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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MEMÓRIAS DE ADRIANO

  


Começo por ler Marguerite Yourcenar na longa carta do Imperador Adriano (76-138) ao seu filho adotivo Marco Aurélio (121-180). A escolha da personagem deve-se ao período de transição em que Adriano viveu e que podemos encontrar na explicação da própria Yourcenar: «Encontrei (…) num volume da correspondência de Flaubert, muito lido e muito sublinhado por mim, pouco mais ou menos em 1927, a frase inesquecível: “Não existindo já os deuses e não existindo ainda Cristo, houve de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem”. Uma grande parte da minha vida ia passar-se a tentar definir, depois a descrever, esse homem sozinho e aliás ligado a tudo». E assim a autora de “Memórias de Adriano” procurou uma vida conhecida, acabada e fixada pela História, “de forma a abranger num só olhar toda a curva; mais ainda, a escolher o momento em que o homem que viveu essa existência a avalia, a examina e chega a ser por um instante capaz de a julgar”. Eis-nos diante do mistério do tempo. É essa a preocupação fundamental deste livro consagrado. E refere-se o paralelo entre a Antiguidade de Adriano e a modernidade de Lawrence da Arábia, tendo um como pano de fundo as colinas de Atenas e o outro a sabedoria do deserto – numa relação biunívoca para compreender o ascetismo e o hedonismo. E o tema comum era o da pessoa que encarava o tempo e que recusava a indiferença. Tudo, de modo a ter a liberdade de dizer, como Yeats: “É a mim próprio que eu corrijo ao retocar as minhas obras”.


Yourcenar (traduzida por Maria Lamas e depois por Helena Vaz da Silva, de quem se tornou amiga) exigia a si mesma a capacidade de compreender a realidade do mundo e a vida. “A substância, a estrutura humana não mudam. Nada mais estável que a curva de um tornozelo, o lugar de um tendão ou a forma de um dedo de um pé. (…) No século de que falo, estamos ainda muito perto da livre verdade do pé nu”. Urge analisar, prevenir, prever – com Plutarco e Marco Aurélio, para entender que os deuses e as civilizações passam e morrem. Não somos nós os únicos a olhar de frente um futuro inexorável”. A clarividência de Adriano evidencia-se. O mundo é complexo, mas vale a pena prosseguir na constante interrogação sobre ele. É Arriano quem escreve uma última missiva final Adriano, sobre o resultado das suas obras. Foi tudo em vão? E Adriano entende não poder fraquejar, por isso, deve continuar a pensar e a sonhar, e a ligar a “disciplina augusta” à virtude da “patientia”. O desafio permanente e indubitável é o de caminhar de olhos abertos, continuando a desejar conhecer os múltiplos aspetos do mundo terreno – o amor, a amizade, a fidelidade, a alegria…


Neste ponto da crónica, o leitor sente-se confuso. Julga ter-se enganado no tema e no título. Conhece talvez a obra de Marguerite Yourcenar, mas agora pensou que haveria uma outra referência. De facto, não se equivocou, veio mesmo ao lugar e ao tema que esperaria, todavia não do modo previsível e costumeiro. Adriano e Marco Aurélio, as personalidades da antiguidade clássica aqui estão, do mesmo modo que a reflexão sobre a vida e sobre a exigência de pensar e de recusar a inércia e a indiferença. É verdade. Este texto foi escrito, no entanto, a pensar numa personalidade portuguesa de referência, que acaba de completar a bonita idade de cem anos. Ponto por ponto, o romance fundamental que invocamos leva-nos à compreensão da vivência do tempo, não como mero percurso dos ponteiros do relógio, mas como revelação de resposta para aquele mistério do tempo que Santo Agostinho confessava ser difícil de resolver. De quem falamos, ensinou-nos pacientemente e sem desistência a complexidade da vida e do mundo: “A unidade da humanidade implica, na linha de ensinamento do Padre António Vieira, o abraço da justiça e da paz, mas tem de ser a justiça, contudo, a tomar a iniciativa desse abraço”. E assim homenageamos, com os melhores votos, o exemplo de Adriano Moreira.  


Guilherme d’Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

  

De 19 a 25 de setembro de 2022


João Manuel Duque, autor de “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (Alcalá, 2003), recebeu o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes. Damos conta das palavras que proferiu na cerimónia de entrega do galardão.
 


O CONFRONTO COM A TECNOLOGIA
Na cerimónia de entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, o teólogo João Manuel Duque, agraciado este ano, afirmou estarmos perante a tentação da prevalência de posições extremas, na relação entre a humanidade e a tecnologia entre quem sonha “com uma espécie de divinização do humano através da sua transformação e transfiguração tecnológica, e da demonização da tecnologia”. Essas duas atitudes correspondem, porém, a um mesmo deslumbramento (e submissão) relativamente às inovações da tecnologia, tantas vezes sob o esquecimento do carácter permanente e irrepetível da humanidade. No fundo, importa saber qual o impacto dos recursos digitais e da internet sobre as sociedades e as pessoas. A vontade, a autonomia, a consciência e o livre arbítrio não podem deixar de estar presentes nesse confronto. Daí a necessidade de distinguir os fins e os meios. A pessoa humana e a dignidade estão no domínio dos fins, enquanto as tecnologias, a inteligência artificial e os robôs se encontram no campo dos instrumentos, ao serviço das pessoas.  


Importa debater, “de forma mais equilibrada o impacto antropológico da tecnologia e as transformações que comporta, seja a nível psíquico seja a nível social”, sendo impossível pensar os humanos reais do nosso tempo sem essa dimensão. Nesse sentido, “o discurso teológico não é, em primeiro lugar, apenas para ambientes eclesiais”, devendo as comunidades que aí se movem “estar permanentemente envolvidas e interessadas nas questões significativas da humanidade, sobretudo naquelas que tocam a convicção fundamental do que seja humano e do que seja o seu sentido sobre a Terra”. A teologia deve, por isso, “falar para fora, a partir de dentro, e falar para dentro a partir de fora. E isso não como alternativa”, mas sim num movimento permanente de vaivém, envolvendo quem se move dentro e fora dos meios eclesiais. De facto, a ideia de um dentro e de um fora da Igreja – ou do mundo – é problemática, por ser rigidamente dualista. “Distinguir é benéfico e mesmo necessário; mas separar é, normalmente, prejudicial ou mesmo perigoso”. Urge deste modo, evitar a confusão entre o humano e o divino, assim como nunca poderemos separá-los, como mundos diferenciados e à parte. O pensamento teológico exige, assim, uma inserção cultural. Por isso, a teologia que se pratica entre nós é uma teologia contextualizada na Europa, devendo, no entanto, ainda considerar-se a sua relação com o resto do mundo.


PENSAR-NOS NA RELAÇÃO COM OS OUTROS
Para João Manuel Duque, estamos perante dois desafios: “pensar-nos em relação aos outros, diferentes de nós; e pensar-nos nos dinamismos internos” da Europa, onde nos encontramos. Quanto ao primeiro aspeto, estamos perante a possibilidade de desenvolvimento de uma fértil relação com a América Latina, África e Ásia, em cujos contextos o impacto do pensamento que podemos designar como “decolonial” sobre a teologia se torna evidente. Já quanto ao segundo aspeto, há dois caminhos possíveis: por um lado, a relação da teologia com a política de acolhimento do que é diferente e outro, nomeadamente na questão das migrações e dos refugiados. Uma teologia completamente alheia a esta questão seria uma teologia incapaz de compreender a realidade. Complementarmente, no caminho alternativo importa compreender a relação da teologia com o mundo da cultura, nomeadamente com o mundo das artes, no sentido mais abrangente da criação. E então estamos perante fatores desafiantes, que procuram interpretar o mundo que nos cerca, através de formas que se aproximam do discurso teológico.


QUE PÓS-MODERNIDADE?
Quando João Manuel Duque escreveu “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (2003), Eduardo Prado Coelho considerou tratar-se de uma obra referencial que merecia uma especial atenção. Para o autor, “sendo a teologia de sempre uma tentativa, simultaneamente renovada e inculturada, de articular Deus num discurso humano, a teologia contemporânea – pelo menos no mundo dito ocidental – não poderá ser outra coisa, senão a constante procura de dizer Deus na pós-modernidade. Mas a abordagem do espaço e tempo culturais, considerando o mundo que habitamos em termos de ‘pós-modernidade’, exige ainda uma elaboração crítico-reflexiva vasta e alargada”. Por isso, esboçar uma teologia na pós-modernidade pressupõe a análise atenta da cultura e do pensamento pós-modernos, “tarefa a que nenhuma teologia atual pode esquivar-se, quer venha a enfrentar esse contexto de forma radicalmente crítica, quer pretenda torná-lo fértil no seu próprio interior”. Assim se compreende a referência e a atenção dada a autores como Hans Urs von Balthasar, na consideração do amor como plenitude metafísica; Eberhard Jüngel, ao referir a morte de Deus por amor; Johann Baptist Metz, interrogador das histórias da História; Jean-Luc Marion, estudioso da superação da idolatria metafísica; e Georg A. Lindbeck, que se preocupa com os limites da intra-textualidade. Isto, sem esquecer H.-G. Gadamer, com quem compreendemos que “o intérprete tem o dever de entrar em diálogo com a realidade de que se fala nas narrativa”. E assim a hermenêutica é sempre dialética, visando a compreensão do texto teológico e sempre a necessidade da compreensão de si mesmo. E temos de lembrar ainda Nietzsche e a tensão que existe com o cristianismo, no tocante ao facto de Deus poder ser mediador da afirmação do homem e o homem mediador da afirmação de Deus. No fundo, o trabalho de uma teologia pós-moderna é imenso, quer se trate da desconstrução de perspetivas modernas ou mesmo pré-modernas, quer se trate do desaparecimento de categorias que se nos tinham tornado habituais, que se trate da redescoberta de temáticas ou perspetivas já antigas e algo esquecidas pela modernidade.


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE GOLGONA ANGHEL

  


Na sala de leitura da insónia


Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.


No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.


Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.


Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida,
- olhai –
sou o novo modelo para o fracasso.


in Vim porque me pagavam, 2011


In insomnia’s reading room


In insomnia’s reading room,
when the rubbish truck is
the only answer to silence
and each instant is a lover
we kill in an opening and closing of legs,
I follow as an echo, down to the station,
the hurried step of the cleaning ladies.
For them, there’s no hell. They just
avoid dreaming.
For us, the 837 bus destination will always be Calvary,
even if I pay for my ticket.


In the slow but sure horizon of an utopia-light,
I spend my days selling my third world
in international conferences and talks.
I show everybody my golden canine tooth,
my giraffe skin,
the bibliography in French.


I write the word empty
after the word waiting.


I lay my hands on my tired knees.
Clean
but badly dressed,
– look –
I’m the new model for failure.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

ANTOLOGIA

  


AVISTANDO AO LONGE AS PIRÂMIDES…
por Camilo Martins de Oliveira


"Cheguei ao Cairo, instalei-me, escrevo-te da varanda do meu quarto, avistando ao longe as pirâmides de Gizé. Sinto-me um qualquer Professor Mortimer e quero desvendar mistérios, daqueles que se escondem nas grandes pirâmides, por serem túmulos, e se encerram no pensamento imperturbável das esfinges, por serem do outro mundo... Mas outra lembrança me desperta e me enche o coração de ternura e benquerer: leva-me à mesa de um restaurante debruçado sobre um mar que se agita muito, ao princípio de uma tarde de inverno, em que o sol vai surgindo e logo foge, soprado pelo vento e batido pela chuva. Estamos só nós dois, acabámos de almoçar e conversamos com a intimidade e confiança de um convívio antigo e secreto. Não sei porquê, solta-se-me simplesmente o gesto, e acaricio com dois dedos as rugas da pele do teu pescoço... Olhas-me como se esse contacto fosse esperado e habitual desde a antiguidade de ti. E ofereces-me um sorriso leve e breve, tão leve que o trago sempre comigo, tão breve que ainda me dura no coração. Não há discurso nem exaltação do amor que diga tanto como esse reconhecimento íntimo e silencioso da alma a que chamamos irmã, porque estava, quiçá, connosco desde antes da memória. No avião que me trouxe, fui lendo as "Lettres d´Égypte" do Pe. Teilhard de Chardin que, ouvi dizer, serão traduzidas para português por um sobrinho nosso. Endereçadas, entre 1905 e 1908, a seus pais, por Pierre Teilhard, são relatos coloquiais das mil e uma descobertas do Egipto por um jovem de vinte e tal anos. Sobre o Cairo de então, paira o fantasma do império otomano, cujo fim, na Turquia, virá com a proclamação da república: Mustafá Kemal (Atatürk) é eleito presidente em 1923. No Egipto, já os ingleses se lhe substituíram em 1882, tal como o farão, em 1917, na Palestina. Transcrevo-te este trecho de uma das cartas: "Finalmente, visitei as ruínas de uma mesquita muito antiga do Cairo... ...tem-se uma vista magnífica sobre todos os velhos bairros do Cairo, cobertos de minaretes, percorridos por ruas tortuosas, apinhadas de camelos, de melancias, de ovelhas e de árabes. Todo este movimento, visto de cima, longe do cheiro e da curiosidade indígena, era duplamente curioso de observar. Está-se a restaurar esta mesquita, como muitas outras na cidade. É uma boa obra, porque nisso fizeram os turcos coisas muito bonitas. Nestes dias, li um livro cheio de interesse para quem viu um pouco as coisas do Oriente: "Les mémoires du Marquis de  Noinel", por Vandal: a maioria dos aspetos dos costumes observados em Constantinopla, no reinado de Luís XIV, encontram-se ainda hoje por cá...".


Fui a esta carta do Marquês de Sarolea - e a esta citação do jovem Teilhard - por me ter chegado de Paris, ainda com cheiro a tinta, um livro de Vincent Lemire intitulado "Jérusalem 1900 - La ville sainte à l´âge des possibles", em que se fala do facto e feito histórico que foi o município intercomunitário, como entidade única e partilhada de gestão daquela urbe, de 1860 a 1930. A sua instituição facultou um período de convívio pacífico e governo comum (de muçulmanos, judeus e cristãos) e ainda se aguentou por mais treze anos, depois da substituição do império otomano pelo mandato britânico. Aquele ocupou Jerusalém durante quatro séculos, de 1517 a 1917. No tempo para que iremos olhar, a tolerância do governo otomano produziu frutos. Personagem central do pensamento fundador e da ação executora desse projeto de coexistência, partilha e identidade na cidadania da Cidade Santa, o palestino jerusalemita Yussuf Ziya al-Khalidi, que foi presidente da Câmara Municipal de Jerusalém e deputado, pelo mesmo círculo, ao Parlamento Otomano em Istambul. Escrevia ele, a 1 de março de 1899, ao Grande Rabino de França, Zadoc Kahn, este envolvido no crescente movimento sionista: "Gabo-me de não precisar de falar nos meus sentimentos para com o Vosso povo. Todos os que me conhecem sabem bem que não faço qualquer distinção entre Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Inspiro-me sempre na sublime palavra do Nosso profeta Maleaqui: "Então não temos um pai comum a todos nós? Não foi o mesmo Deus que nos criou a todos?" E, noutro passo, sobre o Sionismo: "A ideia em si mesma é totalmente natural, bela e justa. Quem pode contestar o direito dos Judeus sobre a Palestina? Deus meu! Historicamente é mesmo o Vosso país! E que maravilhoso espetáculo seria se os Judeus, tão talentosos, fossem novamente reconstituídos numa nação independente, respeitada, feliz, podendo prestar, como outrora, serviços à humanidade!" Mas, com o realismo de um político palestiniano, que viu mundo, fala e escreve francês, alemão e inglês, além de turco otomano e árabe, acrescenta: "Temos de contar com a realidade, com os factos adquiridos, com a força brutal das circunstâncias. Ora a realidade é que a Palestina é agora parte integrante do Império otomano e, mais grave ainda, é habitada por outros além dos israelitas. Esta realidade, estes factos adquiridos, esta brutalidade das circunstâncias não deixam ao Sionismo, geograficamente, qualquer esperança de realização, e é sobretudo uma ameaça para os Judeus da Turquia". Tem razão Vincent Lemire quando considera que as reservas de al-Khalidi ao projeto sionista se fundamentam na sua experiência de gestão da Cidade Santa: "Fui durante dez anos presidente da Câmara de Jerusalém e, depois, deputado desta cidade ao Parlamento imperial, e ainda o sou; estou a trabalhar para o bem da cidade, para lhe levar água potável. Falo-vos pois com conhecimento de causa. Consideramo-nos, nós, Árabes e Turcos, como guardiães dos lugares sagrados para três religiões: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. Pois bem: como podem os condutores do Sionismo imaginar que poderão arrancar esses lugares sagrados às duas outras religiões que são largamente maioritárias?" Da história dessa teimosia, nem o Tintin se livrou. Em "Au Pays de l´Or Noir", desembarcado em Haïfa, o nosso herói é raptado por terroristas judeus da "Irgoun", que o tomam por Salomão Goldstein. Por aí vai parar ao deserto, depois de um bando árabe ter interceptado o carro em que os seus primeiros raptores o levavam... O primeiro "Tintin" que recebi - e li com gosto - foi, em 1947, o "Tintin en Amérique". Presente de Camilo Maria. De então em diante, ao ritmo das suas edições, fui recebendo as outras aventuras do jornalista sem idade. Foi outro modo de o Marquês de Sarolea me abrir portas para o mundo...


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 15.02.2013 neste blogue.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


120. VIOLAÇÃO DE PRIVACIDADE, EXPOSIÇÃO PÚBLICA, REDES SOCIAS


As redes sociais tornaram-se requeridas como objeto funcional e ícone social.


Assim se começou a reparar na confiabilidade acrescida daqueles que credibilizam situações de fotografar, filmar e gravar a nossa casa, o nosso automóvel, os nossos momentos de férias e de lazer. Ou uma parte desse todo, como uma pintura, uma escultura, um quarto, a piscina, o jardim, momentos íntimos em família, transferindo-os para o facebook ou o instagram, sem autorização.


Por vezes o intruso reage com surpresa, ao ser interpelado pelo dono, dado tê-lo feito porque gostou, tendo tal publicação como um elogio, um louvor, não tendo consciencializado ter havido violação da privacidade, quando não acompanhada de se ter feito passar, falsamente, pelo próprio proprietário. Além da violação da privacidade, há falsidade e uma mentira não assumida.


Ao invés, também há a exposição pública e pessoal, premeditada e consentida, partilhando a nossa casa, reuniões laborais, eventos familiares e públicos em diretos televisivos e pela internet, entrando em lares privados e lugares públicos restritos. Há menos privacidade, em tais situações, mas não violação de privacidade. Deixamos entrar estranhos na nossa privacidade, no que anteriormente nos era reservado.   


Essa exposição, para além de voluntária é, não raras vezes, elaborada, sendo comum que em entrevistas a pessoas tidas como respeitáveis, para além do requisito cénico da indumentária, haja também o da comunicação pública através de uma biblioteca pessoal com estantes onde estejam, bem visíveis, os livros certos, garantia de que são levadas a sério, ocultando-se os tidos como errados. E há o livro como ornamento, com lojas especializadas em decoração que disponibilizam falsas lombadas. 


Há, tantas vezes, uma cultura exibicionista nas redes sociais que faz perigar a nossa privacidade e intimidade, generalizando a coscuvilhice, a intriga e as falsas notícias, dando azo a uma geração educada para viver sem liberdade no seu espaço e sentido mais íntimo e privado, o que é lucrativo para empresas de comunicação, tecnológicas, seguradoras, bancos e um número infindável de entidades e instituições, como o fisco e o Estado, que em nome da segurança e da banalização permissiva da privacidade, se arrogam ter legitimidade para sermos cada vez mais vigiados e terem acesso a dados pessoais tantas vezes não exigíveis.


16.09.22
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Álvaro Siza Vieira – A revelação de uma incontornável poesia na arquitetura.

  


Siza, “o grande maestro” da elegância e da simplicidade.


Da narrativa do seu processo de criação surge o conforto e a funcionalidade.


Ligado profundamente às obras de Frank Lloyd Wright e Adolf Loos, o seu trabalho aceita as influências minimalistas e modernistas e explora sempre o ambiente que rodeia a obra.


Siza Vieira, “o grande maestro” que trouxe inovação à estética deste nosso país.


A ordem da obra na relação com os outros espaços: eis.



A arquitetura também nos chega por mão de quem revela o cerne do conhecimento intuitivo entre a humanidade e a natureza e a vontade de conhecer o habitat de ambas.


“Arquitetura é arte, e isso está no meu espírito desde sempre” afirma A.S.V.


Diga-se que as verdadeiras manhãs acontecem quando a arte comanda as mondas, os muros e os musgos, na pura ideia de nunca deixar de pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  

 

A cidade como ecrã.


«Já nos Estados Unidos a contaminação da cidade pelo cinema e vice-versa não podia ter um aspeto mais prático, positivo e efetivo. O cinema entrou na cidade e a cidade entra no cinema e os dois emprestam-se um ao outro, ampliando e reinventando o território de ambos. Se a cidade do século XIX constituía um proto-ecrã, o ecrã constitui agora uma proto-cidade, a proto-cidade onde muitos querem viver» (Sol 2018, 20)


Na tese “A Imagem da cidade e o seu espaço-representado no videoclip da década de oitenta. Interferências norte-americanas na cultura arquitetónica contemporânea dita ocidental.” (Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitetura, 2018), Luísa Sol escreve que há toda uma nova atmosfera urbana, advinda das alterações impostas no final do séc. XIX, e que antecipou todo o ecrã contemporâneo - através da transformação da noção de espaço público e da emergência de uma nova consciência do individual (Sol 2018, 8). Essa nova consciência surgiu com o advento do capitalismo industrial que destruiu lentamente o domínio público, ao ampliar as expectativas e os interesses privados. O eclodir dos grandes armazéns e o seu sucesso fizeram da vida pública um lugar mais intenso e menos sociável, sublinhando sobretudo o papel da secularização. A secularização leva o ser humano a mistificar a sua própria condição – e a não ter tempo para olhar para qualquer outra coisa que não seja a sua eterna face num reflexo. Sol explica que Baudelaire em O Pintor da vida moderna afirmou que o indivíduo moderno deseja assemelhar-se somente àquilo que pretende ser, sem se deixar tocar pelo incontrolável e pelo incompreensível. E vive, por isso, em grande conflito com o facto de ser outro. O seu reflexo nunca corresponde ao sonhado. O resultado é o culto da personalidade, através do fascínio das roupas e da moda. Haussmann, contribuiu em Paris, para a produção desta sociedade que agrava a visão que cada um tem de si próprio - os grandes boulevards não escondem nada, o importante é aquilo que as pessoas têm para mostrar.


A metrópole da era industrial e o cinema surgiram num contexto muito próximo: «A cidade moderna, do comércio, dos boulevards, das vitrines e das arcadas sintetiza um modelo expositivo que determinaria a importância da imagem, estática ou em movimento, da visibilidade do indivíduo e da mercadoria, da sua circulação e transações.» (Sol 2018, 12)


A cidade e também a arquitetura, para Sol, funciona assim como o ecrã da modernidade e, gera, a necessidade do cinema. A cidade moderna trouxe a constante vontade das pessoas verem e serem vistas. A nova velocidade, as multidões de olhos e as largas avenidas esboçaram o ato de filmar e a permanente exposição dos percursos no espaço. Por isso, a arquitetura da cidade é a superfície ideal para se projetar tudo aquilo que as pessoas têm para exibir.


Luísa Sol revela ainda que os situacionistas já avisavam que a sociedade moderna estava contaminada e dominada por imagens. A imagem do mundo torna-se assim mais importante que o próprio mundo. Essas imagens são uma produtificação da vida quotidiana. E vai ser cada vez mais difícil separar a realidade da ficção. (Sol 2018, 20)


Ana Ruepp

SINGULAR NOSTALGIA

rainha isabel ii.png

 

Queira-se ou não, é uma época que termina. É o retrato de um tempo que passa para os arquivos da memória. E invocamos uma fotografia de 1953, de Winston Churchill junto da jovem Rainha Isabel, num cumprimento respeitoso, mas familiar. Apercebemo-nos da dignidade de um sentido paternal, símbolo de uma tradição que encontra a atualidade. Com a morte da Rainha Isabel II ficam-nos muitas lembranças, muitos acontecimentos, numa zona de penumbra e de perigoso risco de esquecimento. A memória que tenho mais forte e mais antiga da Rainha é a da Avenida da Liberdade e do imponente cortejo na visita oficial de fevereiro de 1957.

 

É a imagem de um conto verdadeiro que jamais esquecerei. Depois, tenho de recordar o entusiasmo da minha família, em especial da parte anglófona, com um século, pelo menos, de crença liberal, no sentido democrático. Recebi, assim, com estupefação e angústia a notícia do Brexit, pelo qual a Europa Atlântica foi fortemente afetada. Não falo agora da antiga aliança luso-britânica e dos seus claros e escuros, mas tenho bem presente a vitória da causa do nosso rei D. Pedro IV, incentivada pela chegada ao governo britânico do partido Whig de Lord Charles Gray e pela Monarquia de Julho de 1830 do Rei Luís Filipe de Orleães, em França. Há mil lembranças históricas – e se digo que corremos o risco de um esquecimento perigoso, é porque a incerteza do momento que coincide com a morte de Isabel II pode fazer-nos esquecer o longo período de paz que coincidiu com o reinado da soberana desaparecida.

 

O cenário de guerra, a crise económica e o risco pandémico, que hoje vivemos, deixa-nos num caminho de dúvida, de temor e de incerteza, que afeta a Europa e o mundo. Perante a situação atual, a Europa precisa do Reino Unido e Portugal e a Península Ibérica terão tudo a ganhar se preservarmos a vertente atlântica. E precisamos da coragem serena de quem, no decurso do último conflito mundial, se alistou no exército como condutora de pesados e mecânica de automóveis. Numa vida difícil e plena de contratempos, mas também com momentos exaltantes, o que encontrámos sempre na Rainha foi a coerência e o estrito respeito do Estado de direito, da justiça e dos direitos fundamentais.  Memória e vontade afirmaram-se de um modo natural. Longe de qualquer melancolia, a recordação que fica da Rainha Isabel II é da coragem, da simplicidade, do serviço público, do cuidado, da serenidade, do exemplo. Precisamos de memória que preserve a paz, e o exemplo da Rainha que agora nos deixa, depois do mais longo reinado, de que temos memória, merece atenção. O século XX foi um tempo de tragédia e destruição, que nada fazia prever, como afirmou Stefan Zweig, a que sucedeu um tempo de trinta gloriosos anos de paz, de cooperação e de desenvolvimento. Montesquieu ensinou-nos que só o poder limita o poder – e, através do exemplo da Rainha Isabel II, sabemos que tudo começa na consciência das fronteiras da ação. Nada sabemos sobre o que nos reserva o futuro. O rei Carlos III terá uma palavra a dizer, nos estritos limites dos seus poderes constitucionais – e será o caminho adotado por sua mãe a referência fundamental. Como diria Shakespeare: “É melhor ser rei do teu silêncio do que escravo das tuas palavras”.

GOM

A VIDA DOS LIVROS

  

De 12 a 18 de setembro de 2022.


O pensador e ensaísta António Cândido em “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos” (1969) apresenta-nos uma visão panorâmica fundamental sobre a Literatura contemporânea do Brasil.  

 

  

À memória de António Candido. Para Celso Lafer.


DAS RAÍZES À DIVERSIDADE
Quando lemos as sucessivas edições de “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda, desde 1936 até 1969, percebemos que a reflexão que lhe está subjacente considera uma significativa complexidade e a coexistência de fatores que são contraditórios. A razão de ser da dificuldade funda-se na extensão do território, na diversidade dos povos que foram constituindo o extraordinário país e na coexistência de influências históricas e políticas diferentes. De facto, torna-se difícil entender como foi possível construir uma tão ampla fronteira, delineada não do modo tradicional das conquistas imperiais, mas a partir de uma articulação de movimentos diversos e simultâneos centrífugos e centrípetos. Olhe-se o mapa da Península Ibérica e faça-se a comparação com o da América do Sul. Na Europa, o retângulo ocidental português tem uma fronteira estável desde o século XIII, como verdadeira exceção no velho continente, com uma língua sem dialetos, construída de norte para sul e de sul para norte, nascida na Galiza, fora do território português, mas projetada globalmente; enquanto o reino de Espanha tem várias autonomias que correspondem a uma acentuada diversidade política e cultural. Já no Atlântico Sul, a grandiosa unidade política e linguística brasileira contrasta com a multiplicidade de estados de influência hispânica. Esta diferença corresponde também à especificidade que levou à independência brasileira através de um processo gradual, que exige a compreensão e o estudo como um fenómeno apenas compreensível pela coexistência de múltiplos fatores com uma tendência convergente.


Basta lembrar que estamos perante o caso singular de uma colónia emancipada, sobretudo depois das guerras napoleónicas, tornando-se cabeça de um Estado europeu, quando a capital e a Corte se fixaram no Rio de Janeiro, os portos brasileiros se abriram ao comércio internacional (ao invés do tradicional pacto colonial) e se instituiu o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815). Assim se pode explicar a dificuldade em encontrar uma chave única para a análise sobre a dominação e a emancipação e sobre os seus protagonistas. De facto, as explicações simplistas tendem a ser erróneas. A tensão entre o modelo jesuítico das reduções e o modelo expansionista dos bandeirantes paulistas constitui, na sua heterogeneidade, motivo para uma reflexão séria sobre a persistência da síntese da unidade territorial, apesar da profunda diferenciação de fatores relevantes. Sérgio Buarque de Holanda foi, assim, alterando a sua perspetiva nas “Raízes do Brasil” e é curioso ver, como hoje também a interpretação de Gilberto Freyre, em “Casa Grande e Senzala” voltou a ser motivo de interesse para a compreensão das diferenças brasileiras relativamente a outros casos da colonização americana. E a própria noção de “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda merece uma nova leitura, na herança cultural da colonização portuguesa. A verdade é que, como o tempo demonstrou, nada ou muito pouco havia de genético nessa análise. Existia, sim, sentido crítico, que nunca deixou de ser salientado, considerando que o atraso económico seria consequência dessa sobreposição do afeto e da racionalidade com consequências na difícil distinção entre público e privado ou entre eficiência e emancipação. Contudo, a capacidade de adaptação dos diferentes povos em presença à diversidade das culturas e do território foi permitindo a compreensão de uma progressiva abertura à legitimidade democrática, apesar das dificuldades e resistências.


ENTENDER AS DIFERENÇAS
A compreensão do Brasil obriga a entender as diferenças. Há uma realidade brasileira que nos apaixona e gera perplexidades. Eis porque temos de fazer um esforço para conhecer melhor essa realidade heterogénea, que os meus amigos António Alçada Baptista e Eduardo Lourenço consideravam essencial até para perceber Portugal. Assim, também a leitura crítica de “Formação do Brasil Contemporâneo” (1942) de Caio Prado, Jr. se revela útil, em especial quanto à emancipação social, à valorização do mercado interno e aos desafios da coesão económica. Não esqueçamos, porém, que será Celso Furtado a abrir as portas para uma noção dinâmica e positiva de desenvolvimento social e económico, de modo a superar o facto de os países subdesenvolvidos terem tido um processo de industrialização indireto, tornando-os dependentes dos países industrializados. Importaria pôr em xeque essa dependência, criando condições para um planeamento estratégico no espaço público, capaz de garantir o caráter reprodutivo do investimento, de assegurar uma partilha justa de recursos, com limitação do consumo debilitador… Estas considerações levam-nos à necessidade de entender o Brasil como uma realidade sócio-cultural e política de caráter múltiplo, com todas as fragilidades inerentes a essa natureza – como é visível na conjuntura presente.


Todas as referências que acabamos de fazer demonstram que a diferença e a heterogeneidade de um território tão amplo e vocacionado necessariamente a ser influente obrigam à consideração de uma economia assente no desenvolvimento humano, na sustentabilidade ambiental, na democracia baseada na cidadania ativa, na justiça e na partilha de responsabilidades. E António Cândido em “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos” fala-nos da essencial dimensão cultural e de um caminho de autoconsciência pela literatura, a começar “numa imaturidade, por vezes provinciana”, que “deu à literatura sentido histórico e excecional poder comunicativo, tornando-a língua geral duma sociedade em busca de autoconhecimento. Sempre que se particularizou, como manifestação afetiva e descrição local, adquiriu, para nós (brasileiros), a expressividade que estabelece comunicação entre autores e leitores, sem a qual a arte não passa de experimentação dos recursos técnicos”. Há um encontro das forças universais e nacionais, técnicas e emocionais, numa “permanente mistura da tradição europeia e das descobertas do Brasil. Mistura do artesão neoclássico ao bardo romântico, duma arte de clareza e discernimento a uma ‘metafísica de confusão’”. É verdade que “no Brasil sempre houve a produção de textos importantes, desde Anchieta no século XVI, mas só a partir do século XVIII, a literatura passou a ser uma instituição da sociedade, não simples ocorrência de textos, por mais importantes que fossem, como são de facto, por exemplo, no século XVII os de Gregório de Matos (inéditos até ao século XIX) e do Padre António Vieira; ou o de Rocha Pita na primeira metade do século XVIII”. Dois séculos de independência brasileira obrigam-nos a ver muito para além do gesto político de 1822. Há um caminho que prossegue e nos obriga a compreender o Brasil, das raízes às diferenças.     

 

Guilherme d’Oliveira Martins