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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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SONETOS DE AMOR MORDIDO

O principe perfeito 1.jpg

«O Príncipe Perfeito» de Oliveira Martins

 

INTERVALO - III
 

O meu soneto A Antero de Quental  vai à condição bipolar do pensador e poeta açoriano, que se suicidou em 1891, num banco talvez voltado para o mar. Mas dialoga sobretudo com um soneto do  mesmo Antero, composto em Maio de 1885, e considerado o último do último período dos Sonetos Completos (1880-84), prefaciados e publicados por Oliveira Martins em 1886. Foi o mesmo, aliás, dedicado à Exma. Sr.ª Dona Vitória de Oliveira Martins. Em carta de Vila do Conde, onde passava tempos mais aliviados, quando o enviou a um amigo, escrevia Antero: O meu pessimismo tem-se desvanecido com esta vida contemplativa no meio da natureza... Reza assim esse soneto:

 

          Na mão de Deus, na sua mão direita,

          descansou a final meu coração.

          Do palácio encantado da ilusão

          desci a passo e passo a escada estreita.

 

          Como as flores mortais, com que se enfeita

          a ignorância infantil, despojo vão,

          depus do Ideal e da Paixão

          a forma transitória e imperfeita.

 

          Como criança, em lôbrega jornada,

          que a mãe leva no colo agasalhada

          e atravessa, sorrindo vagamente,

 

          selvas, mares, areias do deserto...

          Dorme o teu sono, coração liberto,

          dorme na mão de Deus eternamente!

 

António Sérgio, na edição dos Sonetos, que organiza em 1956 (Couto Martins, Lisboa), comenta, numa das suas anotações: O sentimento pessimista vai sempre unido, como é natural, ao anelo de nos evadirmos para além do que existe, de nos foragirmos das condições que nos causam mágoa. Esse além-da-realidade para que se anseia abalar, aparece-nos nos Sonetos… Também no meu soneto "De Pedro a Inês", que compus concomitantemente ao meu "A Antero de Quental", surge o impulso dessa ânsia de evasão, que pode ir até à morte. Só que, nesse caso de Pedro e Inês, o rei já regressa do além da morte dela, da morte que, por vontade dele, infligirá outras mortes que a memorizem. Procura, precisamente, o contrário do esquecimento, quer eternizar a dor. Lendo este passo de uma carta de Antero a António de Azevedo Castelo Branco, perceberemos melhor como a inflição e a aflição da morte podem também ser o seu contrário: Por último, termino pedindo-te que não tomes estas palavras senão pelo que elas valem, isto é, a expressão de um desejo, nunca uma manifestação de força. Eu sou o pó da terra. A ti e aos meus amigos peço me desculpem os ares de forte e altivo combatente que me tenho mais de uma vez dado - em palavras. Mas eu era sincero. Tenho caído hoje na conta dos meus enganos. Ponhamos as coisas no seu lugar. Tenho sido vítima da ilusão do doente que toma pela saúde o grande desejo que tem dela. Numa só coisa mostro energia: é em não querer nem poder abdicar desse desejo. Mas isto é apenas o instinto de conservação, revelando-se no mundo moral. Há loucura, e há loucuras e loucuras. E há o que, nem nós, nem qualquer louco saberá muito bem o que é: a consciência, quiçá muito ténue, da própria loucura. Posso dar em louco porque não alcanço e não sou capaz - e, simplesmente quedar-me comigo só, no meu desespero. Ou pretender que não desesperei, mas outros, sim, me desesperaram. Estarão neste grupo, sempre, aqueles que mais esperaram, com mais ou menos razão, talvez, com mais carência do que nós, sempre, ser amados e reconhecidos. No primeiro grupo, ficam os que sentem o amor como "contentamento descontente"... Todos nós, afinal, nos perseguimos. E, todavia, só numa nova dimensão do amor nos encontraríamos. O meu terceiro soneto desta série intercalar, debruça-se sobre Dona Leonor de Lencastre, rainha e regente de Portugal, bisneta, sobrinha, prima, mulher e irmã de reis... E tia, ainda, de Isabel a Católica. E depois? Dom João II era seu primo direito e marido mas, por razões políticas, mandou matar e matou (dizem) os duques de Bragança e Viseu, irmãos dela. Mas aceitou como seu sucessor D. Manuel, o irmão mais novo, em vez de D. Jorge, seu filho bastardo, que a rainha acolhera, mas nunca mais quis ver, desde a morte de D. Afonso, filho único dela e Dom João II, até ao reconhecimento de D. Manuel I. A queda de cavalo que o matou, deu-se, diz-se, por ele ter anuído à insistência do pai em que fossem galopar, sem ter ele podido escolher corcel seguro... Por outro prisma ainda, olhamos a relação amor-paixão-morte. Na nossa estranheza de outros tempos, outros modos...  E, neste fim de tarde tão cinzenta, invernosa e fria, peço a Deus que me estenda a mão, e me deixe nela repousar meu coração. E que, ao sol da manhã que vier, ele se abra, como flor colorida, a cheirar bem.


Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Rainha D. Leonor.JPG
 Quadro de José Malhoa, 1926/Museu José Malhoa, Caldas da Rainha

 

12. DE LEONOR A D. JOÃO II 

 

          Mataste, João, dois dos meus irmãos,

          e, por loucura tua, o nosso herdeiro,

          o nosso único laço verdadeiro,

          onde unidos nos dávamos as mãos...

 

          Morto Afonso, morreu meu sentimento

          de ti, primo e marido. Só ficaste

          o rei que odiei quando mataste

          a família do meu contentamento...

 

          Não vou à cabeceira da agonia,

          misteriosa, em que se afoga o dia

          do teu sol solitário e forte e rei...

 

          Ficarei por Alcácer, fortaleza

          que, longe de Alvor, é a minha defesa

          de saber se jamais amor te dei...                   

 

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Antero de Quental.JPG
Antero de Quental, por Columbano Bordalo Pinheiro

 

11. A ANTERO DE QUENTAL

 

          Lembraste ao sol poente que levasse

          no ocaso desse dia as tuas mágoas

          p´ra as afogar no silêncio das águas,

          onde ninguém, nem tu, as encontrasse...

 

          Esqueceste que o sol gira e reaparece

          do outro lado da vida cá da gente,

          de volta nos trazendo mais pungente

          a dor que nem de noite se adormece...

 

          Vinda do mar profundo te acordou

          essa dor que, magoando, te levou

          grande grito de morte ao coração

 

          que na mão de Deus já descansaras,

          quando, feito criança, lhe confiaras

          em noite de breu, a tua solidão...       

 

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Mosteiro de Alcobaça.JPG
Mosteiro de Alcobaça

 

10. DE PEDRO A INÊS

 

Jurei-te amor fogoso, feroz, louco,    

e só a Deus quis ter por testemunha,

pois mesmo ao próprio Deus, Inês, se impunha

o grito do teu nome, cavo e rouco...

 

Do profundo de mim, onde fervia

a raiva do desejo e da paixão,

subiu ao Céu a minha rouquidão...

De ti, só celebrei minha agonia,

 

e p´ra ambos nós reclamei vingança,

tornando tumular a nossa espr´ança,

como se noutras mortes saciasse

 

a fúria da saudade do teu rosto,

ou o gosto de ti feito desgosto,

de mim também, até que me afogasse...   

 

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Espinoza.JPG
Espinoza

 

INTERVALO - II

 

O soneto "com Mestre Eckhart", e o outro, aqui simultaneamente publicado, onde eu livremente traduzia versículos que a esposa canta no "Livro do Amor" (o Cântico dos Cânticos), poderão estranhar-se, num tempo em que as pessoas - mesmo as que consideramos muito religiosas - se arredaram de caminhos da mística pura ou, de modo mais chão, do gosto e da prática da meditação desprendida. Sendo, eu mesmo, homem de poucas devoções, mantenho o hábito de entregar alguns períodos dos meus dias a algo que posso chamar oração e é, afinal, uma intuitiva contemplação mística, poética (quanto mais poético, mais verdadeiro, disse Novalis), intelectual, do mistério de mim e de tudo. No que não sei explicar, creio encontrar Deus. Não o persigo, não quero nem mando agarrá-lo, não o construo, nem o formulo. Apenas, despojado e indefeso, o espero. Porque Deus nasce do nada, e sem Deus nem o nada seria. Também não o espero sozinho: na minha oração, estão, mais sentidamente, os que me são mais próximos ou queridos, mas, igualmente sempre, todos os seres que eu conheço, desconheço ou imagino. Como numa comunhão, em que os homens todos se reconhecem na semelhança de Deus. Cito seguidamente alguns passos de sermões de Mestre Eckhart, para começar a contar uma reunião que tive com ele - que é do séc. XIII-XIV - em que também participaram o místico persa Ansari - que era do sec. XI, e de Herat, no actual Afeganistão - e Espinoza - judeu português de Amsterdam, no séc. XVI. Escutei-os e, apesar de muitas diferenças e divergências entre eles, achei-lhes um ar de família... A pequena faísca do intelecto é a chave da alma, ... algo como uma faísca de natureza divina, uma luz divina, um raio e uma imagem impressa de natureza divina (sermão 41). ... É claro que entendemos o calor sem o fogo, e o brilho sem o sol; mas Deus não se pode entender sem a alma, nem a alma sem Deus, de tal modo são um (sermão 59). ... A imagem não é por ela mesma, nem é para ela mesma ; ela é simplesmente pelo cuja imagem é, e para ele plenamente tudo o que ela é. A quem é estranho àquilo de que ela é imagem, ela não pertence e não é para ele (sermão 16). ... Disse por vezes que só uma potência no espírito é livre. Tanto disse que era uma muralha do espírito, como disse luz do espírito ou ainda pequena faísca. Mas agora digo : não é isto nem aquilo; todavia á algo mais acima disto ou daquilo do que o céu acima da terra. Por isso lhe dou agora um nome mais nobre, nome que nunca dei, e ele ri-se da nobreza e da maneira, e está acima disso tudo. Está despojado de todos os nomes e livre de todas as formas, despojado e livre como Deus é despojado e livre em Si mesmo. É tão plenamente um e simples como Deus é um e simples, de modo que de maneira nenhuma lhe podemos deitar o olhar (sermão 2). Sabemos que Ansari não leu nem conheceu Eckhart ou Espinoza - viveu uns séculos antes de qualquer deles - nem nenhum destes o terá conhecido, posto que não consta que houvesse traduções dos seus escritos ou ditados antes do sec. XX, isto é, antes de frei Sérgio de Beaurecueil. Se Espinoza  soube quem era ou o que disse Eckhart... tampouco sei.  Mas penso que não ; ou, se lhe calhou a talho de foice, tê-lo-á ceifado sem saber se era trigo ou joio. Mas o místico persa-afegão tem esta intuição: Não podemos encontrar Deus senão por Ele, e é, para isso, preciso que a dualidade desapareça. Então, é Ele que se encontra em nós. E um homem fora do comum, teólogo do cristianismo e do islão, doutorado também pela Sorbonne, Serge de Laugier de Beaurecueil, que se esqueceu de ser conde de linhagem antiga, para se fazer frade dominicano e partilhar o pão e o sal de cada dia com os muçulmanos afegãos - sobretudo os desvalidos de várias etnias e confissões islâmicas, que, junto dele, em Cabul, se encontravam como irmãos na humanidade - comenta assim o acima dito, que traduziu: À parte a Unificação, todas as moradas e todos os estados são marcados pela deficiência. Não se trata assim de uma imperfeição possível na realização deles, mas de uma deficiência intrínseca: as moradas e estados místicos assentam, na verdade, sobre uma ilusão, a da consistência e da eficiência do homem, no seu ser e no seu agir, que o põe na dualidade diante de Deus. Ora, Deus é único, primeiro e último, e disso os privilegiados, a pouco e pouco, tomarão consciência : nada são e Deus é tudo, só Ele é e só Ele age. «Falar-se de cara a cara é ser ímpio. Infeliz! Deverás desaparecer, e não chegar!» exclamava Ansari em As Gerações dos Sufis. O comum das gentes prodigaliza esforços para "chegar" a Deus, é caminho necessário. Os privilegiados, iluminados e conduzidos por Deus, compreendem que devem "desaparecer". Então, no termo do itinerário, apenas restará, para eles e neles, a face do seu Senhor: «O Senhor é tudo». Para nós, que andamos dispersos pelos ruídos variáveis da circunstância, a intuição da unidade, ou pulsão mística, mais do que difícil de compreender, pode ser alheia. Sobretudo para "praticantes" de religiões que inundam os horizontes espirituais de muitas imagens, devoções, práticas, promessas, aparições... Muitas vezes me pergunto se, afinal, aqueles que se sentem perdidos no isolamento para que os empurrou o barulho do mundo não estarão mais desejosos de escutar o silêncio necessário de Deus... Para Ansari, místico muçulmano, a última morada no caminho da unificação é a da absorção da criatura em Deus. Assim o explica frei Sérgio: A Unicidade de Deus não poderia ser proclamada senão por Ele mesmo e se, como graça derradeira, ele derramar um fulgor dessa proclamação divina no íntimo do coração dos seus eleitos, estes só podem acolhê-lo em silêncio. Poder-se-á ainda falar de acolhimento? E cita: « O Sol está ali e o raio aqui. Entre Sol e raio, quem jamais viu uma separação? O Sufi está inteirinho ali, e o seu vestígio aqui... O vestígio não está separado do Todo : aqui só Tu és ; e ali só Ele é.» Ansari era homem de contemplação, meditação e intuição, embirrava com teólogos e filósofos, com raciocínios lógicos. Teria, penso eu, essa confiança íntima na certeza da pontaria cega dos que confiam no seu íntimo, como os archeiros japoneses, que cerram os olhos para não verem o alvo, e assim o sentem dentro de si... Mas que diria ele de certas afirmações de Espinoza? O conceito de natureza como natura naturans e natura naturata surge no pensamento cristão ocidental (inclusive em São Tomás de Aquino e Mestre Eckhart) por via da tradução latina de textos de Averroes. Para Bento Espinoza - digo eu, simplificando - ele reflecte dois olhares sobre a Substância única, o Ser: diz-se naturans para significar Deus enquanto causa livre, e diz-se naturata para referir tudo o que decorre da necessidade da natureza de Deus. Não se trata de cindir o Ser uno, em cuja totalidade global a natura naturans é a acção de Deus, e a natura naturata os efeitos ou reflexos dela. Para o filósofo judeu português, excomungado da sinagoga, por exemplo, a alma humana é uma parte do entendimento infinito de Deus. Consequentemente, quando dizemos que a alma humana percebe isto ou aquilo, apenas estamos a dizer que isso é Deus, não enquanto é infinito, mas enquanto se explica pela natureza da alma humana, ou constitui a essência da alma humana, tem esta ou aquela ideia... (Ética, II, 11). No seu Spinoza, biografia publicada em 2007 (Tallandier, Paris), Jean Préposiet resume assim o sentimento de profunda alegria espiritual que alimenta a 5ª secção da Ética, e que tanto surpreende o autor francês: «Natureza naturante» e «Natureza naturada», formando uma totalidade orgânica e intelectual, implicam-se mutuamente, mais não sendo do que duas faces de uma só e mesma realidade. É esse laço «substancial» que nos leva a compreender (por «experiência», diz Espinoza!) que há em nós um germe de eternidade. Na medida em que, pela Razão, ele percebe as coisas sub specie aeternitatis, o homem adquire um conhecimento de Deus e de si mesmo, e sabe que ele é em Deus e por Deus se concebeComo na tradição neoplatónica, trata-se de reencontrar em nós algo mais profundo do que nós. A isso chama Espinoza o Amor Intelectual de Deus. Muito se tem repetido que este será o século da religião. Penso que sim, não no sentido da reafirmação de fórmulas dogmáticas de crenças sectárias, menos ainda - apesar das manifestações odiosas a que traumaticamente vamos assistindo - de proselitismos violentos. A religião é o encontro dos homens com a verdade universal que os habita, como quando Turandot proclama que o único nome que reconheceu é Amor. 

 

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Mestre Eckhart.JPG


9. COM MESTRE ECKHART
 

 

          Inventaste a morte ao nascer do dia:

          só à luz faz sentido a escuridão

          e só batendo morre o coração.

          Não viesse o sol e a noite acabaria...

 

          Pois, sem Ti, o nada nada seria:                                 

          não há ausência possível sem presença

          e não há luz senão a Luz imensa:         

          diz Paulo, ao ver-Te Luz, que nada via...

 

          Diz Agostinho então que, vendo nada,

          Te contemplará a alma, despojada

          do desejo de tudo conhecer...

 

          Pois só cegos às coisas acessórias

          E libertos de todas as memórias,

          íntimo em nós Te poderemos ver...

         

O sermão 71º de Mestre Eckhart, místico dominicano alemão do sec. XIII/XIV, comenta o passo do livro dos Actos dos Apóstolos que, na versão latina da Vulgata, reza assim: Surrexit autem Saulus de terra apertisque oculis nihil videbat... Paulo levantou-se do chão e, de olhos abertos, não viu nada. Diz o pregador germânico: Este enigma tem quatro sentidos. Um desses sentidos é de que, quando se levantou do chão, de olhos abertos, e nada viu, esse nada era Deus; pois que, quando viu Deus, lhe chama um nada. Outro sentido: quando se levantou, não viu nada senão Deus. Terceiro: em todas as coisas não viu nada senão Deus. Quarto: quando  viu Deus, viu todas as coisas como um nada. Mais adiante, recorrerá ao Cântico dos Cânticos: Prestem atenção! É um segredo que a alma diz no Livro do amor: «Toda a noite procurei no meu leito aquele que a minha alma ama e não o encontrei»... E acrescenta: Ela diz «Procurei-o toda a noite» Não há noite que não tenha uma luz; mas ela está encoberta. O sol brilha na noite, mas está encoberto. Brilha durante o dia e encobre todas as outras luzes. Tudo o que procuramos nas criaturas, tudo isso é noite... ...Tudo o que não é a prima luz, tudo isso é escuridão e noite.

Volto ao Cântico dos Cânticos, traduzo 3, 1-4, muito livremente:

         

          Na noite do meu leito procurei

          o muito amado do meu coração.

          Procurei-o, mas foi a busca em vão...

          Ora me ergo, e a Cidade correrei,

 

          pelas ruas e praças chamarei

          por quem não vejo e o meu coração ama,

          pois não o achei na minha própria cama!...

          Aos guardas da cidade perguntei:

 

          Homens de armas, vistes o meu amigo,

          aquele que quero guardar comigo?

          Mas por mim nenhum deles o agarrou

 

          Só meu coração em mim o encontrou,

          secreta luz da morada esquecida,

          onde por minha mãe fui concebida!      

         

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

camões.jpg
Luís de Camões

 

7. DE DINAMENE A LUÍS DE CAMÕES 

 

          Gritaste-me o nome pelo vento e ao mar

          p´ra que chegasse ao céu tua agonia,

          a voz da saudade que eu não ouvia,

          envolta em morte, sem poder gritar...

 

          Aqui não se diz, não se exclama, nem

          memória dessa vida se consente:

          na morte o que mais dói é ser silente,

          e  segredo é tudo o que a morte tem.

 

          Nem o pensar em mágoas me adormece

          maginação que já não posso ter...

          Nem lembrança, pois já não sei esquecer,

 

          o coração me aquece ou arrefece...

          Gritaste-me "Não fujas, Dina...! , e eu ouvi-te,

          talvez dissesses ...mene ! , mas perdi-te...

 

8. AINDA DE DINAMENE A LUÍS 

 

          Há entre nós uma lonjura sem caminho

          possível de, no tempo, percorrer:

          como quem diz que já não pode ser

          me apago em tua mente, de mansinho...

 

          No mar revolto, perdida me vias,

          e em desespero de sonho me chamavas

          do clamor das ondas, frias e bravas,

          em que, na noite escura, me perdias...

 

          E quando a louca  esp´rança se esvaiu,

          sentiste que o silêncio não mentiu

          e era fantasma só minha presença...

 

          Nesse terreno assento onde ficaste,

          já morreu a lembrança que apagaste,

          como saudade que perdeu pertença...

 

Foi pelo meu 14º aniversário, em Janeiro de 19..., que, na pilha de livros com que familiares e amigos  -  falando várias línguas e saboreando gostos diversos - todos os anos respondiam ao meu gosto da leitura, que recebi a fresquíssima  edição, pela Livraria Clássica Editora, de sonetos de Luís de Camões, escolhidos e anotados pelo Dr. João de Almeida Lucas, Vice-Reitor do Liceu D. João de Castro. A colectânea incluía, com os nº 38, 39, 40, 41, 42 e 43, seis sonetos atribuídos ao "Ciclo de Dinamene", a escrava chinesa, amante do Poeta, à qual ele dera esse homérico nome, que dizia poder e ânimo, desaparecida num naufrágio, junto à foz do rio Mekong, da nau em que ambos seguiam para Goa... Um dos sonetos do ciclo ficou celebérrimo e começa assim: Alma minha gentil que te partiste... É o nº 42, e roubei-lhe o verso memória desta vida se consente, pondo-lhe dessa em lugar desta... Ao soneto ali com nº 40 roubei o verso como quem diz que já não pode ser... Com todos eles fui conversando, inspirado sobretudo pela figurinha ténue e imensa de uma escrava chinesa que imaginei amando e experimentando  um etéreo que não conhece, e cujo retrato camoniano contemplo no soneto nº38, que acaba assim:

         

          um escolhido ousar; uma brandura;

          um medo sem ter culpa; um ar sereno;

          um longo e obediente sofrimento:

 

          Esta foi a celeste fermosura

          da minha Circe, e o mágico veneno

          que pôde transformar meu pensamento.      

 

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Sissi.JPG
Sissi (Foto E. Rabending, 1867).

 

6. DE FRANCISCO JOSÉ A SISSI 

 

          Feri-te sem querer e não pretendo,

          sequer, de ti obter qualquer perdão:

          se ofensa houve, foi sem intenção;

          ou te sentes magoada não o sendo...

 

          Não sei se sentes ou te queres só,

          só sei querer-te bem e não consigo

          descanso nem perdão para comigo,

          no aperto rijo e fixo deste nó...

 

          Em gesto repetido a minha mão

          te entrega a flor primeira que te dei

          no baile em que foi teu meu coração...

 

          Amei-te por seres tão livre e viva

         -  eu que era só imperador e rei -

          e assim te guardei, mesmo fugitiva...

         

Imaginei este soneto em resposta a um poema que Sissi escreveu em Ischl - estância de veraneio da família imperial austríaca - em 1866, treze anos depois do baile em que o fado ditou o destino da que era então uma menina de dezasseis anos. O acontecimento é longamente relatado em carta, ao seu ministro, do embaixador de Napoleão III junto da corte de Viena de Áustria, de que aqui traduzo um passo:

Para a noite da chegada do Imperador, a arquiduquesa Sofia (mãe de Francisco José) reuniu algumas pessoas da sociedade de Ischl, para oferecer a seu filho a distracção de um baile improvisado. As princesas da Baviera foram naturalmente convidadas. O Imperador mostrou pressa em acorrer ao serão, e convidou a mais nova (Sissi) para a contradança que termina todos os bailes vienenses e na qual é costume o cavalheiro oferecer um raminho a outro par do que o seu. O Imperador deu a flor à sua prima. Esta derrogação aos usos espantou todos os assistentes. Mal nos tínhamos retirado quando o Imperador declarou a sua mãe que era Isabel a sua escolha final, que a desposaria ou não se casaria. Acrescentou que queria que a jovem princesa fosse consultada, mas não influenciada. E que esperaria vinte e quatro horas pela resposta. Resumo a complexidade da situação decorrente - e o prenúncio de duas trágicas peregrinações interiores - registando três reacções circunstantes ao sim, por escrito, que Isabel da Baviera confiou a sua futura sogra. Às oito da manhã de 19 de Agosto de 1853, a arquiduquesa Sofia recebe o bilhete de Sissi e entrega-o ao filho...e este corre para a residência da futura sogra dele e abraça efusivamente a sua prometida; antes, ao receber o pedido, a futura imperatriz teria exclamado "como poderia não amar esse homem? mas que ideia pensar em mim, que sou jovem e insignificante! farei tudo o que puder para felicidade dele, mas serei capaz?" ; Sofia ia repetindo a quem quisesse ouvi-la que "ninguém manda passear um Imperador de Áustria!". Isabel nunca aceitaria de bom grado a interferência de uma sogra autoritária na sua vida familiar, e terá sentido a obrigação da consumação do matrimónio como uma violação legal e politicamente necessária. Tentará, com Francisco José, escapar à primeira e recuperar a segunda por um amor vivido a dois. Interessar-se-á por causas sociais e políticas, procurará na natureza, na equitação, em viagens que configuram longas separações, esquecer o que a magoa. Terá muitos admiradores e apaixonados, não cometerá adultério algum. Representava os homens como burros, mas guardou sempre - como burro primeiro e lindo do seu coração  -  o imperador Francisco José.

Traduzo livremente o poema de Sissi que acima referi:

 

          Deixa-me só, deixa-me sozinha,

          nada me será doravante melhor:

          É impossível tudo ter,

          e eu não me contento de restos.

          Talvez te amasse demais

          e não soubesse esconder-to.

          Tornaste-me mortalmente triste,

          mas não te lo levo a mal,

          sempre me acolheste e mimaste...

          Tinhas um fim em vista

          e quando lá chegaste,

          deixaste-me partir:

          já te não servia.

          Ponho-me firmemente a caminho.

          Voltarei um dia?

          Talvez então te diga

          as mágoas amargas que me deste...

Os poemas de Sissi foram publicados pela Osterreichische Akademie der Wissenschaften, e os seus direitos de autor revertem a favor do Alto Comissariado para os Refugiados, à frente do qual está o português António Guterres.

 

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Isabel de Portugal por Ticiano..JPG
Isabel de Portugal por Ticiano

INTERVALO


Galla Placídia Augusta tem, na história da gente real, uma grandeza tão mítica como a de Dido, rainha de Cartago, que Eneias desprezou para ir fundar Roma... Ou talvez maior, precisamente por ter sido real, no tempo e no modo, o seu sonho, o seu esforço, a sua coragem e devoção. Filha de Teodósio Magno, será  por essa linhagem imperial - que sempre estimou acima de tratações, sucessos e desaires - filha e irmã, mulher de imperadores... e afinal mãe, só por essa linha de fidelidade, do último imperador do Império Romano do Ocidente, Valentiniano III, morto assassinado em 455. Digo-o último, sim, porque todos os outros que se foram registando depois, até Rómulo Augusto, destituído em 476, data "oficial" do fim de tal Império, foram surgindo de manobras, crimes e intrigas, sucessivas tentativas vãs de  aguentar uma aparência de estado, já sem soberana linhagem nem a Virtus romana... Galla tinha duas forças: a do carácter teimoso e resoluto, e a da sua profunda fé e devoção cristã. Esta tê-la-á ajudado a aceitar casar-se com o visigodo Ataulfo e o romano Constâncio, e ainda a tratar e contratar com rivalidades romanas e ameaças bárbaras. A pertinácia, o faro político, ou sentido de Estado e permanência, lhe terão ditado o raciocínio e as decisões. O que, sempre, sempre, mais me tocou nessa história, eivada de intrigas e banalidades políticas, foi a possivelmente única vitória final de Galla Augusta: ela já não assistiu ao fim atroz do imperador seu filho, e fora antes finalmente inumada em Roma (junto a seu pai, é certo e significativo) , em vez de repousar no mausoléu que para si mandara edificar (e ainda hoje existe) em Ravena (na altura capital do Império).  Mas, ainda que a título póstumo, viu a vitória do dogma da hipóstase das duas naturezas de Cristo, divina e humana, reunidas numa só pessoa, defendido pelo seu amigo, o papa Leão Magno ( que salvou Roma de Átila), no concílio de Calcedónia, em 451, um ano após a sua morte. Refiro este episódio da história teológica, porque Galla Augusta viveu com a obsessão da compatibilidade do divino e do humano, e vendo na pessoa de Jesus Cristo o sinal de Deus para o devir do Império Romano, a união da cidade dos homens com a cidade de Deus...  Foi essa também a obsessão de Jerónimo Savonarola. Nenhum deles, com mil anos de distância, teria, penso eu, visões teocráticas da sociedade política. Tinham, isso sim, uma entranhada fidelidade, muito íntima, ao sentido da legitimidade. Para Galla Placídia, Roma deveria acolher, tratar, federar-se até, com os bárbaros que a cercavam e penetravam, desde e para que mantivesse a unidade que a linhagem imperial garantia, e que a fé nova do império, o cristianismo que o papa representava, necessariamente consagrava. Para frei Jerónimo, não havia outra linhagem que não a vontade democrática (que afrontava e tinha expulso de Florença a tirania dos Medici, e questionava os usos, abusos e costumes do papa Borgia, Alexandro VI),  cabendo aos profetas lembrar ao povo a justiça que Deus de todos nós espera e reclama.  Entre a princesa romano-bizantina de sangue e o frade mendicante nascido numa família de Ferrara, da qual pouco ou nada se sabe, tudo será diferença : a época e a circunstância, a categoria social, a inspiração das ideias e desejos, a motivação dos actos. E, todavia, passa por eles o mesmo sopro. Que lhes segredou que, se não houver fidelidade e abertura, rectidão e justiça, muito se poderá perder e talvez tudo, ou quase, esteja errado. A princesa morreu sem violência, só previu o que iria acontecer ao seu império, ao seu sonho e dinastia. O dominicano foi finalmente enforcado e queimado em praça pública. E, para que o povo não guardasse relíquias do profeta, lançaram ao rio Arno as suas cinzas. Menos de um século depois, Lutero proclamava, em revolta e oposição a Roma e a muitos príncipes, a reforma protestante que, profeticamente, Savonarola, pressentira crescendo no coração dos povos, mas ignorada por quem, como dever primeiro, deveria escutar os outros... Há quem teime em servir Quem (e cá me lembro do Quem do "Ano da morte de Ricardo Reis") não possa morrer, como disse Sophia na sua "Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal" : Nunca mais a tua face será pura, limpa e viva, nem o teu andar se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida, nunca mais servirei senhor que possa morrer... Cito de cor  -  da memória do coração  -  ocorreu-me esse poema lindíssimo ao pensar em Carlos V. Creio que este imperador, mais ainda do que o Duque de Gandia, que o servia, e à imperatriz, poderia ter assim sentido a morte de Isabel de Portugal. Quiçá dois desastres íntimos  - daqueles que põem à prova qualquer fé  -  terão abalado Carlos de Habsburgo, e levá-lo a abdicar, para se retirar no mosteiro dos jerónimos de Yuste: a morte da mulher tão admirada e profundamente amada, e a incapacidade de consolidar uma aliança política e de fé, numa Europa que as desavenças entre católicos e protestantes dividiam, e o cerco otomano ameaçava... É certo que derrotou e fez prisioneiro Francisco I de França - o tal que, contra ele, tentou alianças com forças da Reforma e com os muçulmanos - mas o sonho que da cidade de Deus tinha era mais largo e magnânimo, para que todos vivessem em paz uns com os outros e com o Senhor de todos. Era hispano-austríaco, amorosamente casado com uma portuguesa, mas nascera na Flandres, percebia as razões dos movimentos da Reforma e as contra-razões de Roma... Talvez tenha começado a morrer à morte de Isabel, quando se sentiu tão só com o seu cansaço. Os sonetos nº. 3, 4 e 5, de amor mordido, são convívios com estas personagens. 

 

Camilo Martins de Oliveira

SONETOS DE AMOR MORDIDO

Carlos V.JPG
Carlos V de Habsburgo

 

5. A CARLOS V, EM YUSTE ABDICADO 

 

      Erguendo as mãos, Te levo este embaraço:

      na coroa, império, amor, não tive sorte,

      e já nem sei qual foi a pior morte,

      se a de Isabel, ou só o meu cansaço...

 

      Não desci, nem deixei o trono só: 

      vim apagar mágoas fundas e dores,

      sonhos secretos e seus estertores

      no tempo, que de nós nunca tem dó...

 

      Eterno, acreditei, pudesse ser

      de todos nós, cristãos, o nosso reino,

      e sobre a divisão prevalecer

 

      a redentora cruz, esse sinal,

      tão forte como outro que em mim tenho:

      morta, vive Isabel de Portugal!

 

Camilo Martins de Oliveira