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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ANTOLOGIA

  


SIC TRANSIT GLORIA MUNDI…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim: 


Prolongo esta estadia em Viena, "noblesse oblige". Mas também me dá tempo para voltar à ópera, desta vez na Grosses Spielhaus, em Salzburg. Ontem, tive uma "Salomé", do Richard Strauss, dirigida pelo Karajan. Valeu muito mais pela música e pela direção nervosa do maestro do que pela encenação. De certo modo, o Herbert von Karajan parece ser feito para esta "Salomé" que, aliás, dirigiu pela primeira vez há quase meio século, tinha ele 21 anos, e eu poucos mais. Então, como agora, tremi naquele monólogo final da filha de Herodíades, dirigindo-se à cabeça cortada de S. João Baptista: "Ah! Ich habe deinen Mund geküsst, Jochanaan!" Beijei a tua boca e os teus lábios tinham um sabor amargo... Seria o gosto do sangue? Não! Talvez fosse o gosto do amor, dizem que o amor tem um sabor amargo. Hoje, aproveito a minha folga da noite para ficar no quarto do Hotel Sacher a ler as notas do programa e o libreto. E sou recordado do drama de Oscar Wilde que inspirou a trama da ópera, e da sua relação ao poema "Hérodiade" do Mallarmé e ao "À Rebours" do Huysmans, onde se descrevem duas pinturas do Gustave Moreau: uma representando a dança dos sete véus  -  a que Strauss dedica, na partitura, uma suite para orquestra que durará cerca de dez minutos  -  e outra intitulada "L’Apparition", em que a Salomé, vinda do Evangelho de S. Mateus, ganha novas proporções: "Ici, elle était vraiment fille; obedecia ao seu temperamento de mulher ardente e cruel; vivia,mais refinada e mais selvagem, mais execrável e mais delicada; despertava mais energicamente os sentidos em letargia do homem, enfeitiçava, domava com mais segurança as suas vontades, com o seu encanto de grande flor venérea, crescida em solos sacrílegos, cultivada em estufas ímpias". E Oscar Wilde, achando demasiado dócil a Salomé das escrituras, dirá que será por isso que os séculos seguintes foram depositando a seus pés sonhos e visões que a convertessem na "cardinal flower of the perverse garden"... Assim me ocorreu a tese do Jean Guitton, de que já te falei, sobre o tema do amor na literatura, a transgressão de Tristão e Isolda divinizada pela tradição romântica ou romanesca. Finalmente, talvez pela evocação de Huysmans ou de Mallarmé (já verás porquê), chego ao Tolstoi de "O que é a arte?", que vou lendo agora. Confesso que é bem possível que este encontro se deva a ti, que me habitas o pensamento e o coração e comigo percorres estas divagações... Foste tu quem me sugeriu esta visita a Tolstoi. Para ele, o apagamento da consciência religiosa e a perda da fé nas classes mais altas da sociedade europeia, em conjugação com a separação entre a arte que lhes dá prazer e a tradição da arte popular, reduziram a emoção estética ou artística a três sentimentos básicos e pobres: orgulho, desejo sexual e tédio da vida. O sentimento do orgulho surge na Renascença, com a arte paga pelos ricos feita em seu próprio louvor e enaltecimento; depois veio a exaltação da carne como motor da produção artística e literária; finalmente, o cansaço de tudo isso, o tédio de viver. E nessa viragem do século XIX para o XX - em que, quiçá?, as filosofias de Nietzsche e Schopenhauer serão já proféticas do orgulho, do pessimismo, do medo e da destruição resultante - o Leão russo ruge e zanga-se com os literatos (sobretudo franceses), Mallarmé e Huysmans, Baudelaire e Verlaine, Zola, etc... Com os compositores, desde a última fase de Beethoven ao Richard Strauss, passando por Wagner, Brahms e Liszt... Para ele, tudo lhe parece pornografia e decadentismo, bem longe do que foram as obras de Goethe, Schiller, Victor Hugo, Dickens, Mozart, Bach, Chopin, da Vinci, Rafael ou Miguel Ângelo... muito embora morda nalgumas dessas ou encontre a desculpa de que as massas populares não as teriam sempre entendido por estarem deficientemente educadas! Subjacente a esta raiva crítica está a inspiração evangélica e a profunda solidariedade humana do desejo tolstoiano de um mundo novo. Será utópico, talvez risível. Mas vindo de um aristocrata russo que morreu sete anos antes da revolução de 1917 - curiosamente, em 1910, quando Sir Thomas Beecham dirigiu, no Covent Garden de Londres, a "première" da "Salomé" de Strauss - tem ela, pelo menos, o mérito de nos incomodar... Nós que, diletantemente, nos entregamos ao gozo privilegiado de tanta literatura, espetáculo e artes plásticas, que o dinheiro paga para nosso bel-prazer, e não nos apercebemos de como a celebração de novidades, efemérides ou gostos raros - tal como certas práticas e ritos bacocos de pietismos em que pretendemos encerrar, para consumo próprio, a grandiosidade generosa e abundante do divino - nos afastam dos outros e nos reduzem. A arte, em todas as suas formas e manifestações, deve ser uma procura - simultaneamente dolorosa e alegre, como um parto - da comunicação. É partilha. Leio contigo este passo de "O que é a arte?" de Tolstoi: "Em consequência da descrença das pessoas das classes altas, a arte dessas pessoas tornou-se pobre em conteúdo. Mas, além disso, tornando-se cada vez mais exclusiva, tornou-se por esse motivo mais complicada, extravagante e obscura. Quando um artista do povo - como eram os artistas gregos e os profetas hebreus - criava a sua obra procurava evidentemente dizer aquilo que tinha para dizer de maneira a que a obra dele fosse compreendida por todas as pessoas. No entanto, quando o artista criava para um pequeno círculo de pessoas que viviam em condições excecionais, ou até para um indivíduo e os seus cortesãos, para um papa, um cardeal, um rei, um duque, uma rainha, uma amante do rei, empenhava-se naturalmente em produzir efeito apenas sobre essas pessoas que lhe eram conhecidas e que viviam em condições que também lhe eram conhecidas. Este método mais fácil de despertar sentimentos conduzia involuntariamente o artista a expressar-se por alusões incompreensíveis para todos a não ser para os iniciados..." (Tradução do russo por Ekaterina Kucheruk, para a Gradiva). Sem concordar com todos os pressupostos da análise de Tolstoi, confesso que, muitas vezes, até a simples leitura de crónicas ou resenhas críticas publicadas nos jornais me causa o desconforto de me sentir metido numa conversa que não me diz respeito. E é verdade que os círculos artísticos e literários tendem a produzir linguagens e modos herméticos e "sectários". Um pouco como aqueles adolescentes que se reúnem na zona de Shibuya, em Tokyo, e falam entre si um "japonês" inacessível até para seus pais... Não creio que a arte possa ou deva ser elitista e exclusiva. Antes penso que a arte é a procura da perfeição, de modo a que a expressão do belo se torne numa mensagem universal, comunicante e libertadora. O artista não impõe nem define. Desperta. Nesse sentido a obra de arte é, como a graça de Deus, um apelo, uma chamada. Quem contempla uma gravura ou escuta uma sonata não sentirá exatamente o impulso ou a ideia do autor, mas é pela obra deste libertado para o sentimento ou a contemplação de uma perfeição sempre imperfeita, porque sempre procurada. Volto ao nosso Ortega y Gasset: "El hombre es un trânsfuga de la naturaleza". Somos viandantes, precisamos de estrelas. E para as vermos, temos de olhar para cima. A importância da educação literária, musical e artística é esse convite a olhar para cima. E, também, a de ensinar que a busca da perfeição das coisas e das belezas do espírito é - como o amor e a ternura - difícil. Nesse sentido, o artista, como artesão, é um asceta. Um canteiro de flores ou uma horta bem cultivada, tal como uma mesa ou uma ponte bem construídas, ou um saboroso almoço, são obras de arte também. Feitas pelo trabalho dos homens, sujeito ao gosto e à disciplina de fazer melhor. Vou buscar ao "Pour une Théologie du Travail" do Padre Marie-Dominique Chenu um texto do teólogo oriental São Máximo (morto em 668) que o teólogo dominicano apresenta assim: "Ao contrário dos Padres latinos, que, sobretudo com Santo Agostinho, se agarraram à interioridade do homem contra as dispersões do mundo exterior, os Gregos prestavam grande atenção à relação do homem com a natureza. Retomando um dos grandes temas antropológicos da Antiguidade, definiam o homem como um "microcosmos": o homem recapitula em si os elementos e os valores do cosmos; recapitula-os estaticamente, no cimo de todas as naturezas; recapitula-os, graças a essa comunhão física e vital, dinamicamente, numa escalada hierárquica para a Unidade suprema." Minha Princesa: eu diria, do artista, isto que São Máximo aqui diz do homem: "O homem é uma oficina viva, em permanente continuidade de ação, em todos os seres. Através das realidades mais diferentes e segundo toda a sua diversidade, ele é, por si mesmo e em natureza, no bem e na beleza, segundo a génese de cada ser, o artesão da unificação delas... ...Essa potência unificadora, exercendo-se na causalidade do devir desses diversos seres, revela, cumprindo-o, o grande mistério do plano divino; porque determina harmoniosamente a coerência mútua dos seres opostos, dos mais próximos aos mais longínquos, dos menores aos maiores, e assim os conduz por um regresso progressivo à sua unidade em Deus...” Nas suas viagens pelo mundo, Camilo Maria, além de uma maleta de cabine em que levava alguma leitura e papel para escrever, e da mala da roupa, tinha sempre outra, mais pesada, cheia de livros. Quando lhe perguntavam o que nela trazia, invariavelmente respondia: "É a minha maquilhagem!"  


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 13.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


ONDE SE FALA DO «RAPTO DO SERRALHO»…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:

Já passou meia semana da minha estadia em Viena, no Sacher. Encontrei cá, imagina!, o nosso Camilo português, que integra uma delegação a uma reunião interministerial da EFTA, cuja presidência é, neste momento, austríaca. Íamos todos a sair -  eu e uns cinco portugueses - aqui do hotel para... (é só atravessar a rua!)... a Wiener Staatsoper, onde assistimos a uma magnífica "Die Entführung aus dem Serail", dirigida pelo Karl Böhm. "O Rapto do Serralho" tem sido, desde a sua estreia no Burgtheater de Viena, a 16 de julho de 1782, uma (senão a) das mais populares e representadas óperas de Wolfgang Amadeus Mozart. Tem um sabor especial vê-la aqui, nesta cidade que os turcos otomanos tentaram por quatro vezes conquistar, a última das quais em 1683. Vive-se mais esse sentimento do "turco", como receio de ameaça secular, mas como curiosidade também, e gosto do exótico e certas modas, incluindo a pastelaria que até toma a forma do crescente ("croissant"). E essa desforra popular ("folclórica") que faz do tema do sultão apaixonado pela bela europeia cristã, que o repudia e engana, o "leitmotiv" de contos e peças de teatro, de inúmeras "singspiele" e óperas... O mesmo Mozart, antes do "Rapto", compusera uma "singspiel", cuja heroína é Zaïde - nome que daria, mais tarde, o título a essa opereta incompleta - escrava cristã do harém do sultão Solimão, de onde foge com o seu amante Gomatz, com a cumplicidade de Allazim, "renegado" cristão, hoje braço direito de Solimão. Apanhados pelo feroz Osmin (que reaparecerá no "Rapto"), capitão da guarda do sultão, serão, mais uma vez, salvos pela intercessão do "renegado". Este, na verdade, quando comandava um navio espanhol no Mediterrâneo, livrara a galera turca - em que Solimão, ainda jovem, seguia - de um ataque de piratas. Mas, enquanto a galera turca pôde assim fugir do perigo, o vaso de guerra espanhol foi surpreendido por uma esquadra de piratas, e Allazim, depois de preso, vendido como escravo ao próprio sultão e obrigado a converter-se... Surpreendido pela revelação de que Allazim fora o seu salvador, Solimão é clemente e salomónico: Zaïde e Gomatz são perdoados e poderão partir; mas Allazim deverá ficar com ele, pois maior amigo não tem nem pode ter! "Dein Edelmut, Allazim, hat den weg zu meinem Herzen gefunden... A tua nobreza, Allazim, encontrou o caminho para o meu coração. Um muçulmano pode ser tão generoso como um espanhol! Libertai-os, portanto, e conduzi-os a um navio que veleje até à pátria deles. Adeus Zaïde, adeus Gomatz. Procura ser digno dela. Mas tu, Allazim, não me deixes. Ajuda-me a tornar-me tão nobre como tu. Isto não é ordem de senhor, é pedido de irmão." Assim acaba a "Zaïde". Esta história leva-me à bacia do Mediterrâneo nos séculos XV a XVIII, tal como a descreve Fernand Braudel. E a outras histórias de corsos, razias, raptos, apostasias e regressos, escravizações e resgates, conflitos, tréguas e alianças. Lá irei, é fabulosamente tentadora a viagem por esse mundo em que judeus, muçulmanos e cristãos - e tantos povos e etnias da Europa, do Médio Oriente e do Norte de África - se relacionaram. Mas vou primeiro ao tema das óperas: a paixão não correspondida do sultão pela europeia, a tentativa de fuga desta com o seu namorado, a perseguição movida pelo carrancudo, vingativo e ambicioso capitão de guardas, o inesperado intercessor, a magnanimidade final do altivo soberano muçulmano, tudo isto se repete - desde a "singspiel" de Christoph Friedrich Bretzner "Belmonte und Konstanze oder die Enfuhrung aus dem Serail", levada à cena em Berlim com música de Johann André - em inúmeras realizações de compositores do século XVIII. E tem analogias com obras de Gluck ("La Rencontre Imprévue"), Haydn (“L’Incontro improviso”) e ainda "L’Italiana in Algeri" ou "Il Turco in Italia" do Rossini (onde a heroína, aliás, se chama Zaida)… A "ameaça" otomana pesou seriamente sobre a Europa cristã durante século e meio, desde a tomada de Constantinopla em 1453 até ao tratado de Carlowitz, em 1699, que devolveu a Hungria e a Transilvânia aos Habsburgos austríacos. Pelo meio, estiveram os reinados de Carlos V (1516-1556) e de Solimão, o Magnífico (1520-1566), com a autoridade do imperador cristão contestada por Francisco I de França, que se aliou aos turcos, com desfeitas de um e de outro lado. Antes e depois da batalha naval de Lepanto (1571), quando a coligação da Santa Liga, organizada pelo papa S. Pio V e comandada pelo bastardo João de Áustria, travou o avanço otomano. Já Carlos e Solimão não estavam cá. Nem François. Por entre conquistas e reconquistas, vitórias tão efémeras como derrotas, movia-se o corso e a pirataria, o comércio "internacional", com e sem carta. Como o dos Barbaroxa. E iam caindo nas redes dos interesses políticos e mercantis uns surpreendidos pela ganância dos outros. Mais ou menos inocentes ou aventureiros, desde meninos e meninas colhidos nas razias costeiras até tripulantes e guerreiros em navios de combate ou comércio. Ou prisioneiros de guerra, como portugueses depois de Alcácer-Quibir (1578). Surge daí um universo de destinos vários, tratados, muitas vezes, mesmo pela Santa Inquisição, de modo mais tolerante e benévolo, do que o reservado aos hereges cristãos, ou aos judeus e marranos, na cristandade: protestantes e judaizantes eram uma sabotagem interna; renegados, circuncisos conforme a lei islâmica, podiam ser um alívio, uma diminuição das forças do inimigo. Mas também me parece que o grau de miscigenação - aliás estimulada, curiosamente, por ambas as partes, muito embora os maometanos tivessem alguma vantagem na oferta, aos homens, de um estatuto de relacionamento sexual mais...agradável - apontava para a possibilidade de assimilação afetiva, tanto mais eficaz quanto, em tempo de guerrilhas e incertezas, cada um poderia guardar no coração a sua fé, desde que convencionalmente praticasse publicamente os rituais próprios da religião do seu príncipe... Já agora: não foi assim que se resolveram guerras de "religião" na Europa cristã coeva?  Entre papistas e reformados: "Ejus religio cujus regio". Li algures que Gaspar Ramos, um pagem português, feito prisioneiro em Alcácer-Quibir, foi levado à conversão à fé maometana pelo seu novo senhor, alcaide do rei vencedor El Mansour. Anos mais tarde, depois de circunciso, foi-lhe dada em casamento uma jovem moura. Com ela terá regressado a Portugal, ao cabo de trinta anos, em 1610, para viver na cristandade. Contei esta casualidade ao nosso Camilo. Sorriu e disse: "Por essas e outras, o tio ainda vai levar na touca..." Retorqui: "Na minha idade, posso levar à vontade, tenho cabeleira robusta. Mas tu, meu rapaz, já estás muito careca: não desenvolvas este nem outros temas, no teu jeito platónico de que a ideia tem sempre prioridade..." Mudei-lhe o sorriso em riso amigo. Mas receio que, quando chegar à minha idade, tenha desgostos. Sobretudo se não corrigir esse gosto de abrir, sem preconceitos, os olhos ao mundo. É tarde, vou dormir, bem preciso. Mas voltarei a partilhar contigo estas e outras histórias, em mil e uma noites...de insónia, em que só as estrelas nos falam."


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 09.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


NO DESERTO CRESCE O MEU DESEJO
por Camilo Martins de Oliveira 


Meti a última carta do Marquês de Sarolea à Princesa de... pelo meio das outras - daquelas que já publiquei e das que irei publicando - por razões difíceis de explicar, a menos que me atreva a revelar uma intuição minha. Vale o que vale, mas cuidei de ver se seria ligeira ou temerária; creio que não é, antes se foi afirmando ao meu "pensossinto" (como diria Camilo Maria)... Ao reler, à luz dessa última carta (a que só mais tarde tive acesso), não só todas as que foram enviadas, como as endereçadas a "Minha Princesa de mim" e que nunca seguiram, ocorreu-me o sentimento fortíssimo de que a Princesa de... era, sim, a destinatária de todas as confidências, mesmo daquelas que se refeririam a outra (outras?) mulher. Camilo Maria - que era metódico e pontual - não gostava de viver no tempo. Considerava a sua circunstância, e comportava-se nela com o respeito devido aos outros e, sobretudo, aos seus próprios compromissos, mas criara para si um espaço de liberdade interior, onde respirava e vivia fora do tempo... Tudo o que aqui digo se encontra, latente ou patente, conscientemente escrito nas suas cartas. Nunca se casou com a "sua" Princesa, nunca viveram juntos, e só eles poderiam saber das intimidades que pudessem ter tido. Ele nunca falou disso, aliás era discreto e, apesar de ser homem por quem - dizia-se - muitas senhoras teriam caído, nunca ninguém lhe ouviu uma insinuação, um canto de galo. Conhece-se-lhe o fundo desgosto que lhe deu a morte prematura do filho único, e o amor carinhoso com que nunca faltou a sua mulher, cedo levada por essa grande dor que, de uma ou de outra maneira, um dia toca a nossa vida. Mas cartas de amor... não sei se escreveu outras! Só lhe conheço estas. Soam-nos no coração como confissões íntimas, ou como se fossem ditas no impulso de um mergulhador quando chega à tona de água e abre a boca. É certo que falava de tudo, tudo lhe interessava e gostava de partilhar. Mas quando falava de si, dirige, a uma única pessoa, lembranças, sentimentos, visões, esperanças íntimas, coisas que se poderiam ter passado ou ser ditas a outras, mas ele só sabe dizer à que, ele mesmo, chamou "misterioso, inesperado encontro"... Era, ou não era, essa pessoa, a destinatária das cartas? Recebeu-as pelo correio, certamente: a ela eram endereçadas. Tê-las-á recebido na alma? Terá a Princesa entendido que aquele amigo lhe dizia: "Preciso de ti, não sei porquê, pus em ti uma confiança essencial à comunicação que sempre quis ter e nunca alcancei..." Com esta confissão, começava Camilo Maria uma carta cronologicamente anterior à última que enviou à "Minha Princesa de mim". E continuava: "Despi-me, para ti, de qualquer defesa e, por ti, cobri as distâncias todas que me deixariam invulnerável. Eis-me. Não escondo, não minto, não disfarço, não calculo, não peço compensação. Espero, como quem grita nas montanhas do meu Tirol e aguarda o eco. Amor é o nome que damos ao que não tem idade e vem da fé cuja esperança é a recompensa invisível, que não se merece nem obriga. Nasceu connosco, no coração da existência. Como condenação a não sermos condenados. O amor humano é procura e sinal. Como no "Cântico dos Cânticos", poderia dizer-te o grito que lanço a Deus:

"No deserto cresce o meu desejo,
por ti tantas vezes destemido.
És a minha fome e o meu pedido
de ver-te, Senhor, a quem não vejo...

Minha sede é seres, e só procuro     
a fonte da sede que me dás: 
no desejo de ti, vivo e duro, 
na sede da sede que me traz

este deserto em que sou  despojo,
lixo de ser graça do teu nojo...
Esqueleto ebúrneo me levanto,

branco de areia, de morte e espanto,
e de mim te grito a minha fome!
E sei que te chamo pelo teu nome!"


Ecce homo! Mas ele não é o que a turba vê, ou julga ver. É, tão simplesmente, esse pobre de tudo que os olhos do nosso coração poderão acolher no coração de Deus. Recordo os versos finais da "Elegia do Amor", do poeta português Teixeira de Pascoaes, que o Alberto proclamava ser o mais lindo poema de amor do mundo: "Vivo a vida infinita, / Eterna, esplendorosa. / Sou neblina, sou ave,/ Estrela, azul sem fim, / Só porque um dia, tu,/ Mulher misteriosa, / Por acaso, talvez, / Olhaste para mim." Depositada esta carta de Camilo Maria, corro a outras, que contam factos do mundo exterior e mais maravilhas.      


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 06.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA


COM HISTÓRIA E COM MISTÉRIO…

por Camilo Martins de Oliveira


Minha tão linda Princesa de mim: 

Neste ano em que talvez me morra, nesta manhã tão cheia de sol amigo, vejo as primeiras andorinhas de uma primavera que tardou. Estou deitado, pedi que me abrissem as largas janelas do quarto, para te escrever à luz firme de um novo dia cheio de promessas. Sinto a tua mão ausente quentinha na minha. Há quantos anos me disseste, num aconchego assim, que eras a Violaine de "L´Annonce faite à Marie"? E porque seria que te senti então como te sinto agora? Porque percebi - ou não percebi de todo, não sei, meu querido amor, não sei nada do mistério das almas delicadas - que eras a Violaine que, a Mara, que lhe perguntara: "Violaine c’est mal! as tu peur que nous te touchions? Pourquoi nous traites tu ainsi comme des lépreux?" respondia:" - J´ai fait un voeu... ...Que nul ne me touche. " E porque te ofereci eu então, do mesmo Claudel de que até nem gosto muito, em edição do "Livre de Poche", "Le Soulier de Satin?" Seria o cetim dos teus passos? O silêncio generoso com que me entraste na vida? Uma adivinha de mim? Fui eu quem te escreveu assim: "Dá-me versos, dá-me flores / Põe-nos no meu coração... / E no dia em que lá fores / À campa dos meus amores / Enfeita-a pela tua mão... / Dá-me sorrisos e vinho /  E o fundo do teu olhar... / Vem até mim de mansinho / E verás como adivinho / Os passos do teu andar... / E quantas estrelas tiveres / Guarda-as bem na tua mão: / Que na hora em que vieres / Nessa noite que escolheres / Te veja meu coração!" Será assim? Volto a Paul Claudel, e medito: "L’ombre m’atteint, mon jour terrestre diminue. / Le passé est passé et l´avenir n´est plus." Cobre-me a sombra, diminui-me a vida. O passado passou e o porvir não ficou. Estou só. Sorrio lendo as duas citações com que Claudel apresenta o seu "Sapato de Cetim": "Deus escreve direito por linhas tortas" (provérbio português); e "Etiam peccata" (Sto. Agostinho). Repetem-se os pecados, mas Deus vai escrevendo... E eu também escrevo, aqui deitado. Pouco mais posso ou sei fazer. Já nem me lembro das minhas longas caminhadas, dos passeios que dava, em passos perdidos que eu não contava para que não tivessem fim. Eram a minha liberdade, o ritmo do meu silêncio ininterrupto. A minha comunhão. O modo de ser eu e estar com tudo, uma procura física da paz. Abria-me ao vento, à chuva, ao sol, enchia-me de ar e mar, tornava enorme a minha pequenez. Era soprado, sentia-me pertencer à vida. Hoje, só numa qualquer peregrinação interior de mim que de mim me tire eu poderei talvez reencontrar essa liberdade de ser, essa paz que é a harmonia de mim com, de mim e... Mas sou tão feio, meu amor, sei que sou horrivelmente feio, tão desamparadamente só! Não tenho alibis, não os gosto, nem os procuro... O inferno de Sartre nunca existiu, o inferno não são os outros, é cada um de nós. Somos nós na prisão de nós mesmos. É a solidão essencial. Assim penso e muitas vezes o disse. Ontem, antes de me recolher, percorri estantes de livros que, ao longo de tantos anos, se foram depositando nesta casa. Entre outros, peguei no "Vaste Monde, Ma Paroisse" do frei Ivo Congar, título que glosa o britânico John Wesley: "I look upon the World as my Parish". Empurrado por uma curiosidade infantil, reli o capítulo "L´Enfer existe, mais il n´est pas celui des diablotins cornus". E a certo passo: "A ontologia do céu é o amor, a comunhão e a ação de graças; a da terra é a possibilidade de livre decisão, é a fé e a esperança, a possibilidade de tudo correr melhor amanhã, a possibilidade da conversão. A ontologia do inferno é a permanência numa vida destituída de significado e esperança. Uma vez mais, Dostoïevsky tem sobre tudo isso páginas de extraordinária profundidade". E cita passos das reflexões do monge Zózimo em "Os Irmãos Karamazov": " O que é o inferno? É o sofrimento de já não poder amar. Uma vez só, na vida infinita que não podemos medir, nem no tempo nem no espaço, foi dada a um ser espiritual, pelo facto de ter aparecido cá em baixo, a possibilidade de dizer: Sou e amo! Uma vez, apenas uma vez, lhe foi dado um instante de amor ativo e vivo, e para isso lhe foi dada a vida terrestre nos seus limites temporais..." "How do I love thee? Let me count the ways. / I love thee to the depth and breadth and height / My soul can reach, when feeling out of sight / For the ends of Being and Ideal Grace." Assim começa um dos "Sonnets from the Portuguese", que Elizabeth Barret Browning escreveu a Robert Browning, seu marido. O próprio título da coletânea ("Sonetos da Portuguesa") é uma referência à autora: Robert chamava carinhosamente a Elizabeth "my little Portuguese", desde que lera o seu poema "Catarina to Camoens". É imenso esse amar assim, com a profundidade, a largueza, a altitude a que a alma pode chegar, até aos confins do Ser e da Graça... John sobreviveu 28 anos a Elizabeth e nunca mais se casou. Usava dizer que tinha o coração em Florença, enterrado com ela. Amou-a sempre. Ainda hoje se amam. No seu "L´amour humain" que as "Éditions Montaigne" publicaram em 1948, o académico Jean Guitton defende que três grandes temas definiram o amor no decurso da História: o platónico, o salomónico e "Tristão". A análise que faz do amor expresso por heróis e heroínas da literatura europeia, a que chama romântico ou romanesco, é a do amor apaixonado e transgressor, cuja genealogia, como apontou Denis de Rougemont (em "L’Amour et l´Occident") se enraíza no mito medievo de Tristão e Isolda. Tem muita erudição, revela um extenso e sólido conhecimento da filosofia e literatura ocidentais. Peca, a meu ver, por alguma precipitação moralizadora... Pela mesma preocupação com chegar depressa ao santuário, Guitton, cotejando "O Banquete" com o "Cântico dos Cânticos", lhes vai empurrando o desenvolvimento até à epístola aos Efésios, em que S. Paulo afirma que o amor humano comunga no mistério do amor de Cristo e da Igreja, de Deus e dos homens. Mas diz bem quando observa que "Platão não se interessa tanto pelo amor como pelas vibrações que o amor produz, na alma, ao socorro que o fervor oferece às aspirações do espírito. O amor é o meio do êxtase, uma espécie de intermediário, ou, como ele diz, um "demónio" que assegura a subida para o inteligível. Nessa perspetiva, ser amado não é senão uma ocasião e um excitante com vista a atingir um contentamento onde já não é necessário que permaneça, onde isso até é inoportuno, porque a sua experiência sensível viria perturbar o êxtase. É uma centelha que suscita um fogo que depois se sustenta de si próprio. Compreende-se que Platão não tivesse dado grande atenção à qualidade do indivíduo que vai suscitar o amor. O ser amado só existe para ser incessantemente ultrapassado; e se chamamos dialética a um processo que só atinge para ultrapassar, podemos dizer que o amor platónico é a própria dialética: devemos passar do amor dos belos corpos ao das almas belas, do amor das belas almas ao do Bem supremo, que não tem forma..." A menos que, lembrados do verso cruel de Ovídio ("nec sine te nec tecum vivere possum") nos aturemos na terra, conforme as nossas capacidades e circunstâncias. Dizer ao ser amado - ou pensar com ele - que "nem sem ti nem contigo posso viver" é prova de sabedoria: cá em baixo, o amor-perfeito é uma bela flor. Frágil. O outro, o amor humano, será perfeito quando Deus quiser. Se os amantes deixarem. Ouço o sino meridional da aldeia, lá longe, tocar o "angelus". É uma promessa". Esta foi a última carta de Camilo Maria à sua Princesa. Não estava no maço que esta entregou com o pedido de algum expurgo e publicação, que tenho respeitado e levarei a termo. O Marquês de Sarolea escrevia muito, comunicava mesmo quando não enviava os seus escritos. Tenho aqui muitas cartas que a Princesa não terá lido. A que acima traduzi, lia-a ela ainda anos depois da morte do remetente. Apanharam-na, do seu regaço, as criadas que, ao levarem-lhe o chá, a encontraram, direita na sua cadeira de braços, serenamente morta, em florida tarde de primavera.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 02.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

otello.jpg

 

   OTELLO NO METROPOLITAIN

 

Minha Princesa:

 

Fui esta noite ao MET, ao "Otello" do Verdi, com o Placido Domingo, a Renata Scotto e o Sherrill Milnes. Um elenco fabuloso para interpretar a que muitos consideram a obra-prima do compositor. Das três grandes óperas verdianas inspiradas em Shakespeare (o seu "poeta preferido")  -  "Macbeth", "Otello" e "Falstaff"  -  a primeira tem libreto de Francesco Maria Piave, ambas as outras de Arrigo Boito.

A intensidade da fúria e do desejo, a potência do mal e da loucura nas personagens do dramaturgo inglês leva Verdi, logo na Macbeth, a carregar com força dramática a expressão das vozes. A tragédia de Otello será, mais tarde, o exemplo mais poderoso da grandiosidade musical com que Verdi interpreta o drama shakespeareano. E é curioso observar como, na "Falstaff", a escrita musical trata uma comédia complexa com registos mais clássicos ou convencionais mas, simultaneamente, se serve de uma linguagem bem nova. Por outro lado, o clima tenebroso que envolve as conspirações sinistras e os desenlaces trágicos das outras peças impõe-se desde o início, quer em "Macbeth", quer em "Otello": na primeira, uma tremenda tempestade rompe a noite, no bosque em que Macbeth se encontra com as bruxas; na segunda, o navio em que arriba o vitorioso Otello é surpreendido por uma terrível agitação do mar e dos céus, que quase o leva ao naufrágio... Em ambos os casos, a força sugestiva da música coloca-nos logo num ambiente para o qual a simples representação teatral talvez não conseguisse empurrar-nos tanto.

Achei também graça ao facto de ter assistido à "Otello", no dia seguinte à "Candide": lembrei-me do Voltaire que pretendia imitar Shakespeare,que invejava e chegou a insultar. Mas continuo com os ouvidos e o coração cheios do impossível protesto de amor de Otello (Placido Domingo) quando se suicida junto ao corpo de Desdémona:
"Pria d´ucciderti...sposa...ti baciai. / Or morendo...nell´ombra... ov´io mi giacio... / Un bacio... un bacio ancora... un altro bacio..."
Antes de matar-te, mulher, eu te beijei... E ao morrer agora,na escuridão em que caio...um beijo...um beijo ainda...outro beijo!

Na "Traviata" (cujo libreto, inspirado em Alexandre Dumas, é, como o da "Macbeth", de Francesco Maria Piave), a Violetta moribunda parece ressuscitar com o beijo de Alfredo, redimida pelo amor e perdão recíproco. Mas no drama shakespeareano a força do mal é irremediavelmente destruidora. Somos, tu e eu, fisicamente mais nórdicos do que parecidos com os nossos antepassados ibéricos e italianos. Serei também mais germânico, se assim posso dizer, na disciplina mental. Mas no imaginário, muitas vezes me custa acompanhar com o coração essas histórias tenebrosas, vindas da bruma cinzenta de florestas negras, ou duma qualquer escuridão da alma, sem sopro de brisa amena nem calor amigo do sol. Nem a leitura de Nietzsche  - ou de Freud  -  me convenceram do triunfo do reino subterrâneo sobre a alegria da luz que abre as flores.

Ouço Wagner  -  de cuja música tão sentidamente gosto  -  mas recuso-me, intimamente, com todas as varas da minha alma, a satisfazer-me com esse modo do orgulho que não nos deixa transpor o limiar da esperança. Gosto do sol, como os Incas de "Le Temple du Soleil" do Tintin, e todos os outros que o têm celebrado, mais os egípcios e mesopotâmicos, os povos dos confins do mundo, com a mesma esperança de Noé e os da sua arca... E com o conforto de um banhista de domingo!

A  família Shakespeare era, na Inglaterra anglicana e puritana de Isabel I, católica. Ele também seria, mas como judeus e marranos na Ibéria, huguenotes em França  -  e de todos uns poucos pela Europa em guerra de religiões  -  temeria manifestar a sua confissão. Ou, quiçá, a confusão de tudo, inimizades e ódios partidários, o tivessem levado até ao ponto de esquecer a fé. E a esperança.

Ao dramaturgo, o público pede dramas "históricos", Hamlets, Ricardos III e Henriques, por vezes heróis  mais ficcionados: Otello, Macbeth. Ou, para fugir ao castigo, poderá deliciar-se com sonhos de uma noite de verão, ou tantas outras coisas para nada... Ou, ainda, as alegres viúvas de Windsor, esse gozo de um bode expiatório de tudo o que não sabemos resolver nem, sequer, aproximar em jeito de humanidade sentida com os outros.

Como Voltaire no seu "Candide ou l´Optimisme"... Será que o amor vale a pena? Será ele o gesto possível para a redenção do nosso egocentrismo?

"Otello" conta-nos o poder do ódio, a diabolização do outro. Todo o enredo decorre da conspiração oculta de Iago, tudo resulta, finalmente, da perniciosa vontade do mal. O mal conspurca tudo, tudo destrói e mata. Um enredo insidioso e torpe, gerado pela inveja de Iago  -  preterido, por Otello, a Cassio na promoção a capitão  -  sacrificará vidas, baralhando e confundindo a comunicação que é mãe da confiança e a essência do amor. E canta agora, nesta minha cabeça velha e cansada, a memória da "Ave Maria, piena di grazia" da Desdémona, no acto IV do "Otello", na voz de Maria Callas, num disco que deixei em casa: "...eletta fra le spose e le vergine sei tu;sia benedetto il frutto,o benedetta,di tue materne viscere,Gesú." Reza por quem, adorando, diante de ti se prostra, reza pelo pecador e pelo inocente,e pelo débil oprimido e pelo poderoso  -  que é tão infeliz também!  -  mesmo a esse manifesta a tua piedade! Reza por quem, sob o ultraje e a malvada sorte, a fronte verga. E por nós, reza por nós, agora e na hora da nossa morte. Reza por nós, reza por nós, Ave Maria, na hora da nossa morte! Talvez Shakespeare, na noite de um dia, fechando os olhos, tivesse dito o mesmo, em inglês.

 

   Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 26.07.2013 neste blogue.

ANTOLOGIA

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MELANCOLIA DE UM ALEGRETTO…
por Camilo Martins de Oliveira


Diz Eduardo Lourenço: "o que eu sou como ser mortal (o que todos somos) está contido na melancolia absoluta do allegretto da Sétima Sinfonia". Diz-se que Pio XII, na agonia da sua morte, pediu para ouvir como companheiro de viagem esse segundo andamento da sinfonia de Beethoven. Escuto-o agora, em cálida tarde de sábado, enquanto me passeio por leituras... E surge-me a interrogação de Paul Gauguin, pintada em ilha perdida do Pacífico, quase nos antípodas de nós: "quem somos, donde vimos, para onde vamos?"


No percurso da leitura, deparo com dois títulos no El País: "Era como estar en una pelicula" e, páginas adiante,"Espacios libres de niños/ los hoteles y restaurantes solo para adultos experimentan um polémico auge/ la crisis acelera esta opción minoritária/ que el sector abraza para captar clientes". O primeiro título refere-se ao tiroteio mortífero num cinema de Denver; o segundo nem precisa de esclarecimento. Ambos, afinal, traduzem fatores culturais da crise em que mergulhámos. Assim, apesar de doutorando em neurociências, o jovem Holmes "assumiu-se", na estreia de mais um filme de Batman, como mais um herói da violência indiscriminada que, todos os dias, apetitosamente nos é servida pela "comunicação social"... Porque a exploração da fraqueza, do mimetismo, da debilidade mental dá lucro aos que vendem!


Também as crianças, como as coisas bonitas do passado e tantas do presente, todas essas que queremos livres, construtivas e fraternas, já são, ao que parece, obstáculo ao lucro... Talvez não fosse mau lembrar que esquecer os outros, a pessoa humana -- que é real -- por essa ideia matemática e abstrata que é o dinheiro, é, muito simplesmente, uma estupidez.

 

TERRA DOS HOMENS…


Nos anos 30 do século passado, meditando sobre o avião que pilotava, o desenvolvimento das máquinas e o advento de uma nova era técnica, Antoine de Saint-Éxupéry escrevia (cf. «Terre des Homme», III – L’Avion): "Só agora começamos a habitar esta casa nova que nem sequer acabámos de construir. Tudo à nossa volta mudou tão depressa: relações humanas, condições de trabalho, costumes. A nossa própria psicologia foi abalada nas suas mais íntimas fundações. As noções de separação, de ausência, de distância, de regresso, embora mantenham os mesmos nomes, já não contêm as mesmas realidades. Para apanhar o mundo de hoje, usamos uma linguagem estabelecida para o mundo de ontem. E a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza pela simples razão de que corresponde melhor à nossa linguagem"...


Em 1990, Jacques Le Rider publicava nas PUF o seu "Modernité viennoise et crise d´identité (1890-1938)", onde defendia que a modernidade vienense se tornou " numa das nossas referências estéticas e intelectuais mais importantes", por ter pensado a modernidade "como premonição do fim de um mundo". Situando-o no tempo, vemos como o movimento modernista vienense baliza uma crise que despoletou a queda das grandes monarquias da Europa central, os processos de industrialização e colonização aceleradas, as revoluções socialistas e anarco-sindicalistas, e os conflitos e vexames inerentes a tudo isso e que conduziram à hecatombe da 2ª Grande Guerra.


Para Jacques Le Rider, Schoenberg, Schiele, Musil, Freud, Wittgenstein, todos "os criadores vienenses refletiram de modo crítico a sua condição de homem moderno,feita simultaneamente de euforia e mal-estar..." Mas essa criatividade deveu-se "à imigração e à diversidade étnica, não à homogeneidade nacional..." Assim, Le Rider atribui à incapacidade política de pensar essa coexistência o fim do "modelo muito elaborado da pluralidade nacional, linguística, étnica e cultural no centro da Europa". Quero hoje começar a refletir sobre a crise presente e sobre a nossa interrogação da Europa. Não numa perspetiva economicista, nem à luz dominante da prioridade dada à política financeira. Mas antes partindo da consideração do povo, dos povos europeus de hoje, e dos desafios a que terá de responder para começar "a habitar esta casa nova que nem sequer acabámos de construir".


Aliás, a casa dos homens está sempre em construção, pois das pessoas que nascem, vivem e morrem, ela é feita. Da Jerusalém Celeste à Torre de Babel, do monaquismo às comunidades hippies, por constituições de estados e convenções internacionais, vamos tentando... Temos de olhar para a Europa de hoje, tal como se situa num mundo em globalização, em que as tecnologias de comunicação e transporte tornam o longínquo imediato e próximo e vão confrontando o sentimento de si com entidades várias e a tentação mimética de misturar tudo. A miscigenação étnica e cultural é hoje um fenómeno crescentemente generalizado e frequente. Mas também gera receios, desconfianças, racismo, fanatismos. Por isso mesmo, se torna tão importante que cada um se compreenda melhor a si, cada pessoa, cada povo, cada cultura. A consciência informada e limpa da própria identidade é condição prévia do convívio e do diálogo, e estes são participação e partilha, não são eliminação.


Fala-se do inglês como língua universal e há quem pretenda que as línguas nacionais ou os dialetos regionais não têm razão de existir num mundo global. Mas o inglês que funciona como língua franca é também um inglês que se destila, filtra e empobrece e, por vezes, já pouco tem de inglês clássico, ou pouco a ver com a cultura anglo-saxónica (que não é só a dos negócios) Quantos dos nossos "CEO", que fazem "statements" com três palavras de inglês para duas de português, conseguirão ler Shakespeare no original? Deverão por isso os anglófonos castiços abandonar o vate ou todos nós esquecê-lo? Ou não deveremos nós, portugueses, conhecer melhor, como diria Eça, "o nosso Camões"?


Na Europa de hoje vivem - e são europeus, tal como os afro-americanos são americanos e não já africanos, e isto não só por imposição legal ou reconhecimento de um direito, mas culturalmente - gentes de variadas origens étnicas, geográficas e culturais. Basta ver na televisão jogos entre seleções nacionais europeias de futebol ou atletismo para disso nos apercebermos, ou, mais simplesmente, sair à rua. Cada um deles deverá ter uma dupla função: a de aprender bem a língua do país que os acolheu (ou já a seus pais e avós) e, com a língua, ir apreendendo uma cultura enquanto visão e modo de estar no mundo e na vida; mas também, porque o modo vive e evolui no tempo, enriquecer essa cultura e essa língua com a contribuição do seu pensamento, sentimento e discurso. Afinal, como qualquer de nós. E não têm a língua e cultura lusíadas sido enriquecidas pelas literaturas brasileira e afro-lusófonas?


Em próxima oportunidade, poderemos falar na importância das chamadas humanidades na construção da casa que todos teremos de habitar. Teremos de perceber como a preservação da memória histórica e a transmissão da língua viva são fatores de entendimento, de diálogo e de convívio.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 27.07.2012 neste blogue.  

ANTOLOGIA


Viver fora do tempo?
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim: 


Tem sido esta a minha sina: viver fora do meu tempo, e sempre necessariamente nele. Será estúpido, talvez, irrealizável certamente. Mas é assim, e mais não posso. Não é presunção, nada tem a ver com desejo ou vontade. É, simplesmente, um olhar do coração a fazer com que a cabeça esteja aqui e além. Também não é difícil, é tão só uma tensão, simultaneamente dolorosa e muito feliz, entre o que surge possível e o que impossivelmente me chama. Não te direi a ti, a quem digo tudo, que seja estar entre a realidade e o sonho... Antes será estar entre esta realidade, que vemos, e outra, em que gostaríamos de nos ver. E onde seja possível estarmos. Como diria o padre Cardonnel (no "Deus é Pobre"?): "o pecado é a paixão dos nossos limites"! É não entender que tudo, tudo, muda sempre... E que, precisamente por isso, só somos nós sendo na mudança... Mas sendo nós. Ser eu e a minha circunstância - como diria o Ortega - é viver o drama, a tensão, desse paradoxo." É estar e não ser o que se está", como tantas vezes repetia o nosso Alberto, no seu português materno que, não sendo língua de filósofos, tão bem intui essa ferida genética da condição humana, essa permanente dor que é o rasgão entre o ser e o estar. 

Na papelada escrita nos anos da minha ousada juventude "pensadora" - que destruí  -  havia uma longa dissertação (pretensiosa, penso, e por isso a rasguei) sobre "A Liberdade em Espinoza"... Vê tu bem! Lembrei-me dela, há pouco, por ter dado comigo a seguir peregrinações dos olhares europeus sobre outros povos e civilizações... Voltei ao "Tractatus Theologico-Politicus" de Baruch de Espinoza, redigido em latim, publicado, anonimamente, em 1670, por esse judeu de família vinda de Portugal para os Países Baixos. E, para me descansar do esforço da leitura, alcancei, para ler na cama, "Le Secret de l´Espadon" do Edgar-P. Jacobs. Ambos me motivaram a fazer um percurso que me levou a Bento de Góis e a Sérgio de Beaurecueiul. No "Tractatus", Bento (era o seu nome português) Espinosa, acicatado pela memória da sua família sefardita, de judeus ibéricos e marranos também, propõe uma explicação para a sobrevivência da nação judaica, explicação essa que já tem sido atribuída a um impulso de desforra dos que o tinham excomungado da sinagoga portuguesa de Amsterdam. Escreve ele: "Quare hodie Judaei nihil prorsus habent, quod sibi supra omnes Nationes tribuere possint...", ou seja, "nada podem hoje os judeus procurar que os coloque acima de todas as nações. Quanto à sua longa duração como nação dispersa e sem se constituir em Estado, isso em nada surpreende, já que os judeus têm vivido à parte de todas as nações de modo a atraírem o ódio universal, não só pela observância de ritos opostos aos das outras nações, mas também pela circuncisão a que estão religiosamente submissos. Aliás, mostra a experiência que o ódio das nações proporciona a conservação dos Judeus. Quando o rei de Espanha obrigou os Judeus a abraçar a religião do Estado, ou a exilarem-se, muitos se tornaram católicos romanos, e tendo desde então participado dos privilégios dos Espanhóis de raça, julgados dignos das mesmas honras, se fundiram com os Espanhóis, a tal ponto que, pouco depois, nada deles ficou, nem sequer a lembrança. Foi diferente com aqueles que o rei de Portugal obrigou à conversão: continuaram a viver separados, porque foram excluídos de todos os cargos honoríficos..." Não me interessa, agora e aqui, o acerto ou desacerto de um juízo sobre circunstâncias históricas. Em hora pós-prandial, vagamente nebulosa e tão sossegada, entrego-me a interrogações para as quais não espero respostas imediatas... Anoto apenas a ideia de que o acolhimento do outro transforma, com a circunstância, as pessoas. E pergunto: estaremos condenados a sempre projetar fantasmas? Em "Le Secret de l´Espadon", o inimigo a abater, o mal essencial a destruir, é o perigo amarelo, "les jaunes"...  Inspirado no terror ocidental da ameaça que o Japão representou na guerra do Pacífico, o medo é motivado, nesta primeira aventura de Blake e Mortimer, pela sombra da vontade de conquista universal que um império extremo-asiático projeta sobre o mundo. A capital deste monstruoso "Leviathan", amarelo pela cor da pele, é Lhassa, imagina!, no Tibete! Claro que, guiados pelos bons princípios da moral e da organização britânica - do UK que, por mais de um século, dominara povos e territórios do sul e sudeste asiático - muçulmanos, com hindus confundidos, colaboram na resistência até à vitória final... Quem diria? Com que facilidade se identificam, com o mal ou o bem, povos e raças, religiões e culturas? Curiosa civilização cristã esta, europeia e nossa, em si mesma já dividida por ódios que se brindavam com epítetos de "boche!" , "marrano!", "papista!",etc... e pretendeu ser lição para "pretos", "índios", "amarelos", etc... Ganham, no meio da miopia e mesquinhez, estatura enorme pessoas como o dominicano Bartolomeu de las Casas, o jesuíta António Vieira e o nosso frei Sérgio de Beaurecueil. E muitos outros. Mas hoje - até por essa simultaneidade de muçulmanos e tibetanos em "Le Secret de l´Espadon" - recordo o irmão Bento de Góis. Nasceu nos Açores, na ilha de S. Miguel, foi marinheiro e soldado, comerciante e, finalmente, frade jesuíta, sem todavia ter recebido ordens sacras. Foi definitivamente admitido na Companhia de Jesus em 1588, quando tinha 26 anos e vivido em Ormuz, onde aprendera e praticara o persa. Foi o conhecimento dessa língua veicular no Império Mogol que lhe valeu ser colocado, pelos seus superiores religiosos, em 1594, na missão jesuíta na corte do Grão Mogol. E deste, que era Akbar, recebeu o passaporte que lhe permitiu iniciar, em Outubro de 1602, a viagem que o levaria de Agra, na Índia, através do Paquistão, do Afganistão, de Tian Shan e do deserto de Gobi, até a Suzhou, já para lá da Grande Muralha da China, onde chegou no dia de Natal de 1605. Aí morreria em 1607, vestido à muçulmana e usando o nome de Abdalá Isawí (jesuíta). O objetivo de tão prolongado percurso era descobrir o  Catai, supostamente um reino cristão estabelecido para os lados da China. Rumores da existência de reinos cristãos antigos, ou de cristandades extra-europeias fundadas nos primórdios do Cristianismo - como o Reino do Prestes João ou o Reino do Catai - permaneceram muito tempo na tradição de vários povos, e há notícia de que a mensagem evangélica não se espalhou apenas pelos mundos helénico e romano, mas chegou à Índia e à China. Um texto da liturgia siro-malabar da festa do Apóstolo S. Tomé reza assim: "Por S. Tomé, o erro da idolatria desapareceu das Índias. Por S. Tomé os Chineses e os Etíopes foram convertidos à verdade... ... Por S. Tomé, os esplendores da doutrina vivificadora atingiram a Índia inteira. Por S. Tomé, o reino dos céus foi dado aos chineses." Um dos escritos apócrifos cristãos, redigido em siríaco e grego, provavelmente no século III, tem por título "Atos de Tomé" e começa por relatar como o Senhor, na distribuição de missões pelos Apóstolos, a Judas Tomé confiou a Índia. Perante a recusa deste, o Senhor vendeu-o como escravo carpinteiro a Habban, mercador do rei Gudnafar,que assim o leva para o destino que lhe fora atribuído. Por lá ficará e ali morrerá mártir,pelas mãos do rei Mazdaí... Terá sido a Igreja inicialmente estabelecida na Síria e na Mesopotâmia que, mais tarde, se expandiu para Oriente. Quando, nos séculos VII e VIII, o Islamismo segue o mesmo caminho, até à Índia e à China, não integrará apenas populações hindús, budistas e outras, mas também cristãs. Na China, ganha, com a dinastia Ming, alguma preponderância, ao ponto de ser plausível a conversão do imperador Zhengde, no início do século XVI. Mas afinal o Islamismo implantou-se, para Ocidente, até ao Atlântico, pela margem sul do Mediterrâneo e o norte de África e,a partir do Médio Oriente, cobriu o norte da península industânica e atingiu, pelo sul,a Malásia e a Indonésia. Ainda que prosélito em regiões do Império do Meio, nunca fez do Imperador Celeste o Sultão ou Califa de um imenso império asiático... "Le Secret de l´Espadon" poderia ter sido uma história bem diferente... Pois há uma contradição intrínseca ao modo teológico do ser muçulmano: em clima de guerra, prevalece o apelo da "jihad", da guerra santa; em ambiente de paz, a tolerância. Akbar o Grande, Grão Mogol, teve a dita de escutar um mestre persa, Mir Abdul Latif, que lhe inculcou o princípio "sufi" da tolerância universal. Por isso, tinha jesuítas na sua corte. Um deles chamava-se Jerónimo Xavier, sobrinho-neto de S. Francisco Xavier. Foi ele quem enviou Bento de Góis em busca do Catai. Minha Princesa de mim: esta carta é um conto das mil e uma noites. Mas, desta feita, é este sultão a entreter a Princesa..." Esta carta de Camilo Maria levou-me, quase quarenta anos depois, a reler, na "Descrição da China" do Pe. Matteo Ricci, o relato da viagem do seu irmão açoriano. Voltarei a ele e, quando com ele chegar a Kabul, pensarei em frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil.

  

Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 12.07.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


UM DIÁLOGO ECUMÉNICO SÉRIO
por Camilo Martins de Oliveira 


Minha Princesa de mim:


Chegou-me hoje uma carta breve do M... Começava assim: "Teço / solidão e silêncio /e não esqueço / as ditosas horas /em que fui feliz..."  Pouco mais dizia, sabes bem como ele sempre foi solitário e silencioso sobre si. Inesperado, por isso, foi ouvi-lo dizer aquilo. Estava escrito, mas era como um desabafo saído do coração na boca. Deixou-me perplexo. Soube, antes, que ele anunciara aos seus alunos que se retirava. E que alguns deles lhe tinham escrito, sem nada mais pedirem, que não esqueceriam o muito que ele lhes ensinara... Ao que apenas respondera que nunca ensinara nada, que apenas partilhara coisas queridas do seu coração, tão queridas que até lhe tinham passado pela cabeça! Conheci-o de pequeno, menino como eu. Ambos órfãos de pai, irmãos de alma nos tornámos e ficámos. Eu, talvez, mais aparentemente condescendente, mais convencional. Quiçá rebelde e refilão, mas sempre atento à circunstância. Ele, ele sempre gostou do desacordo como modo de interrogação. E nunca o escondeu. Questionar, contestar, sempre foi, para o M..., não um capricho, nem uma leviandade, mas antes o seu modo pessoal de estar com os outros, de lhes dizer que os amava porque respeitava a inteligência deles e os considerava capazes de reverem ideias adquiridas. Por isso mesmo, detestava o "fala barato", o presunçoso. Odiava a mediocridade. Dizia que as constipações se curam de janela aberta, que um cérebro emperrado só o é por não querer mexer-se! Claro que se dizia que tinha "mau feitio". Mas, com raras exceções, os que com ele privaram, alunos e colaboradores, reconheceram-lhe e retribuíram-lhe a amizade com que ele, mesmo aparentemente zangado, generosamente lhes fazia justiça. Muitas vezes me lembrou o Padre Chenu, frei Marie-Dominique. Curiosamente, é com homens assim que aqueles a quem, por preconceito obedecido, chamamos infiéis ou incréus, finalmente se abrem mais. Pois não há maior elogio da diferença - como parceira de diálogo - do que interrogá-la connosco. O documento "De Oecumenismo", do Concílio Vaticano II, trata também das relações da Igreja, e da fé católica, com o Islão. Essa parte, como referiu o Cardeal Béa ao apresentar o documento aos dois mil bispos reunidos na Basílica de S. Pedro, teve a aprovação prévia do Institut Dominicain d’Études Orientales du Caire, considerado - tal como o Instituto Pontifício de Estudos Orientais da Tunísia, dos Padres Brancos - uma autoridade na matéria. Esse Instituto e a sua qualidade são fruto da visão e da persistência de Marie-Dominique Chenu. Conheci-o no Saulchoir, na festa de S. Domingos, a 4 de agosto de 1941. Fui lá para visitar um estudante dominicano, então discípulo do Padre Chenu, depois um dos primeiros membros do Instituto do Cairo e, hoje ainda, residente em Kabul, no Afeganistão. Deves saber quem, é de uma família com que temos alguns laços de parentesco: falo do frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil. Na altura, em plena guerra, o Padre Chenu ia formando o primeiro grupo de religiosos dominicanos que integraria o Instituto, dotado de autonomia e oficialmente reconhecido em 1953, a 7 de março, na festa de S.Tomás de Aquino: Jorge Anawati, egípcio, cuja língua materna era o árabe, e que foi o primeiro presidente, Tiago Jomier que, para o efeito foi estudar árabe e islamologia para a Sorbonne, e o nosso parente que, antes de entrar para a Ordem dos Pregadores, escolhera como 2ª língua, no liceu, o árabe falado no Egipto! Para se instalarem no Cairo, tiveram ao dispor o convento edificado pelo Pe.Jaussen, professor na Escola Bíblica de Jerusalém, em 1928, para receber os estudantes daquela escola dominicana no tempo que passavam no Egipto, para se familiarizarem com a arqueologia local e seus achados e visitarem o Sinai. Aliás, já o Rei Fouad convidara o Pe.Jaussen a fundar uma academia de sábios dominicanos no Cairo, ideia que ficou na memória da Ordem, por ser tentadora a fundação de um centro de estudos sobre o Islão na cidade onde se encontra a maior universidade muçulmana do mundo... Ideia que, nos anos 30, depois de uma ida a Jerusalém e ao Cairo, o Padre Chenu expôs, em Roma, ao Cardeal Tisserant, ex-aluno da Escola Bíblica e Prefeito da Congregação Oriental no Vaticano. Vale a pena citar-te um texto do Pe. Anawati: "Ninguém melhor do que o Pe.Chenu poderia sentir a importância e urgência de tal Centro... O seu íntimo conhecimento da Idade Média há muito o tinha sensibilizado para o problema que o "arabismo" levanta. Sabia o que tinham sido, para Santo Alberto e S. Tomás, Avicena e Averroes, conhecia melhor do que ninguém a importância das fontes árabes para o estudo técnico das ideias filosóficas na Idade Média. Muito atento ao movimento das ideias, à animação das culturas, às possibilidades enriquecedoras dos intercâmbios culturais, tendo medido a importância atual de uma religião como o Islão, à qual pertencem mais de 400 milhões de homens (o texto é de 1964), e que tem um passado tão ligado aos destinos do Ocidente, logo percebeu o papel que a Ordem de S. Domingos devia desempenhar nesse domínio". Sobretudo, minha Princesa, porque a guerra, a ascensão do comunismo, a confusão das mentes europeias perante o absurdo aparente de tudo, o movimento ecuménico cristão, o previsível advento de novos Estados-Nação com novos centros de expressão religiosa que escapariam ao controlo político, nos protetorados e colónias que se emancipavam das potências europeias, tudo isso aconselhava a humildade, o respeito do outro e o diálogo. É espantoso para muitos, admirável para todos, que o Vaticano do Papa Pio XII tenha expressamente instruído os fundadores do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo para que se concentrassem mais na tarefa de mostrar ao mundo - designadamente à cristantade e ao mundo muçulmano - a mensagem religiosa e espiritual do Islão, do que em fazer proselitismo religioso. Assim, este Centro de Estudos é, ainda hoje, como pude observar numa recente viagem ao Egito, um ponto de encontro, no mundo árabe e universitário, do diálogo inter-religioso. Nessa ocasião, voltei às "Cartas do Egipto" do jesuíta Teilhard de Chardin que, em 1907, do Cairo escreve a seus pais, sobre o regresso a casa de peregrinos a Meca: "Todo o cortejo penetrava lentamente na rua que ladeia os grandes hotéis, estorvando a circulação mas provavelmente para grande alegria dos turistas. O lado impressionante da cerimónia é ver os indígenas acorrerem em grande número ao santo que regressa de Meca, a fim de lhe beijarem as mãos: aí também há uma ideia muito religiosa e muito elevada"... Mais uma curiosidade: na edição das "Lettres d´Égypte" pela Montaigne, em 1963, a apresentação prefacial é feita por Henri de Lubac, jesuíta também e que, com os dominicanos Congar e Chenu, de quem é amigo, foi teólogo do Concílio Vaticano II e... medievalista! A introdução de uma perspetiva histórica fundamentada na investigação teológica trouxe alma nova à reflexão de uma religião incarnada." Com esta carta de Camilo Maria, ocorreu-me algo que eu mesmo disse a um jovem padre, meu amigo, e que não repetirei aqui. Apenas recordo que, além da tradução do "Shifá" de Avicena, a obra mais celebrada de frei Jorge Anawati tem por título "Introduction à la Théologie Musulmane".


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 05.07.13 neste blogue.

 

ANTOLOGIA

  


O TEMPO PARA REFLETIR
por Camilo Martins de Oliveira


"O tempo para refletir e comunicar era mais lento e por isso as ideias e os discursos duravam mais"... Respondi certamente em tempo oportuno à carta de Camilo Maria que contém esta afirmação. Mas não me lembro já do que disse, e de novo lhe respondo, mais de quarenta anos depois. A evolução veloz dos meios de comunicação (media, em latim, que o português pingarrilho gosta de pronunciar "mídia") permite-nos hoje estar em rede, isto é, presente numa articulação de mensagens em vários sentidos, veiculadas pela escrita eletrónica, pelo som e pela imagem disponíveis e alcançáveis por qualquer computador portátil. Passar de um meio de comunicação a outro é fácil, falar de dia com alguém que está na noite do outro lado do mundo é instantâneo. Escreve-se, diz-se, mostra-se tudo o que ocorre, imediatamente. A tal ponto que, visionário, já no princípio dos anos 60 do século passado, Marshall McLuhan dizia: "A mensagem é o medium" (o meio de comunicação). Reside aí o motivo de uma primeira interrogação: como se mantém e evolui a identidade de cada um, sem o tempo (que é ocasião de reflexão e circunstância de densidade, de substância) a dar-lhe a distância necessária a definir-se? A referência do Marquês de Sarolea a "The Triumph of Vulgarity" - que aliás foi mais tarde o título de um livro de Robert Pattison, com o subtítulo "Rock Music in the Mirror of Romanticism" - pode traduzir algum elitismo aristocrático, mas levanta uma segunda interrogação: onde poderá levar-nos a democratização global da transmissão de conhecimentos e ideias, de valores enquanto referências éticas e estéticas, numa rede em que se torna impossível - para quem não tenha educado, na família ou na escola, o espírito crítico – distinguir entre propostas e autores com maior ou menor fundamentação? Na verdade, como já McLuhan observara, "a tecnologia não produz efeitos ao nível das ideias e dos conceitos; o que ela muda, sim, a pouco e pouco e sem encontrar a menor resistência, são as relações dos sentidos e os modos de perceção". Penso que só será possível viver em rede humanamente - como ser racional e livre, pessoa única mas em relação - se as famílias e as escolas, em vez de despacharem as crianças para o "surfar a net" ou o "zapping" televisivo, trabalharem na construção das personalidades, pela aprendizagem da reflexão e do tempo, do espírito crítico e do juízo. Do respeito do outro e do diálogo, apenas possíveis se em presença estiverem identidades diferentes e que convivam. Cito um jovem filósofo francês, Jean-Claude Monod: "O poder neo-liberal funciona cada vez menos pela interdição e cada vez mais pela liberdade, de circular, de consumir. Não é um poder que proíba, mas empurra para um comportamento. Como diz Axel Honneth, daí resulta uma forma de coisificação do indivíduo, uma incitação a apresentar-se a si mesmo como um produto: classificamo-nos, damo-nos notas de mais ou de menos, subimos ao palco. Nas redes e novas tecnologias, adotamos um formato, um estilo, uma maneira de ser. Foucault falava da pressão do aparecimento, inclusive no interior de movimentos de emancipação". Tal desejo de assemelhar-se, de ser parecido com todos, é inato ao ser humano. Na educação das crianças, sabemo-lo bem, o exemplo dado é fundamental: funcionamos muito, em pequeninos, por mimetismo. Mesmo a norma social, antes de ser direito positivo, responde à necessidade de pautarmos uns pelos outros, os comportamentos. Por isso a expressão "normal" tanto tem a ver com o normativo como com o habitual. Mas o que dantes resultava da convivência das pessoas, presentes umas às outras, é hoje, cada vez mais, produzido no isolamento de quem se encontra ligado ao telemóvel, ao televisor, ao computador, que assim tornam virtual o encontro, e simultaneamente condicionam uma visão do mundo e dos outros em que o que parece é. E em que os afetos já não ligam, porque se vão tornando na projeção narcísica de sonhos e desejos próprios... Por isso também as escolas não devem ser fábricas de habilitações e diplomas, mas centros de convívio, nesse preciso sentido de lugares onde se aprende a viver com os outros. Daí a importância das atividades ditas "extracurriculares", desportivas e recreativas, culturais e turísticas. É mais positivo da sociedade futura formar gerações que vejam mundo, e  aprendam a pensar e distinguir valores e ocasiões, do que produzir robôs cujo "software" é a instrução administrada e cuja circunstância é a confusão de si com uma rede de informação eletrónica em que não se controlam. Temos assistido, hoje em dia, a movimentos de massas humanas, estimuladas e arrebanhadas por mensagens anónimas e motivações que exploram simplisticamente frustrações (v.g. as "primaveras árabes" e várias manifestações de "indignados"). As transmissões televisivas de debates parlamentares ou entre os chamados "comentadores" revelam um aflitivo vazio de ideias, na repetição previsível de lugares comuns "programados"... É tudo sempre "mais do mesmo". Não se interpela, nem desafia a inteligência do outro para a análise cooperante e a procura de soluções. Tudo são mensagens publicitárias, nem já política se faz, mas apenas, roboticamente,"marketing" político. Falta-nos estatura intelectual e moral, entretemo-nos com o episódio, não conseguimos ver nem por cima nem para além dele. Nunca a mesquinhez foi tão vaidosa, nem tão curta a miopia. Nem tão potente esse misterioso instinto de aniquilação... Por regra, os políticos - que se tratam de "líderes" e "governantes" - discursam (nem sempre procedendo, depois, em conformidade) para os seus mercados internos, onde mais se lhes projeta e ecoa a vaidade, e se ganham votos. Qualquer cidadão atento aos sinais dos tempos sabe, p. ex., que a "crise" económica e financeira do seu país não tem solução possível num quadro político nacional, nem tampouco no cumprimento de medidas impostas do exterior, altamente gravosas para os povos, e apenas servindo para o contentamento possível de credores estrangeiros. A questão de fundo é saber como poderemos encontrar o caminho diplomático, político e jurídico, que nos conduza à superação do grande défice - que o vazio de instituições, normas e comportamentos internacionais gerou: a ausência de democracia global num mercado global. Antes de que a guerra em que, inconscientemente, já estamos envolvidos, assuma proporções militares. O capital que por aí anda à solta pode alimentar megalomanias políticas hegemónicas... Todas as 6ª feiras, de 27 de julho a 19 de outubro de 2012, fui confidenciando, no blogue do Centro Nacional de Cultura, reflexões que me habitam e perseguem interiormente. Todas, desta ou daquela maneira, vão desaguar no mesmo mar de interrogações (quando me sinto otimista) ou de preocupações (quando menos esperançoso): será ainda possível ganharmos uma consciência moral para os novos tempos? Como reacreditaremos a função libertadora das elites (não digo a frustração ditadora de quem se sente minoritariamente com razão, nem o papel condutor, no sentido de um fio de cobre, de quem se salvaguarda a si por "surfar" na onda explosiva das massas), função libertadora das consciências e tão necessária ao exercício do juízo pessoal, sem o qual não haverá democracia possível? Estaremos irremediavelmente intoxicados? O silêncio, como meditação no tempo que nos colhe, é a circunstância da prudência. A prudência não é "sonsice", nem reserva mental ou hipocrisia. Não é cálculo. É a abertura interior à vontade de benquerer. Para que, vencido o egoísmo, a generosidade seja um ato inteligente verdadeira vontade de fazer bem. Tenta evitar a precipitação.  Ocorre-me um exemplo extravagante mas real: o atentado mortífero e bárbaro de 11 de Setembro de 2001 foi rejeitado por muitos muçulmanos e seus representantes, que não o aceitaram nem reconheceram como ato islâmico; por cautela, as vozes oficiais do "Ocidente" também proclamaram que não devemos confundir alhos com bugalhos; mas um presidente dos EUA, talvez exprimindo o que ia no subconsciente de muitos, ao lançar a guerra contra a Al-Qaeda e (porquê?) o Iraque, falou em "CRUZADA contra o terrorismo"! E é frequente ouvirmos, aqui e ali, vozes que insistentemente querem confundir o Islão com o Mal... Por isso também aplaudiram as "primaveras árabes" como sabotagem interna do mundo muçulmano. Ora, se quisermos construir a paz pelo diálogo, teremos de ser, primeiro, o que somos; e também os que querem perceber o Islão na sua diferença. Traduzirei uma carta de Camilo Maria, que nos fala da ação do padre Chenu (dominicano, Marie-Dominique de seu nome em religião) na fundação do "Institut Dominicain d´Études Orientales du Caire". Hoje, para o Cairo devíamos olhar todos, a ver o que dará a experiência de governo da Fraternidade Islâmica ao futuro da democracia no Egipto. E nos países muçulmanos que, a sul, são a cintura da Europa. Assim responderia eu, em 2013, para o Céu, à carta anterior do Marquês de Sarolea. A tal em que o senti cansado.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 28.06.13 neste blogue

 

ANTOLOGIA

  


O MEU SONHO VESTIU-SE DE TURANDOT
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:


O meu sonho vestiu-te esta tarde de Turandot... Vê tu bem, sonho muitas vezes acordado, até em charlas à hora do chá, com senhoras japonesas! Cabias imensa no abraço da nossa ternura, quando a Callas, na gravação de 1957, no Scala de Milão, clamava cantando: "Padre Augusto...connosco il nome dello straniero! Il suo nome é... Amor!" Vencida pelo amor de Calaf, que acertara na resposta aos três enigmas e assim escapara à morte reservada aos seus pretendentes, Turandot, a filha do imperador da celeste China, todavia tivera o destino dele preso pelo capricho dela. Se tivesse querido, denunciaria ao povo o verdadeiro nome desse príncipe desconhecido, não por tê-lo descoberto mas porque ele lho confessara. Confissão feita, não por obrigação, mas por renúncia à reclamação do direito que sobre ela já tinha como consequência do acerto com que respondera aos enigmas. Calaf, o príncipe desconhecido, não a quisera por direito de conquista, e por isso lhe dera, a ela, a oportunidade de o repudiar e condenar à morte, já fora do prazo estipulado no concurso: se Turandot adivinhasse o seu nome, ele renunciaria e entregar-se-ia à fatal sentença da Filha do Céu. É assim a entrega do amor: faz-se em função da pessoa amada, não em função de si mesmo. Na ópera de Puccini, a revelação final, o apocalipse do nome dele é também a descoberta do íntimo nome dela, que nunca quisera ou sempre receara proclamar. As perguntas enigmáticas, falam mais de desejo de vida do que de sentença de morte: "que fantasma alado vagueia pela noite, se abriga no coração, mas morre pela manhã?" Calaf responde: "La speranza!" E depois: "O que é que surge como chama, se enche de febre ou enfraquece, vermelho como o sol poente?" Hesitante, ainda grita: "Il sangue!" Finalmente, a terceira e última pergunta, a que define a pessoa: "Gelo e fogo, claridade e escuridão, fazendo de vós um escravo ou talvez um rei?"  O príncipe contesta: "Turandot!" A princesa não aceitará de bom grado a verdade forte que a venceu. Ele não teima em reclamar, antes a põe, à quase deusa, perante o dilema de lhe descobrir o nome (e ele aceitará a morte) ou de se revelar o nome íntimo dos dois... "Amor omnia vincit". O libreto da ópera, por Giuseppe Adami e Renato Simoni, adapta uma peça do veneziano Carlo Gozzi, escrita no século XVIII, já fora alvo de diversas adaptações, até operáticas, algumas delas inspiradas na tradução de Gozzi por Schiller. Para mim, expliquei eu às madamas nipónicas, nesta ópera - aliás terminada por Alfano, por escolha de Toscanini, depois da morte (e aproveitando notas) de Puccini em 1924 - ressalta, mais do que o conflito da crueldade com o amor e a vitória deste, a descoberta do amor inscrito no coração dos homens, como princípio de criação e de vida nova. Daí saí para a "Lohengrin", em que sinto o inverso: Wagner vai buscar à mitologia teutónica as forças que se aniquilam, aquele misterioso impulso para a destruição que encontraremos também na "morte de Deus" de Nietzsche ou na barbárie nazi. Não deixa de ser curioso que ele -  familiarizado com a poesia medieval alemã, onde aliás encontrou também inspiração para os "Meistersinger", "Parsifal", "Tannhäuser" e o próprio "Lohengrin" - não se tenha deixado tentar pelas promessas de um lirismo mais doce que, mesmo quando ensombrecido pelo pressentimento de algo que se possa recear, cantava o encanto chão das coisas humanas e possíveis. Como nestes versos de Walther von der Vogelweide, cujo alemão arcaico tanto lembra o inglês que conhecemos (a inversa é que é verdadeira, claro...) que recitei às minhas ouvintes atentas, pelo seu clima " japonês" (a natureza envolvente): "Unde der linden / an der heide, / dâ unser zweier bette was, / dâ mugt ir vinden / schône beide / gebrochen bluomen unde gras. / Vor dem walde in einem tal, / tandaradei, / schöne sanc diu nachtegal..." Debaixo da tília, no chão onde foi a cama da nós dois, podereis achar, lindamente pisadas, as flores e a erva. Na orla do bosque, num talude, riu piu piu, que bem cantava o rouxinol! Contemporâneo de Vogelweide é Wolfram von Eschenbach, que celebra uma dama que, ao nascer do dia, acorda nos braços do seu nobre amigo, e grita ao dia: "Já não pode o meu amado ficar ao pé de mim. Pois de mim o afasta a tua luz". É ele o autor do " Niebelungenlied", em que "se narram inúmeras maravilhas, que falam de gloriosos heróis e de penosas provas..." Há aí evocações de távolas redondas e amores proibidos, tabus antigos como a Grécia, em que - o próprio Wagner o refere pelo mito de Zeus e Semelé - não podem durar as relações entre os deuses e os homens, pois a satisfação do desejo é destruidora. Quando Kriemhild, "cujo coração puro quisera renunciar ao amor, e vivera muitos dias sem conhecer um só homem que quisesse amar... ...desposou um muito valente homem de armas", tudo a conduziu à verificação real do sonho em que "certa noite vira um belo falcão, forte e ousado, que ela criara, ser despedaçado por duas águias". É mais ao pessimismo germânico, a esse medo de deuses malévolos e espíritos malignos, espreitando-nos do frio escuro de misteriosas florestas e pântanos, que Wagner vai buscar a inspiração para contar amores humanos, excessivos e desprotegidos. Na "Lohengrin", uma maldição paira sobre os cavaleiros do Graal, um freio posto por poderes luminosos mas obscuros os trava e proíbe de pronunciar o nome e a linhagem. Como Kriemhild, Elsa von Brabant apaixona-se: eis que, no momento exato da humilhação final da dona por Friedrich von Telramund - o rejeitado pretendente à dama e à coroa que, sob o feitiço da bruxa Ortrud, a acusa de ter morto o irmão, herdeiro do Brabante - a salva um guerreiro desconhecido (aí tão ignoto como o príncipe da Turandot), que lhe conquista a mão e o amor que, afinal, já a habitava (tal como Turandot reconheceria Calaf já dono do seu coração...). A celebração do enlace dos amantes obedece a uma condição: Elsa nunca deverá perguntar a Lohengrin qual o seu nome, nem a sua linhagem. Mas qual Orfeu, olhando para trás para ver se Euridice o segue no regresso à superfície da terra da vida, Elsa pede uma resposta. Lohengrin poderia ter respondido como Turandot dando um nome a Calaf. Neste caso: o meu nome é amor! Mas não confessa. Fica sujeito à lei da cavalaria a que pertence. Ponho a tocar a "Lohengrin" que trouxe, uma gravação de 1964, com a Wiener Philarmoniker, dirigida pelo Rudolf Kempe, sendo Jess Thomas o Lohengrin e fazendo de Elsa a Elisabeth Grümmer. As madamas nipónicas ouvem de olhos cerrados e coração presente, o pranto suplicante de Elsa: "Bist du so göttlich,als ich dich erkannt,sei Gottes Gnade nicht aus dir verbannt!" Sei agora que vens de Deus, não rejeites a sua misericórdia! Se esta infeliz pelo sofrimento, expia a sua culpa, não a prives da tua presença! Não me repudies, por maior que seja o meu crime! E a resposta "justiceira" do guerreiro: Já o Graal se irrita com a minha demora! Assim terá de ser, assim terá de ser: seremos separados, arrancados um ao outro! As damas gostam da música, impressiona-as o rigor do mito. Para alívio lhes conto a história de Cupido, filho de Vénus, e de Psyché, de quem a deusa do amor inveja a beleza. Psyché também quer conhecer a verdadeira identidade do seu amante, mas Cupido não quer revelar-se. Instigada pelas irmãs, ela tenta apunhalá-lo, durante o sono, para lhe descobrir a alma. Mas ele acorda e ela foge. Ele persegue-a, não para se vingar, mas para lhe pedir que se case com ele. E Zeus acederá a uni-los. Tranquilas, mais confortadas, as senhoras pedem-me mais uma história bonita. Conto-lhes o encontro de Zéfiro com Flora, e como o vento levou a Primavera para se casar com ela e depois a deixou ser rainha das flores e dispensadora do mel. Sorriem. E eu com elas, a pensar no que lhes não digo e te recordo agora: Mandaste-me, há anos muitos, um postal de Nova Iorque, com o casamento de Cupido e Psyché do Andrea Schiavone, exposto no Metropolitan. Dizias só: "Cupido serás, mas eu de Psyché nada tenho. Que nome me darias?" Respondi-te de Frankfürt, num postal ilustrado com outro quadro de um italiano de quinhentos, Bartolommeo Veneto: "Flora". E repito de cor o que te escrevi então: "Esta minha cabeça, Santo Deus! / (Será da idade ou do muito amar?) / Não acerta os pensamentos meus / na oportunidade de os acertar... / O Olimpo percorro sempre à procura / do nome que a minha deusa tem... / Mas tonto, em desvario, nessa altura / não dou com nome que te fique bem! / Quedo-me desgostoso, sem dormir / (Eu, feito pr’ó sono e pr’à preguiça!) / mas, mesmo sem cabeça, eu acho agora / um nome que me alegra e me faz rir, / promessa, primavera tão noviça: / fosse eu sempre Zéfiro...e tu Flora!" E não lhes disse. Fiz duas boas ações: fui-te fiel e poupei-lhes ciúmes escusados. Para encerrar a sessão, voltei à Turandot que grita "Il suo nome é Amor!" e o povo rejubila: "Amor! O sole, vita, eternitá! Luce del mondo é amore! Ride e canta nel sole l´infinita nostra felicitá! Gloria a te! Mas, de regresso ao hotel, com saudades tuas, ia cantarolando o lamento de Orfeu na música de Gluck: "Ché faró senza Euridice..." Traduzi esta carta de Camilo Maria ao som das mesmas músicas...mas em CD!


Camilo Martins de Oliveira