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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PARA QUEM AMA LER COM IMAGINAÇÃO

umberto eco.png


É sempre dificílimo escrever sobre os livros de excelência.

Só devagar, muito devagar nos chega a coragem para que não fique por dar o reconhecimento às coisas da beleza, da memória, do entendimento e do horizonte.

E que as palavras consigam deixar um perfume, uma exaltação, um convite inequívoco a infinitos pormenores.

EUGENIO CARMI.jpgEUGENIO CARMI

Pintor, autodefine-se «fabricante de imagens».

Com Umberto Eco, tornou-se ilustrador.

 

umberto eco _ foto.jpgUMBERTO ECO


Filósofo, medievalista, semiólogo e escritor, autodefine-se «fabricante de palavras».
Com Eugenio Carmi tornou-se fabulista.


Neste livro, a linguagem apoiada por belíssimas ilustrações, propõe o convite para refletirmos sobre a tolerância na resolução dos conflitos, no legado às gerações futuras, nas consequências do ódio e do consumo e da incapacidade dos afetos se gerarem e multiplicarem com devoção e força.

Para tanto as entrelinhas da pintura e das palavras.

A ironia e o sarcasmo estão presentes como arestas indispensáveis ao que se invoca.

E era uma vez um general a quem os átomos faziam frente impedindo-lhe a decisão das guerras, a desarmonia das mães, das arvores e das casinhas brancas, conhecedores que eram da loucura dos buracos negros.

O general carregava na farda inúmeros galões o que muito acabou por ajudar ao seu novo emprego como porteiro de hotel. Por agora.

E era uma vez a Terra e Marte.

A Terra, demasiado apertada queria conquistar Marte e enviou cosmonautas.

Eram eles um americano, um russo e um chinês que afinal se entenderam quando o americano disse: - Mommy…

O russo disse: - Mama.

O chinês disse: - -Ma-Ma.

Viviam, enfim, os mesmos sentimentos!

Contudo quando conheceram o marciano dos seis braços não foram capazes de o amar, não fosse a intervenção de um passarinho que de muitos modos e só um, afinal, fez a todos concluir que a diferença não é inimiga.

E era uma vez um imperador que, desesperado, enviou um explorador para o espaço a fim descobrir novos territórios.

Este, tão logo viu um, muito belo e de gente prazenteira, dirigiu-se-lhes dizendo que vinha para os descobrir.

Os gnomos, habitantes deste planeta lindo, surpreenderam-se e responderam que estavam convencidos de terem sido eles a descobrir o explorador.

Na verdade, o explorador não gostou do que ouviu já que lhe tinham ensinado que tão logo se levasse civilização, os indígenas adotavam-na sem qualquer protesto.

Estava-se à vontade.

De regresso à terra do imperador, as forças falaram em voz pasma …

três contos de umberto eco.jpg

 

Julgamos que estamos confusos?, ou, quem vence, vence, bem mais na mente dos homens do que nos campos de batalha e a sorte do mundo e a dos povos é a que for a do destino das mentalidades.

Permiti que o digamos assim.

E, em rigor, o estar como se está por entre os terráqueos é como o aceitar de uma nova religião que se propaga e desfigura como a lepra.

Ouviu-se.

E mais:

Condenaram-se os homens aos seus desígnios de escravos, condenação esta tão compatível quanto assertiva pois a maioria aceitou-a.

Ergueram-se pedras, muros contra muitos saberes antigos como se fossem mercadoria impróprias, não vá o saber, neles, ser um saber do ar fresco da vida.

E eis que nem todas as mensagens oxidam. Eis que o inabitual não encandeia.

Eugenio Carmi e Umberto Eco, duas almas-ave ,deixaram-nos este livro qual ajudante-de-campo aos dias até onde e aonde luz e mundo nos permitam antes da partida desvendar o porquê de aqui estar, e qual o nosso destino.

Teresa Bracinha Vieira

UM MUNDO DE CONTRADIÇÕES


Juntamente com Espinosa, terá sido Hegel que levou mais longe o racionalismo: "o que é racional é real e o que é real é racional", escreveu. Mas Ernst Bloch objectou que o processo do mundo não pode desenrolar-se a partir do logos puro. Na raiz do mundo tem de estar um intensivo da ordem do querer. Bloch, como também Nietzsche e Freud, foi beber a Schopenhauer. Este foi um filósofo que sublinhou do modo mais intenso que, na sua ultimidade, a realidade não é racional, pois há uma força que tem o predomínio sobre os planos e juízos da razão: a vontade.


Aí está um dos motivos fundamentais por que, na tentativa da explicação dos fenómenos humanos, a nível individual e social, temos sempre a sensação de que há uma falha no encadeamento das razões. É que no ser humano há o lógico e a pulsão, o cálculo e a emoção, a razão e o impulso.


O próprio cérebro, que forma certamente um todo holístico, tem três níveis. Paul MacLean fala dos três cérebros integrados num, mas também em conflito: o paleocéfalo, reptiliano; o mesocéfalo, o cérebro da afectividade; o córtex com o neo-córtex em conexão com as capacidades lógicas. A luz racional é afinal apenas uma ponta num imenso oceano inconsciente, impulsivo e também tenebroso.


Por isso, não só não conseguimos uma harmonia permanente como é necessário estar de sobreaviso contra a ameaça de descalabros e catástrofes mortais. A nível individual, familiar, colectivo... Também não se pode esquecer que a política, local, nacional, regional, internacional, é conduzida por seres humanos que vivem estas tensões...


Por outro lado, porque o ser humano não é redutível à lógica computacional, é capaz de criações artísticas divinas, do amor gratuito, do luxo generoso, da música — a música, “arte ‘pura’ por excelêcnia”, “a mais ‘mística’, a mais ‘espiritual’ das artes é talvez simplesmente a mais corporal”, como escreveu Pierre Bourdieu, e que não é preciso compreender para se ficar emocionado e extasiado.


O ser humano é pela sua própria constituição um ser paradoxal, em tensão. Ele é essa mistura enigmática de finito e infinito, de impulso e razão, e  o impulso pode transtornar a razão e dominá-la.    


Assim, também não há sociedades completamente harmónicas, pois inevitavelmente são atravessadas pelo conflito. As tensões, os conflitos e até as contradições variam, mas estão sempre presentes.


A título de exemplo, algumas tensões e conflitos na nossa sociedade.


Trata-se, por um lado, de uma sociedade altamente competitiva, que exige enorme preparação científica e técnica, educação esmerada, com trabalho aturado, permanente e competente, mas que, por outro, está impregnada de consumismo, propaga o hedonismo, valoriza em extremo o prazer. Esta tensão torna complexa a educação, não favorecendo de modo nenhum a harmonia pessoal. Tanto mais quanto, num tempo em que é preciso lutar duramente para arranjar um lugar ao sol, programas alarves de televisão e concursos rasteiros dão fama rápida e quantias fabulosas.


A nossa sociedade não quis ter filhos, e evidentemente estava no seu direito. Mas, agora, somos fatalmente confrontados com a inversão na pirâmide das idades, com todas as consequências daí advenientes, por exemplo, no domínio da segurança social. Por outro lado, teremos de importar mão-de-obra estrangeira, o que pode trazer benefícios sem conta; ao mesmo tempo será, porém, necessário estarmos preparados para conflitos que inevitavelmente surgirão. Pergunta-se: que politica tem sido feita a favor da família?


A medicina, felizmente, foi prolongando a esperança de vida das pessoas. Mas, por outro lado, que preparação existe para lidar com a velhice dos outros e com a velhice própria? Chega-se a este paradoxo: a mesma medicina que fez aumentar a média etária vai ser solicitada para ajudar na eutanásia, matar.


Nunca o indivíduo quis auto-afirmar-se com tanta força, mas ao mesmo tempo talvez nunca como hoje se tenha sentido que se vive num processo sem sujeito. Nunca a velocidade foi tão veloz, mas a partir de um certo limiar tomamos consciência de que se vai cada vez mais devagar: o desespero do trânsito nas cidades. Nunca houve tantos meios de comunicação, e tanta solidão!; e não há também a angústia do afogamento em tanta informação? Aí está mais de meio mundo a “dedar” e onde está o espírito crítico?   


Reclama-se os direitos individuais, mas esbateram-se as fronteiras entre o privado e o público, quase desapareceu a intimidade, e, a pretexto da segurança, rendemo-nos à vigilância do Big Brother, que não é só o da televisão, mas o de Orwell. Quando olhamos para a rapidez dos transportes, para tanta tecnologia comunicativa e outra que devia facilitar a vida, aparentemente devíamos nadar em tempo livre; de facto toda a gente desespera com a falta de tempo e nunca o stress terá sido tanto.


O conflito maior é o dos pobres, milhares de milhões. Quando nos países ricos se come de mais e se sofre de obesidade e se queima ou deita comida ao mar em ordem à manutenção dos preços, sabe-se que há hoje no mundo mais de 800 milhões de pessoas com fome.


Depois, é  a guerra, guerras espalhadas por todo o mundo.


Há três impulsos fundamentais com os quais é preciso aprender a viver, como disse Kant: o prazer, o ter e o poder. Afinal, a contradição é fundamentalmente sempre a mesma: tornarmo-nos escravos do prazer, do ter e do poder, esquecendo-nos do ser e de ser. Aí estão os Pandora Papers, etc.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 9 de outubro de 2021

A FORÇA DO ATO CRIADOR


O pós-modernismo é uma maneira de caminhar sem sair do lugar.


“Os horizontes da vida não se projetavam em cores puras.”, Ruben A., Cores


Martin Heidegger no livro Being and Time (publicado em 1927) já afirmava que não existe pensamento puro - o pensamento existe sempre em relação a algo, por isso constrói-se junto ao mundo, numa determinada e específica realidade.


O indivíduo das primeiras vanguardas do séc. XX ansiava eliminar qualquer consciência contextual, alusiva ou histórica de modo a viver totalmente no presente e a criar uma arte nova sem qualquer influência exterior. Esse indivíduo moderno acreditava estar totalmente a sós com o seu abismo e era através da arte que se iria salvar. A arte das primeiras vanguardas vinha assim travar os prolongados sentimentos decadentes relacionados com a desgraça iminente e o horror à vida.


Donald Kuspit em The Cult of the Avant-Garde Artist (1993) escreve que o método da arte pós-modernista concretiza-se numa vontade arqueológica e maneirista em defesa contra essa decadência.


Kuspit entende que esta nova vanguarda pós-moderna vem completar o projeto que a arte moderna do início do séc. XX começou: a criação de uma arte democrática que abre a esfera fechada da arte a todas as criações afirmando um pluralismo universal que quebra sim todos os cânones, mas que os arqueologiza imediatamente em relíquias paradas no tempo. Segundo Kuspit a arte pós-moderna transforma-se cada vez mais num campo aleatório de memórias, numa coleção de elementos históricos que em cada nova obra logo adquire a camada de um passado generalizado.


Kuspit acredita que a perpétua e incessante busca por novos recursos, a ânsia pelo eterno rejuvenescimento e pela novidade, iniciada no início do séc. XX, torna-se cada vez mais agressiva e inquietante na arte neovanguardista. Mas essa ânsia tem um efeito oposto ao pretendido: as fontes perdem o seu poder rejuvenescedor quase imediatamente, pois são facilmente apropriadas simplesmente como sinais abstratos, puramente estéticos, alusivos e ornamentais, em vez de se tornarem produtos particulares com significado particular.


Por isso, para Kuspit, o pós-modernismo representa um novo tipo de decadência e um desejo imenso de inversão e de modificação da linguagem moderna. Para o artista pós-moderno apenas o caminho para trás parece claro (às vezes até reconhecendo os mestres da primeira vanguarda como velhos mestres).


Na arte pós-moderna a decadência toma conta de tudo, numa tentativa de explicitar uma sensação de progresso nenhum, sem possibilidades, sem caminho, sem saída e sem alternativas. Aqui o artista não persegue a originalidade nem a eterna possibilidade, nem se apropria de linguagem alguma. Não deseja diferenciar-se dos seus antecessores, nem colocar-se em diálogo com o passado nem com o presente. Este artista não pensa na arte como algo criado porque não deseja ser criativo. É sim um individuo que deseja sobreviver num mundo sem futuro e por isso personifica todo o passado. É a derradeira atitude decadente, porque o presente é visto simplesmente como a fina fronteira entre o nada e o todo. Toda a estrutura pós-moderna é descendente em vez de transcendente. E tal como Kuspit coloca, o pós-modernismo é uma maneira de caminhar sem sair do lugar - é uma estase dinâmica, é uma contínua regressão no presente.

 

Ana Ruepp

A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de outubro de 2021


A publicação “Unicórnio” a “Pentacórnio” (1951-1956) dirigida por José-Augusto França constituiu um marco importante na renovação do panorama cultural português num tempo de provação e ausência de liberdade de imprensa.

 

UMA LEMBRANÇA INESQUECÍVEL
Jamais esquecerei a tarde em que, na Biblioteca Municipal de Tomar, no Bibliotecando, em maio de 2016, José-Augusto França e Eduardo Lourenço se encontraram para debater “Os Outros e Nós”. Com o método desafiante habitual (lembremo-nos do ensaio de Unicórnio), o ensaísta de “A Nau de Ícaro” referiu aos seus ouvintes: “A Europa nunca existiu, nem sei se alguma vez existirá como ator dela mesma”. Afinal, os países que habitam este espaço comum sempre estiveram a braços com “uma espécie de guerra civil permanente, desde os Romanos, até hoje praticamente”, na medida em que cada uma das nações com maior poder, foi à vez, tentando dominar as outras para hegemonizar o continente… As ideias foram-se desfiando e chegado o ponto de J.-A. França falar usou o tom irónico, que lhe era habitual, afirmando que “nós somos sempre os outros. É algo reversível e reflexo. Contudo sendo sempre os outros nós, temos de ter muito cuidado com os outros, naturalmente, e esse cuidado nós não temos tido”. Em nome desse cuidado, lembrou que o Grémio Literário, a cujo Conselho Literário então presidia, foi a única instituição que assinalou e debateu a conquista de Lisboa pelos mouros em 713, lembrando que “a língua portuguesa é a única falada na Europa que usa todos os dias uma palavra ‘o oxalá’ (se Deus quiser), ou seja nós estamos a falar árabe sem dar por isso, e vivemos muito bem e muito pacificamente. Em suma, nós somos sempre os outros”. O diálogo que se estabeleceu nessa tarde, prolongou-se na viagem que fizemos juntos entre Tomar e Lisboa. Foi animada a conversa, entre a perplexidade pela intolerância na cena internacional e a lembrança de episódios passados, entre enganos e genuínos encontros inesperados, a ilustrar o difícil tema que nos levou de Almada Negreiros, “Português sem Mestre” até Mário de Sá-Carneiro e a Bernardo Soares, já que identidade e alteridade são palavras que alternam e coexistem sempre…


TROCA LIVRE DE IDEIAS
Quando tive a notícia de que José-Augusto França partira, veio-me à memória essa tarde inesquecível e irrepetível – a lembrança do prazer verdadeiro em conversar, como troca livre de ideias. Por isso o encontro continuará a acontecer na nossa mente. E estou também a ver uma pequena corrida surpreendente e lépida do jovial professor a atravessar Avenida Infante Santo, apesar dos 93 anos…  José-Augusto França foi um pedagogo, homem do Renascimento, acima de tudo. A sua obra é fundamental e indispensável – e sê-lo-á por muito tempo. Contudo, ao acompanharmos a sua vida muito fecunda, encontramos uma complementaridade evidente entre o académico, o ficcionista, o cidadão e o protagonista do seu tempo. Pessoalmente, muito ganhei sempre com o seu convívio e a sua amizade. E testemunhei, enquanto teve saúde, o evidente entusiamo de viver, de pensar, de abrir pistas de ação e reflexão. Sentimos intimamente o pioneirismo do Centro Nacional de Cultura, que França salvou depois de 1974, como Presidente, graças ao Mestrado de História da Arte e ao projeto delineado com Fraústo da Silva – que permitiu uma nova Fénix Renascida com Helena Vaz da Silva. Do mesmo modo, devotou ao Grémio Literário um especial apreço, solidariamente com as suas grandes referências históricas. E sentimos intensamente a destruição da última casa de Garrett – que era um exemplo puramente romântico, escolhido com muito amor pelo genial poeta. A fotografia que dele fez Fernando Lemos é uma referência marcante de uma série de qualidade internacional. É um justo reconhecimento de quem compreendeu, como poucos, o sentido da modernidade. Leia-se o texto sobre Unicórnio, etc. “Unicórnio nasceu na ‘Brasileira do Chiado’, onde muitas outras coisas nasceram ou se geraram, desde meados dos anos 10. Nos seus anos 50, foi já em fim de época, nas transformações de então da cidade, do Chiado. Em 1960 já nada lá podia nascer. Fora o Orpheu, fora o Nome de Guerra e os quadros de 1926, fora a Variante de 41, de António Pedro, fora o Grupo Surrealista de 1949, já em terceira geração da modernidade pátria que então terminava. Os novos quadros de 1971, com um grande balcão de pastelaria no café encolhido, foi já um post scriptum sem recuperação possível e ainda menos o Pessoa-à-Porta, em anos 70 ou 88, de outra cidade ou não cidade. (…). Na ‘Brasileira’, então, veio a ideia do Unicórnio, por efeito do convívio com os amigos surrealistas, quando ainda, nas mesas do café, se convivia, lendo o Diário de Lisboa, engraxando os sapatos, pagando a bica com gorjeta de dois tostões para acertar a conta, e aguardando horas do elétrico para casa. Era em 1951”. Tornava-se necessário contornar a censura (“num país não-legal”, com “um capitão pequenino, reformado, de óculos”) e por isso a série intitulou-se antologia, com edição de autor, sem periodicidade e com título mutante, “como era mister, para iludir a continuidade”. Durou até 1956, até Pentacórnio. Os colaboradores mais assíduos foram, além de J.-A. F., Jorge de Sena, José Blanc de Portugal, Eduardo Lourenço e Fernando de Azevedo, em todos os números, Delfim Santos, António Pedro e Fernando Lemos em quatro, e Vespeira em três. António Sérgio escreveria no último número “Em torno do Problema da Importância dos Escritores na Sociedade Portuguesa”. O projeto terminaria com a decisão pacífica de finalizar a “empresa”, com reconhecimento de que a revista falhara. Não concordou José Régio, numa polémica bem curiosa. “Ao contrário do que é costume a posição crítica era do autor da obra e a defesa dela cabia ao seu crítico, que nela, uma vez ou outra, colaborara também, simpaticamente – não exatamente do mesmo lado de uma ideia da cultura portuguesa, mas no mesmo sítio dela”.


UM PORTUGAL ABSOLUTAMENTE MODERNO? 
Poderia ser Portugal “absolutamente moderno”, na fórmula de Rimbaud? Ao menos, mereceria sê-lo. A série Unicórnio foi uma tentativa que, na apreciação do principal promotor não teve sucesso. Depois da tentativa surrealista de finais de 1940 ou da publicação do romance Natureza Morta (1949), na procura da superação do presencismo e do neorrealismo, José-Augusto França avançou nos anos cinquenta pelos caminhos de um terceiro modernismo, apesar de tudo há cinco números, que hoje merecem leitura circunstanciada, mas a paciência esgota-se. “Se o próprio relógio não satisfaz a necessidade do tempo europeu que alguém sinta, consulte-se outra máquina e vá-se à Europa consultá-la”. É o caminho que seguirá, como bolseiro do Estado francês em 1959, a trabalhar como o historiador consagrado Pierre Francastel, doutorando-se em História com a tese “Une Ville des Lumières: la Lisbonne de Pombal” (1962) e em Letras com a tese “Le Romantisme au Portugal” (1969). O ativista abriu caminho ao exemplar pedagogo. Não é possível compreender a arte e a cultura em Portugal, em diálogo com o mundo, no Pombalismo e nos séculos XIX e XX sem conhecer e estudar a obra de José-Augusto França. Lembre-se, na Fundação Calouste Gulbenkian, que tanto lhe deve, a direção exemplar da Colóquio – Artes (1971-1997), bem como da Delegação em França da instituição (1983-89). Num trabalho persistente e único de estudo e partilha, segundo uma visão larga da cultura portuguesa, para além das fronteiras físicas, buscando Portugal fora de Portugal, como Ulisses em demanda da sua Ítaca, José-Augusto França contribuiu decisivamente para a democracia como fator de modernidade. Disso não haja dúvidas.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM

Minha Princesa de Além:

 

   Passámos juntos os teus quase seis anos derradeiros, tempos simultaneamente difíceis e estranhamente gratificantes, antes do teu salto para a outra margem. O teu voo final, cuja ocorrência ia parecendo cada vez mais iminente e fatal, era por isso tão previsível como imprevisível, pois o nosso sentimento - essa persistência no ser a que também chamamos alma - sempre fortalece a crença íntima num qualquer milagre. E eu, que fiquei por cá, de pés na terra, esgotado pela luta, desiludido da esperança, não dei logo por mim, quedei-me perplexo, robô talvez, ao qual fosse faltando a bateria. Escrevi recentemente a um amigo um bilhete breve, que quiçá nos ajude a me perceber melhor. Diz assim:

   J'essaye de me refaire une jeunesse... Mas é difícil, sobretudo porque estes últimos anos - e alguns meses mais - mudaram tanto a minha circunstância que o próprio íntimo de mim se tornou um estrangeiro. Nem sei se mudei também ou não - muito, pouco ou nada - mas reconheço-me mal, sinto-me um peregrino deambulatório, sem percurso orientado. Afinal, é facto que as balizas que me guiavam dia após dia já hoje me estão fora do alcance da vista,dos braços que com ansiedade abro e estendo  Invisíveis, insensíveis, desenganam-me o pensarsentir, fogem-me, talvez, do coração cansado...

   Terei de renascer, de ser outro eu em mim.
   E vou tentando.

   Ao fim de quase cinquenta e seis anos de vida comum, mais de meio século de coabitação em partes tão diferentes deste nosso mundo, torna-se impossível pensarsentirmo-nos indivíduos apenas, na medida em que, afinal, a nossa circunstância, por muito que lhe tivessem mudado os tempos e os modos, foi robustecendo, em cada um de nós a fundamental referência a uma comunhão. Muitas vezes te escrevi, Princesa de mim, que a morte de um amigo, de alguém muito próximo é sempre necessariamente, pouco ou muito, a nossa. Assim nos vamos, os que cá continuamos, paulatinamente morrendo. Recordo os desabafos de Michel de Montaigne aquando da morte do seu amigo de La Boétie, ou a revolta do Duque de Gandia pela morte da Imperatriz Isabel de Portugal, revolta que o virou jesuíta e fez santo canonizado (São Francisco Borja): nunca mais darei ao tempo a minha vida, nunca mais servirei senhor que possa morrer, como canta Sophia... E nessa sua versão de uma meditação do Duque de Gandia, a poeta intui o carácter secreto da nossa perplexidade perante a morte: amei-te em verdade e transparência, e já nem sequer me resta a tua ausência... Na verdade, a própria ausência é temporal, e também ela se vá embora com a morte que a leva para o reino da eternidade que ainda não atingimos e nem sequer conseguimos bem imaginar. 

   E é essa ausência da mesma ausência que me leva agora a pensar nessa ressurreição de mim, do meu ser corporal com o seu peso de tanto pensarsentir, ainda sempre tão limitado, como graça estranha ao mundo dos nossos horizontes, mas bênção profética a libertar-nos desse absurdo fatal que seria a ausência da própria ausência do amor possível, negação desse impulso inicial que nos trouxe vida e a alimenta.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

MAIS UM DRAMATURGO A EVOCAR: JOÃO DE CASTRO OSÓRIO

 

Temos aqui feito evocações sucessivas de dramaturgos que de uma forma ou de outra foram “preenchendo” o teatro português dos séculos XX/XXI. E nessa sucessão de referências, é de assinalar que muitos deles estão hoje pelo menos como tal esquecidos: e isto, mesmo em casos de relevância teatral, sendo certo que em muitos, para não dizer a maioria, a criatividade dramatúrgica está hoje, ou sempre esteve mais ou menos esquecida…


E será o caso de João de Castro Osório (1899-1970), autor de um conjunto de peças de teatro que vale a pena evocar, não obstante a menor relevância na sua obra literária: situação em que se perfila com numerosos escritores da sua geração, não obstante, insista-se, a qualidade dessa criação teatral.


Na “História do Teatro Português” que escrevi e aqui tenho citado, dedico a João de Castro Osório uma referência em si mesmo considerável, tendo em vista a relevância qualitativa das suas criações dramatúrgicas, e sendo certo que hoje a obra de João de Castro Osório é pouco lembrada na sua componente de teatro: e no entanto, merece largamente a evocação.


Aí cito desde logo o conjunto mais relevante das peças publicadas: “A Horda”, “O Clamor”, “A Trilogia de Édipo”, “A Tetralogia do Príncipe Imaginário”, “O Batismo de Dom Quixote”, “Trilogia de Troia”.


Um conjunto significativo de peças, que situam a criatividade do autor numa sequência significativa desde logo pela qualidade cénica e literária, mas também pelo relevo que esta obra, no seu conjunto, alcança e mantém.


A partir de Castro Osório mas generalizando obviamente a análise, destaca-se a convergência de fatores em si mesmo relevantes: pois, como se refere, a poesia dominante é poesia dramática, isto é, cena, dinâmica, espetáculo e cultura, aí correspondendo uma relacionação de patrimónios espirituais que em linha reta se ligam com a harmonia do classicismo.


Remetemos pois para a leitura e análise da obra de João de Castro Osório, que merece toda a distinção. E voltaremos ao tema.

 

DUARTE IVO CRUZ

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL


26. OPÇÃO ATLÂNTICA E EUROPEIA (I)


A opção atlântica é reconhecida desde sempre como historicamente vital para Portugal, não esgotando todas as suas potencialidades, pelo que se impõe também a opção europeia, desde logo porque parte integrante da Europa.


O problema presente e futuro que se coloca a Portugal é o de compatibilizar e harmonizar estas duas opções. O que indica a conveniência de tirar partido de todas as oportunidades de desenvolvimento e modernização da opção europeia, sem pôr em causa as vantagens oferecidas pela histórica opção atlântica.


Portugal tem interesse em compatibilizar e reforçar desenvolvimento com segurança na diversificação das dependências, gerindo-as para efeitos de sobrevivência, tendo presente que a opção europeia tem a ver com a Europa toda, que como tal lhe dá mais garantias de afirmação da sua identidade em relação a Espanha, encarada, nesta perspetiva, como um país europeu, entre vários. 


Diversificar dependências e relações é parte do caminho certo do desenvolvimento em segurança.


É o que fazem países com desafios e problemas idênticos aos de Portugal, como a Dinamarca (que impôs no Tratado de Maastricht uma cláusula especial proibindo a aquisição de propriedades no seu litoral a estrangeiros, pensando na Alemanha, com que tem uma só fronteira terrestre), a Irlanda, que diversificou as relações e dependências, fazendo da Inglaterra um parceiro europeu, entre outros.


Continentalizações e iberizações de Portugal podem ser compensadas pelo reforço correspondente do seu poder centrífugo, que decorre preferencialmente das potencialidades da sua litoralização, atlantização e universalização.   


Refere, a propósito, Virgílio de Carvalho, que a palavra Mar, aqui utilizada, tem um sentido mais amplo que o do simples meio líquido, “abarcando o sentido do poder marítimo (económico, militar), e ainda tudo o que, duma forma ou de outra, concorre para o centrifugismo económico, cultural e político que torne Portugal no referido país mais euro-atlântico que ibérico, universalista, viável” (A Importância do Mar para Portugal, p. 88).       


Mar que deve ser constituído pelo litoral do continente (locomotiva de desenvolvimento) e o interior a aproximar dele por meio de rios navegáveis e vias terrestres a ele paralelas; os arquipélagos dos Açores e da Madeira; o espaço marítimo e aéreo interterritorial (como área de grande interesse estratégico nacional). E como complemento os países que falam português, caso dos estados membros da CPLP, bem como as comunidades de interesses comuns culturais, económicos e geopolíticos que o possam desejar vir a constituir com Portugal; as potências marítimas (europeias e extraeuropeias) racionalmente interessadas na preservação da individualidade estratégica de Portugal; as comunidades de portugueses e seus descendentes, no estrangeiro, e respetivos países de seu acolhimento.     


Para Portugal é inquestionável que lhe interessa uma política de cooperação com os países que falam português, dado que, se for possível uma concertação de objetivos, de estratégias e meios para os realizar, ela pode redundar em poder negocial e em segurança que lhe são necessários, nomeadamente, como reserva para contrabalançar o desafio europeu. Pode, pois, tal cooperação ser tida como parte e componente universalista do potencial estratégico de Portugal.


Refira-se também o interesse estratégico, económico e cultural da escola de pensamento geopolítico brasileiro, de que é tido como mentor principal o general Golbery do Couto e Silva, que em 1981 disse ser dever do Brasil estar pronto para assumir a defesa do património lusófono criado por Portugal, nomeadamente no Atlântico ao sul do Senegal, caso tal se torne necessário.


08.10.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

OUTUBRO 2021

outubro 2021.jpg
    Jonathan Meese

 

Se se pensar que os homens são os seus próprios vírus, a sua própria pandemia, a razão do seu confinar, será tudo pela similitude das suas interdependências, não obstante fecharem as fronteiras uns aos outros para riso dos vírus que transportam.

E quais os sintomas de tudo isto? Alguém contatou com um positivo? Mas afinal não somos todos positivos? E assintomáticos? Não estamos todos a correr os riscos hora a hora de várias mortes? A social, a psicológica, a que parou a economia? A que nos enterra?

Melhor mesmo será que todos fiquem em casa e bem-comportados antes que o vírus anuncie, através dos homens que o albergam, que em casa, nada existe porque existe tudo igual.

É certo que o nosso vírus não descuidou o tirar-nos a liberdade. Ninguém o viu solto por aí, e foi-lhe acessível a façanha.

E tortura e mata e só quando os homens, e neles, o vírus, estão em casa, então os pássaros cantam e o céu é mais azul.

De uma boa quarentena precisa-se de quando em vez. Mas credo! gritam os vírus aos homens: não acreditem nos pássaros ou nos peixes que surgem! Trata-se apenas de uma faixa deles, é o que resta.

A grande vantagem é que o ADN em homens e vírus é o mesmo e todo ele um único poder.

A biopolítica é opaca e o controlo não é democrático, aceitando-se que assim seja.

Homens! – grita o vírus - saibam criar rutura à vossa nova religião! Quero testemunhar! Sou a vossa eterna companhia. Sou ateu.

Ou preferem continuar a encomendar os almoços, a fazer compras on line, a encharquem-se de notícias minhas, a autoimpedirem-se de estar com os amigos, a fazer ginástica em casa que o ar faz mal, mesmo que eu esteja no vosso suor…xiu…que ninguém sabe que os que não me têm, sempre tiveram.

Mas façam muitos testes serológicos se desconhecem que as subidas e as descidas se assemelham.

Enfim, nos lares já se colocaram os velhos que nunca souberam para onde iam. Mas recomenda-se: afastem-se o suficiente dos destinos solidários pois trazem danos colaterais e sequelas ao nosso modo tradicional de ser agora e no futuro.

Não se recordem se na base da pirâmide estão os que muito sofrem com as encapotadas pandemias de sempre. É assim mesmo!

No entanto, ouvem-se cantares ao vírus pelos homens dos decretos, e fingem que o que nos fulmina a todos é passageiro, e eles perdigueiros competentes, admitem primeiro, socorros às coisas ditas sérias, e depois aos outros, e no muito ao fundo se incluem, talvez os artistas…e, claro os poetas.

Assim se chegou ao hoje quando as boas-noites se dão a ninguém.

Apenas se ouve um eco que afirma que haverá uma existência sem vírus porque tudo, tudo será virtual.

Os portadores do vírus já não serão humanos, o próprio vírus não se assume.

Mas, por enquanto todos querem voltar ao antigamente!

Aí sim! 42 famílias têm tanto quanto metade da mais pobre população mundial.

Quem não quer voltar a este oxigénio?

Olhei para a televisão e de novo o registo de que se aceitou que a democracia não fosse a grande força da incrível capacidade de vivermos juntos.

Não se aceitou que a democracia engloba a não entrega de liberdades, a não desflorestação, os consensos, o não matar o que nos dá vida, o não secar das águas, o não envio das imunidades por cunhas, sem que por detrás das máscaras se tivesse de gritar muito improvavelmente:

Uma vacina para o mundo!

Deus! que as acumulações de forças dos governos não sejam do poder pelo poder, reforçando-se o monstro face à solicitude com a qual lhes são entregues dados privados em todas as vagas.

Antes sim, os governos devem governar como desejam os que neles votaram sem apelo à solta da delegação de poderes.

De recordar igualmente que a marcha da democracia só tem caminho se ninguém aceitar a rota da pandemia fiscal.

Não continuemos a tratar os sobreviventes como os mais frágeis, bem basta que por poder consentido, eles suportam o cerco da minada doença da fiscalidade que, não obstante o sofrer que inflige, nunca reduziu as desigualdades, e a impunidade desta doença é tão despudorada que sempre aos mesmos é exigido, o esforço de recuperar as finanças públicas.

Enfim, se se pensar que os homens são os seus próprios vírus, a sua própria pandemia, a razão do seu confinar, e que tudo assenta nas suas interdependências, não obstante fecharem as fronteiras uns aos outros para riso dos vírus que transportam, talvez se entenda que a crise é também a da oferta e da procura e é uma crise estrutural, e que as diferenças salariais são promíscuas e sendo as medidas repetitivas, não estamos de todo no bom caminho.

Também um dia, um dia o amor empobreceu, lá onde o seu sentir fraquejava já mesmo no poder de recobro.

Uma vacina para o mundo é tão só o mesmo que um dia da ira dos seres de boa vontade!

E estes viandantes ainda caminham!

 

Teresa Bracinha Vieira

SEMANA MUNDIAL DA HARMONIA INTER-RELIGIOSA

 

Foi em 2010, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Antes de iniciar a sua conferência, Jorge Sampaio chamou-me. Para me pedir que não me esquecesse de escrever um texto sobre a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa.


Também para relembrar o  empenho de Jorge Sampaio no diálogo das civilizações, das culturas, das religiões, retomo o texto de então com pequenas alterações.


Era a primeira vez que se celebrava, de 1 a 7 de Fevereiro (2011), a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa, na sequência de uma Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, tomada por unanimidade no dia 20 de Outubro de 2010 e proclamando a primeira semana de Fevereiro de cada ano a "World Interfaith Harmony Week" (Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa), semana da harmonia entre todas as religiões, fés e crenças.


A Assembleia Geral fê-lo, lembrando várias resoluções e declarações suas anteriores, todas no sentido da promoção de uma cultura da paz e não-violência, compreensão, harmonia e cooperação inter-religiosa e intercultural, diálogo entre as civilizações, eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação com base na religião ou na crença, louvando múltiplas iniciativas a nível global, regional e local para a mútua compreensão e harmonia inter-religiosa, e reconhecendo, por um lado, a necessidade imperiosa do diálogo entre os diferentes credos e religiões em ordem a uma maior compreensão mútua, harmonia e cooperação entre os povos, e, por outro, que os imperativos morais de todas as religiões, convicções e credos fazem apelo à paz, à tolerância e ao mútuo entendimento.


A Assembleia Geral reafirma que a compreensão mútua e o diálogo inter-religioso "constituem dimensões importantes de uma cultura de paz" e encoraja todos os Estados a apoiar a difusão da mensagem da harmonia e boa vontade inter-religiosa em todas as igrejas, mesquitas, sinagogas, templos e outros lugares de culto durante esta semana, "fundada no amor de Deus e do amor ao próximo ou no amor do bem e do próximo, cada um segundo as suas próprias tradições ou convicções religiosas".


Na sua mensagem de 1 de Dezembro de 2010 sobre esta Semana, Jorge Sampaio, alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, depois de declarar que a Aliança procura reduzir tensões criadas por divisões culturais que ameaçam a estabilidade e a paz das e entre as comunidades e sociedades, e, por conseguinte, apoiar os esforços dos Estados, da sociedade civil e de outros actores na construção de bases de confiança e respeito entre as diversas comunidades, incluindo as religiões, saudou com entusiasmo esta Resolução das Nações Unidas. "O seu objectivo é abrangente e inclusivo, vinculando as pessoas de todas as religiões, fés e crenças." Por isso, convidava os membros da Aliança das Civilizações, as organizações da sociedade civil, comunidades religiosas, escolas, universidades a informar-se sobre a iniciativa e a promovê-la.


Penso que o diálogo inter-religioso tem, como aqui tenho sublinhado, vários pressupostos. O primeiro diz que, antes de sermos religiosos ou não, somos seres humanos: une-nos a humanidade comum. Outro pressuposto essencial tem a ver com a laicidade —separação da(s) Igreja(s) e do Estado — e o fim da leitura literal dos textos sagrados das religiões.


Os pilares desse diálogo poderiam sintetizar-se assim: 1. Embora não sejam igualmente verdadeiras, todas as religiões são “reveladas” e contêm verdade. 2. Nenhuma tem a verdade toda, pois todas estão referidas ao Absoluto, mas nenhuma o possui. 3. O fundamentalismo é fruto da ignorância ou da ânsia pelo poder totalitário. De facto, quem é o ser humano, finito, para ter a pretensão de possuir o Fundamento? 4. O diálogo inter-religioso impõe-se pela própria dinâmica religiosa: se nenhuma religião possui a verdade toda, devem todas dialogar e exercer a autocrítica. 5. Os ateus que sabem o que isso quer dizer podem dar um contributo fundamental, já que mais facilmente se apercebem da superstição e inumanidade que as religiões podem transportar.


Há muito tempo que o famoso teólogo Hans Küng tinha prevenido: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, um ethos mundial.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 2 de outubro de 2021

A FORÇA DO ATO CRIADOR


Nathalie du Pasquier: objeto, construção, composição.


“I am also interested in understanding that link between geometry and representation of space – the ambiguity of how three dimensions render on a flat plane… Adventures are like that: you follow tracks, you don’t follow ideologies.”, Nathalie du Pasquier


Nathalie du Pasquier (1957) pinta objetos e ultimamente a construção desses objetos faz parte do processo do seu trabalho. A composição dos objetos no espaço é muito importante e determinante. Uma vez estabelecida a composição- que pode formar-se infinitamente (talvez seja aqui que a intuição atua e o desconhecido se revela) - Pasquier representa-a. Porém a sua pintura aceita variações à composição que poderão surgir.


É sem dúvida uma pintura baseada nas formas geométricas mas é uma pintura puramente objetiva - porque a atenção da pintora está no modelo e na sua sombra enigmática (e o tema das suas pinturas é literalmente construído). Mas existe uma certa ambiguidade na linguagem das formas geométricas utilizadas. As pinturas podem ser meras representações de objetos ou ser uma representação de uma arquitetura que nunca existirá - descobrem-se plantas, cortes, alçados e representações de um espaço exterior e de um interior. Na verdade, o processo de trabalho que Pasquier segue é semelhante ao do arquiteto - através da construção do modelo geram-se perspetivas. E na sua procura como pintora, a composição dos objetos é sempre geradora.


Por isso, tal como nos Proun ( https://www.moma.org/collection/works/79040 ) de El Lissitzky, Pasquier explora, nas suas pinturas e objetos, a névoa que existe entre o espaço real e o espaço abstrato e desenvolve a ténue e obscura ligação que existe entre a pintura e a arquitetura. Tal como os Proun, as pinturas de Nathalie du Pasquier são devotas à atenção formal dos objetos, por si construídos, através da luz e da sombra, da transparência e da opacidade, da cor e da materialidade. Tal como Lissitzky, também Pasquier estende a sua dedicação a instalações tridimensionais que permitem a experiência das suas construções no espaço real.


Mas Pasquier não desenvolve uma geometria primordial. Não anseia o universal, nem o eterno que liberta e que cura, tal como nas obras dos pintores suprematistas. As pinturas geométricas de Pasquier são antes uma ode ao silêncio de determinados objetos colocados no espaço do atelier - não são um método de redenção nem um meio para despertar ou renascer.


As composições de Nathalie estão sim preocupadas com as reais propriedades do espaço e com a verdade dos seus objetos dispostos. A relação que estabelece com o objeto é pois subjetiva e particular. Sem distorcer nem desintegrar, Nathalie du Pasquier talvez deseje só a associação, o equilíbrio e a harmonia das partes concretas e diversas sem destruir o todo.

 

Ana Ruepp