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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

31. O TRABALHO QUE DÓI

 

O trabalho tornou-se a própria vida.
Adrenalina, stresse, excesso de horas, excitação, correrias, palpitações.
Há o excesso de trabalho.
Há o workaholism   
O síndrome de burnout.
O trabalho que queima sem se ver. 
Um permanente pico de trabalho que dói.
O corpo e a mente chegaram ao limite. 
O trabalho passou a ser tudo na vida.
Sem queixume.
Sendo suposto que assim seja.
E quando se adora o que se faz, aceita-se fazer mais. 
E o tudo torna-se sempre mais.
Mesmo se feito com menos. 
Mesmo se aprazível, recompensador e reconhecido, o corpo e a mente sofrem. 
Fadiga, exaustão física e emocional, o físico e o psíquico sem rumo natural.
Agudizado se há ausência de realização profissional.
Agravado pelas novas tecnologias ligando-nos 24 horas por dia. 
Num mercado mais exigente em prazos, tecnologias e solicitações velocistas.
É um pico sucessivo de trabalho que dói!
Em que a saúde paga: ansiedade, depressão, hipertensão, sistema imunitário, coração. Ou há uma grande autodisciplina ou trabalhamos sem fronteiras. 
Havendo outras coisas que deixarão de ser feitas.
O trabalho só dignifica se existir, antes de mais, uma vida. 

 

04.06.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Bruno,

 

Dei comigo a ser a única pessoa a comprar selo para uma carta. Dei comigo a pensar que as nossas conversas se não escrevem em e-mails. Dei comigo a pensar que não posso perder a chaves da caixa do meu correio porque recebo muitas cartas. Ainda. Dei comigo a pensar que ambos sabemos que carta tem o perfume das várias estações da alma. Tem folhas de árvores e espuma de mares que colam a cola do envelope, às vezes, com lágrimas, outras com urgências; carta tem respiração de mundo e tem carteiro que lhe pega e a entrega como testemunho de alguém que o pode ler na casa de jantar atras do reposteiro e beijar muito a carta e esconde-la no montinho do sótão, dentro de uma caixa, imune a ratos, e essa caixa é de Ali Bábá de um agosto que permitiu umas férias de mundo da nossa juventude. Quanto tesouro! Um mundo de projetos fenomenais e acontecimentos fantásticos, descobertas únicas, tudo condensado em 30 dias. Um mundo de cada um à sua maneira e tu com a Eduarda janela por janela a olharem-se, e, o tanque redondo dos peixes – mirante – era o meu melhor público para que o Miguel entendesse que aquele golpe de vista infalível que a água captava, era a promessa de, na manhã seguinte, juntos, na praia, nós os dois, iríamos ao mar.

 

Bruno,

 

Voltei para casa e abri o envelope e escrevi-te isto. Quis saber que saberias da minha fidelidade a escrever-te cartas, mas que uma mulher exausta e ansiosa demais pode escrever e-mails, e, uma vez por outra, o teu endereço eletrónico, tenta-me, e não te posso prometer que uma tarefa esgotante me evite de o usar quando.

 

Contudo, do perfume ainda não sei como farei. A minha caneta tem tinta permanente e por isso tem perfume. Receio que isto de escrever-te sem ser por carta, fique tudo mal escrito e mal vivido e que não domine as palavras na minha fala, como quando as obrigo por tinta a subirem a Acrópole.

 

Que dizes?

 

Eu sei que não estou apta a conhecer este novo Evangelho das tecnologias de utilizador que, receio, pelo sinistro da sua facilidade, mas, desde que o envio das cartas se apoderou de mim na fúria de viajar e começo a chegar antes delas. Enfim.

 

Acima de tudo, para nos sabermos de nós, rapidamente, outros meios se propõem. Impessoais? Ou neles se reconhecem, que os últimos degraus que subi na arena em Palermo e tos mostrei, quase em direto, por um vídeo que fiz e te enviei por telemóvel, foi pronto também a mostrar-te os templos de Agrigento e a expor-te quão mágica era a luz mediterrânica.

 

Duas semanas depois estavas lá com uma Eduarda III ou IV (eras fiel ao nome) pois pressentiste afinal pelo vídeo que…

 

Que dizes?

 

Esta pergunta vai por carta. Vou voltar aos correios. Tratam-me tão bem!

 

«Bom dia Dra., mais uma cartinha? Quer escolher o selo? Temos uns que são mesmo o seu sorriso.»

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

NÓS E OS OUTROS. A URGÊNCIA E A DIFICULDADE DO DIÁLOGO

 

    Estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo. Há hoje várias revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a globalização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma “pequena aldeia” e a chegada ao palco da História de grandes países emergentes, como a China, a Índia... Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um “sexto continente”. Nunca como hoje houve tanta informação e com a rapidez com que circula pelo mundo. Esta é a era da informática. A internet, o correio electrónico, os telemóveis, as televisões põem-nos em contacto constante e imediato com tudo o que acontece no mundo. Depois, com a facilidade dos transportes e no quadro das novas condições económicas, há a circulação permanente das pessoas de uns países para outros e também entre continentes. As NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, Big Data, ciências cognitivas, neurociências...), em interconexão,  transformam a nossa relação com a vida e a procriação e podem fazer bifurcar a Humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar; por isso, se fala em transhumanismo e pós-humanismo. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a Humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Como se não pode esquecer de modo nenhum o perigo do terrorismo global e de uma guerra atómica. Está aí, omnipresente, de múltiplos modos, o terror da violência...

 

    Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, os mercados, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não se sabe de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma “modernidade mestiça”, mas, para evitar o “choque das civilizações”, impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. De facto, como escreveu o teólogo José María Castillo, com todos estes factos, produziu-se “um fenómeno inteiramente novo na história da Humanidade: a mistura, a fusão ou o choque, a inevitável convivência de culturas, tradições, costumes, formas de pensar e de viver, de pessoas que vão de uns países para outros, de um extremo ao outro do mundo. E vão, não para fazer turismo, mas para tratar da vida, fugir das guerras, da fome e da morte. Mas, como é lógico, este reboliço de pessoas, de notícias, de ideias, de formas de viver fez com que – sem nos darmos conta muitas vezes do que realmente se passa – bastantes critérios, convicções, costumes e tradições que até há poucos anos tínhamos como seguros e intocáveis, hoje estejam abalados, tenham perdido segurança, se tenham esfumado, modificado ou, em todo o caso, perdido a firmeza e estabilidade que antes tinham para nós.”

 

   De qualquer modo, para o diálogo, impõe-se uma reflexão de base sobre as suas condições de possibilidade e as suas dificuldades. De facto, o diálogo é feito de encontros e desencontros. O encontro é fascinante, mas, veja-se, logo de entrada, como a própria palavra chama a atenção para a sua dificuldade: encontro mostra, nas várias línguas, um confronto, uma oposição. Assim: en-contro (lá está o contra, como em en-cuentro ou em rin-contro..., mesmo no alemão, Begegnung, está presente o contra, que se diz gegen).  

 

   A neotenia constata, no essencial, que o ser humano é um prematuro – para fazer o que faz, precisaria de permanecer no ventre materno mais um ano, mas isso não é possível; assim, nasce no termo de 9 meses, em vez de passados 20 –, tendo, portanto, de receber por cultura aquilo que a natureza lhe não deu. Frágil segundo a natureza e sem especialização, tem de criar uma espécie de segunda natureza ou habitat, precisamente a cultura. Como escreve o filósofo Robert Legros, “é na cultura ou no que a fenomenologia chama um mundo que a humanidade de Homo encontra a sua origem, e não na natureza. Quanto à origem da cultura, ela está por princípio votada a permanecer uma questão sem resposta”. Enquanto os outros animais nascem feitos, o Homem, nascendo por fazer, em aberto, tem de fazer-se a si mesmo e caracteriza-se por essa tarefa de fazer-se com outros numa história aberta, em processo.  Constata-se deste modo que nos fazemos uns aos outros genética e culturalmente. O ser humano é, pois, sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura em história. Assim, no processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte. A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. E, em cada um de nós, há múltiplas possibilidades de ser: se eu tivesse tido outros encontros, se tivesse frequentado outras escolas..., certamente seria eu, mas de outro maneira, idem sed aliter. A nossa identidade é aberta, somos nós e somos muitos; se assim não fosse, como poderíamos entender os outros, compreender um romance, colocando-nos na pele de tantas personagens diferentes?...

 

   Claro que cada um, cada uma, é ele, ela, de modo único e intransferível – a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: “ai que me roubam o meu eu!”, clamava M. Unamuno –, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas. O outro é vivido sempre como fascinante e ameaça. Porque o outro é outro como eu, outro eu, e, simultaneamente, um eu outro, outro que não eu. Daí, a ambiguidade do outro. O outro enquanto outro escapa-se-me, não é dominável.

 

    Nunca saberei como é viver-se como outro. Quando olhamos para outra pessoa, perguntamos: como é que ela se vive a si mesma, por dentro?, como é que ela me vê?, como é o mundo a partir daquele foco pessoal? Porque é simultaneamente, tanto do ponto de vista pessoal como grupal e societal, um outro eu e um eu outro – outros como nós e outros que não nós –, o outro atrai, ao mesmo tempo que surge como perigo possível. Há, pois, uma visão dupla do outro, que tanto pode ser idealizado – no amor, é divinizado –, como diabolizado. Atente-se na ligação entre hospitalidade e hostilidade, derivados do latim “hospite” e “hoste”, respectivamente. Cá está: o outro é hóspede, por exemplo, no hotel e no hospital. Mas, no hotel, pedem-nos a nossa identidade, porque podemos constituir uma ameaça, um perigo ou ir embora, sem pagar. Aliás, agora, também há o “hostel”, onde a dimensão hostil é mais visível pela sua sonoridade, e, por isso, nos pedem, repito, para prevenir, a identificação. E a fronteira, porta de entrada e de saída, em ligação com fronte – a nossa fronte somos nós voltados para os outros e ao mesmo tempo ela é limite e demarcação de nós –, anuncia o outro – outro país – e é espaço de acolhimento e também da independência.

 

    No quadro desta ambiguidade, entende-se como, por medo, ignorância, desígnios de domínio, se pode proceder à construção ideológica e representação social do outro essencialmente e, no limite, exclusivamente, como ameaça, bode expiatório, encarnação e inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar e, no limite, abater, eliminar. Num mundo global, cada vez mais multicultural e de pluralismo religioso, é urgência maior repensar a identidade e avançar no diálogo intercultural e inter-religioso, sempre no horizonte da unidade na diferença e da diferença na unidade.

   

    As revoluções em curso, que obrigam a repensar o futuro da Humanidade, são outras razões que aprofundam a necessidade e urgência do encontro e diálogo entre as culturas e religiões. O que desde há anos Hans Küng vem sublinhando – a necessidade do diálogo inter-religioso para ser possível a paz no mundo – é cada vez mais urgente. Entende-se mais claramente do que nunca que a obra do célebre teólogo, autor principal da “Declaração de uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993, se oriente pelo lema: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial”.

 

    Falo nas religiões, mas o problema estende-se às várias dimensões do Humanum, precisamente porque o ser humano é, constitutivamente cultural, resultado de uma herança genética e de uma cultura em história, é bom repetir. Por isso, a integração noutra cultura é tudo menos fácil. Porquê? Quem não reflectiu suficientemente é por vezes levado a pensar que a cultura é como um vestido, algo exterior que a pessoa facilmente troca, mudando de cultura como muda de vestido. Não é assim, de modo nenhum. Porquê? Sendo sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura, a cultura define-nos, faz parte da nossa identidade e, por isso, como se constata pela História, mesmo recente, não falta quem esteja disposto a bater-se, até pelas armas, pela sua cultura, que faz parte constituinte da sua identidade.

 

    Felizmente, a nossa identidade é aberta, em história e, por isso, também podemos ver no diálogo inter-cultural e inter-religioso um factor determinante de enriquecimento mútuo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 2 JUN 2019

HETERÓNIMOS NO CINEMA

 

Foi há poucos dias. Se bem sei, Fernando Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos tinham ido ver um filme ao cinema Ideal, aqui tão perto do Centro Nacional de Cultura, e não resistiram a tomar uma bica e outras amenidades de boca na Brasileira. Gravei-lhes a conversa e transcrevi, ipsis verbis, o que livremente quiseram dizer. Faltou Alberto Caeiro que, creio, nunca entrou numa sala de cinema.

 

“Ó Fernando, com tanta angústia patriótica a saltar-lhe da mão esquerda para a direita, você nem a bica consegue tomar.”

 

Foi o que o engenheiro disse, fazendo rir a mesa heteronímica a que se sentam. São três: Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Mortos, descontraídos e invisíveis para os turistas de 2019 da Brasileira.

 

Pessoa lamentou-se: “Sabe, engenheiro, é a mágoa de um presente infeliz. Somos o pingo de tinta seca de quem escreveu Impérios na geografia do mundo.”

 

Reis, mal o deixou acabar: “Lá vem você com o Quinto Império. Basta-nos o mito ou, para que as actuais gerações compreendam, um milagre como no cinema. Ainda ontem voltei a ver, de mão dada com a Lídia, o “It’s a Wonderful Life” do Capra.”

 

“Nem Portugal é o Jimmy Stewart, nem a Senhora Merkel tem a bonomia do anjo Clarence,” riu-se o desbocado Campos.

 

Pessoa interrompeu-o: “Bem dito, engenheiro. Onde anda o português que, com a universalidade das Descobertas, salvou a Europa de ser só mediterrânica? Voltou o português à antiga – bom católico, toureiro, estúpido como uma porta de cofre-forte.”

 

Campos insiste: “Como não está cá o Mestre Caeiro para se zangar comigo e já que o Dr. Reis gosta de filmes, diria que nos falta um optimismo fordiano.”

 

Logo Pessoa: “O Álvaro confunde optimismo com o que em Ford é só pura crença e europeia. Porque Ford era artisticamente europeu e universal. O cinema dele era uma poesia ajudada: reflecte nos filmes o que a alma não tem.”

 

Reis interrompe-os: “Pois a Portugal até o direito a ser europeu escapa. Somos só serventuários da França e lacaios da Alemanha.”

 

O engenheiro abana a cabeça: “Quando fazemos uma revolução é para implantar uma coisa igual à que já estava. Veja o Passos Coelho, parecia tão liberal e indisciplinador? Mas acabou por cair na disciplina por uma fatalidade ancestral.”

 

Pessoa dá um salto na cadeira: “Álvaro, não está a sugerir que os portugueses se ponham a ver “O Couraçado de Potemkin” ou o “Ivan o Terrível?”

 

Álvaro ofende-se: “Todo o artista que dá à sua arte um fim extra-artístico é um infame. Encontre-me antes, no cinema, um criador de anarquias.”

 

Reis afasta o cálice de absinto: “Um Syberberg, um Herzog? Cuidado com o cinema alemão. Olhem a Merkel: uma asceta. Como é perigoso o asceta que se casa com o poder e se amanceba com a vontade de domínio.”

 

Pessoa concorda: “A Alemanha é na paz o que sempre foi na guerra: uma organização cruel. O sacro império romano é o que cada Alemanha ocultamente quer ser.”

 

Campos volta à carga:”Prefiro o cinema que seja uma mentira artística, o americano. Intruja? Mas um país sem grandes intrujões é um país perdido. Quem não intruja não come. A grande civilização é a superior organização da artificialidade, isto é, da intrujice.”

 

Levantam-se, exuberantes, e saem sem pagar a conta.

 

Manuel S. Fonseca

A VIDA DOS LIVROS

De 3 e 9 de junho de 2019

 

 

«Dicionário do Livro – Da Escrita ao Livro Eletrónico» de Maria da Graça Pericão e de Maria Isabel Faria (Almedina, 2008) constitui um repositório muito completo, de consulta indispensável, que permite uma boa compreensão das perspetivas passadas, presentes e futuras sobre o livro e a leitura.

 

Dicionário do Livro – Da Escrita ao Livro Eletr

 

UMA FUNÇÃO INSUBSTITUÍVEL
O tema do futuro do livro tem sido muito glosado e nem sempre com o uso de bons argumentos. Há muitas vezes simplificações que esquecem o essencial. Em primeiro lugar, o livro e a leitura são peças fundamentais na aprendizagem – e o certo é que não há desenvolvimento humano sem leitura e aprendizagem. Questão diferente é a de nos perguntarmos sobre o futuro do livro impresso. Nesse ponto, importa fazer distinções e compreender a diversidade de problemas. O livro impresso coexistirá com outros suportes de leitura. Ler no “kindle”, no “tablet” ou num livro de bolso, num livro de capa dura ou em qualquer suporte digital terá a ver com a comodidade de cada um. O livro continuará, no entanto, a ter uma função insubstituível. Aliás, é preciso dizer-se que, em virtude do aumento da escolarização, há mais livros e mais leitores, mas é essencial que haja uma boa formação na leitura. Faz parte da educação cívica ler bem, saber comunicar e apreender na leitura a diversidade cultural e a complexidade. A cultura como criação e a boa aprendizagem exigem boa leitura. Por exemplo, no caso das Enciclopédias e das obras de referência deixa de fazer sentido termos os livros encadernados nas nossas estantes – desatualizam-se rapidamente, as casas não têm espaço e o suporte digital permite uma consulta mais fácil. Quanto aos jornais diários em papel, têm os dias contados. Tornar-se-ão dispensáveis porque a internet permite uma comunicação mais fácil a todo o momento, com custos económicos mais acessíveis. Pelo contrário, as revistas ou alguns semanários com textos mais longos, ensaios de qualidade e com uma apresentação gráfica apetecível vão ter mais importância – seja em papel, seja no digital.

 

 

MELHOR INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO
Ler mais e melhor tem a ver com a transformação da informação em conhecimento e do conhecimento em sabedoria, para nos lembrarmos do célebre poema de T. S. Eliot. Não podemos esquecer, contudo, o difícil tema das livrarias, onde seja possível encontrar os livros que desejamos ou de que precisamos. Num depoimento sobre a experiência da livraria “Ler Devagar”, tive oportunidade de dizer: «Temos a presença e o calor, muito próprio dos livros, temos as estantes a chamarem-nos, e temos a extraordinária possibilidade de ir pegando nos livros, provando-os, folheando-os. Desde de que me conheço, sinto um prazer especial em deambular entre estantes e livros. E nas longas viagens que tenho feito, a lembrança está ligada a livros, a bibliotecas e livrarias. Tudo começa por planear ou preparar uma viagem, reunindo livros – mais do que roteiros: diários, itinerários, narrativas… Depois há uma escolha criteriosa para levarmos connosco alguns livros, pequenos, maneirinhos, para não serem empecilho, que nos irão libertar do tédio. E num pequeno caderno temos de fazer uma lista das livrarias a visitar… Uma viagem que valha realmente a pena tem de ter como um dos destinos da peregrinação um mundo de livros. Infelizmente, as livrarias a sério são cada vez mais raras. E se uso a expressão “a sério” é porque é preciso contarmos com o livreiro e com a possibilidade de podermos deambular entre os livros, não apenas com o que acaba de sair, posto a eito, como se estivéssemos numa loja de conveniência. E a dificuldade que há hoje para encontrar a livraria onde haja escolha e onde se sinta alma é um sério motivo de desalento. Eis por que razão «Ler Devagar» é um exemplo. Há alma, há diversidade, há clássicos e modernos, há surpresas, há possibilidade de fazer uma viagem entre os livros e pelos livros…». Lembro este depoimento, uma vez que o livro e a leitura precisam de espaços de encontro e de procura, que ocupem o lugar ancestral das velhas tertúlias. E não posso esquecer o papel fundamental das Bibliotecas Escolares – como centros de recursos e pontos de encontro e de diálogo interdisciplinar e cívico. Aliás, insistindo na formação cívica, há melhor aprendizagem com melhor leitura e melhor comunicação – já que a democracia precisa de reflexão e de tempo. A rapidez e a simplificação suscitam as notícias falsas, bem como o populismo e a demagogia. É preciso combater a tirania do imediato e da ausência de reflexão e de mediação. Daí a importância da leitura. Um mundo complexo não pode confundir as pessoas com números ou lidar com os cidadãos como se fossem seres manipuláveis. O livre arbítrio depende da autonomia individual e do sentido de responsabilidades. Só o tempo permite a ponderação e a prevenção da demagogia. As instituições precisam, para funcionar bem, de se instituir em forças mediadoras. A qualidade da democracia depende da representação e participação dos cidadãos, da existência de corpos intermédios atuantes e legítimos e de uma limitação justa e legítima do poder. Num mundo complexo é preciso que a simplificação não ponha em causa a justiça nas decisões. Não se esqueça que muitas instituições antigas e prestigiadas por esse mundo fora exigem que as decisões importantes sejam tomadas depois de os responsáveis terem pelo menos uma noite de reflexão. Dormir sobre os assuntos é garantir a ponderação, que é o contrário de pedir votos instantâneos e sem limites. Numa palavra, o livro e a leitura são peças essenciais numa sociedade civilizada, capaz de combater a tirania e a ignorância – e de dar prioridade ao tempo e à reflexão. 

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - XII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei se esta duodécima das derradeiras será a última que te escrevo por agora. O tempo o dirá. Como tão bem sabes e tantas vezes te lo disse, tenho uma relação ambígua, ou talvez apenas ambivalente, com isso a que só chamarmos tempo. Nele terei sempre de situar-me, por mim e pelos outros, pela curiosidade do passado, a verificação do presente e a tentativa perscrutação do futuro. Será só uma necessária categoria mental, como a noção do espaço, mas se nos situarmos fora da sua circunstância seremos, nós próprios, perturbados na perspetiva do olhar e na sua justeza sobre as coisas e os humanos, o mundo e a vida. Quiçá também sobre Deus, o Quem transcendente, O que está ontologicamente fora do visível. E que, enquanto tal, nunca é, nem pode ser, relativo, como são todas as coisas e pessoas, pensamentos atos e omissões que vão preenchendo a História. O que não significa que seja absoluto, não relativo, o nosso olhar sobre Ele. Assim, por outro lado de mim, como tantas e tantas vezes te disse e escrevi, pensossinto-me além do tempo. Sinceramente te lo digo: em tal tensão vivo e não esmoreço. Nem nada quero, desejo ou, sequer, anseio deslindar. Sempre fiel ao que chamo "minha dialética com a vida", que vai animando o mundo das coisas e das pessoas, sou igualmente fiel a esta íntima consciência de mim: a de estar de partida ou, se preferires, de regresso a casa. Tal é o sentido que dou a essa frase de S. Paulo (Hebreus, 11, 1, na tradução de Frederico Lourenço): Fé é garantia de coisas que se esperam e certeza de coisas que não se veem.  Muitas vezes a leio, dizendo que a fé é a substância, a essência das coisas que hão de vir. A tradução de F. Lourenço é praticamente idêntica à versão francesa, também diretamente do original grego, do dominicano C. Spicq para a edição da Escola Bíblica de Jerusalém. Pessoalmente, gosto muito da leitura feita pelo cónego José Falcão na sua versão portuguesa, a partir do texto grego, publicada pela Gráfica de Coimbra em 1965 (e que nesse mesmo ano adquiri por 65$00): A fé é o sustentáculo das coisas que se esperam, a prova da realidade das coisas que se não veem. "Sustentáculo" traduz aqui o grego "hypostasis", isto é, o que está por baixo, o apoio, o pedestal. Na verdade, a nossa relação com o transcendente está necessariamente acima do nosso entendimento e, não sendo necessariamente uma estupidez ou cegueira, necessita porém do sustentáculo da fé.

 

    Talvez por isso mesmo, há tantos anos já, quando o Ernâni Lopes me mostrou o seu Francisco de Borja meditando, qual São Jerónimo, sobre a caveira da morte, lhe recitei duma assentada a meditação do duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, poema da Sophia que eu há muito decorara por sentir como intimamente meus alguns versos seus: ... nunca mais darei ao tempo a minha vida... nunca mais servirei senhor que possa morrer... nunca mais servirei quem não possa viver sempre... porque eu amei como se fossem eternos a luz a glória e o brilho do teu ser... amei-te em verdade e transparência... e nem se quer me resta a tua ausência... és um rosto de nojo e negação... e eu fecho os olhos para não te ver...

 

   A experiência da morte próxima, seja quem for que morra, tanto quanto a solitária ideia dela, eis que nos surpreende o ser e se nos anuncia como dor funda, agudíssima, contrária a nós. Pois que é a própria persistência do ser no ser que o mantém vivo, a morte só me é concebível no tempo, nunca na eternidade, o seu momento sendo apenas um passo desconhecido. Ao terminar, qualquer tempo é um buraco negro que em voragem final até os seus vestígios leva: ...e nem sequer me resta a tua ausência. Por paradoxal que possa ser, a própria ideia da morte nos repugna visceralmente, a nós humanos que recusamos o que é próprio a todo o mundo biológico: a consumação post mortem na reciclagem da natureza, onde nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Assim, contrariando o que seria natural, encaramos a morte como sendo contra natura. E tal invenção da nossa própria eternidade é-nos tão íntima que ainda pequeninos nos acontece reclamá-la, como já te narrei num dos contos breves dos meus netos. Mais precisamente, naquele em que o Tomás, então com quatro anitos apenas, se passeava comigo pelo Jardim dos Passarinhos, no Monte Estoril, quando deparamos com um cágado velhinho, e a minha neta Inês, sua irmã, me questiona: "Ó Avô, esta tartaruga vai morrer? Porquê?" E eu respondo: "Talvez, é natural, pois tudo o que nasce morre"... E logo o Tomás, rápido: "Então o Tomás não nasceu!"

 

   Há milénios que sucessivas gerações vivem a condição humana nessa tensão entre o da sein em que cada um se descobre e o ser em infinitude que se sente interiormente. Aqui estamos e somos, mas a nossa própria imperfeição, o nosso inacabamento - todos os dias verificável - parece acordar-nos e vocacionar-nos para uma qualquer completude, perfeição ou acabamento do nosso ser. Mas aqui aprenderemos também que tal não será possível no tempo, pois este é duração medida, e todo o mensurável tem princípio, meio e fim, tem horizonte traçado. O tempo é um espaço de finitude, medido pela duração. Por isso tanto falamos de um período de tempo como num espaço de tempo, e a marcação de uma frase musical se pode fazer pela cadência, e esta imaginar-se como a distância da queda de uma nota para outra. Qualquer eternidade do ser não é, portanto, não pode ser, sequer, concebível sem a transformação do espaço-tempo em algo que transcende a nossa verificação possível, e a que a nossa ignorância chama o Infinito, conceito paradoxal por excelência, ambíguo mesmo, já que infinito não é só o que não foi acabado, o imperfeito, é, enquanto ser, ele mesmo, o Ser Infinito.

 

   O Quem, assim o apelidou Saramago; YHWH, o tetragrama hebraico que nos diz ser impronunciável o nome do Deus bíblico, que é raiz do verbo ser ("Eu Sou" ou simplesmente "Ser"); o Nada dos grandes místicos como o meu tão querido Mestre Eckhart, que escreve no seu sermão 71, que mais de uma vez te lembrei nas minhas cartas, citando um passo dos Atos dos Apóstolos, na versão latina da Vulgata: Surrexit autem Saulus de terra, aperitisque oculis nihi videbat ("Levantou-se Saulo do chão e de olhos abertos não via nada"): Parece-me que esta frase tem quatro sentidos. O primeiro deles é: quando se levantou do chão, com os olhos abertos, nada viu, e esse nada era Deus; pois que, quando viu Deus, lhe chama um nada. Outro sentido: quando se levantou nada viu, mas apenas Deus. Terceiro sentido: em todas as coisas apenas viu Deus. Quarto: quando viu Deus, viu todas as coisas como nada.

 

   O Quem de Saramago surge, nas leituras de cabine do seu imaginado Ricardo Reis (cf. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de que te falei nas minhas "Cartas a José Saramago"), como personagem misteriosa e título de uma aventura "policial" (ou de investigação). Será uma questão persecutória, não é ainda pausa ou conclusão filosófica, muito menos intuição metafísica. O tetragrama bíblico estará na fronteira de tal intuição como uma revelação teológica. A contemplação mística do medievo dominicano alemão é já um exercício propriamente teológico, um desenvolvimento da fé pelo labor da razão. Afinal, de nada ou muito pouco estamos sempre absolutamente seguros. Vivemos na contingência. Mas pecado, mesmo, será apenas contentarmo-nos com os limites dela e fecharmos o olhar, o caminho e a vida à possibilidade de novo progresso.

 

   Fecho esta carta, citando-te um passo do Corão (versículo 34 da Sura 21, dita "Dos Profetas"): Não demos a imortalidade a homem algum antes de ti. Seriam eles imortais, enquanto que tu vais morrer? E outro ainda (vers. 4 da Sura 10, dita Jonas)

 

  Todos voltareis a Ele. Eis a verdadeira promessa de Deus: Ele faz emanar a criação e depois fá-la regressar, a recompensar aqueles que creem, que praticam as boas obras com equidade. O destino do mortal cumpre-se com a morte, a que não pode escapar. Mas o destino da humanidade é a vida com Deus, no advento da Nova Criação. Creio que há aí, no Islão, uma tradição cristã. Tal como S. Paulo, na sua Carta aos Romanos (6, 2-11, tradução de F .Lourenço) teologicamente expõe: Nós que morremos para o erro, como viveremos nele? Ou ignorais que tantos quantos fomos batizados para Cristo Jesus, para a morte dele fomos batizados? Fomos sepultados com ele através do batismo para a morte, para que, tal como Cristo ressuscitou dos mortos através de glória do Pai, do mesmo modo também nós caminhemos em novidade de vida. Pois se nos tornámos unidos à semelhança da morte dele, também o seremos na semelhança da ressurreição. Saibamos isto: que o homem antigo que havia dentro de nós foi crucificado, para que fosse anulado o corpo do erro; e saibamos que não somos escravos do erro. Pois quem morre foi ilibado do erro. Se morremos com Cristo, acreditamos que também viveremos com ele, sabendo que Cristo ressuscitado dos mortos já não morre: a morte já não tem senhorio sobre ele. Pois aquilo que ele morreu, para o erro morreu de uma vez por todas; aquilo que ele vive, vive para Deus. Do mesmo modo, considerai-vos também vós mortos para o erro e vivos para Deus em Cristo Jesus.

 

   A fé é a minha aproximação a tudo o que ainda não posso ver. Vou aprendendo a contemplar o invisível,

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS 125 ANOS DO TEATRO SÃO LUIZ

 

Temos aqui referido o Teatro de São Luiz em perspetivas que englobam eventos, espetáculos e comemorações realizadas nesta bela sala que tanto marca a vida cultural de Lisboa e mesmo do país, a partir da sua conceção, construção, inauguração e atividade, como teatro, como cinema, como sala de concertos e centro cultural: e também como referência da área urbana em que se inscreve e das variantes urbanas e culturais que sucessivamente envolve.

 

Pois é hoje oportuno recordar que se assinala no dia 22 de maio o 125º aniversário da inauguração do então Theatro Dona Amélia, homenagem à  rainha, com a estreia em Lisboa da ópera “A Filha do Tambor Mor” de  Offenbach, numa produção italiana que aliás constitui, ao longo de decénios, uma das características das sucessivas explorações desta sala de espetáculos, também sucessivamente denominada Theatro da Republica, São Luiz Cine e Teatro São Luiz, conforme o regime e a atividade dominante em cada época.

 

Ardeu em 1915, foi devidamente restaurado, adotou o nome atual em 1918 e é explorado também e por vezes exclusivamente ou quase como cinema a partir de 1926.

 

 A designação decorre da construção se ficar a dever a uma individualidade, o Visconde de São Luiz Braga, nascido no Brasil de pais portugueses e que se fixaria também em Lisboa. De assinalar que o Teatro e depois Cinema São Luiz é um projeto de Ernesto Luis Raymond com intervenções dos cenógrafos Luigi Manini e Carlo Rossi.

 

O certo é que, passados estes 125 anos de constante atividade, o Teatro-Cinema São Luiz, a certa altura municipalizado, constitui um referencial da arquitetura e da atividade de espetáculo e de cultural em geral.

 

E é de assinalar designadamente o período em que o Teatro foi dirigido por Luiz Francisco Rebello que em 1971 se demitiu da atividade por problemas ligados à censura de um espetáculo programado – “A Mãe” de Witckiewicz, que não chegou a estrear.

 

Já aqui recordei a colaboração que na época prestei a Rebello na direção do teatro:  e tal como escrevi, acompanhei-o na saída da direção.

 

Mas ficou até hoje a recordação, e para mim é oportuno referi-la nestes 125 anos do Teatro São Luiz.

 

E não é demais assinalar a extraordinária coleção de placas que, desde quase as origens até hoje, assinalam a realização de espetáculos e eventos de cultura realizados no São Luiz!

 

Voltaremos a referir esta comemoração dos 125 anos de um teatro de Lisboa.

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

30. PATERSON: ENTRE O TRIVIAL E A AUTOSSATISFAÇÃO POÉTICA

 

Paterson é motorista de autocarros e poeta.
Tem um trabalho que não dói, vida e afetos estáveis, uma domesticidade trivial.
A poesia é fundamental para Paterson, o autor, mas Paterson, a cidade, não é poética. Ele e a cidade de Paterson, New Jersey, nos Estados Unidos, partilham o mesmo nome.
Em casa tem livros de William Carlos Williams, entre os quais “Paterson”.

Ele e Laura amam-se e têm um buldogue inglês pacholas, ciumento e intruso.
A urbe que habitam é vulgar, trivial, apática, pouco cuidada.
Aparentemente não infunde poesia.
Mas a poesia está na rua e a rua na poesia. 
A poesia está em casa e em casa a poesia.
Em coisas triviais, como a rotina diária do chofer que a observa e vê passar pelo espelho retrovisor. Os versos dos poemas, sem rima e em prosa, são banais e modestamente poéticos, falando de caixas de fósforos, copos de cerveja, conversas de passadouro.

 

Em Poema de Amor, lê-se:

 

“Temos imensos fósforos em nossa casa. 
Mantemo-los sempre à mão.
   

Atualmente a nossa marca favorita é a Ohio Blue Tip (…)
Eles são excelentemente embalados, (…) com o texto em forma de megafone, (…) como que para dizer ainda mais alto ao mundo, “Eis o mais belo fósforo do mundo, (…) tão sóbrio e furioso e teimosamente pronto a explodir numa chama, acendendo, talvez, o cigarro da mulher que amas, pela primeira vez (…)”
.                                                      

 

Poema em que Laura figura como musa:      

 

“É isso que tu me deste, eu transformo-me no cigarro e tu no fósforo, ou eu no fósforo e tu no cigarro, resplandecendo em beijos que ardem em lume brando rumo ao paraíso”.  

 

Os poemas são minimais, frugais, despretensiosos, humildes e não eruditos, como a vida citadina, pessoal, social e espartana que vive e rodeia Paterson:

 

“Quando somos crianças aprendemos que existem três dimensões: altura, largura e profundidade.   Como uma caixa de sapatos. 


E mais tarde compreendemos que existe uma quarta dimensão: tempo.  Umm.
E há quem diga que podem ser cinco, seis, sete,…
Termino o trabalho, tomo uma cerveja no bar.
Olho para o copo e sinto-me contente”
.

Poemas de coisas concretas, materializando a matéria de que é feita a poesia:
“A água cai do céu singelo.      
Cai como cabelo, a cair dos ombros duma rapariga (…)”.    
“Estou em casa.     
Está agradável lá fora: quente.   
Sol na neve fria. 
Primeiro dia de primavera ou último de inverno”
.    
Poemas de pessoas em concreto, materializando o conteúdo de que é feita a poesia:
“Minha pequena abóbora,
às vezes gosto de pensar em outras raparigas,   
mas a verdade é     
se alguma vez me deixares 
arranco o meu coração
e nunca mais volto a pô-lo no lugar.   
Nunca existirá ninguém como tu. 
Que embaraçoso”
.      


Por que não publicar os poemas? Têm de ser publicados! Sugere e sentencia Laura.

Paterson diz que sim, num permanente adiar, não os divulgando, não querendo que os leiam, até ao dia em que Marvin, o buldogue, os mastiga e tritura: “O cão comeu-me o tpc, o trabalho de casa”. O que aceitou como um facto consumado, qual gesto de autossatisfação. Sem paixão? E perda de orgulho em si próprio, porque eram apenas palavras escritas na água? O protagonista nunca se assumiu como poeta, apenas como motorista.     


Paterson, filme do realizador japonês Jim Jarmusch, é um poema em prosa de aceitação da vida, onde pessoas boas, comuns, resignadas, cansadas, ensimesmadas, gabarolas, macambúzias e perdidas se confundem com a diversidade comum em uniformidade.


Onde a poesia é a sua imagem de marca por excelência, retratando e visando ultrapassar o trivial rumo a um equilíbrio de autossatisfação e de desejável felicidade, numa fusão de simplicidade e profundidade.   
E o nome de Laura, a amada de Paterson, é igual ao da amada de Petrarca…                                      

 

28.05.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

ÁNGEL CRESPO: UMA VERDADEIRA FESTA DA LEITURA

 

Volto de quando em quando a Ángel Crespo. Volto à sua doçura recorrendo à memória do seu passo pelas ruas de Lisboa. O meu regresso à poesia de Ángel supõe sempre o introduzir-me num espaço de aprendizagem de contínuos assombros e desde sempre os seus livros foram a tal festa da leitura para mim.

 

Foi num estado de maravilha em que fiquei quando adquiri este seu livro em Barcelona. Nesta antologia sobressai a contemporaneidade criativa que só ele soube construir, mantendo o pulso no realismo espanhol e devotando-se ao entendimento do consenso sobre a realidade. O seu livro La realidad entera que dá titulo a esta antologia, surpreende num itinerário que envolve a própria filosofia medieva, raridade de um intelectual numa sua criação muito peculiar na cultura espanhola, na segunda metade do seculo passado. Ángel, pensador e poeta de uma claríssima consciência atravessa transversalmente o espaço do conhecimento que, na bela expressão de José Lezama a traduz como sendo a grande amiga de todas as coisas. Julgamos que a palavra poética de Crespo é uma experiência vital para que a poesia resulte entre linguagem e mundo, desafiando a aventura crespiana um espaço do sagrado como forma de conhecimento e de presença de um enigma que possa fazer parte de uma carta, de um animal, de um símbolo, de um amigo e sempre veículo sem estridências que um passeio matinal não cure. Mas a sua obra em geral mesmo em registo que não de poesia, constitui o descobrir de uma escultura, de uma pintura, de uma viagem, do frio e do Nada. Tudo são passos necessários à concepção integral da poesia de Crespo. E, no mesmo processo se encadeia, as suas conferências, o seu professorado, os seus ensaios, as suas traduções. Ángel afirmou

 

Por supuesto, mi própria poesia fue da estimuladora y, en cierta manera, la iluminadora del resto de mi escritura(…) la poesía se ha convertido en objeto casi exclusivo de mis inquietudes intelectuales, tal vez por haber sido, tanto en las circunstancias propricias como en las adversas, mi más decisiva señal de identidad y, desde luego, la celadora constante de mi libertad.

 

Lembremo-nos que estas coordenadas são o centro, o ponto de convergência que converte, dito nas palavras de Borges, ao destino da ética secreta do homem.

 

Crespo mostra-se também muito interessado pelos poetas de cultura portuguesa no momento em que começa a traduzir Virgílio.

 

Afirma então

He procurado, pues, passar de lo intuitivo (o, si se quiere, no racional, pero tampoco irracional) de la consciencia colectiva a lo enigmático de la consciência superior.

 

A verdade é que nos resulta difícil fazer um relato dos caminhos de Crespo que exponham em profundidade a sua curiosidade intelectual insaciável. E chega à leitura de Dante em italiano, chega aos parnasianos - escola literária francesa dos poetas que cultivavam a arte pela arte e que defendiam a perfeição formal face a sentimentalismos excessivos do romantismo. Segundo a mitologia grega Parnaso é um monte onde habitaram as musas.Le Parnasse contemporain, recorde-se era o nome de uma revista francesa de poesia-, e simbolistas franceses em francês, a Baudelaire, à poesia hispano americana com Neruda, Rubén Darío entre outros e é um dos primeiros a reconhecer a alta qualidade de Juan Ramón Jiménez.

 

Mais tarde obtém na Suécia em 1973 o título de doutor em Filosofia e nesse mesmo ano traduz o inferno de Dante e a Antologia da poesia brasileira. O desejo de Crespo do conhecimento do homem através da obra do homem fá-lo viver o sentido do diálogo com o conhecimento sagrado da palavra poética num processo que se iniciou no início dos anos oitenta e em 1987 surge Lisboa y Las cenizas de la flor.

 

Por muito que falemos do percurso de Crespo, tudo é incompleto. Cremos plenamente que dentro do panorama espanhol ele é uma verdadeira exceção. É um poeta comprometido com uma conceção da poesia como conhecimento integrado na modernidade e colocando o sagrado numa situação de diálogo com os poetas que cruzam esse caminho, de Fernando Pessoa a Blake, a Mallarmé, entre outros.

 

Por profunda admiração, por não esquecermos o encontro com Crespo no Largo do Camões em Lisboa, por termos entendido nele uma ternura indizível, pelo orgulho por este grande poeta e em homenagem à sua linha de significação, o poema

 

«El INVISIBLE»

 

Yo sé que alguien me habla,

me habla con insistencia,

tercamente me dice cosas que debo saber,

pero ese alguien no usa mis palabras,

pero yo no conozco su lenguaje,

y los dos, frete a frente,

sin vernos, angustiados,

no podemos unir nuestros discursos.

 

A veces casi escucho su mensaje,

presiento cómo lucha junto a mí,

cómo trata de hablarme, de decirme,

cómo viene a mi libro, a mis papeles,

cómo se sienta al lado, invisible, en la silla

cómo hace a mi madre que diga cosas raras

que mi madre no querría decir,

para que yo le entienda.

 

También, cuando passeo,

a la cara me arroja hojas secas, y a veces

me hace tropezar en una brizna.

 

Pero yo no le entiendo,

yo no sé qué me quiere decir,

yo soy un tope incomprensivo, y sólo

sé abrir los ojos y exclamar con miedo:

Quién eres? Qué me quieres decir?

 

Pero se va

si nota mi impaciencia.

 

Teresa Bracinha Vieira

GREVE DAS MULHERES E O FEMINICLERICALISMO

 

1. Escrevi aqui recentemente sobre as mulheres na Igreja, perguntando: “E se as mulheres fizessem greve na Igreja?” Uma mulher de alta estatura intelectual, espiritual e social comentou: “As igrejas ficavam vazias.”

 

Nem de propósito, mulheres católicas alemãs de várias dioceses acabam de boicotar durante uma semana o seu trabalho voluntário nas igrejas e fazer greve às Missas, para protestar contra o machismo e os abusos do clero. “Deploramos os casos conhecidos e desconhecidos de abuso e o seu encobrimento e ocultação por parte dos líderes da Igreja.” E exigem “o acesso das mulheres a todos os ministérios.” Facto é que, como disse Thomas Steinberg, presidente do Conselho Central de Católicos Alemães, “sem as mulheres nada acontece” e, portanto, é necessário seguir um “caminho sinodal” por parte da Igreja, operando as mudanças que se impõem. Aliás, já antes, católicas francesas tinham denunciado o machismo na Igreja, causa dos abusos contra mulheres e crianças: “na Igreja, todo o poder está nas mãos de homens solteiros, os únicos com capacidade para decidir, governar, ensinar, e que dizem ser mediadores da relação com Deus e com o sagrado.” E insistem: “Isto não pode continuar por mais tempo. Tem que mudar.”

 

2. As mulheres não podem ser discriminadas na Igreja. Jesus não as discriminou. A prova está em que teve discípulos e discípulas, como testemunham muitos passos dos Evangelhos, e Maria Madalena foi determinante no cristianismo. De facto, foi ela que, depois da crucifixão, quando tudo parecia ter sido o fim, reuniu outra vez os discípulos à volta da experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado está vivo em Deus, que é Amor. Voltaram a reunir-se na fé em Jesus, o Vivente, e foram anunciar que Ele é o Messias, o enviado de Deus como “o Caminho, a Verdade e a Vida.” E testemunharam-no, dando a vida por isso. De tal modo Maria Madalena foi determinante que Santo Agostinho lhe chamou “a Apóstola dos Apóstolos”.

 

Também São Paulo fala com imenso respeito das suas colaboradoras. Por exemplo, na Carta aos Romanos, escreve: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que também é diaconisa na igreja de Cêncreas, recebei-a no Senhor, de um modo digno dos santos. Saudai Trifena e Trifosa, que se afadigam pelo Senhor. Saudai Andrónico e Júnia, meus concidadãos e meus companheiros de prisão, que tão notáveis são entre os apóstolos e que, inclusivamente, se tornaram cristãos antes de mim”. Na Carta aos Gálatas, 3, 26-29, escreve: “É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé, pois todos os que fostes baptizados em Cristo revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus.” Portanto, na Igreja, e não só, há uma igualdade originária.

 

Jesus Cristo é, sem dúvida, quando se pensa a sério no que Ele fez, disse, foi e é, a figura mais determinante da História da Humanidade. São Paulo explicitou essa influência, a partir da sua própria experiência pessoal, avassaladora, que se traduz naquela conclusão: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher.” Que experiência foi essa, que o levou de perseguidor a Apóstolo, fazendo milhares e milhares de quilómetros, com os meios precários da altura, para anunciar o Evangelho? Há uma pergunta fundamental que Paulo faz: o que vale um morto?, o que vale um morto, concretamente um crucificado morto? Mas, ao fazer a experiência de fé de que esse Jesus crucificado está vivo em Deus, conclui que Deus o ressuscitou e, portanto, Ele vale para Deus, tem valor para Deus. E, se Jesus crucificado, morto, vale para Deus, como mostra a ressurreição, então todos valem, todos os homens e mulheres, independentemente do sexo, da etnia, da religião, da idade, da cor, valem para Deus, têm valor. Todos têm dignidade diante de Deus. Já não há escravo nem livre, nem judeu nem grego, nem homem nem mulher.

 

Alguém conhece revolução maior na História do mundo, de que lentamente se foi e vai tomando consciência, a ponto de se proclamar a dignidade inviolável de todas as pessoas, nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos? As comunidades cristãs celebravam a Eucaristia, lembrando Jesus, a sua memória e reconheciam-no na partilha do pão, em refeições festivas, e, pela primeira vez, senhores e escravos, homens e mulheres, judeus e gregos se sentaram todos à mesma mesa. E quem presidia era o dono ou a dona da casa, que recebiam a comunidade. Com o tempo, a Igreja tornou-se uma estrutura de poder e aí tudo se transformou, chegando-se ao cúmulo daquelas celebrações da Ceia de Jesus que já nada têm de fraterno, pois mais parecem cerimónias das cortes imperiais. Naqueles longos pontificais com pompa imperial, adornos de ouro e pedras preciosas, vestimentas luxuosas que por vezes até rondam o ridículo, em que participam inclusivamente patifes e ladrões sem o mínimo propósito de emenda nem conversão, alguém se lembra da Última Ceia de Jesus? Quem preside? Os “senhores”, donos de Deus e do sagrado. Evidentemente, as mulheres foram ficando excluídas da presidência. E, lentamente, a revolução evangélica de Jesus, da radical igualdade de todos, teve de ser proclamada fora da Igreja oficial e ser-lhe imposta de fora, como aconteceu com as proclamações dos direitos humanos.

 

3. E Francisco? Ele está convencido de que “é necessário ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. As mulheres formulam questões profundas que devemos enfrentar.” Disse às religiosas: “Não às criadas. Nenhuma de vós se faz freira para ser uma servente dos padres.” Em Julho de 2016, nomeou uma comissão igualitária de homens e mulheres para estudar o papel das mulheres na Igreja primitiva. A comissão terminou o seu trabalho sem acordo e ele acaba de comunicar no Encontro internacional das religiosas que, sobre o caso do diaconado, “temos de ver o que havia no início da Revelação. Se o Senhor não nos deu o ministério sacramental para as mulheres, a coisa não dá. Por isso, estamos a investigar a história”. Francisco não fechou a porta, mas ficou atado com a questão do diaconado como sacramento ou não para as mulheres.

 

Aqui precisamente, chegámos ao nervo do problema, problema nuclear da Igreja, porque está na base do clericalismo e do carreirismo, “a peste da Igreja”, na expressão de Francisco. Foi o maior exegeta católico do século XX, professor da Universidade de Tubinga, Herbert Haag, que me ensinou que Jesus não ordenou ninguém “in sacris”,  nem homens nem mulheres. Na Igreja, há ministérios (Autrag), mas não há ordenação sacra (Weihe). Todo o povo de Deus pelo baptismo é Povo sacerdotal, mas  não há sacerdotes. Toda a Igreja é ministerial, mas o Novo Testamento evitou a palavra hiereus (sacerdote) e, entre os carismas (dons do Espírito Santo), não se refere o sacerdócio.

 

Neste enquadramento, Pepe Mallo foi ao essencial, quando escreveu: “Porque é que se há-de sacramentalizar os ministérios? É evangélico sacralizar (ordenar ‘in sacris’) as pessoas? Não se deverá dissociar ‘ordenação’ e ministério’? É certo que Jesus não ordenou mulheres, mas também não ordenou homens, e, menos ainda, no sentido, aspecto e categorias de que desfrutam hoje os clérigos. Jesus não instituiu nenhum sacramento da ‘Ordem Sagrada’, nem para mulheres nem para homens. As funções de diáconos e diaconisas, bem como de presbíteros e bispos  de que falam as Cartas no Novo Testamento eram pura e simplesmente ministérios da comunidade e para a comunidade. Não eram dignidades e privilégios de supremacia e domínio.” Na Igreja, tem de ser respeitada a dignidade de todos, mas não há dignidades nem dignitários.

 

Jesus dizia no Evangelho: “Tomai cuidado com os fariseus e os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes. Vós sois todos irmãos.” Voltando às primeiras comunidades, é preciso reconhecer o sacerdócio de todos os baptizados, homens e mulheres, e, assim, proclamar e exigir a igual dignidade de todos. Mas, se as mulheres apenas reclamarem o poder dos homens na Igreja, então teremos o mal acrescentado:  ao mal do clericalismo machista acrescentar-se-á o do feminiclericalismo. Julgo que é este o receio do Papa Francisco, quando critica algum feminismo como “machismo de saias”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 26 MAI 2019