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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, O NOVO CARDEAL

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Estamos atentos ao que se passa em Roma nas próximas horas! É com alegria e esperança que saudamos a decisão do Papa Francisco de nomear como Cardeal o nosso querido amigo e associado José Tolentino Mendonça. Na história do Centro Nacional de Cultura e em vésperas dos 75 anos, que é uma idade respeitável, é a primeira vez que contamos com dois Cardeais entre os nossos sócios efetivos (com D. Manuel Clemente) – devendo salientar-se que ambos se iniciaram no Centro ainda clérigos, quando não tinham qualquer outra dignidade eclesiástica. D. José Tolentino Mendonça foi no CNC sempre uma referência no diálogo com o mundo da cultura, muito para além das fronteiras religiosas. E há alguns anos quando homenageámos, na Capela do Rato, Lourdes Castro, desde a sua juventude muito cá de casa (designadamente com José Escada), lembrámos essa atitude fundamental do novo Cardeal – a de que a Arte e a Cultura têm sempre um sinal de Deus. E José Tolentino compreendeu-o sempre. E há dias, Paula Moura Pinheiro interpretava fielmente o sentimento de muitos dos seus amigos, de vários horizontes culturais, dizendo: “Espero que o padre Tolentino provoque o estremecimento na Santa Sé que sistematicamente provocou a nós que o ouvíamos pessoalmente na Capela do Rato durante tantos anos e tenha o mesmo fulgor revolucionário que sempre lhe conheci”. A jornalista lembrava a sua participação na comunidade da Capela do Rato, onde teve “por pastores padres maravilhosos”, considerando que “é impossível negar que o padre Tolentino tem características únicas” que o fazem “excecional”. “Ele tem uma espécie de acesso e quando começa a conversar ilumina-se e passa a pertencer a qualquer coisa, de outra dimensão, metafisica. É o que eu sinto quando o ouço”. E com que emoção recordamos com ele o espírito da revista “Concilium”, o Círculo do Humanismo Cristão, a Livraria Moraes, o MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa, que aqui vivemos, nas paredes que habitamos – Helena e Alberto Vaz da Silva, António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Frei Mateus Peres O. P., Nuno Bragança, João de Almeida, Nuno Teotónio Pereira, Diogo Lino Pimentel, Freitas Leal e tantos outros… Quanto caminho percorrido? Quantas veredas trilhadas, contra ventos e marés?...

Importa, pois, lembrar a ação que desenvolveu nos meios culturais como poeta consagrado, que tem procurado abrir horizontes de diálogo com os meios intelectuais numa perspetiva de troca de ideias, de enriquecimento mútuo e de um melhor conhecimento das preocupações espirituais do mundo contemporâneo, a partir da laicidade, da liberdade religiosa, numa sociedade aberta e pluralista. Simbolicamente o novo Cardeal adotou como lema a frase “Olhai os lírios do campo” (Mt., 6, 28) e escolheu como símbolos os lírios, um elefante, e o Alfa e o Ómega da mensagem bíblica do Filho do Homem. O elefante representa a velha e mítica ligação dos portugueses a Roma, de que a célebre embaixada do Rei D. Manuel ao Papa Leão X em 1514 é uma indelével referência, enquanto os lírios representam a simplicidade da vida. A leitura de «Elogio da Sede» (Quetzal, 2018) permitiu-nos compreender melhor a alegria e a disponibilidade pessoal com base no entendimento da sede como “bem-aventurança que nos salva”. «Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, asséticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança». Eis por que razão, o poeta nos põe de sobreaviso contra a indiferença, contra o encolher de ombros do relativismo. A liberdade religiosa e o encontro entre convicções obrigam a estarmos disponíveis para ouvir e para caminhar juntos, sendo capazes de nos colocarmos no lugar dos outros. Não pode haver diálogo na ignorância ou na suposição de que temos certezas acabadas e fechadas. Ao percorrermos as meditações, seguimos os capítulos, significativamente intitulados – Aprendizes do espanto, a ciência da sede, o perceber que se está sedento, a sede de nada que nos adoece, a sede de Jesus, as lágrimas que contam uma sede, o beber da própria sede, as formas do desejo, a escuta da sede das periferias, e a bem-aventurança da sede. Cada palavra, cada passo devem ser considerados, cultivando o tempo, a reflexão e a atenção. E se alguns põem em causa o facto de o Papa Francisco apelar às periferias, como se estivesse a esquecer as centralidades, a verdade é que a centralidade da dignidade humana só pode ser compreendida se entendermos os limites, as dificuldades, as angústias. Quantas vezes nos sentimos perdidos e abandonados – são esses os momentos fundamentais para que temos de nos prevenir perante o risco de cairmos e de estarmos fortes para nos levantarmos. Mas se estamos demasiado seguros e certos, há qualquer coisa que falta na fé e na esperança e que empobrece o amor. Oiçamos: «Perguntamo-nos muitas vezes o que é a misericórdia. E a misericórdia não cabe numa definição. Não se pode dizer: “A misericórdia é isto”. Precisamos de espelhos para compreender a misericórdia. Ela tem de encarnar-se para que a possamos tocar. Misericórdia é compaixão, misericórdia é bondade, misericórdia é perdão, misericórdia é colocar-se no lugar do outro, misericórdia é levar o outro aos ombros, misericórdia é reconciliação profunda. É tudo isso. Mas é isso realizado também com um determinado estilo, que é o estilo do pai da parábola de Jesus. Não há misericórdia sem dádiva, sem doação. Aquele filho trazia tantas feridas, manifestas e escondidas, e precisava de ser curado com o bálsamo da misericórdia». E se falamos de dádiva, temos de ter presente a ideia de troca – dou e dás, encontramo-nos afinal na generosidade. No fundo, “Deus ama a vida e não desiste dela”. De que vida nos fala? Do quotidiano inesperado, em que podemos descobrir o outro que nos procura. Nos caminhos insondáveis temos de ser aprendizes do espanto. “O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas”. Não, não estamos saciados – estamos sim cientes de uma sede que não se satisfaz imediatamente na nossa condição. Através do amor, do respeito e da dignidade vamo-nos saciando. Mas é a consciência dos limites que nos leva a entender que não estamos sós e que temos de estar atentos a quem nos chama, mesmo em silêncio… S. Paulo di-lo melhor que ninguém. A fé e a esperança passam. O amor e o cuidado ficam – e assim a sede é o desejo e o caminho para esse dia em que poderemos finalmente ver face a face… “Porque Deus não desiste de dizer a toda a vida – à nossa vida – que ela é querida e bem-aventurada. Essa é a sede de Deus”.

Um dia José Tolentino disse a Anabela Mota Ribeiro: «Detesto o moralismo. Penso que o moralismo falseia o encontro connosco próprios e com a humanidade. O que acontece aos outros acontece a cada um de nós. Dizia o cristianíssimo Dostoievski: “Somos responsáveis por tudo perante todos”. (…) A experiência do mal atravessa todas as vidas. Todos precisamos de ser salvos. (…) Somos mesquinhos, banais, egóticos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade. Gosto muito da Flannery O’Connor (dizia o poeta), que é para mim, ao lado do Pasolini, uma mestra espiritual. Ela mostra um mundo que se diria monstruoso. De assassinos em série. De gente capaz de tudo. “Esse mundo somos nós”. Até que acontece o encontro com a graça. É esse encontro que transforma a nossa vida. Penso que não se pode dividir [a humanidade] entre homens bons e homens maus. (…) Há a experiência do mal, que é comum a todos, que nos atravessa, corrói, domina em tantos momentos». Quem somos afinal? Quem são os sedentos que se encontram connosco na dúvida e na incerteza? O filho pródigo e o seu irmão ressentido somos nós. S. Pedro a negar três vezes somos, de facto, nós. S. Tomé incrédulo ainda somos nós, muito mais vezes do que julgamos. Graham Greene quando se converteu escolheu o nome de Tomé, exatamente porque sabia que a fé e a incerteza se completam – enquanto paradoxalmente Mauriac num grito algo provocatório lembrava às avessas do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus porque não me abandonaste”. E Santa Teresa de Jesus alertava para a ingenuidade de supor que “as almas às quais Nosso Senhor se comunica, de uma maneira que se julgaria privilegiada, estejam contudo, asseguradas nisso de tal modo que nunca mais tenham necessidade de temer ou de chorar os seus pecados».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

O ÍCONE DE UMA CHAIMITE NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

 

O texto que aí fica reproduz as palavras que proferi, na Assembleia da República, na passada Sexta-Feira, dia 4, na abertura da Exposição “Cinquenta Anos a Fazer P.Arte”, de António Colaço.

 

Estudante em Roma, fui à Basílica de São Pedro muitas, muitas vezes, só para ver a Pietà. De um bloco de mármore, Miguel Ângelo arrancou a Pietà, que nos comove, e, imóveis, olhamos e olhamos... e contemplamos... o que lá está: a dor, a compaixão de uma mãe com o filho morto nos braços, toda a ternura compassiva do mundo, e mais e mais... E nunca nos cansamos de olhar... Aquele mármore é sempre mais do que mármore... Foi transfigurado, transfigurou-se.

 

Em Amesterdão, contemplei as célebres Botas de van Gogh. Ninguém as pode calçar. Para que servem? Mas são as botas mais caras do mundo. O que está lá? Todos os caminhos dos homens e das mulheres... as suas dores e sofrimentos, os seus sonhos e esperanças... in-finitamente.

 

O artista, grávido de mundos, vê o que outros não vêem e ensina a ver o que se vê, sempre mais do aquilo que se vê. A arte é símbolo: uma presença que aponta para lá, sempre mais para lá, para uma ausência presente, para a transcendência... na coincidência.

 

Nestes “Cinquenta Anos de Arte” de António Colaço, o que há é todo o seu percurso de mostrar o que só o artista vê. Ele há uma terrina com furos e com máscaras: afinal, um escorredor de almas... Ofereceu-ma a mim, e eu vi a força de um confessionário, na sua força de salvação e alívio na reconciliação. Ele há uma oliveira que ardeu e que é um Cristo crucificado, a suplicar a libertação da tragédia dos incêndios... e tantas outras tragédias também. Ele há uma tigela, que é outra coisa..., também há tijolos... e isso tudo é símbolo de uma reconstrução de alguém que passa por um AVC...

 

Ele há..., ele há..., ele há 50 anos de António Colaço a fazer-se, fazendo arte com muitas artes, transfigurando, e ensinando a ver o que se vê, mas, distraídos, não vemos...

 

Tudo sob o ícone de uma Chaimite, agora desmilitarizada e obra de arte, símbolo da liberdade. Daí o nome da exposição: PALAVRIL (libertação da palavra em Abril). Na Assembleia da República, a Casa da Democracia. Daqui, em liberdade, se luta pela igualdade radical e pela fraternidade concreta. Um Evangelho: notícia boa e felicitante, como diz o étimo grego da palavra. A utopia, a realizar, de um mundo outro, um mundo outro possível e urgente...

 

Aqui chegados, impõe-se uma palavra sobre a relação complexa entre política, ética e estética.

 

Quando comparamos o ser humano e os outros animais, notamos que a linguagem duplamente articulada é característica decisiva dos humanos. Já no século XVIII, se deu essa compreensão, pois encontramos inclusivamente caricaturas com um missionário no meio da selva africana dizendo a um macaco: “Fala, e eu baptizo-te”. Se falasse, era humano. Evidentemente, esta fala refere-se ao que é próprio do ser humano: dupla articulação da linguagem.

 

Pela palavra, abrimo-nos ao mundo e o mundo abre-se a nós. Falando, damos razão disto ou daquilo, argumentamos, comprometemo-nos, formamos comunidade. Sendo a razão humana linguisticizada, só podemos compreender-nos a nós próprios em corpo, com outros e na História.

 

O Homem, pelo facto de ser “zôon lógon échon”, animal que tem logos (razão e linguagem), é também “zôon politikón”, animal social, político, diferentemente do animal, que é gregário, e a razão disso é a palavra, como bem viu Aristóteles, na Política: “A razão de o homem ser um ser social, mais do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário, é clara. Só o homem, entre os animais, possui a palavra”. E continua: “A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos face aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a cidade”.

 

A linguagem humana não se reduz à expressão emotiva do prazer e do desprazer. É capaz de fazer juízos morais, de distinguir o bem e o mal, o justo e o injusto, partilhar e debater publicamente estas apreciações. Deste modo, a linguagem está na base da ética e funda eticamente a pólis (a cidade, no sentido da vida política).

 

Que é que isto quer dizer? A política tem de assentar em valores, valores éticos e espera-se que os políticos sejam éticos. Mas, precisamente aqui, começa o paradoxo. Se fôssemos todos éticos, moralmente bons, não era necessária a política. Mas não somos. Então, precisamos de política? Claro. Mas, em última análise, precisamos da política no sentido estrito, que implica o Estado enquanto organização política da sociedade, detendo ele, o Estado, o monopólio da violência, porque não somos éticos. Se todos fossem éticos, no quadro do cada um fazer-se bem moralmente a si próprio, prestando contas de si e das contas, não seria necessária a política, que ficava reduzida à administração das coisas. As leis seriam justas e todos as cumpririam. Só porque somos egoístas, interesseiros, corruptos e corruptores, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir os conflitos. Como escreve o filósofo A. Comte-Sponville, se a moral reinasse, não teríamos necessidade de polícia, de tribunais, de forças armadas, de prisões.

 

Assim, a política não existe directamente para a ética. Mas ai de nós, sem uma conversão ética! Urgência maior é a formação ética, moral, para os valores, que não são redutíveis ao valor do Dinheiro divinizado. Sem valores éticos assumidos, remeteremos constantemente para a política, para as leis, para a regulação, para os tribunais, para as prisões... Então, só fica a lei (e aqui há ainda a questão de legislar em causa própria) e a sua sanção, no limite, um Estado totalitário e tirânico, mesmo que sob a aparência de democracia. Ora, não é possível legislar sobre tudo e, sobretudo, acabaria por ser necessário pôr um polícia junto de cada cidadão, para que cumpra a lei; como os polícias também são humanos, seria preciso pôr um polícia junto de cada polícia e assim sucessivamente... Juvenal disse: “Custos custodit nos. Quis custodiet ipsos custodes?”. "A guarda guarda-nos. Quem guardará a guarda?"

 

Significativamente, o Evangelho, notícia boa e felicitante, quando Jesus ordena: “Fazei obras boas”, no original grego está: kalá érga, obras belas. Cá está o elo entre a estética e a ética. Mesmo os pais ou os bons educadores, quando querem chamar a atenção para o bem, criticando qualquer coisa que não é moralmente boa os educandos fazerem, não dizem: “Não faças isso, porque é mal”. Dizem antes: “Não faças isso, não é bonito, é feio”.

 

Na conexão entre ética e estética, a Assembleia da República fez bem ter trazido para dentro dela a Exposição Cinquenta Anos de Arte, PALAVRIL, de António Colaço. Foi uma boa decisão, é bem, uma excelente decisão, bela decisão. António Colaço, “místico” (Jaime Gama dixit), ensina-nos a ver o que se vê e, assim, torna-nos melhores.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 7 ABR 2019

 

A ARTE NEM PODE, NEM ANTÍPODE

 

A fúria com que, em “Red River”, Montgomery Clift e John Wayne esmurram as ventas um do outro não é de esquerda nem de direita. Os murros deles não são políticos. Nem é político o rabo de Marilyn Monroe, que em curtas cenas de 20 segundos, desreprimiu o recalcado baixo-ventre do cinema, a cores em “Gentlemen Prefer Blondes” e a preto e branco em “Some Like It Hot”, por obra e graça do bom olho de Hawks e de Wilder.

 

Filmes, poemas, romances, pintura, mesmo a do comunista Picasso, não são políticos. Não me venham dizer que a poesia é anti-poder ou pró-poder. O poeta pode ser fascista ou comunista. Maiakovski ou o dúbio Aragon eram comunistas, Ezra Pound era fascista e T. S. Eliot talvez andasse lá perto; o pluralíssimo Pessoa, se alguma coisa fosse, era de direita, e o queixinhas Ginsberg uivava parvamente à realidade. Mas se ainda os lemos como poetas é porque a poesia deles continua a transfigurar a modesta realidade política que na vida os entretinha.

 

Camões cantou o Gama em “Os Lusíadas”, mas um só olho de Camões criou em dez cantos um herói que o real e cruel Vasco da Gama, ocupado com a canela e a pimenta, não reconheceria. Como não reconheceria o Gama que Robert De Niro teria sido se algum desmiolado estúdio americano tivesse decidido pagar a Samuel Fuller o filme com que o cineasta americano queria incensar o navegador português.

 

Poemas, filmes e romances seriam muito pequeninos se reduzidos à deslavada ideia de serem anti-poder. Nem há mal intrínseco em haver poder, afinal uma humaníssima e necessária realidade. E os males que escorram do exercício do poder são para se lavar na cama real da política. Mas as traições e as conspirações de Shakespeare, as bruxas de Macbeth e o fantasma de Hamlet, o arrebatado discurso de Marlon Brando com o cadáver de Júlio César aos seus pés, já são da matéria dos sonhos.

 

A beleza de poemas e filmes, de canções e pintura está na sua esplendorosa inutilidade. A grandeza das artes está na individualíssima convulsão que precisam de nos provocar se quiserem ser arte: uma convulsão íntima, vergonhosamente espiritual e libidinosa. Os nossos melhores cantores de intervenção, no PREC, quiseram servir uma forma dita utópica de poder. “E se eles ganharem?” perguntou um amigo meu a um desses cantautores, que era genuíno e grande. “Bom – disse ele –, temos de ser os primeiros a fugir.”

 

A Winchester de John Wayne, a voz e a guitarra da canção não são armas de serventia. Seja do poder, seja do antipoder.

 

Manuel S. Fonseca

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

John Ruskin - Arte, Trabalho e Sociedade. (Parte 2)

 

'...go forth again to gaze upon the old cathedral front, where you have smiled so often at the fantastic ignorance of the old sculptors: examine once more those ugly goblins and formless monsters and stern statues, anatomiless and rigid; but do not mock at them, for they are signs of the life and liberty of every workman who struck the stone; a freedom of thought, and rank in scale of being, such as no laws, no charters, no charities can secure; but which it must be the first aim of all Europe at this day to regain for her children.', John Ruskin In 'The Nature of Gothic'

 

John Ruskin acreditava que a catedral gótica era a representação mais completa da sociedade medieval. 

 

Para Ruskin, a arte deveria ser uma apreensão visual do universo criador. O artista era por isso, uma revelação, uma demonstração da infinita criação divina. A arquitetura tem a capacidade de revelar o espírito, a moral e tudo o que precisamos de saber sobre uma determinada sociedade.

 

A sociedade da idade média é uma sociedade cristã e o gótico é uma forma impregnadamente cristã.

 

'It is not enough that it has the Form, if it have not also the power and life. It is not enough that it has the Power, if it have not the form.', John Ruskin In 'The Nature of Gothic'

 

A arquitetura gótica era muito admirada, por Ruskin, pela sua imperfeição, mistura e impureza expressiva. Aí, o trabalho manual do indivíduo estava completamente comprometido e envolvido somente com o material.

 

Para Ruskin, os elementos característicos que mais admirava  no gótico eram: a rudeza e a incorrecção; o amor pela alteração; o amor pela natureza; a imaginação confusa; a severidade e a obstinação; o excesso e a redudância; a mistura das partes e a união do todo.

 

Ora, Ruskin acreditava que o gótico era um indício da autonomia da expressão individual - mas lembrava sempre que nada era feito para satisfazer um prazer puramente pessoal, porque todos os indivíduos contríbuiam à sua maneira para uma expressividade e uma intenção muito maior, despoletado pelo amor a Deus. 

 

Na arquitetura gótica não existia um desejo de controlo, não existia  a imposição de uma ordem. O gótico era uma tentativa de trabalhar com a irregularidade e a com as capacidades especifícas de cada indivíduo e por isso com as formas mais naturais. E para Ruskin, toda a sociedade que substitui as formas naturais pelas formas áridas e  excessivamente regulares é uma sociedade que precisa de reforma. Na opinião de Ruskin, a sociedade do gótico, ao ter sérios propósitos espirituais, ansiava ser verdadeiramente ligada à natureza. 

 

A superioridade de uma civilização não pode estar relacionada com um ideal de beleza mas sim deve sobretudo transparecer o profundo espírito individual e livre que está por detrás de cada criação, por mais insignificante que seja. O artista/artesão mais verdadeiro não é uma máquina que repete com precisão os seus gestos. A sociedade mais próspera é aquela que aceita as imperfeições e as irregularidades de todos os indivíduos, sem excepção. E por isso Ruskin, pensava que a arquitetura gótica transparecia sempre o prazer de fazer, de executar e de projetar - reflectia constantemente o valor especifíco de cada espírito.

 

'You must either make a tool of the creature, or a man of him. You cannot make both. Men were not intended to work with the accuracy of tools, to be precise and perfect in all their actions. (...) If you will make a man of the working creature, you cannot make a tool. Let him but begin to imagine, to think, to try to do anything worth doing; and the engine-turned precision is lost at once.', John Ruskin In 'The Nature of Gothic'

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

John Ruskin - Arte, Trabalho e Sociedade. (Parte 1)

 

'But now having no true business, we pour our whole-masculine energy into the false business of money-making; and having no true emotion, we must have false emotions dressed up for us to play with, not innocently, as children with dolls, but guiltly and darkly.', John Ruskin

 

Ao experienciar constantemente beleza no mundo, somos ensinados a ver a vida na sua mais pura verdade.

 

O pensamento de John Ruskin (1819-1900) transporta a ideia de que a arte não tem qualquer relação com o intelecto ou com o conhecimento. Apresenta sim uma incessante busca pelo sagrado e pela verdade das coisas que demonstram a simultaneidade de Deus e da Natureza. Ruskin acreditava que a educação do gosto poderia influenciar a formação de um carácter. Debatia-se a favor do constante encantamento e glorificação pelo mundo. 

 

Ruskin acreditava no uso da técnica pura, sem artifícios nem seduções, quase como uma prática religiosa, que implicava o retorno a uma condição social e a um ofício humilde e cuidadoso, que poderia trazer o contentamento puro. O artista já não é apenas um visionário isolado do mundo, mas um homem em polémica com a sociedade. O artista gostaria agora de afirmar a solidariedade como sendo o empenho primordial de todos os povos e todos os seres humanos. Cada linha, cada risco desenhado por este novo artista, se verdadeira, deverá ser intensa, inteira e decisiva, contendo todas as intenções possíveis. Ruskin reconhecia o trabalho automático da máquina como sendo o possível libertador do trabalho repetitivo e monótono. 

 

'Fine Art is that in which the hand, the head, and the heart of man go together.', J. Ruskin

 

Ruskin protestava contra a busca exclusiva do lucro na era da Revolução Industrial, contra a exploração do homem pelo homem, assumindo assim uma postura política claramente socialista. Para Ruskin, uma sociedade baseada no tratamento desigual e indiferente em relação às pessoas e ao meio ambiente é alheia à beleza.

 

'When men are rightly occupied, their amusement grows out of their work, as the colour-petals out of a fruitful flower - when they are faithfully helpful and compassionate, all their emotions become steady, deep, perpetual and vivifying to the soul as the natural pulse to the body.', J. Ruskin

 

Ana Ruepp

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

18. A ARTE É DA HUMANIDADE

 

Se uma obra de arte vale por si e é um fim em si mesmo.
Se vale pela sua autenticidade, intemporalidade, originalidade e universalidade.
Se vale pela sua meritocracia e valor intrínseco.
Partilhando critérios de cultura pura, ausentes de consentimento e validação externa, em prejuízo de critérios de cultura para, funcionalizados por motivos partidários, políticos ou ideológicos.
Quer copiando ou imitando a vida, ultrapassando-a ou transcendendo-a.
Então a arte não é do centro, da direita ou da esquerda.
Não é, nem pode ser, propriedade da direita, da esquerda ou do centro.
Não é politicamente apropriável.
Não é um exclusivo de alguém.   
Nem monopólio de ninguém. 
É da humanidade.
Propriedade e património perene da humanidade. 
De toda a humanidade.     
Na unidade através da diversidade. 
Em que o acesso à sua fruição cultural e espiritual é um bem de todos.

 

13.11.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A FORÇA DO ATO CRIADOR

Os Adaptativos de Franz West.jpg

 

   Os 'Adaptativos' de Franz West. 

 

'I like the idea that in picking up one of the 'Adaptives' there is a moment of not knowing what to do next, a moment of not knowing what to do with the audience. You make unplanned actions and gestures with the audience looking at you, and you wonder what you are doing with this. So the gestures become a little like art.', Franz West, 2007

 

A obra de Franz West (1947-2012), desde cedo, pôs em causa algumas das regras aparentemente estabelecidas no mundo da arte. Franz West assume-se como um artista anti-herói e anti-génio, um homem banal com qualidades e defeitos. As suas esculturas são matéricas e são feitas para serem tocadas - e esta premissa foi até bastante radical num meio artístico dominado pela arte conceptual. E a existência de um significado absoluto na obra (que o espectador tem de perceber para conseguir apreender a obra) deixa de fazer sentido para West. 

Cada peça da sua obra é um começo de um diálogo - não só mental, mas também físico (por vezes, uma conversa de corpo para corpo). Acima de tudo, o significado de cada escultura, só se completa e só se revela através da interação com cada indivíduo, que interage de maneira sempre diferente com a obra.

 

Ora, os 'Adaptativos', objetos criados a partir de meados dos anos 1970, feitos de pasta branca, são a génese da prática de Franz West. É uma arte em ação que exige do espectador, o seu físico e a sua interpretação. Não são objetos puros e limpos - porque ao serem usados sujam-se facilmente - e aparecem segundo várias formas e tamanhos. Os objetos parecem-se com bengalas ou tacos de golf; instrumento de música ou instrumentos médicos, alguns assemelham-se até com partes do corpo humano. O seu tamanho, apesar de variado, permite sempre a manipulação por parte do espectador. No início, não havia instruções de como manipular estes adaptativos - que aparecem encostado às paredes ou perdidos nos cantos. No início, alguns eram até pesados e difíceis de manobrar, sem uma clara orientação. Eram feitos de coisas que West encontrava nas drogarias, inspirados talvez nos moldes do consultório da sua mãe dentista ou talvez estejam relacionados com os objetos bizarros ('desencadeadores psicológicos') usados pelos Acionistas Vienenses, nas suas performances.

Na verdade, os adaptativos revelam nada a não ser quando usados. São em certa medida objetos genuínos, autênticos com uma identidade muito própria.  

Existe neles um desejo intrínseco em sublinhar o gesto, o comportamento do espectador perante o desconhecido. Para Franz West, qualquer comportamento, por mais pequeno ou insignificante que seja, determina a maneira de como o ser humano vê o mundo. E na maior parte das vezes o ser humano só consegue tocar nas verdades do mundo através de objetos/instrumentos.

Os adaptativos têm essa intenção de, sobretudo se adaptarem ou serem adaptados ao corpo humano. E à medida do tempo, West foi descobrindo que estes objetos eram um exercício mental, tal como um exercício físico - antes demais, o espectador (antes de adaptar o objeto ao seu corpo) tinha de compreender e imaginar o que fazer com ele, atribuir-lhe um propósito, um significado, um potencial. O resultado deste exercício é portanto muito individual. É uma experiência exclusiva de quem manipula o adaptativo e o reveste de um propósito particular. É uma experiência que pode nunca acontecer, porque depende exclusivamente da vontade, da disposição e do carácter do espectador em querer ou não interagir com aquele objeto. Os adaptativos tornam-se assim como que meios de expressão ativa e subjetiva, do artista e do espectador em simultâneo. São veículos físicos, de superfícies irregulares e rugosas, feitos para serem sentidos, tocados e por isso tornam-se objetos concretos humanizados.

A revelação da experiência individual sobre determinado objeto tocado ou visto tornou-se, ao longo do tempo a questão fundamental da obra de Franz West. 

 

'At the beginning, nobody interacted with them. It was the biggest disappointment. At my first exhibition only children picked them up - and smashed them into the walls. In a way to get around this untouchability and awe, I began to make the tables and chairs. (...) Instead of using the Adaptives, you just sit around, talk and think. Like putting a dream on Earth. The Adaptives would be the dream and the chairs and tables would be the Earth.', Franz West, 2007

 

 

Ana Ruepp

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

CNC - a força do ato criador.jpg

 

  Acerca da pintura moderna, segundo Picasso.

  

'Yo digo las cosas de la forma en que siento que deben ser dichas.', Picasso

 

Para Picasso, os factos (aquilo que se encontra ao pintar) são muito mais importantes do que as intenções. O pintor não procura, encontra.

 

Segundo Picasso, a arte é uma farsa que permite ao homem entender a verdade. Por isso, o pintor deve ser capaz de convencer os outros acerca da verosimilhança das suas mentiras. Uma pintura perder-se-á se mostrar somente o que o pintor procura ou investiga: 'Perhaps this has been the principal fault of modern art. The spirit of research has poisoned those who have not fully understood all the positive and conclusive elements in modern art and has made them attempt to paint the invisible and, therefore, the unpaintable.', Picasso

 

A pintura moderna não é uma oposição ao naturalismo. A natureza e a arte são duas entidades muito diferentes. Através da arte o pintor esclarece o que é não natureza. Através da arte o pintor revela sobretudo o seu modo, único e singular de ver. Para Picasso, não existem formas concretas ou abstractas, existem sim formas mais ou menos convincentes.

 

'That those lies are necessary to our mental selves is beyond any doubt, as it is through them that we form our aesthetic point of view of life.', Picasso

 

Segundo Picasso, em arte não há evolução. Não há passado nem futuro. Uma obra deve conseguir viver sempre no presente. 

 

A arte não evolui, as ideias mudam e assim como os seus modos de expressão. Porque para Picasso, é o fluxo emergente e contínuo das ideias e do fazer que determina a existência de uma multiplicidade e variedade de formas, necessárias para o criador se expressar ao longo da sua vida. Variação não significa evolução. Variação é um modo diferente de expressão que revela uma maneira nova de pensar. A essência de alguns temas também sugere modos de expressão específicos. Diferentes motivos requerem determinados métodos para se manifestarem. E isso não implica evolução ou progresso, significa simplesmente a adaptação da ideia ao modo de expressão.

 

'For several manners I have used in my art must not be considered as an evolution, or as steps toward an unknown idea of painting. All I have ever made was made for the present and with the hope that it will always remain in the present.', Picasso

 

Ana Ruepp

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 27 de agosto a 2 de setembro de 2018

 

«Jornal do Observador» de Vitorino Nemésio (Verbo, 1974) é um repositório de crónicas do romancista, poeta e ensaísta onde o tema da cultura portuguesa é recorrente - considerado como um fecundo ponto de encontro de influências diversas, onde o humanismo universalista está bem evidenciado.

 

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CULTURA COMO COMPREENSÃO

De que falamos na História da Cultura? De continuidades e de mudanças, de características singulares e de convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não se trata de seguir os acontecimentos, mas de compreender as perspetivas sincrónica e diacrónica. No ensino da Cultura Portuguesa, António Manuel Machado Pires recorda, por isso, a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: «E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?» O mesmo se diga quanto ao paralelo ou correspondência entre um anjo bochechudo e corado de um retábulo seiscentista e a vivência do barroco, considerando a imagem nobre simbólico-poética de Pégaso, o cavaleiro medieval ou a ética da cavalaria até… ao cavaleiro tauromáquico português estilo Luís XV. «Não é tudo a cultura simbolicamente aduzida pela imagem do cavalo? Não era Nemésio o autor dos poemas de O Cavalo Encantado?». Nesta afirmação há uma ideia de cultura como diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e aquilo que se pretende ver e entender numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada – Varanda de Pilatos, mas também varanda donde se presencia o cortejo. E Hernâni Cidade, António José Saraiva, Jorge Dias, Orlando Ribeiro, Joel Serrão, José-Augusto França foram exemplos de perscrutadores de pistas culturais entre a intuição e a inteligência, a erudição e a capacidade de entender o “mundo da vida” – porque, no fundo, refletir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva.

 

VARANDAS SOBRE A REALIDADE

Lembre-se, por exemplo, o picaresco e dramático em Fernão Mendes Pinto: “não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga coletiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar lição do tudo e nada da Vida”. Eis por que razão a perspetiva da Literatura ou da Arte são excelentes varandas para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a lógica de um poder ou do que a mera ostentação de um saber. E mesmo que o autor tenha autoridade (como nos casos de D. Dinis ou D. Duarte) a verdade é que comunica não pelo império, mas pela palavra e pelo sentimento. Assim, não compreenderemos o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério) ou Cesário (a contradição dos sentimentos), João de Deus, Antero, Nemésio, Aquilino, Torga… Mas há outras dimensões a não esquecer absolutamente: a geografia de Orlando Ribeiro, as origens históricas, como em Damião Peres ou José Mattoso, as raízes mais remotas em Teófilo Braga e José Leite de Vasconcelos…

 

DUAS LINHAS DE PENSAMENTO

Concordo com Nemésio e Machado Pires quando falam de duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas têm de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na definição do “ser de Portugal”. A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par (como na análise de A. J. Saraiva) articulam-se com a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no “Portugal Contemporâneo”), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Mas temos de recusar as simplificações e a tentação de levar a História da Cultura para uma sucessão de factos ou acontecimentos. Daí termos de perscrutar tendências, de suscitar criticamente essas leituras, de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa.

«“Cultura” não é um “somatório” heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas, carreando um considerável conjunto de materiais para “forçar” a prova». No caso de Nemésio, este falava ao sabor da memória, “se bem me lembro”, usando as palavras como as cerejas, mas havia sempre um fio condutor, um fito, um meio de prova. O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos. O fim do século, a transição, a análise da crise política, económica e social, Antero de Quental, Eça de Queirós, Carlos Fradique Mendes (extraordinário heterónimo coletivo de uma geração, que encontramos no diálogo tenso entre Carlos e João da Ega), Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Bernardino Machado devem ocupar o pensamento e a procura, num verdadeiro apelo a Jano, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro.

 

UMA PERSPETIVA CONVERGENTE

A Cultura é “uma perspetiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. Por exemplo, ao analisar as “raízes etnogénicas do Povo Português” no pensamento de Oliveira Martins, para quem a nossa identidade provém não só da vontade enfatizada por Herculano, mas também do fundo céltico, com o peso inerente do messianismo. E eis um paradoxo, “se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino. Transporta a Moïra grega para o drama da causalidade histórica”. E, chamando a atenção para o percurso de vida do historiador oitocentista, fala do pessimismo das suas análises, em contraste com o seu compromisso cívico: “foi, no entanto, também ministro da Fazenda, preconizando a criação de riqueza agrícola, do fomento rural, o aproveitamento das águas públicas, o repovoamento florestal, a nacionalização dos transportes, promulgando mesmo, nos poucos meses do seu governo, a reorganização das Alfandegas e da Fazenda, talvez acreditando ainda, como nos longínquos anos de 1868, no universalismo das comunicações, na grande federação dos homens livres, na imprensa, na locomotiva, na eletricidade, na felicidade pelo Progresso Científico”. Ou seja, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e em que o desastre parecia anunciar-se, com o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, o desprestígio das instituições, Oliveira Martins não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, claramente demarcado de um qualquer fatalismo: “vemos como o seu amor à Pátria, à História e à dignidade do homem social nunca o abandonou e define com grandeza uma obra vasta e diversa que termina significativamente numa trilogia patriótica e na busca de arquétipos da excelência portuguesa”. Ao contrário das considerações superficiais sobre a Geração de 70, Machado Pires sempre procurou demonstrar o carácter complexo do seu pensamento e do seu magistério, a atitude crítica positiva orientada num sentido emancipador, a coerência fundamental, centrada nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, bem como à criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 20 a 26 de agosto de 2018

 

Joaquim Sapinho foi convidado para revisitar as reservas do Museu Gulbenkian para dar a sua leitura da coleção.

 

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PERANTE A INTERROGAÇÃO DO TEMPO

Perante o relógio de bolso, desenhado por René Lalique, que Calouste Gulbenkian usava quando morreu, na sua caixa original, tomamos consciência do escrúpulo do colecionador em muito mais do que uma galeria de curiosidades. É o génio de um homem multifacetado e apaixonado pelo mundo e pela humanidade que encontramos – e aquele relógio é símbolo do tempo, o grande mistério da vida humana. Joaquim Sapinho é um cineasta de créditos firmados. A sua paixão pelos museus e pelas coleções levou-o a ser convidado para uma leitura pessoal sobre as reservas de um Museu especial e sobre o fabuloso percurso de Calouste Sarkis Gulbenkian, ao longo de uma vida, que lhe permitiu reunir uma das mais importantes coleções de arte do mundo. E o certo é que essa coleção constituiu para Sapinho desde muito cedo uma referência – “era o museu da minha infância, um modelo de museu para a minha vida inteira”. E assim imaginou uma intervenção que partiu de um mergulho nas suas memórias antigas, sentindo-se de novo criança ao entrar nas reservas da coleção, como se regressasse à leitura de “Tintin e os Charutos do Faraó”. E assim encontrou notícias incríveis de outros espaços com ramificações infinitas, colocando-se na pele do colecionador apaixonado. Partindo das moedas de ouro gregas, revela-nos como Calouste Gulbenkian mandou fazer uma caixa e depois encomendou à casa Louis Vuitton um estojo para transportar esse precioso tesouro. E é a ideia de viagem que o homem da imagem quis apresentar como paradigma do Museu. Mas não há apenas a viagem física, há igualmente a viagem no tempo e no espaço. “Eu parado com uma obra, viajo. Ao olhar para as moedas, imagino Gulbenkian a brincar com elas e a dar a mão a alguém na Grécia Antiga ou em Siracusa”. Os cadernos, as listas, as contas, os pequenos objetos, tudo identifica uma personalidade de exceção – capaz de aliar a formação científica e técnica, o sentido do negócio e a sensibilidade artística. Quando se fala de Património Cultural, aí está a capacidade de compreender um nexo de continuidade, em que cada nova geração vai acrescentar valor ao que recebeu, em conhecimento e em cuidado. E lembramo-nos de Mortimer, de E. P. Jacobs, no Cronoscafo, a máquina de “Armadilha Diabólica”, que permitia viajar no tempo, como em H. G. Wells, apesar de alguns pequenos e perturbadores enganos de percurso e de época. Joaquim Sapinho usou de um grande rigor nessa viagem no tempo – começando com as imagens captadas pela Pathé Filmes em 1928 na inauguração da capela de S. Sarkis em Londres, que Gulbenkian mandou construir em memória de seus pais. Só compreendemos o tempo através da memória.

 

COMO O TÚMULO DE UM FARAÓ

“As reservas deste museu são como o túmulo de um faraó – cheias de tesouros, mas também de objetos pessoais que nos ajudam a compreender como viveu, que mundo era o seu, em que é que acreditava” – esclarece o curador (Público, 20.7.18). Ao depararmos com a imagem do século XVIII que representa Eneias a fugir de Tróia, depois da vitória dos gregos, apercebemo-nos de que o herói transporta com ele Anquises, que carrega os deuses do lar em pequenas esculturas. Joaquim Sapinho dá um especial sentido a esta presença. Não é só a essência da noção de património que está em causa, o serviço (múnus) relativamente aos nossos pais (patres), mas também a experiência de cada um, ora para Gulbenkian na capela de Londres, ora para o próprio cineasta na lembrança pessoal do seu próprio pai (com quem começou, aliás, a nossa amizade). Gulbenkian é como Eneias e os deuses que Anquises transporta representam a extraordinária coleção que está em Portugal, ao serviço do mundo. De facto o Museu em Lisboa foi uma opção do próprio fundador para que o usufruto da magnífica coleção não passasse despercebida, integrada em qualquer outro grande museu. E o que agora se mostra é uma excecional câmara de maravilhas – que constitui um convite à viagem, desde a Anatólia, como Eneias, até à criação de um lugar de chegada, que pudesse ser um apelo contante à partida, pelo conhecimento e pela compreensão das diferenças. Lisboa não é um acaso, é um lugar de partidas para o mundo e a cidade simétrica de Bizâncio. Gulbenkian sentiu isso e Azeredo Perdigão soube interpretá-lo muito bem. Quem não compreender isso perde o essencial. As peças são múltiplas e fascinantes: a lista do que se encontrava na secretária do quarto da avenue d’Iéna, 51 toca-nos. E há tudo o mais: as fotografias do avô e do pai, os passaportes e vistos diplomáticos (um em especial ilustra o desencontro com o Reino Unido), a placa da Chancelaria da Legação Imperial do Irão, um pequeno pássaro embalsamado, um tapete de oração otomano, moedas de Constantinopla, o precioso fragmento de um livro de horas do século XV (uma nota muito especial de espiritualidade), desenhos de Fragonard, panejamentos que pertenceram a Maria Antonieta… Veja-se, aliás, a carta que Gulbenkian envia a John Walker, conservador da National Gallery de Washington. Estamos perante a cabal demonstração de que o atual Museu realiza o desígnio do colecionador, encarando as obras da sua coleção como “filhas”, que não deveriam perder a sua identidade e companhia, não se misturando num grande museu ou não ficando separadas entre si e do público. O fundador deseja que o seu Museu seja vivo, tenha pessoas e seja um fator de encontro de civilizações e cultura.

 

SÓ O MELHOR!

O exercício agora feito por Joaquim Sapinho completa um longo caminho de estudos e investigações. Como não tinha sido feito antes, vai-se ao encontro de Calouste Sarkis Gulbenkian não apenas como genial homem de negócios ou como colecionar ímpar, mas como representante de um diálogo entre culturas e espiritualidades que na cidade de Lisboa sentiu de outro modo a magia de Istambul. Recordo bem, como Orhan Pamuk me disse maravilhado na Biblioteca de Arte da Gulbenkian que tinha visto aí originais sobre a cidade do Bósforo que antes não vira no seu esplendor. A cada passo, sentimos a tentativa de construir a casa ideal. Mas a perfeição é impossível. Calouste diz à mulher: “Prometi-te um palácio, não te prometi a felicidade”… Eis o que sentimos neste exercício de espanto. Procuramos o homem insatisfeito, mas nunca desistente. Por isso, vamos descobrindo a outra face do génio, que deseja legar à posteridade a demonstração de que uma sociedade melhor é possível. Se dizia aos seus colaboradores que só queria o melhor (“Only the best!), fazia-o projetando um futuro em que a felicidade pudesse ser conquistada com passos persistentes. Daí os quatro cavalos que constituem o símbolo da Fundação Gulbenkian: Arte, Educação, Ciência e Beneficência. Trata-se de um nómada muito especial. Quando parte de Constantinopla para o mundo não esquece que a viagem é um modo de encontrar os outros e de se encontrar a si próprio. Joaquim Sapinho compreendeu-o bem, exigindo que prossigamos na capacidade de perceber melhor a importância do homem e da instituição que criou e de um sentido aberto e cosmopolita apaixonante…   

 

 

 Guilherme d'Oliveira Martins