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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

OS CEM ANOS DE UM AMIGO…


Hercule Poirot é um velho amigo que agora celebra cem anos. Encontramo-nos amiúde. Chegou a Portugal em 1950 pela mão da Editora Civilização. Nasceu, graças a Agatha Christie (1890-1976) em 1920, no livro The Mysterious Affair at Styles. «Certa manhã, em Styles Court, no Essex, numa mansão rural, os seus habitantes despertam com a descoberta de que a proprietária, a Emily Inglethorp, morreu. Foi envenenada com estricnina. Arthur Hastings, um militar da frente ocidental da Primeira Grande Guerra está em convalescença e aventura-se até St. Mary, aldeia vizinha de Styles, para perguntar ao seu amigo Poirot como se pode saber sobre o que realmente se passou.  Hercule Poirot descobre que Emily era uma mulher rica – que herdou do seu anterior marido, Mr. Cavendish a mansão onde vivia e uma grande parte de sua renda. Sua família inclui: o último marido Alfred Inglethorp, um homem mais novo com quem se casou recentemente e os enteados, filhos do primeiro marido John e Lawrence Cavendish… A partir daqui segue uma trama complexa, que Poirot vai desvendar. De nacionalidade belga, Poirot é uma personagem extravagante, nada modesto, que está sempre a gabar-se sobre a forma como usa as suas preciosas células cinzentas. “O procedimento de Hercule Poirot é muito próprio: ordem e método e um pouco de células cinzentas…”  Possui um belo bigode que é o que melhor o identifica, e tem sempre uma aparência elegante e impecável. O seu nome é deliberadamente absurdo, pois Hercule relembra o herói clássico, dos doze trabalhos, apesar de ser um homem pequeno. O sobrenome Poirot tem origem em poireau , que em francês significa alho-porro ou verruga. Singularidades? Tem a altura de um metro e sessenta e dois; a cabeça, do formato de um ovo, ligeiramente inclinada para um lado; olhos de um verde brilhante quando excitado; espesso bigode hirsuto como costumam usar os oficiais do Exército; uma pose de grande dignidade; e uma bela bengala."  Apesar de sofisticado, chega em certos momentos, a ser rabugento. Mas essa alteração de humor constitui um modo de melhor se aperceber das reações dos interlocutores e dos suspeitos. Costuma insistir ao seu amigo Hastings que: "o crime de sonho deve ser realizado com ordem e método" (sempre a mesma ideia) e acredita que "se houvesse um criminoso perfeito, seria impossível, incluindo o próprio Hercule Poirot, descobrir o verdadeiro culpado". Qualquer assassino pode ser provavelmente um bom amigo, por isso não devemos misturar sentimento e razão. Ao contrário dos outros grandes detetives da Scotland Yard, Poirot diz que pode resolver um crime estando "apenas sentado na sua poltrona". E compara os seus colegas corriqueiros e comuns a verdadeiros "cães de caça", uma vez que apenas usam as pequenas pistas no chão, as pegadas e as impressões digitais; enquanto Poirot usa, como único meio verosímil, a psicologia humana. Não é um detetive de ação, mas fundamentalmente dedutivo. Para resolver seus enigmas prefere interrogar os envolvidos. Todavia, muitas vezes, precisa de fazer investigações, digamos, de polícia criminal, a pedido de Hastings ou por extrema necessidade. Poirot fala sempre dele próprio na terceira pessoa do singular, e afirma que a mente humana não tem originalidade, pois quando um criminoso comete um crime, o seu método psicológico é sempre o mesmo. Por isso cultiva a tarefa de "conhecer a natureza humana". Vive na Farraway Street, 14, em Florin Court, nas Whitehaven Mansions. Para evitar a sobrevivência da personagem depois de sua morte, Agatha Christie decidiu matar Poirot num romance escrito em inícios da década de 40, em plena Guerra, que, segundo ordens expressas suas, só deveria ser publicado quando a autora considerasse chegado o seu fim. Por essa razão, Curtain, Cai o pano somente foi lançado em 1975. A ação começa com Poirot doente e sua morte fecha a trama. Havia que fechar o círculo em glória. Afinal, como afirma em A Morte no Nilo, não é o passado que importa, mas o futuro. E ainda gostava de dizer, com enorme sabedoria: “Se quiser dar a Poirot um pequeno conselho sábio: deve insistir que a vingança raramente é uma boa ideia”…  Apesar da preocupação de Agatha Christie, Sophie Hannah, fez um livro, Os Crimes do Monograma, em 2014, com a autorização da família de Agatha Christie, em torno da fascinante personalidade do pequeno Hercule, publicando em 2016 um segundo livro Closed Casket com Poirot. Mas nada pode comparar-se ao verdadeiro. E não será que Christie, não seria a mesma sem a fantástica inteligência e versatilidade de Hercule Poirot, que só não é o mais célebre dos belgas, porque ombreia com o universo de Tintin… Querido Hercule, sei bem que concordas comigo. Numa invocação do teu espírito numa animada sessão com mesa de pé de galo, tu me confessaste que passas o teu tempo a ler entre a Comédia de Dante e as aventuras de Tintin… Mas oiçamos ainda Agatha Mary Clarissa Miller Christie: «Por que não seria belga o meu detetive? Deixei que crescesse como personagem. Deveria ter sido inspetor, de modo a poder ter certos conhecimentos sobre crimes. Seria meticuloso, ordenado, pensei com meus botões, enquanto arrumava meu quarto. Um homenzinho bem ordeiro. Parecia-me até que o via, um homem muito alinhado, sempre cuidando de colocar tudo no devido lugar, amante dos objetos aos pares, das coisas quadradas, e não redondas. . E seria muito inteligente — teria muitas células cinzentas —, essa era uma boa frase, devia recordá-la: ele possuiria não poucas células de matéria cinzenta. Seu nome seria espetacular — um desses nomes como existiam na família de Sherlock Holmes. Como era mesmo o nome do irmão dele? Mycroft Holmes! E se chamasse ao meu homenzinho Hercules? Ele seria um homem baixo — Hercules seria mesmo um bom nome. Seu sobrenome era mais difícil. Não sei por que me decidi por Poirot. Se fui eu própria quem o inventou, ou se o vi em algum jornal, ou escrito em algum lugar, não sei — mas assentei que seria esse o nome. Combinava bem, não com Hercules, com s, mas sim com Hercule — Hercule Poirot. Estava certo, assente, graças a Deus»…

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO...

 

A SURPRESA DE LOUISE GLÜCK


Quando Louise Glück (1943) soube que lhe tinha sido atribuído o Prémio Nobel 2020 mostrou-se muito surpreendida por se tratar de poesia e ainda por cima por ser uma escritora branca. Mas não havia razões para surpresa, não só pela sua atitude de compreensão permanente pelos mais legítimos combates pelo respeito da dignidade humana, mas também pelos temas que tem escolhido para a sua criação poética – nos quais a não indiferença marca sempre a busca de um elo entre as mais legítimas preocupações da arte e dos criadores. Pelo menos, ficamos com a certeza de que este será um caso em que o tempo se encarregará de demonstrar que o prémio Nobel da Literatura tem também grandes nomes a celebrizá-lo. “A necessidade de escrever é o desejo de seguir uma ideia. Para um escritor, pensar e escrever, como pensar e sentir são sinónimos” – eis o que nos diz a poeta. Mas também encontramos na sua escrita coerente e imprevisível a compreensão da incindibilidade entre a mente e os sentimentos: “O melhor / é não ter mente. Sentimentos / Oh, tenho-os / governam-me”. Os mitos clássicos são um dos seus temas preferidos. Importa compreender os valores permanentes. Ao tratar da guerra de Troia, pergunta-se se a guerra é um passatempo masculino, “um passatempo para fugir a questões espirituais profundas”.  A cada passo, Glück vê a história, real e mítica, como realidade contraditória, que é preciso encarar com sentido crítico, reflexão e sentimento. Tantas vezes as personagens do teatro grego não são pessoas, como Perséfone e Hades, mas aspetos do dilema e do conflito de qualquer ser humano. “Que farás quando chegar a tua vez em um campo com um deus?”… Há um permanente diálogo entre pessoas, como se a autora conversasse com cada um dos leitores. A simplicidade da linguagem, o humor, a aparente proximidade tornam a poeta uma grande referência. Neste tempo marcado pela pressa e não pela reflexão, mas também pelo medo e pela incerteza, Glück é uma marca positiva e necessária. Um jornalista de “El Pais” salientou como temas recorrentes da premiada; a traição, a mortalidade, o amor, o sentimento de perda. Eis um conjunto de questões que tornam a escritora um símbolo atualíssimo, para além das modas e das imitações… Como disse Adam Plankett, o mais extraordinário milagre de Louise Glück é a capacidade extraordinário de transformar água em sangue, não no sentido elementar, mas como sentimento humano – o mesmo que encontramos no combate entre Aquiles e Heitor e no título do livro de 1985 “The Triumph of Achilles”. Não há, contudo, livros traduzidos em português, há apenas algumas traduções esparsas. Recordamo-las aqui, à espera das edições que a autora tanto merece… 

Agostinho de Morais  

O Poder de Circe

Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.

Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.

Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi

que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,

previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém

vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.


*Poema publicado originalmente na coletânea
Meadowlands (1996), com o título “Circe’s Power”. Editado em Portugal na antologia Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro (2001), da Assírio & Alvim, numa tradução de José Alberto Oliveira.


Paisagem

Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo
a um trigal. O outono

fora muito seco; o campo
ardeu como palha.

Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.

Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –

Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.

Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.

É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?

Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.

Pensas: como pude viver aqui?

Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.

Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.

O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.


*Terceira parte do poema “Landscape”, de Averno (2006), traduzido por Rui Pires Cabral. Os versos foram publicados no n.º 12 da revista Telhados de Vidro, da editora Averno, maio de 2009

 

CADA ROCA COM SEU FUSO...

 

COMPLEXIDADE E EDGAR MORIN


A complexidade considera o diálogo ordem / desordem / organização. Mas, por detrás da complexidade, a ordem e a desordem dissolvem-se, as distinções entre elas desvanecem-se. O mérito da complexidade está a denúncia da metafísica da ordem. Como dizia Whitehead, subjacente à ideia de ordem havia duas coisas: a ideia mágica de Pitágoras, segundo a qual os números são a realidade última, e a ideia religiosa, ainda presente em Descartes como em Newton, segundo a qual o entendimento divino é o fundamento da ordem do mundo. Ora, quando se retirou o entendimento divino e a magia dos números o que restou? As Leis? Uma mecânica cósmica autossuficiente? É essa a verdadeira realidade? É essa a verdadeira natureza? A essa ideia débil, (diz Edgar Morin), oponho a ideia de complexidade». Para Edgar Morin, «a gigantesca crise planetária é a crise da humanidade que não consegue aceder à humanidade». Duas barbáries coexistem e agem sem contemplações: a que vem da noite dos tempos e usa a violência; e a barbárie moderna e fria da hegemonia do quantitativo, da técnica e do lucro. Ambas levam-nos ao abismo. Contudo, importa entender o que Hölderlin nos ensinou: «onde cresce o perigo, cresce também o que salva». A globalização pode trazer-nos fatores positivos sobre o que pode unir a humanidade no sentido da paz. A consciência de uma Terra-Pátria é ainda marginal e disseminada. Edgar Morin propõe a ideia de metamorfose, improvável mas possível, como alternativa à desintegração provável. A natureza está cheia de exemplos de metamorfoses – a lagarta encerra-se na crisálida. A noção de metamorfose é mais rica que a de revolução, uma vez que preserva a radicalidade transformadora, ligando-a à conservação da vida e à herança das culturas. Sendo impossível travar a tendência que conduz aos desastres, devemos pensar que as grandes transformações começam com uma inovação, uma nova mensagem marginal, modesta, tantas vezes invisível… Será preciso, no fundo, ao mesmo tempo, mundializar e desmundializar, crescer e decrescer, desenvolver e envolver, conservar e transformar. As reformas políticas, económicas, educativas ou da vida só por si estarão votadas à insuficiência e ao fracasso.


Como tem sido evidente na pandemia que sofremos, a catástrofe está no horizonte, mas é possível inverter o curso dos acontecimentos. E Morin recorda dois exemplos marcantes de tempos muito diferentes. A resistência vitoriosa por duas vezes da pequena cidade de Atenas perante o poder formidável dos persas, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável, mas permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Do mesmo modo, foram tão inesperados como improváveis o atraso e o congelamento da ofensiva alemã em Moscovo no Outono de 1941 e depois a contraofensiva vitoriosa de Jukov em 5 de dezembro, seguida no dia 8 pelo ataque a Pearl Harbour que fez entrar os Estados Unidos na Guerra. A História reserva-nos inúmeros exemplos que nos permitem alimentar esperanças, desde que haja capacidade de autocrítica e mobilização de vontades, em torno de objetivos inteligentes e justos.


Com Terêncio temos de entender que nada do que é humano nos pode ser estranho. E quando alguém pergunta o que é a identidade europeia, Edgar Morin recorda a sua ideia de uma «comunidade de destino», capaz de congregar a consciência das diferenças e a importância do outro. Prefiro usar a expressão comunidade plural (e democrática) de destinos e valores. E se falo de «comunidade», dou-lhe o sentido de pessoa em comum (gesamtperson, de que falava Landsberg). A cultura é o que diferencia e a civilização é o que difunde a criatividade humana. A identidade corresponde, assim, à exigência de um caminho comum e partilhado. Impõe-se perceber que, na expressão de Denis de Rougemont ou de Daniel Bell, o Estado atual é grande e pequeno demais para responder aos problemas contemporâneos. Quando surge, por fim, a pergunta sobre o que caracteriza uma ética europeia, na linha de Montaigne, E. Morin responde que o universalismo e a capacidade autocrítica são as características europeias fundamentais. Precisamos, no fundo, de uma Europa criativa que aceita a imperfeição, aberta ao mundo, universalista e cultora da crítica, capaz de incorporar um caminho que possa favorecer a ideia fecunda de metamorfose!


Em “La Voie – Pour l’Avenir de l’Humanité” (Fayard, 2011), Morin apresenta, de um modo clarividente, um conjunto muito significativo de propostas para ultrapassar a crise global que vivemos, mas, mais do que isso, para compreender as raízes do mal que nos atinge globalmente e que exige respostas urgentes, corajosas e determinadas – que ultrapassem a mera lógica do curto prazo. Ernesto Sabato, o grande escritor argentino, afirmou que «só há um modo de contribuir para a mudança, é a recusa da resignação». E Edgar Morin concorda, preocupado que está com as fragilidades que estão a destruir os fundamentos de uma humanidade consciente das tarefas fundamentais que tem de assumir num tempo de incerteza e de risco de destruição. Nos tempos em que vivemos, plenos de contradições, em que os erros e as responsabilidades são de todos, apesar da tentação de criar bodes expiatórios, tantas vezes falsos e ilusórios, para que o caminho de autodestruição possa continuar sem grandes sobressaltos, Morin lança um alerta – o de que se impõe impedir que persista o fatalismo, segundo o qual nada poderemos fazer para inverter a perigosa situação de que acabamos de tomar consciência, através de uma crise financeira que nos abala e que é tudo menos momentânea. Estão profundamente enganados os que pensam poder voltar à velha mentalidade imediatista e à corrida vertiginosa que confunde economia e ficção. “No sabemos lo que pasa y eso es lo que passa” – Ortega y Gasset disse-o, e hoje sentimos que se trata de uma ilustração do que nos acontece. Mas Edgar Morin não corre atrás das tentativas de perceber os últimos acontecimentos. Fala-nos, antes, da cegueira de conhecimento que compartimenta os saberes e desintegra os problemas fundamentais e globais, que necessitam de um conhecimento transdisciplinar. Refere-nos que o ocidental-centrismo apoia-se apenas na racionalidade e dá-nos a ilusão de possuir o universal. E assim não é apenas a nossa ignorância, mas também o nosso conhecimento que nos cega.


A crise planetária, com que lidamos mal, resulta da inexistência de autênticos dispositivos de regulação. A crise global não se resume, assim, a um acidente provocado pela hipertrofia do crédito, a qual não se deve apenas ao problema de uma população empobrecida pelo encarecimento dos bens e serviços, obrigada a manter o nível de vida pelo endividamento. Edgar Morin aponta o dedo à especulação do capitalismo financeiro nos mercados internacionais (do petróleo, dos minerais e dos cereais) e ao facto de o sistema financeiro mundial se ter tornado um barco à deriva, desligado da realidade produtiva. E cita Patrick Artus e Marie-Paule Virard, no seu livro anterior ao “crash” do Outono de 2008, intitulado «Globalisation: le pire est à venir» (La Découverte, 2008): «O pior ainda está para vir, em resultado da conjugação de cinco características maiores da globalização: uma máquina inigualitária que mina os tecidos sociais e atiça as tensões protecionistas; um caldeirão que queima os recursos raros, encoraja as políticas de concentração e acelera o reaquecimento do planeta; uma máquina que inunda o mundo de liquidez e que encoraja a irresponsabilidade bancária; um casino onde se exprimem todos os excessos do capitalismo financeiro; uma centrifugadora que pode fazer explodir a Europa». Em suma, as desigualdades que eram consideradas despiciendas afetaram gravemente a eficiência e a equidade, através da fragilização do capital social (como há muito alertava Robert Putnam). A lógica de casino agravou os efeitos de um ciclo especulativo de consequências muito nefastas, como há muito alertara o insuspeito Vilfredo Pareto. Os egoísmos nacionais somaram-se, ainda por cima, a uma falsa consciência ecológica, incapaz de considerar o essencial, cedendo aos grupos de pressão e a perversos interesses. A crise é multifacetada: é ecológica, pela degradação da biosfera; é demográfica, pela confluência da explosão populacional nos países pobres e da redução nos países ricos, com desenvolvimento de fluxos migratórios gerados pela miséria; é urbana, pelo desenvolvimento de megapolis poluídas e poluentes, com ghettos de ricos ao lado de ghettos de pobres; é da agricultura, pela desertificação rural, concentração urbana e desenvolvimento das monoculturas industrializadas; é ainda crise da política, pela incapacidade de pensar e de afrontar a novidade, perante a crescente complexidade dos problemas; é ainda das religiões, pelo recuo da laicidade, pelo emergir de contradições que as impedem de assumir os seus princípios de fraternidade universal. Numa palavra, «o humanismo universalista – afirma Morin - decompõe-se em benefício das identidades nacionais e religiosas, quando ainda não se tornou um humanismo planetário, respeitando o elo indissolúvel entre a unidade e a diversidade humanas».


A ideia fixa do crescimento contínuo e interminável não pode continuar. A evolução das ciências sociais e humanas obriga a entendermos a atual crise como uma via de repensamento – não apenas das circunstâncias económicas e financeiras, mas também das implicações sociais e axiológicas. A persistência nos erros que conduziram à atual situação levará a que os males das ilusões e das aparências se somem à incapacidade de perceber que os recursos escassos e que o meio ambiente estão a ser destruídos irreversivelmente. Tudo tem, afinal, a ver com o facto de o ganho a todo o custo ter substituído na ciência económica a consideração de que é a pessoa humana e a sua dignidade que têm de estar no centro da satisfação das necessidades, compreendendo-se o que François Perroux ensinava sobre o facto de o que tem mais valor ser o que não tem preço…

 

A.M.

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

O PATRIMÓNIO CULTURAL COMO MAIS-VALIA…


Nos anos oitenta do século XX, a França criou as Jornadas de Portas Abertas dos monumentos históricos que o Conselho da Europa adotou com o apoio da União Europeia em 1991 como Jornada Europeias do Património, que Portugal coordenou no início dos anos 2000 graças a Helena Vaz da Silva no Centro Nacional de Cultura. Este ano o tema é “Património e Educação – Aprender para a Vida” com os objetivos de fazer conhecer melhor a riqueza e a diversidade culturais da Europa, suscitar o interesse pelo património cultural, lutar contra o fechamento e a xenofobia e encorajar a abertura ao outro e a outras culturas e informar os cidadãos e a sociedade sobre a necessidade de proteger o património cultural como realidade viva – de acordo com a Convenção Cultural Europeia, assinada em Paris a 19 de dezembro de 1954 e hoje bem viva na Convenção de Faro sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea assinada em Outubro de 2005 em Portugal. Cada presente reconstrói o passado histórico como sinal perene da cultura e da dignidade humana. Está em causa não a invocação do passado, mas a compreensão da memória como sinal de humanidade e de aprendizagem, enquanto emancipação e desenvolvimento.

A mais antiga Convenção sobre proteção de monumentos refere-se a conflitos armados. De facto, a Conferência Internacional da Paz, realizada em Haia em 1899, estabelece acordos ou convenções sobre a resolução pacífica de conflitos internacionais, dispondo que em caso de “cercos e bombardeamentos” devem ser “tomadas todas as medidas necessárias para poupar os edifícios dedicados à religião, à arte, à ciência, à assistência e hospitais”. Estas convenções de 1899 viriam a ser revistas e aumentadas em 1907. 


Então passa a referir-se, expressamente, além dos edifícios citados, os ”monumentos históricos”, devendo em caso de conflito ou bombardeamento naval haver sinais, definidos em formas e cores, a colocar nos edifícios a proteger. O que se passou no outono de 1991 em Dubrovnik, cidade classificada como património da humanidade pela UNESCO, em 1979, é ilustrativo da grande dificuldade na concretização das medidas de proteção. Apesar da missão de paz levada a cabo por Jean d’Ormesson, André Glucksmann e Bernard Kouchner, a missão tentada com a guerra em curso não teve sucesso. Os bombardeamentos continuaram. O mesmo se diga das bárbaras destruições de agosto de 2015, em Palmira, classificada pela UNESCO em 1980, com a trágica morte por decapitação do arqueólogo Khaled al-Asaad, que entregou toda a sua vida ao estudo de uma das mais importantes estações arqueológicas do mundo. A grave destruição de monumentos de valor incalculável foi acompanhada do assassinato do cientista que melhor conhecia a história do lugar. Visou-se, assim, uma destruição simultânea quer do bem material, mas também da base do conhecimento que existia.


Apesar das convenções internacionais serem explícitas, não tem sido possível intervir positivamente nas situações mais graves e dramáticas. O 6.º Congresso Internacional de Arquitetos, realizado em Madrid em 1904, com uma ampla representação portuguesa, distinguiu monumentos mortos e monumentos vivos, devendo os primeiros ser conservados para evitar que caiam em ruínas e os segundos continuar a servir. Prevaleceu, então, a ideia de que deveria ser respeitado o “estilo primitivo do monumento”, sem prejuízo da salvaguarda doutros estilos “sempre que tenham mérito e não destruam o equilíbrio estético do monumento. No imediato pós-guerra, depois de 1945, houve importantes desenvolvimentos. As diversas Cartas de Atenas tiveram grande influência nos domínios patrimonial e arquitetónico. Além da Carta referida de 1931 (sobre conservação e restauro), deve citar-se a que foi aprovada no mesmo ano pela assembleia geral do 4º Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, em Atenas (julho-agosto de 1933), dedicado à cidade funcional. Durante este congresso, que contou com a liderança de Le Corbusier, foi elaborada a Carta sobre o urbanismo moderno, não confundível com a Carta dedicada ao restauro de monumentos. Mesmo assim, o capítulo 5º da Carta de 1933 sobre urbanismo e a cidade moderna trata do património histórico das cidades, referindo que os valores arquitetónicos devem ser salvaguardados, quer sejam edifícios isolados ou conjuntos urbanos. Importa ainda lembrar que a tentativa de elaborar uma Convenção Internacional para a proteção de monumentos e obras de arte em tempo de guerra (1936) não pôde ser aprovada em virtude da precipitação dos acontecimentos internacionais que culminaram na tragédia de 1939-45. Vindo, porém, a constituir a base da Convenção de Haia (de 1954) para a proteção dos bens culturais em caso de conflito armado.


Com a criação, com sede em Paris, da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, que sucedeu à Comissão Internacional de Cooperação Intelectual, o património cultural assume um papel de maior importância – nascendo, no seu âmbito: o Conselho Internacional de Museus (ICOM), em Paris, organização não-governamental criada a 16 de novembro de 1946, que sucede ao Serviço Internacional de Museus; o Centro Internacional de Estudos para a Conservação e o Restauro dos Bens Culturais (ICCROM), com sede em Roma e fundado em 27 de abril de 1957; bem como o Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS) criado, com sede em Paris, a 21 de junho de 1965. Importa referir que, após a realização da Conferência de Washington D.C. em 1965, foi feita uma recomendação no sentido da aprovação da Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, que viria a ser assinada a partir de 1972, englobando hoje 1121 referências culturais, 213 naturais e 39 mistos, localizados em 167 países, e num total de 39 transfronteiriços, estando 53 estão em perigo. A Itália é o país com maior número de sítios classificados, com 55, tal como a R. P. da China, também com 55, seguida da Espanha com 48, da Alemanha com 46 e da França com 45. No diz respeito à distribuição por grandes áreas geográficas, verificamos que na Europa localizam-se 529 bens classificados em 50 países, em África 96 em 35 países, na América Latina e Caraíbas 142 em 28 países, na Ásia e Pacífico 268 em 36 países, nos Estados Árabes 86 em 18 países. Neste contexto, Portugal tem 17 bens na lista do Património Mundial. A Convenção considera a cultura humana e a natureza como valores indissociáveis e parte da ideia de que há património cultural ou natural de uma região ou de um país que tem um valor excecional, não só para a comunidade, mas também para todos os povos do mundo. Daí a ideia de uma lista onde são inscritos monumentos, conjuntos, paisagens e elementos do património imaterial, considerados mais significativos, segundo critérios previamente definidos. Em 2003, a UNESCO aprovou a Convenção para a Proteção do Património Imaterial, destacando o património vivo que abrange outras tipologias de bens culturais, como tradições e expressões orais, lugares de memória, saberes e manifestações tradicionais. Neste âmbito, inserem-se 7 bens imateriais no território português, como o fado, a dieta mediterrânica e o figurado de Estremoz.


Definido ao longo do tempo pela ação humana, o património cultural, longe de se submeter a uma visão estática e imutável, passa a ter de ser considerado como um “conjunto de recursos herdados do passado”, testemunha e expressão de valores, crenças, saberes e tradições em contínua evolução e mudança. O tempo, a história e a sociedade estão em contacto permanente. Nada pode ser compreendido e valorizado sem esse diálogo extremamente rico. Usando a expressão de Rabelais, estamos sempre perante “pedras vivas”, já que as “pedras mortas” dão testemunho das primeiras. O património surge, nesta lógica, como primeiro recurso de compromisso democrático em prol da dignidade da pessoa humana, da diversidade cultural e do desenvolvimento durável. E constitui um capital cultural resultante do engenho e do trabalho de mulheres e homens, tornando-se fator de desenvolvimento e incentivo à criatividade. Quando falamos de respeito mútuo entre culturas e as diversas expressões da criatividade e da tradição estamos, assim, a considerar o valor que a sociedade atribui ao seu património cultural e histórico ou à sua memória como fator fundamental para evitar e prevenir o “choque de civilizações”, mas, mais do que isso, para criar bases sólidas de entreajuda e de entendimento.


A esta luz se entende o apelo da Convenção de Faro à “reflexão sobre a ética e sobre os métodos de apresentação do património cultural, bem como o respeito pela diversidade de interpretações”, aos “processos de conciliação a fim de gerir, de modo equitativo, as situações em que são atribuídos valores contraditórios ao mesmo património cultural por diferentes comunidades”, ao “conhecimento do património cultural como um modo de facilitar a coexistência pacífica, promovendo a confiança e compreensão mútua, tendo em vista a resolução e prevenção de conflitos” e à integração destes desígnios “em todos os aspetos da educação e formação ao longo da vida”. E tudo se liga ao enriquecimento dos “processos de desenvolvimento económico, político, social e cultural”, bem como ao ordenamento do território, aos estudos de impacto do património cultural e às estratégias de redução dos danos.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO...

 

 

LEMBRAR ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA.

António José Saraiva disse um dia que «todas as fronteiras são culturais». As fronteiras funcionam como linhas de distinção e de aproximação, que delimitam as identidades. «O que separa as nações é a nacionalidade, não são os rios nem os montes. Estes podem favorecer a defesa ou a expansão de uma nação mas não podem criá-la». O ensaísta falava (num texto de 1971, republicado em Crónicas, organização de Maria José Saraiva, p. 369) das nossas raízes e fronteiras, encontrando a origem de Portugal num «processo orgânico de cruzamento e integração de dois focos de autonomia dentro da Hispânia, os quais existiam já antes da ocupação romana» – um galego e outro lusitano. O resultado foi uma fusão, «tão perfeita que este novo ser cultural tem resistido de forma homogénea» a diversas investidas externas ao longo dos séculos. Fomo-nos afirmando perante as dificuldades, em sucessivos estados de necessidade. Desenganem-se os que julgam que as incertezas de hoje são inéditas.


A língua e a cultura geradas no ocidente peninsular demonstram como a nossa identidade se fez não exclusivamente por um ato político de vontade, mas também graças a condições próprias que têm perdurado ao longo do tempo. E são significativos os exemplos dados pelo escritor ligados à formação de Portugal, como fatores de afirmação de autonomia e de resposta aos desafios históricos mais exigentes e problemáticos - desde o condado de Coimbra do moçárabe Sesnando (1064-92) ou da resistência dos senhores de Portucale, no território que é hoje o de Entre Douro e Minho, passando pela nomeação de Raimundo de Borgonha como «senhor de Coimbra e do resto da Galiza» e depois pela designação de Henrique de Borgonha como senhor de Coimbra e de Portugal, numa evolução incerta, entre dois mundos políticos diferentes, com fronteiras oscilantes, entre os reinos cristãos e a influência muçulmana e islâmica , até à criação do reino de Afonso Henriques e ao início da consolidação de Portugal como resultado da convergência entre as influências atlântica e mediterrânica do ocidente peninsular.


Assim A.J. Saraiva procurou sustentar e justificar, completando o raciocínio de Alexandre Herculano, que «a velha língua em que Afonso Henriques aprendeu a falar a língua dos senhores e campónios da Galiza e dos guerrilheiros da Beiras teve um destino raro e privilegiado. Foi por ela que os galego-portugueses se sentiram diferentes dos castelhanos muito antes de Afonso Henriques ter assentado a capital do reino de Portugal em Coimbra, que já fora do estado do conde Sesnando» (op. cit., p.430). E deste modo a realidade cultural portuguesa apresenta origens anteriores à fundação do Estado português. Esta ideia de fronteira cultural e linguística não impede, porém,  António José Saraiva de afirmar que «os valores dominantes da cultura portuguesa são hispânicos», gerados na «guerra comum da chamada reconquista» - ainda que o português nunca tivesse sido um dialeto do castelhano.. Eis como as fronteiras culturais distinguem e aproximam. «A hombridade, a honra cavaleiresca, que depois se contaminou a todas as camadas sociais, a liberdade individual que roça pelo anarquismo e que se combinou durante muito tempo com o valor da lealdade ao rei, que era uma ligação pessoal, com direitos e deveres, e que nunca se confundiu com a mera submissão passiva a uma tirania não abstrata, são comuns a Portugal, Leão, Galiza e Castela» (p.535). É o que o autor designa por «hispanidade de Portugal», expressão que suscitou incompreensões, mas que, para Saraiva, mais não significava do que o reconhecimento de um facto, incapaz de comprometer a distinção cultural e a independência. No fundo, Portugal não se afirma plenamente a não ser através da compreensão de que as fronteiras culturais peninsulares levam à tomada de consciência de uma herança comum, que permite a abertura de diversos caminhos e identidades, que se fortalecem pela complementaridade e não pela fragmentação.


A semente galega construiu a originalidade cultural portuguesa. Em 1147, quando Afonso Henriques chegou a Lisboa, falava-se na cidade um romance hispânico, moçárabe, que depois cedeu perante o galaico-português. E assim o idioma português faz-se numa convergência de norte para sul e de sul para norte – daí que as palavras arábicas se tenham espalhado por todo o território ocidental. A poesia dos trovadores é tão galega como portuguesa e Afonso X, o Sábio, é antepassado da nossa própria língua. Fernão Lopes, Gil Vicente e Camões são expoentes da cultura hispânica num sentido amplo e esse facto não impediu o pendor nacional dos seus temas, a começar no empenhamento do autor da Crónica de D. João I na defesa da causa nacional, como portuguesa, insuspeita de qualquer ideia de subalternidade ou de conciliação em relação a Castela. E veja-se que D. Quixote salva na sua biblioteca dois livros assaz portugueses, Amadis de Gaula e Palmeirim de Inglaterra. No entanto, para AJS, Eça de Queirós e Fernando Pessoa foram mais claramente portugueses, nos seus temas e modos de os tratar. Afinal, há diferenças que nos distinguem, desde a teatralidade castelhana ao intimismo galaico-português, desde o contraste de Castela ao sombreado de Portugal, desde o distinto e redundante da língua do centro peninsular aos meios-tons, elipses e sílabas mudas do português. «El Cristo español está siempre en su papel trágico» - dizia Unamuno, citando o nosso Guerra Junqueiro – enquanto «el Cristo português anda por costas y prados y montañas, jugando com la gente del pueblo, se ríe com ellos, merienda, y de vez en cuando, para llenar su papel, se cuelga un rato de la cruz». Nada disso permite falar de divórcio ou de separação. Há uma raiz cultural comum que dá lugar a sensibilidades diferentes e a uma distinção, que resulta da singular convergência que caracteriza a nossa identidade. Por mais suspicácia que haja, o certo é que existe uma base comum de que partimos, sendo diferentes…

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

LODO NO CAIS…

Quando  demos a notícia da morte de A. P. Duchâteau, dissemos que publicaríamos um dos seus problemas policiais, adaptado por Adolfo Simões Müller, ilustrado por Tibet, e dado à estampa no “Foguetão” número 4 (25 de Maio de 1961). De facto, o relato era de Ric Hochet, ainda que nessa altura agisse anonimamente. O Comissário Esteves era, nem mais nem menos que o inspector Boudon. O prometido é devido e eis um enigma surpresa. Pedimos aos nossos leitores que nos digam a solução até ao final de amanhã, segunda feira – e reservaremos uma pequena surpresa para quem acertar…

 

“Naquela terça-feira 20 de outubro, um inquérito tinha-nos conduzido, ao Comissário Esteves e a mim, a um pequeno porto de pesca na região do Douro. Um inquérito sem história que terminara com a prisão do larápio que perseguíamos. Eram então nove horas da noite, muito tarde para regressarmos ao Porto. E assim decidimos passar a noite no hotel da terra. Depois do jantar, tínhamos passeado à beira-mar, entrando de vez em quando nas tabernas das ruelas vizinhas, pelo prazer de bebermos uma caneca de vinho verde, ao mesmo tempo que apreciávamos o ambiente local. Seria meia-noite quando nos encontrámos no “Cantinho dos Pescadores”. E de repente, um grito rouco ressoou lá fora, um verdadeiro grito de agonia. Corremos para a rua e aí descobrimos na semiobscuridade duas sombras enlaçadas que gesticulavam. Uma faca subiu e desceu… Ouviu-se um novo grito, desta vez abafado. Uma das sombras tombou no solo, enquanto a outra fugia em direção à enseada onde os barcos de pesca estavam ancorados. Vendo que o Comissário Esteves corria para socorrer o ferido, lancei-me na perseguição do fugitivo. Mas, uma vez no cais, perdi-o de vista. Decerto tinha-se escondido por trás dos caixotes vazios… Avancei com prudência. Um silvo… e mal tive tempo de me atirar ao chão. Uma faca foi cravar-se na madeira apodrecida de um dos caixotes… Depois, vi o homem que partia de novo, correndo. Para lhe estender uma armadilha, conservei-me imóvel, como se estivesse ferido. E vi-o saltar para o convés de um barco encostado ao cais. Entrou na cabina e desapareceu… Momentos depois, eu próprio estava a bordo do barco e batia à porta da cabina. Apareceu-me um marinheiro de camisola de lã – exatamente como o homem que eu perseguia.

- Que quer? – perguntou.

Sem responder, empurrei-o. Dentro da cabina, sentado a uma mesa, outro marinheiro da mesma corpulência, vestindo uma camisola idêntica escrevia a lápis uma carta.

- Mas fale! – exclamou o homem que abrira a porta – Que quer?

- Estão só os dois a bordo?

- Sim, senhor. Eu sou José Sardinha e aquele (apontou o homem que escrevia) o meu irmão Raul. Que quer o senhor?

- Um de vocês agrediu um homem há pouco…

- Impossível – replicou Raul, largando a carta – Nem eu nem o meu irmão saímos daqui.

- Em que empregaram o tempo esta noite?

-  Eu tenho estado a escrever à rapariga.

Debrucei-me sobre a carta, que dizia assim: “ X – 21 de outubro – Querida Teresa. Espero que ao receberes esta, te encontres bem. Eu, Zé e o barco estamos ótimos. Fico muito contente por me dizeres que em breve nos veremos, tomara esse dia…”.

Havia mais algumas frases no mesmo estilo, mas a carta estava por acabar.

- A que horas começou a escrever?

- Eram onze e quarenta e cinco.

- E você o que fez ? – perguntei a José Sardinha.

O homem apontou-me algumas cartas de jogar sobre a mesa.

- Estava a fazer paciências?

- Parece que sim… - resmungou ele.

- Bom! Agora já sei quem foi que deu as facadas.

Caro Leitor, um dos dois irmãos mentiu de forma flagrante para assegurar o seu álibi.

Foi o José? Foi o Raul? Respondam por favor…

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

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A. P. Duchâteau (1925-2020)

 

O pai de Ric Hochet e do inspetor Bourdon morreu. André-Paul Duchâteau, autor consagrado da Escola belga da Linha Clara da BD deixou-nos na passada semana, contava 95 anos. O experimentado autor celebrizou-se pela criação com o desenhador Tibet de Ric Hochet, personagem mítica para várias gerações de leitores das histórias de quadradinhos. A. P. Duchâteau há muito que estava ligado às edições du Lombard. Sendo natural de Tournai, nasceu a 8 de Maio de 1925, tendo a paixão pelo romance policial nascido da leitura de "Six Hommes morts", de Stanislas-André Steeman e sobretudo depois do contacto pessoal que com ele estabeleceu. Com apenas 15 anos de idade, publicou o primeiro romance policial, "Meurtre pour meurtre", numa coleção dirigida pelo próprio Steeman. Em 1947, escreveu os primeiros argumentos para Banda Desenhada, na revista "Bravo!", entre narrativas originais e adaptações de obras de Walter Scott e Paul Féval. Nessa altura que travou conhecimento com Tibet, pseudónimo de Gilbert Gascard, (1931-2010), autor de Chick Bill e elemento muito relevante na redação de “Tintin”.

A ilustração que hoje publicamos é de sua autoria, possuindo um traço da rara qualidade. Hergé reconheceu cedo essa qualidade, fazendo-o, porém, desistir de desenhar figuras de animais para uma faixa etária infantil. Em 1951, Duchâteau e Tibet assinam as primeiras criações em parceria na "Ons Volske" e depois na revista "Tintin", graças ao apoio de Raymond Leblanc e do próprio Hergé. Em 1955, nasce Ric Hochet, futuro jornalista e detetive, que começou por ser um jovem ardina. Em Portugal, foi o nº 183, de 2 de Julho de 1955 do “Cavaleiro Andante” que primeiro publicou essa aventura de Ric Hochet, como adolescente português, chamado João Nuno. Os dois autores assinarão quase oito dezenas de álbuns de um herói, que revelará uma popularidade significativamente longeva.. Meses depois, em fevereiro de 1956, Ric Hochet, já com um aspeto diferente, mais velho, como os mais célebres detetives, reaparece numa história curta, promovido a repórter do periódico La Rafale, onde soma proezas detectivescas aos eventos jornalísticos. É a redação parisiense que apresentamos com toda a sua vitalidade. O sucesso não pararia e A. P. Duchâteau tornar-se-ia um dos pilares da revista “Tintin", chegando a chefe de redação e diretor artístico. Em 1961, o “Álbum do Cavaleiro Andante” publicaria a primeira longa metragem de Ric Hochet “Camaleão, Perigo de Morte”.

Autor exigente, prolífero e erudito, com um grande conhecimento dos clássicos, Duchâteau abordou os mais diversos géneros, da aventura ao humor, do western ao fantástico, mas sempre com a ficção policial como principal referência. Com uma invulgar capacidade de escrita, era um caso especial de popularidade, deixando um imenso legado de centenas de novelas, romances, folhetins e álbuns de BD. Apesar de estar ligado essencialmente à personagem de Ric Hochet, escreve argumentos para Mittéï (3A), Aidans (Bob Binn), Parras (Comissaire Marin) e Eddy Paape (Les Jeux de Toah). Com Christian Denayer, produz a série Yalek, Alain Chevalier e Les Casseurs (Al & Brock). Na década de 1970, sucede a Jean Van Hamme como o argumentista de Mr. Magellan (desenhos de Géri), escreve para Paape (Luc Orient e Yorik das Tempestades), Cosey (Monfreid et Tilbury), MiTacq (Derval Stany), Follet (Valhardi) e Pleyers (Tiger Joe). Na década de 1980, lança novas séries com Grzegorz Rosinski (a saga de ficção científica Hans), Patrice Sanahujas (Serge Morand e Chancellor), Vance (Bruce J. Hawker) e Xavier Musquera (Peggy Press). No final dos anos 1980, torna-se editor literário de du Lombard. Em 1989, é responsável pela coleção Detetives BD da editora Lefrancq, onde escreve várias adaptações para BD de romances policiais. Na década de 1990, continua a fazer adaptações para BD de escritores como Mik Fondal (Les Galapiats de la Rue Haute com Didier Desmit ) e John Flanders (Edmund Bell com Raoul Giordan). Inicia novas séries, como Wilt, com Yves Urbain, Detective Carol com Eddy Paape e Les Romantiques com Eric Lenaerts (2001 a 2003). Foi distinguido com inúmeros prémios durante a sua vida, prezando de forma especial o Grande Prémio de Literatura Policial que, em 1974 galardoou o seu romance "De 5 à 7 avec la morte", tendo sido durante muitos anos, em “Tintin” um imbatível campeão de popularidade, classificando-se sempre em primeiro lugar nos inquéritos realizados às preferências dos leitores.

Também em Portugal, o sucesso de Ric Hochet foi grande. Se o “Cavaleiro Andante” lhe chamou João Nuno, o “Zorro” preferiu o nome de Mário João e do inspetor Navarro, mas o “Falcão” não teve problema em usar o nome original de Ric Hochet e do seu inseparável companheiro Inspetor Bourdon. O “Foguetão” e o “Falcão” usaram os enigmas policiais engendrados por Duchâteau – tendo cabido a Artur Varatojo a coordenação dos enigmas policiais na equipa de Adolfo Simões Müller. Raimundo Esteves era o nome do Comissário desses enigmas do “Foguetão” e as ilustrações de Tibet eram muito expressivas e ajudavam muito. Havia, no fundo, que motivar os leitores para poderem responder sobre quem era o criminoso… Havia sempre um indício acusador – ou era um lenço, ou um monograma, afinal, um pequeno erro cometido pelo acusado… A sombra de Ric Hochet significava mistério e procura da verdade e da justiça – eis o fundo pedagógico que A. P. Duchâteau e Tibet sempre prosseguiram. Não me canso de voltar a essa dupla extraordinária… Prometo que a minha próxima crónica será integralmente um enigma de Ric Hochet…

 

Agostinho de Morais

 

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CADA ROCA COM SEU FUSO…



JOSÉ GARCÊS (1928-2020)

Dos autores ainda em atividade, José Garcês era dos mais prolíferos ilustradores de Banda Desenhada em Portugal, sendo também reconhecido no estrangeiro. A 12 de outubro de 1946, a revista “O Mosquito” publicava a história “Inferno verde”, que assinala a estreia de José Garcês como ilustrador da imprensa infantojuvenil. Tinha então 18 anos, e frequentara a Escola António Arroio. Ao longo da vida o seu nome ficou associado sobretudo à função pedagógica da Banda Desenhada, com figuras e acontecimentos da História de Portugal, segundo um traço realista, feito integralmente à mão, com tinta-da-china e aguarela, sob a influência do norte-americano Harold Foster, célebre autor de “O Príncipe Valente”. Em virtude da ligação à feitura de Manuais escolares, designadamente na ASA, percorreu o país em visitas a escolas e em conversas com alunos e professores. Tratava-se de explicar os acontecimentos que retratava e de ligar a representação gráfica a essa experiência. Publicou entre outros, “A História de Portugal em BD”, “Bartolomeu Dias”, “Cristóvão Colombo”, “D. João V”, “História do Porto”, “História de Silves”, “História de Faro”, “Vida de Santo António de Lisboa” e “História do Jardim Zoológico”. “ A banda desenhada foi uma boa opção para ensinar, porque tinha imagens”, afirmou. Depois de “O Mosquito”, para o qual fez quatro narrativas, desenhou, entre outros, para a “Cavaleiro Andante”, “Modas e Bordados”, “Mundo de Aventuras” e também para as revistas “Camarada” e “Fagulha”.

 

Naquele tempo as histórias aos quadradinhos eram lidas sobretudo em revistas ou em continuados, e além de José Garcês trabalhavam José Ruy, Fernando Bento, Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez e Vítor Péon. “Não havia rivalidade, eramos todos amigos”, como afirmou o artista. No seu estirador criava incansavelmente, com canetas de aparo, lápis, rodeado de pastas com desenhos, livros de História, entre paredes forradas com memórias e um certificado da escola Voz do Operário, de 1940.

 

70 anos é uma carreira muito longa e rica, na qual não faltou o interesse pelo desenho de temas militares, pela criação de construções de montar em cartolina, desde o mosteiro da Batalha até uma série sobre castelos portugueses. Durante quarenta anos, José Garcês trabalhou no antigo Serviço Nacional de Meteorologia, onde desenhou as cartas de previsão meteorológica e chefiou o departamento de desenho. “Eu tenho consciência que fiz muita coisa, que prestei um serviço público ao país”, disse. Ao analisarmos a sua obra e ao encontrarmos o seu traço tributário da linha clara podemos dizer que José Garcês é uma referência fundamental da Banda Desenhada contemporânea, não apenas de entretenimento, mas com forte pendor educativo. O exemplo que apresentamos é retirado da História de Silves e nele fica patente quer o rigor artístico quer a preocupação motivadora dos estudantes, que a um tempo gozam da ligação estreita entre a arte e o conhecimento.


Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…


MINUCIOSAS FORMIGAS, CIGARRAS GAITEIRAS…

«Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora não querer».

 

O poema de Alexandre O’Neill merece atenção especial, sobretudo neste momento em que o debate lusitano sobre a pandemia Covid-19 se torna uma grande encenação de passa-culpas. Como é hábito antigo, passamos rapidamente dos melhores do mundo para os piores. Do milagre para a maldição… Ora formigas, ora cigarras – e esquecemo-nos que somos, sempre fomos, as duas realidades como toda a gente. Felizmente! E razão tem o Alexandre O’Neill – “Assim devera eu ser / se não fora não querer”. Do que se trata? “Não fora não querer” significa não querer ser o melhor do mundo, porque ninguém o é. Olhemos com um pouco de atenção o que se passa com este traiçoeiro vírus? Toda a gente sabe que a situação que vivemos constitui um dilema difícil. Se ficássemos confinados, não resolveríamos o essencial. Partindo para o disparate desconfinado, também não. Talvez adiássemos por dias ou semanas o que inexoravelmente sofremos hoje. Mas um dilema é um dilema. A economia e a saúde pública obrigam a uma combinação de fatores. Não podemos ao mesmo tempo fazer avançar o negócio e contrariar o desemprego, sem redobrar o cuidado na saúde pública. Aqui bate o ponto. E é verdade que houve quem julgasse que por ser jovem ficaria incólume à doença. E também houve quem pensasse que a vacina estaria ao virar da esquina, e tudo se resolveria, sem dificuldades… Portanto, toca a andar… Mas sejamos muito práticos. De facto, fomos algo facilitadores, como quase sempre somos. O certo é que tínhamos de desconfinar, com as cautelas necessárias. E este é o nosso ponto! Temos dificuldade em planear e em prever ou prevenir. O que nos diz o poema imortalizado por Amália e agora lembrado por Adriana Calcanhoto é apenas isto – temos de cuidar dos exemplos das minuciosas formigas e das gaiteiras cigarras. Ou seja, temos de saber ser formigas gaiteiras e cigarras minuciosas. Que é a arte senão o sentimento e o cuidado? No meu livrito já aqui citado sobre o paradoxo de Zenão afirmo em dado passo: “todas as fábulas de Esopo, de Fedro ou de La Fontaine contêm um paradoxo. Elas são ao mesmo tempo lições morais e apelos à sabedoria suficiente para não seguir cegamente uma conclusão rígida. É a formiga um modelo de vida? Naturalmente que o não é. Mas pode ser. O mesmo para a cigarra. Esopo ensina-nos sim que a vida não pode esquecer o outro lado das coisas. Daí as representações pedagógicas do mundo às avessas. Poderia a formiga viver sem a música das cigarras? Poderia a cigarra viver sem o trabalho das formigas? Claro que não. Uma fábula é um paradoxo ilustrado. Temos sempre de a ver o direito e o avesso… Como num lenço de namorados, temos de saber que o direito é que dá a leitura, a qual não existiria se não houvesse avesso…  Pode a raposa viver sem o corvo? Pode o burro existir sem o leão? E tal como Zenão nos ensinou, a pura lógica não permitiria sequer que a cigarra e a formiga se encontrassem, e logo não haveria a lição paradoxal da cigarra laboriosa e da formiga cantadeira”… Eis por que razão o nosso saudoso Alexandre O’Neill tem toda a razão… Escrevo, entristecido, eu anglófilo empederrnido, ao ver Mr. Johnson, Boris, a reeditar os métodos da pérfida Albion, e as desconsiderações de John Bull, que conhecemos de ginjeira.  Agora vêm dizer que teríamos de ter sido ainda melhores para usufruir das benesses britânicas. E eis que dão motivos para as nossas lágrimas de crocodilo. Para mim, no entanto, tudo pode ser mais simples – se redobrarmos as cautelas e se soubermos ser boas formigas e melhores cigarras…

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

OS ESPECIALISTAS

 

Esta pandemia trouxe-nos um novo tipo de pessoas que invadem o espaço público, a que poderemos chamar de “especialistas”. Que fazem esses temíveis palradores? Invadem-nos a casa, através dos meios de comunicação, em especial a televisão, e dão-nos explicações e palpites, sobre tudo o possível e imaginário. Julgam saber de tudo, desde as origens fisiológicas das transformações operadas pelo dramático Covid-19 até aos efeitos psicológicos do confinamento. Têm sempre algo a dizer-nos. São fisiologistas, psicólogos, candidatos a psiquiatras, biólogos, educadores, cientistas – tudo. Fazem-me lembrar o simpático Gaston Lagaffe, aqui representado (que quando chegou a Portugal, no início dos anos sessenta, se chamava Zacarias, e pontificava com as suas desventuras). Também ele era especialista de tudo, mas tudo em que se metia dava desastre… Em qualquer posto de comunicação ouvimos esses especialistas que peroram sobre as máscaras, sobre as viseiras, sobre os perdigotos, sobre os desabafos intestinais, sobre as estatísticas, sobre os ventiladores, sobre os medicamentos, sobre morcegos e ratos, sobre vacinas e testes serológicos, sobre a peste negra e bubónica ou sobre a gripe espanhola, vulgo pneumónica… Eu sei lá? No entanto, tirei-me de cuidados e conversei com um cientista sério e a sério. E que me disse ele? Que ninguém sabe nada, verdadeiramente. Até a respeitada revista “Lancet” teve de reconhecer a dificuldade em dizer algo de relevante, dando o dito por não dito. Talvez daqui a algum tempo possa haver alguma coisa de relevante. Mas para já, apenas podemos proteger-nos. Prevenir é a única palavra de ordem. É que o vírus não é um bicho. Não é um ser vivo. Em latim, vírus significa veneno ou toxina. É um agente infeccioso com 20-300 nanómetros de diâmetro, apesar de existirem vírus ɡiɡantes de (0.6–1.5 µm), sendo constituído por uma ou várias moléculas de acido nucleico. Disse esse meu amigo e eu anotei religiosamente (mas mal percebi) que os ácidos nucleicos dos vírus apresentam-se geralmente revestidos por um envoltório proteico formado por uma ou várias proteínas, que pode ainda ser revestido por uma espécie de envelope formado por uma dupla camada lipídica… Não me peçam para explicar. O que sei é que fora do ambiente intracelular os vírus são inertes… Qual o perigo? Nas superfícies não duram muito tempo, e no ar mantêm-se tempo suficiente para se transmitir pelas vias superiores respiratórias. Mas, uma vez dentro das células, a capacidade de replicação dos vírus é surpreendente: um único vírus é capaz de multiplicar, em poucas horas, milhares de novos vírus. E os vírus são capazes de infetar seres vivos de todos os domínios, inclusive bactérias. Daí todas as dificuldades. Eis por que razão tenho o maior cuidado com a minha máscara e com o lavar das mãos… De facto, os vírus representam a maior diversidade biológica do planeta, sendo mais diversos que bactérias, plantas, fungos e animais juntos. Quase 200 mil tipos diferentes de vírus se espalham nos oceanos do mundo. Por exemplo, a última contagem é 12 vezes maior do que o censo anterior de vírus marinhos registado em 2016. Esse meu amigo, que, como diria o saudoso Bocage, não era um doutor das dúzias, fez-me compreender como esses especialistas falam barato do que não sabem e peroram sobre o que não existe. Assim se entende que o Senhor Donaldo Trump se aventure num campo difícil e minado, como se fosse um verdadeiro especialista – falando de desinfetantes e aconselhando práticas mortíferas para os mais incautos. Alguns que o seguiram foram levados a perigosas lavagens ao estomago. O mesmo se diga do Senhor Bolsonaro e de tantos outros, que na Idade Média teriam emprego certo como bobos ou como charlatães… Percebe-se assim que estes especialistas que nos invadiram têm onde se inspirar.  E percebem-se as cautelas postas pelos verdadeiros infeciologistas, que são os primeiros a dizer que muito pouco se sabe ainda sobre este tema. Todo o cuidado é pouco. Andamos todos às apalpadelas – que o diga este momento de grande incerteza. De facto, ainda a procissão vai no adro. E não podemos facilitar. Ninguém se julgue imune. A ciência sabe muito pouco. Por isso os falsos especialistas são como esse Gaston, que um dia se lembrou de organizar um arquivo com o mais estranho dos instrumentos – uma ventoinha… O resultado dessa operação é exatamente a que suspeitam..… Está tudo dito… É assim também com estes doutores da mula ruça. Quando virem e ouvirem um destes especialistas ilusórios ponham-se de sobreaviso.

 

Agostinho de Morais