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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Nunca duvidei que a leitura iluminadora situa o tornar acessíveis as incertezas de uma interpretação. 

 

Nunca duvidei que uma tela com luz própria cria um movimento de análise e resposta a muitas interrogações.

 

Nunca duvidei o quanto uma peça musical ativa a precedência íntima e lúcida da imaginação.

 

Nunca duvidei o quanto uma escultura nos pode aportar ao ângulo virtuoso das razões simples e fundamentais.

 

Não duvido que a anatomia do comportamento seja deliberadamente ignorada para que se não detetem as vertigens em voga.

 

Em rigor, vive-se no cerne de rasuras totais ao significado.

 

Registo, o quanto se abandonou a diferença primordial entre criação e o seu reflexo, ou entre criação e seu dependente secundário.

 

Resumem-se ao Jogo da não-vida os sucessos formais, cujos efeitos são corrosivos, pulverizando a vulgarização, o kitsch e as subculturas de massas, sobretudo nas relações de comunicação entre as gentes.

 

A realidade decadente abrange a hipótese do enlouquecer pela erosão da privacidade e poderá ser expectável que os conflitos venham a estar assentes entre credos desacreditados e razões cercadas de trevas.

 

E a memória ainda reivindica as suas raízes num «nós» afetivo? E a arquitetura entre as artes e a eletrónica? E que alerta perante o que é novo numa re-identificação de si próprio? E o nosso cobertor de infância é agora computacional? Virtual o nosso lar? E no circo do não-mundo a mercadoria é amada numa liberdade de lucro?

 

Manequins e maquettes são afinal a moeda autorizada e a nova palavra coincide com o simulacro. Digo.

 

E em verdade, se posso ter algum descanso, ele reside na luta pela ciência interrogativa do espírito crítico, e assim ele seja o pequeno contributo que vá denunciando o reino do espetáculo.

 

Diria que um poema passou a ser tão mudo quanto o acesso à corda de um violino trancado num armário, e, muito por essa razão, se luta, para colocar o pragmatismo ao serviço das ideologias e assim manipular as massas.

 

Referindo-se à pintora Rose Wylie, Ana Ruepp disse: olhar é sempre um ato extraordinário que transforma e que interrompe o mundo.

 

Como é que isso é possível? Pergunta-se para espanto meu.

 

E edifiquei a minha casa no meio dos homens não encontrando outras palavras para esta verdade.

 

A neofesta acede ao corredor das lojas num prazer coletivo de sentir a proximidade mimética com os outros: eis o contributo à felicidade de uma multidão «unificada». O indivíduo procura-se no colectivo onde encontra segurança. Férias em grupos, jantares em grupos, todos com todos, de tal modo que se não sabem perder.

 

Os transes burlescos nas ambiências fun assemelham-se a deambulações turísticas da vida.

 

O despropósito festivo deu lugar à finalidade distrativa. As pessoas falam e falam e falam por sms e telefonam-se, entre outras não-comunicações.

 

As pessoas são o seu próprio pico de audiências acríticas mas prontas a agredir o que não compreendem, antes julgam desenfreadamente o desconhecido, e julgam-se atletas no único género de amor que conhecem, enquanto se autoproclamam heróis da sua vidinha.

 

E eis que esta também é uma sociedade de performance, uma sociedade de época, da aparência, da tirania da beleza, da corrida desenfreada e desumanizada aos resultados.

 

A sociedade do pronto-a-pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira

QUERIDA AMAZÓNIA

 

Na sequência do Sínodo sobre a Amazónia, que se realizou em Roma de 6 a 27 de Outubro do ano transacto, Francisco publicou, no passado dia 2 de Fevereiro, uma Exortação Apostólica Pós-Sinodal, a que deu o título “Querida Amazónia”.

 

Nela, formula quatro grandes sonhos: 1. O sonho de “uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e a sua dignidade promovida.” 2. O sonho de “uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana.” 3. O sonho de “uma Amazónia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas.” 4. O sonho de “comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia que dêem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.”

 

E explicita e concretiza os sonhos:

 

1. Um sonho social. Impõe-se a indignação e um grito profético a favor dos mais pobres e explorados, contra os interesses colonizadores, antigos e presentes, que lucram “à custa da pobreza da maioria e da depredação sem escrúpulos das riquezas naturais da região” e dos seus povos. “Os povos nativos viram muitas vezes, impotentes, a destruição do ambiente natural que lhes permitia alimentar-se, curar-se, sobreviver e conservar um estilo de vida e uma cultura que lhes dava identidade e sentido.” Danificar a Amazónia, não respeitar o direito dos povos nativos ao território e à autodeterminação tem um nome: “injustiça e crime”.

 

2. Um sonho cultural. É preciso assumir e defender os direitos dos povos e das suas culturas. Não se pode destruir a cultura dos povos, pois ela faz parte da identidade. Destruí-la conduz à desintegração. Não se pode continuar a considerar esses povos como “selvagens não-civilizados”. Por isso, “o objectivo é promover a Amazónia; isto, porém, não implica colonizá-la culturalmente, mas fazer de modo que ela própria aproveite o melhor de si mesma.” Sentido da melhor obra educativa: “cultivar sem desenraizar, fazer crescer sem enfraquecer a identidade, promover sem invadir.”

 

3. Um sonho ecológico. Para entender melhor o pensamento de Francisco, valerá a pena ir ao étimo das palavras, pois ecologia, economia e ética estão em relação e interpenetram-se, em conexão com casa. Assim: ecologia tem o oikos grego que significa casa (portanto, tratado da casa), como economia, de oikos, casa, e nómos, lei (portanto, governo da casa) e ética, de êthos, morada (portanto, como devemos agir para habitarmos a nossa casa autêntica, sermos verdadeiramente nós).

 

Assim, percebe-se o conceito de “ecologia integral”: a ecologia da natureza exige uma ecologia humana e uma ecologia social. “Se o cuidado das pessoas e o cuidado dos ecossistemas são inseparáveis, isto torna-se particularmente significativo lá onde a floresta não é um recurso para explorar, é um ser ou vários seres com os quais se relacionar.” Daí, uma ética do cuidado pela Mãe Terra, pela casa comum, tanto mais quanto já compreendemos que, por exemplo, o que nós chamamos alterações climáticas para os mais pobres é fome: o clamor da natureza é ao mesmo tempo o clamor dos mais pobres. A conclusão só pode ser: se o equilíbrio da terra também depende da Amazónia, “o interesse de algumas empresas poderosas não deveria ser colocado acima do bem da Amazónia e da Humanidade inteira.” Os projectos económicos internacionais de indústrias extractivas, energéticas, madeireiras e outras que destroem e poluem não podem ignorar os seus efeitos ambientais deletérios. “Além disso, a água, que abunda na Amazónia, é um bem essencial para a sobrevivência humana.”

 

Impõe-se, pois, mudar de paradigma, o que significa também libertar-se do “paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza e nos deixa sem uma existência verdadeiramente digna.” Esta mudança exige, por sua vez, outro tipo de educação: “Não haverá uma ecologia sã e sustentável, capaz de transformar seja o que for, se não mudarem as pessoas, se não forem incentivadas a adoptar outro estilo de vida, menos voraz, mais sereno, mais respeitador, menos ansioso, mais fraterno.”

 

4. Um sonho eclesial. Muitas vezes me perguntei como seria visto e dito o cristianismo, se ele, nascido dentro da cultura bíblica, em vez de ter, imediatamente a seguir, passado para a cultura helenista, sendo nela sobretudo que a doutrina foi reflectida e dogmatizada, tivesse passado, por exemplo, para a Índia ou para a China. Seria certamente a mesma fé cristã, mas dita e reflectida noutra linguagem e com outros conceitos. Pergunte-se, por exemplo: quando hoje se confessa o Credo e se diz, referido a Jesus: “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, ou se diz: “creio na ressurreição da carne”, ou “desceu aos infernos”, em que pensarão as pessoas que já não vivem nem pensam no contexto helenista ou bíblico?

 

Isto, para dizer a importância da linguagem e da cultura e da necessidade da inculturação: a mesma fé precisa de ser vivida e dita dentro de culturas diferentes, o que implica também outros símbolos e rituais nas celebrações litúrgicas. Neste sentido, porque é que em todas as culturas se há-de celebrar a Eucaristia com pão e vinho e não com os elementos próprios das respectivas sociedades e culturas?

 

Francisco é muito sensível à inculturação e isso está claro no seu sonho eclesial: inculturação social e espiritual, inculturação da liturgia, inculturação do ministério.

 

4.1. A unanimidade no coro de louvores quanto aos três primeiros sonhos não se repetiu quanto ao sonho eclesial, pois ele foi para muitos uma decepção, afirmando-se mesmo que constituiu um erro, já que se perdeu uma oportunidade histórica. De facto, no documento final do Sínodo, ficaram, com a votação positiva de mais de dois terços, pedidos para que houvesse a possibilidade da ordenação de homens casados e do diaconado feminino. Contra todas as expectativas, esses dois temas foram ignorados na Exortação “Querida Amazónia”.

 

4.2. Jesus não pertencia à classe sacerdotal, não era sacerdote no sentido clerical. Não consta que tenha ordenado alguém sacerdote “in sacris”. Na Carta de São Pedro, lê-se que os cristãos são todos sacerdotes pelo baptismo, povo sacerdotal. Nas primeiras comunidades, houve inclusivamente mulheres que presidiram à celebração da Eucaristia...

 

Neste quadro, há teólogos que pensam, com razão, que, em caso de necessidade, uma vez que a Eucaristia é fonte e cume de toda a vida cristã como disse o Concílio Vaticano II, quando não há um padre ordenado — é esta a situação da Amazónia, onde as comunidades podem passar mais de um ano sem a presença de um padre —, as comunidades poderão celebrar validamente a Eucaristia, sem a presença do padre. Significativamente, o Concílio Vaticano II evitou a expressão, referida ao padre, de “alter Christus” (outro Cristo).

 

Ainda neste sentido, houve, em pleno Sínodo de Outubro, o testemunho de uma religiosa, a espanhola Alba Teresa Cediel — uma das 35 mulheres que participaram no Sínodo, com voz, embora sem poder votar —, a dizer que as mulheres “acompanhamos os indígenas nos diferentes eventos, quando o sacerdote não pode estar presente e se é preciso um baptismo, baptizamos, se alguém quer casar, nós estamos presentes e somos testemunhas desse amor, e muitas vezes acontece ouvir em confissão, mas não demos a absolvição, mas...”. Neste contexto, é teologicamente legítimo perguntar: porque é que não dão a absolvição? No Evangelho segundo São João está escrito que Jesus disse: “a quem perdoardes os pecados serão perdoados...” Disse a quem? Não foi aos Apóstolos, foi aos discípulos (oi mathetai).

 

De qualquer modo, nos números 87 e 88 da Exortação, Francisco veio lembrar que só o sacerdote, “mediante a Ordem sacra”, tem o poder, “que não se pode delegar”, de presidir à Eucaristia — só ele pode dizer: “Isto é o meu corpo” —, e “há outras palavras que só ele pode pronunciar: “Eu te absolvo dos teus pecados”. Evidentemente, nestas circunstâncias, uma vez que também reconhece, como não podia deixar de ser, que “a Eucaristia faz a Igreja” e “nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da Santíssima Eucaristia”, acentua-se e ergue-se ainda mais gritante a pergunta: Porque é que Francisco não abriu a porta à ordenação de homens casados?

 

Outra pergunta decisiva: a última palavra está dita ou, pelo contrário, vem aí o que poderá ser o início da verdadeira revolução para Igreja, a partir de Francisco?

 

É o que vamos ver na crónica da próxima semana.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 MAR 2020

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

“O Cavaleiro Andante” publicou em 1957 e 1958, da autoria de Fernando Bento, a série “Emílio e os Detectives”, com base no célebre livro homónimo de Emil Erich Kästner (Dresden, 1899 – Munique , 1974). Hoje, é extraordinário, ver neste exemplo como a escola do “Cavaleiro Andante” foi um exemplo vivo de pedagogia da liberdade. Kästner foi escritor, jornalista e poeta que desenvolveu a sua atividade durante a República de Weimar. Com o início do regime nazi, foi um dos poucos intelectuais proeminentes contrários à situação que permaneceram na Alemanha, mas as suas obras fizeram parte da lista de livros queimados na noite de cristal e considerados como antinacionais. Apesar de várias represálias, pôde trabalhar sob um pseudônimo como jornalista e autor de diversos filmes de comédia. Com o fim da Guerra, em 1945, Kästner regressou à escrita com o seu próprio nome, tendo sido eleito em 1951 presidente do PEN Clube da RFA. Tomando posição contra o rearmamento, solidarizou-se com os movimentos pacifistas e militou na causa antinuclear.  Foi assim um homem de cultura devotado às causas da liberdade e dos direitos humanos. A sua popularidade deveu-se principalmente aos seus livros infantojuvenis, como “Emílio e os Detectives” (1929), “A Sala de Aula Voadora (1933) e “Cachos e Tranças” (1949), além de um vasto conjunto de poemas, epigramas e aforismos. Uma de suas mais conhecidas coletâneas de poesia, foi publicada pela primeira vez em 1936 pela editora suíça Atrium sob o título de “A Pequena Farmácia do Dr. Erich Kästner”. Em 15 de outubro de 1929, foi lançado o livro “Emílio e os Detectives”, por sugestão de Emil Jacobsohn. O livro constituiu um enorme sucesso, teve mais de dois milhões de cópias vendidas só na Alemanha e até hoje já foi traduzido para cinquenta e nove idiomas. O romance decorre na cosmopolita cidade de Berlim de entre guerras, constituindo um verdadeiro roteiro e uma homenagem aos berlinenses, aos seus monumentos e estrutura urbana e sobretudo aos cidadãos. O espírito de aventura e a alegria dos seus protagonistas contrasta com o clima depressivo e bélico que se desenvolvia e que teve os efeitos dramáticos conhecidos. Não podemos ainda esquecer a qualidade das ilustrações de Walter Trier, que foi um ingrediente extraordinário para tornar este livro como referencial, não só na Alemanha, mas na Europa. A versão cinematográfica de “Emílio e os Detectives”, dirigida por Gerard Lamprecht com Billy Wilder, foi um grande sucesso de 1931. No entanto Kästner considerou que o filme não era fiel ao espírito do livro… De qualquer modo, pode dizer-se, ao menos duas coisas, é verdade que a versão cinematográfica não dispensa a leitura do livro, para a compreensão do seu verdadeiro espírito, há, de facto, aspetos que divergem do espírito do autor; mas, por outro lado, o filme foi grandemente responsável para multiplicar o sucesso do livro, atraindo muitos leitores, que assim descobriram o caráter único e inovador do romance e do seu fantástico espírito. E é neste ponto que merece referência especial a versão de Banda Desenhada de Fernando Bento realizada para o “Cavaleiro Andante”. Com “Beau Geste”, estamos perante uma das obras-primas daquele que foi certamente, ao lado de Eduardo Teixeira Coelho, um dos maiores artistas portugueses da Histórias de Quadradinhos. Seguindo de perto o romance de Kästner, procurando ser-lhe fiel, apresenta um traço inconfundível e uma narrativa muito viva e original, que não só atrai para a leitura da obra que lhe serve de base, como demonstra, com clareza, a importância do espírito de liberdade e aventura que contempla, em contraste com a lógica belicista e não-democrática. Dir-se-á, pois, que “Emílio e os Detectives” prenuncia o melhor espírito do que viria a ser a Alemanha federal – e hoje constitui uma homenagem à cidade de Berim, que se tornou símbolo da cultura de liberdade europeia!

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

De 16 a 22 de março de 2020

 

«Diálogo com António Sérgio» de A. Campos Matos, Edições Colibri, 3ª edição, 2019, reúne um conjunto de textos antológicos, a partir de originais do próprio autor dos “Ensaios”, montados em forma de entrevista, o que permite um contacto direto com a obra de um autor fundamental do século XX.

 

 

VOCAÇÃO PEDAGÓGICA
A abrir o Diálogo com António Sérgio, Agostinho da Silva, num texto publicado em 1983 no JL diz-nos: “Creio que nenhum dos grandes vultos da história da cultura portuguesa poderá ombrear com Herculano tanto como Sérgio. Ligam-nos exigências do documento, a privacidade do pensar lógico (se é que há outro), a vocação pedagógica, a integridade do comportamento, a incansável intervenção cívica, a dedicação a um projeto de Portugal, a insistência numa reflexão de conjunto, e, na expressão e variedade de estilo, ainda mais vincada no de Vale de Lobos. Excede-o Sérgio na conceção filosófica, que vai além do kantismo”. Nada melhor do que, neste número celebrativo do JL, invocar o ensaísta pela mão de um sergiano de provas dadas, como Campos Matos, sob a memória de Alexandre Herculano e através da recordação de Agostinho da Silva. Passados cinquenta anos depois da morte de António Sérgio, é fundamental voltar a lembrar o que José Cardoso Pires perguntava no célebre número especial de “O Tempo e o Modo” (1969): “Quantos anos levará o País a inventariar criticamente o espantoso trabalho deste homem de exceção?”. É uma tarefa que nos está confiada e exigida, compreendendo o que o próprio ensaísta nos ensinou – a ler criticamente uma obra de ideias, contrapondo e confrontando argumentos, provas, evidências, dúvidas, incertezas… Uma leitura acrítica será sempre uma traição, já que o pensamento flui permanentemente e só pode tornar-se vivo se for posto à prova, confirmado ou infirmado… “Sou apenas pedagogista, uma sorte de pregador, um filósofo, um campeador pela cultura e pelo bem do Povo cujo único cuidado são as pedras vivas que sofrem; e se às vezes problematizo sobre temas de História faço-o como ensaísta de soluções hipotéticas acerca da maneira de interpretar o que foi”… (Ensaios, II). O estudo histórico visa, no fundo, a melhor compreensão da humanidade, como realidade que se projeta no presente, a partir do passado com compreensão dos desígnios futuros. A leitura de um texto, ainda atualíssimo, como Educação Cívica demonstra bem como António Sérgio considerava a aprendizagem como fator essencial de desenvolvimento, pensando a história não como modo de mudar a mentalidade de quem a estuda, mas como forma de viver melhor e com mais exigência. Daí a importância do ensaísmo. “Entre nós (como diz Sílvio Lima), o ensaísmo renascentista só entre navegadores perpassa: esse, porém, muitíssimo limitado na sua alçada (a técnica navegatória, a observação material), por isso que no domínio filosófico e humano a estrita ortodoxia do catolicismo de Trento impunha barreiras de tal forma rígidas que tornavam impossível o mais pequenino ensaio”. A singularidade de Montaigne e a procura do “que sais-je?” romperam esse constrangimento tradicional, abrindo horizontes, como Antero afirmou, melhor que ninguém, ao tratar do tema no Casino Lisbonense, a propósito das “Causas da Decadência”. “O espírito ensaístico é o espírito crítico, é o da dúvida metódica, e o de plurilateralismo de visão racional; é o da plena consciência do caracter hipotético de todo o nosso pensamento e interpretação das coisas”…

 

O QUE É A CRÍTICA?
E que é a crítica? O entendimento da complexidade e da dificuldade das coisas, o ceticismo ativo, a sinceridade connosco. E eis que se trata de usar o método positivamente. Assim como as navegações pressupuseram um crer consciente e positivíssimo, não puderam ser “a acertar” ou pelo uso do improviso. Não. “Atos sem dúvida de estupenda audácia são planeados e encaminhados por uma grande obra de Inteligência. Nada de aventureirismos nem de sonambulismo, mas um modelo acabado de razão prática: o claríssimo pensamento precedia o nobre feito”. A fixação e o transporte constituem, deste modo, bons exemplos de reflexão para Sérgio, a propósito das duas políticas nacionais de Portugal. Estas não podem ser vistas de forma simplificada e unilateral: a doutrina da fixação “não é uma ideia exclusiva, não pretende que desistamos de comerciar e de transportar; muito pelo contrário; (Sérgio) sustenta, porém, que a atividade comercial marítima não será sólida e vigorosa se não assentarmos ao mesmo tempo, e na mais pujante vitalidade, a base económica metropolitana e a prosperidade do nosso agrícola, de que depende o emprego para os demais cidadãos; que a faina da periferia, que essa corrente vital do exterior para o interior, ou centrípeta será mórbida, e extenuante se não for forte e regular a vitalidade do seu núcleo, e saudável a corrente sanguínea que vai de dentro para o exterior, ou centrífuga, na lida económica do País…”. Longe da ideia de que as inércias podem ser criadoras de riqueza, o ensaísta fala-nos na necessidade de planeamento, de cooperação e de uma organização das instituições e das elites de modo a fomentar o progresso. Na linha de pensamento da Geração de 1870, o ensaísta recusa o fatalismo do atraso e propõe não só uma explicação para incapacidades antigas, mas também saídas futuras para superar bloqueamentos e fragilidades ancestrais.    

 

UM PENSAMENTO ATUAL
Que propunha, afinal, António Sérgio? “Procure adquirir cada cidadão português uma noção geral da maneira prática de darmos ao país da realidade o lugar que lhe compete; procure governar a sua vida económica por meio de instituições cooperativas; procure compreender alguma coisa dos interesses económicos da sua terra, de como esses interesses tomarão corpo nas cooperativas e nos sindicatos, de como os grupos desses interesses se organizarão no município, e os interesses provinciais nas assembleias provinciais que devem ser corpos legislativos com larga alçada administrativa, sobretudo pelo que respeita às finanças e à economia”. Urgia compreender as condições materiais complexas e diversas e a necessidade de elites locais, “capazes de dirigir com espírito largo os negócios concretos da região, de civilizar o povo com quem estão em contacto e de inspirar as decisões do governo central”, chamando o Estado as associações e a sociedade civil a colaborar com ele. Descentralizar pelo espírito, seria dar responsabilidade aos cidadãos e realizar o autogoverno, a partir da educação cívica e da escola. Alexandre Herculano falou, por isso, da governação do país pelo país. Daí a necessidade de erradicar uma espécie de parasitismo e de indiferença, pelos quais a sociedade se torna passiva e incapaz de progredir. Por isso, aquando exerceu funções de Ministro da Instrução Pública, num breve período, A. Sérgio deixou-nos a fundamental Junta de Propulsão de Estudos, para apoiar os estudiosos e investigadores nas principais instituições científicas do mundo, porque “cultura não é receber, ingerir, mas essencialmente criar – criar em nós próprios uma mente lúcida universalista, crítica”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Pouco sou consumidor, menos ainda frequentador, de discursos e comentários políticos. Aliás, pouco me interessa o que dizem ou possam dizer, divirto-me mais a antecipar o que dirão. Sou esteticamente alérgico a quase todos, tal como às catatuas indignadas que por aí vão, sem reflexão nem critério, perorando contra todos e quase tudo. Recuso-me a olhar para o resultado de qualquer eleição ou referendo para contar votos e ordenar vencedores e vencidos, mais me preocupa tentar perceber os fatores sociais e culturais que ditam tais resultados, e vou tentando interpretá-los tão objetivamente quanto possa, sem me ater a quaisquer simpatias ou antipatias pessoais, nem me prender a critérios de ordem ideológica.

 

   A citação de Steve Bannon com que encerro a minha carta anterior poderá ajudar-nos a melhor entender o que quero dizer, se a relermos inserida no seu contexto. Na verdade, aquele conselheiro do presidente Trump habita hoje uma casa catita na Costa Leste, sinal iniludível do êxito duma carreira profissional seguinte a um estimável diploma de Harvard. Todavia, além de se manter fiel a uma tradição católica conservadora da sua família e educação básica, também não esqueceu ser filho de operários da cintura industrial norte americana designada rust belt, hoje uma das faixas demográficas onde Trump foi buscar grande parte do seu eleitorado. É gente desiludida pelo que considera ter sido o abandono da sua condição por uma democracia conduzida pelas novas classes cosmopolitas e participantes do atual processo de globalização económica e social.

 

   O exemplo de Steve Bannon é destacável, não só pela posição que conseguiu na construção do triunfo de Trump, mas sobretudo porque a família Bannon, de origem irlandesa e católica, foi sempre, como tantas outras linhagens norte americanas, fiel ao partido democrata, eleitora de "kennedys", etc... assim sendo sinal de como os atuais surtos do chamado populismo se devem mais a sentimentos de quem se sente traído por protagonistas dum sistema político em que se confiava, do que a uma hipotética restauração totalitária. As reivindicações nacionalistas têm mais a ver com a crise e o desejo de restabelecimento de uma identidade própria do que com quaisquer concessões a tentações de totalitarismo. No caso em análise, é importante recordar-se que, nas últimas décadas, quer por força do desenvolvimento da robótica e de outras novas tecnologias, como da globalização dos grandes grupos económicos e consequente deslocalização de unidades de produção das indústrias manufatoras, as condições de remuneração e vida das classes operárias e da média burguesia das sociedades industrializadas se foram progressivamente deteriorando e gerando sentimentos de exclusão e injustiça social, facilmente convertíveis em xenofobia perante as crescentes vagas imigratórias provenientes de países em via de desenvolvimento. Às causas locais do correspondente aumento da emigração a partir destes países pouco cuidado foi prestado, pelo que os motivos de descontentamento e furiosa reivindicação de direitos a respeitar foram alastrando por todos os lados, como demonstram as tragédias migratórias no Mediterrâneo ou os excessos cometidos por coletes amarelos.

 

   Evidentemente também, a evolução da prática democrática nas democracias ocidentais para o "marketing" eleitoralista dos políticos e concomitante surto de um fulanismo estelar "à Hollywood", quer em "shows" televisivos, quer, mais banalmente, através das "redes sociais" ou "internet de fofocas", vai ajudando ao apagamento do espírito crítico no foro público, bem como à quase impossibilidade de se construírem plataformas sérias de debate e desejáveis acordos. Da edição deste março da revista literária francesa Lire, retiro umas declarações do escritor israelita Etgar Keret, de que a L´'Olivier publicará em breve uma obra intitulada Incident au fond de la galaxie. Traduzo:

 

   A população de Israel está extremamente dividida. A 2 de março, terá as suas terceiras eleições legislativas em curtíssimo lapso de tempo. Quando olho à minha volta - é candidato Benjamim Netanyahu, suspeito de fraudes e corrupção, e já Donald Trump sai ileso do seu processo de destituição - fico com a impressão de que os dirigentes políticos já não são eleitos responsáveis perante o povo, mas estrelas de cinema. No passado, os média faziam títulos com a educação ou a abertura de hospitais; hoje, 99% do que nos é dado ouvir são comentários, quase sempre ordinários, de Trump, Netanyahu ou Putin acerca de fenómenos da actualidade...   ... A democracia segundo Netanyahu e Trump serve para tornar insuportável a existência de todos aqueles que são diferentes deles: homossexuais, ateus, estrangeiros...e isso inquieta-me mais do que o resultado das eleições no meu país.

 

   Fica - assim me parece, Princesa de mim - respondida a afirmação de Bannon sobre a saúde actual da democracia. Afinal, como já bastas vezes te escrevi, o problema é mesmo uma questão de cultura...ou sobre a falta dela. Leio. na imprensa britânica e norte americana desta manhã que o presidente dos EUA decretou a interdição, por um período de trinta dias, de qualquer voo proveniente da Europa, com exceção dos originários do Reino Unido. Justifica a medida como prevenção contra o covid 19. Haverá alguém que lhe recorde outra curiosa exceção britânica, além dessa sua decisão discricionária? Tanto quanto saiba, no governo de Sua Majestade britânica, a própria ministra da saúde está infetada pelo vírus. Mas tal medida, ao que entendi, fere igualmente a entrada de pessoas não cidadãs dos EUA, bens e mercadorias... Pelo que a justificação sanitária será mero artifício.

 

   Pelo início dos anos 1990, foi aparecendo por aí o conceito e a palavra democratura que, na sua obra La Démocrature: dictature camouflée, démocratie truquée (Paris, L´Harmattan, 1992), o sociólogo e economista Max Liniger Goumaz origina no período marcado pelo fim da Guerra Fria e a transição de regimes comunistas para democracias liberais. Hoje, falamos mais de democracias iliberais. Seja como for, diz Max-Erwan Gastineau (cf. Le dictionnaire des populismes, Paris, Cerf, 2019), nos cenáculos e centros de decisão, chegara então a hora da transitologia, do fim da História de Fukuyama e da harmonização das políticas aduaneiras. O mundo converge... Deveremos então estreitar laços e, sob os auspícios do direito e do comércio fraterno, preparar o advento de uma sociedade universal.

 

   Creio que é na realização de tal esforço que temos vindo a falhar e a criar mais impasses ainda ao convívio internacional. Desde logo, por ausência de convites e insistência ao diálogo, preferindo-se-lhe o lucro dos grandes grupos económicos e a manipulação do voto popular através da desinformação e de promessas ilusórias.

 

Camilo Maria          

 

Camilo Martins de Oliveira

REFERÊNCIA AO TEATRO DE PENAFIEL

 

Em 2008 tivemos ocasião de referir a tradição histórica de sucessivos espaços teatrais e de espetáculo de Penafiel, tendo em vista exatamente a tradição histórica, que vem pelo menos de meados do século XIX, mas também os edifícios e espaços originais que depois ou se transformaram em cinemas ou pura e simplesmente desapareceram.

 

De tudo isso não faltam aliás exemplos pelo país fora, e é interessante relacionar esses sucessivos casos com a estrutura urbana de cada cidade e vila em si mesmas, mas também com a própria natureza da respetiva atividade cultural.

 

Vale a pena então recordar que Teatros referenciais vão sendo inaugurados em Lisboa e não só, com especial ênfase a partir da transição dos séculos XVIII/XIX. E isto sobretudo em Lisboa, mas não só.

 

Foi-se operando pois como que uma descentralização, que obviamente nasce a partir de Lisboa (Teatro de São Carlos – 1793; Teatro de D. Maria II – 1846, e em ambos as obras vinham muito de trás) mas que foi abrangendo todo o país.  

 

Penafiel constitui um exemplo histórico dessa alternância. E esse exemplo nasce em 1844, data em que a antiga capela da Misericórdia, originária do século XVI, é adaptada para produzir espetáculos teatrais. Ganhou então o nome de Teatro Penafielense.

 

E, tal como já tivemos ocasião de escrever, em 1858 o edifício ganhou a estrutura adequada à produção de espetáculos então modernos: por lá passaram os grandes nomes do teatro da  época. Um comentador, Coriolano de Freitas Bessa, cita os atores Taborda, Posser, Soller... nomes que então diziam bem mais do que hoje.

 

Tivemos já ocasião de citar um estudo de Teresa Soeiro sobre Penafiel, onde se descreve a capela e se pormenoriza todo o processo de transformação do edifício em teatro e os conflitos entre o administrador do Conselho e a população respetiva. E também evocamos já, em “Teatros de Portugal – Espaços e Arquitetura” um comentador da época, Coriolano de Freitas Beça que, tal como aí escrevemos, refere atuação dos grandes nomes de espetáculo desse tempo: Taborda, Posser, Dias, Soller... mas, cita Teresa Soeiro, que Coriolano não se inibe quanto ao Teatro em si: “aquilo não é teatro, é corredor", nada menos!

 

Incluímos um estudo sobre este Teatro no livro “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” publicado em 2008 pela Mediatexto e pelo Centro Nacional de Cultura. E justamente, no Prefácio, Guilherme d’Oliveira Martins assinala que “os teatros são lugares de vida” pelo que “estamos perante um domínio em que a memória e o património, a história e a cultura, o ser e a representação, a liberdade e a necessidade se ligam intimamente. Estes lugares de vida permitem, deste modo, compreender melhor a essência do património cultural e da sua importância fundamental”.

 

 E assim é!...

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

42. DAS CANTIGAS DE AMIGO AOS FALSOS AMIGOS


Na Idade Média amigo e amado eram sinónimos.   

As cantigas ou cantares de amigo eram cantigas ou cantares de amor.   

 

Ondas do mar de Vigo,   
Se vistes meu Amigo!       
E ai, Deus, se verrá cedo! 
Ondas do mar levado,
Se vistes meu amado! 
E ai, Deus, se verrá cedo! 

 

Amigo era o namorado, amiga a namorada.  
Por Deus, amiga, pode seer   
De vosso amigo, que morre d'amor 
E de morrer á já mui gran sabor     
Pois que son pode vosso bem aver. 

 

Amor e amizade são hoje dois magnos sentimentos que se diferenciam, no essencial, pelo seu grau de intensidade, tendo muitos a amizade como mais calma e discreta e uma variante do amor.

Sabe-se que o trabalho não preenche em pleno as necessidades espirituais do ser humano. 

Há que contar com o amor e a amizade.   

Na amizade há os verdadeiros amigos e os falsos.   

Entre os últimos incluem-se os amigos de louvaminhas, de adulação untuosa e vil.

Os que fogem em grupo quando a roda da fortuna desanda.

Os que partem quando alguém perde valimento por já não poder fazer favores ou arranjar facilidades. 

Amigos dos tempos prósperos que nos ignoram e desprezam nas horas más.   

No poema Os Amigos, Camilo Castelo Branco retrata-os assim:

 

Amigos cento e dez e talvez mais,   
Eu já contei! Vaidades que eu sentia!       
Pensei que sobre a terra não havia   
Mais ditoso mortal entre os mortais.  
   

 

Amigos cento e dez tão serviçais, 
Tão zelosos das leis da cortesia, 
Que eu já farto de os ver, me escapulia     
Às suas curvaturas vertebrais,

 

Um dia adoeci profundamente, 
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente   
Que não desfez os laços quase rotos,   
 

 

Que vamos nós (diziam) lá fazer,   
Se ele está cego, não nos pode ver…         
Que cento e nove impávidos marotos!

 

13.03.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

DEPOIS DE RELER TAO YUANMING, UMA VIDA ME LEMBRA QUEM SOU

 

NADA EM VÃO

 

Os vestígios de mim

Estão nas mãos das árvores

Os pensamentos inclinam-se

Nas hastes e depois voltam-me

Soltos

Um a um

Menos cansados

A lembrarem-me melhor do que são feitos

E do que sempre quiseram ser

E ao esquivo poente eu digo:

Que vejo

Que vivo

Que me lembro

E o que devo

Te brindo

Por me teres ousado

Nesse modo de luzir

A luz

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca do texto ‘Habitações para o maior número’ de Nuno Teotónio Pereira.

 

‘Arquitetura é a amorosa compreensão da terra e da gente.’, Nuno Teotónio Pereira

 

‘The high migration of people from the countryside as well as from other countries further adds to the economic possibility of the city as well as its physical growth. The speed and magnitude of development of the fundamentals of society - housing, health, education, and infrastructure - were realized from Seoul to Tokyo.’, Eui-Sung Yi in Docomomo 50, 2014/1

 

No Colóquio de Urbanismo, que se realizou no Funchal, em 1969, Nuno Teotónio Pereira com o seu texto ‘Habitações para o maior número’ afirma que no panorama urbano, a habitação desmesurada, põe em causa toda a estrutura urbana tradicional e por isso, os aglomerados suburbanos podem ser a prova de um enorme desequilíbrio provocado pela necessidade de se construir habitação para um maior número. Teotónio Pereira explica que, infelizmente, as cidades são cada vez maiores extensões de habitação compacta e monótona - e essa é a imagem que reflete a especulação exaustiva do solo.

 

‘A função habitacional em sentido restrito, isto é, reduzida ao âmbito exclusivo do alojamento familiar e ignorando os equipamentos complementares exigidos pela vida atual, toma uma preponderância patológica, que tanto deforma a estrutura urbana, como impossibilita a criação de um ambiente verdadeiramente citadino.’, Nuno Teotónio Pereira, 1969

 

Segundo Teotónio Pereira, para enfrentar o problema da habitação para maior número, é necessário sim construir, mas não construir somente somatórios exaustivos e repetitivos de habitações, mas conjuntos urbanos equilibradamente organizados, equipados e conectados.

 

Ora, no Conjunto Habitacional de Laveiras (1987-1990), em Caxias, Nuno Teotónio Pereira e Pedro Viana Botelho tentaram concretizar uma solução semi-urbana, semi-rural, muito próxima do chão e que sobretudo não fosse um bairro isolado. Embora toda aquela área circundante estivesse vazia, Teotónio Pereira e Viana Botelho pensaram num traçado urbano não limitado e acima de tudo capaz de criar continuidades. Laveiras foi concebido de maneira a ser um embrião para todo um possível desenvolvimento urbano circundante, que depois efetivamente se deu lugar. A grande preocupação em Laveiras foi revelar e provar que o problema da habitação para o maior número, não se trata apenas de uma questão de quantidade. Para evitar a descentralização das populações e a privação de direitos elementares de cidadania, no que se refere às condições efetivas de inserção territorial, a qualidade urbana desejada, está diretamente relacionada com o combate a determinados problemas, nomeadamente a falta de infra-estruturas (sistemas viários, sanitários, energéticos e de comunicação) e a falta de equipamentos urbanos (relacionados com a educação, saúde, cultura, comércio e serviços). À medida que a imigração urbana aumenta - o mundo contemporâneo assiste, mais do nunca, a um crescimento urbano muito acentuado - acelera-se também a insuficiência de recursos consagrados pela sociedade às necessidades das populações recém-chegadas e que tende a acumular situações muito deficitárias e marginais.

 

No conjunto urbano de Laveiras, o declive acentuado do terreno foi explorado de maneira a permitir a instalação de equipamentos nos pisos baixos semi-enterrados - é o caso, da galeria comercial, ao longo da rua principal. Não ultrapassando os quatro pisos, procurou-se dotar o máximo de habitações com logradouros. Existe sempre um acentuado sentido humanista na arquitetura de Teotónio Pereira, porque tem textura, tem cor, tem luz, e é a três dimensões. A introdução do telhado de uma só água, é uma vontade formal forte e foi informado pela situação de vale e também pelo facto de em geral, as pessoas gostarem de casas com telhado.

 

‘Mas em Laveiras também há uma coisa que eu acho importante, (...) acho que houve uma enorme preocupação e isso é muito patente nos edifícios, o de identificar as casas com uma imagem que as pessoas identifiquem com a imagem das casas, que é: a entrada central corresponde a um telhado e uma chaminé, com as janelas dos lados.’, Pedro Vieira de Almeida

 

A habitação para o maior número, ao ser pensada, deve permitir que as pessoas pertençam a um sítio e tem de ser capaz de dar conforto afetivo. São os lugares, e os factos mais próximos que nos moldam. O indivíduo ao situar-se num lugar específico consegue ir ao encontro da sua identidade. Nuno Teotónio Pereira, num urgente apelo à compreensão do lugar da pessoa humana, na cidade e do mundo, pensa ser indispensável garantir inserção e criar continuidades, complementaridades, aos novos lugares urbanos - de modo a evitar situações precárias, carências e injustiças.

 

As funções habitacionais não se satisfazem unicamente entre as quatro paredes de uma casa: interdependência entre a habitação e os espaços que a envolvem, entre a casa e os equipamentos coletivos é uma característica da estrutura urbana que a evolução social tem acentuado incessantemente. Daí a necessidade da interpenetração de espaços, a dificuldade de demarcar linhas divisórias nítidas. Daí ainda a importância cada vez maior das infra-estruturas e das instalações de interesse geral para a fruição de condições de habitabilidade satisfatórias.’, Nuno Teotónio Pereira, 1969.

 

Ana Ruepp

TINHAM MÃES QUE OS AMAVAM

 

A calva e resplandecente cabeça de Luis de Pina, então director da Cinemateca, pairava sobre um tormentoso mar punk. Já voltaremos à sua cabeça. Antes, deixo-vos com uma pérola de filosofia social: desiludam-se os proactivos, não cria comoções sociais quem quer e, às vezes, nem quem pode.

 

O João Bénard concebera um megalómano Ciclo do Cinema Musical. Sonhávamos com plateias a cantar e dançar o “Singin’ in the Rain”. Entre as obras-primas escolhidas para ovação e aclamação, o João deixou escorregar um filme mais recente, piscadela de olho a uma minoria juvenil, que se vestia de negro e primava pelo brilho metálico.

 

Era o “The Great Rock and Roll Swindle” e foi programado para a sala da Barata Salgueiro, de uns compostinhos 250 lugares. O que aconteceu foi tudo menos composto. O filme era o dos alucinantes Sex Pistols de que faziam parte o malcriadíssimo e mal-cheiroso Johnny Rotten e o negramente lendário Sid Vicious.

 

De repente, duas da tarde no palacete da Cinemateca, da rua emergem vagas também malcriadíssimas e mal-cheirosas. Onda a onda, iam-se acastelando miúdos e miúdas de furiosos cabelos espetados, farpas negras ou de cores néon, mil brincos a rasgar orelhas. Vestiam de negro, um negro que de luto nada tinha.

 

Comiam pastéis de bacalhau, arroz que a mãe de algum fizera (tinham mães que os amavam, claro), e bebiam litrosas de tinto. Punks. Estávamos, até à rua, inundados de punks. Já tínhamos visto meia-dúzia. Descobríamos que eram um exército e não cabiam no cinema.

 

A Cinemateca não tinha telhados de vidros, mas eram de vidro as portas da sala. A pressão das botas negras da infantaria punk fez-se sentir. O nosso porteiro teria pouco mais de metro e meio. A ele podia eu gabar-me, mas não muito, da minha altura; voluntariei-me para parlamentar à massa ululante. Observaram-me com curiosidade entomológica: um coro de arrotos e outros flatos fez-me recuar.

 

Com o seu amável corpanzil de Robert Mitchum, surgiu o Luis de Pina. Olhar e palavras doces, apelou à compreensão ciclónica dos punks portugueses. A um ligeiro movimento de alívio e aparente conciliação seguiram-se ultrajantes manifestações de alegria que compreendiam homéricas cuspidelas e – volto a ver aqui a calva cabeça – uma escura bota a cruzar os ares, visando o meu director. Não sei o que é que eles respiravam, mas os vidros ficaram aflitos e embaciados e o da bilheteira estalou com estrondo. A alegria punk é assim, física, corporal, sem dualismos cartesianos: o corpo é a alma. Chegou a polícia, o sossego do cassetete.

 

As primeiras imagens do filme mandaram a sala ao chão. O que lá dentro se berrou, lá dentro ficará para sempre, e o triunfo da escatologia que se seguiu teve de ser lavado durante uma semana. Sim, era o público entregar-se, espontâneo, a um filme! Não há doutor nem engenheiro social que invente uma comoção daquelas.

 

Manuel S. Fonseca