Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
A Escritaria de Penafiel homenageia este ano Maria do Rosário Pedreira e a sua obra.
«Os meus livros são quase sempre terapêuticos. Quer os romances quer os livros de poesia correspondem sempre a momentos em que preciso tirar de dentro de mim coisas que me estão a fazer bem. O romance “Alguns Homens, duas Mulheres e Eu” (1993) correspondeu a uma morte na minha família, a primeira ‘importante’ e pesada. Acho que precisei escrever esse livro para poder falar dessa morte com outras pessoas, que também não eram capazes de falar. Um romance é uma coisa muito exigente. Como dizia uma famosa escritora, num romance os personagens levantam-se connosco de manhã e deitam-se connosco à noite. Eles não nos abandonam um único minuto do romance, enquanto estamos a escrever o romance. O mesmo não acontece com a poesia. Um poema pode-nos ocupar uma semana, mas nunca ocupará três anos”. Quem o diz é Maria do Rosário Pedreira dando-nos um sinal de sinceridade, de exigência e de rigor não só na criação literária, mas também numa espécie de cidadania cultural, que nos obriga a olhar a literatura como um modo de participar na emancipação da humanidade. De facto, quando se recria a vida participamos num esforço vital de nos assemelharmos ao Criador das religiões. Fazemos reviver o “Deus ex Machina” que nos coloca na situação singular de encararmos o mundo da vida não como um lugar de determinismos, mas como um horizonte de liberdade em que cada um de nós procura encenar condições para podermos ser melhor libertando-nos de um cego fatalismo.
Vivendo numa sociedade imperfeita, temos sempre a nosso cargo a tarefa de nos tornarmos melhores, através do respeito mútuo e da liberdade. O livre arbítrio é assim a matéria-prima do romancista mesmo que condene as suas personagens a seguir um qualquer determinismo. Com efeito, o romancista tem a possibilidade de recompor a realidade num diálogo entre ele, as pessoas que cria e o mundo que o cerca. Todos estes ingredientes estão sempre presentes na criação romanesca. Considerando o caso de Maria do Rosário Pedreira, a obra da poeta, da romancista, da ensaísta e da editora, ou seja, descobridora de novos talentos literários, liga-se intimamente à capacidade de desassossegar os espíritos em nome da atenção e da aprendizagem da vida. Ouvindo-a, cada passo, a autora apresenta uma coerente preocupação com o superar da mediocridade e da indiferença. Assim afirmou há pouco: “as redes sociais, como dizia Umberto Eco, deram voz a todos os imbecis e portanto hoje toda a gente acha que pode publicar um livro”. Ora, deste modo, torna-se fundamental considerar a necessidade de ultrapassar o corriqueiro. Para tanto, importa ler, e ler melhor. Só poderemos ser anões aos ombros de gigantes, se soubermos considerar a qualidade da diferença. Compreendemos que a leitura significa o contacto e o conhecimento de quem nos antecedeu – a memória significa entender o movimento da vida, o que recebemos e o que transformamos, naquilo que Edgar Morin considera ser a metamorfose como a ligação complexa entre a raiz e a utopia. Desde onde provimos até ao horizonte de exigência para sejamos melhores.
«Desde muito cedo que escrevo poesia (diz-nos a escritora) e, portanto, diria que é a minha forma presencial de comunicar as coisas que preciso tirar de dentro de mim. Devo dizer que me sinto muito mais criadora a partir do que me é dado, do que uma criadora a partir do zero». No entanto essa tábua rasa não existe. Daí recordar que a literatura em todos os tempos “fala basicamente de duas coisas: o amor e a morte”. Por isso, não seria precisa muita coragem para falar de amor, que engloba todos os desejos… Há um poema, em “Nenhum Nome Depois” (2004), que é bem revelador do grande mistério da comunicação poética de Maria do Rosário Pedreira – o encontro entre a memória e o desejo. Dir-se-ia que a solidão reclama o encontro impossível. “Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante / o sono – a ausência não te apaga como a bruma / sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos / meus sonhos um território suspenso de toda a dor, / um país de verão onde não chegam as guinadas da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí / nos encontramos para dizermos um ao outro aquilo que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te / chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com / lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum / ruído que envenene as palavras: pai, pai …”. É o grande enigma da memória que aqui se apresenta. A solidão e o amor reclamam que a impossibilidade do encontro dê origem à revelação pela palavra da grande ausência, pois “o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu nome”.
Escritora multifacetada e fecunda, encontramo-la na literatura juvenil, que captou muitos novos leitores, mas também na pedagogia, até na divulgação científica, e em tudo o que os livros podem revelar. Aliás, ao ouvirmos as suas palavras cantadas na boca de Carlos do Carmo, de Aldina Duarte, de Ana Moura, de Carminho, de António Zambujo ou de Salvador Sobral, podemos entender que elas vão-nos ensinando sobre a essência lírica do fado de Lisboa, que com o tempo deixou de recordar desventuras, para poder ir ao encontro da lírica ancestral…
Esta semana, Ruben A. estará presente na Fundação Gulbenkian, com apoio do Centro Nacional de Cultura e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa num debate que promete muito intitulado “O Incrível Ruben A.”
“A Torre da Barbela” (1ª edição, 1964) é uma obra-prima barroca desconcertante, no melhor sentido etimológico das palavras. O uso do verbo e do enredo é muito exigente e só um historiógrafo experimentado poderia ter lidado, como lidou, com o anacronismo com tanta inteligência e sem despropósito. Tudo começou na Casa de Esteiró (Caminha), com Maria do Patrocínio e José Manuel Villas-Boas, quando estes “contaram a história virtuosa de duas irmãs, da casa de Sestêlo, que, cansadas de uma longa vida de oração e prática de virtudes, resolveram pecar”. Pouco antes da morte, “confessaram ao Abade de Moutosa que não queriam entrar no Purgatório de almas lavadas”. Por que motivo? “Se assim o fizessem, seria grave ofensa às almas que lá estavam penando”. Pecar seria, afinal, um último ato de virtude – “só assim continuava no outro mundo o seu exemplo de modéstia e humildade”. Ruben A. pegou no tema, desenvolveu-o imaginosamente e criou uma trama fantasmagórica, onde a História pátria surge recontada num exercício onírico, a partir de conversas, comentários, encontros e desencontros de pessoas do reino dos mortos.
“Ao fim da tarde, antes do crepúsculo cantar as suas loas e sem se descortinar a realidade, apoderava-se da Barbela um sentido incógnito da existência”. A torre medieval era um antro de acontecimentos fantásticos. “Existissem ou não estrelas, fosse breu ou luar a jorros pelos campos marginais, o mundo abria-se dividindo o tempo”. Numa palavra, “os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre”. E esse ressuscitar transfigurava a torre. “A procissão saía a pé ante pé dos túmulos de pedra, dos sarcófagos egípcios - trazidos por Dom Payo da Barbela, quando das suas incursões por terras do Prestes João – e também da vala comum”… Ah! Havia um “caseiro papagueando frases”, sobre esses distantes Barbelas, desde Dom Raymundo (que se crê tenha sido “o primeiro grande home da família da Torre”), coevo de Dom Afonso Henriques, seu primo colateral. São 350 páginas de imaginação delirante e de um humor muito fino, capazes de nos explicar limitações ancestrais. Cavaleiros verdadeiros e falsos, honra e prosápia, beatos e hereges, força e decadência, deparamo-nos com de tudo um pouco, até àquele limiar da aurora em que todo esse mundo tinha de regressar ao encanto da imobilidade. O Cavaleiro, Madeleine, Dom Raymundo, Frey Cyro, Dona Mafaldinha, Urraca, Dr. Mirinho… “Os Barbelas, ao aproximar do dia, a vidência da luz, apareciam também humanos na sua imortalidade noctívaga, no reino absoluto impenetrável das suas relações, eles tinha de voltar à morte”. E quem tenha querido passar o umbral proibido que separa a noite do dia, obteve a pena capital do esquecimento. “Desapareceram. A história do seu anonimato está por contar”. Quantos rumores nossos se ouvem na história dessa Torre…
Numa palavra, este debate promete muito, porque Ruben A. teve uma vida plena de reflexão e de ação persistentes sempre em prol da cultura como realidade viva e uma especial atenção ao património cultural, material e imaterial, natureza, paisagem, tecnologias e criação contemporânea. Longe de uma ideia retrospetiva, estamos perante um conceito aberto e dinâmico virado para o futuro, para que se preserve quem somos, donde vimos, para onde vamos.
Ao ouvirmos e vermos, semanalmente, Filipa Leal a falar-nos de livros na RTP-2 em “A Pequena Biblioteca”, estamos perante serviço público de televisão ao melhor nível. Além de usufruirmos de textos belíssimos, contamos igualmente com sugestões de leitura essenciais. E uso a palavra essencial no sentido mais puro, que nos reporta aos tempos primordiais da arte. E António Mega Ferreira fala-nos de autores e de livros capazes de abalar os tiranos e os deuses. Num tempo limitado, de um modo sereno e equilibrado, num cenário atraente, podemos tomar contacto com obras-primas da literatura. Estamos perante o melhor método para enaltecer a leitura. Não há excessos, não há palavras a mais, nem temas em excesso. Temos o quanto bastante para o melhor deleite. Parte-se de um pequeno livro, acessível a qualquer leitor, e com esse pretexto abre-se-nos o acesso à obra, ao autor e à evidência sobre o grande prazer na leitura. Quando encontrámos Thomas Mann em “Morte em Veneza” pudemos em poucos minutos ter a demonstração da genialidade do autor, a evocar Platão no “Fedro” e a abrir caminho ao grande debate sobre as ideias e o mundo da “Montanha Mágica”. Nada foi necessário dizer sobre essa obra magna, mas fica a semente da curiosidade para quem ainda não leu ou conhece mal o autor. E assim convivemos com figuras fascinantes, como “Alexis” de Marguerite Yourcenar, “Lappin e Lapinova” de Virgínia Woolf, “Cândido” de Voltaire, “Ivan Illitch” de Tostoi, “O Estrangeiro” de Albert Camus, “Três Mulheres” de Silvia Plath (que nos permite reencontrar Agustina). Os livros sucedem-se, naturalmente. “Ninguém escreve ao Coronel” de Gabriel Garcia Marquez; “O velho que lia Romances de Amor” de Luís Sepúlveda; “O Estranho Caso de Benjamin Button” de Scott Fitzgerald; “O Tesouro” de Selma Lagerlof; ou “O Fim de Lizzie e outras histórias” de Ana Teresa Pereira, e seguimos fascinados essa cadeia fabulosa.
Em cada nova terça-feira, preparamo-nos para receber um inesperado presente, compreendendo que um livro é sempre uma janela aberta para a vida e para o mundo. O pensamento torna-se emoção e a emoção que torna-se pensamento. E assim percebemos o antigo papel do poeta ou do contador de histórias, de falar para as pessoas. Com surpresa, deparamo-nos com a ambiguidade certeira do orador de Franz Kafka no “Relatório a Uma Academia”. Quem nos fala? Pode um símio interpretar o género humano? A literatura tem essa virtude de revelar os mistérios escondidos que povoam o universo. Umberto Eco ensinou-nos a entendê-lo e James Joyce, em “Os Mortos”, leva-nos a conviver com todos os que povoam a nossa memória, presentes ou ausentes. Jane Austen escreve “Amor e Amizade” com apenas quinze anos, em 1790. Mas tal é perspicácia que G. K. Chesterton a compara a Shakespeare. É uma romancista realista crítica dos românticos, descrita ironicamente como autora de uma “sátira sobre a fábula em que a mulher desmaia”, aludindo aos efeitos visuais de bombásticas declarações de amor. Muito mais do que isso, Laura e Marion dialogam entre si, na diferença das gerações, e apercebemo-nos dos importantes nadas de que nos falam e que constituem a sua vida. Aí está a virtude da leitura, não como evasão mas como demanda de nós mesmos, nas verdadeiras peregrinações interiores que nos trazem à realidade e ao sonho.
Mário Cláudio acaba de publicar “Cruzeiros de Inverno” (D. Quixote) que acompanha os dias finais de três personagens, procurando, de modo impressivo, revelar-nos as razões que acompanharam tais destinos.
Carlos Loureiro Relvas foi o segundo filho de José Relvas, o político republicano que proclamou em 5 de outubro de 1910 o novo regime da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Nasceu na Golegã em janeiro de 1884 e frequentou em Leipzig o Curso Superior de Piano, vindo a tornar-se um intérprete dotado com um futuro promissor. A partir de 1911 acompanharia seu pai na gestão agrícola da Quinta dos Patudos, deixando assim a carreira de pianista profissional. A célebre Casa de Alpiarça está marcada, assim, pela sua fatídica presença, que constitui a base da primeira novela deste livro, uma vez que foi aí que o protagonista pôs termo á sua vida em condições misteriosas. “Sentado ao lado do pai, mas cada qual à sua secretária, Carlos Loureiro Relvas trilhava, com a segurança possível, a correspondente fortuna, o caminho da gestão de propriedades. Despachava além disso as diligências de que o progenitor o incumbia no respeitante à compra, à venda, ou à troca das antigualhas da prestigiosa coleção”. No entanto, isso era muito pouco, numa sucessão de gerações célebres: Carlos, avô e notável fotógrafo, o grande agricultor; o pai, o ícone da República nascente, diplomata celebrado, sombra que desejava marcar o futuro do filho. Sente-se a pressão paternal, algo doentia, sobre o jovem ex-pianista. Teria de arrumar-se e um casamento arranjado haveria de garantir a continuidade da dinastia. No espírito do jovem, porém, ouvem-se os acordes dramáticos da “Gôndola Negra” de Liszt. Todavia, “com o casamento previsto do ex-pianista o compositor ficaria liquidado, cadáver dentro de um piano silencioso, convertido em múmia que proferiria a sua maldição pelo abandono a que fora votada”. A correspondência de Carlos com o capitão Francisco Almeida Moreira revela o drama íntimo e a incompletude. E a catástrofe de 14 de dezembro de 1919, o tiro fatal que lhe atingiu o coração, deixou um nebuloso enigma. “A bala não lhe atravessou a têmpora, a punir o cérebro que pensara demais, mas varou-lhe o coração, a ordenar a fuga a um destino de contínuas palpitações”…
O segundo relato, traz-nos a memória de uma mulher extraordinária, cujo nome está assinalado na frontaria da casa da Calçada dos Caetanos onde viveu e morreu, que alberga um número extraordinário de recordações célebres, como não há mais em Lisboa. A “Menina Sentada” constitui o centro desta obra de Mário Cláudio. Ofélia Marques é o símbolo. Se Carlos Loureiro Relvas não foi indiferente aos “Ballets Russes”, que alguns viram com distância, a jovem artista participou ativamente nesse movimento imparável de renovação da Arte que invadiu a Europa e de que “Orpheu” fez parte integrante. Quando se descobre o conjunto da obra de sua autoria, desde as referências infantis até ao humor acutilante, passando pelos autorretratos, pela feminilidade sensual, além de um especial afeto pelos gatos, apercebemo-nos de uma sensibilidade única. Foi pioneira na frequência da Universidade e a sua relação com Bernardo Marques constitui uma referência no segundo modernismo. Na vizinhança de Fernanda de Castro e de António Ferro, aí existiu o “Soviete dos Caetanos”, como ficou conhecido esse ponto de irradiação cultural. No local de tantas alegrias e cumplicidades, ocorreria a morte trágica da menina artista, cujas ilustrações povoavam o “Panorama” e as revistas femininas, como a “Eva”, mas também as publicações infantis, como o “Abecezinho”. Chamada à pressa numa manhã habitual, a amiga subiu a escada sobressaltada e compreendeu o drama sem o entender: “Alguns dos gatos que a finada estremecia, e a que devotava cuidados patentemente maternais, enroscavam-se à volta da senhora imóvel (…) Fernanda de Castro tomou sentido do frasco desarrolhado, e do copo com um fundo de líquido, na mesinha-de-cabeceira e apropriou-se da droga com um rápido gesto, de quase cleptómana…” O médico legista escreveria na certidão de óbito, motivo da morte: ingestão de excesso de barbitúricos. Quando usufruímos dos desenhos gentis de Ofélia e Bernardo Marques não adivinhamos esse final pungente. Contudo, desde que o casal se separara, já Fernanda de Castro notava naquele segundo andar um clima de luto. Morta a artista, seguimos o relato do romancista de uma tentativa de reunir o seu espólio. E adivinha-se a própria existência de Ofélia. “A pintora divide-se assim entre as amigas do piso de baixo, frequentando-lhes as reuniões com fidelidade que roça a tristeza, e o grupo dos companheiros de Bernardo Marques, movendo-se num gregarismo menos difuso, e mais saudável. Proíbe-se de lhe relatar as surpreendentes extravagâncias, e as delícias imprevistas, dos encontros do andar inferior”. Aquele gineceu constituído por cultoras das letras e artes era um lugar de culto da poesia… Ofélia não se recompôs da separação de Bernardo, havia mil recordações e o vazio da maternidade. O tempo era inexorável. Um dia acreditou vislumbrar a mulher com quem Bernardo se casara. Todavia, “a outra não reparou, e de volta a casa, recomposta já, Ofélia subiu devagar os degraus, entreouvindo a recitação das estrofes, e o tinido das chávenas, nos aposentos da poetisa. Uma das gatas parira entretanto, e a pintora ajoelhou, a dispensar à bichana os cuidados, e a agradecer a Deus a preciosa dádiva”. Na noite fatal, numa manhã gelada de Dezembro, deixou duas cartas, uma para a irmã, recomendando-lhe os gatos, e a outra para o Bernardo de outros tempos: “Neste momento quero viver vinte anos atrás, se a imaginação me não atraiçoar”.
Hécate é a divindade grega dos mistérios e do submundo. Os cães são seus fieis servidores. A terceira novela está envolta de incerteza. Um velho Ministro, de existência real, está preso de um amor impossível, de alguém irremediavelmente condenado por uma doença fatal. O destino marca-o definitivamente. Apesar de ter sido influente, com um lugar indiscutível na História, com os louros de abrir o país ao mundo, vê-se no exílio perseguido pelos fantasmas de um labéu infamante e de um destino cruel. “Derrubou-o então a notícia da morte da noiva eterna, ocorrida na assética arrecadação de corpos para que alguém a despachara”. Isso condenou-o definitivamente à ausência de um sentido. E não há forças que permitam reerguer-se. Um quadro de Chagall fixa a atenção do antigo Ministro, “Les Amoureux de la Tour Eiffel”, que inspirará o seu ato final. Lançado no vazio, “saudoso do anjo impossível, bate no pavimento como demónio que jamais ganhará o Paraíso”.
“Diário da Ucrânia – Ali está o Taras Shevchenko com um Tiro na Cabeça” de Ana França (Tinta da China, 2023) é um relato impressionante e apaixonante do início da invasão russa, que infelizmente continua. Como terminará?
Conhecemos a Ucrânia e a sua história. Nesta “Vida dos Livros” recordámos a biografia de Taras Shevchenko (1814-1861), símbolo da Ucrânia Independente, poeta, pintor, desenhador, artista e humanista – fundador da Literatura moderna ucraniana. Esse texto data de 2019, na sequência da Revolução da Dignidade, que teve início nas violentas manifestações de protesto conhecidas como Euromaidan contra o Presidente Viktor Yanukovych, que deram lugar à deposição deste. Este diário permite-nos revisitar a saga deste povo, cuja independência resulta de acontecimentos marcantes que devem ser lembrados. Raquel Vaz-Pinto no Prefácio dá-nos as razões para lembrarmos os acontecimentos recentes e para concluir que a narrativa oficial russa de Putin é errónea e baseia-se na tentativa de adulteração da História. Ana França relatou para o Expresso a invasão da Ucrânia de 2022. Nos primeiros contactos que tive com a Ucrânia não encontrei uma tão evidente consciência nacional como agora. Havia os russófilos e os europeístas, consoante sobretudo estivessem na zona oriental ou na zona do centro-oeste. Mas a invasão russa de 2022 teve uma consequência mobilizadora, pois os ucranianos viram o seu lar invadido e a sua liberdade e autonomia postas em causa.
Com uma longa história, Kiev ou Kyiv, capital da Ucrânia, é uma das cidades mais antigas e com maior riqueza histórica da Europa Oriental, tendo passado por diversas fases de notoriedade e de decadência. Ucrânia significa, por isso, fronteira. A urbe foi fundada pelo menos no século V da nossa era, como um entreposto comercial, tendo ganho progressivamente importância, a ponto de se tornar o centro da civilização eslava oriental, até passar a ser a capital política e cultural entre os séculos X e XII. Importa lembrar que a Igreja Ortodoxa Russa se afirmou com especial intensidade no século IX em Kiev, lugar onde, segundo a tradição, Santo André teria profetizado a criação de uma grande e influente cidade cristã. A idade de ouro ucraniana correspondeu, assim, aos anos 800 a 1100. Tratou-se do reinado de Vladimir, o Grande, que levou o Estado eslavo no sentido do cristianismo bizantino. Daí que o nascimento da Terceira Roma tenha tido as suas raízes em Kiev, ainda que, com a queda de Constantinopla (1453), Moscovo se tenha afirmado como sucessora de Roma, em virtude de Kiev estar numa fase de subalternização. De facto, Kiev foi completamente destruída pelos mongóis em 1240, tendo então perdido grande parte de sua influência. Tornou-se então uma capital de província de relevância limitada na periferia dos territórios controlados por vizinhos mais poderosos: o Grão-Ducado da Lituânia, a Polónia e a Rússia. Em meados do século XVII o quase Estado cossaco em Zaporíjia foi formado por habitantes do Dniepre e por rutenos fugidos do domínio polaco. E assim os cossacos tornaram-se uma força opositora útil contra os turcos otomanos e os tártaros da Crimeia. Nas partilhas da Polónia do final do século XVIII, entre a Prússia, Áustria e Rússia, o território ucraniano foi dividido entre o Imperio Austríaco (a província da Galícia) e o Império Russo (parte oriental). Entre 1853 e 1856 teve lugar a Guerra da Crimeia que envolveu o Império Russo contra a aliança composta pelo Império Otomano, França, Reino Unido e Reino da Sardenha. Finda a guerra o Czar Alexandre II reconheceu-se derrotado, aceitando um conjunto de limitações estratégicas no Mar Negro, que viria a recuperar.
A cidade apenas voltou a prosperar com os primeiros sinais da revolução industrial russa no final do século XIX. Após o período turbulento que se seguiu à Revolução Russa de 1917, Kiev passou a ser uma cidade importante da República da Soviética da Ucrânia e, a partir de 1934, sua capital. Durante a Segunda Grande Guerra, Kiev voltou a sofrer danos pesados, mas recuperou no pós-guerra, continuando a ser a terceira maior cidade da Federação Russa. Em 1932-33 teve lugar a grande fome de Holodomor, com cerca de 10 milhões de ucranianos mortos, como penalização imposta pelo regime soviético contra a resistência popular. Em 24 de outubro de 1945, a Ucrânia foi aceite como membro das Nações Unidas com a Belarus, conseguindo assim o então bloco soviético três votos formais. Com o colapso da União Soviética e a independência real da Ucrânia em 1991, Kiev manteve-se como capital do país, recuperando importância. No território ucraniano tinha tido lugar o trágico acidente nuclear de Chernobil em abril de 1986 com um número incerto de vítimas. Em 2004 teria lugar a Revolução Laranja de orientação democrática que trouxe ao poder Viktor Yushchenko e Yulia Tymoshenko. O confronto com a Rússia a propósito da escassez do fornecimento de gás em 2006, abriria nova crise que culminaria com a eleição do pró-russo Viktor Yanukovych como Presidente (2010). Face à recusa deste em assumir uma orientação favorável a uma aproximação à União Europeia, abriu-se uma forte contestação popular, é o Euromaidan (novembro de 2013) que culminaria com a destituição de Yanukovych pelo parlamento, após os tumultos sangrentos. Em março de 2014, a Rússia anexa a Crimeia. Em maio foi eleito Petro Poroshenko, que viria a assinar os acordos de Minsk (2014-15) que marcaram o fim temporário da Guerra em Donbas contra as forças separatistas pró-russas em Donetsk e Luhansk. Poroshenko não foi reeleito em 2019, perante a vitória esmagadora de Volodymir Zelensky.
Apesar de diversas tentativas ucranianas no sentido de evitar o agravamento do conflito, Putin anunciou a 24 de fevereiro de 2022 uma operação militar especial no Donbas. Misseis russos atingiram vários alvos militares na Ucrânia e Zelensky declarou a lei marcial. “Sabíamos que a Rússia podia tentar atacar e conquistar mais território, mas estamos perante uma tentativa de anexação, pura e dura”. Há assim uma operação de conquista, que passa por derrubar o poder legítimo em Kiev. O Presidente Zelensky sobrevive a três tentativas de assassinato: duas perpetradas pelo Grupo Wagner e uma pelo Kadyrovtsy. Putin esperava uma ação rápida com rendição do governo ucraniano e mesmo os serviços secretos norte-americanos previam uma ação relâmpago de 96 horas… Pelo contrário, Zelensky resiste. “Porque realmente há momentos que mudam um povo inteiro, que oferecem uma luz comum a todos, e para nós esse momento chegou, ninguém sai da linha” – diz um dos ucranianos retratado no livro. Aqui encontramos uma guerra relatada a quente. Cada um dos locais da cidade torna-se quimérico. O Mosteiro das Cúpulas Douradas de S. Miguel lembra mil anos de vida e em dezembro de 2013 Ivan Sydor coordenou o bater dos pêndulos da uma às cinco da manhã sem parar. Desde a invasão dos mongóis que os sinos não dobravam durante tanto tempo. Quase 800 anos depois, 130 pessoas morreram, incluindo polícias, nestas mesmas ruas. “Não há outra capital no mundo onde se tenha morrido pelo desejo de pertencer à União Europeia, que me lembre”. Algures Ana França pode dizer: “Ali está o Taras Shevchenko com um tiro na cabeça. Pode ter sido fogo cruzado, até fogo amigo, mas o busto de Taras Shevchenko, um poeta tão importante que até se mudou o nome de uma rua nova-iorquina, em 1978, no bairro dos ucranianos, em sua honra, tem um tiro do lado esquerdo da testa, de quem olha de frente para a estátua, na Praça Central de Borodyanka”… Este livro é um antídoto indispensável ao “lodaçal de propaganda” que por aí anda…
“Muito para Além do Mar – Uma Nova História dos Descobrimentos Portugueses” de José Manuel Garcia (Presença, 2025) constitui oportunidade para compreender a gesta dos Descobrimentos a partir da realidade histórica e não de uma perspetiva idealizada ou de uma mera projeção dos acontecimentos na contemporaneidade.
ESTA PALAVRA DESCOBRIMENTOS Antes do mais, importa tornar claro que a palavra Descobrimentos é utilizada pelos portugueses desde 1486, com o sentido de revelar e permitir o melhor conhecimento do mundo. Não se trata de fazer tábua rasa dos conhecimentos históricos de muitos séculos e de muitas culturas. Trata-se de assumir a perspetiva científica em termos de partilha de uma humanidade que toma consciência das responsabilidades comuns no tocante ao saber. Quando pensamos em cientistas como Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro estamos a considerar uma nova perspetiva de estudo e compreensão do que existe. Recorde-se que o Atlântico era desconhecido dos europeus, que sabiam mais da Índico e da Ásia do que daquilo que lhes estava mais próximo. Sobre o conhecimento, Camões disse melhor que ninguém “Não meças o passado com o presente” (Elegia, I). A História humana é sempre uma realidade complexa com claros e escuros, por isso torna-se essencial realizar um estudo rigoroso, capaz de abranger a complexidade, não abstraindo os passos positivos que são dados e que não podem esconder as análises de contexto, de enquadramento e as mentalidades.
A historiografia permite-nos, no fundo, entender as condicionantes diversas com que contamos, sincrónicas e diacrónicas. Ora, as orientações que os portugueses recebem quando vão para a Ásia são no sentido de estabelecer relações pacíficas com os indianos e com as outras populações asiáticas. A população muçulmana constitui uma exceção, em virtude de serem fortemente competitivos, dedicando-se ao comércio do Índico, em vantagem sobre os hindus, em virtude da existência para estes de castas, que dificultavam a organização do transporte marítimo. Se Afonso de Albuquerque nos é apresentado como terrível pelo épico, tal deve-se aos interesses divergentes dos portugueses com os muçulmanos, que correspondem às conquistas de Goa ou de Malaca e à evolução no Golfo Pérsico.
RAZÕES RELIGIOSAS E ECONÓMICAS Há aspetos religiosos e económicos que prevalecem. O estabelecimento da feitoria de Calecute por Pedro Álvares Cabral, a influência portuguesa em Cochim, bem como a inexistência de resultados prévios da missão diplomática decidida por D. João II com Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, tudo isso obriga ao estudo das diferentes condicionantes que determinam a evolução dos acontecimentos. As motivações das viagens são múltiplas e originalmente positivas. Antes do mais, há a curiosidade de conhecer novas realidades, mas as razões económicas tornam-se marcantes. A queda do Império Romano do Oriente, a conquista de Constantinopla pelos turcos, limitando as relações com o Levante e a Ásia tornam-se decisivos. Recorde-se que em 1453, ainda vivia o Infante D. Henrique, que morre sete anos depois. O fator religioso pesa indiscutivelmente. A cristianização do mundo tem importância. Mas a maior consequência é o vislumbre, pela primeira vez, de um mercado global. Daí falar Toynbee da era gâmica a partir de 1498. Assim, foram os descobrimentos “que constituíram a revolução que marcou a passagem da medievalidade para a modernidade”. Mas é a motivação económica que prevalece. Lembramo-nos da afirmação à chegada à Índia: “vimos à procura de especiarias e de cristãos”. Desde muito cedo, a comunidade de S. Tomé tinha-se estabelecido no sul do subcontinente indiano. A Rota do Cabo da Boa Esperança (a partir de Lisboa) permitiu a realização do comércio diretamente com a população indiana, chinesa e japonesa sem a intermediação das caravanas.
ALÉM DO CABO BOJADOR Depois de dobrado o Cabo Bojador, com o Infante D. Henrique rumando a sul, as navegações ganham condições de continuidade e financiamento através do ouro, da malagueta, sucedâneo da pimenta, dos escravos e do marfim. A partir das razões indicadas por Gomes Eanes de Zurara, desenvolve-se o que será designado como Plano da Índia de D. João II e D. Manuel. Foi D. Manuel o primeiro soberano à escala global. Lisboa tornou-se o primeiro grande centro de comércio mundial, tinha um poder à escala global – do Brasil até à China, à Indonésia, passando pela Índia e por África, Contudo a população portuguesa na Península Ibérica era apenas de um milhão e duzentos mil habitantes. A obra de José Manuel Garcia está organizadas em três partes – o espaço do Atlântico, o espaço do Índico e o espaço do Pacífico. O autor revisita os feitos emblemáticos dos portugueses desde o tempos do Infante D. Henrique até à chegada ao Japão, passando por grandes momentos como o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, a chegada ao Brasil e a discussão das consequências dos Descobrimentos, nos planos nacional e global. Procura-se, deste modo, partir de fontes históricas credíveis e de provas consistentes para corrigir mitos e interpretações erróneas, evidenciando o significado universal da ação dos portugueses, designadamente na ligação entre povos e culturas no sentido do respeito e salvaguarda da dimensão universal da dignidade da pessoa humana. «Nos séculos XV e XVI, os portugueses, ao descobrirem o essencial da forma do planeta, criaram e estimularam uma rede mundial de rotas que passaram a ligar inúmeras regiões que até então não comunicavam entre si. Foram eles quem permitiu a realização de intercâmbios que marcaram a construção da modernidade, com todas a implicações inerentes a tal situação. Os Descobrimentos levaram à génese da economia moderna, a qual passa pela criação do mercado mundial”. Como lemos em Zurara, “a ideia era ultrapassar os limites do sabido e arriscar a revelação completa do mundo, sendo que o mais difícil foi começar, pois de seguida foi continuar empenhadamente e com esforço a arriscar ir sempre mais longe”. É importante ouvirmos Garcia de Orta dizer: Digo que se sabe mais em um dia agora pelos portugueses, do que se sabia em cem anos pelos romanos”. E no mesmo sentido, foi Pedro Nunes quem disse: “Não há dúvida que as navegações deste reino de cem anos a esta parte: são as maiores: mais maravilhosas: de mais altas e mais discretas conjeturas: que as de nenhuma outra gente do mundo”.
Com grande cópia de informações novas, o autor, historiador com provas dada na Academia, dá-nos um panorama global que nos permite melhor perceber que a propósito dos Descobrimentos poderemos encontrar.
Assinalamos hoje o centenário de Isabel da Nóbrega, referência marcante da literatura portuguesa contemporânea.
Isabel da Nóbrega evidenciava-se pelo olhar penetrante que tudo captava, que tudo dominava, como se pudesse ler no interior das coisas e das pessoas. Quando ao lado de Maurício de Oliveira e de Mário Neves participou na fundação de “A Capital” em 1968 trouxe consigo uma já longa experiência literária de Os Anjos e os Homens (1952); O Filho Pródigo ou o Amor Difícil (teatro) (1954), peça representada no Teatro Nacional D. Maria II e sobretudo o romance Viver com os Outros (1964); prémio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores. Óscar Lopes saudara com entusiasmo o romance de Isabel da Nóbrega, afirmando que revelava “um equilíbrio estético entre nós invulgar. A narrativa sugere um grande, um inesgotável conhecimento dos casos e das coisas vividas, textos religiosos e literários, terminologias científicas, problemas de casuística familiar, conhecimentos colhidos em campos heterogéneos de convivência ou de informação que os jornais não registam, colhidos em viagens, leituras e arte, uma fina perceção de motivações, sobretudo femininas. Eis uma classificação exemplificativa do senso da realidade que o livro mobiliza. Até as frequentes referências a escritores, artistas e outras personalidades portuguesas vivas contribuem para a sua densa aura de verosimilhança, de sincera inserção social”. Tudo isto era novo e representava uma lufada de ar fresco no panorama nacional.
Conheci Isabel da Nóbrega como uma verdadeira tecedeira da língua portuguesa e da vida cultural, sedenta de vitalidade e ar puro. Ela própria afirmava: “todas somos tecedeiras. O tear é-nos entregue à partida (…), a trama da nossa vida – o desenho, o ponto e o bordado esses são connosco”. Compreendeu deste modo o que Jorge de Sena pensava: “O intelectual é quem em nome da inteligência e da cultura resiste. Mas não esqueçamos que muitos outros resistem sem serem intelectuais”. A resistência e a sobrevivência (de que falaria Nuno Júdice) na vida do comum dos mortais eram a sua matéria-prima. E assim escolheu o campo de batalha, para um combate singular e autónomo, em nome da libertação da literatura e de todos, onde a mulher tinha o necessário lugar. Para Isabel, a resistência era uma atitude natural. Quem a conheceu não poderia ser indiferente a essa sua garra, a essa sua determinação.
Desde muito cedo, encontramo-la em ação. Trabalhou na rádio, assinou milhares de crónicas, porque desse modo ela fazia da vida do dia-a-dia a matéria quotidiana. Assim, escreveu nos jornais: “A Capital”, “Diário de Notícias”, “Diário de Lisboa”, “Jornal do Fundão”, “Vida Mundial”, “O Jornal”. Consciente da importância da televisão, criou na RTP “O Prazer de Ler” e “Largo do Pelourinho”, em nome do prazer da leitura. Logo aos 17 anos lançou as bases duma família, mas escolheu como meio de intervenção um combate emancipador. Gostava de citar Aragon, e podemos dizer que esse foi o seu lema – “Mon orgueil est d’avoir aimé! Rien d’autre”. Teve sempre uma especial atenção ao universo feminino, com caráter de urgência, com sentido pioneiro e profético. E ouvimo-la a recordar as primeiras lutadoras desse combate, Elina Guimarães ou Cristina Cunha. E sem hesitações perguntava “E nós em que ano vivemos?” Com essa pergunta punha na cidadã e no cidadão comuns a reflexão sobre o atraso em que vivíamos, nos costumes, nas leis, no reconhecimento essencial da dignidade pessoal. E insistia; não se prega a paciência, nem a resignação, mas o estudo, o trabalho, o desenvolvimento de todas as capacidade, incluindo a da lucidez. Ao olharmos as fotografias de Isabel é a luz que sentimos no seu olhar, na sua força. Quando a vemos ao lado de Sophia de Mello Breyner, de Menez ou de Ruben A. sentimos a extraordinária presença de uma luminosidade criadora. “Assustas-me Aninhas! Ao observares assim as pessoas com esse teu olhar grave e redondo, de mocho, pobre humanidade que somos nós, deixas-nos esmagados, não?” – lemos em Viver com os Outros.
Augusto Abelaira fala de Solo para Gravador (1979) como uma viagem e um convite para não sermos espectadores distantes, para sentirmos as pessoas por dentro. Ver o íntimo de cada um nós, eis a preocupação permanente de quem considerava a literatura um poderoso fator de descoberta da liberdade. Em toda a sua vida levou os leitores e as leitoras a aproximarem-se com simpatia dos livros (que tanto amava). Tudo isso era sereno e natural. O correio dos leitores foi um domínio que cultivou e que lhe interessou especialmente – como aconteceu também com Clarice Lispector. A leitura das suas respostas é extraordinária – procurando, como grande pedagoga, mesmo os leitores mais distantes e resistentes. A cada passo procurava a compreensão dos outros com argumentos de inteligência. “Reparem (confessava), nós mulheres temos uma luta de sobrevivência que custa o dobro da dos homens. O nosso estatuto de seres entendidos (ou consentidos), na sua totalidade, é conquistado dia-a-dia, século a século, palmo a palmo”.
Isabel da Nóbrega era uma leitora insaciável. Não esqueço o seu combate pelo Campeonato da Língua Portuguesa (que gostosamente partilhei), inspirado em Bernard Pivot. A qualidade da língua, não como ofício de gramáticos, mas como dever de cidadãos, foi sempre uma prioridade da sua ação – como salientou Margarida Calafate Ribeiro. Leu Proust, amou Proust e Tolstoi, mas (como disse num dos seus contos) compreendeu bem Angelina, que não tinha lido “À la Recherche”, para quem o mais importante era o tempo em que os lilases a transportavam ao jardim da sua infância. Era a lembrança da velha casa de Campo de Ourique, infelizmente desaparecida, que nos vem à memória, como recorda Ana Maria Magalhães. E eram as Angelinas deste mundo que ocupavam o espírito de Isabel, mais do que as pessoas que tinham bibliotecas, importava as que começavam a amar simplesmente os livros. Na sua escrita há assim uma atenção permanente à mulher e à criança. No Jardim da Estrela quando passava pela pequena escola Freubel, o primeiro jardim de infância, lembrava o direito elementar a brincar, com o difícil caminho de reconhecimento que exigia, pois pressupunha a garantia à vida digna. Afinal, Isabel da Nóbrega continua entre nós, uma vez que viveu e pensou na emancipação de todos pela cultura, pelas artes, pelos livros, pela consciência dos outros e pela força poderosa da beleza e dos lilases.
219. HÁ SEMPRE UM LIVRO QUE NOS PODE TORNAR LEITORES
Entre a enciclopédia de livros que há, em que a literatura não é serva de nada, é difícil perceber porque há poucos leitores.
Acresce que a leitura não é um mero prazer estético, é um privilégio que nos leva a toda a parte, é o centro do infinito, é a nossa imaginação ocupando-nos completamente a cabeça, é a nossa memória, a nossa projeção no que lemos e o modifica em sucessivas metamorfoses transformadoras.
É uma maneira de conseguirmos estar sós, um reino nosso, em que somos reis, donos e senhores, ouvindo-nos a nós mesmos e em silêncio, interagindo com o mundo e os outros, bailando com o cérebro, sabendo que o que lemos tem milhões de leituras e pensamentos diferentes se o dermos a ler a outros milhões de pessoas.
Ao ler há liberdade de pensar, de idealização, de invenção, um espaço libertário, vivendo hipóteses de leitura que interessem a todos e a cada um, evitando o medo, sem machado que ampute a raiz ao pensamento.
Há livros transformadores, que deixamos de ler porque não há vontade para continuar, em que saltamos as páginas, que devoramos ou não conseguimos parar ficando-nos, no fim, uma alegria gratificante que quereremos voltar a sentir.
E há os grupos de leitores, que se reúnem voluntariamente, em que se convencionou uma determinada leitura sobre um livro e tudo o que daí possa resultar em termos de convívio, tertúlias, em associação livre de interpretação, ideias e conteúdo, num diálogo e debate que se quer construtivo, enriquecedor, de partilha e plural.
Há as edições de autor, pagas por conta própria, em que existe o prazer de deixar um testemunho em livro, para os familiares, amigos e quem o queira.
Mesmo assim, há quem não leia. Será responsabilidade dos livros?
Culpabilizá-los parece sem sentido, dada a sua variedade e quantidade para todos os gostos (por maioria de razão numa democracia pluralista), não sendo justificação, só por si, o preço, pois são cada vez mais as casas de gente com património e rendimentos elevados onde não se vislumbra um livro, ou os há como ornamento, mais por uma questão de pressão social/profissional e menos de preferências literárias, havendo lojas que negoceiam falsas lombadas para preencher estantes desprovidas.
Apurar o gosto é o caminho certo para encontrar o livro adequado para ler, descobrindo o que se gosta e não se gosta, naquele tempo e circunstâncias, excluindo liminarmente o livro que se tem como errado, sem esquecer que há muitos livros, mudando as nossas preferências de leitura consoante a idade e outras contingências.
Há quem prefira o livro clássico ao digital ou eletrónico, pelo seu prazer estético e, sobretudo, tátil, felicitando-me pelo engano dos que declararam a sua morte às mãos do e-book.
Há os que navegaram de vez para a net, os que recuaram e fazem ambas as coisas, oxalá haja sempre um livro (ou livros) que nos faça leitores, entre tantas e tantas escolhas.
“Bibliotecando em Tomar” é uma iniciativa única que realizou a sua 15ª edição. É o resultado da vontade de um município e de uma comunidade que põem de pé todos os anos uma grande homenagem à leitura. Lembramo-nos do diálogo épico entre José-Augusto França e Eduardo Lourenço, que ficou na nossa memória como momento grande de uma cultura viva. Este ano, Mia Couto foi a personalidade eleita. Foi, de novo, um momento excecional, graças à presença de um dos grandes escritores contemporâneos da língua portuguesa. Estudantes, professores, famílias, público em geral, todos usufruíram da generosidade e do talento do escritor moçambicano, que se dispôs a dialogar com quantos tornam o “Bibliotecando” a ilustração viva do prazer do livro e da leitura. Mia Couto tem entusiasmo pelas coisas novas, praticando o bom método de “rasgar horizontes”. O uso sábio das palavras permite-nos compreender melhor a substância da vida. “Velho, não / Entardecido, talvez / Amigo, sim. / Me tornei antigo / porque a vida, / tantas vezes se demorou. / E eu a esperei como um rio aguarda a cheia”. De facto, que é o andar do tempo senão a compreensão de que só entendemos as raízes, se percebemos o que a elas nos liga? E é esta relação com as raízes que Mia Couto nos transmite. Ao ver as palavras do avesso podemos perceber melhor o que elas representam. “Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho” Ah, como é difícil a relação com o sonho. Terra Sonâmbula (1992) tem como pano de fundo os tempos da guerra em Moçambique, da qual se traça o quadro de um realismo forte e brutal. Dentro deste cenário de pesadelo movimentam-se personagens de uma profunda humanidade, por vezes com uma dimensão mágica e mítica, todos vagueando pela terra destroçada, entre o desespero mais pungente e uma esperança que se recusa a morrer. Mia Couto tratou do tema da Terra Sonâmbula de um modo admirável e a crítica literária considera esta como uma das melhores obras literárias nos últimos anos escritas em língua portuguesa e um dos melhores livros africanos do século XX.
Já em O Mapeador de Ausências (2020), há um poeta “que vem à procura da sua infância” e que “vai começar a perceber que aquilo que é presente para ele no sentido temporal, nasce da ausência de alguém”. Vivemos e depois deixamos o nosso espaço e tempo. Essa ausência mais não representa do que uma comunidade de vida. E Mia recorda o pai, o jornalista e poeta Fernando Leite Couto, entre os ausentes que permanecem vivos. Estamos perante um “escritor da terra”, que escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a natureza humana na relação íntima e umbilical com a terra. As palavras inventadas, “estórias abensonhadas”, como que adivinham a secreta natureza do que referem, como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada no seu lugar. As imagens evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve a ambiência terna e pacífica dos sonhos. O encontro com João Guimarães Rosa foi, assim, uma aproximação natural e necessária, porque, lembrando Riobaldo e Diadorim, “sertão é dentro da gente”, e “Deus existe mesmo quando não há e o demónio não precisa de existir para haver”.
Bernardim Ribeiro é um dos mistérios da nossa literatura. Pouco se sabe sobre ele, muito se especula. “Menina e Moça” encerra em si uma revelação sobre o fundo complexo e múltiplo, lírico e trágico, da nossa cultura.
Bernardim Ribeiro foi amigo de Francisco Sá de Miranda, mas o certo é que “Menina e Moça ou a novela Saudades” (publicado em Itália, em Ferrara, no ano de 1554) é um verdadeiro símbolo da nossa tradição lírica, bucólica e romanesca… Mas, mais do que isso, revela-nos o carácter complexo da nossa cultura. Assim começa esse texto fundamental: «Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha». Para Pina Martins, a história de “Menina e Moça” é apenas uma novela sentimental. «Há que lê-la e não subentende-la. Há que interpretá-la à luz das categorias do seu tempo e não do nosso…». O romance principia com o monólogo de uma jovem que não conhecemos nem de nome nem de condição, num processo que parece seguir a antiga tradição lírica e lembra as cantigas de amigo. A jovem protagonista queixa-se de uma dolorosa separação e de mudanças que a atiraram para o desterro de um monte solitário, onde está há dois anos. E vai-nos contar o que ocorreu dias antes, estando mergulhada numa solidão sem medida. Viu então a manhã formosa por entre os prados verdejantes do vale, sentando-se debaixo de um freixo, à beira-rio, e então numa ramada vem poisar um rouxinol. A ave canta um triste trinado e cai morta na corrente larga da água, que a arrasta para longe. Aproxima-se então uma mulher idosa e então com ela a jovem inicia uma conversa em torno das desventuras de cada uma. Esta contou-lhe então a maldição daquele lugar, em que dois amigos acabaram mortos à traição, deixando sós as suas amadas. Entra aqui a tradição conhecida dos relatos de amor cavalheiresco, na linha de Amadis de Gaula. Assim se conta a história do cavaleiro Lamentor, chegado de longes terras, acompanhado de duas irmãs, Belisa, dele grávida, e Aónia. Belisa dá à luz Arima, mas morre quando dá à luz. Num momento inesperado e trágico, Lamentor mata um cavaleiro que se dedicava a guardar uma ponte e chega um desconhecido, Binmarder, que se apaixona por Aónia e pela sua extraordinária beleza. Temos, assim, três núcleos do enredo: Lamentor e Belisa, que correspondem ao início do relato, Binmarder e Aónia; e, por fim, Avalor e Arima… Os dois amigos que marcam a tragédia são Binmarder e Avalor e entre os dois há uma geração de permeio, que vai de Aónia a sua sobrinha Arima, órfã de Belisa. Cabe dizer que Aónia e Arima encontram destinos semelhantes; amam e são amadas por homens comprometidos anteriormente com Aquelísia e a Senhora Deserdada. Binmarder e Avalor estão condenados a viver o sofrimento da separação. Aquelísia ama Binmarder que ama Aónia, que por sua vez é obrigada a casar com um vizinho. A Senhora Deserdada ama Avalor que ama Arima. Encontramos, assim, um mundo de amores e desencontros – num romance que termina de modo inesperado com uma dama ultrajada nos seus desejos amorosos a pedir ajuda a Avalor… O amor e o sofrimento estão, assim, sempre presentes. E é a saudade ou soydade que faz Lamentor ficar para sempre ligado à memória de Belisa, como Avalor à esperança de encontrar Arima. A saudade, como lembrança e desejo, surge como expressão do sofrimento e da esperança, alimentados pela separação e pela ânsia de regresso, numa perspetiva religiosa e amorosa, que Pina Martins considera cristã, e que Helder Macedo prefere interpretar à luz da tradição judaica. Bernardim é, assim, um símbolo da tradição do amor saudoso que vem dos trovadores…Com uma ou a outra das influências, a verdade é que Bernardim Ribeiro é, simultaneamente, marcado pela fundo cristão e pela marca judaica. Estamos perante uma cultura diversificada e complexa, que se torna reveladora de uma capacidade para ir ao encontro de realidades diferentes.