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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LVII - DO BIOLÓGICO E HERDADO AO APRENDIDO E DESEJADO (II)

 

A evolução do português como língua internacional de um bloco linguístico para língua  de comunicação global, depende do poder associado aos recursos naturais e humanos, à credibilidade das instituições, ao grau de desenvolvimento económico, cultural, científico e tecnológico dos países lusófonos e, sobretudo agora, da emergência do Brasil como potência mundial (com impulso relevante quando tiver assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, com a subsequente oficialização do nosso idioma), em conjugação com a sua capacidade como língua informatizada, internauta e de exportação, mediando a comunicação entre línguas e servindo como meio de uso útil a falantes originariamente não maternos que mantêm com as culturas e língua lusófona uma pluralidade de interesses.

 

A que acresce o mercado, por exemplo o das novas tecnologias, que também deve ser ocupado em português (ou serão outros a fazê-lo), como ferramenta de comunicação e de trocas, dada a sua adaptabilidade e flexibilidade. Factualidade que os movimentos de libertação das ex-colónias conheciam ao decidiram adotar o português como idioma oficial, uma vez que os custos inerentes a outra solução seriam superiores aos seus benefícios.   

 

E embora seja uma língua com futuro e habilitada a não desaparecer, desde logo pelo número significativo e crescente de falantes, não é menos verdade que é vítima de uma assinalável baixa consideração social por parte dos seus próprios falantes.   

 

Expurgando extremos, há que encontrar um equilíbrio, acarinhando, atualizando, preservando e promovendo este primeiro elemento distintivo da nossa identidade cultural e projeção internacional, sem teorias místicas e messiânicas, nem subserviências acríticas e exógenas.

 

Em resumo, evitem-se discursos contemplativos e míticos da língua que a entendem apenas como signo de identidade e confidencialidade e não como meio e veículo de comunicação, sob pena de lhe prepararmos uma lápide numa sepultura. 

 

A retórica da língua como mera marca de identidade herdada e biológica, está ultrapassada, em favor de uma que é essencialmente querida e desejada.   

 

10.01.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CINCO POEMAS - C

 

1

Também se conhece uma nociva doença do que é verde
Uma doença que ataca até as terras no pousio
Ataca o próprio sal trazido nas ondas do mar
E cinde mistérios até os levar à morte
Antes que as estações dos anos da vida expliquem a necessidade
De se progredir por entre sulcos e vultos de temporais
Por várias razões debruçadas na claridade
Entre as quais o coração se perder em muitas alturas
Por entre arados e leveduras e realidades de vidas falseadas
Quando afinal os barcos suplicavam o embarque urgente
E só o nosso aceno fora de aço

 

2

O chão dos olhos inundou-se pela forte bátega
Quando do horizonte constelado veio a tua mão fechada
O teu ombro vago a estriar-se na tua fala que exortava vésperas cadentes
Afinal o lugar de ambos um reboco um talhão de obra a soro
A nossa casa devoluta e transferida e segura
Tão só por uma ossatura vagamente viva
Trave mestra em que sempre acreditei e sob a qual tanto mas tanto
Me tens amado

 

3

É preciso infinita coragem para procurar no poema
O testamento da alma e expô-lo aos olhos que o visitam
Atravessando-o por onde eclode excessivo quando envolto em si
Sem freio já nem pode recolher repouso ou medo ou debulho
Deixando-se sim possuir e consumir qual miradouro que se despenha solícito
Ao fascínio de quem lê a viva solidão entre coisas e parte delas
Já defronte e misturadas não turvas mas definidas
Saídas de muito dentro de um tempo que sobrevoa
A rocha escavada desmesura morada do poema

 

4

De onde procedem as asas ascendentes incandescentes
Que no ar de tudo sustêm terra e curvo céu abaixando-se sobre a leira
Das mulheres que aceitam suas sementes jubilando de alegria
Dormindo posteriormente sem receios sob todas as noites
Em que até mesmo os lobos as visitam e se escutam os ossos a latir
E elas as asas e as mulheres vívidas ante tudo
Já brincam agora com as crianças aos lumes que colidiram juntos na mesma luz
Depois do cheiro acre de um parto de forças e deuses
Em bandos

 

5

Agora a glosa é enorme é um outro livro uma outra distância
Onde se implanta uma outra emergência de entendimento
Do posto e do lugar por onde espreita o pássaro
Agora as palavras da glosa são comentadas num pulmão de verso
Oposto à prosa ou à provação desta poder ser tão ampla
Que uma anotação a descreve arvore não rítmica e essa compreensão
Existe como expressão narrativa de uma carta
Despida folha que afinal em mensagem te enviei
Desenhando para ti te um favo que por harpa te oferecia
Toda a música dos ventos

 

 

Teresa Bracinha Vieira

O ANJO DA HISTÓRIA

 

Terminados os festejos da passagem de ano e já no novo ano de 2020, é bom e mesmo urgentemente necessário parar para reflectir sobre o enigma maior do tempo. É, que queiramos ou não, com a passar do tempo, somos confrontados com aquela arrasadora constatação do historiador e filósofo R. Wittram na sua obra Das Interesse an der Geschichte: “A mim os grandes acontecimentos históricos do passado afiguram-se-me como cataratas geladas, imagens congeladas pelo gelo da vida que se foi e nos mantém à distância. Gelamos à vista dos grandes feitos: reinos caídos, culturas destruídas, paixões apagadas, cérebros mortos. Se tomamos isto a sério, podemos sentir que nós, historiadores, temos uma ocupação bem estranha: habitamos na cidade dos mortos, abraçamos as sombras, recenseamos os defuntos”.

 

Por isso, a questão do tempo é também a questão de Deus; por outras palavras, perguntar pelo tempo é perguntar por Deus. De facto, como questionava Theodor Adorno, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, como se poderia falar de reconciliação à maneira do sonho marxista, por exemplo, se ela valesse apenas para os vindouros, numa sociedade realizada e sem conflitos? Nessa situação, o que seria de todas as vítimas da injustiça da História e de todos os mortos do passado? O tempo com final, na perspectiva bíblico-cristã, é o tempo da esperança na salvação de Deus para todos. Aquele Deus de quem o teólogo Karl Rahner disse que é “o Futuro Absoluto”, Futuro de todos os passados, Futuro de todos os presentes, Futuro de todos os futuros, na consumação e plenitude da existência de todos os homens e mulheres de todos os tempos.

 

Também o grande filósofo, Walter Benjamin, um marxista especial, de raiz judaica, perseguido pelo nazismo, se confrontou com o mesmo enigma. Na célebre tese 9 do seu ensaio Sobre o Conceito de História, escreveu: “Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da História deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas. Enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”

 

Sim, o progresso faz vítimas e assenta sobre vítimas, como, numa entrevista recente a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, veio relembrar, a propósito do seu novo livro, El tiempo, tribunal de la historia,  o filósofo Manuel Reyes Mate, discípulo do filósofo e teólogo Johann Baptist Metz, que aqui referi recentemente, por ocasião do seu falecimento: “A História da Humanidade é uma história de progresso lento sobre muito sofrimento causado. O progresso mata e exige vítimas. Que sobre as vítimas se construiu a História sabemo-lo, mas tornámo-las invisíveis, no sentido de que não lhes demos importância.” E relembra também os tempos da sua juventude, com a esperança messiânica e dois messianismos. “O marxismo era um guia para muita gente. Hoje não é guia para quase ninguém, mas também não existe nada que o substitua, e há  um grande vazio. O que agora existe é uma grande inesperança/desesesperança. Na altura, havia futuro: era uma sociedade que, apesar dos problemas, tinha futuro e tinha projectos de longo alcance, simbolizados pelo cristianismo e pelo marxismo. Hoje, a sociedade vive na e da imediatidade, sem projectos.” Deste modo, percebe-se o estado em que se encontra a política. “A política não tem apenas de resolver o dia a dia; tem de oferecer um horizonte de esperança à Humanidade. Mas, para isso, não pode renunciar às grandes perguntas. E as grandes perguntas têm a ver com a morte, com o sofrimento e com a injustiça. Na medida em que a filosofia política  renuncia a essas perguntas, a política, como dizia outro marxista, Max Horkheimer, converte-se num negócio.”

 

E voltamos a Walter Benjamin, que não renunciou ao messianismo. Ele fala da teologia como “um anão feio e corcunda”, porque carrega com responsabilidades históricas, com erros e fracassos, mas ela não esquece as grandes perguntas. Precisamente por causa do sofrimento e das vítimas, se a injustiça não pode ter a última palavra sobre a História, é necessário fazer apelo à teologia, como reconheceram Max Horkheimer e Theodor Adorno, sendo, no entanto, Benjamin que insistiu em que a solidariedade com os mortos, concretamente com as vítimas inocentes, não permitia conceber a História “ateologicamente”, sem teologia.

 

A crise do nosso tempo manifesta-se essencialmente no esquecimento e obturação das grandes perguntas, decisivas, perguntas metafísico-religiosas. Assim, o que resta é uma cultura empobrecida e uma política reduzida a negócios, sem horizonte autenticamente humano. Depois, é o que se sabe, está à vista.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 JAN 2020

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Shirazeh Houshiary e a ambivalência do ser.

 

‘...When a gust of wind lifts the curtain
the secret of the interior is exposed...’, Rumi em ‘The Garden of the Soul’

 

Na pintura ‘Iris’ (2019), a artista iraniana Shirazeh Houshiary revela uma possibilidade de fusão entre o infinitamente grande e o imensamente pequeno. A desordem e o incontrolável tomam forma no fluir líquido da tinta. A esse acaso sobrepõe-se uma camada feita de marcas minúsculas, mais precisas e detalhadas.

 

Iris’ revela, em simultâneo, a inevitável fricção e a desejável fusão entre dois pólos que tendem a opor-se - segundo Houshiary é na energia de fundir o grande e o pequeno, o caos e a ordem, que se gera vida.

 

O trabalho de Shirazeh Houshiary é puramente empírico e experiencial. Não é a simples representação de uma forma que se deseja concretizar. É sim a revelação, a pulsação, a energia, a ocultação, a respiração de uma forma que se quer alcançar.

 

‘I am not interested in painting and on the more conventional sense of representation of something. I am trying to get into how something is structured, how it works. My work is very much about process. This process has taught me a huge amount about who I am, which is surprising.’, Shirazeh Houshiary

 

A pintura de Houshiary expõe uma perceção ambígua e indireta acerca de tudo aquilo que nos rodeia. É um protesto contra o saber.

 

‘I want to see an art that has ambiguity and makes me think about my own evolution in the world that I live and in the space and time of this universe.’, Shirazeh Houshiary

 

Abre toda a possibilidade de descoberta, porque é multidimensional, vaga, equívoca, incerta e não exata. A pintura de Houshiary apresenta-nos sempre a dúvida, porque materializa as questões mais primárias e profundas do ser humano. É a ambivalência que a gera. É na ambivalência que o ser humano se situa, porque o ser humano concilia opostos: o relativo e o absoluto, o acaso e o deliberado, o imenso e o insignificante, um lado e o outro, a luz e a sombra, o distante e o perto, o ruído e o silêncio, a desintegração e a estrutura, a ausência e a presença, a vida e a morte. A natureza essencial da vida é paradoxal, mas talvez na totalidade do universo este paradoxo faça sentido.

 

Houshiary acredita que é muito difícil conhecermos a verdadeira natureza da realidade (que é muito incerta) - pensamos sempre que sabemos, que conhecemos a totalidade, mas genuinamente a nossa visão está sempre embaciada, enfraquecida, como se tivessemos sempre por detrás de um véu. Só uma pequena parte da realidade, é visível. E a inconstância é a essência do trabalho de Houshiary.

 

‘There is a frustration when you don’t see but it is then that you question. We always think light throws clarity in our vision, we see things better. But actually light blinds us. We see better in darkness. Because it shows the paradox of seeing.’, Shirazeh Houshiary

 

Por isso, ‘Iris’ elogia uma precisão turva e nebulosa, os limites das formas não são duros e definidos, antes dissolvem-se, flutuam e são frágeis. Não há luz intensa, nem limpidez nos contornos, as transparências estão diluídas. A tinta líquida é derramada subtilmente. As manchas são ténues e não tangíveis. Porém é na aproximação que se firma a desintegração - porque a vida é estável e duradoura.

 

‘My work is like a quest to go beyond the veil that stops us seeing through.’, Shirazed Houshiary

 

É no detalhe que esta pintura mostra a sua lógica certa, exata, clara, nítida e até pura. E a pintura de Houshiary (tal como a vida) é a expressão dessa tensão entre o turvo e o límpido e entre a escuridão e a claridade. O ser humano só vê uma parte do todo - a parte relativa às suas convicções, crenças e opiniões. E Houshiary transporta assim o elevado desejo de fazer com que o ser humano realize que se aprender a entender o mundo através desta tensão permanente - entre o distante nebulado e o próximo nítido - as suas decisões não mais serão parciais.

 

‘I am only a shell for Spirit.
I leave reason behind and leap into bewilderment.’, Rumi em ‘The Garden of the Soul’

 

Ana Ruepp

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

Iniciamos um ano bissexto, o que dá sempre que pensar. Afinal no velho calendário romano era antes de se chegar aos idos de Março que se fazia o acerto cósmico, considerando que a certeza dos astrónomos obrigava a que, de quatro em quatro anos, houvesse um acerto de vinte e quatro horas, por conta das seis horas de desvio anual. Por muito que se desejasse que tudo fosse perfeito, como os astrólogos desejam, a verdade é que a grande balança do universo tem o seu quê de incerto. E o que é o Borda d’Água? Um ser rotundo, antigo, de cartola, óculos redondos graduados, um guarda-chuva, e uma interrogação permanente nos lábios sobre os astros e as nuvens, o sol e a lua, mas também sobre as culturas, os jardins, as árvores, as aves e o seu voo… Um dia foi visto, tal qual Lineu, de cócoras, com uma grande lupa a investigar o percurso das formigas, e a tentar ver onde estava a formiga mestra, ardilosamente escondida e protegida pelas aias solícitas… Outra vez foi encontrado, com uma tremenda máscara que o fazia tremendo à procura da abelha mestra numa colmeia, sem que nenhum dos inteligentes insetos o atacasse… Sim, o Borda d’Água é isso tudo: alguém que anuncia, prenuncia, justifica, demonstra, interpreta, domina e concede segurança a quem dela duvida. Encontrei-o há dias, falámos fugazmente. Explicou-me que a invernia ainda seria dura, que a primavera seria incerta, que o verão conheceria chuvas tropicais e que o outono não seria mau. Aventurou-se por ritos pagãos e cristãos, e no fim de tudo partiu apressado, pois ainda tinha um encontro marcado com um adivinhador que lia o futuro nas entranhas das galinhas… Mas para que lhe servirá isso? – questionei-o. E, com desfaçatez, ele disse-me: -  Para absolutamente nada. O que acontece é que há ainda quem se deixe iludir por esses sinais… - E que diz aos seus leitores e clientes? – Sempre a maior das verdades: Olhe com atenção, nunca se distraia com minudências.

 

Mas, hoje, com o controlo das barragens e a força dos burocratas, o Borda d’Água perdeu uma parte dos seus poderes. Além da preia-mar e da baixa-mar naturais, há o efeito da abertura e fecho das comportas, e esses gestos não dependem do destino, mas dos inexoráveis cálculos e gestos de mangas de alpaca. O Borda d’Água deixou, assim, de ser um “deus ex machina”. O caos e o cosmos, o cronos e o kairós, o tempo do relógio e o momento oportuno, obrigam a mais trabalho. A ecologia tornou-se complexa, o aquecimento global é cada vez mais misterioso, o buraco do ozono alarga-se assustadoramente, as emissões de dióxido de carbono evoluem perigosamente – e o velho Borda d’Água não tem outro remédio senão palmilhar léguas e léguas à procura dos segredos da incerta natureza…  

 

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

De 6 a 12 de janeiro de 2020

 

«Textos Escolhidos» de Gonçalo Ribeiro Telles, com organização do Arquiteto Fernando Santos Pessoa (Argumentum, 2016), é um livro que constitui uma excelente oportunidade para conhecer melhor o fascinante pensamento de uma referência viva da cultura portuguesa contemporânea.

UMA CULTURA ECOLÓGICA
Falar de uma cultura ecológica entre nós obriga a falarmos de Gonçalo Ribeiro Telles, que sempre nos ensinou que a democracia para se consolidar precisa de cuidar da memória e da cultura, como fatores de humanização – de modo que o ser prevaleça sobre o ter e que a dignidade humana seja o denominador comum da vida em sociedade. O jardim é a verdadeira metáfora da ação criadora de Deus em diálogo com o homem – por isso o confronto entre os textos e aquilo que nos tem sido legado pelo Arquiteto Paisagista é um motivo especial para compreendermos a cultura como ponto de encontro entre a compreensão da natureza e a capacidade humana de a transformar. «O homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; pode ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza. Toda a atividade humana tem como fim a satisfação das suas necessidades, quer espirituais, quer materiais. (…) A paisagem terá de ser considerada como um todo orgânico e biológico em que cada elemento é interdependente, influenciando e sofrendo da presença dos restantes participantes. A reciprocidade é a lei fundamental da natureza». Estas são palavras de 1956, na revista “Cidade Nova”, mas poderiam ter sido escritas hoje. Centrando-se nas pessoas e no seu sentido comunitário, GRT apela a uma natureza equilibrada, na qual a lembrança e o desejo, a memória e a criação se encontrem. A vida e a ação do cidadão corresponderam a uma grande coerência científica, política e cívica. Por exemplo, se temos o corredor verde em Lisboa e se a cidade é um símbolo, que em 2020 é devidamente reconhecido, tal deve-se, em parte significativa ao seu exemplo e à sua permanente determinação. Estamos perante um militante intransigente e persistente de uma sociedade mais humana, capaz de salvaguardar o meio ambiente, a paisagem e o ordenamento do território.

 

CONHECER PORTUGAL
Qual a sua grande lição? É indispensável conhecermos Portugal e o facto de não ser um país compreensível superficialmente. Não podemos esquecer a mata mediterrânica e a necessidade de uma agricultura adequada às qualidades do nosso solo. Assim, há muito que combate a ideia de uma florestação industrial extensiva com pinheiros e eucaliptos, em nome da madeira para as celuloses e para a construção civil. Lembremo-nos de alguns exemplos históricos, como o da campanha do trigo, por muitos considerada desadequada, mas posta em prática, a partir da lógica autárcica e de uma suposta autossuficiência. A floresta industrial foi outra das soluções com resultados nefastos. O professor, o pedagogo e o arquiteto paisagista tem lembrado que os romanos dividiam o território em três áreas: o ager, o campo cultivado intensamente; o saltus, ou pastagem, com agricultura menos intensiva e a silva, a mata de proteção com produção de lenha e madeira. Todo esse ordenamento foi posto em causa com sacrifício da silvicultura e a escolha contra natura da floresta industrial. Se estudarmos a nossa cultura geográfica, verificamos facilmente que não temos uma tradição florestal, mas sim mata mediterrânica e matos. Orlando Ribeiro fala do garrigue e do maquis, respetivamente: charneca de arbustos originada no bosque primitivo de azinheiras, substituído por tufos baixos de carrasco e de um cortejo de plantas aromáticas: alfazema, rosmaninho, tomilhos e cistáceas; e um sub-bosque em certos casos com povoamentos densíssimos de medronheiros. No século XIX, o pinheiro bravo veio responder às necessidades de desenvolvimento do caminho –de-ferro. Só mais tarde surgiu a utilização da resina, a indústria da celulose e a pressão da construção civil. Houve, assim, tendência para seguir orientações de curto prazo, em lugar de um pensamento estratégico. Veja-se o caso da limpeza das matas: a verdade é que no que hoje se prevê faltam condições para a circulação de água e para o aproveitamento da matéria orgânica. Daí que a prevenção dos fogos exija ações planeadas com preservação da matéria orgânica e não ações ad hoc sem consideração global. Não devemos esquecer que na mata mediterrânica, há fogos maus e bons – contribuindo estes últimos para o enriquecimento dos solos. A limpeza tem, assim, de ser considerada uma operação agrícola e ecológica – tendo de ser integrada na lógica do ordenamento do território. Do mesmo modo, GRT tem insistido no facto de o eucalipto constituir uma solução perigosa, até porque precisa de muita água – e não a temos suficiente para concorrer com o Brasil ou África. Entre Douro e Minho é a zona de maior pluviosidade, mas não pode transformar-se em floresta. Onde se considerassem os terrenos aptos à florestação, deveriam privilegiar-se as madeiras de qualidade da cultura mediterrânica, como os carvalhos, o sobreiro, a azinheira e pinheiro criteriosamente distribuídos. Com efeito, um ordenamento do território adequado necessita de equilíbrio entre o povoamento e a natureza, ou seja entre as pessoas e as culturas. Lembremo-nos do que dizia Oliveira Martins no seu célebre Projeto de Lei de Fomento Rural: “Necessitamos hoje de implantar homens a implantar árvores: dar terra a quem a fecunde. É preciso sangrá-la nuns pontos, laqueá-la noutros”…  Eis por que razão o património cultural não é uma questão do passado, mas uma realidade viva – património material e imaterial, natureza, paisagem, domínio digital e vida presente.

 

OPÇÃO VERDE
Para Gonçalo Ribeiro Telles, a opção verde e ecológica não é (não pode ser) uma questão de moda, mas de sobrevivência. A agricultura vai, por isso, ter de ganhar uma nova importância na economia contemporânea. O homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas – urbana e rural. Não esqueçamos, que já hoje 30 por cento das pessoas que se dedicam à agricultura económica na Europa não são agricultores profissionais. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem agricultura, sob pena de morrermos à fome e vítimas da destruição irreversível do meio ambiente, sem capacidade para combatermos o desperdício e para garantirmos o equilíbrio ecológico. Constrói-se mal, planta-se mal, esquece-se a relação entre as pessoas e a natureza. A lógica do progresso pelo progresso tem de ceder lugar à racionalidade, ao respeito pela complexidade e pelas diferenças. Não podemos continuar a pensar produzir tudo, para todos ao mesmo tempo. E o mesmo se diga para o caso do consumismo desenfreado. No velho texto de 1956, o nosso autor insiste no pensamento estratégico, baseado nas relações humanas: “Procurar solucionar problemas de ordem demográfica ou de consumo à custa da quebra do equilíbrio e da ordem acarreta prejuízos no fundo biológico da mesma, só remediáveis a longo prazo...". O Papa Francisco na encíclica “Laudato Si’” di-lo com muita clareza. A economia mata não apenas pela especulação financeira, mas também pela cegueira relativamente ao capital social e à ecologia.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Muitos consideram Friedrich Hölderlin o maior poeta germânico. Pobre de mim, nunca fui adepto de tabelas classificativas de artistas, autores e suas obras, sinto-me bem melhor saboreando apenas o diálogo invisível que me abrem esses outros ares que para minha saúde respiro. O meu irmão Gaëtan, artista com mui cocegueiro sentido do humor, chegou a distribuir cartões de visita que o identificavam assim:

 

Gaëtan Martins de Oliveira
Especialista em Mudança de Ares

 

   Na literatura de língua tedesca talvez prefira Rilke, Hofmannstahl, Schiller, ou mesmo Goethe, a Hölderlin. Mas hoje, mudando de ares, caiu-me sob os olhos, no gosto e no goto, um poema do Hölderlin, intitulado Die Heimat, que começa assim:

 

Froh kehrt der Schiffer heim an den stillen Strom...

 

o qual, sem rodriguinhos, abaixo, e livremente, traduzo para ti, para contigo partilhar o que será uma faceta, um instante, da minha insistente meditação, em ano de tantas mortes de gente próxima, sobre como pensarsentir essa pertença-distância-proximidade-ausência. Aliás, ocorreu-me agora que, em língua inglesa, o verbo intransitivo to long for significa ter saudades de, ou desejar ardentemente, e o seu derivado to belong to quer dizer pertencer a... Não sei porquê, talvez por me ter vindo a aconchegar à lembrança de coisas que, ditas de muitas várias maneiras, nos dizem afinal o mesmo e por isso nos soam mais verdadeiras. Ou, quiçá, por me apetecer discordar q.b. de Hegel que, na carta a Niethammer, em 1808, pretendia que a realidade não resiste à revolução do reino das representações. Prefiro pensarsentir, com Novalis, que quanto mais poético algo for, mais real é. A arte, literária ou plástica, - creio eu - está mais junto ao real precisamente porque consegue dizer, simultaneamente, algo e o seu contrário, não exclusivamente numa perspetiva dialética, pois pode fazê-lo por tempos e modos diferentemente inspiradores e entendíveis, ou seja, a arte não tem de representar isto ou aquilo, de dizer o que é, de que se trata, surge apenas como apocalipse ou revelação das potencialidades das coisas, precisamente por catalisar as disponibilidades e os alcances da nossa escuta, do nosso olhar. Os nossos passeios pelas obras que outros partilham connosco são autênticos percursos de encontros e mudança de ares. Mesmo quando vamos ter, no século XIX, com um autor romântico alemão.  

 

A Minha Terra
Por silente corrente regressa o marinheiro,
terminada a safra nas ilhas tão distantes;
assim também gostaria eu de voltar à minha terra
se tanta riqueza colhesse quanto as dores sofridas.

 

E vós, margens queridas em que outrora fui criado,
podeis vós sossegar meus males de amor e prometer-me,
arvoredos da minha mocidade, que no meu regresso
encontrarei ainda aquele meu repouso?

 

Junto ao ribeiro fresco onde ondulações brincavam,
e ao rio em que barcos deslizavam, em breve estarei.
Bem cedo vos saudarei, e aos montes familiares
que outrora me abrigavam e eram as fronteiras

 

veneradas e seguras da minha terra, casa de minha mãe,
onde irmãos e irmãs com amor me abraçarão.
Agasalhado de carinhos, assim cuidado,
poderá enfim meu pobre coração sarar.

 

Sempre vos soube fiéis, mas também sei
como mal de amor não tem cura instantânea.
Nem há canção de embalar, que mortais cantem,
que me possa consolar, de meu peito afugentando o mal.

 

 Os deuses que nos transmitem celeste fogo,
logo também nos trazem sagrada dor.
Que assim seja. Pois assim sou eu também 
 filho da terra, feito de amor e sofrimento.

 

   Traduzi Die Heimat por A Minha Terra, poderia também ter escrito "A Pátria" ou "A Minha Casa". Qualquer delas traduz o mesmo pensarsentir a distância como proximidade, a realidade como sonho, a saudade afinal como pertença. Só em relação somos, pertencemos sempre à Terra-Mãe e uns aos outros, e ao pensarsenti-lo vamos desenhando na nossa vida um perfil, uma presença invisível, esse mistério permanente que até é tema daquele livro que o Ricardo Reis do José Saramago lê no barco que o traz para o derradeiro ano da sua vida: QUEM. Falo-te dum livro de Saramago de que tanto gosto: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Sempre que o li e releio me sinto também mais próximo desse Fernando Pessoa - de heterónimos e outros vários mundos - que tão bem ilustra como a nossa humanidade vai vivendo algures e alhures, nem sempre arribando ou dando à costa, mas certamente trazendo e levando consigo o seu berço e a sua campa, ambos sua casa e sua terra. E sonho ainda, visão íntima dessa pátria prometida onde Quem é tudo em todos.

 

   Em tão cinzento novembro terminal, escuto essa corrente silenciosa que nos leva até à saudade essencial da vida e, com Hölderlin, murmuro:

 

So käm auch ich zur Heimat, hätt ich  assim também gostaria eu de voltar à minha terra
Güter so viele, wie Leid, geerntet. se tanta riqueza colhesse quanto a dor sofrida.

 

   Outrora, já o nosso Bernardim Ribeiro contara uma vida em que, menina e moça, me levaram de casa de meu Pai. Eis um percurso de saudade, eis a nossa vida afinal. A única riqueza que nos compensa a dor é essa saudade acumulada que sustenta a fé, a fazer-nos entender o alcance duma promessa inata, cujo cumprimento é ainda invisível, porque pretende-lo, agora já, seria cativarmo-nos. Como disse o António Ferro: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto / e agora quando me sinto / é com saudades de mim. A saudade absoluta é uma porta interior aberta sobre um infinito passeio para muito além de nós. Os retratos do Gaëtan - os seus autorretratos - constroem um percurso pelo seu labirinto íntimo, são passos ou instantes de uma busca que, ainda incompleta, esgotou o seu tempo e chegou enfim ao destino em que já tudo se lhe descobre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS TEATROS NUM LIVRO SOBRE JORGE AMADO

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Foi recentemente editado em Portugal um extenso livro de Joselia Aguiar intitulado “Jorge Amado - Uma Biografia”, em que se descreve e analisa, ao longo de mais de 600 páginas, a vida e a obra do grande escritor brasileiro.

Independentemente das apreciações positivas e elogiosas que o livro evidentemente merece e amplamente justifica, importa agora evocar as referências aos teatros que, ao longo de dezenas de anos, apresentaram parte da obra dramatúrgica do escritor, um dos mais relevantes da literatura moderna brasileira.

Há que referir, entretanto, que o livro engloba não só a vasta produção literária de Jorge Amado, como as conotações epocais que envolvem a obra e obviamente a biografia e o historial respetivo. E nesse sentido, é oportuno desde já salientar que, independentemente de apreciações que se possam fazer do estudo em si mesmo e até da vida e obra que descreve e analisa, haverá que reconhecer a qualidade do livro e a oportunidade da publicação, no que concerne à dramaturgia do grande escritor, que Jorge Amado sem dúvida sempre como tal será justamente reconhecido.

Jorge Amado (1912-2001) completa e de certo modo prolonga a sua vastíssima criatividade literária sobretudo romanesca, de qualidade, projeção e prestígio indiscutíveis, com uma dimensão também dramatúrgica, expressa e assumida como tal num conjunto de peças que Joselia Aguiar cita e evoca. Mas sem efetuar aqui e agora a apreciação critica das peças em si, importa referir então os teatros citados no estudo, pois neles encontramos uma expressão significativa da infraestrutura teatral em que a obra cénica de Jorge Amado se exibiu, se desenvolveu, ou que direta ou indiretamente influenciou.

Sem entrar obviamente em detalhes, e salvaguardando novas abordagens que a dimensão do livro amplamente justificará, referimos, pois, os principais teatros citados, sem excluir evidentemente novas referências. Mas deste já se aluda designadamente aos seguintes Teatros, salas de espetáculo e movimentos de espetáculo teatral-cultural referidas no livro de Joselia Aguiar, cruzando com a vida e obra de Jorge Amado, e isto abrangendo a longa e variada existência cultural e política ao longo de dezenas de anos, no Brasil e em outros países.

Assim, designadamente e não exaustivamente, pois como dissemos ainda não concluímos a análise do livro:

Teatro Castro Alves, Teatro Gamboa e Teatro Vila Velha, de Salvador da Bahia; Teatro Nacional de Praga; Teatro Nacional de Tiblisi; Teatro Oficina; Cine Guarany; Cine São Jerónimo e Clube de Cinema da Bahia, além de outras intervenções de menor referência.

Estes aqui citados são Teatros - edifícios. Mas sobre Teatro criação, literatura e espetáculo, outras evocações e análises surgem ao longo do vasto e valiosos estudo, que estamos a ler e ao qual voltaremos em crónica posterior.

 

“Jorge Amado - Um Biografia” de Joselia Aguiar
Edição portuguesa: Publicações D. Quixote Editora, 2019
Edição brasileira: Editora Todavia, São Paulo 2018

 

DUARTE IVO CRUZ     

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

Aldeia de Monsanto, em Idanha-a-Nova

 

LVI - DO BIOLÓGICO E HERDADO AO APRENDIDO E DESEJADO (I)

A narrativa contemplativa da língua como simples marca de identidade, potencia um discurso atraente, quando não excessivo, associado ao biológico, ao sangue, ao não escolhido, ao não pensado, às origens, patriotismos, raízes, terra e território.

Embora relevante expressar-se a língua como signo de identidade, é redutor sacralizá-la, só ou preferencialmente, em redor de ideias conservacionistas ou teorias de salvação nacional, onde predomina a defesa do já conhecido, tido como um dado adquirido.

A língua apenas como símbolo e marca de identidade, pode ser um elemento dissuasivo para a sua aprendizagem e promoção, podendo levar ao culto da sua confidencialidade e posse, inverso à regra de que a língua pertence a quem a fala.

A teoria da língua indígena, de que as línguas se transmitem por via biológica, de pais para filhos, apela a valores tradicionais, entre eles a identidade linguística, a linguagem oral, a ascendência (jus sanguinis), o território de origem (jus solis) e a cidadania originária, apelando ao culto confidencial da língua.

Em desfavor do uso confidencial da língua são feitas usualmente duas observações: o sentimento de posse de um bem de que se julga ser o único possuidor; o ocultar dos ouvidos dos outros algo pelo qual não queremos ser identificados.

Na primeira situação, há o uso, gozo e fruição de um bem que temos como nosso e que não queremos dar a conhecer, havendo uma comunidade, um povo, uma sociedade, um país de falantes que se tem como dono de uma língua, que se transmite por herança biológica, como algo de que não abdicamos, numa atitude que pode ir da jactância, soberba ou superioridade linguística, à manutenção da nossa privacidade.

Na segunda situação, ao esconder e guardar a confidencialidade de uma língua dos outros, ao não querermos ser identificados usando-a publicamente, estamos em presença de um idioma que comporta como carga negativa e uma baixa consideração social pelos seus próprios falantes, não a considerando em igualdade de estatuto com outros, na sua perspetiva mais negativa.

 

03.01.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CINCO POEMAS - B

 

1

Nenhuma mão foi central
Ao ritmo das noites quando necessitadas
De pontes que as libertassem das cicatrizes
E dos sismos nos peitos em peso de afogamento
Descobriu-se sim e lentamente
A corola da lua com o sol por baixo
O ar sensitivo a insinuar-se 
As coisas a cederem sob uma causa maior
E encurvada eu no exercício da palavra-respiração
Lavrei pão e armas e pássaros enquanto uma diferente paz
Chegou sem manto nem lenço
Ferida tanto quanto suturada
Envolta numa viseira que dava à costa levantada
Sem demandar porto


2

Também evoco falecidos nos cercos dos sítios
Em que viveram e nos amaram e magoaram
Utilizando nós feitos para os recordar para os acolher
Na memória das lutas com chifres e adereços de amor
Tudo em sentires de fuso ou jeito de o usar
Recordando em crónica aqui e ali o mudar da vida
Dos mortos agora sem trono mas chorados e vestidos com mantos
Roupa na qual crescemos e a eles nos igualamos
Em demasia para depois de exumados
Nossa lembrança escarlata


3

Eram doze cavalos muito altos a correrem vinte e quatro corridas
E mais seriam se fossem mortais e expostas as múltiplas feridas
Do chicote inimigo ou ais que em palmas ásperas lhes explodisse o coração
Mas agora não que era verde o destino destes imortais animais
Velozes e dispostos a dar trono não ao sol mas a quem o nomeia
Não aos mudos mas a quem calado escuta
Não ao poema mas a quem o parisse morto e dele a vida soltasse
Quando os doze cavalos muito altos corressem as vinte e quatro corridas
E chegassem ao tempo que não finda
Lá onde e aonde só uma pedra aguarda

 

4

Aquela ilha eventual lugar secreto de encadeados
É uma ilha de leitos fundos que saem da barriga do chão
Regada de muitos nevoeiros para que os estares dos segredos
Sejam protegidos das perspicácias alheias e o lodo se possa fechar
Como quem fecha um rio em barragem para que o pulmão só consigo respire
Aquela ilha é simultaneamente operária de mágoas e raiz de fomes proibidas
Aquela ilha tem o mais perfeito e sinuoso peso de cada um
Que supostamente a separa da vida indivisível
Mesmíssimos passos na tábua que pisa
Reveladores de que o muito dentro da neblina afinal
É uno e condição

 

5

O rosto mostra muito de um choro predisposto
Ao íntimo do amor
Jogo
Tão ansioso que alimenta cio e crosta
Assegurando coragem e desafio num estreito
De beijos cor de evasão do desejo
Deleite que traz tempos infindos tecidos por nós
Numa variedade de vigílias de senso profundo e dúctil
Como pode depois o mesmo rio fazer veios nas correntes
Das dúvidas que nem as guerras atenuam
Ou sequer os bois têm força para lavrar

 

Teresa Bracinha Vieira