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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

  


Era um livro-coto.

Um livro muito interrompido.

Faltavam-lhe muitas páginas. A que se podia pressupor como última nunca existira. A primeira, se a considerarmos como página escrita, era, na realidade, uma nota dispersa, e muitas das restantes continham narrativas que se interrompiam constantemente como se se tivessem deparado com uma outra força maior.

Era um livro-coto.

Importa explicar o poder que desde logo exercia aquele livro-falho sobre mim.

Era um livro que de imediato abria caminho à estranheza. Era um livro-desafio. Um livro que incitava às inquietações. Era afinal um completo livro-viagem.

Tive a certeza de que ao tentar cifrá-lo me entregava a um compromisso que poderia não compreender.

Mas tinha um plano para aquele livro. E fui progredindo numa narrativa que me levava a recordar que o trabalho não tem sempre forma conhecida, e que se alteram formas de verbos e se transportam textos até para outros já escritos ou para outros que nem existem.

Pois é.

Assim fui avançando como discípula de uma aula de nascimento.

O livro, e eu nele, assegurava-me a um tempo o visível e o invisível, labirinto que me ocultava a chave e com ela a possibilidade da decifração última do meu descobrir e do meu dizer.

E por entre assédios e dúvidas, precipitei-me numa circularidade.

Foi a minha natureza a lidar com o impasse a que chegara.

De súbito, quase leitora e quase narradora e quase escritora, dei-me conta que o livro-coto era uma casa de lavoura com um rebanho de filhos e terrenos pastados, a uma hora de todas as serras e mares e bestas e dores e trabalhos e beijos e céus e colheitas e pavios-lamparinas que sempre seguraram ilusão e esperança, enquanto o azeite, o azeite do livro-coto procurava sem fim escorar um ponto.

                                                         *

Um dia, passados anos, voltei a abrir o livro-coto.

Senti-o amável e silencioso como os sábios.

Nada a provar.

O mundo da literatura, revisitação de nós próprios, rasto naquele que viu, memória do ter visto ou intuído em páginas lidas, ou escandalosamente não escritas e ainda assim.


Teresa Bracinha Vieira

SEBASTIÃO DA GAMA

  


Foi com emoção que lembrei a memória de Sebastião da Gama no dia exato em que se completavam cem anos do seu nascimento, no Salão Nobre do município de Setúbal, casa acolhedora e bem conhecida. E veio-me à memória Maria Aliete Galhoz, que considerava “irresistível, a emoção com que fala dele quem o conheceu”, num impulso para testemunhar “sobre uma personalidade sem dúvida humanamente singular, preciosa, se o termo ainda pode ser exato e bom”. Mas foi a Ruy Belo, arguto analista da obra poética do autor de Pelo Sonho É Que Vamos que fui buscar inspiração. E se ele não o conheceu pessoalmente, o certo é que esteve quase livre desse “fascínio vivo”. Se não houve encontro pessoal, a verdade é que a empatia se evidenciou pela leitura da poesia e pela procura da aura que o tempo projetou para além da existência física. “Atravessei o Tejo num «ferry-boat» - diz-nos o poeta de Homem de Palavra(s) - por uma tarde de sol. Depois de Setúbal a caminho do Outão, já eram os passos de Sebastião da Gama que me guiavam. Como se conhecessem a paisagem de há muito. Nem sempre eram grandes coisas que me faziam vibrar. Quase sem querer, ia reconstituindo um quadro esteva por esteva, onda por onda, aroma por aroma. Foi um acaso que me levou a descobrir a pousada, propriedade dos pais do poeta. Eu, cá por mim, nunca a teria procurado. A beleza da vida está em deixá-la acontecer. O sr. Gama - assim lhe chamavam a meu lado – apressou-se a vir ao meu encontro. Naquela altura eu não passava de um cliente. Não foi preciso muito para que nos entendêssemos. Acabou por me servir… poesia. Já havia um por-do-sol lá fora, sobre um mar tão aberto como eu nunca tinha visto, quando reparei naquela senhora de luto – o poeta teria morrido coisa de uns dois anos antes – que a um canto da esplanada via…Não sei bem o que via. Reparei nos seus olhos profundos à força de olhar a vida. Depois… encontrámo-nos a falar dele. Com alegria, claro está. É impossível falar de outra maneira de Sebastião da Gama” …. Eis o encontro, feito de espírito, entre dois poetas, na magia do Portinho da Arrábida. E assim entre Ruy Belo e Sebastião da Gama estabelece-se uma relação capaz de superar a distância do tempo e de preservar o afeto direto da proximidade, sem necessidade do fascínio imediato de quem pela palavra pôde compreender o prazer da alegria e da graça. A poesia atrai os poetas e, por isso ouvimos José Régio a dizer genuinamente: “Quando pude conhecer pessoalmente Sebastião da Gama pensei encantado: “Louvado seja Deus! Ora aqui está um Poeta! Um novo Poeta”. Para Maria Aliete, como para Ruy Belo, o poeta de Pelo Sonho É Que Vamos atinge um estado de deslumbramento quando se exprime pela afirmação dos sentimentos, tendo presente o real, não como abstração, mas como existe, utilizando a palavra “direta, leal, digna”.  O sublime realiza-se na enumeração de referências palpáveis, que começando por ser poéticas, ganham dimensão transcendente – graça, aparição, presença e sinal. O poeta da Arrábida foi um cultor de amizades e o círculo dos seus amigos, permitiu a melhor compreensão da obra, que ganha força pela entrega, pela dádiva, que sempre caracterizou a sua existência. Lembramo-nos de David Mourão-Ferreira, Luís Filipe Lindley Cintra, Maria de Jesus Barroso, Matilde Rosa Araújo, Maria de Lourdes Belchior, Luís Amaro ou Helena Cidade Moura… Franciscanamente filho da Serra da Arrábida, discípulo confesso de Frei Agostinho da Cruz, o poeta amou apaixonadamente a vida, a irmã natureza e a estranha irmã morte. Como escreveu: «Pelo sonho é que vamos, Comovidos e mudos.  Chegamos? Não chegamos? / Haja ou não frutos, / Pelo Sonho é que vamos». E “se é o sonho que nos guia (diz ainda Ruy Belo), a realidade nunca será pobre, porque não passará de um pretexto para ir mais longe». Acompanhou-nos a lembrança de Joana Luísa, sempre presente. E ao deambular em Vila Nogueira de Azeitão foi como se António Osório também ali estivesse.


GOM

A QUESTÃO DO HOMEM: A QUESTÃO DE DEUS

  


Ainda ecoa aquela proclamação que Nietzsche em A Gaia Ciência (1882) colocou na boca de um louco: “Deus morreu! Deus está morto!” Desde então o mundo não é o mesmo. É certo que para Nietzsche Deus tinha de morrer, pois o que a religião proclamava é contra a vida, de tal modo que, com a proclamação da morte de Deus, é o mar infindo das novas possibilidades do sim à vida que se abre. No entanto, à morte de Deus não se seguiria a morte do Homem e do sentido último de toda a realidade?


Segundo as análises de Gilles Lipovetsky, "Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a gente se está a lixar para isso. O vazio do sentido, as derrocadas dos ideais não levaram, como se poderia esperar, a mais angústia, a mais absurdo, a mais pessimismo": isto escreveu ele em A era do vazio – presentemente, parece que já não pensa exactamente da mesma maneira. De qualquer forma, os espíritos mais atentos julgam que é necessário dar antes razão a L. Kolakowski, o filósofo polaco agnóstico, já falecido, quando afirmou que, desde a proclamação da morte de Deus por Nietzsche, nunca mais houve ateus serenos: "Com a segurança da fé desfez-se também a segurança da incredulidade. Ao contrário de um mundo familiar, protegido por uma natureza benéfica e benigna, como era proposto pelo ateísmo iluminista, o mundo sem Deus dos nossos dias é sentido como um caos opressor, eterno. É um mundo privado de todo o sentido, de qualquer orientação, sinal de direcção, estrutura. A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre aberta do espírito europeu, por maior que tenha sido o esforço feito para esquecê-la, recorrendo a toda a espécie de narcóticos".


De que falamos, quando falamos da morte de Deus? De facto, como escreveu o filósofo Eusebi Colomer, a própria expressão "morte de Deus" não é unívoca, pois pode ter e tem múltiplos sentidos. Pode significar que Deus realmente nunca existiu, embora só recentemente tenhamos feito essa descoberta. Pode querer dizer que talvez Deus exista, mas os homens, que outrora se lhe dirigiram pela fé e pela invocação, hoje já não acreditam nele. Talvez queiramos apenas exprimir a experiência de ausência e aparente silêncio de Deus, própria do nosso tempo. Talvez estejamos a referir-nos à necessidade de transcender constantemente as nossas ideias acerca de Deus, e, neste sentido, a "morte de Deus" significa a morte dos ídolos fabricados por nós. Afinal, que Deus era esse que morreu? Se o Deus verdadeiro é o Deus sempre maior, que transcende sempre tudo quanto possamos pensar ou afirmar dele, então os deuses enquanto ídolos têm que morrer, para ser possível a fé no Deus verdadeiro...


Neste domínio, a pergunta essencial consiste em saber se é possível ser Homem sem colocar a questão de Deus. É que ser Homem é a abertura ao Infinito, e, assim, a questão do Homem é a questão de Deus precisamente enquanto questão. Será que, neste sentido, o Homem é por natureza religioso?


Evidentemente, responder a esta questão é extremamente complexo, pois, à partida, seria necessário perguntar pela natureza do Homem, que não é algo de estável e fixo: a natureza do Homem é histórica. De qualquer modo, embora seja histórico, o Homem possui umas constantes enquanto capacidades a desenvolver, que permitem não só distingui-lo dos outros animais como constituem também uma realidade transcultural, que faz com que todos os seres humanos, independentemente da cultura e do tempo histórico que lhes é dado viver, formem uma só Humanidade. Pergunta-se então se a religião é uma dessas constantes, ao menos enquanto questão.


Podem ser apresentados alguns sinais que apontam no sentido de um vínculo entre ser ser humano e a religião.


Assim, quando se considera a história da evolução, parece haver consenso no que se refere à apresentação da sepultura como sinal distintivo decisivo na passagem do animal ao Homem. O Homem é animal sepultante. Ora, não há dúvida de que os rituais funerários sempre estiveram ligados à religião. Depois, quando se pensa concretamente nas culturas antigas, a antropologia não deixa de sublinhar o vínculo entre o culto e a cultura no seu todo.


Mas sobretudo não se poderá ignorar que o Homem é um ser que espera. O bebé que vem ao mundo está animado por aquilo que Erik Erikson chamou basic trust, confiança de base, confiança radical, originária, que começa por concentrar-se na mãe, mas que se dirige ao mundo. Se essa confiança for substancialmente frustrada, os estragos no seu desenvolvimento enquanto processo de se ir aos poucos erguendo até poder dizer "eu" de modo expansivo e integrado podem ser irreparáveis. Por outro lado, como observava o teólogo W. Pannenberg, nem a mãe nem o mundo podem corresponder adequadamente a essa confiança radical ilimitada, que, por isso mesmo, só em Deus, portanto, para lá da família, da sociedade e do mundo, poderá encontrar o seu apoio e segurança.


Neste contexto, afirmar Deus não é então também um modo de expressar a confiança no Sentido último, como sugeriu o filósofo Ludwig Wittgenstein? Seja como for, o Homem é o ser da pergunta e, por isso, de pergunta em pergunta, desembocará inevitavelmente na pergunta ao infinito pelo Infinito, por Deus, pelo Fundamento último, pelo sentido de todos os sentidos, o Sentido último.


O que aí fica não prova, evidentemente, a existência de Deus. Significa apenas que a pergunta por Deus é constitutiva do Homem enquanto tal.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 04 de maio de 2024

PAUL AUSTER (1947-2024)

  


P.A.

O desejo de retomar sempre uma ideia literária do momento decisivo e levá-la a cabo.

P.A.

O admirável mundo dos seus livros fez e fará reconhecer o enorme empreendimento da literatura.

P.A.

No ensaio “Why write” e a necessidade de um lápis, deixou-nos o claro significado de tudo e da absurdidade.

Em cada teu livro, entre princípio e fim,

tu em nós.


Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

  

De 6 a 12 de maio de 2024


A publicação da obra de Jürgen Habermas Uma Outra História da Filosofia – I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber, com tradução de José Lamego (Gulbenkian, 2024), constitui um acontecimento assinalável.



A publicação na coleção dos clássicos da Fundação Calouste Gulbenkian da obra de Jürgen Habermas Uma Outra História da Filosofia – I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber, com tradução de José Lamego, constitui, de facto, um acontecimento assinalável, incompatível com uma apreciação superficial de algo profundamente pensado pelo seu autor, que é hoje “indubitavelmente o filósofo alemão com maior projeção e o modelo, por excelência, do ‘intelectual público’ intervindo regularmente na imprensa”, com participação marcante nos principais debates sociais e políticos. Ao pôr mãos à obra na História da Filosofia, começa por se perguntar que sentido têm hoje as bem conhecidas perguntas de Kant: “Que posso saber?”, “Que devo fazer?”, “Que me é permitido esperar?” e “O que é o homem?”. E confessa não estar seguro sobre se a filosofia, tal como a conhecemos, ainda tem futuro. “Tal como todas as disciplinas, a filosofia segue a tendência de um acréscimo contínuo de especialização”. Nuns casos presta serviços analíticos e conceptuais para as ciências cognitivas, noutros há uma fragmentação perante a crescente necessidade de aconselhamento nos campos da economia, da bioética e da ética ambiental.  Ora, se para as ciências em geral a especialização corresponde a um progresso, para a filosofia não pode perder-se a visão de conjunto. Ora, ao dirigir-se ao todo, a filosofia não pode aspirar a uma visão metafísica nem a uma perspetiva científica. “A questão que me move (diz Habermas) é a de saber o que restaria da filosofia se ela (…) não procurasse contribuir para o esclarecimento racional da compreensão que temos quer de nós próprios, quer do mundo – esta disjunção sublinha precisamente a temática que, com o avanço da especialização, ameaça acabar por se desvanecer”. E assim o acréscimo do conhecimento do mundo exige a referência ao todo, evitando tentar saber mais sobre cada vez menos.


A FILOSOFIA COMO COMPREENSÃO
A filosofia não pode resignar-se perante a crescente complexidade da nossa sociedade e do nosso conhecimento, devendo encorajar os nossos contemporâneos a fazerem o uso autónomo da razão para terem um papel positivo no moldar da sua existência social. Como usar a nossa liberdade racional? Para Habermas, a filosofia apenas pode assegurar a independência do seu julgamento mediante uma autorreferência de natureza histórica – assumindo uma configuração pós-metafísica, segundo a qual a emancipação com vista ao uso da liberdade racional significa ao mesmo tempo, libertação e vinculação normativa. “O afastamento pós-metafísico da crença numa justiça redentora ou ‘salvífica’ permite ter em conta a disponibilidade para a cooperação que os sujeitos socializados em termos comunicacionais devem esperar com vista a fazerem o uso da sua liberdade racional”. Eis a preocupação que ocupa o filósofo nesta sua reflexão panorâmica sobre a fé e o saber, na procura de um fio condutor para encontrar a genealogia de um pensamento pós-metafísico, que mostre como a filosofia se apropriou de conteúdos essenciais das tradições religiosas e se transformou num saber suscetível de fundamentação. Importa, assim, assumir uma atitude de abertura e de diálogo, envolvendo a fé e o saber, com disponibilidade para uma aceitação recíproca de pontos de vista. Daí a demarcação de uma atitude secularista esclerosada, urgindo um diálogo como o que o filósofo entabulou com Johann B. Metz, com evidentes frutos positivos. E essa perspetiva genealógica obriga não apenas a evidenciar as circunstâncias contingentes, a que conduziram os processos de aprendizagem, mas também a insistir nos argumentos a favor de um conceito compreensivo da razão.


UM PENSAMENTO PONDERADO
Este volume de uma obra longamente ponderada pelo autor, começa por equacionar a questão da genealogia do pensamento pós-metafísico, formulando os cenários de crise e do declínio das grandes teorias filosóficas do século XX, até à pretensão de universalidade do pensamento pós-metafísico, continuando na análise das raízes sacrais das tradições do “período axial” de Karl Jaspers – ou seja, o eixo em torno do qual a rotação da história universal como que se acelerou, cerca de 500 a.C., com inerente transformação da consciência religiosa. Daí a necessidade de uma comparação provisória das imagens do mundo nesse período axial, prosseguindo na análise da simbiose da Fé e do Saber no Platonismo cristão e do surgimento da Igreja Católica Romana e da diferenciação progressiva entre Sacerdotium e Regnum, com os desafios colocados por Aristóteles à teologia do século XIII, com as respostas de Tomás de Aquino e a ontologização da ética aristotélica, com consequente transformação da filosofia prática. E o presente volume culmina com as reorientações filosóficas conducentes à modernidade científica, religiosa e político-social. Duns Escoto introduz a mudança de paradigma e Guilherme de Ockam opera a “revolução nominalista”, aproximando-nos da teoria funcionalista do poder estadual, representada por Nicolau Maquiavel, preocupado com a unificação italiana e por Francisco de Vitória com a necessidade de aperfeiçoar a legitimação. Para Maquiavel, com base no exemplo da República Romana, importaria considerar a convergência entre a estabilidade do poder e as qualidades do Estado, da sociedade e da população suscetíveis de legitimar o regime republicano. Este, para ser virtuoso, não depende da liberdade, da moralidade, da razão política dos cidadãos, mas da estabilização das instituições. Deste modo, os problemas da legitimação são subalternizados em relação aos problemas de estabilização do poder. Maquiavel negligencia, porém, a relação entre o poder político e o direito. Mas dois acontecimentos vão obrigar a reequacionar o pensamento jusnaturalista cristão: a chamada guerra dos camponeses e a inclusão colonial de povos pagãos.


UMA EVOLUÇÃO RICA
A guerra dos camponeses representa para o Império, para os territórios dos príncipes locais e para os domínios eclesiásticos o prelúdio da dissolução do poder temporal da Igreja, com passagem do domínio fundiário senhorial para as relações jurídicas modernas e para o direito à propriedade privada. Já Francisco Vitória afirma em De Indis que os “bárbaros”, se antes da chegada dos espanhóis tinham o dominium sui et rerum, não lhes poderia ser negado o direito de disporem livremente de si e das suas propriedades, devendo ser considerados pessoas jurídicas autónomas, não havendo o direito de os subjugar, devendo a fé cristã ser livremente assumida com base na convicção. Antecipa-se, deste modo, o conceito moderno de autonomia individual. Por isso, haveria que favorecer compromissos devidamente esclarecidos. No entanto, haveria que justificar a legitimidade do poder colonial, pelo que, forçando a nota, a guerra e a submissão colonial acabariam por se justificar pela resistência à incorporação dessas comunidades no sistema de domínio colonial… Habermas dá-nos, assim, nesta obra fundamental, uma visão compreensiva da evolução da filosofia contemporânea como fator de autonomia e de responsabilidade.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RICARDO TIAGO MOURA 


(medida)


contar palavras pérolas palavras
a serem verdade: vaidosas
quedas demoradas
sequências paradas
de passos que não mediu
todo o século
passado
é demasiado novo
para contar comigo
contigo comigo: alguém
que tropece na música
das esferas: silencioso
alguém que desligue
esta humanidade
de contar
cortar
acordar palavras pérolas palavras


2016, dispersos
© Ricardo Tiago Moura


(measure)


recounting words pearls words
if they are true: vain
lengthy falls
sequences of steps
that stalled unmeasured
by the whole of last
century
too young
to count me in
with you with me: someone
stumbling on the music
of the spheres: someone
silently disconnecting
this humanity
from recounting
cutting
awakening words pearls words


© Translated by Ana Hudson, 2020
in Poems from the Portuguese 

 

ANTOLOGIA

  


ATORES, ENCENADORES (VIII)
EVOCAÇÕES, DESLOCALIZAÇÕES
por Duarte Ivo Cruz


Faz-se hoje referência a dois aspetos distintos de uma política, digamos assim, de descentralização e deslocalização teatral: atores, encenadores, que ou fizeram a carreira fora de Lisboa, ou que foram devidamente homenageados fora de Lisboa. E tenha-se presente que esta circunstância não é despicienda, dada a secular centralidade do teatro-espetáculo em Portugal.


Referimos, nesse aspeto, em primeiro lugar, Rosa Damasceno (1849-1904). E se a cito, é porque, tal como vimos no artigo anterior com o ator e os Teatros Taborda, o prestigio de Rosa Damasceno manteve-se até muito depois da sua morte: e sobretudo, justificou, a partir de 1893, a denominação de Teatro Rosa Damasceno a um velho Teatro de Santarém, erguido em 1894 no local onde existira a Igreja de São Martinho, e onde, desde pelo menos 1810 se produziam espetáculos. E não só: há noticia de uma representação do “Frei Luis de Sousa”, em 1847, no antigo Convento de São Domingos, espetáculo de que Herculano dá notícia.


De qualquer maneira, o que agora interessa é que a carreira de Rosa Damasceno justificou a homenagem.


Esse primeiro Teatro Rosa Damasceno deve-se a um projeto de José Luis Monteiro e dele ficou a memória de uma sala imponente, com 800 lugares entre plateia, 60 camarotes e geral. Seria substituído em 1938, no mesmo local, por um novo Teatro Rosa Damasceno, este da autoria do Arquiteto Amílcar Pinto: “obra prima da arquitetura moderna e da art déco em Portugal” escreveu Jorge Custódio. (in Relatório para a CMS citado em Duarte Ivo Cruz- “Teatros de Portugal” - 2005) E só é de lamentar que tenha sido votado ao abandono durante décadas, não obstante a notável fachada e a qualidade arquitetónica do interior.


A atriz Rosa Damasceno estreou em 1867 no Teatro da Trindade com um dramalhão intitulado “A Mãe dos Pobres” de Ernesto Biester.  Casada com o ator Eduardo Brazão, cumpriu uma longa carreira no Teatro D. Maria II e no Teatro D. Amélia, com destaque para o que era, na altura, o teatro romântico e contemporâneo português, em estreias de peças ou de adaptações, desde Garrett a Júlio Dinis, a D. João da Camara e ao então estreante Júlio Dantas: mas também os clássicos portugueses, e ainda Shakespeare, Molière, Tolstoi, e muito repertório romântico e ultrarromântico francês, ou seja, o repertório “moderno” da época.


Avancemos algumas dezenas de anos.


Vamos então encontrar, a partir de 1953, o Teatro Experimental do Porto - TEP, fundado e dirigido, até 1961 por António Pedro (1909-1966). Tal como noutro lado escrevi, a sua marca sente-se “no combate por uma renovação do espetáculo teatral nos Companheiros do Pátio das Comédias ou sobretudo, nos anos 50, no Teatro Experimental do Porto ou e na magnífica reflexão erguida sobre uma notável sabedoria técnica que é o Pequeno Tratado de Encenação”. (in “História do Teatro Português” - 2001).


Deveu-se-lhe sobretudo como encenador uma obra decisiva de renovação da cena portuguesa, escreveu Luis Francisco Rebello (in “100 Anos de Teatro Português – 1880-1980” – 1984). Mas António Pedro é também um dramaturgo de qualidade, sobretudo em linhas de conciliação do sentido técnico-dramático com uma modernização de estilos e técnicas de espetáculo, patentes tanto nas encenações como nas próprias peças de sua autoria: “Teatro – Comédia em um Ato”, “Desimaginação”, “Andam Ladrões cá em Casa” “Antígona”, “Reginaldo” e “O Lorpa”.


Mas sobretudo, António Pedro foi um grande homem de teatro, no sentido mais abrangente. Contribuiu, como diz Luciana Stegagno Picchio, para dar “um cunho especial” ao teatro português. (in “História do Teatro Português” – 1962).


E basta recordar os autores que encenou no TEP, entre 1953 e 1961, de acordo com um rigorosa levantamento feito por Carlos Porto (in “O TEP e o Teatro em Portugal” – história e imagens” – 1997):


Léon Chancerel, Egito Gonçalves, Anton Tchekhov, Arthur Miller, Jean Cocteau, Victor Ruiz Iriarte, Shakespeare, Sófocles, António José da Silva, J. M. Synge, Guilherme Figueiredo, Romeu Correia, John Steinbeck, Bernardo Santareno, Eugene ONeill, António Pedro, Oscar Wilde, Miguel Torga, Camilo, Ben Jonson, William Faulkner, Molière, Armando Martins Janeiro, Ugo Betti, Bernardo Santaremo, Pedro Bloch, Raul Brandão, Ionesco, Ibsen, Francisco Ventura…


Assisti a muitos desses espetáculos, ouvi e falei com António Pedro: e tudo isto é inolvidável.


Duarte Ivo Cruz


Obs: Reposição de texto publicado em 28.01.15 neste blogue.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


173. A DESTRUIÇÃO DA PAZ E A NATURALIZAÇÃO DA GUERRA


A mera ameaça ou a intenção de usar armas nucleares é imoral, dado ser ilícito o simples intuito de fazer mal? A dialética da guerra e da paz, idealizada para conflitos armados convencionais, pode ser aplicável à nova realidade da era nuclear? Abolindo, limitando ou reduzindo as armas nucleares, estaremos a abolir, limitar ou reduzir a guerra ou a escolher outro modo de morrer? Ou a “docilizar” a guerra com o fim de a usar como como instrumento da política?


A guerra ou uma paz qualquer nunca foram a melhor solução para resolver os conflitos, dado só interessar uma paz verdadeira, capaz de justificar uma guerra justa. 


No mundo de hoje a guerra coexiste com o armamento nuclear. Desta inevitabilidade e da coexistência entre o pacifismo impressionável e utópico, por um lado, e o belicismo total e monstruoso, por outro, pode resultar uma série de hediondas consequências. Para as evitar poderia abolir-se a guerra, proibir-se ou destruir as armas nucleares, confiar no lado bom da natureza humana e organizar o mundo ao seu jeito. Porque inviáveis estas soluções, surgiu a teoria da dissuasão. 


Esta doutrina desanuviou, por algum tempo, tentou travar a corrida aos armamentos e falhou, não podendo ser tida como uma solução final, tendo aumentado o ritmo e a intensidade, com nove potências nucleares e outras à espera de oportunidade.


Como sabemos, já houve o lançamento de bombas atómicas. Hiroshima e Nagasaki não são páginas brilhantes da história da humanidade. São atos que nos envergonham e introduziram uma nova escala e dimensão dos conflitos humanos.


Elisabeth Anscombe (filósofa), sustentou que uma pessoa é responsável pelas consequências intencionais e não intencionais do seu ato quando previsíveis e evitáveis, pelo que, segundo ela, a autorização para o lançamento das bombas foi moralmente criminosa, censurando e condenando o presidente americano Harry Truman. 


Sucede que a maioria dos conflitos tem como origem um conflito de interesses, o que aumenta, no mundo real, o risco de um novo conflito nuclear de consequências mais suicidas, em que não haverá vencedores nem vencidos, sendo um genocídio (na melhor das hipóteses) ou o fim do mundo/humanidade (na pior previsão).   


O conflito bélico, uma vez iniciado, não é tido, para os realistas, como um ato falhado, em que a força da razão e do diálogo foi substituída pela razão da força, dado isto ser doutrina de pacifistas e de filósofos bem-pensantes, colocando-se contra a realidade da vida em sociedade.     


Para uns, a única esperança é o pacifismo, para outros, o equilíbrio das armas,  sobressaindo o dever de sobrevivência das espécies, incluindo a humana, havendo que esforçar-nos, na nossa imperfeição, por controlar ou influenciar a definição dos fins e meios para alcançar um rumo exequível entre a utopia e a realidade, sem esquecer que “a bomba atómica mudou tudo, exceto a natureza do homem” (Albert Einstein).


03.05.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

O que está no horizonte das possibilidades 

  


Os saberes têm provado que a humanidade só muda na aparência.

A fila dos absurdos na falta de espessura dos humanos perdura até que um e um outro Leviathan

vençam.

O tempo abstrato regista as medulas inclinadas até ao chão.

Até os heróis perdem a decifração do que se passa e perdem-se a eles mesmos num lodo que lhes apaga os vestígios das pegadas do existir.

Os deuses, os deuses

desencadearam há muito um projeto totalitário: o monoteísmo e outros que se lhe entrelaçam e reinam.

Púdicos, confusos, os homens precisam de mimos e encostam-se uns aos outros dentro do mesmo ouriço, numa caminhada sem ato de vontade, prisioneiros-alvo, no cais que agora só os reproduz iguais.

Também se chora a ler versos sem os entender, desconhecendo se se imagina a pungência, ou se apenas umas coisas vão tirando as outras e todos se consolam como nobres figuras.

A plasticidade foi excessiva nalgum ponto de luta e a casa de cada um deixou de ter forma, telhado ou halo.

Mas eis que rebenta uma flor, uma flor que conhece o que está no horizonte das possibilidades, uma flor com aroma e com um pio que orienta cegos; uma flor tão sensata que conhece os limites da liberdade; uma flor que concluiu que a finitude estimula a formação de projetos, mesmo que o horizonte seja chão, solidão essencial ou sobressalto.

E eis que os saberes confluentes assomam assim na natureza nua.

E eis que a flor expõe de novo o vínculo grandioso que nunca se apossou da totalidade dos possíveis.


Teresa Bracinha Vieira

ESPERANÇA & EXIGÊNCIA


Como imaginar o futuro da democracia em Portugal? Eu tinha vinte e um anos em 25 de Abril de 1974 e as esperanças que tive nesse tempo mantêm-se. O mundo alterou-se profundamente, mas as preocupações fundamentais persistem. “Por um país de pedra e vento duro / Por um país de luz perfeita e clara / Pelo negro da terra e pelo branco do muro” – assim definiu a Pátria Sophia de Mello Breyner (Livro Sexto, 1962). É a dignidade humana dos portugueses, como seres livres e iguais em dignidade e direitos, que está em causa, muito mais do que longas listas de boas intenções. E se a palavra-chave é Democracia, temos de compreender que é um sistema de valores que está em causa. Temos de estar determinados numa cidadania inclusiva, muito mais do que em desenvolver estados de alma ou do que propor listas de encargos. Urge combater a indiferença e a mediocridade, bem como a tentação das soluções providenciais. Ou os cidadãos e a sociedade toda assumem responsabilidades, pela descentralização, pela participação e pela subsidiariedade ou o fatalismo do atraso e a subalternização prevalecerão. É o Estado de Direito que temos de continuar a aperfeiçoar – com o primado da lei, a justiça justa e célere, a transparência nas instituições, instâncias mediadoras próximas dos cidadãos, governo do país pelo país, poderes locais prestigiados e eficazes, legitimidade do exercício, avaliação e prestação de boas contas, economia humana, preservação da biosfera e da qualidade ambiental…  Aplique-se, por exemplo, a Constituição, quando prevê no sistema eleitoral um círculo nacional em complemento da proporcionalidade.


Ter caminhado de 25 por cento de analfabetos, há cinquenta anos, para um número despiciendo hoje foi um avanço significativo que deve ser preservado e consolidado. O mesmo se diga da mortalidade infantil, da escolaridade obrigatória de 12 anos, da melhoria nos índices de retensão e de abandono escolares, mas também do investimento em investigação científica e da cooperação internacional. A qualidade das aprendizagens no ensino e na formação tem de melhorar, valorizando e avaliando as escolas, os professores e educadores e criando uma responsabilidade partilhada com as comunidades e as famílias. O aumento da esperança média de vida, o crescimento da população com mais idade, a melhoria na qualidade dos cuidados de saúde e o envelhecimento ativo, eis o que não poderemos esquecer. Como disse Eduardo Lourenço, temos de ser nós próprios, sem a tentação de ilusões de grandeza ou de miséria, em nome de um patriotismo prospetivo e audaz. Só a democracia pluralista e a cidadania inclusiva preservar-nos-ão de perigosos retrocessos. Só se formos exigentes, se soubermos querer, se cuidarmos do partir e do regressar, se dispusermos do saber de experiências feito, se tivermos memória, se não esquecermos o legado de quem nos antecedeu, se planearmos e avaliarmos – é que podermos ser relevantes. A Europa e os mundos da língua portuguesa abrem-nos horizontes de diálogo, de cooperação e intercâmbio que temos de prosseguir, porque a cultura da paz obriga a maior partilha de soberanias.  Como na “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya” de Jorge de Sena, cabe-nos desejar “Um simples mundo, / onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém / de nada haver que não seja simples e natural” (Metamorfoses, 1963). 


GOM