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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 30 de dezembro de 2019 a 5 de janeiro de 2020


«Ensaios em Persuasão» (Imprensa da Universidade de Lisboa, 2018) de John Maynard Keynes é uma notável coleção de artigos e ensaios publicada em 1931 sobre temas momentosos, onde fica demonstrada a extraordinária capacidade visionária do autor na compreensão da complexidade e das limitações da análise económica no contexto histórico, social e político.

 

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UM LIVRO NOTÁVEL
Em primeiro lugar, cabe prestar homenagem à Imprensa da Universidade de Lisboa, que preenche um espaço importante na divulgação científica e cultural, à semelhança das principais e mais prestigiadas instituições universitárias. E cabe uma referência grata aos órgãos académicos, e em especial a António Feijó, grande entusiasta e animador do projeto. Regressaremos a outras obras, mas hoje atemo-nos a este conjunto de ensaios, que não perderam atualidade, apesar de escritos há quase nove décadas. Lorde Keynes é um caso muito especial. Se não tivesse sido o maior economista do século XX, teria sido um notabilíssimo ensaísta em qualquer dos campos em que se tivesse aventurado, para além das artes e da dança, da filosofia e da história, da matemática ou do cálculo de probabilidades. A sua participação no grupo de Bloomsbury é essencial. Os génios são raros e só podem ser plenamente compreendidos quando a usura do tempo já produziu os seus efeitos. No caso de Keynes essa demonstração está feita. É certo que muitas vezes teve razão antes de tempo, mas na maior parte dos casos fez os avisos certos no momento adequado, sem que os seus contemporâneos o quisessem ou pudessem ouvir. Lembremo-nos dos Tratados de Versalhes ou de Bretton Woods, nesses casos o tempo veio claramente a demonstrar que a sua razão era insofismável. Hoje, ouve-se muitas vezes referência ao “keynesianismo”, no entanto conhecendo a obra do autor, fácil é de perceber que o próprio não se sentiria à vontade a integrar-se num grupo com tal designação. Assim como não criou uma teoria do desenvolvimento, privilegiou sempre uma análise dos fenómenos complexos sem retirar ilações genéricas. Segundo o autor, “a maioria destes ensaios foi escrita (...) num espírito de persuasão, numa tentativa de influenciar a opinião pública, embora muitos deles tenham sido considerados na altura declarações extremas e imprudentes”. Quando os releu encontrou, porém, mais subavaliações do que sobreavaliações em face do que os acontecimentos vieram a demonstrar – e assim a profecia foi mais eficaz que a persuasão.

 

MAIS DO QUE CASSANDRA…
Keynes compara-se a Cassandra, ainda que o seu objetivo não fosse esse, falando mesmo de uma autocontenção analítica, que apenas teve como efeito atenuar a profecia, mas não fazê-la esquecer. Quando abandonou a mesa das negociações de Versalhes (1919) previu que as imposições dos vencedores da guerra gerariam o colapso económico alemão e uma desesperada e irracional reação totalitária. Escreveu então o célebre “The Economic Consequences of the Peace”, que hoje se lê com um arrepio na espinha, pois aí estão palavras proféticas fundadas numa análise rigorosíssima. O primeiro ensaio do livro de hoje é exatamente sobre esse tema, completando as considerações de 1919 e procurando ainda encontrar uma saída que evitasse a tragédia alemã, que de facto ocorreu. E assim há uma tentativa para evitar a hecatombe: a educação e a imaginação poderiam mudar a opinião. Mas haveria que falar verdade, que desmascarar a ilusão, que dissipar o ódio, pela expansão e educação do coração e do espírito humano. Ao lermos o que o ensaísta nos diz, parece-nos encontrar algo de familiar para os nossos dias: “O método utilizado pelos estadistas modernos é o de dizerem todos os disparates que o público reclama, não praticando mais do que aquilo que é compatível com o que disseram, e confiando que os disparates assim postos em prática se revelarão em breve por aquilo que são, criando desta forma uma oportunidade de retorno á sensatez – uma espécie de método Montessori aplicado à criança que é o público. Aquele que contrariar esta criança terá rapidamente de dar lugar a novos tutores”. Mas ninguém quis ouvir. No presente volume temos intervenções sobre a inflação e a deflação (1919-31), sobre o regresso do padrão-ouro, além de textos sobre a Rússia e o Futuro. Aqui exprime “a profunda convicção de que o problema económico, como lhe podemos abreviadamente chamar, o problema da privação e da pobreza, e a luta económica entre classes e nações, não é senão uma terrível confusão transitória e desnecessária. Porque o mundo ocidental dispõe já dos recursos e da técnica (conseguíssemos nós criar a organização certa para os utilizar) capazes de reduzir a uma posição secundária o problema económico que agora absorve as nossas energias morais e materiais”.

 

PARA ALÉM DA ECONOMIA
E o homem de cultura acredita que é possível criar condições para cuidar do essencial: “os problemas da vida e das relações humanas, da criação, do comportamento e da religião”. Afinal, mais do que as questões materiais, importaria considerar a economia como realidade humana e instrumental. Além da crítica aos banqueiros sobre inflação e deflação (“estão tão habituados a que a sua posição não seja questionada que nem os próprios a questionam – até ser demasiado tarde”), temos o notável texto sobre o Padrão-ouro, que pode ser lido nos nossos dias, a pensar no “Brexit”. Eu sei que as questões são bem diferentes, mas há pontos de contacto, que têm a ver com o saudosismo imperial. O regresso do padrão ouro teve consequências dramáticas, que Keynes escalpeliza. Em nome das vantagens para o comércio e a indústria britânicos havia que acabar com os esforços para manter artificialmente a moeda acima do seu valor real mercê da referência ouro. As medidas adequadas não seriam aduaneiras, mas a libertação da moeda de um jugo artificial. O resultado de um câmbio elevado incentivava as importações e desincentivava as exportações, virando contra a Inglaterra o saldo da balança comercial. É o “common sense” baseado na ciência. E leia-se, com especial atenção o texto “Possibilidades Económicas para os nossos netos” (1930). “O ritmo a que poderemos alcançar este destino de felicidade económica será definido por quatro elementos: a nossa capacidade de controlar a população; a nossa resolução de evitar guerras e conflitos internos, a nossa disponibilidade para confiar à ciência a orientação das questões que são do domínio da ciência, e a taxa de acumulação fixada entre a produção e o consumo. Destes quatro elementos, o último cuidará de si mesmo, se os três primeiros forem cumpridos”. Após estes ensaios, sairia “The General Theory of Employment, Interest and Money” (1936), que criou a econometria e demonstrou que os governos podem gerir e prevenir depressões económicas. O génio compreendia a economia como cultura.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de dezembro de 2019

 

No âmbito do centenário de Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), foi com muito gosto que aceitei o convite do Clube Português de Banda Desenhada, com sede na Amadora, para, mais uma vez, partilhar despretensiosas reflexões nessa prestigiada instituição.

 

LEMBRAR EDUARDO TEIXEIRA COELHO
Desta vez, com José Ruy, mestre indiscutível da nona arte, e João Manuel Mimoso, cultor desse apaixonante tema, tratou-se de homenagear Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), referência fundamental nas histórias aos quadradinhos em Portugal, o mais internacional dos nossos autores, cujo centenário do nascimento ocorre em 2019. Se é certo que a popularidade da Banda Desenhada em Portugal não oferece dúvidas, a verdade é que no panorama mundial não temos referências essenciais reconhecidas. Mas tal não significa que passe despercebido o lugar de Portugal – e, no tocante a autores nacionais, Eduardo Teixeira Coelho (ETC) é uma exceção, uma vez que trabalhou em França e em Itália, a partir de 1953, ano em que “O Mosquito” (1ª série) deixou de se publicar. Então teve uma atividade intensa em relevantes publicações dos países onde esteve, destacando-se pessoalmente pelas qualidades demonstradas no plano artístico e no domínio das narrativas ilustradas, com uma identidade própria e uma especial originalidade. No entanto, quando saiu de Portugal já atingira uma inequívoca maturidade, afirmando-se como um autor reconhecido por todos pela sua excecional qualidade. Nascido em Angra do Heroísmo, começou a colaborar no “Sempre Fixe”, com apenas 17 anos, e a partir de 1943 vemo-lo nas páginas de “O Mosquito”, ao lado de Raul Correia, constituindo uma dupla influente e talentosa. “O Mosquito” foi lançado em 1936, dirigido por António Cardoso Lopes (Tiotónio, autor de Zé Pacóvio e do Grilinho) para responder a “O Papagaio” de Adolfo Simões Müller, criado em 1935 – onde foram publicadas as primeiras aventuras de Tim-tim, tendo na sua equipa pessoas como Júlio Resende e José Viana. “O Mosquito” atingiu uma tiragem de 70 mil exemplares (o que é impressionante), ao preço de cinquenta centavos, metade de um escudo, o preço da concorrência. Foi inicialmente semanário até 1942, e depois bissemanário, às 4ªs e aos sábados, dias em que os liceus não tinham aulas à tarde… “O Mosquito” publicou estórias de autores britânicos, como Roy Wilson; espanhóis, como Jesus Blasco (criador de Cuto), americanos como Harold R. Foster (autor de “Príncipe Valente”) – além dos portugueses ETC, Vítor Péon, José Garcês e José Ruy. A lista de publicações de ETC em “O Mosquito” é notável, devendo referir-se “Os Guerreiros do Lago” (1945); “Os Náufragos do Barco sem Nome” (1946); “Falcão Negro” (numa tentativa de lançar um herói, que pudesse perdurar, mas apenas se manteve até de 1946 a 1949): “O Caminho do Oriente” (1946-48); “Sigurd, o Herói” (1946); “A Lei da Selva” (1948); “Lobo Cinzento” (1948-49); “A Torre de D. Ramires” (adaptado da “Ilustre Casa” de Eça); “O Defunto” (1950); “Suave Milagre” (do conto também de Eça); “Os Doze de Inglaterra” (1950-51) e “A Ásia” (1952). Assina algumas capas do “Cavaleiro Andante”. O esmero e a qualidade vão-se afirmando, quer no tratamento gráfico, quer nas narrativas e na escolha dos temas. A vida dos celtas e dos povos nórdicos, a presença dos animais na natureza, a História de Portugal, as tradições culturais – de tudo encontramos numa versatilidade fantástica e numa inesgotável capacidade de trabalho, sem cedências no tocante à exigência artística.

 

UM PORTUGUÊS ALÉM-FRONTEIRAS
O caso de “Os Doze de Inglaterra” merece atenção. Trata-se de uma das obras-primas de ETC – recentemente reeditada (Gradiva, 2016), graças ao inexcedível trabalho de recuperação de José Ruy, sobre o episódio relatado em “Os Lusíadas” no canto VI por Fernão Veloso, no qual se contam as aventuras do célebre “Magriço”, Álvaro Gonçalves Coutinho, que passa por mil aventuras e glórias e chega a Inglaterra, quando todos os onze companheiros desesperavam, para defender, com sucesso, a honra de doze donzelas ultrajadas, que haviam solicitado o auxílio de tão intrépidos cavaleiros. ETC baseou-se em Camões de na obra de António Campos Júnior, “Ala dos Namorados” (Edições Romano Torres, 1905) e daí resultou o magnífico álbum disponível nas livrarias. Nele se sente a influência de Harold Rudolf Foster (1892-1982), o célebre autor do “Príncipe Valente”, série iniciada em 1937. Aliás, os anos trinta são decisivos para o desenvolvimento moderno dos “comics” nos Estados Unidos e dos quadradinhos (BD) na Europa. Em 1939 foi criado o “Super-homem”, graças a Jerry Siegel e Joe Schuster, e em 1928 nasceu o Rato Mickey de Walt Disney, para concorrer com o Gato Felix de Otto Messmer (1919). Dez anos antes nascera Tintin e a Escola da Linha Clara, com Hergé, e a revista Spirou (da chamada Escola de Marcinelle) surge em 1938… Voltando a Harold Foster e a ETC, ambos dispensam os balões para os diálogos, enquanto Foster escolhe o período compreendido entre o final do Império Romano e o início da Idade Média, integrando-se no ciclo bretão que envolve a tradição céltica, o rei Artur, os Cavaleiros da Távola Redonda, Camelot, Merlin, Sir Galahad e Lançarote do Lago, o português escolhe o início da dinastia de Avis e a Ínclita Geração, invocando a Rainha vinda de Inglaterra e a origem da mais antiga aliança do mundo. Pode dizer-se que ETC atinge aqui a sua maturidade, o momento mais fecundo e de mais nítido domínio da ilustração. Há uma articulação perfeita entre a evolução da aventura e a apresentação das imagens, que se sucedem a um ritmo cinematográfico (como o autor desejava), impulsionando o movimento, a intensidade da identificação e a representação das personagens. E se as influências de H. R. Foster são evidentes, ETC cedo se libertou das amarras de qualquer seguidismo, demonstrando a sua excecional personalidade artística.

 

AO ENCONTRO DO ELDORADO
Quando ETC decide emigrar para França em 1953 vai usar o pseudónimo Martin Sièvre e colabora no semanário “Vaillant”, depois “Pif Gadget”, até 1970, com “Ragnar, o Viking”, “Till Ulenspiegel”, “Davy Crockett”, “Yves Leloup”, “Robin Dubois”, “Le Furet”, “Ayak”, “Erik le Rouge” e “Pipolin les Gaies Images” (1957-63), para os mais novos. É um período de grande produtividade, notando-se uma evolução na técnica usada, que corresponde à influência sentida pela moderna Banda Desenhada europeia, que ETC bem conhecia. No entanto, as grandes qualidades mantêm-se evidentes, continuando a ser reconhecido pelos melhores cultores. Em Portugal foi o “Mundo de Aventuras” que publicou a tradução de algumas dessas obras. A partir de 1970, trabalha em Itália, também com reconhecimento, sendo premiado como o prestigiado “Yellow Kid” do festival de Lucca. Jorge Molder, no magnífico Catálogo da Exposição organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em fevereiro de 2000, “Banda Desenhada Portuguesa Anos 40 – Anos 80”, comissariada por João Paulo Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro, faz justiça à importância da obra de ETC, apresentando-se na capa uma genial ilustração tirada de “O Mosquito”, número 673 (1945).

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 16 a 22 de dezembro de 2019

 

“A Revolução Liberal de 1820” de José Luís Cardoso (CTT, 2019) constitui um repositório rigoroso, acessível e pedagógico sobre a fundação do constitucionalismo em Portugal.

 

REVOLUÇÃO NO PORTO
Foi em 24 de agosto de 1820 que teve lugar no Porto a nossa primeira revolução liberal vitoriosa. A Corte encontrava-se desde 1808 no Rio de Janeiro e o país sentia-se órfão e empobrecido pela subalternidade económica e política. O Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves significava desde 1815 a existência jurídica e política de dois reinos. No entanto, a cabeça dessa unidade encontrava-se no Brasil. Tratou-se de um caso absolutamente inédito: uma potência europeia adotou como capital uma importante cidade situada numa colónia, o que naturalmente abriu caminho à independência jurídica do Brasil, que, em bom rigor, não ocorreu em 7 de setembro de 1822, como registam os anais políticos, mas, como se disse, em dezembro de 1815, no momento em que se institucionalizou o Reino Unido, já que, a partir de então, foi reconhecida, antes do mais por Portugal, a independência da antiga colónia. O detonador da revolução de 1820 foi a presença britânica e o facto desta reduzir o Reino a uma natureza subalterna. A longa presença da Inglaterra fora, contudo, indispensável para preservar a independência do País perante a ameaça napoleónica, mas tornou-se opressiva e discricionária, quando não ditatorial, E assim as tropas estabelecidas no Porto juntaram-se para demonstrar a sua oposição à regência que governava em nome de D. João VI e para exigir o regresso do monarca a Lisboa e confiar a uma junta governativa provisória o mandato de preparar a convocação de Cortes com vista à elaboração de uma Constituição baseada na soberania popular. Almeida Garrett dirá: “A última hora da tirania soou; o fanatismo que ocupava a face da terra desapareceu; o sol da liberdade brilhou no nosso horizonte, e as derradeiras trevas do despotismo foram, dissipadas por seus raios, sepultar-se no inferno”. Logo de início, a inspiração foi procurada na Constituição espanhola de Cádis de 1812 e utilizou-se a bandeira liberal para reivindicar um modelo de organização política baseado na separação de poderes e na defesa dos direitos e garantias individuais. A revolução feita sob a invocação da “regeneração da pátria” juntava-se às revoluções britânica de 1688, à americana de 1776 e à francesa de 1789. Estava em causa a soberania assente nas liberdades individuais.

 

QUE CAMINHO ATÉ AQUI?
A abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional, a ausência da Corte, o apagamento da participação portuguesa no Congresso de Viena, a condenação à morte de Gomes Freire de Andrade e dos mártires da pátria em condições infamantes – tudo convergiu para o movimento liberal. Manuel Fernandes Tomás, Ferreira Borges, Silva Carvalho, José Liberato Freire de Carvalho, Sebastião de Brito Cabreira, Bernardo Sepúlveda são protagonistas de uma operação vitoriosa que correspondeu aos legítimos anseios do País. Recorde-se que se constituíra no Porto em 22 de janeiro de 1818 o Sinédrio, após a revolta falhada de Gomes Freire, para preparar a revolução liberal – tratava-se de uma instituição clandestina que se extinguiria com a revolução de 1820, tendo vários dos seus membros passado a pertencer à Junta Provisional do Governo Supremo do Reino. A ação do Sinédrio será fundamental na preparação da Revolução vitoriosa, apesar das grandes cautelas com a segurança, perante o precedente do golpe de 1817 e das suas funestas e trágicas consequências. Para os membros do Sinédrio o triunfo liberal em Espanha “foi uma espécie de luz verde que ditou a passagem da fase de observação e vigilância a uma nova etapa de ação direta”. A entrada de representantes do exército no Sinédrio, pouco antes do pronunciamento foi “o sinal óbvio de que, para ser bem-sucedida, a revolução tinha de albergar no seu núcleo dirigente alguém a quem se pudesse confiar a chefia das operações militares. Neste sentido a adesão e participação do coronel Sepúlveda, do regimento de Infantaria nº 18 do Porto, viria a revelar-se absolutamente crucial e decisiva”. Deve ainda referir-se a participação no núcleo revolucionário de representantes do clero ilustrado, como Frei Francisco de S. Luís, e da fidalguia transmontana, na pessoa de António da Silveira Pinto da Fonseca. No entanto, nem tudo foi fácil. Houve a tentativa de aproveitamento da estada de Beresford no Rio de Janeiro, mas o certo é que houve que adiar a data do pronunciamento, por falta de condições propícias. Por outro lado, houve ainda que evitar os aproveitamentos pró-iberistas dos liberais espanhóis, que poderiam prejudicar o consenso patriótico obtido em Portugal. Como disse Silva Carvalho: “Rompeu o dia 24, e ao som dos clarins, e da artilharia se fizeram em pedaços os grilhões que nos algemavam, e com tanto sossego se proclamou a nossa independência, que ninguém sofreu o mais pequeno incómodo: imenso povo assistiu à reunião das tropas em Santo Ovídio, ouviu as proclamações, misturou-se no meio dos vivas, e da alegria com a tropa de tal maneira que quando chegaram à praça nova o contentamento era universal”. Num dos textos mais relevantes dos primeiros dias da revolução, Frei Francisco de S. Luís dirigiu-se aos membros da regência “de forma elegante e pedagógica, sem vislumbre de hostilidade, argumentando que o pronunciamento de 24 de agosto e a Junta Provisional que dele emanava cumpriam objetivos e propósitos de lealdade ao rei a que ninguém se poderia furtar. Por isso, apelava a que nenhuma resistência fosse demonstrada, para que todos pudessem celebrar um momento de honra e reconciliação nacional que libertaria o país do ‘triste estado de miséria e opressão’ em que se achava”.

 

MÚLTIPLAS VICISSITUDES
Contudo, não deixaram de ter lugar diversas vicissitudes, como a tentativa de golpe conhecido como “Martinhada” (11 de novembro), em que a fação militar de Silveira e Cabreira tentou pôr em causa os civis mais influentes como Fernandes Tomás e Silva Carvalho. Não teve sucesso esse movimento, prevalecendo a influência civil e sobretudo a determinação em aprovar uma Constituição nacional e legítima. O processo constituinte iniciou-se logo após a eleição de dezembro de 1820 mas sofreu de hesitações próprias da incerteza, das contradições internas, dos receios sobre as reações internacionais – apesar da clareza dos princípios e objetivos essenciais. A Constituição que sairia da Assembleia Constituinte que reuniu no Palácio das Necessidades poria a tónica na soberania popular, na independência e separação de poderes, “esquecendo”, porém, o rei ausente – o que exige o regresso rápido de D. João VI. Impor-se-ia o respeito pelo Estado de Direito, mas depressa se percebeu que, em nome da estabilidade, havia poderes que teriam de ser salvaguardados. O Executivo e o Rei possuíam poderes diminutos. Haveria que garantir um maior equilíbrio de competências. Estes argumentos prevaleceriam na “Vilafrancada” (1823), perante a qual o rei prometeria para breve uma nova proposta de Lei Fundamental, que nunca viria a concretizar-se… Apesar da vigência efémera da Constituição de 1822, a verdade é que uma longa e profícua história então se iniciou, plena de conflitos e contratempos, mas finalmente consagradora da causa da Liberdade, como ocorreria depois da Guerra Civil em Évora-Monte (1834) e finalmente no longo período iniciado em 1851, no qual antigos os opositores das guerras civis privilegiaram um acordo em que a alternância política, ao menos formal (rotativismo), se tornou uma realidade, que teve como pano de fundo o quadro importante de liberdades civis. Com grande cuidado, encontramos, assim, ao longo desta obra não só a evolução das ideias e dos acontecimentos, mas também um enquadramento geral, sobre o modo como nacional e internacionalmente tudo se foi passando…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de dezembro de 2019

 

O livro de Jorge de Sena, «Maquiavel e Outros Estudos», foi publicado pela Livraria Paisagem, do Porto, em maio de 1974, e constitui uma obra fundamental no conjunto dos ensaios de Jorge de Sena.

 

 

ALTO PADRÃO CÍVICO
Concordo com António Feijó quando afirma que Jorge de Sena é uma referência para a nossa geração, pelos altos padrões de valores que nos apontou e pela sua coragem. O certo é que o escritor, o poeta, o ensaísta lutou por uma liberdade que não era compatível com a mediocridade. Daí a necessidade de trabalho, de persistência e de uma capacidade inequívoca de vislumbrar o outro lado das coisas. Sem a tentação de apenas ver a claro e escuro ou de se limitar ao próprio e ao alheio, Sena é uma referência. Isso mesmo tem gerado mil incompreensões e injustiça. Importa, por isso, lembrar os verdadeiros testemunhos e não comentários de despeito e de má-fé. Recordo bem, quando “O Tempo e o Modo” (nº 59, Abril de 1968) publicou o número dedicado a Jorge de Sena, como houve vozes surdas e sonoras, desconfiadas, sem compreender, o que hoje sabemos, ou seja, a importância do pensamento e do método do polígrafo. António Cândido, que conheci, recordava amiúde: “Bastava conversar algum tempo com Jorge de Sena para perceber as suas fagulhas de genialidade. Na sua personalidade vulcânica, talvez o que mais impressionasse fosse a estrutura de contrastes. Era versátil de modo extensivo e, ao mesmo tempo, densamente profundo. Era arrebatado até à explosão e concentradamente reflexivo. A sua informação era inacreditável e a sua capacidade de captar conhecimento chegava a causar espanto pela rapidez e a penetração, só comparáveis à presteza com que traduzia os resultados em escrita”… Pedro Tamen, num depoimento dado à revista “Relâmpago” (nº 21, 2007) resumiu o essencial: “Sena era impaciente e tinha mau feitio. Cometeu, sem dúvida, algumas injustiças; mas se o fez, foi por não ter pachorra para a mediocridade. Para o ‘reino da estupidez’. É que Jorge de Sena era superior mesmo”.

 

UM ENSAIO NOTABILÍSSIMO
Há um ensaio notabilíssimo, não sobre os temas habituais de Jorge de Sena, mas sobre a grande filosofia política, que atesta bem a exigência de pensamento do mestre. Falo de «Maquiavel e o “Príncipe”», publicado em S. Paulo, pela Cultrix, em 1963, numa obra intitulada Livros que abalaram o mundo. Nesse livro Sena escreveu ainda «Marx e “O Capital”». Entre nós, Maquiavel e Outros Estudos, foi publicado pela Livraria Paisagem, do Porto, em maio de 1974, envolvendo Miguel Ângelo, Shakespeare, Galileu, Marx, Rousseau, Chestov e Malraux… No dia em que li esse extraordinário texto, Maquiavel tornou-se não aquela figura que muitos associam a um adjetivo caricatural e falso, mas o grande moralista, pensador político, que refletiu sobre a unificação italiana como um sinal de civilização. Nem velhacaria nem perfídia, do que Maquiavel trata é de outra coisa, e por isso deve ser considerado como “um patriota italiano e um estadista angustiado por ver a Itália dividida em principados, repúblicas, estados papais, e territórios de potências estrangeiras”. “Foi e é, um dos maiores escritores da literatura italiana; e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos de todas as épocas”. A sua grande revolução do pensador é despir “a ação política de toda a transcendência e, sobretudo, de toda e qualquer sanção extrínseca aos próprios valores cuja conquista devem norteá-la”. Leia-se, aliás, a “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, onde essa lembrança viva se encontra, “… o mesmo mundo que criemos / nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa / que não é nossa, que nos é cedida / para a guardarmos respeitosamente / em memória do sangue que nos corre nas veias, / da nossa carne que foi outra, do amor que / outros não amaram porque lho roubaram” (Metamorfoses, 1963).

 

MAQUIAVEL A OUTRA LUZ
Para Sena, Maquiavel “é um moralista na mais alta e nobre aceção da palavra: aquele que descreve os costumes humanos, os resultados a que eles conduzem, e as causas que os condicionam, com objetividade clínica. Se daí pode ser extraído, ou não, um conjunto de normas morais que rejam o bem-viver em sociedade, eis o que excede o âmbito do seu pensamento. E excede-o, não porque entende lucidamente que, no plano político, a virtude só tem sentido se estiver ao serviço de alguma coisa concreta”. A intuição do ensaísta português é extraordinária, uma vez que insere o grande pensador italiano no grande movimento de emancipação política da contemporaneidade. Eis como o pensamento de Maquiavel é contrário àquilo que “tem sido pejorativamente acusado de o ser; e a exploração que tiranos e ditadores fizeram dele não passa de uma depravação criminosa da sua nobreza intrínseca, da sua coerência empírica, da sua dignidade fundamental”. Longe de uma ambivalência moral e da tentação de justificar a ilegitimidade e a tirania, do que se trata é da criação de condições para que a liberdade, a dignidade e a independência possam existir. O bem e o mal perdem sentido na vida sociopolítica se forem abstratamente dissociados, já que, como diz o povo, de boas intenções está o inferno cheio. No fundo, temos de entender que a República, é dela que Maquiavel nos fala, é um regime de pessoas imperfeitas, que têm de saber lidar com a imperfeição, para poderem ser melhores. A lucidez do escritor é demasiado crua? Mas é preciso partirmos dela para criar condições a fim de nos aproximarmos de uma “vita buona”, conscientes de que nunca será acabada e perfeita, uma vez que em tal caso se tornaria desumana. “Todo o pensamento e toda a ação levam em si aquilo que os contradiz e destrói, aquilo que os fará inferiores à realidade que os ultrapassa”. De facto, “pensamento e realidade criam-se mutuamente, e é a criação, o ato de criar, o que os excede a ambos, e não um que se excede ao outro”. Basta lembrarmo-nos do ciclo de frescos de Ambrogio Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena, para compreendermos a importância e o sentido do texto de Maquiavel. Aí se oferecem as representações iconográficas dos conceitos políticos abstratos: a Paz, a Concórdia e a Segurança, por oposição à Guerra, à Divisão e ao Medo. E como mostrou Quentin Skinner, o grande pensador contemporâneo que tem estudado o tema, a alegoria do Bom Governo deve ser interpretada como a tradução visual duma ideologia: a do ideal da cidadania e da autonomia republicana, que se desenvolveu nas cidades-estado em Itália no início do Renascimento – e que Maquiavel deseja generalizar. Nesta perspetiva “Lorenzetti não se contenta com ilustrar uma ideologia da vida civil, contribui simultaneamente para produzir esta ideologia e da maneira mais espetacular. Ora, é a esta luz que o “Príncipe” deve ser lido, como extraordinária apresentação positiva de uma ideologia inovadora sobre as raízes republicanas do que hoje designamos como Democracia. Trata-se, no fundo da demarcação necessária relativamente às diversas formas de despotismo e tirania. Por isso, Jorge de Sena foi perentório: “A monstruosidade do príncipe maquiavélico é apenas, paradoxalmente, a do homem reduzido à sua virtù. E, se Maquiavel foi genial nesta redução que restitui o homem à sua dignidade responsável, foi porque retirou ao homem a desculpa de atribuir-se o direito de ser monstruoso à escala divina”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 2 a 8 de dezembro de 2019

 

Passam cinquenta anos sobre a morte de José Régio (1901-1969), autor multifacetado, que escreveu “A Velha Casa” (1945-1966), que considerou ser como a sua mais importante obra de ficção e “uma meditação sobre a vida humana, sobre a condição humana”.

 

 

MARGENS DO MONDEGO
“Uma coisa sei de certeza: Que nunca me arrependi de ter ido para Coimbra. Lá ganhei novos amigos. De lá saiu a presença. Lá passei pelo menos alguns dos anos mais felizes da minha vida. E creio que a minha criação literária lucrou com a ida para Coimbra, pois lá achei elementos para um fecundo ambiente literário que não acharia no Porto”. É o próprio José Régio quem o confessa, num dos seus últimos escritos, Confissão de Um Homem Religioso (1971), esta sua ligação muito especial a Coimbra. É verdade que as raízes de Régio estão em Vila da Conde e aí sentimos a força das bases telúricas, éticas e literárias. Mas o núcleo das amizades do poeta e romancista, encontramo-lo na cidade do Mondego, em Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, Edmundo de Bettencourt, Miguel Torga, Vitorino Nemésio ou Afonso Duarte… Aí começará a publicar (Poemas de Deus e do Diabo, 1925) e a ter contacto com a literatura como realidade viva, ligada necessariamente ao quotidiano e à cidadania. E no primeiro livro de poemas surge logo a associação a seu irmão Júlio (Saul Dias), desenhador e pintor que é uma extraordinária referência do segundo modernismo, com vincada influência de Chagall. Depois, nas andanças docentes, Régio fixará em Portalegre o seu lugar de vida, em alternância com Vila do Conde. Para o biógrafo e intérprete fiel de Régio, Eugénio Lisboa: “o mais importante da sua biografia decorreu, como é o caso de tantos de nós, dentro de si próprio. As suas tempestades foram sobretudo interiores e são essas que irrigam, com vigor o tecido da sua obra” (José Régio ou a Confissão Relutante, Rolim, 1988). A consideração de Eduardo Lourenço sobre o carácter da obra de Régio e sobre a natureza da presença levará, no entanto, a uma estranha acumulação de equívocos, que só uma leitura mais atenta de “Presença ou a contrarrevolução do modernismo” (“Comércio do Porto”, 14.6.60) poderá esclarecer. O próprio Eduardo Lourenço preocupou-se em clarificar o que tinha dito, acrescentando a uma nova versão do texto o qualificativo “português” ao modernismo e um ponto de interrogação no final, procurando afastar qualquer entendimento político ou literal nessa ideia. Deste modo, Eugénio Lisboa, na comparação entre os dois modernismos, o de Orpheu e o da presença, afirma mesmo: “o primeiro modernismo foi um momento de convulsão e o segundo um momento de reflexão e consolidação” (Ibidem.). Um e o outro completam-se e diferenciam-se. E até se percebe que Nemésio tenha preferido, em dado momento, criar um outro órgão de ideias - a Revista de Portugal (1937) talvez menos contaminada com a proximidade dos modernismos… A razão parece hoje irónica, mas foi invocada.

 

É VIVO O ORIGINAL
“Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima de uma personalidade artística. A primeira condição de uma obra viva é pois ter uma personalidade a obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos, superficialmente, o que o diferencia dos mais (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo, o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade, calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto destes temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidade não passarão de um truque literário” (presença, nº 1, 1927). Eis o programa de Régio, que prefere, na sua batalha pela “Literatura Viva”, afirmar: “à personalidade do artista-criador nada proíbe a presença senão que se falseie; nada impõe senão que se revele” (“O Primeiro de Janeiro”, 25.10.44). No entanto, se desconfiava das originalidades “demasiado exibicionistas”, acusava de conformismo a falta de originalidade e a falta de sinceridade. Numa palavra, o certo é que a presença tornou-se o verdadeiro arauto que exprimiu quão relevante e visível foi a geração de Orpheu.

 

O SEGUNDO MODERNISMO
Todavia, o segundo modernismo era, essencialmente, um momento de reflexão e consolidação – e é essa distinção que Eduardo Lourenço quis fazer, de modo metafórico. Aliás, o próprio Régio assume esta ambiguidade, quando põe a dialogar, em A Velha Casa, Lelito com seu irmão João, e este diz: “Tornas falsas muitas coisas que são em si verdadeiras e sinceras”. E se o tema político merece toda a atenção tal deve-se à independência da revista e dos seus animadores, acima de toda a suspeita, e sob muitas desconfianças. Não houve, de facto, conciliação com o regime nascido em 1926 – vejam-se, por exemplo, a publicação do texto fortemente crítico de Raul Leal, aquando da homenagem coimbrã a António Correia de Oliveira (1930); a identificação de Régio relativamente à posição política de António Sérgio; e a tomada de posição de Guilherme Castilho, José Marmelo e Silva e João Campos, quando a presença fechou as portas (1940), dando ênfase à fidelidade da revista aos valores do espírito que estavam a ser destruídos pelos senhores da guerra. O modernismo não era, assim, uma receita, mas uma atitude: “qualquer mestre de hoje só é modernista na medida em que, sem ter de negar seja qual for das descobertas vitais do passado, se encaminha para novas descobertas e antevê novos mundos… que podem não ser mais do que a imprevista sondagem dos mundos já conhecidos” (presença, nº 23, dezembro de 1929). Régio foi sempre um escritor verdadeiramente livre, e encontramos nele: a compreensão da renovação da cultura portuguesa no século XX, com a geração de Orpheu, mas também com Teixeira de Pascoaes e o melhor da Renascença Portuguesa; ou com a consideração do modernismo não como uma escola ou um grupo, mas como uma atitude orientada para a compreensão dos novos mundos; na interrogação aberta e inconformista da transcendência – na linha de Dostoievski, Tolstoi, Proust, Claudel e Gide. Régio não é apenas poeta – é sobretudo dramaturgo, ensaísta e romancista, e nesses domínios encontramos alguma da melhor expressão da sua criatividade. David Mourão-Ferreira dirá: “Penetrante, arguto, tão apto por vezes para a síntese impressionista como para a análise psicológico-literária…”. A 22 de dezembro de 1969, em Vila do Conde, deixou-nos José Maria dos Reis Pereira, depois de uma vida de pedagogo, de escritor, de dramaturgo, de romancista, de novelista, de poeta, de contista, de ensaísta, de cronista, de memorialista. Foi há cinquenta anos. A sua obra multifacetada permite-nos compreender a existência humana através da literatura e da arte. E hoje voltamos a ler: “Era a hora do estudo da tarde, e Lelito pensava. As Catilinárias abertas na carteira, o dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis na mão – pareciam demonstrar que Lelito prepareva a sua lição de latim. Mas Lelito não pensava nas Catilinárias. Na realidade nem pensava…”       

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 25 de novembro a 1 de dezembro de 2019

 

O número 202 da revista “Colóquio-Letras” (Gulbenkian, 2019) é deliciosamente ilustrado pelo Herbário de Lourdes Castro e começa por um texto inesquecível de Agustina.


UM MONÓLOGO A DOIS
“Correspondências” é o prato forte do último número da revista “Colóquio – Letras” (202, setembro – dezembro de 2019). Num tempo em que a correspondência está a sofrer uma profunda mudança, pela emergência das novas tecnologias de informação e comunicação, do correio eletrónico, da internet e da digitalização, é essencial lembrar o significado da comunicação escrita. Como afirma Marcello Duarte Mathias: “a correspondência é um monólogo a dois; o diário uma correspondência a várias vozes. Ambos apresentam, contudo, um traço comum: são formas disfarçadas de autobiografia, porquanto a procura que lhes subjaz obedece a uma idêntica demanda de identidade – uma mesma realidade focada de ângulos diferentes. Ou, dito de outro modo, singularidade de testemunhos que equivalem a uma semelhante aventura de espírito”. Veja-se, aliás, a lista de exemplos dados por Miguel Real relativamente ao uso da correspondência na cultura portuguesa: Pero Vaz de Caminha na descoberta do Brasil apresenta uma “carta civilizacional”; Afonso de Albuquerque e António Lobo Antunes, cartas de guerra, em momentos e com motivações muito diferentes; Wenceslau de Morais, cartas sobre a saudade; Frei António das Chagas e o Padre António Vieira, cartas espirituais; Mariana Alcoforado e Eça de Queiroz, cartas de amor; Luís António Verney, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, missivas sobre o atraso português. Os exemplos ilustram a natureza e a importância da correspondência. Por muito que oiçamos queixas sobre o vazio criado pela ausência da correspondência tradicional, a verdade é que teremos de encontrar novas formas de registar esses diálogos, indispensáveis para melhor nos compreendermos. É verdade que há riscos fortes. Marcello D. Mathias diz mesmo: “com o desaparecimento das cartas desaparece de igual modo um estilo de vida, a par de espólios e arquivos que lhes dizem respeito – é toda uma prática civilizacional que se perderá. A título definitivo”. Temos, de facto, de ter isso em consideração, mas certamente, encontraremos novos modos de fixar a necessária comunicação, que corresponde a um verdadeira demanda de identidade.

 

O MUNDO DIGITAL
Leia-se, aliás, o texto, de grande interesse atual, de Manuel Portela intitulado “correio @ eletrónico: escrever cartas na rede”. De facto, o correio eletrónico sofre com a aceleração do tempo e com a compressão do espaço, de acordo com a lógica das culturas de rede. A distância espacial e temporal correspondente à tradicional carta de papel teve uma completa alteração de escala. A comunicação passou a ser instantânea, com consequências na linguagem, no cuidado e na clareza das mensagens, o que obriga a uma alteração radical no método e na análise. Daí que tenhamos de lidar no futuro com uma escrita e uma linguagem adaptada ao correio eletrónico. Por outro lado, “a necessidade de conexão permanente interfere com a capacidade introspetiva - limitando a conversa que os indivíduos mantêm consigo mesmos e a consequente reflexividade - e, simultaneamente, diminui a capacidade de imaginar o lugar dos outros, já que estes se fazem presentes mais como representações gráficas na interface sob controlo do utilizador do que como seres independentes dessa figuração simbólica”. Vários exemplos são apresentados pelo autor, o que contribui para se compreender não só as potencialidades mas também as limitações deste meio, que indiscutivelmente ganhará importância no futuro, terá os seus cultores e até possuirá uma nova qualidade literária. Os temas do tempo e da reflexão são cruciais quando falamos desta questão. Evidentemente que os progressos trazem mudanças profundas, como se nota em dois textos sob o efeito do tempo na comunicação epistolar, de Fernando Cabral Martins sobre os modernistas e de António Cândido Franco relativo à epistolografia negra do surrealismo. E se dúvidas houvesse, temos a publicação das cartas de Mário Cesariny e M.S. Lourenço. De facto, como “correspondências” que são, há uma grande variação consoante as diferentes gerações. E as cartas imaginárias apresentadas, da autoria de António Mega Ferreira, Rita Taborda Duarte, Nuno Júdice, Julieta Monginho, Alexandra Lucas Coelho e Afonso Reis Cabral ilustram muito bem modos muito diferentes de comunicar. É verdade que os tempos das grandes epístolas passaram, mas a necessária reflexão precisa de existir e terá, por certo, de se ir adaptando às novas tecnologias e mentalidades.

 

RUBEN E TORGA
E vejamos o estimulante diálogo entre Ruben A. e Miguel Torga. Antes do mais, é inesperado, mas muito atraente, considerando a riqueza cultural das duas personalidades. Cinco cartões, quatro postais, um telegrama e 34 cartas foi o que Torga enviou. E são a prova provada de uma admiração correspondida. E fica-nos na memória a afirmação de Torga, sempre exigente, sobre “A Torre da Barbela”: “confesso-lhe que ainda não consegui sair da confusão de tanto sonambulismo. O que já sei de ciência certa é que agradaram deveras os inúmeros achados expressivos que enxameiam o livro. Parei vezes sem conto no caminho, boquiaberto com a graça e a originalidade de certas maneiras de dizer. Que rica imaginação verbal a sua!”. E quanto a “O Mundo à Minha Procura”: “Você tem nele páginas admiráveis, de mão de mestre…”. E Ruben A., com um critério sempre exigente, diz ser Torga “o último grande escritor da tradição clássica da língua portuguesa. A sua contribuição criadora encerra na mais sublime forma expressões definitivas de clareza, profundidade e de valor humano”… E se este diálogo intenso e afetuoso se lê com grande agrado, perante um Miguel Torga próximo e afável (como eu próprio conheci), fica-nos a ilustração plena da força das “correspondências”. E neste ano dos centenários de Sophia e de Jorge de Sena, temos presente o filme de Rita Azevedo Gomes, no qual emerge um diálogo que confirma as considerações de Marcello D. Mathias. Este número da revista é deliciosamente ilustrado pelo Herbário de Lourdes Castro e começa por um texto inesquecível de Agustina. E assim a “Colóquio - Letras” confirma uma história de prestígio. Nasceu com a designação de “Colóquio, Revista de Artes e Letras”, por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian, em janeiro de 1959, sob a direção de Reynaldo dos Santos e Hernâni Cidade e a direção gráfica de Bernardo Marques. José-Augusto França e Jacinto do Prado Coelho associaram-se à direção da revista em fevereiro de 1970. Então, autonomizaram-se a “Colóquio – Letras”, que começou a sua publicação em 1971, sob a direção de Hernâni Cidade (1971-1975) e de Jacinto do Prado Coelho (1971-84), e a “Colóquio – Artes”, também nascida em 1971 e dirigida por José-Augusto França, coadjuvado por Carlos Pontes Leça, que se publicou até dezembro de 1996. A “Colóquio – Letras” foi depois dirigida por David Mourão-Ferreira (1984-96), Joana Morais Varela (1996-2008) e agora por Nuno Júdice, desde 2009. E diga-se, o tempo das revistas de qualidade é o futuro.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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EDGAR MORIN

 

Guilherme d'Oliveira Martins fez o elogio de Edgar Morin na sua presença no Instituto Piaget em Almada no passado dia 15 de novembro. Reproduzimos texto publicado pelo CNC em 2011. 

 

A VIDA DOS LIVROS
De 19 a 25 de dezembro de 2011.

Stéphane Hessel e Edgar Morin acabam de publicar «Le Chemin de l’Espérance» (Fayard, 2011), onde nos apresentam um alerta para os dias de hoje. A política, a economia, a sociedade e a cultura precisam de uma tomada de consciência cidadã no sentido da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade e da responsabilidade. Fala-se muito de indignação, e essa foi a palavra usada por Hessel, no entanto os dois autores, nonagenários mas de uma lucidez exemplar, propõem-nos uma nova esperança, assente na vontade emancipadora e da recusa da indiferença. O mesmo tem feito Eduardo Lourenço, agora justamente galardoado com o Prémio Pessoa!

 

FALAR COM EDGAR MORIN
Foi há dias, em Paris, nas novas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, em La Tour Maubourg. Conversámos sobre o futuro da Europa. O convidado era Edgar Morin, e partilhei o diálogo com José Mariano Gago. Edgar Morin é um velho amigo de Portugal e recorda o momento, no início dos anos sessenta, em que, com Jean-Marie Domenach e nas proximidades do Congresso para a Liberdade da Cultura, de Pierre Emmanuel, começou a ter um contacto fraterno, que nunca mais seria interrompido, com António Alçada Baptista e o grupo de «O Tempo e o Modo». Depois das desconfianças dos anos quarenta e cinquenta relativamente a uma Europa de tecnocratas com conotações americanas, vieram novas circunstâncias. A Europa tornou-se oportunidade de aprofundar a democracia. A evolução a leste originou muitas perplexidades e dúvidas, a sul do velho continente havia uma opinião pública que se abria e se preparava para a democracia, depois, o choque petrolífero produziu uma nova consciência ecológica e obrigou a mudar de ideias e estratégias. Com Roselyne Chenu, braço direito de Pierre Emmanuel, presente no auditório de Paris, o pensador recordou esses encontros distantes, envolvendo oposicionistas ibéricos, tão diferentes como José Bergamín, Gil Robles, Dionísio Ridruejo ou Ruíz-Gimenez. Os jovens João Bénard da Costa e Helena Vaz da Silva tornaram-se facilmente referências de inovação e inconformismo e são lembrados com saudade. José Vidal-Beneyto vem à baila, como entusiasta de um projeto europeu, capaz de incorporar a história antiga do Mediterrâneo e a evolução moderna, desde às guerras civis às novas exigências da ciência, da educação e da cultura. É a memória de grandes amigos comuns que há pouco nos deixaram, mas cuja lição está bem presente. E como será possível falar hoje de Europa sem lembrar esses contactos, de diálogo e de afeto, de uma geração para quem estavam ainda bem vivos os efeitos dramáticos da Guerra e a exigência da construção da paz e da democracia, através da liberdade de homens e mulheres de cultura?

 

CRISE SEM ILUSÕES
Hoje, a crise europeia é profunda e não admite ilusões. Morin não pode deixar de exprimir o seu pessimismo. Mas considera que não há saída pacífica e justa sem o aprofundamento dos elos europeus. A crise financeira que vivemos deve-se ao facto de a civilização do poder se ter sobreposto a uma civilização do diálogo. A ilusão, o imediatismo, o consumo exacerbado, o produtivismo, a indiferença ética, tudo isso contribuiu para chegarmos onde estamos. Em lugar de uma cultura de criação, impôs-se a especulação, a lógica de casino e a busca de ganhos sem sustentabilidade – enquanto outros poupavam nós gastávamos. A noção de um progresso sem interrupção nem limites gerou o fanatismo do mercado e a incompreensão sobre o facto de a humanidade ter de lidar com a consciência dos limites. Afinal, como o escritor diz na sua obra «La Voie. Pour l’Avenir de l’Humanité» (Fayard, 2011), celebrizada por Stéphane Hessel, há que compreender que existem elementos contraditórios que têm de ser articulados e tidos em consideração hoje: a mundialização e a desmundialização; o crescimento e o decrescimento; o desenvolvimento e o envolvimento; a conservação e a transformação. Edgar Morin fala-nos, por isso, de metamorfose como um processo complexo abrangendo a política, a sociedade, a economia e a cultura, em que vários fatores se influenciam, obrigando à compreensão da diversidade. Morin propõe, assim, a ideia de metamorfose, improvável mas possível, como alternativa à desintegração provável. A natureza está cheia de exemplos de metamorfoses – por exemplo, a lagarta encerra-se na crisálida, num processo de autoreconstrução. A noção de metamorfose é, deste modo, mais rica que a de revolução, uma vez que preserva a radicalidade transformadora, ligando-a à conservação da vida e à herança das culturas. Sendo impossível travar a tendência que conduz aos desastres, devemos pensar que as grandes transformações começam com uma inovação, uma nova mensagem marginal, modesta, tantas vezes invisível… Se a mundialização está na ordem do dia, não podemos esquecer que o local e o tribal existem como elementos, a um tempo, de coesão e de fragmentação, de proximidade e de distância. O crescimento económico torna-se insuficiente e perigoso, uma vez que desvaloriza a proteção dos recursos disponíveis e a sua renovação. O desenvolvimento humano tem de ser integrado e capaz de ligar a coesão, a confiança, o capital social e a solidariedade. Conservação e transformação vivem ligadas uma à outra, o que obriga à criatividade e ao «conhecimento do conhecimento», como impulsionadores da compreensão.

 

O PROVÁVEL E O IMPROVÁVEL
O escritor considera que a catástrofe pode estar no horizonte, mas acredita em que é possível inverter o curso dos acontecimentos. E recorda dois exemplos marcantes de tempos muito diferentes. A resistência vitoriosa por duas vezes da pequena cidade de Atenas perante o poder formidável dos persas, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável, mas permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Do mesmo modo, foram tão inesperados como improváveis o atraso e o congelamento da ofensiva alemã em Moscovo no Outono de 1941 e depois a contraofensiva vitoriosa de Jukov em 5 de Dezembro, seguida no dia 8 pelo ataque a Pearl Harbour que fez entrar os Estados Unidos na Guerra. A História reserva-nos inúmeros exemplos que nos permitem alimentar esperanças, desde que haja capacidade de autocrítica e mobilização de vontades, em torno de objetivos inteligentes e justos. Terêncio é chamado – temos de entender que nada do que é humano nos pode ser estranho. E quando alguém pergunta o que é a identidade europeia, Edgar Morin recorda a sua ideia de uma «comunidade de destino», capaz de congregar a consciência das diferenças e a importância do outro. Prefiro usar a expressão comunidade plural (e democrática) de destinos e valores. E se falo de «comunidade», dou-lhe o sentido de pessoa em comum (gesamtperson, de que falava Landsberg). A cultura é o que diferencia e a civilização é o que difunde a criatividade humana. A identidade corresponde, assim, à exigência de um caminho comum e partilhado. Impõe-se perceber que, na expressão de Denis de Rougemont ou de Daniel Bell, o Estado atual é grande e pequeno demais para responder aos problemas contemporâneos. Quando surge, por fim, a pergunta sobre o que caracteriza uma ética europeia, na linha de Montaigne, E. Morin responde que o universalismo e a capacidade autocrítica são as características europeias fundamentais. Precisamos, no fundo, de uma Europa criativa e imperfeita, aberta ao mundo, universalista e cultora da crítica, capaz de incorporar um caminho que possa favorecer a ideia fecunda de metamorfose!

 

Guilherme d’Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de novembro de 2019

 

A obra de Mário Cláudio é multifacetada e rica. Eis por que os cinquenta anos de vida literária merecem especial atenção. Desde a poesia de “Ciclo de Cypris” (1969), encontramos uma criteriosa escolha de temas e uma permanente interrogação sobre vida, sentimentos, pessoas, artistas, escritores, poetas – certos de que o autor vai sempre descobrindo novos fatores para a compreensão do género humano.  


ESCREVER E TRANSFORMAR-SE
Tenho uma especial estima pessoal por Mário Cláudio, como o próprio bem sabe. Sou um seu leitor fiel, de há muito, e não esqueço a sua hospitalidade, em outubro de 2010, em Paredes de Coura, com Manuel Villaverde Cabral e Maria João Avillez, quando também pudemos falar dos edifícios desenhados por Joaquim Pedro Oliveira Martins, graças à influência do Conselheiro Miguel Dantas, sogro de Bernardino Machado. E, falando do Centro Mário Cláudio, não esqueço a longa evocação que fizemos dos nomes da literatura galaico portuguesa cuja memória encontramos dos dois lados da fronteira do Rio Minho: Aquilino Ribeiro, com a Casa Grande de Romarigães, Tomaz de Figueiredo, com a casa de Arcos de Valdevez; e do outro lado da fronteira, Camilo José Cela, Rosalía de Castro, Ramón del Valle-Inclan, Emília Pardo Bazán. Poderá, pois, compreender-se que a minha admiração por Mário Cláudio tenha raízes fundas… “Escrever é transformar-se continuamente. Não só escrever. A vida é uma constante transformação. Digamos que a escrita é mais o espelho dessa mutação em que nós estamos inseridos e que nos acompanha ao longo de toda a vida, e é um espelho onde se reflete uma imagem que, inclusivamente, não pode ser proveitosa, porque nos dá conta da dinâmica dessa evolução e nos permite corrigir determinados caminhos, aqui ou além, e enveredar por aquilo que nos parecer mais adequado, também de vez em quando” (JN, 19.7.17). Isso é evidente, quer quando o romancista descobre uma personagem histórica, quer quando se debruça sobre si mesmo, criando figuras imaginárias, que beneficiam da sua própria experiência. Lembramo-nos de Tiago Veiga e compreendemos como muitos leitores ficaram perplexos, com uma tão grande soma de elementos reais. Se Tiago Veiga não existiu, poderia ter existido; e se existiu é composto de vários elementos concretos, que encontramos nos meios literários e em figuras que resultam de vários elementos que se associam de modo verosímil, numa recriação notável da realidade humana.

 

AUTOBIOGRAFISMO…
Se lermos “Astronomia” (2015) é, no entanto, a perspetiva claramente autobiográfica que prevalece, no sentido propriamente dito. Mas também deparamos com as verdadeiras biografias romanceadas de personalidades marcantes reveladoras não apenas de figuras reais, mas também de uma descrição rigorosa dos ambientes e da vida quotidiana – como nos casos de “Amadeo” (1984), “Guilhermina” (1986) e “Rosa” (1988). Como prosador dotado, Mário Cláudio faz da literatura um modo de compreensão da vida e da sociedade. Daí partir nestes três casos de perspetivas diferentes da criação artística – desde o modernismo erudito de Amadeo de Souza Cardoso à uma dotadíssima expressão popular de Rosa Ramalho, passando pelo talento único que tinha Guilhermina Suggia. E a aura da genial intérprete fica enriquecida com a prosa de Mário Cláudio. E sentimos que estamos a participar numa ação parcialmente verídica e imaginosa, que sentimos como possível. “Camilo Broca” (2006) é a invocação da genialidade de Camilo Castelo Branco através do meio em que viveu desde a sua infância. Mais do que a história é também uma subtil homenagem ao universo de Agustina, com que Mário Cláudio tanto se compara e que admira (com cuidosas distâncias), em estreita relação com o romancista de “Estrelas Propícias”. Quando lemos “Triunfo do Amor Português” (2004), prefaciado por Agustina, vemos como a culpa assume papel fundamental no intenso fundo lírico desta cultura aberta ao Atlântico, com a presença de Pedro e Inês, Leonor Teles e Andeiro, Camões e a Infanta D. Maria, Mariana Alcoforado e o Conde de Chamilly, D. João V e Madre Paula, Tomás António Gonzaga e Marília de Dirceu, a Severa e o Conde de Marialva, Camilo e Ana Plácido, D. Pedro V e D. Estefânia, António Nobre e Alberto Oliveira… E assim a imaginação do romancista resulta da capacidade de associar elementos aparentemente contraditórios que procuram fazer sentido, como no caso de “Memórias Secretas” (2018), no qual recorre à “banda desenhada” e reinventa personagens – Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente aproximam-se de nós e descobrimos relações inesperadas. E falando, por fim, do “Tríptico da Salvação” (2019), em que intervêm figuras históricas, como Lutero e Lucas Cranach, não é tanto o romance histórico que interessa, mas a consideração das personagens envolvidas. Lutero é o homem inconformista, a um tempo conservador e reformista, que interessa ao romancista, até porque entra em choque simultaneamente com o Imperador e o Papa. Por outro lado, a admiração de Lutero por um grande pintor como Cranach, leva-o a evoluir na reflexão sobre o sentido da representação de imagens contra o entendimento inicial.

 

ESCRITOR E PEDAGOGO
A propósito de “Astronomia”, Mário Cláudio afirmou: “Quando digo que sou escritor incluo nisso todas as dimensões de atividades da minha vida. A docência é a continuidade da minha atividade de escrita. É como se estivesse a escrever a vida com outras pessoas ou a escrever na alma delas e elas na minha alma. Aprende-se muito através da docência. Aquilo que se recebe é talvez mais do que aquilo que se dá. Não era um professor facilitante, era bastante exigente, muito austero. Havia pessoas que se davam bem, outras não. Sempre validei as pessoas que trabalhavam mais. Não há que fugir a isso. E isso às vezes cria atritos. Mas devo dizer que olhando retrospetivamente, nos encontros com ex-alunos, tenho consciência que ficou uma réstia de amizade e afeto com todos eles”. É muito importante esta afirmação, de quem faz da sua escrita um caminho permanente de aprendizagem, vista como uma permanente troca de experiências. Longe da ideia do “magíster dixit”, o escritor, como o educador e o romancista têm de ganhar autoridade no modo como exercem o seu magistério – e o escritor que assim se apresenta refere a exigência como algo de natural e necessário, e o certo é que literariamente encontramos a mesma preocupação, bem evidente numa escrita rigorosa e atraente… Nesse ponto, apesar de admirar a figura e a obra e Agustina, põe as distâncias que o levaram naturalmente a trilhar caminhos diversos, nalguns pontos convergentes mas menos filosofantes, que um dia testemunhei, quando pudemos, de algum modo, partilhar um extraordinário convívio, com a própria Agustina, num memorável jantar portuense.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 11 a 17 de novembro de 2019

 

O Seminário Internacional “Oliveira Martins e o seu tempo (1845-1894)”, coordenado pelos Professores Hipólito de la Torre, Angeles Lario e Paula Borges teve lugar em Madrid a 24 e 25 de outubro, na Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED).

 

Oliveira Martins _ Historia da Civilização Ibér


BIBLIOTECA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Quando Oliveira Martins iniciou, em 1879, a Biblioteca das Ciências Sociais, projeto a um tempo de reflexão histórica e de sentido pedagógico, começou, significativamente por publicar História da Civilização Ibérica, antes da História de Portugal, para marcar com clareza a necessidade de integrar a realidade portuguesa no contexto geográfico e político da Península Ibérica. A Biblioteca pretendia "preencher uma lacuna" e "uma necessidade das mais graves" - a de "generalizar entre as classes médias portuguesas uma ordem de conhecimentos que sem ofensa dos nossos brios se pode dizer ignorarem". Tratava-se de usar termos inteiramente novos e atrativos, sem concessão às "insonsas biografias de reis, de tratados de ontologia bolorenta, de fardos de retórica piegas, de lendas milagreiras e histórias que já são sagradas apenas para os imbecis". Na História da Civilização Ibérica, o autor sustenta que Portugal e Espanha fazem parte de um mesmo corpo, animado por um espírito comum. Na prática, prossegue-se, por caminhos próprios, a reflexão de Antero de Quental na segunda conferência do Casino - sobre as causas da decadência dos povos peninsulares. O individualismo, o jesuitismo e as conquistas seriam as razões de decaimento, que conviria recordar, para que no futuro não se repetissem os erros. A Península Ibérica deveria, assim, agir como um todo, afinando as suas complementaridades no contexto europeu. E a "sociedade portuguesa" constituía uma "molécula" do organismo social "ibérico, peninsular ou espanhol". Contra a tentação hegemónica, o que o escritor defende é que a história peninsular permita compreender que os dois povos precisam um do outro. Aliás, no texto incompleto, publicado postumamente, sobre o Príncipe Perfeito, ao tratar da batalha de Toro, com D. Afonso V pretendente ao trono de Castela, o historiador enfatiza as qualidades de D. João II, que participa brilhantemente na batalha em que seu pai é vencido. Está em causa um pensamento de complementaridade estratégica com o que virá a ser o reinado dos Reis Católicos. Só uma Península coordenada poderia ser cabeça eficaz de um império universal.

 

QUE CIVILIZAÇÃO IBÉRICA?
No Seminário Internacional “Oliveira Martins e o seu tempo (1845-1894)”, coordenado pelos Professores Hipólito de la Torre, Angeles Lario e Paula Borges, que teve lugar em Madrid a 24 e 25 de outubro, na Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED), houve um importante debate sobre a obra do historiador português no contexto da Geração de 1870. Sérgio Campos Matos interrogou-se sobre o significado do conceito de “civilização ibérica” e desenvolveu-o não apenas em termos comparados, mas também sobre o seu significado para a compreensão da realidade peninsular. E o certo é que há uma crítica clara relativamente à obra clássica de Henry Thomas Buckle, History of Civilization in England (1857-1865), em especial quanto à “lenda negra” sobre a civilização peninsular. “Negar redondamente a hombridade peninsular, não surpreende num inglês incapaz de a compreender”. Demarcando-se da ideia de que os povos peninsulares corresponderiam ao paradigma do atraso, Oliveira Martins faz uma análise certeira, abrindo o caminho para a necessidade de aprofundar a capacidade de emancipação de corrente do carácter ibérico – e neste ponto associa o sentido crítico à exigência de uma vontade de liberdade e progresso, prosseguindo a célebre conferência de Antero de Quental. Leia-se, assim, o texto de Oliveira Martins na “Revista Ocidental”, “Os Povos Peninsulares e a Civilização moderna” (1875) que constitui o esboço da obra que abre a Biblioteca das Ciências Sociais. Em traços gerais, há uma clara recusa das simplificações do anacronismo e do patriotismo, na linha de Alexandre Herculano ou de Eça, bem como o enaltecimento do sentimento de independências (hombridade), que se prolonga numa perspetiva universalista (que Jaime Cortesão desenvolverá). Emílio Castelar (1832-1899), Juan Valera (1824-1905), Menendez Pelayo (1856-1912), Angel Ganivet (1865-1898) (mesmo sem citar) e Miguel de Unamuno (1864-1936) revelam a leitura de Oliveira Martins – numa perspetiva de compreender a dualidade política, pressupondo um patriotismo ideal ibérico ou hispânico e um patriotismo real das nações peninsulares. E assim a persistência do historiador português é a de uma aliança prioritária ibérica e não de uma união uniformizadora. Assim, temos como subjacente à História da Civilização Ibérica (HCI) não a ideia de nação étnica, como queria Teófilo Braga, mas de uma nação moral, centrada na vontade, na linha de Alexandre Herculano ou de Antero. Não por acaso, o primeiro livro de Oliveira Martins é Febo Moniz (1867), obra crítica do iberismo político uniformizador, de Sinibaldo de Mas (1809-1868). O conceito integrador, mais rico, assente na consciência moral e no carácter dos povos ibéricos leva-nos ao conceito de civilização ibérica e ao seu sentido crítico e positivo: “A deplorável confusão que se faz da história e da política, levando para a primeira as preocupações da segunda; vendo um tirano em toda a parte onde se encontra um rei, um salteador sempre que se encontra um nobre, um charlatão sempre que se topa com um padre: essa deplorável paixão confunde, baralha tudo e torna impossível a compreensão das coisas” (HCI, I,3). Assim se põe a causa a “tese” de Buckle – afirmando um carácter peninsular baseado em atos voluntários e livres, não explicáveis por simplificações. A civilização ibérica tem uma história e uma evolução – e Oliveira Martins pensa criticamente, mas não aceita um qualquer fatalismo de atraso ou de medo. “Em vez de condenar, expliquemos” (Ibidem).

 

IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA POLÍTICA
Se na compreensão da noção complexa de “civilização ibérica”, designadamente na sua projeção extraeuropeia, temos de entender o autor na sua preocupação de integrar a diversidade e a complexidade, o mesmo devemos fazer quando ao organicismo e ao “cesarismo”. Não devem ser feitas projeções lineares ou tentativas de criar uma história presuntiva – procurando projetar depois da morte de um autor o que teria feito ou pensado se ainda vivesse noutro tempo. Urge compreender e explicar – afirma o historiador. Leia-se, por isso, com atenção a perspetiva orgânica de “As Eleições” (1878), num momento em o autor procurou pensar em coerência com o socialismo que preconizava, do mesmo modo que o “cesarismo” tem de ser visto no âmbito de um pensamento crítico complexo. Não são os textos circunstanciais que explicam essa perspetiva, mas sim a História da República Romana (1885), escrita a pensar na tentativa de salvamento da República, através de uma solução provisória e dúbia, entre a imitação da realeza e o simulacro republicano. E sobre as virtudes do pensamento crítico, Antero fala do ceticismo – “em que tudo tem de se dissolver provisoriamente”. Não devemos, porém, cometer anacronismo na consideração do pensamento político. Como aconteceu, no célebre diálogo com Alexandre Herculano, o velho mestre insiste em que é liberal mas não democrata. E o jovem responde que não pode haver liberdade sem igualdade, nem igualdade sem liberdade. Não falamos, no entanto, da democracia na aceção atual, e recordamos a experiência nas minas de Santa Eufémia em Espanha, lembrada por Eloy Fernandez Clemente, onde descobrimos a relação humana com os operários, a preocupação com as suas condições sociais e económicas e com a educação dos seus filhos. E é aí que se nota, nas diferenças, uma evidente coerência.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 4 a 10 de novembro de 2019

 

"Antologia Poética" de Jorge de Sena (Guimarães, 2010), com organização de Jorge Fazenda Lourenço, quando se celebra o primeiro centenário do nascimento do poeta (1919-1978), permite começar a entender o carácter poliédrico da obra de um autor complexo, difícil, seguro, fecundo e tantas vezes inesperado, para quem a liberdade é a chave da capacidade criadora.

 

CENTENÁRIOS CONVERGENTES
Quatro dias apenas de diferença entre as datas de nascimento de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen é uma feliz coincidência que une dois nomes maiores da cultura portuguesas, que na vida tiveram uma relação muito próxima, bem expressa numa correspondência notável, que Rita Azevedo Gomes transpôs para a tela, numa obra tocante, na qual as duas personalidades se completam naturalmente. Não é possível compreender essa correspondência sem a presença de Francisco de Sousa Tavares, em quem todos reconheciam a coragem, a audácia e a capacidade de compreender como poucos a força das raízes culturais portuguesas. A correspondência segue o período do exílio voluntário de Jorge de Sena, depois de 1959, quando, aproveitando um congresso na Bahia, partiu para ensinar Literatura Portuguesa, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos. Antes tinha-se estabelecido uma ligação muito forte, com a presença quase quotidiana de Sena na Travessa das Mónicas, tudo culminando no episódio algo quixotesco do golpe dito da Sé, em que Sousa Tavares usou a farda gasta de miliciano e pediu a sua mulher, Sophia, que pusesse os filhos em segurança, fora de casa, na noite aprazada para a tentativa revolucionária, de 11 para 12 de março de 1959. Estavam envolvidos Manuel Serra, João Perestrelo de Vasconcelos, à altura clérigo na Sé, Fernando Oneto, o Capitão Almeida Santos, João Varela Gomes e muitos outros – além de Jorge de Sena e de António Alçada Baptista. E lembramos Sophia em “Carta(s) a Jorge de Sena”, na hora em que ele nos deixou: “… Há muito estravas longe / Mas vinham cartas poemas notícias / E pensávamos que sempre voltarias / Enquanto amigos teus aqui te esperassem - / E assim às vezes chegavas da terra estrangeira / Não como filho pródigo mas como irmão prudente / E ríamos e falávamos em redor da mesa / E tiniam talheres loiças e vidros / Com se tudo na chegada se alegrasse / Trazias contigo um certo ar de capitão das tempestades / - Grandioso vencedor e tão amargo vencido…”

 

UM DISCURSO NOTÁVEL
Se lermos um dos últimos textos de Jorge de Sena, dito na cerimónia do dia 10 de junho de 1977 podemos compreender a extraordinária dimensão cultural e cívica do poeta e ensaísta, com um sentido crítico e inovador apuradíssimo, invocando a figura de Camões, que tanto admirava. Jorge de Sena revisita o épico, dando-lhe a importância que merece, muito para além das simplificações que constituíam o modo mais fácil de o invocar, símbolo primeiro da nossa cultura. Diga-se ainda para mais que, além do seu camonismo, Sena foi pioneiro na descoberta intelectual e literária de Fernando Pessoa, num tempo em que se estava longe do reconhecimento que mais tarde veio. Coube, de facto, a Jorge de Sena o início do projeto essencial que foi a publicação do “Livro Desassossego”, em cujos prolegómenos o poeta de “Fidelidade” esteve envolvido. António M. Feijó refere, aliás, as extraordinárias intuições interpretativas de Sena que abriram novas e fecundas perspetivas. Mas, voltando a Camões, para Sena, importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». Ao invocar a figura ímpar do épico, Jorge de Sena deixou, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo».

 

O HOMEM UNIVERSAL POR EXCELÊNCIA
Para Sena, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. José Bento (que há pouco nos deixou) insistia em que Sena não se ficava pelo meio – “procurava sempre a totalidade”. Porventura sem querer, ou querendo-o intimamente, Jorge de Sena deixou nesse dia 10 de junho a mensagem fundamental de um grande poeta e ensaísta moderno – entusiasmado, na sua experiência norte-americana, com a importância do conhecimento, da educação e da ciência. Aliás, em “Sinais de Fogo”, obra-prima, apesar de incompleta, que começa no tempo da guerra de Espanha, sentimos, no dizer de Jorge Fazenda Lourenço, que “a tensão existencial entre conhecer e o agir, na vida social, amorosa, sexual, desencadeia a criação poética”. E de facto raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo. E, como afirmou ao grande amigo Ruy Cinatti, aos 22 anos, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte. Que mais é preciso? Só é preciso o que existe – eu é que exijo tudo o que existe”. E chegamos ao final do discurso da Guarda – onde se remata com o apelo para Camões (por que não para Sena?): «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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