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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

NARRATIVAS EVANGÉLICAS DO NATAL

 

Para se entender o que se passa com as narrativas dos Evangelhos à volta do Natal, há pressupostos fundamentais.

 

1. Em primeiro lugar, a fé cristã dirige-se a uma pessoa, Jesus confessado como o Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus que Jesus revelou como Pai e poderemos também dizer como Mãe, com todas as consequências que daí derivam para a existência.

 

O que diz o Credo cristão, símbolo da fé? “Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.” Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade. Mas segue-se a pergunta fundamental: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa, em contexto linguístico da ontologia grega. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência para o melhor, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e estes para Deus?

 

Exemplos mais concretos, um do Antigo Testamento e outro do Novo, até para se perceber a passagem do universo hebraico em que Jesus se moveu e o universo grego no qual aparecem redigidos os Evangelhos. No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a manifestação de Deus na sarça ardente e Moisés dirige-se a Deus: se me perguntarem qual é o teu nome, que devo responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que sou”) é o modo de dizer que Deus está acima de todo o nome, pois é Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também (a ontologia hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha no caminho da liberdade e da salvação. Depois, com a tradução dos Setenta, compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse Subsistens” (O próprio ser subsistente), Aquele cuja essência é a sua existência. Isto é verdade, mas significa o quê para iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha a Humanidade na história da libertação salvadora.

 

No Novo Testamento, João Baptista, preso, mandou os discípulos perguntar a Jesus se ele era o Messias. Jesus não afirmou nem negou. Mas deu uma resposta existencial, prática: “Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é anunciada, a libertação avança, a salvação está em marcha”.

 

O que é que isto significa? A teologia, a partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem uma estrutura existencial, histórica. Na teologia especulativa, o centro de interesse é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é o que acontece. Assim, na perspectiva cristã, o essencial consiste na pergunta: O que é que acontece quando Deus está presente? Na linha dogmático-doutrinal, exige-se e até se pode dar um assentimento intelectual, subordinando-se, mas a existência continua inalterada. Corre-se então o perigo de uma “fé” em fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas, sem qualquer transformação da vida, que é o que acontece tão frequentemente. Ora, a vida cristã, se quiser ser verdadeiramente cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser determinada mais pela ortopráxis do que pela ortodoxia (sem menosprezo, evidentemente, pela ortodoxia, segundo uma hermenêutica adequada): Jesus louvou a cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa, deu como exemplo o samaritano, que não seguia a ortodoxia, mas praticava a misericórdia, e, sobretudo, leia-se o Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 25 sobre o Juízo Final, no qual não há perguntas sobre fórmulas teóricas religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me de comer, de beber, vestistes-me, visitastes-me na cadeia e no hospital...”.

 

2. Não há figura mais estudada do que Jesus Cristo e não há hoje nenhum historiador sério que negue a sua existência histórica. E sabe-se que frequentava a sinagoga, trabalhou no duro como tekton, que é mais do que um carpinteiro (ele trabalhava a madeira e outros materiais, tanto na construção de uma casa como de instrumentos agrícolas), portanto, poderíamos dizer: um artesão.

 

Fez a experiência funda e única de Deus como Abbá, Paizinho, querido Papá, que ama com amor de pai e de mãe. Em seu nome, quando tinha pouco mais de 30 anos, anunciou o Evangelho (notícia boa e felicitante da parte de Deus para todos) e o Reino de Deus, que é o reino da justiça, da paz, da fraternidade, da realização plena de todos os homens e mulheres. Fê-lo por palavras e obras para todos, a começar pela proximidade em relação aos mais fracos, pobres, abandonados, impuros, heréticos... Enfrentou a religião oficial do Templo, escandalizando aqueles que viviam da religião explorando o povo. Foi condenado pelos sacerdotes, que não o toleravam, e foi crucificado pelo poder imperial romano. Morreu como blasfemo religioso e subversivo social e político. Depois, mais uma vez, lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A figura histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a ‘ressurreição’”: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso”. Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta. Não se pode esquecer, muito menos ignorar, que da biografia de alguém faz parte a sua Wirkungsgeschichte, na reflexão de Hans-Georg Gadamer, isto é, a história dos efeitos dessa vida ou, por outras palavras, as consequências dessa vida na História.

 

A experiência pascal — Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre — foi avassaladora para os discípulos. São Paulo fez também essa experiência e, assim, de perseguidor passou a apóstolo, percorrendo 25.000 quilómetros para anunciar a Boa Nova. O que vale um morto? Nada. O que vale um crucificado? Ainda menos. Mas, se Jesus, o crucificado, está vivo em Deus, isso significa o aval de Deus a tudo quanto Jesus disse e fez, Deus ratifica a sua pessoa e a sua mensagem. Então, se Jesus, o crucificado, vale para Deus, todos valem, concluindo Paulo que “já não há judeu nem grego, homem ou mulher, escravo ou livre”, pois todos valem para Deus: “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”, “já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus”. Ernst Bloch, o ateu religioso, um dos maiores filósofos do século XX, viu bem: “O cristianismo venceu mediante a proclamação: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’”.

 

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História.

 

3. A História lê-se de trás para a frente, a partir do princípio, evidentemente, mas tem sobretudo de ser lida do fim para o princípio. Portanto, com a história e a razão hermenêutica. No caso de Jesus e do cristianismo, essa leitura é essencial, para se não cair em alçapões mortais.

 

Frequentemente, com certas formulações dogmáticas, acabar-se-ia por fazer concretamente de Jesus e de sua mãe, Maria, autênticos robôs, com tudo pré-sabido e pré-determinado. Ora, evidentemente, no princípio, Maria e José não sabiam quem era aquele menino a quem deram o nome de Jesus e perguntaram como todos os pais: o que será deste filho? Ele ia crescendo e umas vezes entendiam o que estava a acontecer e outras vezes não entendiam. Está no Evangelho segundo São Lucas, no relato de Jesus perdido no templo: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura. Ele respondeu: Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai? Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse”. E Jesus ia crescendo “em sabedoria, em estatura e em graça”. E no Evangelho segundo São Marcos: “E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão nele, pois diziam: Está fora de si”.

 

Os Evangelhos escrevem sobre realidade histórica, mas foram escritos por quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus é, na confissão de São Pedro, “o Filho do Deus vivo”. Concretamente no que se refere aos Evangelhos ditos da infância, é necessário ter em atenção a sua significatividade mais do que a historicidade. De facto, eles são construções teológicas, colocando no princípio a revelação do fim: Jesus é o Messias. Se é o Messias, nele realizam-se as profecias e as promessas de Deus. Assim:

 

3.1. O que é o Natal? Sim. É “um novo começo”, como bem viu o famoso teólogo Hans Küng, com quem falei várias vezes.

 

Como se escreve no Evangelho segundo São João, “No princípio era o Logos (a Palavra) e o Logos (a Palavra) era Deus” — repare-se que não se diz que é ho theós, o Deus em si mesmo, mas theós, sem artigo, Deus, divino: “a Palavra é divina”. “E a Palavra fez-se carne”. Assim, Jesus é Deus presente, a revelação, a manifestação visível do Deus invisível: Deus fez-se humano, história, neste homem concreto que é Jesus de Nazaré. 

 

Tive o privilégio de ter tido como professor o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que escreveu: "Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a dizer: ‘Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos."

 

3.2. Como foi o seu nascimento? Maria é virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que os Evangelhos e a teologia não são tratados de anatomia.

 

Diz o Evangelho segundo São Lucas, referindo a admiração dos seus conterrâneos, quando Jesus começou a pregar: “Donde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? E isto parecia-lhes escandaloso.”

 

Maria é bem-aventurada, não por ser a mãe de Jesus, mas porque acreditou e se converteu à mensagem do seu Filho, como se lê no Evangelho segundo São Lucas: “Enquanto Jesus falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: Bem-aventuradas as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram! Ele, porém, retorquiu: Bem-aventurados, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática”.

 

Outro jesuíta, filósofo e teólogo, Juan Masiá, disse, neste contexto, o essencial: Maria é bem-aventurada “ao conceber com José a Jesus por cooperação com o Espírito Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José, agraciados e abençoados, com todas as mães e pais que recebem como um dom do Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-los, consumam a virgindade simbólica que se realiza na maternidade e na paternidade. Porque não é incompatível a união dos progenitores com a acção do Espírito: a criatura nasce pela união dos seus progenitores e pela graça, a força, do Espírito Santo”.

 

Acrescenta: “Toda a criatura nasce em graça original. Maria não é uma excepção. O chamado pecado original não é originário nem mancha. O seu nome exacto é o pecado do mundo. A criatura, que nasce sem nenhuma mancha, vem à luz num mundo no qual já é vasta uma rede de pecado. Como quem entra numa sala de fumadores e se contamina com o fumo”.

 

3.3. Quando nasceu? Ninguém sabe exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso deve-se a um erro do monge Dionísio, o Exíguo, quando no século VI quis estabelecer precisamente a data do nascimento de Jesus.

 

Evidentemente, não se pode dizer que nasceu no dia 25 de Dezembro. Esse dia do Natal de Jesus foi fixado no século III em substituição da festa pagã do Sol Invicto, porque Jesus é que é o verdadeiro Sol, a Luz invencível.

 

3.4. Onde nasceu? É quase certo que Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe chamavam o Nazareno. Mas, se ele, segundo a fé, é o Messias, então ele é o verdadeiro rei, da linhagem de David, que era de Belém. E puseram-no a nascer em Belém.

 

3.5. Os pastores foram os primeiros avisados, porque Deus manifestou a sua salvação a todos, a começar pelos que constituíam a classe baixa dos pequenos e pobres e viviam à margem da prática religiosa.

 

3.6. E os magos vieram do Oriente? E quantos eram? E viram uma estrela sobre a manjedoura?

 

Será inútil procurar nessa data algum sinal especial no céu, porque, mais uma vez, os Evangelhos também não são nenhum tratado de astronomia. Eles vêm do Oriente, porque “ex Oriente lux” e Jesus é a verdadeira luz. E o salvador veio para todos, também para os pagãos. E Herodes não precisava de preocupar-se com a notícia, porque Jesus é rei, mas o seu reino implica um reinado de serviço e não de domínio.

 

3.7. E, claro, a chamada fuga para o Egipto não aconteceu, é apenas uma metáfora para dizer que Jesus é que é o verdadeiro novo Moisés, porque é o Libertador definitivo de toda a escravidão e opressão, incluindo a libertação da morte. Como Jesus não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus, com a fé nele nasceu para todos a esperança da vida plena e definitiva em Deus.

 

4. Não me preocupa que se diga que sou herético. A única pena que tenho é a de não ser suficientemente cristão.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no Observador | 4 JAN 2019

NO NOVO ANO: CUIDAR

 

No início de um novo ano, 2019 da era cristã, 5779 do calendário hebraico, 5120 do hindu, 4715 do chinês, 2562 do budista, 1441 do muçulmano, deixo aí uma breve reflexão sobre um tema essencial, o cuidado — cuidar e ser cuidado —, constitutivo do ser humano.

 

Entre as grandes obras do século XX, figura uma do filósofo alemão Martin Heidegger: Sein und Zeit (Ser e Tempo). Nela, retoma a célebre fábula sobre o Cuidado, de Higino, um escravo culto (64 a. C.-16 d. C.). Fica aí, traduzida literalmente.

 

“Uma vez, ao atravessar um rio, ‘Cuidado’ viu terra argilosa. Pensativo, tomou um pedaço de barro e começou a moldá-lo. Enquanto contemplava o que tinha feito, apareceu Júpiter. ‘Cuidado’ pediu-lhe que insuflasse espírito naquela figura, o que Júpiter fez de bom grado. Mas, quando ‘Cuidado’ quis dar o próprio nome à criatura que havia formado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse dado o seu. Enquanto ‘Cuidado’  e Júpiter discutiam, surgiu também a Terra (Tellus) e também ela quis conferir o seu nome à criatura, pois fora ela a dar-lhe um pedaço do seu corpo. Os contendentes invocaram Saturno como juiz. Este tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: ‘Tu, Júpiter, deste-lhe o espírito; por isso, receberás de volta o seu espírito por ocasião da sua morte. Tu, Terra, deste-lhe o corpo; por isso, receberás de volta o seu corpo. Mas, como foi ‘Cuidado’ a ter a ideia de moldar a criatura, ficará ela na sua posse enquanto viver. E, uma vez que entre vós há discussão sobre o nome, chamar-se-á  ‘homo’ (Homem), já que foi feita a partir do húmus (Terra)’.”

 

Martin Heidegger, um dos maiores filósofos do século XX, retoma a fábula e reflecte sobre o cuidado enquanto estrutura essencial do ser humano. Cuidar e ser cuidado são determinantes da sua constituição. O que seria de nós, se, ainda dentro do ventre materno, não houvesse cuidado, se, ao nascermos, não cuidassem de nós? O cuidado nunca nos pode abandonar. Sem o cuidado ao longo da vida toda, do nascimento à morte, o ser humano desestrutura-se, sente-se perdido, só, não encontra sentido e acaba por morrer, entregue ao abandono. 

 

O cuidado tem uma dupla vertente. Por um lado, significa preocupação mais ou menos ansiosa e a consequente prevenção. É assim que os pais dizem aos filhos, ameaçados por perigos: tem cuidado, filho; tem cuidado, filha! E prevenimos os amigos que nos pedem conselho: eu não iria por aí, tenha cuidado, acautele-se! Por outro lado, e sobretudo, tem a ver com a entrega abnegada aos outros, cuidando deles em todas as dimensões, pois a perfeição do ser humano na realização das suas possibilidades mais próprias é tarefa do cuidado.

 

Cuidar de quem e de quê?

 

O cuidado é, pela sua própria natureza, abrangente. Todos temos de cuidar. Cuidar de nós, cuidar de todos os outros, pois só somos na inter-relação, cuidar da Natureza, cuidar da transcendência e de Deus em nós. Sendo o ser humano um ser bio-psico-social-espiritual-transcendente, terá de estender o cuidado a todas as suas dimensões. Para poder ser e ser humano, autenticamente humano. Cuidar por afectos, palavras — ah! a cura pela palavra! — e por obras.

 

Mas, se o cuidado — ser cuidado e cuidar — é constitutivo do ser humano, de todo o ser humano, há pessoas cuja missão e até profissão é cuidar, ser cuidador. Estão nesta situação, só para dar alguns exemplos, pais, professores, padres, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, geriatras, profissionais e voluntários que cuidam da saúde e bem-estar de doentes, acamados e idosos...

 

Então, a pergunta é: eles cuidam, são cuidadores. Quem cuida deles? E como cuidam eles deles próprios? Como se previnem contra os perigos do stress e do burnout?

 

Neste contexto, aparece também a necessidade da espiritualidade. Realmente, há dados científicos que mostram a importância da espiritualidade e da prática religiosa para a saúde e até para a esperança de vida. Assim, na sua obra The Spiritual Brain, Beauregard cita 158 estudos médicos sobre o efeito da religião na saúde, concluindo que 77 por cento fazem menção de um efeito clínico positivo. Um estudo também mostrou que “os adultos mais idosos que participam em actividades religiosas pessoais antes do aparecimento dos primeiros sinais de incapacidade nas actividades do quotidiano têm mais esperança de vida do que aqueles que o não fazem”. Neste sentido, permita-se-me que cite também o neurocientista Miguel Castelo-Branco, da Universidade de Coimbra, no livro  Deus Ainda Tem Futuro?, que coordenei: “A medicina baseada na evidência tem sugerido que a religiosidade e a espiritualidade influenciam de forma efectiva o desenlace em muitos domínios clínicos, incluindo a dependência de drogas. Koenig e colegas estudaram em 1999 a taxa de sobrevida de cerca de 4000 pessoas com mais de 65 anos durante um período de 6 anos. Concluíram que aquelas que foram à igreja mais do que uma vez por semana tinham uma esperança média de vida superior a 10 anos relativamente às que não a frequentaram. A  experiência espiritual é benéfica para a saúde humana e o tipo de bem-estar psicológico que proporciona pode ser activamente procurado.”

 

Como dizia o famoso Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, é preciso prevenir-se contra “a agitação paralisante e a paralisia agitante”. Esta agitação e paralisia constituem um perigo maior do nosso tempo. Urge, pois, saber parar e repousar, como Jesus que, no meio da sua missão de anúncio do Evangelho, parava para meditar e orar ou pura e simplesmente para descansar. Afinal, cuidado, em latim, diz-se cura — não se chamava ao padre nas aldeias o cura de almas? —, que, para lá de cuidado, significa incumbência, tratamento, cura, inquietação amorosa, amor. Por esta via, chegamos também à medicina, que provém do latim mederi — a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente —, que significa cuidar de, tratar, medicar, curar e que está também na base de moderação e meditação, sendo deste modo remetidos para um conceito holístico de saúde e de cura, que resultam e têm no horizonte sempre um equilíbrio harmónico.

 


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 6 JAN 2019

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

UM MUNDO CHEIO DE PARTICULARIDADES…

 

Ah! Como é diverso o género humano. Estamos felizmente sempre a deparar com gente singular. Encontro na imagem de hoje muitos dos meus vizinhos e vizinhas. Poderíamos aqui falar do percurso do boato ou da má língua – hoje chamaríamos pós-verdade ou “fake news”… São caras dos anos cinquenta, mas poderíamos pôr-lhes uns fatos de treino, uns bonés de pala virados ao contrário, uns telemóveis modernaços. Gosto de ver estas caras – que dizem como somos seres imperfeitos, mas com o dever de sermos melhores… Que é a Ética senão isso mesmo? E temo que nestes dias de hoje, voltemos à tentação de delinear uma suposta perfeição politicamente correta. Lembramo-nos do que aconteceu aos puristas do terror francês de 1789. Como ninguém era suficientemente perfeito à luz dos supostos novos valores, o que lhes aconteceu foi irem parar à guilhotina, a uma cadência regular e inexorável. Hoje há mesmo quem ache que a difamação deve ser despenalizada para que a caça às bruxas seja mais eficaz… Há quem não entenda que a falta de ética começa com imaginária inocência. Inicio hoje um novo ciclo de colaborações em “Raiz e Utopia”… E começo por recordar que o título do Blog do Centro Nacional de Cultura não é uma escolha de acaso ou de circunstância. Pode dizer-se que foi de algum modo por via desta revista extraordinária e de boa memória, que irei recordar aqui em vários momentos, que o CNC renasceu depois de 1977. Havia quem dissesse que a missão do Centro como lugar de resistência estava esgotada com a chegada da liberdade. Puro engano. Abriu-se um novo ciclo, assente na inovação e na participação cultural. Lembrou-se Régio em “Davam grandes passeios aos Domingos” e procurou-se “Os Portugueses ao Encontro da Sua História”. Mas a revista “Raiz e Utopia”, graças ao impulso de António José Saraiva, de Carlos L. Medeiros e José Baptista, representou uma nova dinâmica – que Helena Vaz da Silva compreendeu melhor que ninguém. Guardo religiosamente na minha biblioteca a coleção completa da revista e sei que ela é em muitos dos seus números raríssima. Não me desfaço dela nem à lei da bala. Por isso, tenho muito orgulho em escrever neste blog, à sombra de tão significativas referências da cultura contemporânea. A ilustração que hoje escolhi, já referida, é de Norman Rockwell (1894-1978) um genial ilustrador norte-americano que desenhou como ninguém o “american way of life” dos inesquecíveis anos do pós-guerra. Os exemplos são múltiplos – desde o peru de Natal até à oração à mesa. Mas não posso esquecer o perturbador e extraordinário desenho intitulado “The Problem will all live with” de 1963 que é um ícone do combate ao racismo. Uma criança negra vestida de branco dirige-se à escola entre polícias, e na parede do fundo há despojos de tomates atirados por energúmenos quem sem o respeito como regra… Nestes tempos é bom revermos esta ilustração. A criança, os polícias, a parede suja de tomates lembram uma luta sem tréguas em nome da cultura da paz. O tema volta como os velhos fantasmas. A liberdade e a dignidade nunca estão adquiridos. Mas esses são outros contos largos a que regressarei… Por hoje deixo um belo poema de Eugénio de Andrade… O tema são “Os Amigos”…

 

«Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga».

In “Coração do Dia”.

 

Agostinho de Morais

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 7 a 13 de janeiro de 2019

 

«Tempo Brasileiro – Fascínio e Miragem» de Eduardo Lourenço (Fundação C. Gulbenkian, 2018) é o quarto volume das Obras Completas do grande ensaísta.

 

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UM TEMPO BRASILEIRO

“Há muitos Brasis no Brasil, múltiplas faces que se revelam sobretudo nas diversas imagens criadas pelos seus autores mais representativos, como Eduardo Lourenço sublinhou na altura da atribuição do Prémio Camões a Jorge Amado, ‘para o mundo inteiro, nenhum é ‘tão Brasil’ como Amado’. O autor de Gabriela plasmou ‘qualquer coisa de primordial, uma autêntica mitologia que é impossível julgar no horizonte ‘esteticista’ do puro literário’. E foi essa ‘mitologia solar tão brasileira, mas sobretudo tão baiana’, que Jorge Amado exportou ‘para o mundo inteiro’”. Quem o afirma é Maria de Lourdes Soares na introdução ao quarto volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2018), que leva por título Tempo Brasileiro: Fascínio e Miragem. O volume, feito com extremo cuidado e um conhecimento muito seguro das realidades brasileira e portuguesa e da obra do ensaísta, revela-se uma preciosidade, uma vez que há um vai-e-vem permanente entre as duas margens do mundo da língua portuguesa. E vamos assistindo, ao longo do tempo, a uma evolução no pensamento do analista relativamente a um diálogo cultural pleno de aproximações e afastamentos, de entendimentos e distâncias. E ninguém melhor do que Eduardo Lourenço para retratar esta relação, tão cheia de complexos, ressentimentos e contradições. Desde o momento em que o pensador chega ao Brasil, para aí ficar durante um ano na Bahia (1958-59), até aos dias de hoje, houve um caminho de afinação permanente de entendimento e de perspetiva, em que o melhor conhecimento da realidade vital, para além, da dimensão literária, permite-nos usufruir de uma leitura crítica que muito enriquece o conhecimento da relação cultural luso-brasileira. E assim a descoberta do Brasil faz-se de diversos espantos e da compreensão de que “nós só existimos no espelho dos outros”.

 

PENSAR AS DESCOBERTAS COMO UM TODO

Longe de qualquer simplificação, Eduardo Lourenço não esquece a imagem contemporânea dos três anéis (Portugal, Brasil e África) sem a qual não podemos perceber a relação complexa que se estabelece entre as nossas culturas. “As Descobertas são um todo. Não há de um lado a aventura pura de um desvendamento de mares e ilhas desconhecidas e de outro o implacável processo que com o tempo se chamará Colonização, com a sua finalidade prática de lucro ou submissão alheia”. A colonização do Brasil foi assim clássica e específica. Isto explica um círculo de ressentimento entre colonizador e ex-colonizados, que se constitui em labirinto de difícil saída. E o momento da ida da Corte para o Brasil, a criação do Reino Unido de Portugal e do Brasil ou a independência de Ipiranga, proclamada por D. Pedro, marcam uma especificidade diferenciadora dos outros casos conhecidos. E o certo é que ninguém perdoou a D. Pedro, príncipe de dois mundos (e verdadeiramente de nenhum), nem brasileiros nem portugueses… Os três anéis têm Portugal como “função de uma mitologia cultural que tem o seu tempo forte no passado”, África como “espera de um novo presente” e Brasil como “exigência condicionada por um futuro onde pode ver-se já como uma das configurações civilizacionais e culturais mais relevantes do próximo século. A bem dizer, o Brasil vive-se e imagina-se, naturalmente inscrito num espaço de que ele é o centro e a circunferência”. Na relação de Portugal com o Brasil (vemos isso na CPLP) fica, assim, o problema de saber como atravessar “a barreira fonética de ressonância ideológica e comercial”. Daí ter Fernando Henrique Cardoso razão quando diz que “o facto de usarmos a mesma língua não significa que tenhamos a mesma cultura”. E Lourenço frisa que “a questão é realmente de cultura, ou, talvez melhor, de mitologia cultural, ou até de hermenêutica, imposta pela complexidade dos laços que o mundo lusófono suscitou”.

 

PENSAR UM SERTÃO MUNDO

Refira-se aqui o encontro com Agostinho da Silva – “personagem de romance”, que “exerceu a multímoda atividade de passador de fronteiras como se a obrigação de transcender a sua raiz portuguesa fosse o primeiro dever, para não dizer, a essência mesma de ‘ser português’”. No entanto, Agostinho e Lourenço distanciam-se quanto ao papel da Europa, mau exemplo para o primeiro e ligação natural para o segundo (“nous sommes tous dans le même bateau”). No entanto, deste encontro resulta a necessidade de agir e de encarar criticamente o mito, como elemento que não pode ser esquecido. Há, de facto, uma história comum a considerar, e uma reflexão comum a fazer. Aliás, a propósito do romance de Almeida Faria Cavaleiro Andante, Eduardo Lourenço lança um apelo aos elementos dos três anéis da lusofonia no sentido de visitarem em comum a história “para além do que nela houve de doloroso e inexpiável, o que apesar de tudo, emerge desse processo como possibilidade e promessa de um diálogo que mutuamente nos enriqueça e nos humanize”. E se falamos do romance da Almeida Faria e do percurso errante de André, não esquecemos o paralelo que o nosso ensaísta estabelece com Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. “O paradigma do cavaleiro andante já tinha na nossa língua, em Riobaldo, a sua versão contemporânea e arcaica, menos encarnação triunfal do Bem do que anjo imune, por essência ao Mal que o rodeia”… E o Grande Sertão (o mais belo romance de amor da nossa língua, com Menina e Moça) leva-nos a pensar na imagem do Mar Português de Fernando Pessoa – e além desses dois Sertões, a partir de um romance que deixou Eduardo rendido, tendo começado por ler por dever de ofício, graças à invetiva de Glauber Rocha, e depois por sedução – tal como Alçada Baptista, após o fundamental conselho de Alexandre O’Neill - descobre o terceiro Sertão, Sertão-Mundo, sertão-miragem, sertão linguagem, à semelhança da terceira margem do memorável conto também de Guimarães Rosa. E chegados aos Sertões de Euclides da Cunha e aos canudos fanatizados por António Conselheiro vamos à interrogação essencial sobre o providencialismo encontrado no sebastianismo – e ao filme de Glauber Rocha Deus e o Diabo na Terra do Sol, “simultaneamente sinfonia e tragédia, imagem, canto e música constituindo-se como autêntica ópera popular”. Trata-se da interrogação sobre os mitos que nos unem e separam, mas que exigem revisitação comum que ocupa e preocupa Eduardo Lourenço. Referimo-nos a uma casa habitável e imperdível a que o escritor sempre regressa: “casa-país ‘habitável de todos’, a das línguas-pátrias e das pátrias-línguas dos ‘nossos criadores mais inventivos’”, onde “sentimos e experimentamos que somos eternos, como diria Spinoza: ‘nenhuma língua morre no círculo da poesia, pois é ela a chama no coração de todas as línguas” e “como escreveu Nietzsche todo o prazer pede eternidade”. Assim, sobre o “Tempo Brasileiro”, Maria de Lourdes Soares reúne e analisa, de modo superior, um fascinante conjunto de textos que vão ao âmago da originalidade lourenciana, grande interrogadora sobre uma língua de várias culturas que apela intensamente à visitação comum de caminhos múltiplos, tantas vezes paradoxais e contraditórios, que nos permite existir também pelo espelho de outros.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua biografia de Pio V (sim, esse, o papa de Lepanto) - Saint Pie V, le pape intempestif (Le Cerf, 2018) - frei Philippe Verdin, também dominicano, entusiasma-se com o facto de três personalidades tão distintas (Pio V, Carlos Borromeo, Filipe Néri, todos aliás posteriormente canonizados) se terem conjugado para desenvolver a reforma católica da Igreja pós tridentina. Vale a pena traduzir-te um trecho saboroso e esclarecedor, em que o biógrafo coteja Pio com Filipe, ambos eles amigos e veneradores de Carlos, que lhes retribuía na mesma moeda:

 

   Pio V não o compreende (a Filipe Néri). O papa inquieta-se com a sua doutrina e amizades com judeus e ciganos. Não gosta dessa loucura saltitante, a raiar o desrespeito, daquelas pantominas. Convoca-o e põe-no em sentido. Mas Filipe é edificante pela submissão e humildade. E Carlos intervém para lembrar os frutos do ministério oratoriano - [Filipe é fundador da Congregação do Oratório, à qual, mais tarde, pertencerão os nossos Bartolomeu do Quental, Manuel Bernardes e Luís António Verney] - e diz ao papa: «Filipe e vós combateis o mesmo combate, Santo Padre. Tendes a mesma paixão pela liturgia, os mesmos mestres teatinos, o mesmo zelo pela Igreja. Nunca Vossa Santidade ouvirá o Filipe criticar a autoridade pontifícia, nem pôr em causa uma só vírgula das vossas bulas. Todavia, vós agis em conformidade com o vosso papel e à vossa maneira, com autoridade, enquanto que ele o faz pela influência.»  A título de curiosidade, Princesa de mim, lembro-te de que Sto. Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, conheceu pessoalmente S. Filipe Néri e admirava a bonomia da sua pastoral. S. Pio V, todavia, não se agradava com a sua aparente leviandade de maneiras, mas tolerava-as, pensando que ele era um santo, e aos santos tudo se perdoa. Escreve frei Filipe Verdin que o seu biografado diria para consigo: Ele é um amigo de Deus e há muitas moradas na casa comum, muitos membros diferentes no Corpo de Cristo. Esta diversidade é espantosa, mas inconfortável.

 

   E o dominicano francês continua: Tal incompreensão lembra-me os dois dominicanos mais famosos ao tempo da minha entrada na Ordem, e dos quais terei a sorte de me tornar amigo: Christof Schönborn, cardeal arcebispo de Viena e autor do Catecismo Católico, tal como Pio V; Timothy Radcliffe, inglês fantasista e cheio de humor, Mestre Geral da Ordem. Esses dois homens respeitavam-se, mas não se compreendiam. Timothy, de jeans rasgados e cabelo em desordem, irritava Christof, um clássico, amigo de Bento XVI. Eis o equilíbrio precário, que encontramos em cada época da Igreja, necessário à vida dela, entre a retenção hierárquica e o impulso carismático.

 

   Vem esta carta falar-te dessa misteriosa coexistência, debaixo do mesmo tecto - como também há milénios ensina o Tianxiá chinês, e podemos nós, cristãos de muitos e diversos tempos e berços, repetir, talvez chamando-lhe, não já céu, mas manto de misericórdia - de todos os homens de boa vontade que, na mensagem cristã, são a glória de Deus. Tal coexistência não é apenas simultaneidade, mas convívio e cooperação. E traz-me à memória aquela sentença de Paul Claudel: Um católico não tem aliados, só pode ter irmãos.

 

   Un catholique n´a pas d´alliés - eis o título de uma coletânea da correspondência epistolar de Jacques Maritain com Paul Claudel, Georges Bernanos e François Mauriac, todos franceses do século XX, e católicos, o primeiro  sendo um filósofo oriundo de família protestante e republicana,  os outros três grandes escritores, dois deles, aliás, consagrados pelo Nobel e membros da Académie Française.[Só Bernanos ficou fora das honras oficiais, por opção própria, tendo recusado três vezes a Légion d´Honneur - considerando que só a soldados era devida - e chegado a dizer, bem ao seu jeito, acerca da Academia: Je ne voudrais empêcher personne de s´habiller d´une manière ridicule, mais il y a des vérités qu´on ne saurait dire, ni même écrire, en habit de carnaval.] O professor Henri Quantin, organizador desta edição (Éditions du Cerf, 2018), a dado passo da sua introdução, escreve: As cartas aqui reunidas testemunham que pode haver correspondência epistolar sem «correspondência de ideias e de gostos», porque o Evangelho é uma boa nova para anunciar, não uma ideologia para triunfar. A Igreja não é um partido político cujos membros tenham de, ou seguir uma linha eleitoral ou, então, bater com a porta, mas uma família cujas reuniões podem exaltar-se, vez sim, vez não, sem que os irmãos deixem por isso de ter o mesmo Pai. Eis palavras de uma das últimas cartas de Claudel a Maritain: «Espero que tenha esquecido os nossos pequenos desentendimentos, que pessoalmente nunca me impediram de reconhecer em si um irmão com quem tenho orgulho de partilhar uma fé comum». Aquando desses «pequenos desentendimentos», Claudel até chegara a chamar imbecil a Maritain, mas trata-se, afinal, de um adjetivo muitas vezes utilizado entre irmãos... 

 

   Explica Quantrain queTal fraternidade conflitual explica a ordem escolhida para este volume: começar por Mauriac, continuar com Claudel e acabar com Bernanos é uma maneira de submeter a caridade e a paciência dos Maritain a provas de dificuldade crescente. É certo que os irmãos não são aliados, mas certas alianças feitas por um irmão podem tornar mais difícil a vida em fraternidade. A defesa de Drumont por Bernanos será, por exemplo, difícil de aceitar pelo autor de L´impossible antisémitisme. De maneira geral, na ordem das ideias políticas em sentido lato, Claudel e Bernanos afastam-se muitas vezes de Mauriac, ficando este mais próximo das posições de Maritain. Note-se que esses papéis não estão estabelecidos para sempre: se a oposição a Maurras junta, pelo menos de 1927 a 1932, Maritain, Mauriac e Claudel contra Bernanos, a guerra de Espanha, pelo contrário, vê uma frente Maritain-Mauriac-Bernanos opor-se a um Claudel fervente defensor da Igreja espanhola e dos nacionalistas. O sabor dessas trocas deve, aliás, muito aos dramas históricos que lhes são, simultaneamente, pano de fundo e campo de batalha.

 

   Na minha mocidade, li muito estes quatro autores de que te falo agora, com gosto especial por Mauriac romancista e Bernanos escritor de combate, que devorava. E essas leituras feitas entre os catorze e os dezassete anos marcaram-me muito: hoje ainda, quando penso em honestidade intelectual e frontalidade profética, recordo Les grands cimetières sous la lune, La France et les robots, La grande peur des biens pensants; e para falar de língua francesa lindamente escrita, vou buscar trechos de Mauriac para ilustração... tal como me abismo nas suas visões de negruras e alvuras das almas. 

 

   Aliás, para partilhar essas experiências contigo, traduzo-te um passo do Bloc-notes de François Mauriac, com data de Domingo, 6 de novembro de 1960, registando o velório a Raïssa Maritain [Ocorreu-me este trecho várias vezes, neste mês e meio, ao meditar na morte recente de dois muito queridos amigos, ambos embaixadores, João de Deus Bramão Ramos e Nuno da Cunha e Távora Silveira e Lorena. Amizades com mais, ou muito mais, de seis décadas, apesar de as vidas vagabundas de todos três nos terem, com frequência, geograficamente afastado, sem todavia quebrar diálogos e partilhas]:

 

   Ajoelhado ao lado de Jacques Maritain, no quarto em que Raïssa Maritain descansa, contemplo avidamente essa bela fronte, donde se retirou o pensamento, e que todavia dele conserva a irradiação. O corpo tornado coisa deveria ser igual às coisas (que é no que se torna um bicho morto). Podem dizer que não acreditam na alma: ela nunca me parece tão visível como quando já lá não está: o rosto dessa mulher duas vezes inspirada, pois que vivia de Deus e era poeta, esse rosto, no momento de se desfazer e voltar a ser pó, de não ser nada, guarda o estigma de um pensamento para sempre ausente, mas é infinitamente mais do que um pensamento. 

 

   O original está num francês muito bonito, mas reflete bem essa sensibilidade da alma, tão feminina, que levava François Mauriac a tão bem escrever sobre as mulheres, como nesse romance do claro-escuro de uma vida humana que é Thérèse Desqueyroux. E já que te falo desta, também te digo como entre o filósofo tomista, de origem republicana e protestante, e o escritor burguês, de origem conservadora e católica, se foi desenvolvendo - até pelos processos de conversão próprios a cada um deles - um profundo entendimento espiritual (apesar da embirração de Mauriac com o tomismo). Este trecho de Maritain, que de seguida te traduzo - tirado da Réponse à Jean Cocteau, que a Librairie Stock publicou, em maio de 1926, simultaneamente com a Lettre à Jacques Maritain, do mesmo Cocteau - mostra bem, como diz Michel Bressolette, um ponto de encontro Maritain-Mauriac muito íntimo. Qualquer leitor de Thérèse Desqueyroux, por exemplo, o notará:

 

   Entre o mundo da poesia e o da santidade há uma relação de analogia, e tomo esta palavra com toda a força que lhe dão os metafísicos, com tudo o que ela significa, para eles, de parentesco e de distância.

 

   Mesmo para com o pecado, a arte ainda imita a graça. Quem não conhece as regiões do mal pouco entende desse universo. O artista também conhece as rugas do coração, e visita os lugares inferiores.

 

   Quiçá outro jeito de confirmar esta afirmação de Jacques Maritain seja a troca de incompreensões mútuas e contrições sentidas entre o filósofo e Georges Bernanos. Este, quando panfletário, deixava-se cair em tentações de grandiloquência feroz, daquelas que, tantas vezes assediam os corações proféticos. Nalgumas delas terá sido, foi mesmo, injusto, acintoso até, para com Jacques Maritain, por tabela magoando muito Raissa. Não vou agora, Princesa de mim, contar-te histórias dessas, muito menos comentá-las. Espero que sejam suficientemente elucidativos - e servindo o propósito desta minha carta - os trechos dos próprios protagonistas, que seguidamente traduzo. São bilhetes e cartas:

  

           De Raissa Maritain a Georges Bernanos, a 4 de abril de 1930:

 

                      Excelentíssimo Senhor:

   Se o bilhete que lhe enviei, na ausência de Jacques, lhe causou mágoa, lamento imenso. Mas como podia eu pensar que o senhor quisesse mesmo comunicar a sua dor a alguém que publicamente acusou de ensinar aos amigos «a ciência e as delícias do pecado mortal»? O meu primeiro impulso foi escrever-lhe, mas disse para comigo que alguém que não cessa de desentender as intenções do Jacques só poderia acolher mal um testemunho de amizade da nossa parte...   ... Se hoje lhe escrevo é porque, no fim de uma carta dura, pede todavia ao Jacques que reze por si. E isso toca-me profundamente. Creia, senhor, que perdemos um amigo que nunca deixámos de amar, e que toda a pena é nossa.

 

          De G. B. para Jacques Maritain, a 30 de agosto de 1930:

 

                     Meu Caro Maritain:

 ...Perdoe-me não lhe ter agradecido as suas duas cartas, estive muito doente. Parece-me que me conhece mal. Mas dizemos isso sempre! Ao fim e ao cabo, nem tenho bem a certeza de saber mais do que V. acerca do mesmo assunto. Assim sendo, creio que será melhor aturarmo-nos tal qual somos, pacientemente, ou mesmo alegremente (ambos temos lados cómicos!), esperando que a meiga piedade de Deus nos cubra.

   As minhas melhores e especiais homenagens à Senhora Maritain, com a minha afetuosa mágoa de, por vezes, lhe causar pena. E pense em mim diante de Deus.

 

          De R. M. a G. B., a 24 de maio de 1931

 

                   Caro Amigo:

 ...Toca-me, mais do que sei dizer, a amizade que V. me testemunha. Sensibilizo-me, admirada, porque não a mereço.  Mas é desse mais acima dos meus méritos que verdadeiramente preciso, porque só o dom opera a salvação.

   Procuro, à luz dessa amizade, situar o mal tão gravoso que V. disse do Jacques, e compreendo que V. só possa pensá-lo quando entra nessa região, a certos títulos não-humana, da polémica cujo objetivo não é a verdade mas a batalha por uma causa à qual julgamos tudo poder sacrificar, mesmo a amizade e a justiça, porque milagrosamente parece em si conter tudo isso, e sobre tudo o mais prevalecer.

   É nessa região da polémica que também incluo o seu livro sobre Drumont. [Raïssa refere-se a La Grande peur des bien pensants, onde, na verdade, se encontram textos suspeitosamente inspirados de algum antissemitismo].

   O amor apaixonado da França, o conhecimento concreto, vital, da pessoa e da sua história são como labaredas a percorrer todas essas páginas, e ali tudo serve para alimentar esse fogo e propagar esse incêndio. Mas como poderei levar-lho a mal? Pois se, quando a palha de certos argumentos tiver ardido, ficará o rasto imortal de um coração que muito amou.

   Tampouco é o antissemitismo que me magoa no seu livro. Na verdade, pouco lugar lhe deu. E não tenho o menor desejo de defender as «potências do dinheiro», mesmo que sejam judias. Aliás, pessoalmente, não conheço judeus ricos. Na minha família, sempre fomos pobres, e talvez por isso eu tivesse tido, pelo Mendiant Ingrat, amor à primeira vista. [Referência, aqui, a Léon Bloy, de quem já te falei, admirado por Bernanos, padrinho de batismo dos Maritain, que ele próprio apoiara no caminho da conversão. Como verás, Princesa de mim, Bernanos, na resposta, terminará a carta recordando a memória do "velho padrinho, na meiga piedade de Deus, que um dia nos reunirá"]

 

             De G.B. para R. M., a 28 de março de 1933

 

                                   Querida Senhora e Amiga:

 ... há por vezes uma espécie de florinha no terreno vago ao qual, apesar de tudo, não posso chamar jardim nem vida minha. Eis aqui uma que colhi para si: fui muito estúpido, outrora, ao magoá-la, e peço-lhe perdão por isso. Com muito afeto, na memória do vosso velho padrinho e na meiga piedade de Deus, que certamente um dia nos reunirá.

 

                       De R. M. para G. B., a 31 de março de 1933

 

                    Caro Amigo:

   Essa florinha que me envia não pode ter sido colhida num «terreno vago», vem direitinha do jardim da caridade.

   Dizer: magoei-a, peço-lhe perdão, é de uma simplicidade rara, é algo raro e puro como a boa vontade.

   Considerava a questão resolvida entre nós; a sua carta é, pois, um belo excesso, pelo qual vos fico infinitamente reconhecida.

 

   Afinal, sobre a relação, por vezes difícil, entre Bernanos e os Maritain sempre planou a lição de Léon Bloy, o «mendigo ingrato»: a busca de Deus como caminho de reconciliação. Em fevereiro da 1947, ano e meio antes de morrer Georges Bernanos escrevia, num texto intitulado Dans l´amitié de Léon Bloy: O nosso Bloy, o nosso velho Bloy, que de acordo com a predição do senhor seu pai, terá falhado tudo, não nos falhou a nós, a nós seus amigos, e até seus discípulos, pelo menos seus afilhados ao mesmo título que Maritain e Van der Meer.

   Esses livros, recentemente ou agora publicados, de que te falo, levam-me a revisitar a biblioteca de meus pais - da qual pouco me sobra, à parte edições antigas do Eça e do Camilo, em português, e outras mais esparsas de autores franceses et alia... Estes são sobretudo católicos militantes, dos que minha Mãe lia na Universidade de Lovaina, quando por lá andava. Até conservo uma tese de doutoramento, escrita em francês, por um português, sobre a nossa Constituição de 1933... Interessante, nunca encontrei nada parecido em Portugal. Curiosamente, antes de assinar esta carta, surge-me a imagem de minha Mãe, comodamente sentada na sua sala de estar, de óculos postos, a ler Maritain; e a de meu Pai, mais sonora, já deitado no quarto onde lhe ia dar as boas noites, rindo com gosto em divertida leitura de A Relíquia ou do Tintin en Amérique. Por acaso, ainda tenho os mesmos exemplares (hoje dizem cópias) de ambos... E dou graças a Deus pela minha vida ter tido tantos momentos de Graça com graça.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

QUANDO SE CANTAVA ÓPERA NO PALÁCIO DE QUELUZ

 

Refere-se novamente a alternância entre teatros históricos, teatros românticos e neo-românticos, cineteatros e teatros contemporâneos, bem como a sequência de crónicas e evocações de edifícios de vocação de espetáculo e edifícios onde também se produziram espetáculos, mesmo que para tal não fossem especificamente concebidos e construídos.

 

E assim, nessa alternância de temas, descrições e evocações, citamos hoje um Palácio que constitui referencial histórico e arquitetónico de primeiro plano, e onde se produziram espetáculos de envolvimento cénico e musical.

 

Trata-se do Palácio de Queluz, não na globalidade histórica e monumental inerente, mas na realização, também na perspetiva histórica, de espetáculos cénicos, designadamente de componente musical. E evocamos três eventos dignos de registo.

 

Em primeiro lugar, a criação de um edifício de madeira, projeto do arquiteto Inácio de Oliveira Bernardes, onde a partir de 1790 se realizaram espetáculos de musica e teatro. De início foi episódica a sua atividade, e D. Maria I manda destruir o edifício, para se erguer no local o Pavilhão onde se instalou depois de enviuvar. Posteriormente, e durante largos anos, aí se alojaram figuras oficiais, designadamente Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial.

 

Mas havia uma tradição de espetáculo que remonta a anos anteriores. E nesse sentido, e tal como já tivemos ocasião de escrever, ficou uma história no mínimo insólita, a do rei D. Miguel a interpretar o papel de D. Quixote na ópera de António José da Silva, com musica atribuída a António Teixeira.

 

Sabemos bem que se trata da primeira peça de António José da Silva, datada de 1733 com o nome de “Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança”. E podemos acrescentar: o que até nós chegou da produção musical de António Teixeira (1703-1755?), hoje mais ou menos esquecido, permite-nos avaliar o que deverá ter sido o espetáculo.

 

Isto apesar de João de Freitas Branco não garantir a autoria da musica de cena do “D. Quixote”: mas refere-a em outros textos da António José.  

 

Certo é que a grande maioria das peças de António José da Silva foi executada com suporte musical de António Teixeira. Pode pois aceitar-se que também dele terá sido a música do “D. Quixote”, o que garantiria a qualidade!

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

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XLI – FAUVISMO

 

No Salão de Outono de 1905, em Paris, um grupo de jovens novos pintores expõe telas marcadas pela agressividade das cores, onde a cor é empregue em tons puros, fortes e contrastantes, sem preocupações com a exatidão do tom local, usando formas e contornos indefinidos, composições planas e simplificadas. Foram denominados “fauves” (feras), uma vez se assemelhar a rugidos, a violência do seu trabalho, na distorção das formas e cores. Incluía Matisse, Derain, Puy, Manguin, Vlaminck, Rouault, a que se juntaram ulteriormente Dufy, Marquet e Van Dongen.

 

Este movimento artístico francês, conhecido por fauvismo, não aceita o papel representativo da pintura tradicional, apreciando a arte primitiva e infantil, liberta de convencionalismos, utilizando a mancha livre de cor, grandes saturações e contrastes cromáticos, em que o quadro não tem de ser fiel ao real e o tema é uma interpretação livre do artista.

 

O protagonismo dá-se ao nível da cor, brilhante e agressiva, usando preferencialmente cores primárias, de pinceladas vigorosas, soltas ou corpulentos empastes.

 

Faz o culto de uma maior alegria de viver, por confronto com o expressionismo alemão, mais dramático e marcado pela angústia de viver, embora parte integrante do expressionismo no seu todo, havendo quem fale do expressionismo francês, diferenciando-o do alemão.

 

Matisse foi o pintor fundamental do fauvismo, defendendo a harmonia cromática, desmistificando o retrato, apelando a uma ingenuidade e espontaneidade no olhar, à cor pura, ao decorativismo na arte, ao intimismo, num preenchimento total do espaço pictórico, com figuras simplificadas, um desenho de traços puros, grande saturação cromática, primitivismo, visão pura das coisas e uso da bidimensionalidade.

 

Em A Alegria de Viver (1905/6), exemplo conseguido do fauvismo, as figuras reduzem-se a manchas de cor que os contornos quase não delimitam, numa visão a cores de figuras excêntricas rudemente desenhadas, com alegres inovações cromáticas. Em A Dança (1910), sobressai a natureza expressiva das cores, que se impõem na plenitude, por entre formas muito simplificadas.

 

O fauvismo tem um sentido decorativo profundo, procurando a alegria de viver.

A experiência fauve, embora marcante, foi curta, sendo 1906 o ano em que se manifestou plenamente, com uma maior intensificação do cromatismo em Matisse, Marquet e Duffy, verificando-se a adesão de Braque e dos russos Jawlensky e Kandinsky, tendo os seus protagonistas adotado posteriormente outras linguagens pictóricas.

 

01.01.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

CHARLIE CHAPLIN

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Teus olhos perscrutantes são meus olhos vagabundos. Tua irmã sou, se me aceitares

 

E como disseste “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre” e só se conhecem céus, conhecendo as noites fundas do ódio, do poder cego, do desprezo e da clemência do amar que exprimiste mudo com a extrema dignidade de um cavalheiro. Na tua cartola, na tua bengala de bambu, no teu fraque, nos teus sapatos imensos e desgastados, não foste grande, foste gigante e nunca foste o fim de uma era, ou não tivesses partido deste mundo que encheste de significado durante a gentileza do teu dormir.

 

Em 1977 ano da tua morte, juntamo-nos um grupo de amigos para falar de ti para homenagear algumas das tuas frases. Tudo o resto, pois que o teu resto é mundo todo, já sabíamos que se vai fatiando deitando laço à idade que nos chega

 

e num espírito sem clausura, tu

 

Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis”;

 

“Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça”;

 

“A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la - mas quem consegue descobre tudo”;

 

Enfim o que pode extrair a nossa imaginação dos teus filmes expressa bem o quanto neles o que importa não é a realidade.

 

Sempre o meu choro ao vê-los foi meu aplauso total. Sempre senti uma dor brilhante naquela mímica. Deixava-me a pensar nos corações de estopa lacrimosos a expor as suas contradanças e repudiava o que ainda hoje repudio: refiro-me ao eterno jardim sempre prostituído por malabaristas de estudadas esgrimas.

 

Agora, de manhã, quando te escrevo, é tudo grato…mas Chaplin ao meio dia já muito é duro, a noite é amarga, e, ao amanhecer, contigo também aprendi que do vagabundo despertam aos poucos as ânsias de caminhar e assim a andar nos pomos.

 

Grata te sou pois julgo ter entendido de ti um jeito de conhecer o indizível do morrer, da perda dele ao largar o mundo já que me deixaste a hipótese de encontrar no negrume o que resta da luz.

 

PS

A vida é maravilhosa se não se tem medo dela, sim é certo Chaplin, e é um texto irreversível no qual para irmos a jogo haveria que inventar outra comédia humana, outra trave mestra que fosse um outro dia, de repente.

 

Teresa Bracinha Vieira

DESAFIOS PARA FRANCISCO

 

Perante uma das mais graves crises de sempre da Igreja, o desafio maior para Francisco continuará a ser tentar converter a cristãos os católicos, começando pela cúpula: cardeais, bispos, padres, religiosos e religiosas. Essa conversão implicará uma organização eclesial na linha do Evangelho.

 

 O próximo ano será marcado por acontecimentos decisivos para se saber qual o lugar que a História reservará a Francisco:  um Papa da continuidade ou o  Papa da ruptura que se impõe.

 

1. Em Fevereiro, reunião em Roma com os Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo sobre a pedofilia. Ter-se-á a coragem de tomar medidas que acabem com essa podridão estrutural na Igreja? Vão ser abertos os arquivos para ficar a claro por uma vez tudo o que tem acontecido? E serão devidamente sancionados, colaborando também com a justiça civil, os abusadores e os encobridores? E para a formação dos novos padres: mais presença feminina e testes de maturidade, também com peritos credenciados de saúde mental?

 

2. Em Março, será aprovada a nova Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana, Governo central da Igreja. Continuará o centralismo ou haverá uma Constituição democrática, de comunhão, com representação de todos, incluindo as mulheres, e das Igrejas locais do mundo, superando o dualismo clero-leigos a substituir pela relação viva: comunidade-ministérios (serviços)?

 

3. O Sínodo sobre a Amazónia em Outubro: ocasião para aumentar a consciência ecológica global e avançar com novos ministérios, incluindo a ordenação de homens casados?

 

4. Em Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude no Panamá: o anúncio da próxima Jornada em Portugal em 2022, com o regresso do Papa ao país, constituirá um novo impulso para reanimar a Igreja em Portugal, que parece continuar paralisada?

 

Ano novo 2019 bom e feliz!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 29 DEZ 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim,

                                              

Queridos Amigos:

 

                                           Nuvem neste instante

                                              feita nossa

                                           libertação

                                              do exílio

 

   Quadra não sei, recolhi-a de Enfin le royaume - quatrains (Gallimard, 2018), de François Cheng. Presumindo que o poeta chinês da Académie Française a tenha escrito em francês, dessa versão a traduzi. O original reza assim:

 

                                           Nuage un instant

                                              apprivoisé,

                                           Tu nous délivres

                                              de notre exil.

 

   A coletânea de poemas (quadras chinesas, poderá dizer-se?) que este livro encerra é um insistente, melodioso e exigente, apelo a sair de nós. Como aquela definição que Plotino (270 a.C.) dá da inteligência, como movimento do nosso pensamento que o ergue das coisas inferiores para nos levantar a alma até ao que é superior. Mas tal movimento, mesmo nesse instante da nossa busca em que cativamos a passageira nuvem que nos livra deste exílio, ou nos liberta como verdade encontrada, só pode existir e ter sentido na nossa consciência. Ou seja, citando São Tomás de Aquino (Summa Theologiae, Ia IIae q. 19a.5): Se a tua razão se revoltar contra a afirmação de que Cristo é Filho de Deus, seria ofensa a Deus acreditares na divindade de Cristo. Eis, Princesa de mim, o que muitos convictos ateus e devotos crentes nem sempre entendem: qualquer de nós só verdadeiramente pensassente a verdade, em liberdade... Veritas liberabit vos, isto é, a verdade vos libertará - não significa que um achado científico, nem qualquer dogma ortodoxo, por si só, ou por muita pregação, seja definitivo e triunfador. Antes nos alerta para que, tal como o conhecimento científico é contínua descoberta, a Boa Nova é incessante anúncio da libertação do nosso exílio. Chama-nos a ser vigilantes, atentos à chegada de cada instante em que se manifesta como vocação à conversão. Tal como a ciência, a fé, o amor ou a paz, nunca estão perfeitos: são vocações, sempre a pedir resposta, um passo mais de ação renovadora. E a precisar de cultura, de um espírito que se lavre para se abrir à sementeira. Dessas vocações se pode dizer que são graça, um dom. Repetindo Raïssa Maritain, só o dom opera a salvação.

 

   Ora, nem todos recebemos o dom da fé, ou não o descobrimos a chamar por nós. E se não nos tocou nem toca, mantem-se estranho, porque não há força nem lógica que imponha a fé. Quem a tem, ou julga ter, dela apenas pode dar testemunho. Para o cristão, o testemunho da fé dá-se pelo amor e pela paz. Eu não posso dar a fé seja a quem for, posso procurar dar o meu amor e a minha paz a toda a gente.

 

   Em tempos de tantas incertezas, interrogações, expectativas e desilusões, a fé cada vez menos se anuncia como dogma, e cada vez mais se testemunha pelo amor e pela paz que soubermos irradiar, para comunhão de todos na esperança que a todos nos deve animar. E é dando esse testemunho, com empenho na defesa da terra e na construção de uma casa comum, que se anuncia, no dia a dia, a Boa Nova. Que 2019 seja ano mais despido de preconceitos, desconfianças e negações, para que nos nossos dons de amor e de paz se manifeste a Graça.

 

Camilo Maria  

                                         
Camilo Martins de Oliveira