tal como logo recorre à informação imediatamente disponível no computador ou no iphone, também não tem tempo nem esforço para refletir e exercitar espírito crítico. Menos ainda para sequer entender a força humanizante da contemplação. Seja de que lado estiverem quanto ao aquecimento global, às fontes de energia ou à alimentação sadia. Uns e outros vão beber às respetivas fontes, ou seja, ali onde se acham intelectualmente corretos. Eça de Queiroz dizia que a cultura, em Portugal, se importava de França, pelo paquete. No mercado contemporâneo, além do pronto a vestir e do take away, compra-se, na tv ou na net, o pronto a pensar, a opinar, a ter razão, a nos orientarmos pelo melhor, desde a ideia política ao passeio de domingo... mas o individualista sentimento de si é tão marcante que cada qual vê o mundo e os outros a girar à sua volta - por vezes quase como automobilista a identificar-se com a potência do seu carro - e se perde íntima comunhão com o mistério ontológico de tudo, essa oração essencial, tal como, infelizmente, se vai fugindo dessoutra força centrípeta que é a solidariedade humana.  

 

   Voltando atrás, Princesa de mim, reencontro essa ideia de povo eleito ou, mais simples e assustadoramente (evocando o conceito "arendtiano" de banalidade do mal), esse sentimento de superioridade atribuível à raça, à religião, à linhagem, à instrução, etc... Quem assim se reclama de direitos especiais, incluindo o de governar os outros, até se esquece dessa profecia de Pablo Neruda (cito de cor, a ideia está certa, a fórmula, creio, próxima) de que "podemos ser livres nas escolhas, mas seremos sempre escravos das consequências delas"... Mas, pergunto, não estaremos nós a enveredar, cada vez mais, pela senda da liberdade condicionada? [ou, desde já, da robotização?]

 

   Aliás, esse dito do Neruda (que, mais do que comunista, foi poeta), também qualquer filósofo o poderá relembrar ao debater a crise atual da democracia nas sociedades em regime liberal-capitalista. Na verdade, a justíssima opção da livre concorrência como garantia da igualdade das oportunidades, da melhoria da qualidade dos bens e dos serviços, da distribuição da riqueza criada por critérios de justiça e mérito, acabou por ser geradora da sua própria Némesis : o esquecimento ou laxismo da responsabilidade política de devidamente assegurar as condições necessárias a uma economia humanista (quem se lembra ainda do movimento Économie et Humanisme do padre Lebret, dominicano francês, que em Portugal só teve algum acolhimento pela geração hoje conhecida como "os vencidos do catolicismo", na roda da Moraes Editores do António Alçada Baptista?). Para resguardarmos a nossa humanidade, não será necessário aprendermos a limitar os excessos de acumulação, anonimização e intervenção política e social do capital (designadamente nos meios de informação) , tal como a submeter a promoção e publicidade das ofertas de bens, serviços e lucros financeiros a critérios de transparência e de responsabilização ativa, célere e rigorosíssima dos infratores? Infelizmente, desembocamos em praças onde inconfidências e desastres podem trazer a público enganos magoados e fados mais tristes de famílias espoliadas pela ganância de "empresários" e "financeiros", estes mesmos continuando a safar-se. Mais e pior: sem pejo, por aí continuam a acenar com ilusões.   

 

   Quanto ao concerto das nações, nesta etapa da globalização, também vai espreitando, em busca da recuperação do sonho russo (tzarista e soviético) de ser primeiro entre os seus pares, Vladimir Putin. Aposta, como o colega Trump, no reforço de um poderio financeiro assente em empreendimentos só viáveis pela acumulação de capital, pela concentração de poucos comandantes dos demais agentes económicos. E, externamente, vai fazendo apostas... Muitas vezes me mói o toutiço a questão de como Hannah Arendt tão bem percebeu a essência totalitária partilhada pelo nazismo e pelo estalinismo - que tanto escândalo bem pensante provocou - sem que outros tivessem depois entendido como, mutatis mutandis, o sonho capitalista americano e o economicismo estatal soviético, no campo do exercício político, respondiam à mesma  vontade de poder... hoje tão aproveitada pela nova velha China que, não só mas também, por via de um prosseguido vanguardismo tecnológico, se vai aproximando da meta de maior potência económica e financeira. É assim compreensível a reserva de muitos analistas políticos e filósofos relativamente à reactualização do conceito de Tianxiá: harmonia de todos os que estão debaixo do mesmo Céu, ou - além disso, mas também, parafraseando Orwell e evocando a antiga designação de Celeste Império - sendo uns mais celestes do que os outros?

 

   Pois, na verdade, tal como o sonho americano desenhou o direito universal ao enriquecimento dos indivíduos, também a dado passo acordou para a necessidade (como fator e como fatalidade) de assegurar externamente as condições políticas e militares da sua prepotência económica. Os poderosos regimes ditos comunistas, inversamente, concluíram que um possível proeminente lugar no mundo não poderia ser-lhes garantido apenas por forças armadas, repressão de povos, controlo das vidas, desde a natalidade até ao usufruto de bens e ao livre exercício do pensarsentir. Pareceu-lhes, assim, imprescindível a criação de músculo económico e financeiro e a procura de novos modos de imposição do poder estatal, incluindo as formas mais subtis, por via, privilegiadamente, da informática... estaremos todos destinados a ser robôs? 

 

   Se releres passadas cartas minhas, Princesa, perceberás porque me comoveu profundamente a notícia de recentes reencontros de membros sulistas e nortenhos de famílias coreanas, e me valeu o recolhimento de umas horas a da morte do israelita Uri Avnery, num hospital de Telavive, aos 94 anos. Quando só contava 10 de vida, refugiara-se na Palestina sob administração britânica, acompanhando seus pais, escapando à perseguição nazi. Era então alemão, chamava-se Helmut Ostermann, e aos 15 já era membro do movimento sionista Irgun, que mais tarde abandonaria, para se tornar num defensor intransigente da paz, do reconhecimento de dois estados palestinos (um dos quais judeu). Até hoje, lutou sempre contra a ocupação ilegítima de territórios por Israel e, pouco antes de morrer, ainda se pronunciava contra a lei que quer impor o conceito de Israel como pátria histórica do povo judeu.

 

   E, neste último domingo de agosto, é de coração sentido que dizemos a Deus a John McCain, herói de guerra, ferido e feito prisioneiro no Vietnam, político humanista, defensor da dignidade humana, que não se cansava de lembrar que, apesar das torturas sofridas, a guerra lhe tinha ensinado a amar e procurar a paz... Serão pois bem sinceras as condolências do seu guarda de cárcere vietnamita, ao dizer hoje como chora a sua morte.

 

   A dedicação de tanta outra gente a causas e serviços de solidariedade humana, a causas de justiça e de paz, de proteção e exaltação da natureza e da vida, de recuperação de doentes, de superação de desvantagens físicas ou mentais, de reinserção social e consciencialização da sua própria dignidade humana de presos e marginalizados, é o espelho maior em que a nossa humanidade se deveria rever... Então, porque será que, a toda a hora e momento, nos envolvem em notícias torpes, acusações e ataques ad hominem, ou ilusões de luxo e de luxúria?

 

   Talvez se ganhe mais esperança em comungar no batimento incessante do coração de gente sempre viva. Sobretudo se, nos sinais dos tempos, além de maus agouros, soubermos encontrar, e amar mais, sinais das promessas de Deus.

 

   Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira

 

LIVRO E EXPOSIÇÃO SOBRE ALMADA NEGREIROS

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A Câmara Municipal de Tavira e a Fundação Calouste Gulbenkian apresentam no Museu Municipal - Palácio da Galeria uma exposição subordinada ao tema “Mulheres Modernas Na Obra de José de Almada Negreiros”. Desde logo se saliente o interesse da iniciativa e a qualidade da mostra, que reúne um conjunto relevante de obras de Almada, aqui devidamente expostas, analisadas e documentadas num livro onde, além de estudos e documentação importante e pouco conhecida no conjunto, representa acervo notável de reproduções de numerosas obras exemplarmente documentadas por textos e escritos diversos do próprio artista evocado e homenageado.

 

Na introdução do livro, sobre a obra de Almada, salienta-se um conjunto de textos e estudos introdutórios de Jorge Botelho, Presidente da Câmara Municipal de Tavira, de Isabel Mota, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, de Jorge Queiroz, Diretor do Museu Municipal de Tavira e de Mariana Pinto dos Santos.

 

E seguem-se centenas de reproduções de obras de Almada Negreiros, devidamente “ilustradas” e enquadradas por textos do próprio Almada.

 

Porque Almada Negreiros é como bem sabemos um extraordinário artista plástico, um excecional dramaturgo, um notabilíssimo escritor: e tudo isto surge devidamente documentado neste vasto e notável livro-catálogo da exposição.

 

Evidentemente, o que mais sobressai na exposição e no livro é a reprodução do conjunto das pinturas e desenhos de Almada. Mas aqui, queremos sublinhar também os textos que convertem o catálogo numa verdadeira antologia da obra escrita de Almada Negreiros.

 

Salientamos então algumas referências a peças, a teatro e a cinema, a espetáculos, feitas pelo próprio Almada Negreiros e reproduzidas no livro:

 

«Deixa-me passar! Tira-te da minha vida! Já viram isto? Sentinela à vista! Toda a vida sentinela à vista! O meu íntimo devassado!» (in “Deseja-se Mulher”)

 

«De uma vez num passeio, o arco-íris foi quadrado até ao fundo dos raios x para lá do cavalo transparente numa continuidade cinematográfica contornando a apologia feminina sagradamente epiléptica em SS de cio todo realce e posse de reflexos.» (in “K4 O Quadrado Azul”).

 

«Uma noite encontrou-a num cine. Ela não devia tê-lo visto. Seria uma boa ocasião de observá-la desprevenida. Ela porém era invariável.» (in “Vera”)

 

«Um dia “La Argentinita” entra em cena pelo mesmo lado que as outras, faz o mesmo que as outras fazem, dá as mesmas voltas, o sapateado, as castanholas, os couplets, e tudo é diferente, saudável, genial. Nós ficamos com a opinião de que a Espanha artista tem estado mal representada até à chegada triunfante de “La Argentinita”» (in DL- 17.02.1925).

 

E muitas mais são as citações, e muitíssimas mais as reproduções que tanto valorizam este livro, notável “catálogo” da exposição do Palácio da Galeria de Tavira.

 

E a Tavira voltaremos.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

 

 

  

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

Vasarely

 

14. A ANTECIPAÇÃO MENTAL DA PROCURA E A SUA REALIDADE

 

Não se encontra o que se procura, mas o que se encontra.

 

Não encontro o que procuro, mas o que encontro.

 

Não encontramos o que procuramos, mas o que encontramos.

 

Mas é usual dizer que só encontramos o que procuramos.


Qual a relação entre a antecipação mental da procura e a sua realidade?

 

Entre a imaginação e a realidade?

 

Entre a realidade imaginada, mental, espiritual e a realidade física, material, real?

 

Entre o modo como imaginamos uma pessoa e o que acontece quando a conhecemos na realidade?

 

Entre o modo como imaginamos um lugar e o que sucede quando lá chegamos?

 

Entre o modo como imaginamos uma coisa e quando temos contacto com ela?


A realidade é diferente daquilo que antecipamos mentalmente.

 

Não se encontra aquilo que se procura, mas o que se encontra.

 

O que pressupõe estarmos abertos, totalmente disponíveis para a descoberta, a viagem, o desconhecido, o desconhecido conhecido, o conhecido desconhecido.

 

A antecipação da realidade tem uma linguagem própria.

 

A antecipação mental do real tenta suprir a realidade factual, se possível através da fotografia, vídeo, gravuras e impressos sobre coisas, pessoas e viagens, locais de chegada, partida e de passagem, tentando ser uma cópia fiel da realidade.

 

Ou ser como um sonho, se anteciparmos algo que nunca imaginámos e sem auxiliares como a fotografia, filme, ou similares, como numa viagem de total libertação dos sentidos, num imaginário total e libertador, como quem lê um livro exótico ou extravagante e antecipa e ficciona mentalmente algo que nunca viveu ou imaginou.

 

Esta antecipação mental da procura que não corresponde com a sua realidade, quando confrontados com esta, é um lado da vida, da nossa realidade humana.

 

É parte integrante do lado espiritual, imaterial, impalpável, que não se fotografa, nem filma, é uma liberdade de expressão e de pensamento universal, pessoal e intransmissível, libertária e que liberta.

 

Faz parte do lado mais importante da nossa vida.

 

04.09.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

A garrafa de cristal

 

A porta ao fundo do corredor estava sempre fechada e nunca nenhuma criada a abria para ir limpar aquela que era uma sala comum aberta aos natais.

 

Um dia, atrevi-me e abri a porta espreitando lá para dentro transida de medo. Desconhecia o segredo e isso criava em mim um imaginar de coisas ruins, pelo estranho respeito que todos tinham pela porta fechada. Atrevi-me, e, vi uma sala num lusco-fusco de janelas quase fechadas e um brilho estranho em cima de um dos aparadores.

 

Fechei a porta e desapareci dali. Depois comecei a reparar que a Tia Carolina cada vez que passava junto à porta colocava a mão na chave da fechadura e puxava-a para si, como se estivesse a tirar alguma duvida de que a porta pudesse não estar bem fechada. A avó fazia o mesmo. Depois pela hora do jantar quando o dono da casa chegava, todos ficavam atentos ao seu percurso até à saleta. Este “todos” abrangia as criadas, sabedoras do segredo. Era visível que se sustinha a respiração até ele passar pela porta sempre fechada da sala e rumar à saleta. Entendi, então, que ele nunca deveria abrir a porta e que se o fizesse a casa explodiria em discussões e tremuras de vidas não ditas.

 

Lembrei-me do brilho que vira. Ia criando a ideia de que o problema era aquele brilho branco e avermelhado, o que continha o mistério. Um dia, num repente, abri a porta e entrei e fechei-a atras de mim num ápice. Olhei para o brilho da garrafa bem de frente e percebi que era uma garrafa de cristal esguia e alta com tons avermelhados e brancos. Ao seu lado uma salva de prata que lhe garantia estatuto. Percebi tudo. Era uma lâmpada de Aladino desta vez em formato de garrafa. Realidade preciosa; mas qual a razão que impedia o dono da casa e afinal todos nós de a vermos, mesmo que desconhecêssemos os seus poderes? por desconhecimento do código que a massajasse no angulo certeiro?

 

A tia deu-me um grito

 

Que fazias dentro da sala? Não sabes que não é local de brincadeiras?

 

Fui ver a garrafa

 

Ah a garrafa! Dentro dela existe a emanação de uma alma, não sabias? De dentro dela saem sombras se a luz do sol as acordar. Nunca mais te quero ver ali.

 

Senti-me aniquilada como um grão de areia quando pisado. Escapei-me para o meu quarto e enrolei-me na cama entre os cobertores, mas o frio não passava. De repente tudo naquela casa era dividido por criaturas e destinos. De repente entendi que as perguntas decisivas nunca as poderia fazer ali. Ali havia inclemência, ninguém saía da escuridão para a vida. Só a garrafa acedia a entender a sua força, o impacto do seu tempo íntimo. Corri com Aladino e convoquei o olimpo. E exatamente naquele momento ouvi a chegada do dono da casa. Ouvi-o a dar a volta à fechadura da porta da sala comum. Perguntou num grito ameaçador e seco, onde estava a garrafa.

 

Abri a porta do meu quarto e ainda vi a avó sair quase correndo para a rua, submissa, de cabeça inclinada para o chão. Saía só com o que tinha vestido e era final da tarde da chegada de um inverno. A tia Carolina respondia aos gritos do homem da casa, gritando-lhe também e recordando-lhe a sua inocência total no desaparecimento da garrafa e que a culpa era da avó que tinha acabado de provar essa mesma culpa, fugindo.

 

Pela manhã, ainda em robe, a tia entrou no meu quarto e inquiriu

 

Não sabe que tem de ir buscar a avó? Levanta-se. Vá. Ela deve estar à espera, leve-lhe o casaco dela e não entre na pensão onde ela está. Diga à porta que a vai buscar e nada mais. Já sabe onde é.

 

Viemos as duas quase sempre caladas. Eu e a avó. Junto à entrada da nossa casa eu disse-lhe

 

Não tenha medo da garrafa. Ela é falsa.

 

Entrei em casa com a avó que se dirigiu a chorar para a saleta.

 

Entendi que o tempo era enfim chegado. O tempo de descobrir a porta de acesso a outro reino distante daquela casa tinha chegado e que forçaria todas as sortes: a decisão ancorara-se no meu espirito. A soluçar, compreendi que um poema muito tempo ao abandono pode sofrer a erosão do tempo de vida e envolver-se no túmulo da garrafa de cristal.

 

Levantou-me uma grua firme e, tendo ali ficado, fugi para sempre.

 

Teresa Bracinha Vieira